sábado, 15 de julho de 2017

A religião e a morte


A vossa última pergunta retoma o futuro da religião e do cristianismo. Citais o veredicto de Feuerbach: se não tivéssemos que morrer, não haveria religião. Feuerbach é o crítico da religião mais severo que conhecemos. Todos renunciámos a refutá-lo. A suspeita de que a religião brota da necessidade, da precariedade, da indefesa humana frente à morte, será sempre actual. Penso, sem embargo, que ao «a religião existe porque temos que morrer», caberia acrescentar: «a religião existe porque temos que viver». De facto, R. Otto e outros fenomenólogos da religião substituíram o termo feuerbachiano Bedurfnis (necessidade, precariedade) pelo de Erlebnis (experiência). Pretendiam dotar a crença religiosa de um matiz mais positivo: não surgirá apenas do medo da morte, mas da afirmação da vida. Na sua origem, estaria a experiência de um encontro com algo, ou com Alguém, que ilumina a vida e o seu sentido último

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, p.64 [tradução minha]

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