sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Estado de excepção permanente


O mais inteligente dos nazis, o teórico jurídico Carl Schmitt, esclareceu em linguagem clara a essência do modo de governação fascista. A forma de destruir todas as regras, explicou, passava pelo foco na ideia de exceção. Um líder nazi vence os seus adversários na condição de estratega ao engendrar a convicção generalizada de que o momento presente é de carácter excecional, e depois disso logra transformar o estado de exceção num estado de emergência permanente. Os cidadãos passam deste modo a trocar a liberdade real por uma falsa noção de segurança
Quando os políticos da actualidade falam em terrorismo, referem-se, naturalmente, a um perigo que é real. Mas quando procuram treinar-nos para a renúncia da liberdade em nome da segurança, devemos ficar de guarda. Não deve existir uma troca necessária entre as duas. Por vezes, o que acontece é ganharmos uma ao perdermos a outra, ainda que nem sempre. As pessoas que nos querem fazer crer que podemos garantir a nossa segurança à custa da liberdade procuram geralmente negar-nos as duas
É certamente possível abdicar da liberdade sem que tal garanta necessariamente uma maior segurança. A sensação de submissão a uma autoridade poderá ser reconfortante, mas não se trata da mesma coisa que a verdadeira segurança nos proporciona. Do mesmo modo, obter um pouco de liberdade pode provocar alguma desorientação, mas este desconforto momentâneo não é perigoso.

Timothy Snyder, Tirania. Vinte licões, tradução de Frederico Pedreira, Relógio d'Água, 2017, p.85

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