segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Balanço das respostas à crise


Em primeiro lugar, não restam dúvidas de que a resposta, altamente eficaz e criativa, dos bancos centrais impediu que a crise se transformasse numa grande depressão. E a política orçamental também ajudou. Mas poderia - e deveria - ter sido feito mais. (...) Por exemplo, os bancos centrais continuaram demasiadamente preocupados com as suas metas de inflação, mesmo com a economia a derreter-se à volta deles. (...) A meu ver, a parte mais fraca da resposta que foi dada foi não se ter aumentado significativamente a despesa em infraestruturas. Virtualmente todos os economistas concordam com isso, mas a resposta foi o silêncio. (...) Os governos estavam preocupados que isso gerasse um aumento dos níveis da dívida pública. Mas isso não os deveria ter impedido de se envolverem em investimentos altamente produtivos. Contudo, eu acho que o verdadeiro obstáculo foi outro, um que todos parecem esquecer (...) A esmagadora maioria dos especialistas em previsões, públicos e privados, achava em 2009 que a economia global recuperaria bruscamente como aconteceu em recessões normais. Era o que diziam o Fundo Monetário Internacional, a Reserva Federal norte-americana, o Banco Central Europeu e os principais especialistas em previsões. Os conselheiros da Casa Branca eram, então, particularmente optimistas. (...) O que eles pensavam estava muito distante das lições da história. As crises financeiras sistémicas e profundas levam a recessões que podem durar uma década até que a economia recupere totalmente. (...) Em suma, se têm más previsões, é difícil definir políticas correctas. (...) Além da timidez da política orçamental, os governos mostraram-se muito relutantes em perdoar a dívida. (...) Talvez tenham aprendido. Mas a natureza humana é dada ao esquecimento. Por exemplo, a regulação bancária é, agora, extremamente forte. Até talvez exagerada. A última coisa que os governos querem é uma nova crise. Ao mesmo tempo, os consumidores e os investidores têm, ainda, a crise muito fresca na sua mente. Mas numa década essas memórias desaparecem, e o terreno estará de novo fértil para que outra crise financeira desponte no Ocidente. Contudo, poderá facilmente demorar outras duas décadas ou mais até que ocorra (...) Penso que veremos uma crise financeira na China muito mais cedo. (...) O crescimento é, em regra, lento entre 8 a 10 anos depois de uma crise financeira sistémica e profunda. Por isso, é cedo de mais para decretar que um crescimento lento é permanente (...) A demografia é, de facto, um problema profundo. Mas a tecnologia marcha em frente. Uma das razões por que o crescimento da produtividade (por trabalhador) tem sido lento é que o investimento global colapsou desde a crise. À medida que o investimento regresse, ele acabará por incorporar tecnologia mais nova e melhor e dará um grande impulso ao crescimento (...) O maior erro foi a Europa e o Fundo Monetário Internacional (FMI) terem resistido a enveredar por respostas heterodoxas à crise da dívida soberana europeia. Por exemplo, terem recusado o perdão ou a mutualização das dívidas da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha. Podiam tê-lo feito de um modo barato. O perdão poderia ter dado a esses países a folga orçamental para lidarem com as suas recessões. (...) Os constrangimentos aos défices orçamentais, impostos pelo Tratado de Maastricht, não fazem sentido em condições de recessão profunda. Deve permitir-se aos países terem défices maiores em períodos de recessão a troco de se comprometerem com orçamentos equilibrados ou mesmo com excedentes quando as suas economias estiverem a crescer acima da tendência (...) Com o envelhecimento das populações, sistemas de bem-estar sobrecarregados, regulamentação excessiva e mercados de trabalho sem flexibilidade, a Europa terá sempre problemas de crescimento de longo prazo, se não se fizerem reformas profundas (...) O que Draghi fez no discurso de Londres [2012] foi dizer aos mercados que o Banco Central Europeu (BCE) iria usar o seu balanço para resgatar a Europa do Sul, mesmo que os governos da zona euro não concordassem em fazê-lo por si próprios (...) O que o BCE fez foi uma efectiva mutualização da dívida pela porta dos fundos, o que pode ter zangado a Alemanha, mas acabou por salvar a situação na zona euro.

Kenneth Rogoff, Professor de Economia em Harvard e autor de artigos e um livro, Desta vez é diferente, que são assinalados como premonitórios relativamente à(s) crise(s) que se seguiu (seguiram), em entrevista ao suplemento de economia, imobiliário e emprego do Expresso, nº2336, 05/08/2017, pp.8-9 (entrevista realizada por Jorge Nascimento Rodrigues).

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