terça-feira, 1 de agosto de 2017

Enigmas


Estamos em plena cultura de imagem. Não é de agora, terá vindo do século da fotografia. Foi uma revolução de consequências infinitas e esta é o prolongamento da outra. Hoje podemos estar uma vida inteira a ver cinema, televisão ou um ecrã e morrer sem ter entrado na vida. Somos mais do que perecíveis, a todo o instante, mas a ideia de que podemos passar a maior parte da nossa vida ao lado de coisas interessantes para visitar, para nos apossarmos, com que nos interrogarmos ou sermos interrogados... Estarmos morbidamente fixados a esta paixão pela imagem devora-nos vivos. (...)

O que me admira mais não é a preocupação constante que temos em saber qual é a figura que fazemos no mundo enquanto portugueses. Todos os países terão à sua maneira essa preocupação. É o excesso dessa paixão. É preciso que não estejamos sempre a viver um Ronaldo colectivo, um “nós somos o melhor do mundo”. (...) 

A ficção portuguesa consiste no quase abismo que separa as capacidades normais de um país para se afirmar entre os seus, primeiro na Europa e depois no mundo. Essa afirmação teve no nosso caso uma singularidade. Fomos os primeiros que largámos da Europa para ir para um sítio mítico, só conhecido através de novelas, como as de Marco Polo. De repente, deslocamo-nos do ocidente europeu e demos a volta a África — demos..., deram eles, os navegadores, porque eu não tenho um pé marítimo propriamente dito — para chegar à Índia. E foi como chegar a outro mundo, descobrir outro planeta, e durante praticamente dois séculos a nossa capital era mais fora de nós do que dentro de nós. E sempre nos habituámos a que essa imagem que adquirimos num lá fora hipermítico fosse tão universal que ninguém podia não saber que nós lá tínhamos chegado. A partir daí começámos a ter uma imagem de nós como país visível quando os outros, maiores, não eram visíveis. Uma visibilidade mítica que nos foi dada a nós, peninsulares, primeiro pela chegada à Índia e depois pela viagem à volta do mundo. Estão-se a celebrar os 500 anos da viagem de [Fernão] Magalhães. Espero que por esta ocasião Espanha e Portugal se reconciliem para sempre na celebração de um feito único que está escrito nas estrelas. Magalhães é o único que tem o seu nome nas constelações. Está a ver a diferença entre Magalhães e as estrelas mais cadentes que neste mundo queriam ter a mesma visibilidade? A história da humanidade e a história da sua paixão por aquilo que a ultrapassa. 

Hoje mudámos de paradigma, a Europa já não é o centro do mundo, mas também não é a periferia. Será sempre um objecto de meditação, de evocação, de nostalgia certamente. Porque uma parte da civilização europeia foi o paradigma de outras civilizações, mesmo de algumas anteriores à Europa. (...) O homem é, por essência, alguém que vive dos sonhos maiores do que ele. (...)

Nós não temos o culto do indivíduo tão característico da modernidade desde que ela se manifesta, a partir do Renascimento. Provavelmente porque, durante séculos, as nossas referências foram fundamentalmente de ordem religiosa, numa religião que era a referência unânime, não só dos comportamentos de ordem ética, moral e transcendente. Isso dava uma espécie de coerência e sentido de participação. O país tinha uma norma. A modernidade trouxe a laicização e a discussão, mas enfim... (...)

O futebol não é só uma paixão portuguesa. É quase universal. Mas o muito interessante não foi a nossa euforia, que era normal, até pela sua pouca probabilidade de se realizar. Mais um milagre a acrescentar aos milagres em que somos experts. O mais estranho foi o inacreditável traumatismo francês. Li com muita atenção, e os jornais franceses pareciam portugueses, ficaram numa depressão extraordinária, escrita. Escrita pelo Le Monde! Havia qualquer coisa de ofensivo nesse espanto dos franceses, quase lamúria. Faziam pena. Tínhamos roubado qualquer coisa que estava previsto que fosse para eles. Isso pode acontecer mesmo nas nações mais habituadas a criticar-se e a ter uma certa distância em relação às suas emoções mais primárias, ou mais fundamentais, o que é quase a mesma coisa. Mas aquelas páginas eram estranhíssimas. A surpresa, uma surpresa ofensiva. Se tivessem perdido com a Alemanha, calavam-se. Era óbvio, mais a mais no futebol, os países europeus jogam uns com os outros, e no fim ganha a Alemanha... Seria normal. Mas também havia ali uma coisa muito interessante, a que mais me surpreendeu e pouco me agradou: é que nós éramos aqueles que estavam na casa dos outros, os portugueses em França. Hoje integrados, mas enfim, os outros, os outros que estão ao serviço, foram para lá para servir, e de repente aquela gente, os criados, vencem a batalha e ganham aos patrões. É uma espécie de guerra de classes ao nível mais comum e rasteiro. Mesmo estas nações, que têm tantas coisas admiradas para cultivar a auto-estima, a certa altura não lhes chega. Estragámos-lhes a festa. Mas as festas são para serem estragadas. Esperava que os comentários fossem mais inteligentes. Ainda bem que é o futebol, os jogos e a arte em geral que dilui a essência trágica do comportamento humano. Senão, estávamos em guerra permanente. O jogo é um exorcismo. Esgota-se — ou devia — na vitória e na derrota, aceites como tais, para que não se estrangulem no fim do jogo.

Fala do futebol e da arte em geral. Põe o futebol no mesmo plano da arte?

Não, não é exactamente a mesma coisa, mas é uma arte. Menor, será, mas tem efeitos de representação do que são os nossos sonhos, as nossas ambições, a nossa imagem de vencedores. Os homens querem ter sempre uma imagem positiva, mas sobretudo vitoriosa, de si mesmos. A Humanidade é guerreira por definição. (...)


Sempre analisou as questões da identidade a partir da literatura e sobretudo da poesia. A melhor maneira de conhecer um povo é a partir da literatura que ele produz?

Sim, a arte em geral. A literatura não tem uma função. É um efeito do que somos de mais misterioso, de mais enigmático e ao mesmo tempo de mais ambicioso. Penso que, de todas as artes, a que revela o que a Humanidade é de mais profundo e absoluto é a música. A literatura é uma música um tom abaixo. Não se explica, não é da ordem do conceito como a filosofia. É natural que os homens reservem à literatura a sua maior atenção. A literatura é o nosso discurso fantasmático, absoluto. Todas as culturas se definem pela relação com o seu próprio imaginário. A encarnação dele é a literatura.  (...)

Referiu, durante a sessão de fotografias, que falta à Europa uma coisa que os Estados Unidos têm: um livro. Enquanto portugueses, temos alguma espécie de livro?

É a única coisa de que não nos queixamos. Houve alguns momentos na história da literatura portuguesa em que Os Lusíadas não tiveram a visibilidade ou o papel que mais tarde vieram a ter, quando o Romantismo os releu e encontrou neles o fundamento da nossa perenidade mais aceitada e real — Garrett, naturalmente. Os Lusíadas nunca foram um livro popular, até porque o estado de alfabetização da nação era relativamente frágil até há quase 50 anos. Mas há uma coisa que este país sabe mesmo com um ambiente pouco letrado: Camões é o poeta nacional. Luís de Camões não é um santo propriamente dito, mas no nosso imaginário, ocupa o lugar de todos os santos.  (...)

Ao longo da sua vida, a ideia da vida enquanto enigma foi crescendo?

É agora maior do que nunca. Tudo me parece mais enigmático do que aquilo que eu pudesse sonhar que fosse. Estamos confrontados com qualquer coisa para a qual não há espécie nenhuma de resposta, ou se há é de uma outra natureza que as pessoas têm pudor de confessar, aquilo que não pode ser dito.

Uma experiência próxima do religioso?

O religioso é onde tudo se desenha, mesmo quando não sabemos. Isso que nos está falando sem nos falar.  (...)

Isso também é ontológico?

É ontológico. Nunca sabemos o que verdadeiramente nos move. Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos.


Eduardo Lourenço, entrevistado por Isabel LucasA Europa já não é o centro do mundo, mas também não é a periferia, Público, 31. 07. 2017, 22-25.

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