terça-feira, 4 de julho de 2017

Tristes semanas


O desaparecimento do material de guerra em Tancos fez-me evocar, de imediato, o caso da fuga de informação dos nomes dos espiões portugueses, ocorrido há uns anos, evidenciando, de forma reiterada, um Estado frágil - para além das dicotomias estado maior ou mais pequeno, que aqui podem também estar em causa, uma outra assenta num estado forte ou estado fraco, e em áreas tão sensíveis da soberania mais clássica, deslizes desta natureza mostram um estado débil -, com zonas de arcaísmo, e que, nestes concretos âmbitos, dificilmente é levado a sério interna ou externamente. E dizer - e ficarmo-nos por ora no - nível interno não é dizer pouco, dado que a confiança é o combustível decisivo para o poder político se sustentar/legitimar. E é indiscutível que um certo "regresso à normalidade", depois de uma espécie de "estado de excepção", tinha permitido, nos meses mais recentes, registar índices de confiança inusuais, entre os portugueses, nos últimos vinte anos; mas o cenário trágico de Pedrógão Grande, e o caso de Tancos - mostrando uma nudez, uma ausência de protecção mesmo em núcleos mais sensíveis do nosso estado - vieram, de novo, "intranquilizar", remeter para uma lacuna ao nível da segurança mínima que abala essa confiança. Ademais, se não há uma palavra incisiva/assertiva do poder político e sua liderança. Má altura para meter férias. António Costa pôde, assim, ser acusado de fugir, de usar um refúgio, porque, como se sabe, em política aquilo que parece é (é tomado como realidade). 
Mas, deste caso, do que nele é sugerido e insinuado - e que, visto de fora, aparece como provável -, bem como as notícias, não originais, sobre corrupção, neste caso na Força Aérea, desta terça-feira, fica, ainda, uma vez mais, uma quebra de crédito de profissionais - mesmo que a generalização possa ser injusta - que mobilizavam, para muitos, durante anos, essa representação de perfeccionismo (ao nível do sentido de estado e de tudo o que isso representa).
Como, nestas semanas tristes, assistimos, ainda, a declarações obscenas sobre suicídios, e a notícias, não desmentidas, sobre a criação de focus group para testar a popularidade governativa após a desgraça dos incêndios, em ambos os casos tudo parecendo interessar menos as pessoas vitimadas, em última instância, foi aquela camada fina, a que chamamos civilização, que saiu chamuscada.

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