segunda-feira, 3 de julho de 2017

O que diz um voto?


Resultado de imagem para poder politico

Se os incentivos a buscar informação política são escassos, para os eleitores, porque muitos, ainda assim, a procuram? J. Brennan alinha três motivos essenciais: a) o grupo dos que possuem uma crença no dever moral de estar politicamente informado; b) o grupo dos que entendem que pertencer a uma dada classe social implica estar informado sobre política (o grupo de pares, as pessoas instruídas esperam certas coisas/interesses umas das outras e, entre elas, o interesse pela política, funcionam como um espicaçar pelo interesse pela política; c) o grupo dos geeks em política, os que acham a actividade política interessante. Temos, também, pois, os fãs da política. Evidentemente, olhando para estas três causas para a busca de informação e conhecimento políticos podemos constatar que elas não se excluem (mutuamente). 
Um outro dado bastante interessante aduzido pelo Professor da Universidade de Georgetown é o de que "as pessoas tendem a ter um mau comportamento epistémico quando participam na política" (p.61). E porquê? "Porque o cérebro humano foi mais concebido para vencer debates e formar alianças que para procurar a verdade" (p.61; aqui, o autor cita o psicólogo Jonathan Haidt). Mesmo os ditos independentes, em realidade, dificilmente o são: "vários estudos mostram que quase todos os votantes autointitulados independentes são partidários camuflados: pertencem a uma equipa e votam sempre no mesmo partido" (p.65). E é a vinculação a um partido, mesmo que emocional/afectiva e não formal (militância), que leva as pessoas, na sua esmagadora maioria, às urnas: "a politóloga Diana Mutz revelou indicações impressionantes de que as preferências partidárias são o que motiva as pessoas a irem às urnas" (p.65).
Brennan ilustra a adesão enviesada com os seguintes tópicos (voltados para uma agenda interna norte-americana, mas com interesse também para nós): controlo de armas, aquecimento global, modo de lidar com o Estado Islâmico, licença de maternidade obrigatória, salário mínimo, casamento homossexual, queima da bandeira. "Se pensar bem, é bastante estranho. Os assuntos não estão relacionados logicamente. Os argumentos a favor e contra o direito ao aborto não têm quase nada a ver com o controlo de armas. Contudo, se for pró-escolha [direito ao aborto], será quase certamente a favor do controlo de armas, e se for pró-vida  será quase certamente contra o controlo de armas (...) Um partido político e os seus seguidores optaram por um conjunto de crenças relativas a estes assuntos, enquanto o outro partido político e os seus seguidores escolheram as crenças opostas. Não há nenhuma razão racional para que isso seja assim, uma vez que essas crenças são independentes" (p.66).
Repare-se que Todorov propunha como critério distintivo do par esquerda/direita a rejeição, à esquerda, da moral (mas a favor da redistribuição) e, à direita, da redistribuição (mas a favor da moral). Talvez por isso, de facto, um defensor da Doutrina Social da Igreja, que se espera que defenda, em simultâneo, a existência da moral e da redistribuição seja um no man's land (como Sandel, de resto, também notara; no caso português, uma parte da direita já adoptou a lógica do non faccere também em matéria moral).
"Os politólogos levaram a cabo numerosos estudos empíricos sobre o comportamento dos votantes, usando uma grande variedade de métodos. Concluíram de modo esmagador que os votantes não votam por motivos egoístas. Em vez disso, tendem a ser nacionalistas e sociotrópicos, ou seja, tendem a votar pelo que percepcionam ser do interesse nacional em vez de no seu próprio interesse" (p.77). Os votantes querem promover o interesse comum em vez do interesse próprio, mas isso não quer dizer que tenham sucesso. O que os motivou a escolher uma plataforma política não resultava, segundo o melhor da ciência (ou do conjunto de ciências convocadas para analisar os resultados dos programas), nos desejos ou na proclamação que essa plataforma proclamava - e o leitor não tinha ido estudar (se para chegar ao objectivo x, "crescimento económico", o caminho seguido é y, "cortes drásticos nos serviços públicos", provavelmente o eleitor foi ao engano).

P.S.: Como, em considerável medida, a obra Contra a democracia, tem uma marca  de agenda norte-americana, registe-se não apenas os dados sobre a grande diminuição do crime nos anos dos governos Bill Clinton, face às décadas anteriores, a diminuição do rapto de crianças nos anos 90/2000 face à década de 60, mas também os significativos dados sobre o combate ao terrorismo: "considere que nos últimos cinquenta anos (...) se verificaram cerca de 3500 mortes devido ao terrorismo nos Estados Unidos. Os ataques de 11 de Setembro custaram 30 mil milhões de dólares em limpeza, danos de propriedade e receitas perdidas para as empresas. Podemos comparar estas perdas de vidas e financeiras com a própria guerra ao terror. Até ao momento, esta guerra matou mais de 6 mil soldados norte-americanos, mais de 2 mil norte-americanos contratados por empresas de segurança e mais de 100 mil (ou talvez acima de 200 mil) civis inocentes no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque. O Watson Institute da Universidade de Brown estima o total de custos monetários nas guerras ao terror em 3 a 4 biliões de dólares" (pp.71-72)

Sem comentários:

Enviar um comentário