quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Inteligências Múltiplas (II)

Inteligências múltiplas



Howard Gardner explica, aqui, muitíssimo bem, que a ideia tradicional de a pessoa ter uma inteligência geral - e, portanto, cada pessoa ou é/era inteligente ou não inteligente - está ultrapassada por uma visão que anota o tipo, ou tipos de inteligência em que cada um é mais forte, digamos assim, sendo que, é certo, há casos em que se é muito bom em todo o "tipo de inteligências" (mas, na generalidade, somos uma "amálgama"). Assim, a escola, lidando apenas com a inteligência verbal, ou linguística, mais a inteligência lógico-matemática acaba por ser muito redutora. Os testes de Q.I. significam muito pouco e há uma ideia de uma inteligência, ou conjunto de inteligências (oito e meia, segundo o autor), em evolução. A teoria das inteligências múltiplas principiada, por Gardner, nos anos 80 do século XX, mas concluída, apenas, como neste blog se anotou, com a identificação da inteligência naturalista (e, ainda, de uma inteligência existencial) já bem mais próxima de nós, no tempo. A ideia da personalização da aprendizagem, métodos e avaliação, cabe, ainda, nesta aproximação ao problema educativo.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Rawls e as teorias contrárias



Talvez se possa pensar, alguns alunos que hoje cheguem aqui, que esta discussão é apenas académica ou ociosa: afinal, em Portugal e em grande parte do mundo ocidental há impostos, e os impostos são "progressivos" (quem ganha mais, paga percentualmente mais impostos). Rawls terá ganho a batalha (e o problema datado).
Em primeira instância, poderia, desde logo, referir-se, e num apontamento muito breve, que num país com a importância, para as relações internacionais, dos EUA tal nem sempre acontece: por exemplo, no tempo de George W.Bush (2001-2008) os impostos chegaram a ser "regressivos" (quem ganha mais paga percentualmente menos impostos, com o argumento de que isso estimularia o empreendedorismo, as pessoas quereriam pagar menos impostos e assim esforçar-se-iam por ganhar muito dinheiro e deste modo o emprego e a produtividade aumentariam; naturalmente, o que resultou foi um aumento enorme da dívida dos EUA).
Em segundo lugar, e até mais importante a meu ver, é que se desconhecemos porque faz sentido - um amplo sentido, lógico-moral - que paguemos impostos, e que estes sejam "progressivos", estaremos ainda mais predispostos a subscrever, de modo acrítico, baixas de impostos (que, em última instância, não raramente prejudicam os beneficiários da redistribuição fiscal).
Sofremos,adicionalmente, de um perspectivismo claro: em diferentes países não ocidentais a falta de taxação, ou sendo esta extremamente minguada, leva a uma pobreza endémica.
Finalmente, e não menos importante, esta discussão que Rawls propõe faz ver, anos depois da sua morte, a muitos alunos que estão (agora) nas melhores universidades e colégios (no caso destes vídeos, nos EUA, mas aplicável a muitos outros lugares no planeta) que o facto de ali estarem não resulta, exclusivamente, do seu esforço, que o self made man é um mito, desde logo porque dependemos de talentos/dons, etc. que não merecemos.
Recordo-me sempre, a propósito do "princípio da diferença", a saber, cada acréscimo de desigualdade de rendimentos só pode ser justificado se isso for em benefício dos mais desfavorecidos (pagar mais para mobilizar talento para termos médicos que possam tratar de todos, p.ex.), da teoria da justiça do Rawls, que o Phillipe Van Parijs escreveu no livro "Economia Social" que ele era uma espécie de equivalente secular do princípio católico da "opção preferencial pelos mais pobres" (já agora, Van Parijs é um dos convidados da FFMS, para o debate sobre a desigualdade que fará em Setembro, e autor do famoso "Liberdade Real para todos", onde, há vários anos, defendia o agora tão discutido Rendimento Básico Incondicional).

Rawls e as objecções aos princípios de justiça

Rawls e a resposta a crítica dos incentivos

Rawls e a justiça distributiva



Deixo, ainda, mais alguns excertos deste diálogo de Michael Sandel com os alunos, em Harvard (no youtube temos as aulas completas, mas creio que são felizes estes vídeos, desdobrados por temas; no livro "Justiça - fazemos o que devemos"?, Michael Sandel, justamente, dá os exemplos sobre Michael Jordan, ou a juíza Judy que aparecem nestas aulas; no fundo, e como sugeri, no jas-mim, a quando da publicação da obra em português, tal livro é um bom manual para alunos que estejam no final do Secundário/início de faculdade, dados até os exemplos gráficos que assim surgem, para cada um se auto-compreender politicamente: os textos, com vários exemplos, permitem distinguir muito bem um liberal de um social-democrata ou de um comunista. Evidentemente, as distinções político-ideológicas poderiam, ainda, ser outras, e colocadas de muitos modos/ângulos diferentes, e, para muitos, certamente, mais profundas, mas pode ser um começo bastante razoável.

Rawls e a resposta às críticas dos libertários



Neste conjunto de 4 vídeos, acho que Michael Sandel consegue, de modo muito especial, uma síntese extraordinária das críticas libertárias a Rawls e da resposta deste a esses mesmos críticos. Talvez, quando se refere a Robert Nozick pudesse ter desenvolvido o argumento que aquele autor explora e que, tanto quanto conheço, é, possível ou provavelmente, o mais denso que algum liberal alguma vez apresentou, e que pode ser formulado nestes termos: se a pessoa é um fim em si mesmo, como dizemos seguindo Kant, então, mesmo que com as melhores preocupações sociais e visando melhorar a situação dos mais pobres, não podemos ver a pessoa como um meio e utilizá-la, retirando-lhe parte dos rendimentos através de impostos, ainda que para uma finalidade elevada. A questão está em se aderimos a tal mundividência, ou se, inversamente, colocamos em perspectiva a questão da auto-propriedade na medida em que os dons e talentos com que fomos dotados, a família onde nascemos, etc. não relevam de qualquer mérito moral, antes o rendimento acrescido de que beneficiamos por essa arbitrariedade devendo reverter por quem não foi beneficiado pela natureza do mesmo modo. Talvez fosse aqui também de pensar na relação com o princípio social católico do "destino universal dos bens" (com o reconhecimento do direito à propriedade privada, como direito natural, mas também, e em simultâneo, sem o absolutizar). Como dizia o António nessa aula, ambos os argumentos são fortes. Pessoalmente, reconheço-me rawlsiano (neste âmbito; nos âmbitos mais fracturantes, nem tanto, como na questão do aborto, p.ex.).

Rawls e a meritocracia

Dilemas constantes


Tal como em 2002, o euro favorece apenas os setores e os países com maior capacidade exportadora, com a Alemanha à cabeça, sem dar nada em troca aos países com uma estrutura económica mais frágil e voltada para os seus mercados internos. Sem reformas profundas da ZE, os países periféricos do Sul e Leste europeu acabarão por ter de escolher entre o risco colossal de restaurar a sua moeda, para poderem efetuar desvalorizações competitivas, ou continuar pelo atual calvário da "desvalorização interna" (desemprego elevado, emigração da juventude, contração demográfica, pobreza e conflitualidade social). A ausência de acordo entre os vencedores e os perdedores da atual configuração do euro esconde e afasta cada vez mais a única saída que poderia salvar o projeto europeu, que é a da união política. Bastará que o BCE interrompa a sua atual política de financiamento monetário limitado da economia para que todos percebam que o maior risco existencial europeu reside na insanidade incompetente das suas políticas. Se não arrepiarmos caminho, a próxima tragédia europeia não começará com tiros em Sarajevo, mas talvez com o tsunami financeiro resultante de Roma retomar, mesmo timidamente, a sua soberania monetária criando uma lira de trazer por casa.

Viriato Soromenho Marques, DN, 30-08-2017. Na íntegra, aqui.

Diálogos contemporâneos



O exame crítico de Ricoeur quanto à possibilidade de uma ética mundial, na analogia com o(s) idioma(s) é muito interessante e convoca, uma vez mais, a questão da problemática diferenciação entre a norma e a fundamentação da norma - que adesão. Que plus de uma filiação ancorada no religioso, ou que debilidade quando não se sabe por que se respeita uma norma, ou a justificação não é suficientemente mobilizadora/estimulante. Até que ponto as culturas são exatamente traduzíveis, e no elenco das normas que fazer às zonas de fronteira. 
O mais recente livro de Timothy Garton Ash, para nos apercebermos de como a discussão permanece, vai direto a este ponto a propósito da tentativa de elaboração de regras para a internet, ela que é única para culturas/sistemas políticos/comunidades com crenças muito diversas entre si - este projecto, radicalmente, será possível?
Tendo esta entrevista sido realizada há já alguns anos, também o leitor (ou telespectador) poderá, mais razoavelmente, formar a sua perspectiva quanto ao ganho de causa entre diferentes razões esgrimidas - em que resultou o exercício proposto por Kung, se a violência está identicamente presente em qualquer religião e/ou cultura, "se se leva a sério o religioso" e as diferenças, neste, remetem para motivações que se esquecidas ou ignoradas levam a algum lado, se a aliança das civilizações foi um sucedâneo e com que êxito, se é possível alguém representar religiões sem uma liderança definida e clara, etc., etc.
Quanto ao início do diálogo, percebo a questão da convicção absoluta e de uma violência inerente, mas filio-me na corrente, como diferentes antropólogos, sociólogos ou cientistas políticos que viram, na história, a religião como factor de coesão social e ser esse o seu recorte fundamental.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Pensamento social católico sobre o digital

Resultado de imagem para digital

No que respeita à amplitude e profundidade do impacto que produz, a revolução digital, bem como tudo o que lhe está associado - facilitação e aceleração de acesso através da internet e dos dispositivos conectados, capacidade de seguir e captar informações sobre a actividade online de muitos milhões de utilizadores, transformação digital e desmaterialização do comércio, emergência das redes sociais, aprendizagem automática e rápido progresso da inteligência artificial - trata-se provavelmente da mudança tecnológica mais fracturante na história da Humanidade. Ao contrário das grandes inovações que impulsionaram a Humanidade para voos mais altos - seja no campo da medicina, da engenharia, da agronomia ou da física - a internet, aliada aos avanços alcançados na potência informática, afectou profundamente, e inclusivamente modificou, o comportamento humano. É nesta diferença que reside o especial interesse de que se reveste o estudo da natureza revolucionária do digital de um ponto de vista cristão, tendo em conta que a Doutrina Social da Igreja Católica se propõe apreciar a essência de tais desenvolvimentos na perspectiva holística do bem comum, indo diretamente ao cerne do que significa ser humano, e não se limitando cegamente à perspectiva unidimensional do «progresso».
É precisamente porque as tecnologias digitais - através de dispositivos conectados e da «internet das coisas» - se infiltraram tão profundamente na economia, no nosso quotidiano e nas esferas da interacção social, e porque a sua capacidade de manipular, controlar e distorcer é tão completa, que a revolução digital, também denominada quarta revolução industrial, requer uma resposta especificamente cristã.

Jean Pierre Casey, Para uma ecologia humana integral na era digital, Brotéria 185, Julho 2017, pp.56-71

Após esta introdução, e compulsando diferentes pronunciamentos, de Papas diversos, sobre a comunicação e o digital, Casey procura fixar um acquis do pensamento social católico sobre a matéria, sem deixar de anotar como falta um documento sistemático em este âmbito:

1) reconhecimento da neutralidade moral das inovações tecnológicas (depende do adequado uso das mesmas; "não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade para fazer bom uso dos meios ao seu dispor", escreveu o Papa Francisco);

2) ao reconhecer "os efeitos positivos das novas formas de comunicação possibilitadas pelo progresso tecnológico, a Igreja chegou mesmo a considerá-las um «dom de Deus», pelo qual devemos estar agradecidos, um «verdadeiro dom para a humanidade, ou mesmo «maravilhosos inventos técnicos», ou inter mirifica («entre as coisas maravilhosas»), o que sugere algo acima da neutralidade moral, mais próximo de algo «bom»";

3) todavia, há um tipo de humanismo messiânico em que o Homem se imagina homo deus e crê engendrar-se a si mesmo, experimentando sem o devido discernimento ético: ora, "a crença de que tudo o que é tecnicamente exequível é legítimo é uma ideologia materialista e utilitarista" que a Igreja rejeita;

4) a Igreja apela, nas palavras do Papa Francisco, a que "não tenhais medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital", até porque "nas estradas congestionadas" do digital há "homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança". O Papa considerou determinante a presença online da Igreja;

5) para o discernimento do valor das novas capacidades técnicas, João Paulo II propunha o seguinte teste: estas novas capacidades técnicas tornam o Homem "verdadeiramente melhor, isto é, mais amadurecido espiritualmente, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais responsável, mais aberto para com os outros, em particular com os mais necessitados e os mais fracos, e mais disponível para proporcionar e prestar ajuda a todos?"

6) Casey propõe neste contexto:

a) que a Igreja encete "um diálogo mais activo e eficaz, enquanto Igreja, com Sillicon Valley e as empresas tecnológicas que lideram as mudanças globais na nossa cultura e hábitos pessoais (por exemplo, Amazon, Google, Facebook). É imperativo iniciar este diálogo para as expor à mensagem do pensamento social cristão relativamente às tecnologias digitais, na expectativa de que alguns princípios éticos indiscutivelmente válidos que lhes estão subjacentes as possam influenciar e, pelo menos, alguns deles possam ser aplicados às respectivas práticas empresariais de concepção, distribuição, manutenção e operação de dispositivos, plataformas e redes digitais. Atendendo aos esforços dos seus grupos de pressão no sentido de diminuir a semana de trabalho devido à automatização, um bom ponto de partida será sensibilizá-los para o valor teológico do trabalho";

b) "reconhecer a importância de uma vida de oração", pois "em última instância, a natureza e a utilização das tecnologias digitais constituem um problema de comunicação que tem de ser solucionado";

c) "empenhamento político que sensibilize os representantes eleitos para os riscos (...) em especial as consequências perigosas da experimentação desenfreada no campo da inteligência artificial e o controlo regulador insuficiente sobre as actividades do movimento trans-humanista";

d) "uma orientação pastoral mais clara sobre o que constitui uma 'utilização ordenada' de tais tecnologias"

e) "desenvolver métodos de 'desintoxicação' digital global, não através da abertura de centros místicos de fitness e bem-estar, mas através da redescoberta da fé e de uma participação mais activa na comunidade, seja religiosa, de voluntariado, política, desportiva ou cultural. Contribuir para o sentido do "maravilhar-se", do mistério divino através, por exemplo, da liturgia, e restabelecer o contacto com o mundo natural e físico depois de se estar tão consumido pelo mundo digital, aproveitando as muitas facetas positivas da vida monástica: horários regulares, comida simples e natural, trabalho manual, contacto regular com a natureza, etc."

f) "redescoberta do silêncio (...) e redescoberta das virtudes. (...) Numa era digital de ritmos acelerados, a virtude da paciência é provavelmente uma das mais vulneráveis. Toda a nossa espera salvífica é uma história de espera (...) Ora, a paciência está intrinsecamente ligada à virtude teológica da esperança".

O autor não deixa, como já registamos, de realçar:  "esperamos que este texto possa dar um contributo substancial para esse esforço, mas reconhecemos que não existe, tanto quanto se saiba, um guia acessível e de fácil compreensão sobre os ensinamentos da Igreja em matéria do digital, trans-humanismo e assuntos que lhe estão relacionados" (p.69)

"Amanhã"



O documentário, de Cyril Dion e Mélanie Laurent, que procurou alternativas aos cenários mais catastrofistas relativamente ao futuro da Terra e da humanidade, mostrando concretas experiências, em comunidades, cidades, mudanças pessoais que, em diferentes partes do globo, da agricultura, com as hortas em Detroit (de 2 milhões de habitantes na década de 60 para os actuais 700 mil) até à democracia deliberativa local na Índia, onde diferentes castas colaboram entre si, passando pela existência de moedas locais na Suiça ou em Bristol, e concluindo com a educação finlandesa, os mestrados de 5 anos para os futuros professores serem expostos às mais variadas pedagogias, até à ausência de burocracia, a confiança interpessoal, a escola a cargo das comunidades, o diretor com real autonomia, os docentes que almoçam ao lado dos alunos, estes que aprendem a cozinhar e a coser, a escola é gratuita incluindo a cafetaria e o modelo que às vezes por aqui vigora acabou nos anos 70, ontem a RTP1 passou, a ver aqui.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Outras leituras


*A globalização recua?, por Francisco Sarsfield Cabral







*Metamorfoses na estratégia terrorista, não financiada já, necessariamente, por um país, nem transferências bancárias - agora apertadas -, mas por resgates de reféns que governos ocidentais aceitam pagar, por exemplo. Utilizar, até, a palavra "células", neste contexto, de absoluta fragmentação em que cada mini-grupo de terroristas é autónomo, é errado. Estes perpetradores de violência e morte, têm, agora, de contentar-se com o estatuto de "terroristas" em vez de "guerreiros do califado", uns bons degraus de perda na escala social. A política está contida nas fronteiras nacionais, quando estes grupos não se encaixam nesse paradigma (vejam-se as interconexões dos terroristas de Barcelona com a Bélgica, ou a Suiça. Também aqui faria falta um organismo com um olhar angular, transnacional sobre o problema.) O texto é de Loretta Napoleoni


*Teorizações democráticas,por Daniel Innerarity



Por falar em politicamente correcto (III)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Discussões intra-"liberais" (nos EUA)


Um artigo de Mark Lilla que agora deu origem a um livro, do mesmo autor, e que tem sido motivo de bastante discussão no seio dos liberais norte-americanos (mas inspirador de muitas outras análises de idêntico recorte, a nível internacional, Portugal incluído, entre comentadores social-democratas e/ou pró-democratas nos EUA), ou seja, a ideia de que os democratas têm que suplantar um discurso identitário, fragmentado, dirigido a uma soma de pequenas (grandes identidades), deixando outras de fora (com capital de queixa e descontentamento), centrando-se naquilo que é comum (a todos os americanos) e colocando o acento em problemas como a economia, a história, a guerra, a classe, o bem comum, como desiderato para futuras conquistas eleitorais, mas, mais fundamentalmente, para um renovado olhar sobre as coisas e o mundo que desde a escola é inculcado em muitos norte-americanos.

Resistência (ao nazismo)

Carta a um amigo


A propósito do tópico "pertinência cristã hoje", e da interpelação vespertina do jornal, eis a carta a um caro amigo:


Uma das leituras que fiz nos meses mais recentes foi da obra "Homo Deus", de Yuval Noah Harari. Tinha visto as críticas de "Sapiens", vi os conselhos do "Babelia", do ElPais, e já depois de o ler, vi-o tomado como quase guru num dos encontros, com vários académicos, em Mateus, sobre o futuro do trabalho; registei a sua presença no "GPS", de Fareed Zakaria, na CNN (RTP3); percebi que o DN, de modo insólito, publicou, há poucos meses, uma entrevista com ele com tradução em inglês (não me recordo de outro caso, naquele jornal); li as referências que a ele se fizeram nos artigos do Prof.Anselmo Borges, etc, etc. Isto, apenas para me referir a uma personalidade com obra hoje muito citada/divulgada a nível internacional.
Ora bem, e o que diz Harari neste seu último livro? Que a imagem que temos do mundo é a das "ciências da vida" (que me parece ser dada por boa pelo autor) e, na descrição do Professor judeu de História, isso significa, entre outras coisas, que o livre-arbítrio não existe (nós escolhemos entre desejos, mas não escolhemos os desejos que temos, e, portanto, não somos, em nenhum sentido, livres), não existe um eu, não somos indivíduos, mas, antes, divíduos (entre o "eu narrador" e o "eu experimentador" de Kahneman, vamos deixar de ter a preferência pelo primeiro, pelo relato, pela narrativa que nos dá um sentido unitário, porque as máquinas vão conhecer-nos melhor que nós mesmos e ditar o que fazer, e, desse modo, não seremos enganados pela fantasia, pelo relato, pela narrativa que nos envolve), sendo que a biologia "descobriu" que somos "algoritmos orgânicos". A cisão entre inteligência e consciência, bastando-nos ou alcançando melhores resultados inclusive, com a primeira - mesmo que inorgânica - levar-nos-à a ficarmos como seres humanos supérfluos - e apenas os super-homens serão valorizados (sendo que super-homens serão os que tiverem capacidades intelectuais/materiais/de riqueza que permitam potenciar todas as possibilidades do mundo de fusão homem-máquina e quejandos). 
Evidentemente, nesta lógica, "os cientistas" abriram a "caixa negra" do Homem e lá "não encontraram a alma" (não encontraram alma alguma). O humano é biologia, pura biologia, e o bem e o mal são o prazer e a dor (reitere-se uma vez mais).
E, sem livre-arbítrio, que lugar para a responsabilidade e a dignidade? Que valor para o humano? Como se encontra neste estádio, o humano transfere para as máquinas as suas decisões (dadas as tuas preferências, a tua pressão arterial ao assistires a dada notícia no jornal das 8, dado o post que publicaste no facebook, mesmo que agora te pareça bem o programa do partido x, aquilo que corresponde ao que tu pensas e queres é o partido y; a parceira sexual preferida para ti, dadas as características psíquico-biológicas de ambos, aquela que é mais compatível e com mais possibilidades de durabilidade do relacionamento de ambos é a senhora tal; quer dizer, nós somos o google, ou, mais rigorosamente, o google é nós). O sistema, escreve Harari, deixará de respeitar os indivíduos, apenas respeitando o colectivo humano.
Perante isto: a) seria de esperar, de conceber que os "cientistas" fossem, com recurso ao seu método (experimental), encontrar a "alma" (mesmo que a definição desta, ou certas imagens tradicionais desta, possam estar em crise)?; b) relativamente à questão do livre-arbítrio, e entre muitos outros autores, gostaria de referir estes:

"Primeiro, não é a mente que pensa e raciocina, quer coisas e tem finalidades, forma intenções e toma decisões, actua voluntariamente ou intencionalmente. É o ser humano. De facto, caracterizamos uma pessoa como tendo uma mente límpida, rigorosa ou decisiva. (...) Se queremos compreender como é que uma pessoa normal raciocinou da forma que o fez, pensou o que pensou, tem os objectivos e propósitos que tem, e porque decidiu o que decidiu, formou tais e tais intenções e planos, e agiu intencionalmente, não há nenhuma justificação neurocientífica que nos esclareça o que queremos ver esclarecido (...) E se a nossa explicação tornar inteligível o seu raciocínio, não é preciso acrescentar mais nenhuma informação sobre os eventos neurais do cérebro. O máximo que uma explicação neural conseguiria fazer seria explicar o modo como era possível à pessoa raciocinar convincentemente (ou seja, que formações neurais têm de estar no seu devido lugar para dotar um ser humano com tais e tais capacidades intelectuais e volitivas), mas ela não consegue relatar o próprio raciocínio, quanto mais explicar a sua força.(...)
Se A matou B, podemos querer saber a razão. Podem dar-nos uma razão, mas mesmo assim podemos continuar insatisfeitos, querendo compreender melhor - mas o «melhor» que queremos compreender é muito provavelmente o motivo de A, e não os eventos neurais ocorridos na altura do assassínioQueremos saber se ele matou B por vingança ou ciúmes, por exemplo, e isso exige uma narrativa muito diferente de tudo o que a investigação neurocientífica conseguiria produzirA explicação da acção por redescrição, por citação de razões de actuação, ou pela especificação dos motivos do agente (e há outras formas de explicação de tipos relacionados com estes) não são substituíveis, mesmo em princípio, por explicações em termos de eventos neurais no cérebroEste assunto não é empírico, mas lógico ou conceptual. O tipo de explicação é categoricamente diferente, e as explicações em termos de razões e motivos, objectivos e propósitos de actuação, não são redutíveis a explicações de contracções musculares produzidas em consequência de eventos neurais (...) 
Na medida em que a mente não é uma substância, de facto não é uma entidade de tipo algum, não é logicamente possível à mente funcionar como um agente causal que provoca mudanças no agir do cérebroNão estamos a tratar aqui de uma descoberta empírica, apenas de um esclarecimento conceptual. (...) Também é verdade que os desígnios perseguidos por uma pessoa não são os desígnios do cérebro dessa pessoa. Mas não se segue daqui que são os desígnios da mente dessa pessoa. São os desígnios da pessoa - e devem ser compreendidos como factos sobre a vida humana, formas de vida social, eventos antecedentes, circunstâncias actuais, crenças e valores de actuação, e assim por diante, e não em termos de eventos e mecanismos neurais. Mas, evidentemente, é verdade que, sem o funcionamento normal do cérebro, o ser humano não teria, e não seria capaz de se dedicar aos tipos normais de desígnios a que nos dedicamos".

M.R.Bennett e P.M.S. HackerFundamentos filosóficos da neurociência, Instituto Piaget, 2005, pp.78-80.

O que estas afirmações fazem colocar em cheque são os seguintes pressupostos filosóficos - claro que há estes pressupostos filosóficos - de alguns autores na área da neurociência: a) concepção cartesiana da mente; b) a pretensão de que é empírica a questão de saber se os mecanismos cerebrais podem ser responsáveis pela mente."

O principal problema para muitos conceitos e usos «novos» da linguagem nas abordagens reducionistas é que este teste fracassa totalmente. Acontece que esse novo uso da linguagem não é científico, trata-se antes de uma ferramenta política ou social. (...) Não podemos, de forma coerente, negar a nossa própria racionalidadeDe contrário teríamos dificuldades em expressar o que dizemos ou de ser convincentes ao dizê-lo, que é precisamente o que acontece no triste caso das pessoas mentalmente doentes que, não obstante estarem cientes da sua irracionalidade, não a conseguem resolver. Se conseguíssemos ter êxito na «redução» do comportamento racional à simples causalidade molecular ou celular, então deixaríamos de ter capacidade de exprimir com sentido a verdade daquilo que conseguimos fazer. Mas, felizmente, essa redução não é concebível."

Denis Noble, Professor de Fisiologia Cardiovascular na Universidade de Oxford, secretário-geral da União Internacional das Ciências Psicológicas (1993-2001), in M.R.Bennett e P.M.S.Hacker, Fundamentos Filosóficos da neurociência, Instituto Piaget, 2005, pp.11-14. Bennett é Professor em Sidney e Hacker em Oxford.

c) a ideia de que os biólogos são responsáveis por termos esta imagem do mundo (sem livre-arbítrio e sem individualidade) é outra coisa que me parece extraordinária e errada. Como bem diz Rob Riemen em "O regresso da princesa Europa" se o cientismo, como ideologia, se impõe é porque a sociedade o permite. Não, não há responsabilidade - que até parece ser boa, no entender do autor - exclusiva de ninguém, seja dos "biólogos", seja, mais genericamente, dos cultores das "ciências da vida". Se o raciocínio ético não pode ignorar as descobertas "científicas", não cabe ao método empírico resolver problemas conceptuais, nem, muito menos, determinar uma mundividência - aliás, só um posicionamento acrítico perante afirmações desta as poderia subsumir a autoridade máxima e, de resto, exclusiva (fora do positivismo não há salvação). 

Se anoto isto é porque me parece que os enunciados vertidos neste influente livro de Harari [mas que encontramos, no caso do determinismo, para dar apenas um exemplo, no livro coordenado pelo Prof. Pedro Galvão, editado pelas Edições 70, de 2012,A filosofia por disciplinas] - que volta ao nietzcheano "Deus está morto" [como se Deus, Ele mesmo, pudesse morrer; neste ponto, remeto, em anexo, para os apontamentos de Jean-Luc Marion e Halík] e só "falta algum tempo para enterrar o seu corpo" [aqui atenção, sem dúvida, ao modo como estamos a minguar a participação, pelo menos em moldes tradicionais, da presença na ecclesia e no necessário questionamento quanto à plausibilidade do tipo de vivências e de transmissão cristã que temos feito e/ou estamos a fazer, questionamento que tem vindo a ser feito em na Igreja Portuguesa] - tendem, claramente, a Ocidente, a tornar-se não apenas maioritários, mas hegemónicos (fora do ensaio, no mundo puramente "literário", regresso ao romance "A possibilidade de uma ilha", de Michel Houellebecq: também aí, este mesmo diagnóstico, como sendo a concepção hodierna do mundo, o de pura biologia, o sexo como o sentido da vida, porque finalidade nenhuma, sentido nenhum, valor algum há a prosseguir", livro, recordo, tido por Leonidas Konsis, no livro em co-autoria com Zygmunt Bauman, como "a distopia insuperada" do séc.XXI, até ao momento). 

Sendo este o contexto em que nos inscrevemos, poderemos não esperar de uma tradição (de fé/religiosa) que ela crie inventos técnicos que concorram com as últimas plataformas dos mais avançados homens das tecnologias - como se fosse esse o seu papel, como parece requerer Harari; que, em todo o caso, reconhece como as ideias cristãs sobre a questão da pobreza e da igualdade foram centrais para as mudanças societárias durante séculos -, mas, por exemplo, sem dúvida que teremos que responder mais e melhor à urgência, nunca inacabada, da inculturação.

Dou um exemplo: o Francisco, do 9ºano, a meio do ano letivo, porque procuro trazer para as aulas as questões que hoje se colocam - como dizia Carrilho, concordo muito com isso, temos que ensinar enquanto aprendemos ao mesmo tempo, ensinar é passar aos alunos aquilo que nos apaixona também; Maria Filomena Molder, do mesmo modo, na Culturgest, avançava exatamente na mesma linha: cada vez que estou a ler um livro, que percebo como precioso, levo-o para a aula (evidentemente, "levo" o seu conteúdo fundamental) - envia-me um email a perguntar: então, o que pensa a Igreja sobre a Inteligência Artificial? Solicitou-me que visse o vídeo seguinte e que explicasse a referida posição.


Pessoalmente, propusera-me, justamente, no Verão anterior, a ler alguns dos mais recentes manuais de Bioética, nomeadamente o da Professora Maria do Céu Patrão Neves, "O Admirável mundo da bioética", inscrevi-me em algumas formações neste âmbito, e compulsei um ou outro livro em que se abordava esta temática - mas entre várias outras - no interior do mundo católico (mas com gente das ciências da vida também). 
Não existe um documento sistematizado, do Magistério da Igreja, da Igreja como um todo, sobre esta problemática: eis um problema. Creio que se poderá arguir que sendo a Igreja Católica, universal pois, os seus membros, e entre os mais qualificados nestes âmbitos mais próximos dos eticistas, estão perfeitamente habilitados, e assim se desejará até, para raciocinarem e procurarem, cada um deles, as respostas (cristãs) a estas demandas (a Bíblia deixa-nos pegadas, que remetem para um dado caminho; por vezes, esse caminho, a alguns, parecerá contraditório; seguir em um caminho inverso ao da proposta será errado, mas nesse caminho muitas estradas há, e o convite à criatividade imenso; nem todos os temas estavam aí há 2000 e há 3000 anos). Ok. E, no entanto, vemos como um esforço de sistematização, de codificação, de contínuo aprofundamento de um tema de suma-importância, de aporte dos melhores especialistas no interior de uma mundividência cristã - como sucedeu, por exemplo, na questão ambiental, com a encíclica Laudato Si - poderia permitir um meio auxiliar e de uma resposta mais identificável, e mesmo de presença da Igreja nos desafios mais prementes dos nossos dias (como sempre está, volto à ecologia integral, mas um esforço que importa prosseguir). Neste mais recente número da Brotéria, curiosamente, Jean Pierre Casey faz sentir esta mesma falta - neste âmbito da IA -, mas, ele mesmo, esboçou apresentar uma proposta com alguns princípios norteadores para este mundo. Se nada tivéssemos/tivermos a dizer ao Francisco, aos 14 anos, sobre a posição cristã católica sobre a Inteligência Artificial ele entenderá que a Igreja está ultrapassada no sentido de nada ter a dizer sobre o mundo de hoje, o mundo dele. Modestamente, procurei sintetizar, em uma dúzia de páginas, algum acquis inspirado no cristianismo relativamente a esse mesmo universo.

Face à nova imagem do mundo, sem livre-arbítrio, sem indivíduos - e quando isto deixar o plano estritamente filosófico e passar para os gadjets e aplicações no quotidiano as pessoas vão ainda mais sentir o novo cosmos, refere Harari - vamos "precisar de um novo pacote de crenças religiosas e de instituições políticas" [imagine-se, já agora, o sistema judicial, sem que haja responsabilidade individual, culpa, autoria], complementa o ensaísta. Volta a rememorar: na distopia a que aludia Houellebecq, a nova religião prometia a imortalidade na Terra e os preceitos eram os dos prazeres sensíveis (a única moral, a única prescrição/obrigação).

No mundo do positivismo, o conselho de um amigo, uma sentença de um juíz, as reflexões de um sábio, a conversa de um psicólogo não têm validade, abana-nos Rob Riemen. A beleza ou o amor não existem, ou são a sinapse xptqwrstfhgijpum.

O narrador de "A possibilidade de uma ilha" vê um mundo sem qualquer sentido, a sociabilidade superada, o riso e o choro finitos ("desaprendemos de chorar", disse Francisco), o humano como mera biologia, sem nenhum valor especial (esquecemo-nos dos porquês, como também Henrique Raposo escrevia sobre as encomendas de bebés, pelos Ronaldos, em barrigas de aluguer), um mundo gélido, onde a gratificação física é a única coisa que vale a pena (e no entanto...render-se-à à possibilidade do amor). 
Apostamos por um mundo cínico - quem não acredita em nada está disposto a acreditar em qualquer coisa, Chesterton -, em que nada vale a pena, em que já não nos rimos nem choramos, em que o ideal é o da racionalidade instrumental, em que não há que lutar por coisa nenhuma, em que bem e mal são prazer e dor, em que façamos o que façamos vai dar ao mesmo, onde homens e mulheres valem tanto (ou menos, na realidade, para muitos) do que um cão (os homens passaram a ter cães em vez de bebés nos apartamentos, numa clara revolta do humano contra si mesmo, postula Houellebecq) ou apostamos pelo calor da amizade, por que a compaixão vale a pena, pela obrigação pelos últimos, por esculpirmos uma nesga de beleza, pela capacidade de estupor, por acrescentarmos um pedaço de luz na área de conhecimento (parábola dos talentos) de que nos aproximamos, porque cada homem e cada mulher têm, eles mesmos, cada indivíduo, valor (um acquis judaico-cristão como reconheceu Habermas e agora se pretende apagar e regredir), em que nos sentimos ao colo, não sem angústias, dores ou dúvidas? Isabel Capeloa Gil dizia ao Público que ser cristão não é um estatuto que se carrega, mas uma prática que se discute.
E Halík afirmava, no seu penúltimo livro, que ser crente não tem tanto que ver com a definição de Deus ou de deuses, mas, antes, com o modo como encaramos a vida: quando eu agradeço a manhã, a flor, a montanha, o filme que vi, a peça de teatro, a emoção do jogo de futebol, a amizade, a minha avó, se digo "agradeço à natureza", ou "agradeço à Vida", mais não estou a utilizar um pseudónimo para Deus e talvez não seja mais exacto porque possuo um conceito demasiado estreito Deste - e ele É a realidade da realidade, a profundeza em que entro quando me supero, amando.

Ratzinger exortava a que não fossem os crentes a viver como se Deus não existisse - e aí alguma razão a Harari: não se nota demasiada diferença, mea culpa, mea culpa -, mas que os não crentes (independentemente dos usos e da validade, ou interpretação, destas nomenclaturas) pudessem viver - dentro do ponto de vista deles - como se Deus existisse

Retomando ainda Halík, o cristianismo estará em perda, digamos assim, por ser vítima da sua própria vitória (o Francisco assim mo dizia, boa cabeça, mesmo desconhecendo Halík). A sociedade adoptara o cristianismo, ignorando já de onde vem as normas que a conformam (a fonte de onde mana). [já agora, para o terreno estritamente político, era o argumento de Tony Judt relativamente à social-democracia]. Pois eis o problema: se eu não sei por que o humano tem dignidade, ou se as razões do liberalismo político, esgrimido como única razão, não me mobilizam verdadeiramente, então é natural que eu passe a pensar que não tem nenhuma dignidade [grande valor], pois que isso seria um "preconceito religioso", nos termos de Steiner].

Sei que há já uns anos escreveu um maravilhoso texto relativo ao positivismo que gostei imenso de ler. Diria que esta corrente positivista [horrível é escutar, sucessivamente, na televisão: ah, eu tenho um grande positivismo a olhar para as coisas!], se possível, em 2017 está, ainda, mais activa, mais acentuada, vai recrudescendo de intensidade (pelo meio, é verdade, há também mais algumas pessoas dispostas à dúvida, mas não me parece que predominem). O contexto da Inteligência Artificial, dos empregos (supostamente) vacantes, da "gente supérflua e inútil" na nova economia - e, logo, se sem valor comercial, sem utilidade, sem dignidade tout-court para muitos - impôs de novo esta agenda. 

Evidenciar, sempre renovadamente, de forma criativa, como o modo cristão de estar no mundo é o que beneficia, por antonomásia, o humano (ainda que marcados por esse lebenswelt e, discutivelmente portanto, se possa falar, em essa apreciação, de uma inteira visão imparcial; de o homem sem óculos interpretativos da realidade) e abeirar-se das explicitações que tal pode implicar no quotidiano - na perspectiva da ecologia integral, na ética da Inteligência Artificial, na reivindicação de alguma margem, mesmo com condicionamentos inegáveis, de liberdade - eis tarefas que nos estão acometidas, penso. Como somos seres gregários, não tenho demasiadas ilusões sobre a existência de influência do modo geral de ler a vida e o cosmos sobre a mesma ecclesia (ainda que estejamos no mundo sem sermos do mundo). Todavia, há, ainda, a solicitação do Papa Francisco: estamos aqui, sobretudo, pessoas com uma idade avançada [embora, claro, não seja esse o nosso caso]? Isso não é motivo nenhum para não colocarmos todo o nosso empenho [alegria, energia] nesta mesma filiação, pertença, presença, celebração.  Quando pergunto "em que apostamos"?, sei que faremos o mesmo mergulho (nas mesmas àguas agraciadas). O que é bastante bom, porque, como recorda Tolentino, o amigo é a prova de que Deus nunca nos abandona. 

Desculpe a extensão do email e a escrita ao correr da pena (espero que sem demasiados pontapés na gramática...que já lá vão duas horas nesta resposta que a sms vespertina me desafio a intentar). Um grande abraço, Pedro

P.S.: o livro de Harari, bem entendido, tem uma profusão de dados, informações e conhecimentos que me foram muito úteis e que guardo com o maior interesse. Mas sobre Deus e o que compete, digamos assim, ao âmbito da fé/espiritual/religioso muitas vezes penso que deixa um tanto a desejar. Dá ideia de partir da concepção, ainda, de um deus que é o senhor de barbas e que está nos bastidores, ou ideias sobre Céu e Inferno muito datadas, e coisas do género. 
Concluo com Riemen: a ciência, depois de tudo esclarecer, deixa tudo por dizer: a) o que faço da vida de que participo?; b) a que me vou dedicar durante a minha existência, se o puder escolher?; c) porque devo optar pelo bem em vez do mal?; d) a vida tem sentido ou é tudo absurdo?; e) Deus existe?, etc.etc.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Debate de Vila Real


1.A questão colocada por Joana Rapazote (CDS-PP) no debate televisivo com os candidatos à presidência da Câmara Municipal de Vila Real, transmitido, esta terça-feira, pela RTP3, a saber, a necessidade de definição de uma estratégia para o concelho encerra, a meu ver, um ponto determinante, que nunca vejo discutido, e se prende com o tipo de condições existentes para se construir/elaborar um programa/projecto para um concelho - o de Vila Real, como qualquer outro, sendo isto válido para todos os partidos. 
Reclamando, por certo, um programa detalhado, de qualquer partido, para um dado concelho, um estudo prévio muito sério e rigoroso, que leva(ria) meses, ou mais de um ano, a desenvolver; exigindo, evidentemente, equipas multidisciplinares, com valências diversas; demandando muitas horas dedicadas e devotadas à preparação desses papers para poderem ser, efectivamente, concretizados é necessário que nos interroguemos sobre a existência de condições para atrair quadros com estas competências. Podemos, eventualmente, pensar em um mundo - ideal segundo alguns, indesejável no entendimento de outros -, em que o sacrifício pessoal, pro bono, reiterado ao longo de um tempo extenso, retirado à família ou ao conforto pessoal chega para um (relativamente amplo) conjunto de pessoas se reunirem, estudarem, corrigirem, debaterem, verificarem, preverem, calcularem, modificarem. Provavelmente, de modo mais realista, creio, sem colocar de lado a existência comprovada de pessoas com estes mesmos espírito e perfil (vindos de descrever), melhor seria preparem-se incentivos susceptíveis de atrair os referidos quadros - que partilhem, evidentemente, uma dada mundividência ou pré-compreensão do mundo do partido ou movimento que os convidem a melhorar/densificar o seu contributo para a cidade - para uma planificação e planeamento, para um cruzar de informação/conhecimento/saberes/competências que permitam beneficiar um concelho pelo simples facto de se apresentar uma proposta bem fundamentada/sustentada, sólida.
Ao longo de décadas, é verdade, práticas como a oferta, indiscriminada de brindes (a pataco), outdoors sem substância pagos a peso de ouro, promessas a rodos, campanhas negras, entre outros, tornaram muito difícil passar, posteriormente, uma mensagem da importância crucial dos partidos para a democracia, da necessidade do financiamento destes, da sua não subjugação a interesses inconfessáveis e a promiscuidades perigosas, absolutamente alheias ao bem comum e ao interesse público - afinal, o financiamento dos partidos como um dos problemas maiores das democracias contemporâneas -, dos efeitos negativos que advêm de programas feitos em cima do joelho, mau planeamento, ideias (apenas) genéricas para um concelho (ou, mesmo, um país). No fundo, trata-se da relação entre o conhecimento e a política, de que fala, com grande felicidade, parece-me, Manuel Maria Carrilho (com a experiência que detalha e que não se viu repetida).
É verdade que os incentivos/estímulos à participação num gabinete de estudos, num instituto, num think tank, numa fundação podem não se referir, necessariamente, a uma componente monetária. Pensemos, por um momento, em que o actual ministro das Finanças, Mário Centeno, coordenou um desses grupos de estudo pré-eleitorais num partido e, posteriormente, foi indicado para exercer funções executivas (o que não excluindo uma remuneração durante o tempo em que exerceu aquelas funções de consultor para a área económico-financeira do referido partido, poderá permitir-se conceber uma alternativa a essa mesma remuneração). Mas também me parece excessivo não considerar a hipótese da necessidade dessa alocação de recursos ao dito sistemático estudo (a benefício de todos). Para retomar a exemplificação de Carrilho, na Alemanha é possível saber-se, exactamente, o número de engenheiros, de uma dada área, de que o país irá necessitar, dentro de alguns anos, porque por ali campeiam fortes Fundações que estudam esses, entre muitos outros, problemas (ou melhor, pessoas, remuneradas, que nelas - nessas Fundações -, se dedicam a investigar tais temáticas).
Podemos perguntar-nos se os partidos, ainda hoje, decidem utilizar as subvenções públicas para mobilizarem o conhecimento para a política, isto é, e em última instância, para benefício de uma dada comunidade e suas populações. Podemos, ulteriormente, indagarmos se os partidos descentralizam e o fazem com equidade (que verbas são alocadas e com que critérios, pelos partidos, às suas secções de Vila Real, por exemplo?).
O que não podemos é mostrar-nos surpreendidos, nem, muito menos, desiludidos com candidatos que oferecem, invariavelmente, respostas genéricas, que fogem de temas, que remetem para realidades que dificilmente se enquadram em eleições autárquicas, que não conhecem legislação fundamental que conforma, ou virá a conformar as autarquias, que fazem meras proclamações ideológicas, que marcam presença para mostrar que o partido existe. Não nos mostramos desiludidos, porque não devemos ter ilusões: sem uma preparação muito atempada, sem muito tempo para estudar - e, aliás, como compaginar essas horas e esse tempo com carreiras profissionais que são sempre exigentes? -, sem uma equipa a monitorizar os dossiers durante vários meses, ou anos, dificilmente o resultado pode ser extraordinário. A pobreza do país também se mede na ausência de recursos para uma maior e melhor preparação de políticas a implementar - alguns dirão ausência de mais casos de filantropia do que aqueles que são públicos e notórios. A pobreza e, diga-se, a dificuldade de ir contra a corrente - de contrariar o eleitorado, como sugere Daniel Innerarity - e identificar, desde logo identificar, a existência desta problemática. A incapacidade de não surfar a onda anti-partidos, a demagogia de café, ou, igualmente, no interior destes (mesmos partidos), de mudar práticas, apostando na substância em vez do marketing e da publicidade,  contribuem para o status quo.
O resto, e o habitual é o resto, é continuar, permanentemente, no exclusiva intrigazinha pessoal, no despejar da bílis, na pequena boca, nos ódios de estimação (tanto mais cultivados quanto mais pequeno é o meio), nas pequenas e médias impugnações, na contabilização de likes, nas trocas de comunicados, nos pontapés na gramática, na encenação da indignação, na banalização da desqualificação do outro. 
Sim, a definição de uma estratégia para um concelho é estruturante na apresentação de um programa. Não acho nada que seja um mantra vazio, um chavão. Acho é que essa constatação, esse fixar da necessidade do diagnóstico para um melhor desenho das políticas públicas, devia ser prévia ao debate. Cada partido, tudo estudado, apresentaria, então, nos debates, como aquele que na noite desta terça-feira tivemos ocasião de assistir, a sua visão do que deveria ser a estratégia para o concelho. A pecha, se assim a quisermos ver, neste topos da candidata em causa, está mais na impotência quanto à concretização do exercício bem exposto - então diga lá qual é a estratégia - do que a da sinalização desta urgência (que parece passar à margem, como se fosse coisa menor). Embora não dito dessa forma, a resposta àquela pergunta - qual a sua estratégia? - remeteu, a meu ver, claramente, para um não temos meios para a poder delinear (em profundidade). E esse é o drama. Sobretudo, quando as pessoas são, inclusive, voluntariosas para com a causa pública. De outro ângulo, poderia dizer-se que quando se remete para outrem - um outro muito claramente definido - a responsabilidade de apresentar uma estratégia para o concelho, por um lado, implicitamente, está a reconhecer-se quem se considera como primus inter pares - sendo que em um debate, idealmente, estão candidatos em igualdade de circunstâncias -, e, em um segundo tempo, parece pretender-se uma única estratégia (única) para o concelho (quando o pluralismo partidário, ou de movimentos cidadãos, justamente, propiciaria uma diversidade de opções; e nem se diga que a responsabilidade caberia, exclusivamente a um executivo municipal, pois não se compreende, in casu, o que limitaria qualquer corrente candidata a apresentar a sua perspectiva para o futuro do concelho, nem, repita-se, no debate se encontrava, propriamente, um executivo, mas um conjunto de lideranças de candidaturas a esse executivo, sem se negligenciar, evidentemente, o escrutínio, avaliação e responsabilização de quem liderou a câmara municipal nos últimos quatro anos).

2.Assisti ao debate que a RTP3 passou com os candidatos à Câmara Municipal de Vila Real, como, aliás, tinha assistido, no dia anterior, a idêntico programa relativo ao concelho de Bragança. Um dos pontos comuns - diria, o principal traço comum - aos diferentes challenger face ao poder liderante nos respectivos executivos - no caso de Bragança, com liderança do PSD; em Vila Real, com liderança do PS - passou pela sucessiva reivindicação de baixa de impostos como forma de atracção do investimento privado em qualquer dos municípios. Ora bem, tal idêntica manifestação - que, imagino, se multiplicará por outros debates pré-eleitorais -, coloca-nos perante algumas questões: se todos os municípios, por absurdo, reduzissem a fiscalidade a zero neste âmbito, o que diferenciaria, ao nível das políticas públicas, este concelho daquele (no que à atracção de investimento diz respeito)? Porque iria uma dada empresa - se esse fosse o único factor de sedução - para este concelho em vez daquele? A segunda questão é: como manter um conjunto de serviços públicos que dependam (também) dos municípios em se abdicando de significativas receitas de impostos? Este problema, fazendo aqui um parêntesis, como sabemos, coloca-se, em larga escala, em termos internacionais, em particular, no seio da União Europeia, com a concorrência fiscal entre estados a debilitar a dimensão social destes (para não falar da relação entre esta dimensão e aquela outra democrática, ou sobre para quem se passa, afinal, o poder). De aí que não poucos autores, partidos, movimentos reclamem uma harmonização fiscal na UE. E, olhando para experiências internacionais, não seria despiciendo, a título ilustrativo, ler a abordagem da população dinamarquesa a propostas de corte de impostos feita por um governo (vide peça do Jornal de Negócios). Não por acaso, uma académica como Ana Rita Ferreira, de Ciência Política, e estudando os programas com que na última quinzena de anos o PSD se apresentou a eleições identificou o momento de cisão do PSD com uma matriz mais social-democrata com a ideia de choque fiscal apresentada por Durão Barroso (muito antes do programa de 2011; como se pode ler na obra coordenada por Riccardo Marcchi As direitas na democracia portuguesa).
No debate na RTP3, a candidata Joana Rapazote afirmou, sendo congruente com a referida defesa da baixa de impostos, que, deste modo, com a referida baixa de impostos, a Câmara Municipal ficaria com menos receita e obrigada a gastar menos (a gerir menos/melhor). A questão que se coloca é que segundo os números apresentados pelo candidato Rui Santos o orçamento municipal caiu, em termos percentuais, entre 2012 e 2016, salvo erro, qualquer coisa como (cerca de) 40% e, em termos absolutos, pouco passa os 25 milhões de euros. Será possível abdicar de muita mais receita, num concelho como o de Vila Real, face ao contexto orçamental em que nos situamos?

3. Coisas de que gostei no debate: o candidato Rui Santos decidiu colocar o foco no mundo rural e na melhoria das condições de vida das populações, por via do investimento no saneamento básico. Embora este mesmo mundo rural não tenha grande visibilidade em muitas das conversas políticas, das 500 pessoas que mais vão pairando sobre elas, muito citadinas, muito redes sociais, muito centradas nos media, em realidade prefiro, mil vezes, este foco do que outro que aponte, apenas, a realidades de visibilidade ou coreográficas, mas sem registo para futuro, sem transformação, sem mudança de vidas para melhor (como se fez em outras intervenções/entrevistas, a meu ver). Até para surpresa minha, pois, este foi o foco escolhido, e ainda bem, porque coloca o ponto não no foguetório, mas no essencial que é as vidas das pessoas poderem conhecer melhorias. Não se negando que aspectos de visibilidade possam ser instrumentais para finalidades mais elevadas - captação de investimento e criação de emprego, aumento turístico, etc. -, houve períodos em que tais acentuações estiveram perto de se oferecem como fins em si mesmos.
O candidato António Carvalho (PSD) mostrou-se, claramente, mais preparado do que há 4 anos, em idêntico momento no Porto Canal; a sua primeira intervenção foi assertiva, relativamente a um significativo aumento da receita com a fiscalidade no concelho, explorando contradições que disse ter identificado - no que não foi contraditado, o que é importante em debates desta índole, porque passa ao telespectador, imediatamente, a ideia de que é como diz quem não foi respondido - relativamente a posições do seu principal oponente político. Todavia, após esse primeiro momento, a insistência, quase exclusiva, num certo jargão económico - diga "atractividade" - e uma rarefação temática (os "clusters"...inevitáveis), sem outra ideia que não a baixa de impostos, ou a limitação do horizonte de um Presidente de Câmara a "embaixador junto das empresas", a política um tanto diminuída assim, tornou algo redundante o discurso, sendo que em próximos debates se esperam mais contributos sobre outros sectores e àreas de intervenção de um município.
A sinalização do problema de falta de especialistas em determinadas àreas da medicina, no Hospital de Vila Real, foi importante, porque compete aos políticos a representação de legítimas expectativas e sentir dos cidadãos e esse tópico, sem dúvida, permeou os anos mais recentes dos vila-realenses e suas preocupações: não se pode, com efeito, falar de qualidade de vida sem que, em um sistema universal tendencialmente gratuito, as pessoas possam ver satisfeitas necessidades essenciais para o seu bem-estar/debelar de problemas de saúde. 
Evidentemente, dada a proximidade da liderança do executivo de Vila Real (e continuidade partidária) à do Governo da República as expectativas sobre o que, a este nível, a influência de Rui Santos - a sua vitória em um terreno culturalmente menos favorável, tradicionalmente, ainda que em um momento de transição do poder então vigente, há quatro anos; a saudação de António Costa na noite eleitoral, em directo da Quadratura; a subsequente posição privilegiada entre os autarcas socialistas, nomeadamente - pudesse alcançar (mesmo que expectativas que possam considerar-se deslocadas e mesmo que ao poder político nem todo o voluntarismo seja permitido, em estas matérias que tem a ver com a disponibilidade e mobilidade das pessoas/profissionais de saúde) tendem a tornar mais desconfortável, politicamente, para si, este constrangimento; talvez por isso, a resposta, mesmo que potencialmente rebuscada, sobre a relação entre o modo como a mobilização de mais clínicas/hospitais privados poderão beneficiar a medicina pública, no concelho, tenha sido bastante elaborada.
O debate foi melhor do que aquele que víramos com os candidatos a Bragança, tendo a originalidade da proposta de uma bienal de arte (associada, no caso, pelo proponente, à existência de muitos vilarealenses jovens que terão prosseguido tal formação, e como modo de os fixar no concelho; proposta que talvez não encontremos em mais nenhum debate nas restantes capitais de distrito), pelo candidato (da CDUJoão Paulo Correia (que, todavia, teve muito um papel proclamatório das grandes linhas do partido a nível nacional, e ideias mais genéricas, do que, propriamente, fazendo demonstração de um domínio exaustivo dos dossiers mais específicos do concelho), enquanto o candidato Mário Gonçalves (BE) acentuou a necessidade de uma maior atenção dos municípios - e do de Vila Real, em particular - a pessoas com deficiência, com um devido plano municipal neste particular (diga-se que há anos que destacámos, no campo social-democrata, o contributo de Martha C.Nussbaum, uma pós-rawlsiana precisamente nesta vertente; diga-se que a alusão a uma prestação dirigida a pessoas com deficiência, independentemente do seu rendimento, a implementar pelo Governo, me remeteu para Amartya Sen, em A ideia de justiça, de procurar a conversão de bens primários em capacidades). Não obstante, e como o próprio, e muito bem, recusou qualquer tipo de condescendências, deve dizer-se que as suas respostas, excessivamente lacónicas, levando o moderador (Paulo Dentinho) a ter que fazer uma espécie de mini-entrevista à parte, retirando respostas, a saca-rolhas, para poder equilibrar o seu tempo de intervenção com os demais interlocutores, sendo o político, entre outras dimensões, aquele que possui o domínio da palavra, evidenciou-se que há, neste âmbito, um longuíssimo caminho a percorrer em quem tenha/tem vontade e aspiração de maior participação na vida política. 
Joana Rapazote consegue imprimir ao seu discurso um registo de autenticidade - não de mero trabalho de casa a debitar ao longo de um debate - que a favorece. 
Ninguém entendeu, ao longo do debate, falar sobre cultura e, no caso da educação, apenas o edificado prevaleceu (ou, de forma muito pela rama, a questão da transferência de competências educativas para as autarquias; aqui, houve alguma truncagem na leitura do que Rui Santos disse, na interpretação de António Carvalho). Como, afinal, a principal promessa para o mandato que aí vem, caso o PS volte a vencer - a construção de novas piscinas municipais (a par, creio, do reforço de mobilidade no concelho, com especial atenção aos idosos, mas sem que essa ideia tenha tido uma clara explicitação ou detalhe).
Apreciando muito o trabalho de Paulo Dentinho, conseguindo marcar, até, em alguns dos seus trabalhos, para a RTP, a agenda de prestigiados media internacionais, creio que este conjunto de debates tendem a ser, essencialmente, um conjunto de sucessivos monólogos, sem uma interacção que, sem cair em exageros despropositados, daria uma maior vivacidade, tal como permitiria o contraditório a tempo (entre candidatos). Evidentemente, a justa medida será um ideal a alcançar - mais do que alcançável -, a gritaria e sobreposição de vozes não seria coisa boa, mas um burocrático cumprir de 18 programas do género poderá não mobilizar.


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Sobre o combate aos incêndios


No estudo sobre o incêndio de Tavira [2012] detetámos que os sistemas de comando não estavam preparados para gerir incêndios daquela dimensão. Em consequência disso foi feito um esforço grande de formação e de treino. E depois de 2013 melhoraram-se os equipamentos dos bombeiros. Não está tudo feito, mas já se andou um bom caminho em relação a 2003 e 2005. (...)
Mas o tipo de incêndios florestais que estamos a ter não se podem combater facilmente, pois a situação meteorológica é pior que a vivida em 2003 e com os recursos actuais não há capacidade para suprimir estes fogos. Não vale a pena pôr pessoas à frente daquele mar de chamas. A defesa das populações é naturalmente uma prioridade. Para mortes já nos bastam as de Pedrógão (...) Este ano estamos a observar valores recorde mínimos na humidade da vegetação arbustiva. Qualquer faísca ou foco secundário, imediatamente pega fogo. E não é compreensível que quem faz esse trabalho com maquinaria não use meios para debelar essas situações. (...)
Temos de fazer uma campanha como a que se fez para a prevenção rodoviária. A nossa taxa de mortalidade rodoviária era das maiores da Europa e o esforço continuado das autoridades deu resultados e temos de fazer um esforço semelhante em torno dos incêndios. O esforço não passa por termos mais meios de combate, mais camiões ou aviões. Temos de acrescentar as populações como o quarto pilar do sistema de prevenção e combate aos incêndios. (...)
Mas não creio que seja pelo simples agravar das penas que as pessoas vão cumprir. (...)
Acompanhei esta reforma florestal e não vi muitas coisas substancialmente diferentes do que se estava a fazer. Deviam dar-se outros passos para o futuro. Há 30 anos que há coisas que deviam estar a ser feitas e não o estão a ser (...) Há muito que advogo o envolvimento das pessoas, a preparação das comunidades para serem mais resistentes e resilientes ao fogo e aos seus efeitos. Temos de conquistar as pessoas para o problema da prevenção de modo a tomarem consciência de que fazem parte deste esforço. Em segundo lugar, a prevenção devia estar mais focada nos incêndios florestais, o que não me parece estar. E também se devia aplicar melhor a lei. Mas face às condições meteorológicas que estamos a viver este ano, muita da prevenção estrutural que faz falta possivelmente não faria muita diferença. 
[Ter grupos com conhecimento de acção e uso de fogo controlado, que conhecem o terreno e bombeiros mais profissionais iria ajudar?]
Sim, assim como ter sapadores florestais mais enquadrados no sistema, ou envolver mais a comunidade científica. Não somos ignorados, mas devíamos ter um maior apoio para a actividade científica. Há um conjunto de soluções técnicas e tecnológicas já aplicadas noutros países que podem ajudar. Por exemplo, há produtos químicos retardantes do fogo que podem servir para melhorar a eficácia do combate e ajudam a evitar reacendimentos. Obviamente que custam dinheiro, mas evitava-se muitas horas de trabalho e danos.

Domingos Xavier Viegas, Professor Catedrático do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, dirige o Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial, foi este ano premiado com o Wildland Fire Safety Award, atribuído pela Associação Internacional de Incêndios Florestais. Entrevista ao Expresso, conduzida por Carla Tomás, 19-08-2017, p.13

Por uma sabedoria (IV)


Mas não há nenhuma vida absolutamente livre de egoísmo. C.G.Jung faz uma distinção entre o Eu e o Si-mesmo. O Eu é o cerne consciente da pessoa: quero agora ir de carro para ali, comer alguma coisa ou, então, restabelecer-me. O ego quer colocar-se no centro. O Si mesmo é o cerne íntimo da pessoa, é o âmago genuíno. Para Jung, a imagem divina está também presente neste Si-mesmo. Para nós, cristãos, o Si-mesmo é a imagem única e irrepetível que Deus fez de cada um de nós para si.
Não há que libertar-nos deste Si-mesmo. Isso equivaleria a uma dissolução da pessoa. Pelo contrário, devemos ir sempre do ego para o Si-mesmo. E o ego tem aqui, decerto, uma tarefa positiva: obriga-nos a trabalhar em nós, a conseguir algo, a progredir. E, claro, o ego participa em tudo o que fazemos. Mesmo quando ajudo outrem, recebo sempre alguma coisa, sinto-me bem, experimento a gratidão. Mas importa encarar a ajuda com maior rigor. Quando ajudo alguém para me sentir bem, então utilizo-o em minha vantagem. Na realidade, não o tenho em conta, mas acabo sempre por girar apenas à volta do meu bem-estar.
Os neurocientistas e os biólogos constataram que, no ser humano, existe uma disposição hereditária para ajudar os outros. Semelhante ajuda está, decerto, equipada com um sentimento positivo. No centro da ajuda nem sempre está presente o sentimento bom, mas a pressão para ajudar os outros. Isto está enraizado na nossa psique.
Na psicologia conhece-se a proposição: quem muito dá também muito precisa. Muitos concedem aos outros benefícios, ajuda, apoio, porque eles próprios precisam de reconhecimento e confirmação e talvez precisem ainda do sentimento de serem uma boa pessoa. Mas se eu der porque sinto necessidade, então depressa me esgoto. Só quando dou porque também recebi, porque tenho em mim uma fonte de amor, posso dar sem me exaurir. Mas o ego participa sempre em tudo o que fazemos. Não podemos impedir isso. Trata-se somente de relativizar, amiúde, o ego na acção. (...)
Não existe, pois, o puro esquecimento de si, mas sempre apenas a tentativa de preterir o ego próprio no fazer, no pensar, no falar e no escrever, e de tornar disponível para algo de maior, para uma ideia, ou então, para nós, cristãos, para o Espírito de Jesus.

Anselm Grun, in Diz lá, tio Willi, livro em diálogo com Andrea J.Larson, Paulinas, 2017, pp.76-78

Séries


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Olhar de dois mil metros, de Thomas Lea


Na noite desta segunda-feira, a RTP2 concluiu a exibição (de seis episódios) da (mini) série Os filhos da guerra (no original, Unsere Muter, Unsere Vater, de 2013, numa co-produção ZDF/ORF, com direcção de Phillip Kadelbach, a partir do diário de um pai de um dos soldados que participaram no exército alemão, durante a II Guerra Mundial). Cinco amigos (dois irmãos, Willhem e Friedhelm) que irão incorporar-se na Wermacht, uma rapariga, Charlotte, que irá ser enfermeira ao serviço do exército alemão, uma futura cantora/vedeta de rádio, ao serviço da propaganda (Greta), que tudo fará para tentar salvar o namorado judeu, e este, Viktor, enviado com destino aos campos de morte, arriscando atirar-se para debaixo do comboio e passando por um imenso rol de provações durante a guerra, na Polónia) encontram-se num bar, em Berlim, em vésperas do início da II Guerra Mundial, quando a situação dos judeus é, já, muito precária na Alemanha, pensando, todos, que no Natal, a guerra estará terminada (surpreendente, de algum modo, essa abordagem depois do que também se vira na I Guerra Mundial, em previsões idênticas).
A abordagem da série é muito a do sentimento humano na guerra - as emoções, a devastação, a queda, a inumanidade, a brutalidade cega, os gestos inesperados, a camaradagem, as ilusões, a mudança do humano no campo de batalha. Digamos que é o que se poderia chamar de micro-economia da guerra. Não temos, afora pequenas contextualizações (a blitzkrieg falhada no inverno russo, as mudanças ano a ano, ou mês a mês...), os passes de xadrez da II Guerra Mundial, como avançaram os exércitos, as jogadas dos gabinetes - a visão macro -, mas, essencialmente e quase em exclusivo, o modo como se vivenciou, no terreno, a guerra. A voz/sentimento dos homens que levam uma farda. Neste sentido, como nota Harari, o olhar do soldado de Thomas Lea, poderia ser um olhar de todo o soldado, de todos os tempos, sempre que marcou presença no teatro de operações: desse ponto de vista, a guerra seria sempre "um inferno em todos os lugares". Não creio, portanto, que a série pretenda justificar ou legitimar o que quer que seja (nomeadamente, apresentar os alemães como vítimas dos nazis), mas, antes, colocar-nos perante o que Orwell descreveu, assim, num livro sobre a guerra civil espanhola, acerca de um soldado-inimigo que cedera às necessidades fisiológicas do lado de lá da trincheira, poupado por Eric Blair, e respectivos companheiros, ao tiro fatal: um fascista com as calças na mão, não é um fascista; é uma pessoa.
De partida para a frente de guerra, mas ainda no bar, as raparigas falam do "Reich de mil anos", a mesma certeza milenarista e do determinismo ingénuo e científico que raramente nos abandona. 
O pai de um dos irmãos que seguimos nesta história pede ao mais velho, um tenente, que traga o irmão vivo, a ver se "ainda conseguimos fazer dele um homem". Este mano mais novo é dado às literatices, tratado no exército como "maricas", os primeiros tempos - aqueles em que ainda a soldadesca se vê e sente como "heróica", sendo que no fim dá nota de que "agora somos vistos como cretinos" - sem um único morto para apresentar (à galera e na galeria), nenhuma prova de virilidade. Ele lera Rimbaud e Goethe, um intelectual fora de lugar, um homem que não presta para nada, altivo no desprezo pela ideologia que justifica toda a gama de horrores a que vai assistindo e naqueles que nela acreditam e seguem cegamente. Mas, aquele homem avisado, céptico, dir-se-ia com o seu perfil humanista, cumprirá a profecia que o próprio lançara: "a guerra desperta o pior que há em nós". No segundo episódio da série - porventura, o mais conseguido -, um conjunto de partisans, na Rússia, indicam aos soldados um caminho a seguirem para a localidade que pretendem. Um soldado alemão morre numa mina. Este leitor de Rimbaud aconselha o tenente - seu irmão - a mandar os partisans na frente, no caminho a percorrer. Nessa cena tremenda, voltamos ao tópico da relação entre as humanidades e o discernimento ético, à personalidade não linear e complexa, ao idealista capaz de ser o mais atroz e frio dos cínicos (embora este soldado nunca tivesse acreditado na justificação, no ideal da/desta guerra), à desumanização da guerra (logo no episódio inicial a execução impiedosa de uma criança catalogada de partisan). 
Os cinco amigos encontrar-se-ão em barricadas diferentes, durante o conflito bélico, nas nesses (des)encontros a amizade prevalecerá sobre todas as outras pertenças: uma troca de olhar(es) pode/pôde salvar (uma vida). Outra cena notável (agora no episódio 4). 
Muitos tropas hesitam, há gente de 12 anos na frente de combate, na parte final da guerra, sádicos que praticam o mal pelo mal com um deleite imenso; a tensão entre as obrigações para com a tropa e a proximidade enquanto irmão torna-se palpável quando o tenente permite que o mano mais novo seja sovado, depois de colocar em risco todo um pelotão, pela sua impertinência, pedindo-lhe, posteriormente, desculpa - e há até espaço para ambos brincarem, na neve, durante a guerra em território russo; os alemães que ficam com as casas que eram de judeus; Greta como personagem sacrificial/sacrificada, é usada e abusada ao longo de toda a vida (entre a dádiva máxima para poupar o namorado a uma morte certa, e um sonho pueril de ser e de se crer estrela); o nazi cruel torna-se no homem da administração no dia seguinte à queda do regime, adaptando-se de um dia para o outro com a mesma falta de escrúpulos até então evidenciada (aqui o contacto é com O caso Fritz Bauer). Os namoros e casamentos adiados para sempre (às vezes, as pessoas não são lineares como se disse, para poupar sofrimento ao outro, neste caso, à outra, quando não se sabe quando a guerra acaba, se dela se sai vivo, nem se aceita iniciar o flirt), as ilusões ideológicas abandonadas mais cedo que tarde; a recusa de ordens arbitrárias para matar (que significam a punição com a morte por desobediência, quem diria o gesto?); mas nos mesmos que já haviam obedecido e matado antes; o papel da sorte e do azar, na conservação da vida, quando a morte está em permanente vigília; a pura sobrevivência como único desígnio; a celebração da vida, ela mesma, entre os três sobreviventes na chegada a uma Berlim em escombros e tomada pelo exército vermelho. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Perfil do incendiário (em Portugal)


Pessoa com fracas competências profissionais, fracas competências sociais, pouco enquadramento familiar, muitos casos de alcoolismo, alta taxa de reincidência, 46 anos, um terço dos incendiários (detidos) estavam desempregados, sendo que se se juntarem estudantes e pensionistas, metade estavam sem ocupação laboral. 18 dos 65 detidos em 2017 eram do distrito de Vila Real, a esmagadora maioria do Norte do país. Motivos apresentados: "vingança", "problemas conjugais", "gostar de ver os bombeiros a combater as chamas", "forte impulso e atracção pelo fogo". 20% estavam alcoolizados.

[no trabalho do Expresso, deste fim de semana, nos textos de Pedro Santos Guerreiro e Hugo Franco]

A ansiedade do face a face




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Absolutamente sem complexos. Pensa-se que quem vem de Humanidades não tem capacidade na área da numeracia. Isso é uma construção social. Precisamos de três competências essenciais para nos movimentarmos no mundo de hoje: a literaria, a numeracia e a literacia visual, saber lidar com as imagens. Estas competências são essenciais para poder navegar e desenvolver estrategicamente qualquer projecto, seja em que área for. Uma universidade é uma ecologia de saberes e tem de fazer com que os vários sectores não sejam silos. É um grande desafio. O paradigma da ciência moderna é o da especialização, mas aquele em que nos encontramos no século XXI é o da transdisciplinaridade. Estive há pouco tempo na universidade de Quioto, no centro de inteligência artificial que desenvolveu o robô mais perfeito do mundo, Erica. A inteligência artificial é por um lado fascinante, e, por outro, ameaçadora. Causa ansiedade perceber que a máquina está num momento muito próximo daquele que a ficção científica nos apresentou. Quando lemos as histórias de Philip K. Dick pensamos que aquilo é utópico. Já lá estamos. Uma das coisas que visitei nesse centro foi um projeto financiado por uma grande fundação japonesa. É um projecto a dez anos, chama-se O Que é Um Homem? Lá temos a cibernética, físicos, sociólogos, filósofos, estudiosos de literatura. É sobre a definição do humano e a forma como o avanço da inteligência artificial vai ter um impacto na auto-definição do ser humano. Pode ter implicações dramáticas. Uma das utilizações que está a ser dada a estes robôs é no tratamento dos mais velhos, em lares de terceira idade. O cuidador deixa de ser prioritariamente um ser humano para ser uma máquina. Há estudos face ao impacto e é espantoso ver que os idosos se sentem mais acompanhados com a máquina do que com outros seres humanos. Achei perturbador.

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Outro termo fatal. Nietzsche falava da utilidade da História para a vida. Só conseguimos orientar-nos para o futuro se percebermos como chegámos aqui. É necessário um sentido lato da nossa posição no mundo e não estreito e desconhecedor do que existe além do nosso quintal. A visão hiper-especializada pode levar aí. Seja em que dimensão for, a dimensão da universidade é formar, não é ser um instituto de formação profissional. (...) Lamento que tenhamos uma formulação do ensino secundário que obrigue o estudante a escolher no 9.º ano opções que são definidoras para a vida. Sobretudo se alguém quer optar por fazer Humanidades e chega ao 12.º e decide que quer ser médico. Tem de voltar atrás. Esse tipo de hiper-especialização com 14 ou 15 anos é destruidor, é o contrário de formar. Precisávamos de ter formação básica em Matemática, em Português, línguas estrangeiras, História e Física, um modelo de ensino secundário com grandes áreas de conhecimento transversais.

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Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa, em entrevista ao Público, conduzida por Isabel Lucas, 21-08-2017.