sexta-feira, 14 de julho de 2017

Medo, e segurança a todo o custo - o fundamentalista


Tem razão Pannenberg quando assinala que o fundamentalista é «o homem da coisa segura». O «pecado» dos movimentos fundamentalistas não se localiza na busca do fundamento. Essa procura é humana e necessária. Sem ela, esfuma-se a identidade e caminha-se à deriva. O passo para o fundamentalismo produz-se quando se esquecem as contingências da história e se considera que a identidade é um produto enlatado, livre de toda a turbulência.
Expressou-o muito melhor Bergson com a sua célebre distinção entre religião «estática» e religião «dinâmica». A primeira afasta a fadiga da dúvida e o exercício da razão crítica. A sua meta são as «certezas», a busca de seguranças. O seu problema é o medo. Necessita esquivar-se dele acumulando dogmas e pautas imutáveis de conduta. E, quando as acumulou, defende-as com intransigência e fanatismo. Em contrapartida, a religião dinâmica articula-se em uma profunda iniciação à pergunta. E culmina, segundo Bergson, na mística, na busca do contacto direto com Deus. A religião dinâmica não é assunto de dogmas nem de certezas. A tentação fundamentalista é alheia à genuína experiência religiosa. É, melhor, a sua negação.
Em Espanha, não nos faltaram místicos. De facto, Bergson enaltece São João da Cruz e Santa Teresa acima de todos. Mas talvez - seria injusto generalizar - prevaleceu entre nós a religião estática sobre a dinâmica. E, desde logo, sempre fomos mais proclives a «sentir» a religião do que a «pensá-la».

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, Madrid, 2016, p.55 [excerto por mim traduzido]

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