domingo, 9 de julho de 2017

Cidade vivida (II)



Um familiar dizia-me, recentemente, a propósito do concerto de Mariza, em Vila Real, como fora "difícil" para a cantora: "em Vila Real, nem que estejam 20 mil pessoas, está tudo de mãos nos bolsos, ou de braços cruzados a olhar para o palco; é muito complicado...". Que não, responder-lhe-ia quem assistisse, esta noite, ao concerto de Pedro Abrunhosa, com um reportório com uma miscelânea que percorreu várias etapas da sua já longa carreira - concluindo com o inevitável, mas com novos arranjos, Tudo o que te dou. Do álbum Viagens, 6/7 canções. Cantadas a plenos pulmões, ainda, com um público vasto - diversidade geracional - e que preencheu por completo a praça do Município. Conhecido por recrutar músicos de mão cheia, Abrunhosa consegue, creio que como praticamente mais nenhum, mexer com a "conservadora" Vila Real. Talvez porque, como confessou esta noite, os genes transmontanos ajudem ("a minha família é de Sabrosa"). Ainda que sem a euforia do concerto do Calvário nos idos de 90, outro tempo/outra sociedade, artista em "início de carreira", a noite de lua cheia e temperatura amena convocou fortes emoções, mostrou um Abrunhosa muito atento aos tempos, à tecnologia, ao sentido de espectáculo (longe longe de qualquer decadência), dando-se a experimentalismos, talvez excessivas interjeições prolongando várias canções, levando, inclusive, ao palco duas dezenas de criancinhas locais, na mais conhecida das suas canções a elas dedicada. Houve tempo para dupla homenagem, a partir de Halleluja: a Leonard Cohen, mas, sobretudo, às recentes vítimas de Pedrógão Grande, palavras sublinhadas por um extenso aplauso do público presente (um mar de gente). Não conhecia, distracção minha, a canção "o meu Deus é A.M.O.R", mas percebi o apurado sentido interventivo que continua a convocar o autor (em tempos de outras representações do divino). A noite concluiu-se, duas horas e meia após o concerto ter tido início, com uma apologia da música como lugar de encontro e intimidade. 

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