quinta-feira, 13 de julho de 2017

O humano por inteiro. O documentário sobre Paula Rego

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Vi, ontem, na RTP2, Paula Rego. Histórias e segredos, o (ousado) documentário de Nick Willing (o filho), sobre a artista plástica (e mãe). O carácter misterioso, mesmo para os filhos, e desde sempre (uma mãe distante e impenetrável), da personalidade retratada, aparece como um dos leit-motiv do empreendimento do realizador. Difícil e conseguida missão, a de sondar, por inteiro, Paula Rego, desconcertante e quase que indomável (o quadro da dança, a fechar, antes do desaparecimento do marido, o também artista plástico Victor Willing, como uma espécie de derradeira projecção da própria), ao mesmo tempo insubmissa na sua denúncia política, nas causas sociais que abraçou, flamejantes de um feminismo professado, quanto incapaz de contrariar, fosse no que fosse, o marido, submissão sem adversativa. A mulher que conheceu vários amantes ("na década de 60 toda a gente dormia com toda a gente"), que abortou inúmeras vezes ("na altura não se usavam métodos contraceptivos"), que escolheu (foi escolhida) por um homem casado, que pintou quadros como manifestos pela despenalização do aborto (que Jorge Sampaio, escutado no documentário, considera terem influenciado as mentes e as decisões em Portugal), aquela que não tinha forças para poder ajudar (constranger) o marido doente, que não conseguiu perdoar, completamente, a doença deste ("não conseguimos perdoar totalmente a doença àqueles que amamos"), que gritou a morte do companheiro como tendo perdido um auxiliar do seu mister ("que egoísmo horrível!"), é a mesma que, a convite de Belém, vai elaborar um conjunto de obras para a capela do Palácio da Presidência que impressionará o Patriarcado ("foi aí que percebi a importância que a religião tinha para si", refere o ex-PR) e que, mau grado a representação de algumas instituições nas quais não se revê, diz: "claro que acredito em Deus! Claro que acredito na Virgem Maria!".
Nascida, em Portugal, no seio de uma família de classe média, a Paula Rego estava prometida a vida habitual para o status, e sexo, a que pertence: "não fazer nada. Quanto menos fizesse, mais uma mulher era elogiada". A mãe, "muito severa", cumpria, estritamente, o papel que lhe estava socialmente reservado (e nunca lhe fala de "como aparecem os bebés"). A avó diz-lhe que deve "obedecer sempre ao marido" (o que sempre fará, diz, naquele sorriso ambíguo, ingénuo e violento). O pai considera má sorte ela ter nascido em Portugal - onde "o meu pai e o meu avô iam a um restaurante e ao lado, provavelmente, havia uma casa com prostitutas, onde iam após a refeição. Era assim, era o normal em Portugal. Até se achava que 'fazia bem à saúde'"). Paula Rego é muito tímida e fechada e, por isso, seja surpreendente que vá para a Slade onde quererá estar lado a lado com os melhores, os mais inteligentes, a elite da faculdade. O modo como Victor Willing, numa festa a que vai com a namorada, a leva para o quarto como que retrata um ambiente não apenas epocal, mas a zona de penumbra de muitos quadros de Paula Rego, em que a fronteira entre prazer/dor, pena e alegria, bom e mau é diluída. A artista é dada a depressões e quase só o trabalho cura. Nele é possível dar vazão a todos os demónios que a corroem, imprimir uma opinião política (contra o Estado Novo, a política colonial, o racismo), fazer justiça, pelas próprias mãos, aos que a história, pessoal ou exterior a si, não fizera. Todo o universo calado, silenciado, recalcado poderá ser vertido com uma força visceral para a tela. Nela, o mundo pode ser quer mostrado, quer recriado, emoções contraditórias - ao desenhar, pode sentir pena do "ditador Salazar", mesmo se ele lhe é politicamente repugnante. Passa por um período de crise no seu trabalho, não consegue avançar - entre 1966 e 1979 -, e nesse momento um psicólogo jungueniano acaba por se revelar crucial. Depois da vida na Ericeira, onde as crianças não podiam entrar na adega, lugar de longas horas de "produtividade" por dia, o regresso falido - quinta perdida, tudo estoirado, na má gestão, de uma firma familiar, pelo marido que nada percebia do metier, mas nele se quis aventurar - a Londres, seria, apenas, mitigado por uma bolsa pedida à Gulbenkian - "peço-vos a bolsa, não sei exatamente para quê; simplesmente, estou sem dinheiro" -, rapidamente esgotada, passando, então, a viver da ajuda de um homem de negócios (era ele que lhe "pagava as contas", pode "amar-se muito um homem, mesmo que se lhe seja infiel"). Foi nos anos 80 que as obras de Paula Rego - que durante anos foi para a biblioteca ler as histórias populares de diferentes países, nas suas línguas originais, e descobriu que as mais cruéis eram as narrativas portuguesas, em muitas das quais se inspirou -conheceram maior êxito e, a partir de então, os leilões das suas obras de arte, permitiram-lhe fortes proveitos materiais. Não deixa de ser grande o contraste, não deixa de toda a contradição humana, nas suas vitórias fortíssimas - grande reputação, inserção na galeria dos mais reputados artistas plásticos mundiais, fortes proveitos materiais advindos do talento com que foi cumulada - e derrotas e humilhações dilacerantes - as infidelidades do marido, a falência económica, as depressões constantes, a doença e as mortes de alguns dos mais próximos - ser exposta, sem artifícios, mas com certa contenção na montagem, desta produção com o selo da BBC.

P.S.: durante os meus tempos do Porto, a exposição da sua obra em Serralves (para além da de Francis Bacon, ou, na fotografia, de Nan Golding) foi do mais marcante que por ali vi, neste âmbito. Ontem, pude compreender melhor ainda - passe o então estudado antes da visita à exposição - todo o pano de fundo de motivos, em diferentes casos pessoalíssimos, dos seus quadros.

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