sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Por uma sabedoria


Hoje, são muitos os que hesitam em decidir-se, porque querem tomar a decisão absolutamente certa. Mas não existe nenhuma decisão de todo correcta e justa. Há apenas decisões prudentes e sábias, que nos abrem um horizonte. Em qualquer altura, sobrevêm pensamentos sobre se eu deveria ter tomado outra decisão. Mas, em seguida, torna-se claro para mim que não posso viver tudo de uma vez
Se escolho um caminho, tenho de lamentar conscientemente o outro em desfavor do qual me decidi. Lamentar implica a dor de eu não poder seguir esse caminho. Se pelo lamento descer ao fundo da minha alma, poderei descobrir o meu verdadeiro si-mesmo. E, então, relativiza-se a minha decisão. 
O importante não é o modo como me decido, mas, antes, que me decida e, depois, mantenha a minha decisão. Só consigo isso se disser adeus à ilusão de ter escolhido o que é absolutamente certo
Interrogas-me sobre o que aconselho aos outros, aos que têm dificuldade de reconciliar-se com as consequências da sua acção. As dúvidas relativas à minha decisão confrontam-me sempre com a questão: que pretendo eu verdadeiramente com a minha vida? O que é que importa? Interessará ter sempre um bom sentimento ou realizar todos os meus desejos? Há, sem dúvida, situações em que a decisão anterior leva a um beco sem saída. Então, às vezes, é necessária também uma rutura. Mas em todas as ruturas requer-se ainda uma continuidade na minha vida, uma linha vermelha. Se o sonho concreto da minha vida (...) se rompeu, então deveria inquirir e sondar a essência do meu sonho vital. Qual era o objectivo desse sonho da minha vida? Poderá ele realizar-se de outra forma? A essência do sonho da minha vida não pode romper-se.
Cada crise em que uma decisão nos afunda poderia separar em nós o superficial da genuína profundidade, o autêntico do acessório, o verdadeiro da aparência. E em cada crise devo reconciliar-me com o facto de que a nossa vida é limitada, de que não podemos viver todas as possibilidades, mas nos decidimos por um caminho. Cada caminho leva também a um estreitamento. Mas se eu aguentar a estreiteza, essa passagem apertada pode tornar-se uma porta que abre para a vastidão.

Anselm Grun, em Diz lá, tio Willi, uma conversa com Andrea J.Larson, Paulinas, 2017, pp.23-24

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