sábado, 8 de julho de 2017

Anotações futebolísticas


1."O FCPorto provou que a hegemonia do Benfica não está consolidada, uma vez que assenta em gente sem valores nem princípios de verdade desportiva. Alguns dos emails já dissecados são muito graves e retiram brilho aos títulos conquistados sobre a relva". Que esta frase, de um artigo de opinião, há dois dias, no Record, seja de Octávio Ribeiro, diretor de um tablóide que assenta a sua informação desportiva, e a escolha da relevância da mesma, desde logo nas chamadas de capa, num marcado tom encarnado, a par de um anti-portismo manifesto, não deixa de ser muito significativa quanto ao valor do conteúdo conhecido do chamado caso dos emails.

2.Em realidade, a estratégia de procurar tudo remeter para o domínio do jurídico, como se não houvesse possibilidade, e dever, de quem pertence ao mundo do futebol, de se pronunciar sobre o que pensa - em termos éticos e políticos - do que se conhece dos emails, como se não se pudesse tirar conclusões claras do que é conhecido antes de os tribunais, ou as instâncias de justiça desportiva se pronunciarem, acabou, em boa medida - a julgar pelos debates televisivos das últimas semanas e de alguns, mesmo que não demasiados, artigos de opinião de comentadores afectos ao clube da luz - por sair frustrada. Para além do que Octávio Ribeiro escreveu, assinale-se, ainda, alguns dos escritos, em ABola, de João Bonzinho, nas últimas semanas. Por contraste com tantos outros, de entre os seus pares, que sabem estar, apenas, a fazer o jogo de um clube ao atirar o caso para a esfera do direito, sublinhe-se o que estes jornalistas, neste contexto, assinaram.

3.Ademais, se o caso dos emails fosse "irrelevante", como procurou fazer crer a estrutura de comunicação encarnada, mal se compreende que necessário fosse/seja contratar o batalhão de advogados anunciados ao longo das últimas semanas (de Pedro Sousa ao Expresso deste Sábado: segundo este semanário, de resto, são nada mais, nada menos do que quatro sociedades de advogados envolvidas no caso).

4.Ironicamente, sendo difíceis de provar crimes como os de corrupção - como tantos especialistas vieram recordar nas semanas mais recentes, a propósito deste caso -, ou mesmo o tráfico de influências - o que, em chegando este caso a julgamento e verificando-se a tese da não confirmação em tribunal de tais crimes, permitiria, a muitos, o cinismo de alegarem que não se passou nada, como os tribunais certificaram -, então, a putativa impossibilidade desta correspondência electrónica ser usada como prova e, assim, de o julgador estar impedido de apreciar do mérito da causa, reintroduziria os ditos comentadores no jogo que não querem jogar, ao obrigá-los a pronunciar-se sobre o conteúdo dos emails revelados, sem a ajuda/muleta dos tribunais. Veremos se os mesmos que bradaram contra a nulidade de escutas no processo Apito Dourado, irão, agora, erguer esse mesmo argumento relativamente aos emails. Como escrevia Manuel Queiroz, em OJogo (18-06-2017), "houve quem acreditasse nos seus protestos de virgindade de vestal. O tempora, o mores, exclamava Cícero a verberar os costumes dissolutos do seu tempo". Ou, como registava Carlos Tê, no mesmo jornal (25-06-2017, p.57): "agora que se adensa uma nova tempestade de entulho sobre o futebol português, agora que parece cair a máscara dos impolutos e dos fariseus que batiam no peito até fazer sangue...".

5.Nem se compare a nulidade da utilização destes emails como prova, com a nulidade das escutas nos casos do Apito Dourado envolvendo o FCP. Ao contrário do que a comunicação encomendada quer fazer crer, foram motivos substantivos e não a nulidade das escutas a validarem a absolvição do Presidente do FCPorto (p.ex.: a testemunha de acusação apresentar duas ou três versões diferentes, e contraditórias entre si, de um encontro entre Pinto da Costa e um agente da arbitragem).

6.Todavia, tal como neste caso dos emails, não foi por não existirem condenações em tribunal que se deixou - que pessoalmente, deixei - de produzir um juízo de censura sobre a factualidade então conhecida: independentemente do que se possa ter ocorrido, num encontro entre um Presidente e um árbitro, em casa do primeiro, esse encontro, em si mesmo, é eticamente lamentável.

7.Parece-me que João Filipe será o jogador com um maior potencial criativo de entre os jogadores que compõem/compuseram as selecções de sub20 (que jogou o Mundial) e de sub19 (que disputa o Europeu). Nesta última, destaque, ainda, para Domingos Quina que, se continuar a evoluir, mantendo bons registos de intensidade (como aqueles que apresenta para o seu escalão etário) pode ser um bom valor para os próximos anos, nas selecções nacionais.

8.Neste Europeu, como na Taça das Confederações, aconteceram erros de arbitragem que favoreceram as cores nacionais, e que se afiguraram como escandalosos. Fossem estes ao contrário e a nossa imprensa (desportiva) teria passado semanas a não falar de outra coisa. Os tempos mudaram mesmo: durante décadas, o cinismo (tático-estratégico futebolístico) italiano era imoral; hoje, achamos o cinismo não passível de crítica, e, inclusive, o nosso habitat natural; durante décadas, havia uma conspiração internacional de arbitragem contra nós; hoje, nem damos pelos árbitros.

9.Mathieu, há apenas duas épocas, ofereceu vários pontos (creio que talvez mais de 9!) - recordo-me das vitórias arrancadas a ferro em Valência e em Vigo - ao Barcelona, na sequência de livres, ou cantos. Estou convencido que pouco mais de um ano depois, e na Liga Portuguesa, Mathieu pode tornar-se numa das grandes aquisições da temporada. Sem a intensidade e o ritmo da Liga espanhola, a sua progressiva ausência de velocidade nota-se bem menos. Quem viu Ricardo Costa jogar a lateral esquerdo - nos idos de Mourinho no FCP - não deve deixar de considerar Mathieu uma opção válida, no nosso campeonato - pese o que corria muito mal, quando tal escolha posicional de Luís Enrique acontecia em La Liga, ou, sobretudo, na Champions, como se viu no desastre total de Turim -, em alguns jogos, para essa posição. E, não gostasse Jorge de Jesus de inventar em certos jogos, não nos admiraremos rigorosamente nada, de o ver nessa posição (e esquema de quase 3 centrais) também esta temporada.

10.Depois de Pinto da Costa ter anunciado que com os novos contratos televisivos não seria necessário vender jogadores como até então, nomeadamente da formação, eis que a jóia da coroa, da referida formação sai, com o passe pouco valorizado, e para um clube de segunda divisão. A desvalorização do passe, da jóia da coroa, e o sinal de que nem para o mais pintado da casa se consegue encontrar um clube de topo. A incapacidade de colocação (e com retorno razoável para o clube) de jogadores que provaram não ter lugar num onze com um mínimo de exigência - casos de Herrera, ou André André - evidenciam limitações em mover-se no mercado estranhas para gente tão experiente. Embora ainda possam estar a tempo, a necessidade do reforço do meio campo azul e branco - em particular, com um 8 de boa cepa - é mais do que evidente (e não se venda Sérgio Oliveira como a grande solução para o lugar). Tiquinho Soares está muito, mas mesmo muito longe de ser um 9 de linhagem Porto. E, por muito que os nossos comentadores estejam já a fazer de Rui Pedro um craque, este tem tudo para provar. O FCP precisa, claramente, de um ponta de lança a sério. E, finalmente, de um 10. Octávio é "poucochinho" (sem intensidade, sem a assertividade necessárias). Maxi, um fraco jogador, nunca devia ter vindo. Ficando, cortará as pernas a Fernando Fonseca e Diogo Dalot, sendo pior do que ambos. O caso de Ricardo Pereira é, para mim, o mais curioso de observar: apesar das nomeações e prémios, apesar de tudo quanto tem sido dito por estes dias sobre a sua qualidade como defesa direito, aquilo que lhe vi no Porto, o facto de ter jogado em França em três posições diferentes reclama algum cepticismo que não vejo aplicado ao caso.

11.A grande decepção da época, no que a jogadores portugueses diz respeito, foi, sem dúvida, Renato Sanches. Surpreendente, pela afirmação na primeira época, e pelos sinais no Europeu. Hoje, a dúvida é que se Renato, afinal, não era um jogador muito possante, capaz de queimar metros e de levar o jogo para a frente na Liga Portuguesa, mas com uma intensidade que os seus adversários igualam em ligas com outro andamento, como a Bundesliga. Isto é, se esse factor, o da intensidade, for o único de que se vale, em não podendo superiorizar-se (fisicamente) aos seus adversários no campeonato alemão (nomeadamente), em não apresentando maiores atributos técnicos (finta, remate), não poderá Renato ficar para trás? Num momento de encruzilhada, a sua participação no europeu de sub21 foi, de facto, bastante negativa.

12.Não sei quem são as sumidades que fazem as nomeações para os melhores atletas do campeonato. Casillas não se encontrar, sequer, entre os três melhores guarda-redes da Liga Portuguesa é simplesmente ridículo. E Brahimi não figurar entre os três melhores jogadores da temporada 2016/2017 só para quem não gosta de futebol.

13.Rogério Azevedo escreveu em ABola, na apreciação individual aos jogadores da selecção nacional na Taça das Confederações que Bernardo Silva "já é" o "jogador mais virtuoso" da turma das quinas. Concordo (apenas o físico e a intensidade o impedem de ainda chegar mais longe).

14.Sérgio Conceição deve preparar bem a equipa para a primeira jornada do campeonato. Pedro Emanuel colocou o Estoril a jogar bom futebol, uma equipa coesa, capaz de jogar no campo todo. Estou convencido que só um FCP muito compenetrado, muito competente poderá começar bem no Dragão. Uma estreia traiçoeira.

15.Gostei da entrevista de Pep Guardiola a um diário desportivo catalão, esta semana. É que não titubeia nas suas principais convicções futebolísticas: "Muita gente me diz: tens que mudar [a forma de jogar das suas equipas]. Ao que eu respondo: 'quem tem que mudar sois vós' (...) Digo às pessoas para verem os jogos do Barcelona na televisão. Depois de Messi vai ser um deserto". Pois vai.

16. Leio em ElPaís: neste defeso já se gastaram 507 milhões de euros, em aquisições, na Premier League - e faltam dois meses para o "mercado" fechar. Há, neste instante, 35 jogadores espanhóis na Premier League.


Adenda: "o FCPorto revelou à polícia o modo de acesso ao emails e terá entregado testemunhos materiais de que não houve pirataria" (José Manuel Ribeiro, OJOGO, 07-07-2017, p.21)

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