quinta-feira, 6 de julho de 2017

A crise, vista no cinema

Resultado de imagem para a lei do mercado

Um ponto fundamental liga A lei do mercado, de Stéphane Brizé, a São Jorge, de Marco Martins: o último homem, o odioso com que se fica ultima ratio, tudo o mais perdido, é o algoz. E, mesmo que por momentos, a tentação empática daquele que se vê obrigado a pedir contas aos últimos, por estes mesmos. Talvez, depois, se saia do parque de estacionamento do supermarché como num dia banal. Com aquele rosto de impotência (face ao furacão da falta de dinheiro, de um desemprego certo fora dali, da sucessiva perda salarial), nostalgia (dos tempos pré-crise) e normalidade (uma resignação dorida). Um segundo ponto: as interpretações marcantes de Nuno Lopes e Vincent Lindon, de que muito vivem os respectivos filmes. No mais, os ditames e a pressão da banca, a cabeça à roda e repleta de ansiedade, a casa perdida, uma vida inteira abandonada, em nome da geração seguinte, do seguro seguinte, da conta poupança seguinte (o personagem central de São Jorge nunca teve casa; Daniel Blake foi vendendo a mobília), a procura do incremento do lucro à custa do despedimento dos caixas, a tentativa de encontrar algo que permita desfazer-se destes, numa empresa de distribuição. Os idosos que furtam umas latas de atum no mercado mais próximo, sem dinheiro para tudo. Ainda há dias, um artigo de jornal sobre o Portugal de 2017 os trazia à colação.

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