sábado, 1 de julho de 2017

'Conferências de Notre-Dame'


Quando Bastiat afirma que no seu país qualquer pessoa poderia aceder a todas as carreiras, que todos poderiam exercer sempre as suas faculdades livremente, imagina homens abstractos, privados de origem, de meio familiar ou de relações sociais, homens como nunca existiram. Não são apenas os socialistas do seu tempo que se opõem a esta «abstracção metafísica» e que propõem abandonar a petição de princípio para auxiliarem os pobres; são também os militantes cristãos, sensíveis à aflição económica dos seus contemporâneos. Nessa mesma época, o padre dominicano Henri-Dominique Lacordaire publica as suas Conferências de Notre-Dame, que obtêm grande sucesso. Na 52ª conferência, que data de 1848, confronta nestes termos a questão das liberdades formais e das liberdades reais:
«Perguntai ao operário se é livre de abandonar o trabalho na aurora do dia que lhe comanda o repouso. [...] Perguntai a esses seres murchos que povoam as cidades da indústria se são livres de salvar a alma ao aliviarem o corpo. Perguntai às inúmeras vítimas da cupidez pessoal e da cupidez de um senhor se são livres de se tornarem melhores». E conclui com esta frase, que se tornou famosa: «Entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o senhor e o servo, é a liberdade que oprime e a lei que liberta». A liberdade que os ricos e os fortes reclamam para si é uma maneira de lhes aumentar o poder no interior da sociedade. Portanto, é necessário, como também queria Agostinho, impor um limite à vontade humana; só que Lacordaire, apesar de ser padre, encontra-a, não na vontade de Deus, mas na justiça social e nas leis humanas.

Tzvetan Todorov, Os inimigos íntimos da democracia, Edições 70, Lisboa, 2017, pp.113-114

Sem comentários:

Enviar um comentário