domingo, 6 de agosto de 2017

Óbvio, ou nem por isso



"Ele [Trump] vai actuar muito na área da economia e ele aí tem algumas vantagens, porque ele é um empresário. E nós temos que saber que a maior parte dos políticos não tem noção nenhuma de como funciona a economia real (...) Ele sabe o que é o mundo real. Ele vai baixar os impostos. É óbvio que quando ele baixar os impostos a economia vai crescer! Uma economia que está cheia de impostos é uma economia que as pessoas têm medo de investir porque vão perder dinheiro, não é? Uma economia onde se pagam poucos impostos, compensa investir. É óbvio que ele percebe como isto funciona!

José Rodrigues dos Santos, há 8 meses, no programa Cinco para a meia noite, na RTP1.

Neste excerto, José Rodrigues dos Santos dá por adquirido que a) baixar os impostos, nos EUA, vai produzir um efeito multiplicador naquela economia; b) que um multimilionário, com palacetes extravagantes e aviões, com uma herança brutal que chegou a desbaratar por completo, com um percurso cheio de negócios mal parados e que arruinaram a vida de muitas pessoas "sabe o que é o mundo real" [seja lá o que for o "mundo real"]; c) que, regra geral, os políticos [Trump não é?] "não sabem como funciona o mundo real"; d) que Trump sabe, e sabe-o "porque é empresário" (vantagem dos empresários sobre os políticos, pelos vistos "classes" [e] estanques]; e) talvez ser empresário dê, necessariamente, um bom ministro da economia (a julgar por esta reflexão); f) Trump vai baixar os impostos, com vantagem para a economia norte-americana, porque, supõe-se ao escutar-se este arrazoado, "uma economia que está cheia de impostos" não permite investimento. Logo, depreende-se que a economia norte-americana poderá inscrever-se nessa condição (pré-reforma fiscal a implementar por Trump); g) haverá uma relação causa-efeito entre descida de impostos e crescimento da economia; h) o entrevistado fala, apenas, em "baixa de impostos", não detalhando tipo de impostos, grupos aos quais se aplicar, etc. (como se tal, portanto, seja indiferente em termos de repercussão na economia). Em todo o caso, nos últimos meses, já durante o mandato do atual Presidente (numa longa tendência que vem da Administração Obama), a economia cresce, sem que os impostos tenham baixado.

Há uns meses que me dei na conta desta entrevista, no youtube, constatei como dela fazem parte uma espécie de vários pontos (cegos) de um determinado imaginário sobre a política e seus actores (uma certa ideia da política e da economia, muito popularizadas por determinados sectores de opinião com uma certa tendência populista, nuns casos, e liberal na economia, noutros), mas repesco-a, este fim de semana, para a confrontar - podia ir buscar-se uma inteira biblioteca, mas fiquemos por aqui - com o artigo do Nobel da Economia Joseph Stiglitz publicado no suplemento de Economia do Expresso (porque nele podemos ver a contestação enfática de enunciados, ou melhor e em realidade, postulados tão perentoriamente acima assumidos). Não para ancorar um argumento de autoridade, não para colocar no mesmo pé, porque não coloco, no debate sobre a Economia, quem tem uma outra área de especialização académica (jornalismo), com quem professa, como área de investigação, o domínio do económico (como se equivalessem), não para procurar, apenas, um arbítrio técnico como se ignorasse que, em qualquer dos agentes, a ideologia existe; não para negar a legitimidade de qualquer das ideologias (que cada um dos agentes professará), mas, justamente, porque, desde logo, do ponto de vista pedagógico me parece muito ilustrativo que as pessoas anotem a diversidade, se dêem na conta de um pensamento que passa por ressoar uma objectividade que manifestamente não possui - "é óbvio..."; como quem diz, "é assim que as coisas são, e quem conhece a economia real sabe que sim" -, e para que cada um possa ajuizar acerca do modo como quem tem responsabilidades no espaço público-mediático nem, sequer, problematiza as suas posições, não as contextualiza num quadro mais amplo de discussão política, não faz nenhum esforço de diálogo crítico das suas convicções com outras diversas, numa palavra, não mostra (não é capaz de mostrar?) o que há (ignorando o demais?). 

Programas como o Cinco para a meia noite, em Portugal, têm como finalidade, muito naturalmente, o entretenimento. Mas, para alguns sectores da população, nomeadamente mais jovens, estou em crer, fazem (ou ajudam a fazer), também, (alguma) opinião (política) e de aí - mas se as declarações fossem produzidas noutro programa o mesmo se aplicava; não diminuo, necessariamente, é a responsabilidade de quem se pronuncia, sobre estas estritas questões políticas - que pudesse esperar-se que quem se debate com os temas maiores da polis se considerasse obrigado a uma outra postura.

Poderá dizer-se que no seu texto, Stiglitz principia por referir-se a baixas de impostos para aqueles que se encontram entre os mais favorecidos. Mas, no seu raciocínio, como se verá, contemplará, inclusive, uma baixa de impostos generalizada (para todos) e as suas conclusões são igualmente de modo a tecer um juízo muito negativo quanto a tais medidas. O seu foco é a reforma fiscal (cortes incisivos de impostos) anunciada por Trump, mas ainda por concretizar e desenhar por completo:

"Isto não funcionará, porque nunca funcionou. Quando o Presidente Ronald Reagan tentou o mesmo, na década de 1980, afirmou que as receitas fiscais cresceriam. Em vez disso, o crescimento abrandou, as receitas fiscais caíram e os trabalhadores sofreram (...) O mais provável será uma redução fiscal generalizada (...) A sordidez de tudo isto será disfarçada pela estafada afirmação de que menores taxas de imposto fomentarão o crescimento. Não existe base teórica ou empírica que confirme isto, especialmente em países como os EUA, onde a maior parte do investimento (em termos marginais) é financiado pelo endividamento e onde os juros são dedutíveis nos impostos. Os rendimentos marginais e os custos marginais são reduzidos de forma proporcional, deixando o investimento em grande parte inalterado. Com efeito, um olhar mais atento, que considere a depreciação acelerada e os efeitos sobre a partilha do risco, mostra que a diminuição da taxa de imposto provavelmente reduza o investimento. Num país com tantos problemas - especialmente, a desigualdade - as reduções fiscais para as empresas ricas não resolverão nenhum deles. Esta é uma lição para todos os países que estejam a contemplar reduções ficais para as empresas"

José Stiglitz, As reduções fiscais para ricos não resolvem nada, Economia, Imobiliário e Emprego, Expresso nº2336, p.39

Que se adira ao achismo é pobre. Que não se perceba, ou não queira perceber que o achismo é achismo pior. Que não se encontre alternativa...Quanto à impreparação de Trump tanta demonstração se fez, e o mandato tem sido tão eloquente, até ao momento, nesse sentido, que nunca percebi bem o que era isso de uma superioridade dele face "aos políticos" e quanto ao seu conhecimento do "mundo real". 

Adenda: nem de propósito, na edição desta semana do programa GPS, Fareed Zakaria recordava que George Bush (pai) qualificou como "vudunomics" (economia vudu) as propostas de Ronald Reagan para fazer crescer a economia, com base num corte drástico de impostos. Em realidade, com Reagan a dívida norte americana triplicou. O mesmo se veria, um forte aumento da dívida, com as política de redução de impostos levada a cabo por George W. Bush (filho), já neste século. E, ao invés, quando Bill Clinton aumentou os impostos, isso não teve nenhum efeito negativo sobre a economia: esta cresceu muito significativamente. Atualmente, segundo os estudos mais independentes a economia, já com as reduções de impostos, crescerá 1,9%. Nos últimos 15 anos, a média foi de 1,8%. Pelo meio, um crescimento enorme de dívida, ou corte forte em funções do Estado. Num dos Estados em que se aplicou esta teoria de baixar impostos para que houvesse crescimento económico, este foi muito inferior à média nacional, tal como o crescimento do emprego, e o Estado foi, mesmo, à falência, sendo que Trump nomearia o responsável para um cargo internacional relacionado com a liberdade religiosa. Para ver aqui, o programa em causa: https://www.rtp.pt/play/p2064/e301414/gps

Sem comentários:

Enviar um comentário