segunda-feira, 3 de julho de 2017

Paradoxos docentes


Confidencia-me uma professora de Português, não é o primeiro caso que me sucede, quanto gostaria de ter tempo para parar, ler, investigar. O dia a dia da escola, as suas múltiplas tarefas, a sua imensa tralha burocrática roubam-lhe as forças para, ao fim da noite, ir ler. As férias são descanso e sempre correm. Então, pode estar(-se) anos, anos inteiros, sem se ler outra coisa que não seja os decretos-lei adstritos às regras de aprovação do aluno, à resolução de casos disciplinares, às mudanças na carreira...O paradoxo é este: em inúmeros casos, constatam diferentes docentes, para se ser professor é preciso abdicar de ler/estudar/investigar, algo que é fundamental...para se ser professor. Se no professorado a importância de estar a par do "sistema de ideias" (Gasset) do seu tempo talvez adquira uma preeminência difícil de subvalorizar, então imagine-se os danos de uma organização da escola em que tanto trabalho "lateral" sobrecarrega quem queria/devia estudar também ("para se ser professor é preciso não ser professor"). Adriano Moreira diz muitas vezes que um dos grandes problemas de Salazar era os anos que tinha passado sem ler um romance - até porque, através deste, não raro, se pode chegar a compreender como o mundo avança.

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