quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O diário

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(...)


(...)

Todo o escritor faz um pouco isso ao escrever diários, está a querer fixar junto do leitor uma imagem de si próprio. A posteridade encarrega-se de desmistificar ou não as coisas. (...) Nunca pensei, mas todo o diário é uma efabulação, uma invenção da nossa própria vida no quotidiano. Essa parte fictícia é muito importante em todo o texto autobiográfico. (...) Não há diário que seja verdadeiramente autêntico ou então eram 500 páginas por dia. Há uma parte lacunar, por pudor, por respeito por nós ou pelo leitor. Há, necessariamente, uma parte de omissão, voluntária ou involuntária. (...) Tinha cadernos onde tomava notas. Posso dizer que quando se tem um diário vive-se em função dele. Vai-se a uma exposição em função do diário, tem-se uma conversa em função do diário. Até se perdem oportunidades para fazer isto e aquilo porque se não interessa ao diário evita-se. Agora já não perco as oportunidades porque acabou o diário. 

(...)



Marcello Duarte Mathias, entrevistado por João Céu Silva, hoje, no DN (na íntegra, aqui: http://www.dn.pt/artes/interior/todas-as-vidas-sao-falhadas-mesmo-aquelas-que-aparentemente-foram-mais-conseguidas-8709940.html) 

Paul Celan


GRÃO-DE-LOBO

Põe o ferrolho à porta: há
rosas na casa.
Há sete rosas na casa.

o candelabro de sete braços na casa.
O nosso
filho
sabe isso e dorme.

(Lá longe, em Michailowka, na
Ucrânia, onde
eles me mataram pai e mãe: que
floria aí, que
floresce aí? Que
flor, mãe,
com o seu nome,
mãe, a ti,
que dizias grão-de-lobo, e não
lupino?

Ontem
veio um deles e
matou-te
outra vez no
meu poema.

Mãe,
mãe, que
mão apertei eu
quando as tuas
palavras fui para
a Alemanha?

Em Aussig, dizias tu sempre, em
Aussig junto
ao Elba,
durante
a fuga.
Mãe, aí moravam
assassinos.

Mãe, eu
escrevi cartas.
Mãe, não veio resposta.
Mãe, veio uma resposta.
Mãe, eu
escrevi cartas a -
Mãe, eles escrevem poemas.
Mãe, eles não os escreveriam
se não fosse o poema que
eu escrevi, por
ti, pelo
amor
do teu
Deus.
Bendito, dizias tu, seja
o Eterno, e
louvado, três
vezes
Amen.


Mãe, eles ficam calados.
Mãe, eles consentem que
a ignomínia me difame.
Mãe, ninguém
cala a boca aos assassinos.

Mãe, eles escrevem poemas.
Oh,
mãe, quanto
chão do mais estranho dá o teu fruto!
Dá esse fruto e alimenta
os que matam!

Mãe, estou
perdido.
Mãe, estamos
perdidos.
Mãe, o meu filho, que
se parece contigo.)

Põe o ferrolho à porta: há
rosas na casa.

sete rosas na casa.

o candelabro de sete braços na casa.
O nosso
filho
sabe isso e dorme.

Paul Celan, in A morte é uma flor, pp.29-35, Cotovia, edição bilíngue, tradução de João Barrento, reedição, 2017. Como Luciana Leiderfarb escrevia, sobre este poema, há duas semanas, no Expresso, na peça Poeta contra o silêncio, "aquela imensa e terrível composição (...) dirigida à mãe e percorrida pela alusão à morte dos pais num campo de concentração alemão (...) Quem disse que a recordação do horror não se deixa escrever? A questão, a verdadeira grande questão, é saber e, mesmo assim, dormir". 

Nina Simone - I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free (Montreux 1976)




Gostava de saber como
Seria ser livre
Gostava de conseguir quebrar
Todas as correntes que me prendem
Gostava de poder dizer
Todas as coisas que deveria dizer
Dizê-las em voz alta, dizê-las com clareza
Para que todo o mundo as ouvisse.

Gostava que tu pudesses saber
O que significa ser eu

[canção escrita, originalmente, em 1963, numa época em que os negros norte-americanos ainda lutavam por direitos iguais, mas ainda a passar nos gira discos neste Agosto de 2017, nos EUA de Trump]

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Que coisa é essa, a montanha? (II)


4. Um outro traço que passa pelo âmago de As oito montanhas é a reflexão acerca da identidade pessoal, no que esta tem, ao longo de uma inteira vida, de continuidade e rutura, do mesmo e do diferente, do ser e não ser, do misterioso e do revelado. Pietro fala, assim, do companheiro de peregrinações pela montanha, do amigo montanhês da seguinte forma: "Bruno veio ver-me de manhã cedo. Era um homem que eu já não conhecia mas que algures encerrava um rapazinho que eu conhecia bem" (p.104).  Com o passar dos anos, seja na introspecção, seja no olhar sobre os demais, Pietro descobre outros nos mesmos: "Não sabia se devia acreditar porque entretanto eu mudara. Pode mesmo parecer-te completamente diferente, como adulto, um lugar que amavas em rapazinho, e revelar-se uma desilusão; ou então pode recordar-te aquilo que já não és e causar-te uma profunda tristeza" (p.100). Sobre o pai: "em parte era o homem que conhecia, e em parte era outro, o que descobria nas cartas da minha mãe. O outro provocava-me curiosidade" (p.97); "e sabia de uma vez por todas ter tido dois pais: o primeiro era o estranho com quem vivera durante vinte anos, na cidade, e cortara relações durante outros dez; o segundo era o pai de montanha, aquele que apenas entrevira e no entanto conhecera melhor, o homem que caminhava atrás de mim pelos carreiros, o amante dos glaciares" (p.136).

5.O binómio, a antinomia mesmo, cidade-campo surge, amiudadamente, ao longo da narrativa. Quase sempre, num desenho que releva da crítica à cidade e do elogio à montanha. Todavia, esta tese, que poderá passar por uma espécie de exposição de um posicionamento mais mainstream sobre o tópico - em todo o caso, se assim é, se a montanha é sonho e a cidade pesadelo, porque as migrações para as cidades, onde vivem já mais de metade dos habitantes da Terra, são cada vez mais maciças? A explicação económica, monocausal, chega? Um paraíso perdido, a nostalgia do absoluto? A impossibilidade de viver no paraíso, mesmo que com má consciência do seu abandono? -, como se vem de observar, é completada pelos perigos que a montanha encerra (o tio de Pietro que morre na avalanche), a brutalidade do mundo rural (personificado no pai de Bruno e na sua violência sobre o pai de Pietro), ou mesmo a debacle de um projeto idílico, mas pouco sustentado como o casamento de Bruno e Lara - que não resiste à falência material, a montanha como lugar imaginário e utópico, para além de físico, na cabeça de Bruno, que rejeita o demais para se aferrar a ele. 
Mas a elaboração da dita antítese é, com efeito, realizada desde as páginas iniciais do romance: "depois, em alguns raros dias de vento, no outono ou na primavera, ao fundo das avenidas de Milão surgiam as montanhas (...) Eram os cumes brancos, o céu insolitamente azul, uma sensação de milagre. Cá em baixo, à nossa volta, ficavam as fábricas amontoadas, as casas dos pobres superlotadas, os confrontos de rua, as crianças maltratadas, as raparigas já mães: lá em cima, a neve" (p.16); "sentia-o alegre e loquaz, completamente o oposto do pai da cidade a que estava habituado. Ficava contente por me mostrar o mapa e me ensinar como se lia" (p.18)
O paralelismo cidade/campo [montanha, mais concretamente] passa, igualmente, pela comparação que o narrador - Pietro fala na primeira pessoa ao longo de toda a viagem que a obra encerra - produz entre ele mesmo, Pietro, e Bruno, de resto, uma medição que, dir-se-ia, invariavelmente favorável a este últimoPor exemplo, o tópico idealismo vs realismo, ou abstracto vs concreto, ou ainda saber livresco vs saber empírico: "O bosque estava cheio destas escavações, montes, destroços, que Bruno traduzia para mim como os sinais de uma língua morta. E juntamente com aqueles sinais ensinava-me um dialecto que achava mais correcto do que o italiano, como se à língua abstracta dos livros, na montanha, eu devesse substituir a língua concreta das coisas, que tocávamos agora com a mão" (p.62); "E dizia: são vocês, da cidade, que lhe chamam natureza. É tão abstracta na vossa cabeça que até o nome é abstracto. Nós aqui dizemos bosquepastoriorocha, coisas que se podem apontar com o dedo. Coisas que se podem usar. Se não se podem usar, nem lhes damos nome porque não serve para nada" (p.158). Mas, igualmente, o separador sofisticado vs puroartificial/manhoso vs verdadeirocobarde vs corajoso: "sabia que era perigoso e sabia também que estava a trair a confiança da minha mãe, porque não havia nada de sensato em metermo-nos naquelas armadilhas e, quando o fazia, um sentimento de culpa estragava-me todo o prazer. Teria gostado de ser como o Bruno e ter a coragem de me rebelar abertamente, aceitando o castigo de cabeça levantada. Eu, pelo contrário, desobedecia às escondidas, disfarçava e envergonhava-me" (p.63). Frágil/débil vs forte ("embora ele fosse muito mais carregado do que eu, era eu que tinha de parar todos os quartos de hora para recuperar o fôlego. Poisava a mochila e sentava-me no chão - tudo erros que o meu pai outrora me ensinara a não cometer - e ficávamos ali em silêncio, evitando olhar um para o outro enquanto o meu coração acalmava", p.112). Inexperiência/experiência das lides da vida, amadorismo/profissionalismo: "eu estava a improvisar, ele não. Tinha programado cada fase, o meu trabalho e o seu, os tempos e as deslocações. Explicou-me onde preparar as coisas e o que deveria trazer-lhe no dia seguinte" (p.118). Bruno perde, de qualquer forma, na preparação académica, intelectual, no conhecimento das normas da civilização, na ausência de uma disciplina que lhe permita singrar na cidade: "víamos então ocorrer uma transformação no Bruno. Indisciplinado por natureza, adaptava-se às regras e aos rituais da nossa família (...) Assim, Bruno fez o sexto, o sétimo e o oitavo, passando no exame com a classificação de discreto [entre Bom e Suficiente]" (p.65). 
Na ambiguidade que cada característica (que possuímos) pode conter, a pureza de Bruno transmuta-se ou pode ser lida, a certa altura da sua vida, como uma perigosa ingenuidade, puerilidade, tacanhez, provincianismo, falta de mundo, ausência de preparação fundamental para enfrentar os desafios: "agora [Lara] estava a falar de Bruno. Quando entrámos no tema foi dura com ele. Dois ou três anos antes, disse-me, quando era evidente que a empresa não se aguentava, ainda poderiam ter encontrado soluções. Vender as vacas, alugar os alpes, procurarem ambos trabalho na aldeia. Bruno teria arranjado logo, num estaleiro ou numa queijaria e até nas pistas de esqui. Lara podia ser empregada de balcão ou criada. Estava pronta para essa opção, pronta a fazer uma vida normal até que a situação melhorasse. Bruno, pelo contrário, não tinha querido saber de nada" (p.211).
Como o bom amigo para com o amigo, o que, reitere-se, mais se pode notar é a admiração de Pietro para com Bruno, sendo a montanha, como pano de fundo de uma palavra de honra ancestral, de um homem à antiga:
"- O que não compreendi foi como estão as coisas entre vocês.
- Ah - disse. - Não estão. Há cerca de dois meses que não nos vemos.
- Discutiram?
- Não. Não há nada entre nós, fico contente se ficar contigo.
Tens a certeza?
Tenho. Não há nenhum problema.
Então está bem.
Despediu-se e desejou-me boa viagemAí está um homem de outros tempos, pensei; quem mais teria pedido autorização para fazer o que era preciso fazer? Quando desliguei já sabia tudo o que iria acontecer a seguir. Estava contente por ele. E também estava contente por ela" (p.162). Bruno era o rapaz como modos de adulto, não mimado, iniciado ao álcool e à taberna bem cedo.

6.O período da adolescência, o forjar da personalidade do adulto que sai do casulo tem, igualmente, neste livro um vivo testemunho. Pietro, temeroso, silencioso, dócil, cobarde decide-se por fim a desgostar a progenitura, que é o que acontece quando se escolhe, quando se experimenta a decisão livre. O dizer não, mesmo que acarretando a incompreensão, ou mágoa, paterna. O fazer-se à estrada de um caminho próprio. Não sem dor, mas ainda a tempo de se (re)descobrir, nos passos repetidos, inadvertidos, como que tatuados sem hipótese de remoção, que se dão/que dá emulando o progenitor. A descrição do (estádio) adolescente, desde logo, soa comum: "Nas suas [memórias], eu [adolescente] estava sempre calado. [A mãe] Lembrava-se de mim absorto no meu mundo, onde era impossível penetrar e do qual lhe dava raras referências. Estava contente por agora ter ocasião de recuperar" (p.121) 
E a descrição de uma vontade própria, de um choque, de um capricho talvez, de uma mágoa; de uma existência, porventura e em síntese, finalmente: "Para o meu pai, se eu estivesse calado significava que podia falar ele. Descontraiu a testa e disse: - Vamos tirar talvez algumas coisas. Ajudas-me, está bem?
Não - respondi. -Não está nada bem.
- O que é que não está nada bem, a tenda?
- A tenda, o lago, tudo.
Não me apetece. Não vou.
Não lhe podia ter dado um choque piorRecusar-me a segui-lo para a montanha: era inevitável que acontecesse mais tarde ou mais cedo, já devia esperar. Mas de vez em quando penso que ele, não tendo tido um pai, não experimentara certas coisas, de forma que não estava preparado para as suportar. Ficou muito magoado. Teria podido fazer-me outras perguntas, talvez, e teria sido a boa ocasião para ouvir aquilo que eu tinha para dizer, mas era visível que não era capaz, ou não lhe parecia necessário, ou naquele momento sentia-se demasiado ofendido para pensar nisso. Deixou as mochilas, a tenda e os sacos-cama e desandou sozinhoPara mim, foi uma libertação" (p.79). O filho pródigo que ousa arriscar e sair, mais tarde, reconhecer-se-à filho, (re) descobrirá o pai (entretanto falecido), reconhecerá em si traços genéticos e psicológicos do pai. As memórias com este permitem-nos traçar também, com claros contornos, um arquétipo de pai: "quando perguntei ao meu pai, ele respondeu-me na sua forma enigmática: parecia sempre que não me podia dar a solução mas apenas alguns indícios, e que eu é que devia forçosamente alcançar sozinho a verdade" (p.42). Apesar do corte de relações, o pai continua a interessar-se e a preocupar-se, deveras, com o filho (p.97). Sabe as notícias pela sua intermediária favorita, a mulher - lugar de apaziguamento -, nunca dá o braço a torcer, o orgulho. No pai, a ansiedade, que era feitio, tornou-se doença (de resto, a doença de uma época).

7. Sobra, ademais, um retrato geracional, oferecido por Pietro: "os meus trinta e um anos pouco se assemelhavam aos seus [aos do pai]: eu não me tinha casado, não tinha entrado na fábrica, não tinha feito um filho, e a minha vida parecia-me metade de homem e metade de rapaz. Vivia sozinho num estúdio e tratava-se de um luxo que me era difícil manter. Teria gostado de ganhar a vida como documentarista, mas para pagar a renda aceitava trabalhos de todo o género. Também tinha emigrado mas herdara dos meus pais a ideia de que, numa certa altura da juventude, devemos dizer adeus ao lugar onde nascemos e crescemos e irmos tonar-nos grandes noutro lugar; assim, aos vinte e três anos, fora desmobilizado e partira para ir ter com uma rapariga a Turim. A história com ela não durara, mas com a cidade sim (...) Nessa época lia Hemingway, vagabundeava sem um tostão no bolso e procurava manter-me aberto aos encontros, às ofertas de trabalho e às possibilidades, com a montanha a servir de fundo à minha festa de mobilidade (...) O melhor para ele e para mim foi eu ter seguido o meu caminho, inventado uma vida diferente da sua noutro lugar; assim, uma vez distantes, nenhum dos dois fez mais nada para anular a distância" (pp.95-96)

8. A montanha pode ser um lugar político (p.158), representando uma fuga mundi que é crítica à cidade (p.119). Entre dois amigos, entre dois homens, há imensos não ditos (esses não ditos surgem entre Pietro e o pai, e entre Pietro e Bruno; maxime, p.91). Os nossos amigos tornam-se próximos dos nossos pais, ou os nossos pais dos nossos amigos (a relação de proximidade, mesmo após o abandono de Pietro, entre o pai deste e Bruno, em Grana). Há um certo agnosticismo do narrador, revelado no Nepal, para cujas montanhas migra também:
"- O que está escrito no pano? - perguntou.
- São orações que pedem sorte - disse. - Prosperidade. Paz. Harmonia.
E tu acreditas nisso?
- Em quê, na sorte?
- Não, nas orações.
- Não sei. Mas põem-me de bom humor. Já é muito, não?
- Sim, tens razão" (p.193).

9. A montanha tem uma aura indiscutível, mas sobre ela desemboca, igualmente, uma retórica prolixa: "encontrava nelas algo de falso e sentimental, uma retórica da montanha que não correspondia à realidade. Se lá em cima era um paraíso, porque não ficávamos a viver ali? Porque levávamos connosco um amigo que ali nascera e crescera? E se a cidade nos fazia sentir mal, porque o obrigávamos a ir viver connosco?" (p.72). Só a amizade supera todo o palavreado, e a perda não tem remédio.

Que coisa é essa, a montanha?


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Encontrariam Bruno com o degelo. Apareceria em qualquer desfiladeiro em pleno Verão e seriam os corvos os primeiros a descobri-lo. 
- Achas que era isso que ele queria? - perguntou-me Lara ao telefone.
- Não, não creio - menti.
- Tu conseguias compreendê-lo, não verdade? Vocês dois entendiam-se!
- Acho que sim.
- É que algumas vezes parece-me que nem sequer o conheci.
E então, perguntou-me, quem o tinha conhecido na terra além de mim? E quem me tinha conhecido a mim para além do Bruno? Se era segredo para qualquer outra pessoa aquilo que nós tínhamos partilhado, o que restava agora que um dos dois já não existia?

Paolo Cognetti, As oito montanhas, D.Quixote, Lisboa, 2017, pp.221-222

1.Há uma impenetrabilidade na montanha ("um limite invisível, um muro erigido apenas para ele, que lhe impedia o acesso ao resto do mundo", p.208) que jaz, apenas, às mãos singulares da amizade ("há muito tempo que não experimentava a liberdade e a alegria da exploração. Apeteceu-me deixar o carreiro, subir um declive e atingir um cume apenas pela curiosidade de descobrir o que lá havia e encontrar-me, sem ter previsto, numa aldeia que me agradava, passando uma tarde inteira nos charcos de um rio. Aquela era a forma de andar na montanha, para mim e para o Bruno. Pensei que, nos anos seguintes, seria a minha maneira de conservar o nosso segredo", p.222). A montanha é, neste caso, tanto um lugar claramente tangível (os vales, os alpes, os caminhos íngremes, as neves, o pastoreio, as vacas, o leite, as queijarias, as padarias, o isolamento), como um lugar mítico (a montanha como que o lugar da utopia, uma certa ideologia da montanha ("e Lara [a mulher de Bruno], a certa altura, compreendera que quer ela, quer Anita [a filha], quer aquilo em que tinha acreditado construir com ele lá em cima eram muito menos importantes para o Bruno do que a sua montanha, significasse isso o que significasse realmente", p.211). Pietro, citadino, de Milão fora com o pai, nas férias, para Grana, na montanha, e acabaria por estabelecer uma relação de amizade com o montanhês Bruno, o último resistente da espécime, em aldeias abandonadas e em uma pastorícia que já ninguém, daquela idade, praticava. A desertificação do mundo rural cantada, também, em italiano (um único rapaz, numa aldeia de 14 pessoas, em 1984). A amizade percorreria trinta anos (p.220), ao longo dos quais descobrimos metamorfoses e perenidades.

2. A mãe de Pietro (ou Beria, como lhe virá a chamar Bruno) é uma antiga enfermeira, depois assistente sanitária, com fortes preocupações sociais e talento para a amizade, um espírito liberal apaziguador em casa, reformista na rua. O pai, nascido em 1942 (p.130), gostava de estudar e estava sempre disposto ao trabalho em uma busca gregária e de uma família adoptiva (p.131), e que morreria aos 62 anos quando Pietro tem 31 (p.95), é engenheiro químico ("mais do que pelos seres humanos era atraído pela matéria do mundo e descobrir como era feito (...) era dessa forma que me recordava dele, fascinado por cada grão de areia e cristal de gelo e completamente indiferente às pessoas", p.132), órfão de guerra - uma situação que, então, ninguém estranhava, nem impressionava quem quer que fosse: "era um caso bastante frequente no pós-guerra, assim como era frequente receber em casa o filho de qualquer outra pessoa, talvez um parente morto ou emigrado sabe-se lá para onde" (p.131) -, foi militar em 1967 (p.132). 
A narrativa principia em 1972. Milão está acotovelado de um barulho ensurdecedor, há trânsito, e uma irascibilidade sem diques: "certas noites, o meu pai não aguentava mais, levantava-se da cama, escancarava a janela como se quisesse insultar a cidade, intimá-la ao silêncio, ou despejar-lhe em cima alcatrão a ferver; ficava ali um minuto a olhar para baixo, depois vestia o casaco e saía para andar a pé" (p.13). De resto, "durante o jantar via o telejornal em silêncio, ficando com os talheres no ar, como se esperasse, de um momento para o outro, o deflagrar de outra guerra mundial, e praguejava para si ao anúncio de cada morto assassinado, cada crise de governo, cada aumento dos preços do petróleo, cada bomba de origem desconhecida. Com os poucos colegas que convidava lá para casa quase só discutia política e acabava sempre por brigar. Era anticomunista com os comunistas, radical com os católicos, livre-pensador com quem pretendesse enquadrá-lo numa igreja, numa sigla de partido; mas aqueles não eram tempos para escapar às arregimentações e passado pouco tempo os colegas do meu pai deixaram de ir lá a casa. Ele, pelo contrário, continuou a ir para a fábrica todas as manhãs como se tivesse de se meter numa trincheira. E a não dormir à noite, a apertar as coisas com demasiada força, a usar tampões para os ouvidos e comprimidos para as dores de cabeça, a explodir em violentos ataques de cólera: entrava então em acção a minha mãe que, entre os deveres de casal, assumira também o de o amansar, amortecer os choques entre o meu pai e o mundo" (p.14). A montanha era um refúgio. Sobretudo, se se traz um segredo, uma angústia colada ao peito, uma acusação, uma morte, um suceder que nunca se ultrapassa: o pai de Pietro era o melhor amigo do irmão (tio de Pietro, portanto) da sua futura esposa e numa ida para a montanha - no que podemos ver desenhado um jogo ambíguo sobre o significado desta, entra a pureza, o lugar óptimo, mas também o "fascinante e tremendo" (a formulação deliberadamente em tom religioso, com que Cognetti pega em Otto, para falar da montanha), com o seu legado mais implacável - este seu amigo, numa garganta de Sassolungo, perde a vida, com uma avalanche de neve (p.135). A raiva do seu futuro sogro seria irreparável (p.135). A mãe de Pietro, que observa ao de longe a tragédia, considera injusta a culpabilização do futuro marido. Aproxima-se deste e, após um ano de namoro, casam. Casam na montanha, sozinhos, dado que a família dela rejeitara os convites. A montanha é, assim e aqui, o lugar de todas as estações.
Da pena de Cognetti, o olhar íntimo sobre a vida familiar, com suas subtilezas, não ditos, sinais, gestos, jogos de código: "nos últimos tempos tinha-me metido num canto de onde observava a nossa vida familiar com um olhar impiedoso. Os hábitos imutáveis dos meus pais, as inócuas fúrias do meu pai e os truques com que a minha mãe as tratava, as pequenas prepotências e os subterfúgios a que nunca se lembravam de recorrer. Ele emotivo, autoritário, impaciente; ela forte, serena e conservadora. A forma tranquila de fazer sempre a mesma parte sabendo que o outro fará a sua; as discussões deles não eram verdadeiras discussões mas sim troca de palavras das quais previa sempre o final, e eu acabava também por estar fechado naquela gaiola. Sentira urgência em fugir dali" (p.78).

3. Apercebendo-se, desde cedo, da realidade, do abandono que aquele rapaz, Bruno, que o filho acabara de conhecer, da sua fraca escolarização, do seu parco futuro visto (ainda assim) de Milão, a mãe de Pietro, na sua mansidão e liberalidade, na sua certeza e na sua firmeza, avança para a sua "adopção", quer dizer, dispõe-se e tudo resolve nesse sentido, a levar o rapaz para Milão, a alimentá-lo, a fazê-lo estudar. Numa palavra, a civilizá-lo. Há, aqui, uma mestria indiscutível na apresentação de um ponto de vista a que se poderia chamar de "paternalismo arrogante", uma ideia/convicção inquestionada de quem sabe o que é melhor para aquele rapaz e a certeza de que esse melhor é na cidade, na uniformização de uma dada civilização. Quer dizer, a ida à montanha é muito bonita, mas não é vida para ninguém; para se ser alguém há que sair da montanha, estudar, civilizar-se. Afinal, há gosto pela montanha? A montanha é compreendida? É possível dizer-se que a montanha foi percebida, quando os óculos que a vêem são, manifestamente, citadinos? Não há espaço para configurar a existência fora do padrão "habitual"? Pietro ("Beria") questiona-se: "que mal achavam em deixá-lo levar a pastar as vacas o resto da vida?" (p.70). Pietro surge, aqui, aparentemente, como aquele que consegue, em última instância, sintonizar-se, verdadeiramente, com o espírito da montanha ("eu, que sabia como era [Milão], não precisava de imaginar nada para me revoltar contra a ideia. O Bruno iria odiar Milão e Milão iria estragar o Bruno, como quando a tia o lavava e vestia e o mandava para nossa casa a fim de aprender os verbos" (p.70)), se bem que outros pudessem pressentir, em tais alegações, aquela vontade de manter intacto o espécime derradeiro de um mundo outro, à laia de uma curiosidade antropológica (e, todavia, a amizade de Beria com Bruno desmente essa hipótese). O certo, também, é que nesta altura Bruno está disposto - e quer mesmo - seguir viagem para Milão - e, seja como for, sempre agradecerá à mãe de Pietro os esforços que por ele fez (para o ensinar, para o ajudar a ter "sucesso" na vida; sendo que aqui a pergunta, evidentemente, é: o que é ter sucesso na vida?).
Em algumas das páginas mais impressivas de toda a narrativa, a montanha, personificada no familiar de Bruno, como que se manifesta com toda a sua violência e brutalidade, repelindo os "bons sentimentos" de quem lhe queria indicar/ditar o caminho. O pai - "um citadino instruído, seguro de si, habituado a dizer aos outros o que havia a fazer, que apenas tinha queimado as barrigas das pernas no gelo e procurava raciocinar com um alpinista bêbado", p.75 - é agarrado pelos colarinhos. Depois, o homem que veio à casa de montanha dos pais de Pietro "sem pré-aviso, baixou a mão direita, fechou o punho e bateu no meu pai à altura da têmpora. Era a primeira vez na vida que via um soco verdadeiro. O ruído dos nós dos dedos na maçã do rosto chegou até dentro da casa de banho, seco como se fosse em madeira. O meu pai deu dois passos atrás, cambaleou, conseguiu não cair no chão. Mas logo a seguir foram os braços que tombaram ao longo do corpo e os ombros que se curvavam um pouco. Eram as costas de um homem muito triste. O outro disse-lhe ainda uma coisa antes de se ir embora, uma ameaça ou uma promessa, e não me surpreendeu depois vê-lo dirigir-se para a casa dos Guglielmina. Durante aquele breve recontro compreendera quem era.
Voltara para reclamar o que era seu. Não sabia que se encontrara com a pessoa errada. Mas no fundo isso não mudava nada: aquele soco foi dado na cara do meu pai para que ficasse bem claro na cabeça da minha mãe. Foi a irrupção da realidade no seu idealismo e talvez também também na sua arrogância. No dia seguinte, Bruno e o pai desapareceram de circulação; o olho esquerdo do meu pai ficou inchado e roxo. Mas não creio que aquilo que o magoasse mais quando, à noite, entrou no carro e partiu para Milão" (pp.73-74).
Nem um angelical mundo rural, apenas pacífico, submisso e esperando ser salvo pela cidade - violento, bárbaro, intransponível, de personalidade vincada, afinal também; nem um espírito liberal, de bons sentimentos, de quem sabe o melhor para o mundo, citadino e instruído: o constructo de Cognetti obriga a uma outra demora, convida a algum cepticismo, a questionar convicções absolutizadas.

(cont.)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A crise, vista da literatura


Não é um livro, longe disso, no qual o tema seja a crise, a crise desde 2008, sabemos do que falamos. Não é um livro, pois, como, por exemplo, o maciço A margem, de Rafael Chirbes, de magnífica cepa e boa memória (ver aquiaqui, aqui, aquiaquiaqui). 
Mas, ainda assim, em As oito montanhas, Paolo Cognetti deixa-nos um retrato da Itália sob o efeito das ruínas da crise:

Quando voltei para Itália, em 2010, encontrei-a mergulhada numa crise económica grotesca. Milão anunciava-a já no aeroporto quase abandonado, com quatro aviões em quilómetros de pista de aterragem e as vitrinas das lojas de alta costura a brilhar em salas vazias. Do comboio que me levava para a cidade, com ar condicionado gelado na tarde de Julho, vi por todo o lado esplanadas, estaleiros, gruas muito altas paradas, arranha-céus de perfis bizarros que surgiam no horizonte. Não compreendia como todos os jornais escreviam que tinha acabado o dinheiro e em Milão, como em Turim, notava um frenesi de construção civil de anos de ouro. Ir à procura de velhos amigos foi como fazer a ronda por corredores de hospital: os escritórios de produção, as agências publicitárias e os canais televisivos com quem eu trabalhara fechavam por falência, e muitos deles estavam estendidos no divã sem fazer nada. Aos quarenta anos ou quase, resignavam-se a pequenos trabalhos de um dia e a aceitar dinheiro dos pais aposentados. Olha para fora, disse-me um, não vês que surgem palácios por todo o lado? Quem nos está a roubar aquilo a que temos direito? Por onde quer que andasse respirava aquele ar de desilusão e de raiva, aquele sentimento de erro geracional. Era um alívio ter já no bolso o bilhete de regresso. (pp.186-187)

"tira-me, feito casca, da minha palavra"


CONVERSAS COM CASCAS. TU,
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.

É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.

Paul Celan, A morte é uma navalha, Cotovia, 2017 (reedição), p.37. (tradução de João Barrento)

O dogma e o seus cultores mais extremados


A fixação em torno do crescimento (do PIB) é tal - o grande dogma do pacto da Modernidade, assim chama ao crescimento económico Yuval Noah Harari - que em Singapura os salários dos ministros estão indexados ao (crescimento do) Produto. Se, por cá, em Portugal, achamos -  e achamos mal, creio, mas com todos os governos, por igual -, que o crescimento da economia é função/resultado (exclusivo) da acção governativa, agora repare-se onde essa ideia, levada a um limite absurdo, conduz, em Singapura.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O estudo e a política


investigação de Catherine Moury e Adam Stranding não me parece que, até ao momento, tenha desempenhado/desempenhe qualquer papel no debate público português. Vários outros autores, observadores, colunistas - digamos, quase qualquer pessoa que preste o mínimo de atenção à política, em Portugal - haviam chamado a atenção para o carácter voluntarista de muitas medidas tomadas nos anos mais recentes, pelos Governos portugueses, durante o período em que esteve vigente o memorando de entendimento com a troika. Não, nem tudo era inelutável, inevitável, uma imposição de fora, ou, quiçá, da própria natureza. A diferença é que esta investigação contempla, para além da interpretação com base nos papéis - os memorandos, os programas dos partidos, os discursos, as entrevistas, os artigos de opinião -, entrevistas em que antigos governantes falam e confessam que várias medidas foram escolhas dos ditos executivos (que depois, politicamente, quiseram usar a capa da troika). De acordo com esta investigação, isto passou-se com dois governos, de partidos diferentes, sendo certo que num dos casos, houve "uma maior congruência ideológica". 
Será que foi por maldade que tomámos aquelas medidas? Não, houve, por certo, medidas 'obrigatórias', mas em muitos casos, e partindo, aqui, sempre do pressuposto da boa-fé, foi porque acreditaram que elas seriam as melhores para o país. Por favor, poupem-nos a mais demagogia, ou a um duplo padrão de que as coisas funcionam por causa de medidas em que houve mérito de quem as escolheu, para logo depois se negar terem-se escolhido medidas algumas.

O "fator Nobel"

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O seu livro parte do princípio de que os tempos mudaram por volta de 1970. Em que sentido?

Portugal estava numa situação diferente, mas noutros países europeus a ideia política dominante era a social-democracia, que se baseia na igualdade de direitos. É a igualdade perante Deus, perante a lei, o voto para os homens e as mulheres. E todos têm direito à sua segurança económica. Na década de 1970 deu-se a viragem para a economia de mercado. Cada um tem direito a tanto quanto consiga ganhar no mercado. Um princípio de desigualdade, portanto. Há quem chame a isto um sistema de meritocracia, mas não é verdade, porque não recompensa as pessoas só pelas suas capacidades, mas também pelo dinheiro, pelo seu capital. E penso que o Nobel da Economia tem sempre fornecido a teoria que justifica esta perspectiva então sugerida. Veio dar-lhe a autoridade de uma ciência

Em termos práticos, como tem o Nobel influenciado a economia mundial?

Deixe-me dar um exemplo. Antes de 1970, a taxa marginal de imposto paga pelos mais ricos, isto é, só a parte do IRS que ultrapassa determinado patamar; era de 70% no Reino Unido e 90% nos EUA. Mas surgiu a "teoria da tributação óptima", que considerava aquele princípio desencorajador do trabalho, do esforço. Esta teoria valeu um Nobel a James Mirlees em 1996. E a taxa marginal de impostos desceu para 35 a 28 por cento. Gerou-se uma tal desigualdade, que hoje constitui um grande problema internacional. Mas começou por ser justificada por essa teoria económica de que cada um ganha o que merece.

(...)

Depois, essa escola [de Chicago] não se revelou um fracasso?

Receio que não. A Escola de Chicago continua a ser muito influente. Além do mais, está alinhada com a grande finança. Portanto, cumpre o papel de justificar os interesses desses grupos. Aliás, economistas ligados à Escola de Chicago continuam a receber o Nobel como Eugene Fama, por exemplo, em 2013. E Friedman ainda é muito citado. Fazendo as contas ao conjunto dos Nobel que analisei, desde o início, em 1969, até 2005, o economista mais citado no total é Friedman. Mas, numa média anual, o mais citado é quem representa o oposto dele, Joseph Stiglitz, que é o laureado mais próximo da social-democracia. Aliás, quando o Comité Nobel escolhe os vencedores, tenta cuidadosamente encontrar um equilíbrio, entre esquerda e direita, entre teorias, entre Chicago e os seguidores de Keynes. Eles procuram parecer justos. (...)

A social-democracia não se apoia numa teoria profunda. Não precisa de teoria, porque a ideia é muito simples. Há períodos no ciclo da vida, seja a maternidade, a velhice, a doença ou o desemprego, em que as pessoas não têm capacidade para produzir. Portanto, os que estão a produzir suportam os que estão dependentes. E, ao longo da vida, todos vão passando por ambas as situações. É a ideia de que os cidadãos têm direito á satisfação das necessidades básicas da vida, como a subsistência, habitação, educação, saúde, apoio na velhice. A social-democracia faz isso com mais eficiência do que o mercado. Mas não tem o apoio intelectual e científico que o Nobel dá

Também vê ligação entre "O Fator Nobel" e a crise financeira que começou em 2008?

Acho que há várias ligações. A primeira constatação a tirar é que não era suposto a crise financeira ter acontecido. Embora o Nobel distinga os mais brilhantes economistas, isso não serve de muito se a proposta está errada. E a verdade é que nenhum desses economistas de topo previu a crise. Por isso, creio que boa parte da teoria que tem sido defendida está incorrecta. (...)

A minha ideia e de outros economistas como Thomas Franck é que, nos anos de 1980, de 1990 e até durante a última década, mesmo os partidos de esquerda trocaram o direito à igualdade pela meritocracia. A Educação Superior expandiu-se muito, há cada vez mais pessoas com diplomas, com credenciais, com doutoramentos.  Para se estar na vida pública é preciso ter frequentado uma boa universidade. Os políticos valorizam muito isso, porque acham que lhes dará direito a altos salários, a privilégios, a pôr o Estado a trabalhar a seu favor, a irem olhando para o sector privado. O modelo tem sido o governo de especialistas, de peritos. O espaço público, à direita e à esquerda, foi capturado por este género de pessoas. E a maioria fica fora deste jogo.

Avner Offer, Professor de História Económica na Universidade de Oxford, entrevistado por Emília Caetano, Visão, nº1275, de 10/08 a 16/08/2017, pp.11-12

domingo, 13 de agosto de 2017

Messiaen



No passado Domingo (06/08/2017), do ponto de vista litúrgico, celebrou-se a festa da Transfiguração de Jesus. Em 1969, estreava, em Portugal, a peça de Olivier Messiaen, um dos nomes maiores da música, no século XX - capturado, como soldado francês que fora (mobilizado), pelos nazis, e que num campo de concentração, na Silésia, compôs o célebre Quatour pour la fin du temps - justamente intitulada La Transfiguration de Notre-Seigneur Jésus Christe
A 27 de Abril último passaram 25 anos sobre o desaparecimento de Olivier Messiaen. A Professora, musicóloga Ana Liberal, na Brotéria de Abril (nº184), convocou-nos a esse rememorar da ligação do compositor ao nosso país. Depois da encomenda da Gulbenkian, na celebração do seu fundador, e após os acertos, ao longo de meses, quanto a todos os pormenores para a execução da composição, eis, então, como é relatada a estreia (p.524): "No dia 7 de Junho, o Coliseu dos Recreios encheu para assistir à primeira audição mundial de La Transfiguration de Notre-Seigneur Jésus Christe, de Olivier Messiaen. Não sem passar pelo frisson de ter que esperar uma hora e meia pelo início do concerto. O atraso deveu-se à intoxicação alimentar sofrida por Rostropovitch [violoncelista] na noite anterior, que obrigou Madalena Perdigão [responsável pelo Serviço de Música, da Gulbenkian, com quem tudo fora tratado com Messiaen] a ir buscá-lo ao hotel. Apesar deste percalço e do débil estado de saúde do violoncelista, os 9000 espectadores aplaudiram o compositor e os intérpretes durante 30 minutos ininterruptos.
"Succès absolument formidable!!!!", escreveu Messiaen no seu diário."

Balanços e outros devaneios


Olho para eles, a caminho dos 18, recordo todas as emoções da idade, não voltes onde foste feliz e não voltei (feliz, aqui, talvez num assomo romântico, é sentir tudo, não necessariamente a felicidade, sempre fugaz como o seu inverso, quer dizer, dificilmente se tenha estado tão vivo como por esses dias) sintonizo-me com as deles (procurando completar a regra de ouro, que é tentar fazer o que cada um gostava, na sua singularidade/peculiaridade/idiossincrasia, que se lhe fizesse), sabendo que são tempos interessantes porque nada se joga mais a feijões (ou assim se pensa então, cada resultado é tão decisivo...nunca se sabe, depende...como dizia um professor anos depois) e num amor fraterno, sentido, tão próximo registo as que, vistas daqui pelo menos, são as duas marcas de vida que nos colocam em estádios diferentes: a) eles (ainda) são imortais (e têm direito, por mais uns dez anos, à imortalidade); b) eles ainda "não foram derrotados pela vida" ["porque as crianças são minhas criaturas/mais do que os homens/porque ainda não foram derrotadas pela vida", Charles Peguy], ainda não têm mortos, zangas, fracassos, feridas. 
Cumpre transmitir-lhes (e este conselho, se a si não servir, a mim me servirá, porque bem preciso dele e a mim ninguém mo dá, dizia Agostinho da Silva, nas Sete cartas a um jovem filósofo) uma sabedoria que procure, como se assinalou noutro sublinhado, aproximá-los do carácter maêutico que a brevidade pode ter (o que quero fazer da minha vida, sendo que a viagem tem um prazo de validade e não demasiado extenso); capacitá-los para identificarem o erro do "paradigma do ilimitado" (não vão fazer tudo, em todo o lado, a todo o tempo, mas nessa certeza podem descobrir caminho); assumir como essencial a lição espiritual da necessidade de adimplemento, portanto, de abrir a mão, em estado de graça por perceber que tudo é dom, e me reconhecer imperfeito (o elogio da imperfeição); em assim sendo, poder mais facilmente arriscar, porque o espelho do mundo (o vencedores/vencidos tão redutor, tão pequenino) não é tudo, e, fundamentalmente, há um último reduto impenetrável que durante séculos ("cultivar a alma") foi tido por o essencial, esse núcleo que nem em Auschwitz conseguiram roubar a Etty.

Eleitos, os puros manter-se-ão assim o resto da vida, naquele sorriso e naquela fé que é apesar de (após os trinta; nesta idade, para além de uma disposição, como dizer, biológica, genética, pelo menos como metáfora é elogio, passa a convicção e é aposta, a aposta, saibam-no ou não, creio, na "queda infinita" que é, mesmo apesar de algumas derrotas, sentir-se a um colo), nunca aceitando a contaminação por uma manipulação, muito menos talentosos os manipuladores - diga-se, que olham com desdém e desprezo, que os avilta, da qual se afastam, ou para os que, acriticamente, aceitaram a competição como único lugar do mundo.

Por uma sabedoria (III)


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Sim, o fracasso e o êxito andam de mãos dadas. Jesus narrou a parábola dos talentos (cf. Mateus 25, 14-39). Os dois primeiros servos atrevem-se a duplicar os seus talentos. O terceiro quer evitar qualquer erro, e enterra-o. Experimenta, depois, que com a sua angústia e com a sua ideia de segurança apronta para si choro e ranger de dentes. Os dois primeiros servos não são recompensados por terem êxito, mas porque arriscaram alguma coisa. Quando ouso alguma coisa, exponho-me também sempre ao risco do malogro.

Anselm Grun, no livro com Andrea J.Larson, Diz lá, Tio Willi, Paulinas, 2017, p.53

sábado, 12 de agosto de 2017

Contributo católico para a política


Uma síntese, que creio razoavelmente equilibrada, do que pensou e pensa a Igreja, nas últimas décadas e na atualidade, sobre o modelo económico-social em que nos inserimos.  Digamos que podia ser (mais um motivo para) um ponto de partida - mas só um ponto de partida - para quem se interessa por estas questões, seja partindo desta mundividência, seja considerando-a entre várias outras, ir aprofundar, lendo as encíclicas, estudando os textos, para um voto que se pretende sempre mais consciente e sustentado.


Reformar o capitalismo

Muitos adeptos da economia de mercado se entusiasmaram com a vitória do capitalismo, falando mesmo no “fim da história”. Tal euforia teve resultados perversos, pois contribuiu para um capitalismo irresponsável, mais selvagem, menos regulado, com menor consciência social (a qual fora, em parte, estimulada pelo receio do comunismo), desvalorizando a política face à economia. Basta lembrar a vergonhosa falência da Enron no início do século (arrastando consigo a empresa de contabilidade Arthur Andersen), a multiplicação de jogadas criminosas em Wall Street e a grande recessão provocada pela irresponsabilidade na concessão de crédito à habitação evidenciada pela crise hipotecária (subprime) a partir de 2007. Doutrina social da Igreja Entre os triunfalistas da vitória do capitalismo não se contava uma pessoa que havia contribuído como poucos para o ruir do comunismo: o Papa S. João Paulo II. Este Papa logo avisou que o fim do comunismo soviético não significava que tínhamos chegado ao paraíso. Havia muita coisa a corrigir nas economias de mercado. Depois, Bento XVI veio pedir uma nova economia na encíclica Caritas in Veritate, apelando a “uma nova e profunda reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins”, bem como a “uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento” (nº. 32). A lógica do mercado não pode resolver todos os problemas sociais (n.º 36). Segundo a encíclica, a economia precisa, também, da “lógica do dom sem contrapartidas” (n.º 37). Bento XVI colocou reservas à desregulamentação do trabalho, à mobilidade laboral, aos cortes nas despesas sociais e à limitação das liberdades sindicais (n.º 25), reclamando trabalho “decente” e explicitando o que se deve entender por isso (n.º 63). Naquela encíclica Bento XVI sublinhou que “a sociedade cada vez mais globalizada não nos faz irmãos” (n.º 19). Condenou a globalização selvagem, mas não uma globalização na solidariedade. E como vários dos seus antecessores, insistiu na necessidade de um poder político mundial para enquadrar a globalização. Na Mensagem para o dia Mundial da Paz de 1999 escrevera S. João Paulo II: “A corrida vertiginosa para a globalização dos sistemas económicos e financeiros torna patente a urgência de estabelecer quem deve garantir o bem comum global e os direitos económicos e sociais. É que o livre mercado, por si só, não consegue fazê-lo, uma vez que existem numerosas carências humanas que não têm acesso ao mercado”. E na encíclica Centesimus Annus, que em 1991 celebrou o centenário da primeira encíclica social, a Rerum Novarum de Leão XIII, dizia o Papa S. João Paulo II: “Hoje está-se a verificar a denominada ‘mundialização da economia’, fenómeno este que não deve ser desprezado, porque pode criar ocasiões extraordinárias de maior bem-estar. Mas é sentida uma necessidade cada vez maior de que a esta crescente internacionalização da economia correspondam válidos organismos internacionais de controlo e orientação que encaminhem a economia para o bem comum, já que nenhum Estado por si só, ainda que fosse o mais poderoso da terra, seria capaz de o fazer” (n.º 58). O Papa Francisco, que falou de “uma economia que mata”, vai na linha dos seus antecessores e da Doutrina Social da Igreja, tantas vezes ignorada pelos católicos. Naturalmente que várias afirmações de Francisco não agradam aos católicos que se rendem ao “deus mercado” – acontece sobretudo nos EUA. Também Jesus Cristo desagradou aos poderosos do seu tempo. Inventar alternativas A Doutrina Social da Igreja não rejeita a economia de mercado, mas coloca-lhe limites. Ao longo do séc. XX foi possível tomar algumas medidas no sentido de humanizar o capitalismo, de que é exemplo o chamado modelo social europeu. Mas no séc. XXI as condições para esse reformismo tornaram-se menos favoráveis. A economia cresce menos, a população envelhece (o que coloca restrições financeiras aos apoios sociais), as desigualdades entre os muito ricos e os outros acentuam-se, etc. Será, então de desistir do humanismo reformista em economias capitalistas? Julgo que não, até porque hoje não existe qualquer economia colectivizada que funcione com um mínimo de eficácia e em clima de liberdade. A China não tem liberdade política e o seu sistema económico é um capitalismo de Estado. Já não existem “socialismos reais” como alternativas ao capitalismo, apenas ditaduras mais ou menos grotescas. Nada disto obsta a que não só se tente reformar o capitalismo, não obstante as dificuldades, como a de idealizar sistemas alternativos que funcionem e não sejam liberticidas. Mas é possível que a saída não esteja em descobrir um novo grande sistema económico e social (como foi o comunismo), mas na acumulação de pequenos passos no sentido de uma economia social – como o micro crédito, o comércio justo, a banca ética, etc. – onde o lucro seja uma condição de sobrevivência mas não a finalidade última da empresa.

Francisco Sarsfield Cabral, no site da RR, 12-08-2017. 

Manifesto, cepticismo, prudência

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11. Investiga - o que dizes e escreves pode sempre influenciar outros. Nem o que dizes ao café, no facebook, no twitter ou num email é, à partida, isento dessa possibilidade. Em assim sendo, o teu gesto só será justo, legítimo, ético se investigares o que envias, o que publicas. Se lêste, se estudaste. Não bastam as "letras grandes" ou a manchete do jornal, há que ir em profundidade para não manipularmos, nem sermos manipulados: "tira as tuas próprias conclusões. Dedica mais tempo À leitura de artigos longos. Subsidia o jornalismo de investigação através da subscrição de meios de comunicação social na sua forma impressa. Compreende que parte do que se encontra na Internet é divulgado com o intuito de prejudicar. Informa-te acerca de websites que investigam campanhas de propaganda (alguns dos quais chegam-nos do estrangeiro). Responsabiliza-te pelas tuas trocas de informação com outras pessoas (...) Os melhores jornalistas dos jornais impressos dão-nos a oportunidade de ponderar o significado (tanto para nosso proveito como do nosso país) daquilo que de outro modo pareceria apenas uma série de fragmentos isolados de informação. Contudo, ainda que esteja ao alcance de qualquer pessoa republicar um artigo online, a verdade é que investigar e escrever é um trabalho árduo que requer tempo e dinheiro. Antes de desdenharmos dos 'meios de comunicação de massas', devemos ter em consideração que estes já não são efetivamente para as massas. Fácil e próprio das massas é o desdém, sendo o verdadeiro jornalismo o que é de facto ousado e difícil (...) Se nos decidirmos a procurar os factos, a Internet concede-nos um invejável poder no sentido de divulgá-los (...) Tendo em conta que na idade da Internet a publicação é possível a todos, cada um de nós tem uma responsabilidade individual para com a noção de verdade difundida entre o público. Se estamos realmente determinados a procurar os factos, cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona. Se decidiste averiguar as informações por ti mesmo, é certo que não irás enviar notícias falsas a outras pessoas. Se optaste por seguir o trabalho de repórteres que consideras merecedores da tua confiança, poderás assim transmitir os seus conhecimentos aos outros. Se republicares no Twitter apenas as informações resultantes do trabalho de seres humanos que respeitaram os protocolos jornalísticos, menos provável será que acabes por conspurcar o teu cérebro ao interagires com bots e trolls. Não nos é possível vermos as mentes que prejudicamos ao publicarmos falsidades, mas tal não significa que não lhes façamos mal algum" (pp.59 e 62-64)

12. Faz contacto visual e conversa de circunstância - nos regimes repressivos, no séc.XX, o comportamento de um vizinho - afectuoso ou indiferente - fez a diferença no cimento que permitiu alargar a força da comunidade, ou enfraquecer os laços perante o regime, e, portanto, constituíram-se como passos para mudar, ou reforçar, respectivamente, o status quo

13. Pratica uma política corporal - não chega a denúncia cibernética, nem a indignação de sofá. Muitas vezes, a rua é necessária para haver mudança. E, ainda nela, criar novos amigos políticos capazes de a concretizarem. "Ao poder convém que o teu corpo apodreça na poltrona e as tuas emoções se dissipem num ecrã. Sai à rua. Leva o teu corpo para lugares desconhecidos e envolve-te no meio de estranhos. Faz amigos novos e participa em manifestações na sua companhia" (p.67)

14. Estabelece uma vida privada - não deixes que tudo quanto te diz respeito seja do conhecimento público, não te exponhas (demasiado) na rede. Os tiranos de todos os tempos jogaram com o conhecimento do domínio privado para anularem o "teu" protesto. "Somos livres apenas quando somos nós próprios a delimitar as ocasiões em que somos vistos e os momentos em que tal não acontece" (p.69)

15.Contribui para boas causas - "toma parte ativa em organizações, sejam elas de cariz político ou não, que expressem a tua perspectiva da vida. Escolhe uma ou duas instituições de caridade e decide-te pelo pagamento automático de donativos. Assim, terás feito uma escolha livre que favorece a sociedade civil e ajuda os outros a promover o bem comum (...) No século XX, todos os inimigos de peso da liberdade revelaram-se hostis para com as organizações não governamentais, instituições de caridade e afins. Os comunistas exigiam o registo oficial de todas estas organizações e transformavam-nas em organismos de controlo político. Os fascistas criaram o que vieram depois a designar sistema 'corporativista', no qual todas as atividades humanas eram enquadradas de acordo com um desígnio particular, sujeitas ao jugo do Estado unipartidário. Os regimes autoritários da atualidade (Índia, Turquia, Rússia) são, do mesmo modo, profundamente alérgicos à ideia de associações livres e de organizações não governamentais" (pp.75 e 77)

16. Aprende com os teus semelhantes de outros países - os observadores/jornalistas de Leste foram muito céleres a vaticinar a vitória de Trump, ao verificarem como decorria a campanha. Haviam-se habituado ao mesmo tipo de propaganda por parte dos russos, e notavam como os jornais norte-americanos não desmascaravam automaticamente cada mentira dita pelo então candidato, sentenciando, incessantemente, a sua derrota no estado seguinte (ainda no interior das primárias dos Republicanos). A experiência de nacionais de outros países podem ajudar-nos a ler a nossa própria realidade nacional. E isto, nota Snyder, quando "a história, que durante algum tempo pareceu rumar de oeste para leste, parece agora deslocar-se de leste para oeste. Tudo o que acontece aqui parece acontecer primeiro lá" (p.81). A leste, Rússia, Polónia, Hungria, seus regimes e lideranças.

17. Fica atento a palavras perigosas - a utilização de vocábulos, nos políticos, não raro, não é feita ao acaso. Pretende-se reconfigurar uma realidade, ou paisagem política, com base, também, nas palavras. Atenção, reitere-se, a palavras como "extremismo" ou "terrorismo" e escrutine-se da sua consistência/adesão à realidade. E onde, eventualmente, nos querem levar.

18. Mantém-te calmo quando o impensável acontecer - não deixes que a emoção violenta te leve a uma resposta (política) cega, que o fervor patriótico te manipule (para uma guerra, por exemplo). Contemplando o incêndio no Reichstag, Hitler imediatamente captou a possibilidade de tudo mudar na política interna (na caça às bruxas que a oportunidade se lhe oferecia; ainda hoje se desconhece a autoria do incêndio, mas, no fundo, tal acaba, para o caso, por ser indiferente). "Depois do incêndio no Reichstag, Hannah Arendt escreveu que "deixara de acreditar que uma pessoa pode simplesmente ficar na sua posição de espectadora" (p.92)

19. Sê patriota - e isso significa, por exemplo, pagares os teus impostos. Ser patriota é diferente de ser nacionalista, não significa rejeitar e ressentir face aos demais, mas partilhar "valores universais, padrões pelos quais ele avalia o estado da sua nação, desejando sempre que o seu bem, ainda que não deixe também de desejar que estivesse melhor" (p.95) 

20. Sê o mais corajoso possível - "se nenhum de nós estiver preparado para morrer pela liberdade, então todos nós morreremos sob o jugo da tirania" (p.97)

[Timothy Snyder, Sobre a tirania. Vinte lições do século XX, Relógio d'Água, 2017]

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A exortação de Timothy Snyder para este tempo



1. Não obedeças por antecipação -  se mostras predisposição para te adaptar a ordens e a um arbítrio que ainda só se murmura, o poder acabará por cavalgar sobre essa aceitação/resignação/obediência. Resiste ao mal. Exemplo desta obediência por antecipação: a atitude dos austríacos face aos nazis, mostrando que estavam "prontos", "maduros" para serem anexados e obedecerem cegamente.

2. Defende as instituições - estas podem ser/são a grande arma de defesa que o cidadão tem ao seu dispôr. Mas não confiemos demasiado: elas só se mantêm se estivermos vigilantes e se cada um, como cidadão e profissional, não se demitir. Jornais judeus, na Alemanha, afirmaram perentoriamente que apesar de todos os dislates, abusos, promessas terríveis, nunca Hitler as concretizaria, dadas as instituições vigentes. Viu-se.

3. Cuidado com o Estado unipartidário - apoia o sistema multipartidário. Não faltou quem chegasse ao poder e reconfigurasse a diversidade no uno, sem direito a qualquer adversativa. "Vota nas eleições locais e estatais, enquanto ainda é possível fazê-lo. Pondera uma candidatura a um cargo público" (p.23).

4. Responsabiliza-te pela face do mundo - aconteceu, a meio do século XX, amigos, de um dia para o outro, e como se fosse normal, deixarem de falar com amigos, porque estes foram assinalados com uma estrela. Nunca vires os olhos a um teu amigo. Tem atenção a todos os símbolos. Eles podem danificar, excluir, destruir, cercear o espaço público, capturar a democracia.

5. Lembra-te da ética profissional - a deontologia pode salvar. Se nos recordarmos e praticarmos os juramentos, se os levarmos, a eles e à vida, a sério: "se os advogados tivessem seguido a norma de não se permitir nenhuma execução sem prévio julgamento, se os médicos tivessem respeitado a regra de não se proceder de nenhuma cirurgia sem consentimento prévio, se os empresários tivessem defendido a proibição da escravatura, se os burocratas se tivessem recusado a despachar trabalho administrativo que envolvesse homicídio, o regime nazi teria encontrado muito mais obstáculos ao procurar levar a cabo as atrocidade pelas quais o lembramos" (pp.32-33)

6. Fica alerta com os paramilitares - grupos de capangas, de seguranças privados, rufias foram intimidando, com inusitada violência, adversários políticos dos nazis, assim contribuindo, fortemente também, para estes acederem ao poder (coagindo muitos dos demais cidadãos, ainda que chegando ao poder, em grande medida, ainda, de forma democrática). Neste ponto, portanto, Snyder olha para o papel das SS e das SA, mas fala ainda dos grupos que nos comícios de Trump foram calando - e despachando dos pavilhões - vozes dissonantes (perante o gáudio, em jeito de reallity show do próprio personagem central do comício). Muitos verão aqui exagero, ou mesmo ilegitimidade, na analogia; mas o discurso tem por objectivo ligar todos os alertas. Os sinais da atualidade são preocupantes deveras - eis a mensagem.

7. Sê prudente se tiveres de andar armado -  olha para quantos milhares mataram polícias ao serviço dos diferentes totalitarismos. Está pronto para te recusares; sê capaz de dizer não. Nenhuma burocracia te isenta da responsabilidade individual dos teus actos.

8. Opõe-te - é preciso correr o risco de ir contra o espírito do tempo, quando neste a húbris atravessa os espíritos. O fascismo e o comunismo foram produtos da reacção à globalização, oferecendo como soluções miríficas o "tudo pela nação" (contra a qual estaria em curso uma "conspiração": "um legado intelectual intacto cuja relevância vai crescendo a cada dia que passa") e "o monopólio da razão que faria a sociedade avançar na direcção de uma certa ideia de futuro fundamentada por supostas leis imutáveis da história" (numa sociedade, numa história que desaguaria, "inevitavelmente", no "comunismo"). Hoje, cumpre, de novo, não embarcar nos cantos de sereia que conduzem a lado algum - ou, mais rigorosamente, a um inferno terrestre.

9. Estima a nossa linguagem - "Tudo acontece depressa, mas na verdade nada acontece. Cada história que surge nas notícias transmitidas é de "última hora", até ao momento em que é substituída pela seguinte. Assim, somos levados por onda atrás de onda, mas nunca chegamos a ver o oceano (...) Há mais de meio século, os romances clássicos alertavam para o domínio dos ecrãs, para a proibição de livros, para a restrição dos vocabulários e para os consequentes obstáculos ao pensamento. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953, os bombeiros descobrem e queimam os livros enquanto a maior parte dos cidadãos ocupa o tempo a ver televisão interativa. Em 1984, Geroge Orwell, publicado em 1949, os livros são interditos e a televisão bidireccional, permitindo ao governo manter uma vigilância apertada dos cidadãos. Em 1984, a linguagem dos meios de comunicação visual é largamente controlada, de modo que o público se ache totalmente privado dos conceitos necessários para reflectir sobre o presente, recordar o passado e ponderar o futuro. Um dos projectos do regime consiste em limitar progressivamente a linguagem ao eliminar cada vez mais palavras a cada edição do dicionário oficial. 
Olharmos fixamente para ecrãs poderá ser inevitável, mas o mundo bidireccional pouco sentido faz se não nos conseguirmos socorrer de um arsenal mental que possamos ter desenvolvido anteriormente noutras circunstâncias. Quando passamos a repetir as mesmas palavras e frases que surgem nos meios de comunicação diária, estamos também a permitir a ausência de uma perspectiva mais ampla das coisas. Dispor de semelhante perspectiva requer mais conceitos, e ter mais conceitos à nossa disposição requer leituras. Por isso, livra-te dos ecrãs que tens no quarto e cerca-te de livros" (pp.50-51).

10- Acredita na verdade. Há factos. Não há só opiniões. Não há apenas diferentes narrativas. Há verdade, não há só verdades. Procura, investiga, consolida o que é factual e só depois interpreta. Um espaço público onde não se conseguem estabelecer factos incontroversos leva demasiado longe a noção de sociedade fragmentada.

(cont.)

"Política da eternidade"


Na política da eternidade, a sedução de um passado mitificado impede-nos de ponderar possíveis futuros (...) Tendo em conta que [neste modo de formular a política] que a nação é definida pelas suas virtudes inerentes [intrínsecas/essenciais], ao invés de o ser pelas potencialidades do futuro, a política torna-se num debate centrado nas noções de bem e do mal em vez de levar a uma discussão de possíveis soluções para problemas reais. (...)
Se a política da inevitabilidade é uma espécie de coma, a política da eternidade é como a hipnose: fixamos longamente o olhar no vórtice giratório de um mito cíclico até nos deixarmos levar pelo estado de transe. (...)
Se alguma vez estivemos convictos de que tudo sempre acaba bem, podemos muito bem ser levados a pensar que, no final de contas, nada acaba bem. Se houve ocasiões em que nada fizemos porque achávamos que o progresso era algo inevitável, então poderemos muito bem continuar sem fazer o que quer que seja, isto se pensarmos que o tempo se move em círculos que por sua vez se repetem.

Timothy Snyder, Sobre a tirania. Vinte lições, tradução de Frederico Pedreira, Relógio d'Água, 2017, p.104

Totalitarismo


O significado que a grande pensadora política Hannah Arendt quis dar ao termo totalitarismo não foi o de um Estado todo-poderoso, mas o de uma obliteração da diferença entre vida privada e vida pública. Somos livres tão-só na medida em que temos sob o nosso controlo aquilo que as pessoas sabem sobre nós, bem como as próprias circunstâncias em que passam a sabê-lo. (...) O totalitarismo elimina a diferença entre o privado e o público não só para tornar os indivíduos privados da sua liberdade, mas também para afastar toda a sociedade dos acontecimentos políticos reais e aproximá-la de teorias da conspiração (...) Quando nos mostramos vivamente interessados em assuntos de relevância dúbia em momentos que são escolhidos a dedo por tiranos e espiões, estamos a participar na destruição da ordem política que nos rodeia (...) e é também aquilo que Arendt descreveu como a degeneração da sociedade a ponto de se transformar em mera "populaça".

Timothy Snyder, Sobre a soberaniaVinte lições, tradução de Frederico Pedreira, Relógio d'Água, 2017, pp.72-74

"America first"


Na sua campanha presidencial de 2016, o [atual] Presidente americano fez uso do slogan "A América Primeiro", que foi a designação de um comité que procurou impedir a oposição dos Estados Unidos á Alemanha nazi [individualidades americanas influentes como Charles Lindbergh opuseram-se à guerra com os nazis em conformidade com aquele slogan]

Timothy Snyder, Sobre a tirania. Vinte lições, tradução de Frederico Pereira, Relógio d'Água, 2017, pp.102-103

Sobre o uso político da palavra "extremistas"


Não há dúvidas de que a palavra extremismo soa mal aos nossos ouvidos, e os governos procuram muitas vezes fazer com que soe ainda pior ao usarem uma outra palavra, terrorismo, na mesma frase em que a primeira aparece. Mas esta primeira palavra não tem um significado claro. Não existe doutrina alguma denominada extremismo. Quando os tiranos falam de extremistas, querem simplesmente referir-se a pessoas que não fazem parte do grande público, cuja definição num dado momento parte dos próprios tiranos. Os dissidentes do século XX, ao oferecerem resistência ao fascismo ou ao comunismo, eram designados extremistas. Os regimes autoritários modernos, como é o caso da Rússia, socorrem-se de leis voltadas para o extremismo para punir aqueles que criticam as suas políticas. Deste modo, o significado da noção de extremismo acaba por aplicar-se praticamente a tudo, salvo o que é, na verdade, extremo: a tirania.

Timothy Snyder, Sobre a tirania. Vinte lições, tradução de Frederico Pedreira, Relógio d'Água, 2017, pp.84-85

Estado de excepção permanente


O mais inteligente dos nazis, o teórico jurídico Carl Schmitt, esclareceu em linguagem clara a essência do modo de governação fascista. A forma de destruir todas as regras, explicou, passava pelo foco na ideia de exceção. Um líder nazi vence os seus adversários na condição de estratega ao engendrar a convicção generalizada de que o momento presente é de carácter excecional, e depois disso logra transformar o estado de exceção num estado de emergência permanente. Os cidadãos passam deste modo a trocar a liberdade real por uma falsa noção de segurança
Quando os políticos da actualidade falam em terrorismo, referem-se, naturalmente, a um perigo que é real. Mas quando procuram treinar-nos para a renúncia da liberdade em nome da segurança, devemos ficar de guarda. Não deve existir uma troca necessária entre as duas. Por vezes, o que acontece é ganharmos uma ao perdermos a outra, ainda que nem sempre. As pessoas que nos querem fazer crer que podemos garantir a nossa segurança à custa da liberdade procuram geralmente negar-nos as duas
É certamente possível abdicar da liberdade sem que tal garanta necessariamente uma maior segurança. A sensação de submissão a uma autoridade poderá ser reconfortante, mas não se trata da mesma coisa que a verdadeira segurança nos proporciona. Do mesmo modo, obter um pouco de liberdade pode provocar alguma desorientação, mas este desconforto momentâneo não é perigoso.

Timothy Snyder, Tirania. Vinte licões, tradução de Frederico Pedreira, Relógio d'Água, 2017, p.85

INEVITABILIDADE


A política da inevitabilidade é uma espécie de coma intelectual autoinduzido. Enquanto existiu uma disputa entre os sistemas de governo comunista e capitalista, e enquanto a memória do fascismo e do nazismo perdurou, os americanos tiveram de prestar alguma atenção aos acontecimentos históricos e ao mesmo tempo reter as noções que lhes permitiram imaginar alternativas para o futuro. Contudo, assim que passámos a consentir a política da inevitabilidade, supusemos que a história deixara de ter alguma relevância. Se tudo no passado é governado por uma tendência reconhecível, torna-se desnecessário saber os pormenores. 
A aceitação da inevitabilidade passou a servir como uma espécie de muleta do nosso discurso político no século XXI. Serviu para asfixiar o debate político e gerou uma tendência para criar sistemas partidários em que um partido político defendia o statu quo, enquanto o outro se lhe opunha em total negação. Aprendemos a dizer que "não existe alternativa" à ordem elementar das coisas, revelando-se assim uma sensibilidade que o teórico político lituano Leonidas Donksis designou como "o mal em estado líquido". Assim que a inevitabilidade passou a ser tomada como garantida, o discurso crítico tornou-se traiçoeiro. O que parecia ser uma análise crítica não raras vezes partia do pressuposto de que o statuo quo não pode realmente mudar, e desse modo acabava indiretamente por consolidá-lo

Timothy Snyder, Sobre a tirania. Vinte lições, Relógio D'Água, 2017, pp.100-101