sábado, 15 de julho de 2017

O futuro do cristianismo


Vinculo o futuro do cristianismo com a fé em Deus. Esta identificação entre «cristianismo» e «fé em Deus» não é universalmente compartilhada. Há quem opine que a sombra do cristianismo é mais alargada que a de Deus. Poderia, pois, dar-se o caso de que o cristianismo sobrevivesse a Deus. Aduz-se que, inclusivamente em épocas de «eclipse» de Deus (M.Buber), o cristianismo não se sentiu obrigado a fechar para liquidação; o cristianismo continuou vivo inclusivamente quando Deus foi declarado morto.
Mas cabe perguntar: para quem é que Deus estava morto? Unamuno dizia que um misere cantado por uma «multidão açoitada pelo destino» vale tanto como uma filosofia. E, por desgraça, à história conhecida nunca faltaram miserere. Provavelmente, são esses miserere os que mantém a fé viva em Deus. Não parece, pois, possível identificar uma época na qual Deus haja estado morto e o cristianismo tenha continuado a funcionar. A fé em Deus é o respaldo essencial do cristianismo. (...)
E o futuro do cristianismo e do seu Deus tem que ver, creio, com o futuro das vítimas da história. M. Horkheimer assinalava que ante o grande problema das vítimas inocentes, ante o «passado irredento» de tantos homens e mulheres vilmente sacrificados, a filosofia do materialismo histórico declarava-se «incompetente». No seu arsenal de estratégias não há nenhuma aplicável ao caso. O passado está fechado. Os mortos não conhecerão nenhum desagravo. Inversamente, [Walter] Benjamin está consciente de que a religião «geriu» muito bem o desejo de justiça das vítimas. A religião não esquece o passado irredento. Frente à razão técnico-científica do materialismo, alça-se a razão anamnética da religião, quer dizer, a razão que não vira a página, que mantém viva a recordação dos humilhados e ofendidos.  (...) Em linguagem kantiana: as vítimas fizeram-se dignas de uma felicidade da qual nunca desfrutaram. A história está em dívida para com elas. Talvez por isso, escrevia Aranguren que a imortalidade «deve ser admitida, não para a moralidade, mas por moralidade».

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.62-63 [tradução minha]

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