sábado, 22 de julho de 2017

O FCP pelo México


Da Gira Mexicana - combinada com os relatos mais plausíveis dos dois jogos realizados pelo FCP à porta fechada -, podem, por ora, assinalar-se os seguintes factos na era Sérgio Conceição, como treinador do FCPorto:

a) a equipa jogou sempre com a mesma linha defensiva titular: Casillas, Ricardo, Felipe, Marcano, Alex Telles;
b) a equipa jogou sempre, no início de cada encontro, em 4x4x2 (ora com uma dupla que incluía Octávio com segundo ponta de lança, ora com uma dupla Soares/Aboubakar);
c) a equipa produziu, em média, bastantes mais remates, fora da área, do que a média em jogos da época passada;
d) a equipa quis produzir, sempre, uma pressão muito alta, à saída de bola no último reduto contrário;
e) a equipa quis ser muito objectiva, rápida - poucos toques - a chegar à baliza contrária.

E apreciações de valor, deste adepto sobre o que viu:

i) frente ao Chivas, uma equipa mais alegre do que tem sido norma ao longo das últimas temporadas;

ii) um modelo de pressão que será extremamente desgastante do ponto de vista físico, suponho;

iii) a acentuação da dimensão física, pelo treinador, nas declarações produzidas, em especial na entrevista à Dragões/Porto Canal: há anos que não ouvia falar de 2/3 treinos dias, incluindo às 7h30 da manhã, e com, a crer nos relatos, separação entre o físico e restantes dimensões (continuam a faltar comentadores especializados para ajudar a ler tais concepções de treino; muitos caminhos podem ir dar a Roma, mas era interessante, precisamente, mostrá-los e avaliá-los criticamente);

iv) sendo, de longe, o melhor médio defensivo e um dos melhores jogadores do plantel, Danilo, num esquema de duplo pivot, em que os dois médios centros têm que se deslocar muitas vezes da sua posição, nem será, porventura, o jogador mais propício a esse registo (nem existe, propriamente, esse jogador, creio, no plantel, pese, frente a este adversário mexicano, André André ter estado bem; durante a época, no entanto, a intensidade do seu jogo é baixa e insuficiente para o FCP);

v) o onze do FCP, se individualmente fosse possível de avaliar uma equipa - e não o é, porque cada um rende de modo diferenciado em função do que é a ideia de jogo e o colectivo - dir-se-ia que, sem saídas, é melhor do que o do ano passado: Ricardo, uma das minhas dúvidas, parece ter chegado, de facto, outro jogador e com grande confiança e, em assim sendo, é manifestamente melhor do que Maxi Pereira, enquanto considero que Aboubakar é mais efectivo do que André Silva

vi) recordo-me suficientemente bem do que eram os piques de Bosingwa pelo direito da defesa e ataque do FCP para saber que, em muitos jogos, era o grande factor de desequilíbrio do FCP e, deste modo, para pensar como muito importante a profundidade que, em ficando no plantel, Ricardo Pereira pode oferecer;

vii) Corona foi inexistente durante os dois jogos do FCP no México, isto, e ainda, na sequência dos "problemas familiares" que alegou para pedir dispensa da sua selecção na Taça das Confederações; 

viii) José Sá continua a sair mal da baliza. Ocorreu em ambos os encontros mexicanos. Só muita complacência na crítica jornalística "especializada" justificam o não apontar dessa debilidade. Por muito importante que seja o jogo comunicacional - José Já como capa da Dragões, quando se previa que Casillas viesse a sair -, mais importante é a realidade dos factos: se Casillas é caro, é caso para perguntar quanto custariam/custarão os erros (e pontos perdidos) com Sá na baliza?

ix) não tendo estado mal, tenho a maior das dúvidas sobre se Octávio tem a pedalada/ritmo/intensidade necessárias para uma equipa como o FCP, e se algum dia será um bom segundo avançado;

x) para a posição mais recuada do duplo pivot, parecia ser necessário um "6,5" - da mesma maneira que se falava do "9,5" para um híbrido entre o ponta de lança e o médio ofensivo, aquela categoria de não matadores, com certa técnica, mas que não eram propriamente um 10: os Nunos Gomes, os Hélderes Postigas..., aqui poderia falar-se de um híbrido entre o "6" e o "8" -, pelo que menos ainda se compreende a saída de Rúben Neves, provavelmente dos jogadores portugueses mais habilitados para essas funções;

xi) Oliver fez uma meia hora de luxo frente ao Chivas. Com a bola nos pés, entre os três melhores do plantel (dizer-se, como escutei a comentadores televisivos, que jogou melhor neste encontro do que em toda a época passada é uma hipérbole que esquece, só para dar o exemplo mais conhecido, o jogaço que fez no Dragão frente aos encarnados); 

xii) em 4x4x2, fosse pela fase da pré-época e pela forma ainda pouco conseguida dos extremos, faltou a profundidade pelas laterais - excepção aos defesas laterais - que se pedia. O treinador já tinha dito à Dragões que não teríamos um esquema de 4x3x3, o que não inibiu Pedro Azevedo, na sic notícias - mesmo após os mais convincentes relatos do que havia sido o Académica-FCP e Rio Ave-FCP à porta fechada - de dizer que "Sérgio Conceição joga sempre em 4x3x3", ou Rui Braz de dizer que frente ao Cruz Azul "o FCP começou em 4x3x3". 

xiii) Hernâni voltou a falha na definição dos lances, aspecto em que esteve infeliz. Segundo Cândido Costa, no Porto Canal, tal deveu-se ao cansaço, dada a "altura" do estádio do Cruz Azul, a fase da época, etc. Eu, ao invés, penso que é bem mais o aspecto estrutural que aqui prepondera: Hernâni, seja no passe, seja no remate tende, há anos, a falhar e, por isso, a não se transformar num grande jogo que as suas características de velocidade de ponta poderiam fazer emergir;

xiv) a principal decepção, para mim, foi Galeno, pois tinha expectativa, face ao que vira do jogador na equipa B. O jogador mostrou-se sempre algo trapalhão e ansioso, nunca concluindo bem os lances de maior perigo que teve nos pés. Sendo, a meu ver, um extremo, que joga bem, sobretudo, no espaço, julgo que a sua posição de segundo avançado não o favoreceu. Mas pareceu muito traído pelos nervos, também;

xv) Sérgio Oliveira é o jogador que melhor remata fora da área e marca livres no FCP (aflitivo Alex Telles, sem nunca conseguir marcar um golo, marcar todos os livres perigosos do FCP). Mas a intensidade de jogo nunca costuma acompanhar. Poderia ser um caso - mais um desejo do que uma convicção, no entanto - em que Nuno poderia procurar mudar o chip de um jogador. Porque é boa a intenção de Conceição de colocar a equipa a rematar mais de média distância. Mas não há quem. Oliveira, se tivéssemos uma regra para o futebol como a que há no andebol para os guarda-redes poderem entrar "só" para defenderem livres de 7 metros, poderia ter uma redobrada importância no plantel;

xvi) quem também desiludiu um tanto, para mim, foi Rafa Soares. O lateral esquerdo, a defender, expõe-se permanentemente. Muitas bolas são colocadas nas suas costas, sem que tenha conseguido apanhar o extremo contrário (de aí, aliás, chegou o 2-2 frente ao Cruz Azul). Tem um óptimo pé esquerdo, cruza e remata muito melhor do que Alex Telles - mas não pode ter esta ingenuidade a defender (pois a sua missão primeira é essa). Não sei se tem lugar garantido no plantel. E, nesse sentido, Layun pode vir a ser importante. Layun que não foi uma grande aposta de Conceição nestes primeiros tempos e surge como joker para três posições: lateral direito, extremo direito, lateral esquerdo. De algum modo, o mesmo poderia, ainda, ser aplicável a Ricardo Pereira. Em jogos mais fechados, não me admirará ver uma dupla, à direita, formada por Maxi e Ricardo (mesmo que não seja da minha predilecção tal escolha);

xvii) há uma falta, recente, de cultura de vitórias que transforma vitórias óbvias em empates. O resultado normal frente ao Chivas seria 3-0; o jogo terminou em 2-2. Este, a questão da cultura de vitórias e de confiança, um aspecto fulcral que explica porque, mau grado o modo, conhecido e referendado em conhecidas sondagens, como o clube da luz ganhou sucessivos campeonatos, parte na pole position para mais uma edição da liga portuguesa de futebol; 

xviii) Conceição não deve colocar-se a jeito, desde o minuto zero da época, para os Tiagos Antunes o expulsarem permanentemente do banco e criarem com ele conflitos. Esteve mal nos protestos no jogo com o Chivas - um bom motivo para não permitir que os jogadores se desconcentrem do jogo - e em não jogar os penalties;

xix) a proposta de jogo de Conceição, pelo menos na primeira parte frente ao Chivas, é positiva e deixa expectativa para confirmação em próximos encontros.

P.S.: Não, não foi uma injustiça, como Rui Braz sugere tantas vezes, Soares ter chegado e tirado o lugar a André Silva na época passada. Em primeiro lugar, porque Soares veio dada a falta de eficácia revelada, em muitos jogos, por A.Silva; depois, porque André Silva continuou a jogar com Soares; em terceiro lugar, só o decréscimo de qualidade de jogo de André Silva, mesmo com Soares, o remeteu para o banco.
Hoje, num particular frente ao Bayern, um miúdo de 19 anos do Milan, chamado Crotone, marcou 2 golos (na vitória por 4-0). André Silva entrou na segunda parte e, nas ocasiões que teve, rematou mal, uma das lacunas evidenciadas, de resto, ao serviço do FCP. Veremos quantos golos alcança ao longo da época na liga italiana e em quantos será titular.

P.S.1: ouvi Manuel dos Santos, fazendo zapping nos duelos da sptv+, dizer que "Carolina Salgado agora não tem credibilidade, mas antes tinha credibilidade até para ir ao Papa". O Conselho de Justiça, da FPF, numa decisão unânime dos 7 elementos que o compõem, decidiu, segundo pude ler na nossa imprensa, que o testemunho de Carolina Salgado carecia de credibilidade, na medida em que acerca de um mesmo facto apresentara diferentes versões, contraditórias entre si, para além de uma motivação de mágoa, para com o acusado, no seu depoimento não poder estar excluída, em virtude de questões pessoais entre ambos. Foi isto. Não fez, creio, nem poderia fazer alegações de carácter - com base no que terá sido o percurso de vida de Carolina Salgado, como insinuado por Manuel dos Santos - o Conselho de Justiça, como se alguém pudesse andar com um ferrete na testa por qualquer passado, e como se houvesse um conjunto de justiceiros com a legitimidade de lhe atirar com pedras (muito pouco cristãmente, já agora). Ao levar Carolina Salgado ao Vaticano, Pinto da Costa disse-lhe "tu és" ("não importa o que fizeste ou deixaste de fazer, não importa o que digam"), talvez num dos gestos públicos mais elevados que se lhe conheceu. Quem estiver isento de pecado que atire a primeira pedra (ou, no entender de Manuel dos Santos, que nunca entre no Vaticano). Então quem poderia atirar a pedra (ou entrar no Vaticano)? Infelizmente, a ordinarice dos comentários de Manuel dos Santos, junto à mais baixa das demagogias, não se esgota na política. 

P.S.2: apesar de amigável, foi uma grande primeira parte, aquela que opôs Man.Utd e Man.City, esta semana nos EUA, ficando na retina a exibição do menino, de 17 anos, Foden.

Expressões idiomáticas


Too big for your britches [grande demais para as próprias calças]: expressão para descrever aqueles que acham que são melhores do que os seus antepassados.

Pormenores


Leio no editorial de Eduardo Dâmaso, na Sábado, da semana passada, que a lei portuguesa, relativa à questão da responsabilidade dos titulares de cargos políticos que pune o recebimento indevido de vantagem, chamada à colação em virtude da relação entre os secretários de estado e a Galp, no caso dos bilhetes para o Europeu de Futebol de 2016, tinha sido alterada com inspiração na lei alemã, "onde tudo começou...por causa de umas ofertas de bilhetinhos para jogos do Mundial de 2006". Na mesma edição daquela newsmagazine, fica a saber-se que não houve apenas bilhetes oferecidos pela Galp; houve, ainda, bilhetes e refeições solicitadas (por quem veio a obtê-las) à Galp, o que não será exatamente a mesma coisa do que o sucedido com outros casos aparentemente análogos. Talvez também por estes, ou outros pormenores menos conhecidos, sensato seria que representantes do poder legislativo evitassem pronunciamentos muito peremptórios sobre tais matérias, e, nesse contexto, surgem como deslocadas as afirmações do Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, sobre o problema em causa.

P.S.: nesta edição da Sábado, ficaram a conhecer-se partes do depoimento de José Maria Ricciardi em tribunal, sendo que, de entre o publicado de tais afirmações, é muito curiosa a conversa com que aquele diz ter mantido com Passos Coelho (na qual este teria dito a Ricciardi que o Ricardo Salgado o ameaçava, dizendo ter dossier de um ministro importante do então seu governo e que poderia levar à demissão do mesmo, ao que Passos teria respondido "se é o que eu estou a pensar, não me importo" e Ricciardi insinuou ser referência a Paulo Portas - no que seria a enésima confirmação do dito churchlliano sobre a diferença entre "adversários" e "inimigos" e onde ambos se situam; todavia, Passos demarca-se de tal afirmação e Portas diz-se indiferente a rumores), bem como a sugestão, feita, em tribunal, de que Manuel Pinho seria uma sugestão, para o Governo, feita por Salgado, segundo aquele sempre íntimo de José Sócrates (algo que os principais protagonistas negam). Portas confirmou ter estado reunido com Salgado, no BES, nos dias seguintes ao anúncio da "demissão irrevogável", mas regista que tal foi público e notório e que se enquadrou num vasto conjunto de encontros com diferentes personalidades, de diversos meios, entre os quais o financeiro.

Camões no cinema português

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O cinema português (...) não tem abordado de uma forma particularmente intensa o percurso de vida e a obra do poeta da portugalidade, Luís Vaz de Camões. (...) E, dada a sua magnitude, é perfeitamente compreensível que ninguém tenha ousado deitar as mãos a uma versão fiel de "Os Lusíadas". Neste quadro, é perfeitamente lógico que a grande produção portuguesa a pôr em relevo a vida de Camões tenha surgido num dos períodos de maior aproximação ao que se poderá chamar uma indústria portuguesa de cinema, a década de 1940. (...) Não admirou, pois, que o ano de 1946 fosse marcado pela estreia de "Camões - Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente", com assinatura de Leitão de Barros, produção de António Lopes Ribeiro e um António Vilar no auge da sua fama, presença física e popularidade, vestindo a pele de Luís de Camões. 
O filme, um épico histórico e romanesco, em tons claramente panegíricos, inicia-se nos tempos do poeta em Coimbra, em 1542, atrevessando depois alguns dos episódios mais significativos da sua trágica, aventurosa e romanceada existência, como a perda do olho direito pelo poeta-soldado, em Ceuta, a salvaguarda, após naufrágio junto à foz do rio Mekong, do precioso manuscrito do poema épico, a sua leitura deste a D.Sebastião...
Considerado iniciativa de utilidade pública pelo governo português, o filme veio a estrear em grande estilo no São Luíz, em Lisboa, a 23 de Setembro, partindo pouco depois para a primeira edição do Festival de Cannes, após o que fora uma falsa partida, em 1939, pois a guerra impedira a continuidade do certame. (...) Cotejando as listas de filmes produzidos em Portugal era possível detetar em 1906 o título "Os Lusíadas" e em 1911 "A morte de Luís de Camões", mas nenhuma dessas obras subsistiu até hoje, nem é conhecida qualquer informação sobre o seu conteúdo. Depois (...) o cinema português viveria tempos pouco propícios à evocação de Camões (...) Camões, no cinema, viveria sobretudo de pequenos trabalhos como "Mar Português" (João Mendes, 1950), uma interpretação de alguns dos seus poemas, "Camões" (Faria de Almeida, 1966), uma panorâmica da sua vida e obra através de ilustrações, "A viagem - Os Lusíadas", João Cândido, 1972), produção brasileira filmada de uma encenação teatral, "Camões, Esse Emigrante" (António Escudeiro, 1985), uma apresentação de José Hermano Saraiva do percurso do poeta na Índia, "Camões: Tanta Guerra, Tanto Engano" (Paulo Rocha, 1996), registo audiovisual de uma peça do Grupo de Teatro Maizum. (...)
Mas Camões estava prestes a ganhar nova vida, no cinema ficcional português, embora sempre, possivelmente por limitações financeiras, no formato de curta-metragem. É assim que Luís Miguel Cintra interpreta a figura na sua velhice, doente e atormentado por todos e perseguido pela mãe, interpretada por Isabel Ruth, em "Erros Meus", um filme de quinze minutos que Jorge Cramez realizou em 1999
Seria já em 2014 que o poeta regressaria, e em dose dupla. Com exibição premiada em Berlim, "Taprobana", de Gabriel Abrantes, é um ensaio visual surreal, acompanhando as aventuras sexuais e escatológicas do poeta e da sua amante Dianamene, enquanto escreve partes do seu poema épico.
Finalmente, Manoel de Oliveira praticamente concluiu a sua monumental obra dirigindo, aos 106 anos, "O Velho do Restelo" (...) Curiosamente, neste momento, a RTP exibe a série de aventuras históricas "Ministério do Tempo", com presença regular da personagem de Camões, interpretada pelo jovem João Vicente. Um bom indício da presença eterna do poeta no nosso imaginário.

João Antunes (crítico de cinema), A fugaz filmografia camoniana, (suplemento) História - Jornal de Notícias, nº8, Junho, 2017, pp.94-95

Compatibilizar contrários?


Assunção Cristas firmou, e bem, a sua decisão de repúdio e afastamento da candidatura de André Ventura, à Câmara Municipal de Loures, nos princípios democrata-cristãos que são a base com que se identificaria o CDS. Não obstante, alguma insurreição interna (em realidade, um número considerável de militantes com lugares de alguma notoriedade), de corpos intermédios do partido, perante tal tomada de posição, remetendo para os tempos de Paulo Portas, e do modo como este, a dado momento da sua vida político-partidária, associava "rendimento mínimo" e "ciganos" (louvando-se, e revendo-se, tais dirigentes, em tal histórico e, pelos vistos, legado), não deixam de levantar várias questões: a) será que o ideário democrata-cristão é o mais representativo para a maioria dos militantes do CDS?; b) a importância do PP, essa criação de Paulo Portas e Manuel Monteiro, não será muito substantiva neste partido?; c) diferentes correntes, no interior de um partido, serão sempre compatíveis (entre si)?; d) no caso concreto, democracia-cristã e populismo são susceptíveis de conseguir, sem um deles se colocar em causa, manter um cimento?; e) irá Assunção Cristas conseguir manter sempre a rota aqui firmada, face à pressão de que esta semana foi alvo, neste contexto, com o subliminar de que com Portas a posição do seu partido seria outra?; f) que posição teria, nas mesmas circunstâncias, Nuno Melo?; g) um resultado menos conseguido, por Assunção Cristas, em Lisboa, depois de expectativas colocadas muito altas - incluindo os media, que a colocaram como podendo chegar a um segundo lugar, e nisso, mesmo que para apoucar a escolha do PSD, não lhe fazendo grande favor -, e face a este ruído, de que modo poderão afectar a sua liderança?; h) ao falar-se de populismo, como se fosse um estádio político muito recente e tivesse nascido com Donald Trump e como se, de aí em diante, quase todo o movimento, ou objecto político menos identificado, pudesse ser catalogado, sem mais, como aí estando filiado, não se ignora um conjunto de manifestações políticas, nomeadamente, no nosso país, em décadas recentes (os cartazes com os tachos, do PP de Manuel Monteiro, como se a política fosse isso ou a isso se reduzisse, e como se o PP estivesse fora da política; a encenação de um país onde a criminalidade seria dramática, no final dos anos 90, quando esta estava a diminuir neste país - quando, não, então, a sugestão de ligação da mesma a determinados grupos de imigrantes; as frases sobre os "ciganos do rendimento mínimo", ignorando-se quanto gasta o estado com esta prestação social não contributiva, qual a natureza da mesma, quanto, em média, recebe cada beneficiário, em que situação se encontra cada um destes, qual o valor da fraude calculada no recebimento de tal prestação, que obrigações impendem sobre quem dela pretende ser beneficiário e como se o grande problema das finanças públicas portuguesas fosse o rsi)? 
Claro que, para lá dos princípios aplicáveis, e bem aplicados, ao caso concreto, não deixou de haver algum aproveitamento partidário, próprio do dito jogo, deste caso de Loures; também não creio que Passos Coelho seja racista ou xenófobo, nem me parece que tenha sentido entrar-se por aí. Dito isto, o candidato em causa, em Oeiras, de maneira nenhuma, com o tipo de posicionamento público que tem - por vezes, mesmo com seus interlocutores, olhos nos olhos, colocando em causa a sua honorabilidade, perante a sua complacência, e como se essa alusão ao carácter nada lhe interessasse -, nos conhecidos domínios em que participa, em termos mediáticos,  contribui para o engrandecimento de qualquer movimento ou partido que contribua para o suportar.
A finalizar, duas notas: uma para referir a perenidade de certa postura dos cidadãos sobre o modo como são alocados recursos/subsídios do Estado, em diferentes épocas e sociedades, bem como os juízos de valor que são feitos sobre quem possa usufruir de ajuda pública em situação de pobreza. Por um lado, lembro-me dos escritos de George Orwell, de há sete ou oito décadas, nos quais recorda as senhoras ao chá falando dos mandriões que são pobres e que podiam ir limpar as matas e os caminhos e não querem fazer nenhum e, ainda por cima, em vez de uns bons suminhos de laranja naturais que fariam bem à saúde gastam o dinheiro em guloseimas - escrito, relembro há uns 80 anos -; depois, e até pela leitura que estou a fazer do livro de J.D.Vance, Lamento de uma América em ruínas (a tradução da obra cujo título original, de que aqui se dera conta há um ano, é Hillbilly Elegy), o nome dado, nos Estados Unidos da América, por parte de certos sectores sociais, a pessoas que recebem subsídios da Segurança Social é "rainha da Segurança Social", o nome para o estereótipo/preconceito da senhora negra, preguiçosa, que passará o dia a dormir e só quer viver à custa dos contribuintes. Entre os "ciganos do rendimento mínimo" e a "rainha da Segurança Social" a mesma retórica que explora sentimentos menos nobres em busca de um ganho político - partindo para uma generalização que parece ter pouca acomodação nos factos - só o alvo mudando, mas, porventura, sugerindo coordenadas e constantes antropológicas/sociais/sociológicas a registar.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

DA NORMATIVIDADE DAS VÍTIMAS E DA PERPLEXIDADE DE UMA CONFISSÃO


Desejo concluir este apartado com um relato que me resulta especialmente emotivo. Refiro-me a H.Jonas, filósofo da religião judeu, cuja mãe foi sacrificada em Auschwitz em 1942. No seu livro Pensar sobre Deus e outros ensaios sustenta que quando se trata de Deus, «o voto dos felizes pode deixar-se de lado, enquanto o dos que sofreram, o dos infelizes, conta duplamente, no seu peso e validez». Uma tese algo diferente da defendida por J. Stuart Mill no seu livro A utilidade da religião: «São precisamente os que nunca foram felizes os que têm este desejo (o de perdurar noutra vida depois desta). Os que foram felizes podem suportar a ideia de deixar de existir; mas deve ser duro morrer, para quem jamais viveu». E esse é precisamente o problema de Jonas: os que nunca desfrutaram de uma vida elementarmente conseguida. Por isso, propõe «escutar a opinião das vítimas da miséria, a opinião dos menos subornados pelas alegrias gozadas».
A obra de H.Jonas é todo um alegado em favor da normatividade das vítimas de Auschwitz. Uma normatividade que alcança também tons dramáticos no cru dilema proposto por Benjamin e Horkheimer: se se mantém viva a recordação de incontáveis gerações de seres humanos sacrificadas ao longo da história universal, é impossível saborear a própria felicidade; como solução, há que recorrer ao esquecimento; mas, uma felicidade alcançada com recurso ao esquecimento é humana? Portanto: se se faz uso da memória, é impossível ser feliz; e, se se esquece, alcançar-se-à a felicidade, mas à custa de prescindir da solidariedade. Pessoalmente, nunca soube como escapar a este dilema, a não ser, claro está, que se aceite, com a segurança sem garantias, própria da fé, a prometida restauração cristã universal, em virtude da qual ficará definitivamente implantada a justiça que as vítimas da história não experimentaram. Não parece que haja outra saída.
É especialmente comovedor o relato de H.Jonas [em Memorias, Madrid, 2005, p.370] sobre o seu encontro com H.Arendt. Conta que Arendt o desafiou com a seguinte pergunta: «Acredita em Deus?», e prossegue:

Tão diretamente nunca ninguém mo tinha questionado. E uma pessoa quase desconhecida! [a fazê-lo] Primeiro, olhei-a quase desconcertado. Mas então, meditei e disse - para minha própria surpresa -: «Sim». Hannah estremeceu, todavia recordo que quase me olhou espantada. «De verdade?». E respondi: «Sim, em definitivo, sim. Para lá do que isso possa significar, creio que a resposta «Sim» se ajusta mais à verdade do que um «não». Pouco depois, a sós com Hannah, voltamos a falar de Deus, e ela disse-me: «Nunca duvidei da existência de um Deus pessoal». Ao qual lhe disse: "Hannah, nunca o teria imaginado! E agora não percebo por que ficaste tão admirada na outra noite [em que conversámos sobre este tema]. E ela respondeu: "Estava comovida pelo facto de o escutar dos teus lábios, pois jamais o podia pensar». De maneira que ambos nos tínhamos surpreendido com aquela confissão. 

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp. 103-105 [tradução minha]


Desconstruir as desconstruções


Manuel Fraijó como Hans Kung: se o desejo de Deus, da existência de Deus, (desejo, nomeadamente) em favor da justiça à vítimas anónimas e injustiçadas da história (que, de outra sorte, nunca serão justiçadas), não garante, por si mesmo, a Sua existência, inversamente, tal desejo não pode, igualmente, demonstrar e ilustrar, como não demonstra nem ilustra, a Sua inexistência.

P.S.: "Feuerbach" traduzido significa "banho de fogo".

"Frage"


A busca inicial de Deus não teve sobressaltos. Apelava-se à teologia revelada, tão rica em dados, datas e lugares geográficos familiares. Eram os dias, já longínquos, nos quais se acreditava que «a Bíblia tinha razão». Uma interpretação literal do grande livro judaico-cristão dissipava as dúvidas que antes afloravam. A autoridade da revelação, unida a outra grande autoridade, a da inicial experiência cristã, situavam a existência de Deus em um terreno livre de tormentas. O cristianismo bebeu, desde o início, em dois poços: o testemunho e a argumentação. Houve vasos comunicantes entre eles. Com frequência, a principal argumentação em favor da fé era o testemunho dos que viviam e tinham morrido por a defender. Inclusivamente, em dias muito próximos a nós, H. Bergson perguntava-se se a acumulação e coincidência do testemunho dos místicos não seria uma certeira argumentação a favor da existência de Deus.
E, quando a ingenuidade bíblica se quebrou, procurou-se refúgio, em outra grande ingenuidade: a da teologia natural. Em certo sentido, era uma via de acesso a Deus mais dura que a anterior. Ainda que timidamente, remetia para a argumentação, a razão. Mas tratava-se de uma razão permeada de revelação.  (...) Quando falhavam as boas razões, apelava-se à segurança da fé. Tudo se complicou quando também a teologia natural perdeu a sua milenar plausibilidade. Ocorreu nas agitadas datas da Ilustração europeia. O manto protector da revelação deixou, agora sim, de vestir as mentes filosóficas. Atreveram-se, estas, como aconselhava Kant, a pensar sem a subvenção das velhas tutelas. A autonomia do pensamento desalojou a ancestral heteronomia bíblico-teológica. O resto, fizeram-no as surpreendentes descobertas da ciência, as convulsões políticas, a descoberta de novos mundos e profunda transformação das pautas morais. Deus deixou de ser um dado revelado, um dogma cegamente aceite. O pensar dogmático conheceu uma das maiores quebras que o Ocidente conheceu. Nem a teologia revelada, nem a teologia natural estavam em situação de fazer frente aos novos desafios. O seu lugar foi assumido, sem renunciar à sua herança, pela filosofia da religião, uma forma mais livre e fresca [descontraída] de pensar a religião. O argumento da autoridade deu lugar à argumentação, à perplexidade (...) O ponto de partida não era já a fé nem a autoridade da Bíblia, mas as possibilidades do conhecimento humano. Ainda que timidamente, começou-se a dar espaço à razão. A Bíblia deixou de ser o único oráculo. Para aceder a Deus, por exemplo, começou-se a partir do visível e experimentável. É o caso das cinco vias de São Tomás (...) A teologia natural fracassou quando Deus deixou de ser tema e passou a ser problema. É o momento em que a Ilustração europeia, com Kant à cabeça, vira as costas às tradicionais provas da existência de Deus. É significativo: Deus dispôs de provas da sua existência enquanto delas não necessitou, enquanto a Europa foi cristã. em contrapartida, quando Deus entrou em crise, fechou-se a azáfama de provas. (...) Nos últimos três séculos, Deus - se assim posso falar - viveu em permanente sobressalto (...) [ficando] como  problema e pergunta aberta. (...)
Entre os que O procuraram a tempo inteiro estará, sem dúvida, Pascal. Um dos seus Pensamentos vem em auxílio de todo aquele que experimenta Deus como problema, como assunto incerto: «Incompreensível que Deus exista e incompreensível que Deus não exista". É que, se Deus não existe, ficam muitas coisas por explicar; mas, se existe, amontoam-se, igualmente, as interrogações. Platão [em Leis, X, 88a-b], já na sua velhice, deu um sábio conselho:

Filho meu [...], o passar do tempo far-te-á mudar de opinião em muitos pontos e pensar ao contrário do que pensas agora. Aguarda, pois, até então para tomar posição [optar] em questões de tanta importância. E, ainda que para ti não conte, a mais importante é pensar correctamente (orthos) sobre o tema dos deuses

Entendo que Platão convida a deixar o tema em aberto. Algo talvez não muito distante do que tenho proposto nestas páginas. Falar de Deus como problema é, em algum sentido, continuar «apegado» a Ele, não descartar a surpresa (...) A teologia alemã prefere falar de Deus como «pergunta» (Frage) em lugar de problema (Problem). Em geral, as religiões inclinam-se para o termo «mistério».
No tema da recepção, haverá que distinguir dois âmbitos. Ao primeiro, pode chamar-se contexto de descoberta. É o âmbito da experiência directa e originária, prévia a qualquer reflexão filosófica ou teológica. É a autêntica primeira linguagem do crente. A esta experiência, mescla de fascinação e temor, de assombro e de desejo, não se podem fixar limites. É o «reconhecimento extático do mistério» (M.Eliade), o abandono de todo o penúltimo e provisório em favor de uma realidade totalmente diferente que recebe muitos nomes. É um âmbito em que nada se pode prescrever. Não se pode, por exemplo, obrigar alguém a experimentar Deus como problema. É o espaço no qual manda o que "nos concerne incondicionalmente" (P. Tillich). As coisas mudam quando nos referimos ao contexto de fundamentação. É o encarregue de articular conceptualmente a experiência religiosa. É o espaço da linguagem segunda, a hora da filosofia e da teologia. Aqui não manda a imediatez perceptiva, mas um discurso sossegado, rigoroso e coerente. É o âmbito do pensamento, do conceito, da argumentação, da busca pensada da verdade

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.95-110 [tradução minha]


Deus (etimologia)


Entre parêntesis: mais inútil ainda do que procurar uma definição simples de religião seria buscar a de Deus. Etimologicamente, o termo deriva da raíz div ou deiv que significa brilhar. É uma palavra que tem a sua origem na experiência de contemplação do céu ou firmamento. Expressa admiração, invocação, encantamento [surpresa, emoção], dependência, fascínio face à realidade. Depois, vem à mente o «céu estrelado» que tanto impressionava Kant. E é impossível não recordar «o silêncio dos espaços infinitos» que emocionava Pascal; sem esquecer a experiência do «tremendo e fascinante", de R. Otto.

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, p.94 [tradução minha]

  

A Inteligência Artificial e a civilização

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Sobre o futuro automobilístico e os carros autónomos, Musk afirma que não é que não haja, dentro de 20 anos, pessoas ao volante; é que, dentro de 20 anos, não haverá volantes nos carros. E pessoas a conduzir em automóveis tradicionais, não é que não possam existir. Serão é tão estranhas como hoje vermos gente a cavalo nas nossas cidades.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Um "mercado de notas" (sem regulação)


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O ensino será daquelas àreas de actividade em que é mais penoso assistir-se a avaliações (de alunos), uma das específicas e mais responsabilizantes tarefas de um professor (no que contribuirá para a configuração de uma hierarquização e do delineamento de uma estratificação futura, que passa pela sua pena também), marcada e atenta a considerandos outros que não os estritos critérios desenhados e estabelecidos para essa obrigação ética marcante. E, no entanto, considero verdadeiro o diagnóstico do Professor David Justino, este fim de semana, no JN (aqui, alguns sublinhados da entrevista). Evocar-se, em reuniões de avaliação, o perigo de fuga de alunos para um outro estabelecimento de ensino, privado (porventura, as mais das vezes) ou público, como motivo de ponderação de uma dada nota é, de facto, constrangedor e confrangedor. A sociedade de mercado significa que nenhum âmbito, nenhum sector está (ou parece) a salvo do tudo se vende e tudo se compra, todas as relações têm que dar lucro, o que no caso da escola é especialmente degradante. David Justino diz, neste contexto, que "se eu fosse ministro da educação" já teria havido consequências para as escolas que, sistemática e sucessivamente, apresentam desvios (significativos), nas notas de frequência interna para as notas de exame. Que tal se verifique, em conhecidas escolas e colégios, reiteradamente, desde há, pelo menos 15 anos (desde que os rankings são feitos e/ou conhecidos) e nada se faça perante essa realidade é, de facto, escandaloso. E que um governo, qualquer governo, que se diga defensor da justiça social e não actue, nem faça deste âmbito uma prioridade - quando, como vimos de dizer, ele, precisamente, é uma das determinantes para moldar a hierarquização das sociedades vindouras - é incompreensível. Até porque, não raramente, com colégios, onde tais ocorrências se têm verificado, sujeitos a propinas impossíveis de serem pagas por famílias desfavorecidas ou remediadas, nem sequer a igualdade de oportunidades - já de si a merecer contributos que vão além dela, para lá da meritocracia - se procura garantir. O actual Governo leva, já, dois anos de mandato. E, se apesar de muitas críticas, a meu ver, tem arriscado e ousado em formas de flexibilização curricular, em valorização das ciências sociais que merecem forte saudação, não encontro justificação plausível para o mutismo face a esta grave questão.
Outra coisa que me custa a entender é a necessidade de se mudar a liderança no Conselho Nacional de Educação (pelos vistos, em marcha, segundo se pôde ler, na nossa imprensa, esta semana). David Justino tem um pensamento político, tem ideologia, pode nem sempre ter estado de acordo, nem tinha que estar, com o que o Ministério da Educação tem vindo a fazer nos últimos dois anos (nomeadamente). Mas isso, por si só, não me parecem razões bastantes para justificar o afastamento de alguém que é um grande estudioso da matéria, que em muitas ocasiões tem posições de grande sensatez neste domínio, preparado, sem, propriamente, a visão dogmática de outros doutrinadores. Pessoas como David Justino, ou - para dar um outro exemplo de uma área diferente, a concertação social - Silva Peneda serem afastados (por partidos diferentes) por delito de opinião, ou eventualmente para colocação de alguém mais lá da casa empobrece a qualidade da nossa deliberação pública. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

A Europa e o Cristianismo


Se, em 1931, no seu regresso de uma estadia prolongada nos Estados Unidos, o teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer considerava que na Europa se havia já dado "a grande morte do cristianismo", em sentido contrário Jurgen Habermas, filósofo ateu, em Israel ou Atenas, assinala que a solução para a Europa, culturalmente monoteísta e prevalentemente cristã, não lhe pode ser exógena:

O cristianismo representa para a auto-compreensão normativa da Modernidade não apenas uma forma precursora ou um catalisador. O universalismo igualitário, do qual procedem as ideias de liberdade e convivência solidária, assim como as formas de vida autónoma e emancipação moral da consciência individual, direitos humanos e democracia, é, diretamente, uma herança da ética judia de justiça e da ética cristã do amor. Inalterada na sua substância, esta herança foi assimilada sucessivamente de maneira crítica e interpretada de novo. Qualquer outra coisa seria palavreado pós-moderno. (p.185)

Contudo, evidentemente, sendo ateu, Habermas, valorizando este património cultural, renuncia à "herança escatológica" do cristianismo. E, para o teólogo protestante Karl Barth, "um cristianismo que não seja escatologia deixaria de ser cristianismo".

[a partir de Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.122-124]

"DO NADA AO NADA"?


Unamuno, em O sentimento trágico da vida, deixou-nos a interrogação - e a sua recusa em assentir em essa interpretação do cosmos, da vida e dos humanos - se somos "uma fatídica procissão de fantasmas, que vão do nada ao nada".

Vias de acesso


Finalmente: a recepção de um discurso problemático sobre Deus não será a mesma na teologia e na filosofia. O ritmo de aproximação ao tema Deus é diferente. (...) O ritmo filosófico de acesso a Deus - inclusivamente, o da filosofia da religião - será sempre laborioso, titubeante, interrogativo, problemático. O da teologia, ao invés, pode ser, ainda que não necessariamente - pense-se na teologia fundamental - mais directo, mais assertivo e firme. A filosofia poder retardar indefinidamente a aparição do tema «Deus» no horizonte das suas preocupações. Pode pô-lo entre parêntesis sem má consciência, ainda que historicamente tal apenas tenha ocorrido no Ocidente. W. Weischedel dedicou-se a demonstrar, em dois volumes, até que ponto a filosofia ocidental se converteu numa doutrina filosófica sobre o Deus cristão. A sua tese é de que, quando isto deixou de ocorrer, a filosofia ocidental entrou em crise.  O que já não sei é se a filosofia pode obviar por completo o tema «Deus». Imagino que uma filosofia sectorial, talvez sim. Pelo contrário, uma filosofia - não sei se diga «metafísica» - que se interrogue pela realidade no seu conjunto é possível que seja obrigada a dar uma olhadela a Deus.
A categoria principal do pensamento filosófico é a razão. É ela que marca etapas e possibilidades de acesso a Deus. A teologia, por outro lado, concede maior protagonismo a faculdades menos severas: a imaginação, o sentimento (Schleiermacher), os afectos. Ainda que, para ser justo, haja que assinalar que as tradições ocidentais - tanto as filosóficas, como as teológicas, tão difíceis de separar - cultivaram ambas as vias. A via, digamos, mais cordial, tem os seus marcos principais em Platão, Santo Agostinho, São Boaventura, o Mestre Eckhart, Niculau de Cusa, Pascal, Kierkgaard, Schleiermarcher, Unamuno...Foi uma via generosa de acesso a Deus, ampla e de grandes horizontes. Deu carta de cidadania à experiência, ao sentimento, à mística, aos avatares da vida.
A outra via, mais austera e racional, pode remeter-se a Aristóteles, Santo Anselmo, São Tomás de Aquino, Descartes, Leibniz, Espinoza, Kant, Hegel, Heidegger...Cultivou uma fidelidade, quase heróica, à razão. O específico, aqui, foi a sobriedade racional. Descuidou, desta forma, outros caminhos aos quais, hoje, somos mais sensíveis. O ideal seria, naturalmente, um cruzamento de tradições, que Unamuno formulou assim: "Pensa o sentimento, sente o pensamento". Trata-se de uma dupla cidadania - Atenas e Jerusalém - difícil de obter.

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.110-111 [tradução minha]

Fritz Bauer


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Só ontem tive ocasião de ver o filme, estreado em 2015, de Lars Kraume, sobre o jurista, procurador-geral na Alemanha dos anos 50 do século passado, Fritz Bauer. Não recordava, já, a referência a tal personalidade no primeiro capítulo de Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt. Portanto, no fundo, nas diferentes evocações do judeu social-democrata, provocadas pelo filme em causa, tratou-se, para mim, de uma verdadeira descoberta. No título original, Fritz Bauer contra o Estado, insinua-se, de imediato, o que material e formalmente se nos oferece este rememorar: no encalço dos nazis, fugidos do julgamento de Nuremberga, Fritz Bauer enfrentará a oposição de vários elementos e sectores no Estado, no qual, em virtude da percepção de tais vicissitudes, não confia e, por isso, para a captura, nomeadamente, de Adolf Eichmann, em Buenos Aires, abona-se nos serviços secretos israelitas (que, como se sabe, executam a controversa tarefa de capturar, na Argentina, a referida patente nazi), no fio da navalha da sujeição a uma acusação de traição ao Estado (alemão). A determinação de Bauer no sentido de que Eichmann fosse extraditado para a Alemanha, e aí julgado pelos tribunais, não foi atendida pela sua Administração (que nunca firmou essa solicitação às autoridades israelitas, que acabarão por julgar e executar Eichmann).
Neste contexto, creio que o filme em causa cumpre bem duas tarefas (didáticas) fundamentais: a) dar-nos a conhecer a marcante figura de Fritz Bauer, sua tenacidade, convicção, argúcia, risco, atitude moral; b) não menos importante, ilustra bem as contradições da sociedade alemã face ao nazismo, o modo como este a permeou e, naturalmente, como tal sociedade acaba por não surgir pura e imaculada, e totalmente diversa daquele, no pós Segunda Guerra Mundial. Mesmo no interior de Executivos (governos) com lideranças (políticas) que nos habituámos a respeitar e admirar, mesmo aí, não deixavam de aninhar-se figuras pouco recomendáveis, no seu passado de filiação nacional-socialista, ademais tal estendendo-se aos mais variados sectores - nomeadamente, a justiça - pelo facto de, mesmo mudada a realidade política, não se poder mudar uma inteira sociedade (e trocá-la por outra). Dessas dificuldades de desnazificação, desse mundo poroso onde o antes (1945) ainda está presente (e contamina) o depois, nos dá conta Fritz Bauer. Agenda secreta.

P.S.: A evocação de Fritz Bauer, por Luís Eloy Azevedo, no Malomil. E as críticas ao filme, de Javier Ocaña, no ElPaís e João Lopes, no DN.   

segunda-feira, 17 de julho de 2017

DAR RAZÕES DE FÉ


Uma «religião pensada» - não apenas «sentida» - nunca deslizará para a tentação fundamentalista. Seria injusto não reconhecer à Filosofia, especialmente à Filosofia da Religião, o seu contributo para a desactivação dos fanatismos. Atrever-me-ia a afirmar que, quanta mais capacidade possui uma religião para dar guarida, em seu seio, aos avanços da filosofia, menos permeável será à tentação fundamentalista. É, talvez, a grande vantagem do cristianismo frente ao islão actual. É que, quando as religiões só bebem no próprio poço, sem atender à profecia que vem de fora, podem acabar por acreditar que não há mais nenhuma verdade do que a sua. Ardentes credos religiosos, sem instâncias correctoras, costumam desembocar no fanatismo e na intolerância. Quando os povos acreditam ter nas suas mãos o testamento literal dos deuses, sem mediações críticas e temperadoras, convertem-se num perigo para a paz. (...)
[Neste necessário diálogo entre filosofia e teologia, na reflexão] Vem-me à memória o diálogo mantido entre o filósofo J.Habermas e J. Ratzinger (...) 
Todos eles [filósofos da religião, teólogos] defenderam que o cristianismo é algo consistente, capaz de se confrontar com a crítica mais exigente. O crente, pensam, não tem por que fugir atemorizado das confrontações teóricas. A todo o custo, querem evitar que o cristão seja confundido com [como alguém que toma] opções cegas, puramente subjectivas. E, com vigor semelhante, afastam uma fundamentação do cristianismo baseada unicamente na autoridade da Bíblia ou da tradição eclesial. Para ajudar a crer, há que oferecer razões profundas. Não basta exigir a fé, há que possibilitá-la. (...) Um cristianismo não dogmático pode despertar o interesse dos não crentes não dogmáticos. Entre parêntesis: um cristianismo não dogmático não é um cristianismo sem dogmas; é, melhor, um cristianismo que raciocina e argumenta a herança recebida, que tenta esclarecer a desmesura das suas promessas. É possível um discurso não dogmático sobre o dogma. (...)
O cristianismo possui, creio, suficiente plausibilidade interna para poder afrontar as confrontações teóricas com a ciência. Os cientistas sabem que nem tudo se esgota no rigor verificacionista do seu campo. Existem, ademais, outros saberes (...) importantes. A filosofia da religião não possui carácter «científico», mas também o não científico pode ser significativo.

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, p.54, 57, 58 e 64 [tradução minha]


Espiritualidade (II)


Na Idade Média, definia-se a espiritualidade como extensio animi ad magna (abertura do espírito a coisas grandes) que, a meu modo de ver, está muito unida a outras duas palavras: a humilitas [humildade, simplicidade, recato], tão própria da Idade Média, e a curiositas (curiosidade, busca, afã de saber), convertida quase em lema do Renascimento. Esta mescla entre humilitas e curiositas pode fazer parte da definição de espiritualidade. Ambas continuam na linha da profundidade (...) Heidegger disse-o, muito acertadamente, num pequeno escrito, intitulado Gelassenheit e que poderíamos traduzir como distendimento, sossego, serenidade, paz. A sua tese fundamental é que se está a dar uma fuga acelerada do pensar. E ele distingue no pensar duas variantes: a que chama de «pensamento instrumental» e a que denomina «pensamento meditativo». O «pensamento instrumental» é necessário para que possamos viver; se não, não tínhamos acedido à técnica nem ao progresso; mas o pensamento meditativo, contemplativo, constitutivo da espiritualidade, é necessário para acedermos à vida boa, ao humanismo, à própria interioridade.
Pessoalmente, eu teria em conta também a distinção entre crente e religioso. O crente é o que adere a um credo, a determinados símbolos, a certos ritos. Religioso, ao invés, é algo mais difuso, mais impreciso. Tem que ver com o dito de Goethe: «Se buscas o Infinito, corre atrás do finito em todas as direcções". Ser religioso é ser sensível ao que nos supera, o que nos coloca à beira do desorbitado; é ter antenas para a gratuidade, para o amor, para o Outro. (...)
Existem, ainda que apenas como excepção, funcionários do altar sem especial sensibilidade para o religioso. (...) Justamente o contrário da experiência que teve R. Otto, o grande fenomenólogo da religião, ao entrar na sinagoga de Tânger e escutar o três vezes «santo» de Isaías. Ali nasceu o título do seu livro O santo, provavelmente o livro de teologia mais lido do século XX. Foi ali onde compreendeu que a experiência religiosa possui uma dupla vertente: é «fascinante» (assombrosa, iluminadora, próxima da felicidade), mas também «tremenda» (exigente, rigorosa, próxima ao temor).
Também considero muito acertado, se me permitis que continue pedindo ajuda aos amigos da tradição filosófico-teológica, o olhar de Walter Benjamin sobre a figura do flâneur: o flâneur é o transeunte solitário na Paris do século XIX, abandonado entre a multidão, que se fixa nas claraboias e no cimento que tudo invade. Por todas as partes, alça-se o progresso moderno, mas Benjamin sente a falta da «experiência». O conceito de «experiência», o contacto directo com as coisas, pensa Benjamin, é algo que se está perdendo. Esta falta de sensibilidade manifesta-se igualmente na ausência de encontros [conversação, diálogo, citações]. Citar é um acto de espiritualidade, é ter em conta o passado do qual viemos. (...) [A sua missão] é interromper os discursos lineares da Modernidade. É necessário parar, olhar para trás, como faz o encontro [diálogo, conversa, citação]. A esta sensibilidade, Benjamin chama-a «cultura do coração» (...)
Penso que a espiritualidade não pode ser alheia a tudo o que venho narrando. Tão pouco a considero alheia às três experiências que nos legou o filósofo vienense L. Wittgenstein. A primeira delas é o assombro: uma pessoa é espiritual quando se assombra. Pelo assombro, começou a filosofia. «Vai pelo mundo e maravilha-te», escreveu o nosso R. Lulio. A segunda, alude ao sentir-se seguro aconteça o que acontecer (...) E a terceira leva o nome de sentimento de culpa. É inútil desculpar-se sempre. Algo dentro de nós nos diz: «Esse homem és tu».

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.68-69


Religiões


A verdade é que não sei que problemas, dos muitos que nos afligem, se solucionariam com o desaparecimento das religiões. (...) Se existem umas dez mil religiões, às quais pertence 90% da humanidade, é, creio, porque nelas abunda mais o positivo que o negativo. Dizia R. Otto que nenhuma religião deveria desaparecer antes de ter dado o melhor de si mesma. E nisso estamos: nenhuma religião deu, ainda, o melhor de si mesma. (...)
As religiões são comunidades narrativas de acolhimento que ajudam a viver e a morrer digna e esperançadamente os seus membros. São projectos de sentido em um mundo no qual ele escasseia; assinalam limites que não deviam ser transgredidos e metas que deviam alcançar-se. As grandes religiões, as milenárias, chegaram a formar um todo com as culturas nas quais se encarnam. A Índia, por exemplo, não seria a Índia sem o budismo e o hinduísmo. De aí que tenham fracassado as tentativas de suprimir as religiões

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.78-79 [tradução minha]

Qual programa?


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Entrevistado, por Vítor Gonçalves, na RTP3 (Grande Entrevista, 12/07/2017), Paulo Rangel disse, sobre a liderança do PSD, que lamentando a tragédia dos incêndios e o caso de Tancos, estes haviam exposto a fragilidade do actual Executivo e, outrossim, constituído momento oportuno para Passos Coelho "poder apresentar o seu programa". Ora, a discussão política, em Portugal, no último mês, centrou-se no modo como a debilidade - e a debilitação - de serviços públicos pode degenerar em perigo e insegurança para as pessoas. Insegurança, esta, aos mais variados níveis - não apenas no que aos âmbitos de soberania tradicional diz respeito. As principais críticas à condução política, que irmanaram direita e a esquerda à esquerda do PS, passaram pela insuficiente dotação de diferentes serviços públicos (da saúde à educação). E, questionando-se, muitos portugueses, seriamente, creio, relativamente ao caso de Tancos, sobre se, com a mesma dotação orçamental e os mesmos efectivos, não poderia o paiol ter sido preservado, em realidade, penso que a maioria do eleitorado tem uma noção efectiva de que a redução ou cortes de/nos serviços públicos tende a afectar, inequivocamente, as vidas pessoais e colectivas.
O modo como Passos Coelho surgiu na propositura à liderança do PSD; o seu livro-manifesto (Mudar); a revisão constitucional que apresentou (e que, depois, por táctica, retirou); muita da sua governação e explicitação do que pensa politicamente remetem, claramente, para essa diminuição ou cortes no Estado. Ora, o principal problema para o líder do PSD, neste contexto, nem é, ao contrário do que sugeria, há uma semana, Marques Mendes, a coerência. Esse, é um problema - um pensamento político de anos apontando para a diminuição do Estado e, agora, o reclamar de maiores dotações para quase todos os sectores do mesmo -, mas não é o maior. Este, a meu ver, consiste, justamente, na crescente percepção a que se vinha de aludir: a maior parte do eleitorado, com reforço neste último mês, ter a noção de que cortes nos serviços públicos afectam, mesmo, as suas vidas e, portanto, não os entenderem como desejáveis (não há um constrangimento coreográfico mas substantivo). Como Paulo Rangel não ignora isto, é evidente que o "Passos Coelho pode agora apresentar o seu programa" não pode deixar de suscitar um certo observar céptico. Agora que, em uníssono, direita e uma parte da esquerda pedem uma densificação dos serviços públicos, "Passos pode apresentar o seu programa" - que, como se vem de dizer, consistia no seu "adelgaçamento"... De resto, como sublinhado na mesma entrevista à RTP, Rangel tem dito, ao longo de meses, que o PSD devia ter trazido para a agenda pública outros temas que fossem além do económico - no qual se apostou quando se previa uma debacle governativa nesse domínio (como, aliás, Assunção Cristas deixou claro em célebre entrevista ao Público). Tal não se verificou, e não havia mais agenda. Portanto, quer ao nível macro, de uma pré-compreensão do que deve ser o país; quer a um nível micro, do detalhe de medidas a apresentar é caso para perguntar: "mas qual programa?". 
Rangel observou que as diferentes sondagens, publicadas neste último mês, não evidenciaram grandes rupturas nas intenções do eleitorado (outra coisa é saber se poderiam, já, funcionar como suficiente sismógrafo quanto a mudanças na confiança com que o eleitorado vê o governo); sabe que as eleições autárquicas estão à porta e, os dados de hoje, para as maiores cidades, não são os mais optimistas para o seu partido; compreende os obstáculos (eleitorais) associados a uma imagem de "estado mínimo", quando o eleitorado não se reconhece, maioritariamente, nesse ideário; regista a contradição entre a defesa desse adelgaçamento estatal, como pensamento estrutural para a cidade, e a reivindicação, conjuntural, do robustecimento de serviços públicos. Em assim sendo, o "pode apresentar o seu programa" soa, em mim, com alguns laivos de um eco antigo (embora aqui claramente mais polido e elegante): a exigência que Passos, ainda challenger de Ferreira Leite, fez à então líder do seu partido para vencer eleições com maioria absoluta. Porque se, apesar de se lamentar a tragédia, o momento é oportuno à apresentação de um programa, então o corolário de Paulo Rangel está mesmo a perceber-se: em Janeiro, não se alterando muito as sondagens face ao dia de hoje, não tendo sido brilhantes os resultados das autárquicas, a conclusão é "se mesmo no momento mais difícil para o Governo, altura propícia a expormos como era bom o nosso programa, não o alcançámos, então é porque alguma coisa de muito grave acontece connosco". Leia-se: com a direcção e liderança do partido. Justificado fica, pois, um não apoio a esta.
Marques Mendes colocava, ontem, na sic, Paulo Rangel entre os prováveis candidatos à liderança do PSD no próximo Congresso deste partido. O caminho - enérgicas posições políticas nos tempos mais recentes - a solo que vem trilhando parece poder suportar essa leitura (vários pedidos de demissões, à revelia do que o próprio partido fez; maior valorização do caso das viagens pagas pela Galp a Secretários de Estado, etc.). Todavia, sem, de modo algum, obliterar essa possibilidade, encontro vários escolhos para uma candidatura de Paulo Rangel sair vencedora no interior do PSD.
Para além do que possa ser, ainda, a autoridade de Passos no interior do PSD, por ter sido o partido mais votado nas últimas legislativas, por ter governado em tempos difíceis, por dominar o aparelho - um óbice a Rangel, ou outro candidato, muito significativo -, Rangel tem, ainda, a ver-se com o facto de, desde há muito, Rui Rio estar no terreno, de este ser desejado, há anos, por diferentes sectores no PSD e ter relevância em parte da opinião pública. Para além disso, Rui Rio poderia ser considerado da mesma ala - na recorrente divisão "elites"/"bases" que, sucessivamente, surge no interior do PSD - de Rangel, pelo que tal significaria dividir o eleitorado numa tentativa de destronar Passos Coelho. Duas candidatura, oriundas do mesmo sector, contribuiriam, potencialmente, para uma renovada vitória mais robusta de Passos Coelho.
É verdade que, ao longo dos anos, conhecemos mais e melhor o pensamento de Paulo Rangel do que o de Rio que, afora as lancinantes frases sobre a queda do regime (que nunca concretiza em que se traduziria), não detalha muito o que pretende para o país. Mas, lá está: Rio foi mais cedo para o terreno da luta pela sucessão, e tem um apoio mediático que Rangel está longe de concitar.
Depois, considero que Paulo Rangel geriu, de modo discutível, os dois principais capitais que, a meu ver, o poderiam distinguir nesta fase: a) ao ter tido a coragem, em plena governação do PSD, de ir ao Congresso do seu partido defender que a banca devia fazer um esforço adicional no contributo para o chamado "ajustamento"; ao sustentar que não se devia avançar para formas adicionais de introduzir o "privado" na Saúde; ao reclamar uma RTP pública quando, então, os ventos que sopravam eram outros, o eurodeputado configurava-se como aquele que, de entre as figuras "notáveis" do PSD, no plano substantivo/estratégico, mais poderia vir a reclamar-se de uma tradição da qual a social-democracia participava. Se era assim no plano estratégico, do ponto de vista táctico Rangel, nos programas semanais em que participou, RTP3 e TVI24, ao longo da legislatura - e nas crónicas semanais no Público - conseguia aquela exacta medida de um "distanciamento sem hostilização" ao governo. Uma demarcação sem prejudicar as suas aspirações político-partidárias, legítimas, futuras. O que sucedeu a este capital? A pouco mais de um ano do fim da legislatura, a meses das europeias, Rangel reaproxima-se da visão mais ortodoxa da liderança do seu partido, deixando cair qualquer distanciamento ou demarcação. E, nestes termos, se essa (re)aproximação foi tão cerrada, como justificar agora, um corte claro com Passos, ou que autoridade para vir recuperar o capital alcançado em Congresso (sendo que este, diga-se, ocorreu em tempo bem mais difícil do que aquele em que, de modo também muito hábil, duro no conteúdo mas muito suave na forma, José Eduardo Martins reivindicou uma linha social-democrata, no mais recente congresso do PSD)?
O segundo capital de Paulo Rangel prendia-se com b) a sua preparação, com o seu lado intelectual. Dele, muito dificilmente, Pedro Santos Guerreiro, escreveria, como escreveu no Expresso sobre Rui Rio e Luis Montenegro, que se tratava de uma candidatura menos elaborada intelectualmente. Os seus escritos num português de lei, os seus livros, o seu interesse pela História, os seus interesses alargados, a apresentação de uma das suas obras por Gomes Canotilho, a sua capacidade argumentativa, o modo como exerceu a liderança da bancada parlamentar do PSD, a vice-presidência no PPE, a sua teorização sobre a medievalização dos poderes, o seu adentrar no pensamento de Ulrich Beck, o seu "catolicismo progressista", as propostas sobre a agricultura, o raro olhar sobre questões de defesa e estratégia (geopolítica), faziam de Rangel uma nova espécie (alguém lhe chamou o "único quadro relevante do PSD no pós-cavaquismo"; na Quadratura, Costa dizia que Rangel seria, na política portuguesa, "o que quiser") que causava uma certa sensação mesmo entre adversários políticos. No entanto, também aqui, a excessiva truculência com que, a certa altura - o pós-legislativas talvez o auge dessa atitude -, decidiu dotar o seu discurso e dialéctica, acabaram, a meu ver, por o prejudicar bastante, colocando-o, por momentos, nas posições mais "basistas" (talvez fosse o intuito), sem que a estas, em boa medida, possa chegar - a questão do domínio do aparelho -, do mesmo passo que perdia para as "elites". 
Na mais recente edição da Prova dos Nove (TVI24), Pedro Silva Pereira, experimentado como é, não perdeu a ocasião para deixar um remoque e uma farpa ao seu adversário político de painel: "não esteja sempre a pedir demissões [de ministros, secretários de Estado, hierarquia no Exército] para efeitos de corrida interna às eleições do seu partido!" (cito de cor). Paulo Rangel acusou o toque e a ele respondeu de seguida, não propriamente para o refutar. Isto, num programa no qual Rangel rejeitou liminarmente serem, ele e o PSD, de direita, antes se inscrevendo num espaço que "vai do centro esquerda ao centro direita" (uma velha teoria de Pacheco Pereira, e que o programa genético do PSD acomodava; todavia, quem segue este programa semanal de debate político televisivo pôde notar que não era a primeira vez que Rangel usava a expressão...mas da primeira vez que o fez, fê-lo sorrindo, com pouca convicção, e não chegando a concluir a frase, já lá vão vários meses. Agora, o tom foi diametralmente oposto, carregado de convicção, circunspecção, pathos).
Finalmente, como ainda ontem se pôde concluir do comentário de Marques Mendes, a nomenclatura está com Luís Montenegro. O próximo Congresso, pensarão não sem fortes razões de quem conhece o metier, ainda será o tempo de Passos; depois, na disputa mais cerrada, aí as fichas - e vimos, sucessivamente, como se posicionaram Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Relvas ou Luís Marques Mendes, representando, é certo, coisas muito diferentes entre si e na vida pública nacional - parecem pender muito para Montenegro. 
Não duvido que Rangel tenha feito um caminho que o coloque em posição de poder decidir candidatar-se à liderança do PSD. Isso, porém, não significa que o faça. Os constrangimentos e escolhos não são poucos. Na última disputa pela liderança pelo PSD em que participou, Rangel trouxe a agricultura como função de soberania e colocou a educação, com exigência, como centro das atenções. Numa atitude de quem "vem de fora" - e isso explica muita coisa, a meu ver - entendeu, nos debates frente-a-frente com Passos, adoptar um posicionamento quase reverencial (mais do que para com Passos, com o aparelho/partido que ele simbolizava; mas que dizer, agora, quando tivesse que se medir com um Passos - não, à época, com um grande paper como programa (mas um livro mais aligeirado), não com uma experiência governativa (mas um caminho longo na jota), não com um grande lastro no país - que ganhou eleições, levou a legislatura até ao fim num período muito conturbado e que pretende prosseguir, mesmo que possivelmente algo tocado com as autárquicas?), e sofreu um ataque inusitado, via redes sociais, que uma investigação e entrevista da Visão, anos mais tarde, mostraria programado até ao tutano, numa máquina montada em pouco escrúpulo. Aguiar Branco era o outro tripé adstrito ao desgaste de Rangel. Chegou a ministro da Defesa. No mais, entre os comentadores televisivos, Rui Baptista seguiu diretamente da RTP3, onde esteve a comentar o congresso, para assessor de Passos para a comunicação.


domingo, 16 de julho de 2017

Homo religiosus


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O sentido religioso é, pois, característico do ser humano. Só ele se sente sobressaltado, para referir de novo Kant, pelo céu estrelado, o qual cobiça, e pela lei moral que percebe dentro de si. Só ele invoca e dá graças a um Ser superior, ao que primeiro denominou «Mistério» e mais tarde «Deus». Deus chegou bastante tarde à história das religiões. Pelo contrário, o sentido religioso parece ter despertado cedo. Os historiadores das religiões estão de acordo em que "até o mísero homem do Neandertal" (E.O.James) contava, já, com uma crença genuinamente religiosa: uma vida para além da tumba. Isso sim: imaginava-a como queria o nosso Unamuno: o mais parecida possível à vida terrena. De aí que equipasse os seus defuntos com o alimento, as ferramentas e equipamentos que aqui haviam necessitado. É muito improvável, sustenta James, que o homem do Neandertal tomasse o trabalho de enterrar tão cuidadosamente os seus mortos, se não tivesse acreditado em alguma forma de vida [no além] por indefinida que fosse. E o filósofo da religião J. Hick defende, como J.G. Frazer, que todas as tribos primitivas acreditaram em algum género de sobrevivência [à morte]. Também M.Eliade pensa que «a fé numa vida além morte parece estar demonstrada desde os tempos mais remotos, pelo uso do ocre vermelho, substitutivo ritual do sangue e, por isso mesmo, símbolo da vida».

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.77-78 [tradução minha]

O budismo e a pobreza


Manuel Fraijó remete para a distinção, feita por Max Weber, entre dois tipos ideais de religiões: proféticas (judaísmo, cristianismo e islão) e místicas (hinduísmo e budismo). A que acrescenta um terceiro tiposapienciais (confucianismo e taoísmo). Já Urs Von Balthasar distingue entre três espécies de espiritualidades: a transcendental, que consiste em sair de si mesmo para o Absoluto; a activista, centrada no compromisso com o mundo; e a passiva, que seria a indiferença face ao mundo. Quando se fala, pois, em religiões proféticas, "alude-se a espiritualidades activas, empreendedoras, transformadoras, que se centram no trabalho e na acção. Nelas, a figura central é a do profeta. Contam também com uma rica herança dogmática, assertiva; têm muito que defender. De aí que o diálogo com elas seja laborioso. (...) Nenhuma das religiões proféticas é muda. (...)
[Nas religiões místicas] cultiva-se a interioridade, a indiferença (no bom sentido) frente ao mundo. Não ignoro que há quem acuse o budismo da pobreza na Índia. Justamente, porque lhe falta o que têm as religiões proféticas: o espírito transformador, activo. De todas as formas, não devemos esquecer que no Japão há budismo e não há pobreza. Contudo, é possível que a passividade das religiões místicas tenha algo que ver com a pobreza das suas gentes"(p.70)

A POLÍTICA E A RELIGIÃO


Impressionou-me muito que Habermas, ao receber o prémio dos livreiros alemães não tivesse reparos ao aludir à ressurreição dos mortos. Ante ele, encontrava-se o governo alemão em pleno, com o chanceler Schroeder à cabeça. E ninguém estranhou (ou protestou). É que, quando a espiritualidade se expõe em profundidade, pode ter cabimento na política. Porque, como sustentava o filósofo crítico Max Horkheimer, uma política (e uma ética) que não conserve em si um momento de teologia reduz-se a mero negócio. Talvez a religião seja mais culpada do que a política nesta separação [entre ambas]. Porque não soube chegar à política de uma forma convincente, de uma forma inteligível
Em realidade, se virmos a história, damo-nos conta de que nem Tomás de Aquino, nem Maquiavel, nem Leibniz, nem Hegel foram meros catedráticos de gabinete que passaram ao de leve pela configuração social, política, cultural, económica do seu tempo. Foram autênticos ideólogos e iluminadores do que ocorria. Havia uma fusão entre política e filosofia, entre política e teologia. Por exemplo, não se compreenderia a Revolução Francesa sem Voltaire e Rousseau. Por isso, a primeira coisa que fez a Revolução foi desenterrar os seus cadáveres e passeá-los solenemente pelas ruas de uma Paris engalanada; o povo francês reconhecia que estas pessoas tinham estado na base da transformação política, económica, social e também religiosa que tinha originado a Revolução.
Creio que devemos caminhar para uma política culta, que tenha em conta todas estas perguntas. Uma política exclusivamente economicista é um fenómeno recente, um presente envenenado de Bruxelas. A história é testemunha da mútua fecundação entre religião e política. Devia voltar-se a este tipo de fecundação. Há um texto evangélico que ninguém deveria desprezar. É uma página memorável do Evangelho de Mateus. Refiro-me ao capítulo 25 do seu Evangelho, um capítulo que faz parte da Bíblia do não crente e da política, das duas coisas. O texto é-nos familiar: no juízo final, ser-nos-à perguntado se demos de comer ao faminto, de beber ao sedento, se acolhemos o estrangeiro, se visitamos quem está na prisão...Se, da Bíblia, só pudéssemos salvar uma página, seria necessariamente esta. Jesus não fala aqui do judeu, mas do ser humano em geral. No tempo de Jesus, havia duzentos milhões de pessoas na Terra. E, desses duzentos milhões, Jesus dirigiu-se fundamentalmente ao seu povo. Mas essa página é dirigida a todos e, em parte, configurou os sistemas axiológicos do Ocidente. (...)
E, num plano mais concreto, estou a pensar em políticos cristãos, como Aldo Moro, um homem de mediação, de reconciliação, um homem que construía a paz, que sabia negociar. Algo assim, pode a religião oferecer à política: a proximidade, a bondade, a fiabilidade. H.Kung relembra que a Europa actual teria sido quase impensável sem o abraço entre Adenauer e De Gaulle. Abraço que ficou selado, religiosamente, na catedral de Reims. Aí ficou posto em cena o perdão entre Alemanha e França. Sem esse perdão, provavelmente não existiria hoje a União Europeia. Isto quer dizer que a postura dos grandes políticos não tem que ser meramente burocrática e tecnológica, ao estilo da política de Bruxelas, mas ético-religiosa. E aqui as religiões têm muito que dizer
Importa recordar como o então Bispo de Berlim, Julius Dopfner, nos anos cinquenta do século passado, fez uma chama à reconciliação entre a Alemanha e os estados do Pacto de Varsóvia. Não teve êxito, mas, depois, em 1965, a Igreja evangélica alemã publicou um conhecido Memorando, bem fundamentado teológica e politicamente, que ofereceu as bases da reconciliação entre alemães, russos, polacos e checos. Posteriormente, chegar-se-ia aos Pactos do Leste, mas em toda aquela história esteve muito presente a religião. E todos estes pactos selaram-se, definitivamente, quando um grande chanceler, que não era crente mas era religioso, Willy Brandt, caiu de joelhos em Varsóvia face ao monumento às vítimas do nazismo. Um chanceler alemão ajoelhado era demasiado para muitos alemães e a Alemanha dividiu-se entre partidários e detractores daquele gesto histórico. Mas, pouco depois, deram-lhe o Prémio Nobel da Paz. Poucos Nobel da Paz terão sido atribuídos com tanta justiça como aquele!
Em definitivo, dificilmente concebo a espiritualidade à margem das religiões, porque vejo que estas modelaram tudo, incluindo a política (...) Falo de uma política profunda, com sentido, em linha com aquilo que antes citámos: «tive fome e deste-me de comer...». Apesar dos múltiplos esforços, a realidade continua a ser cruel. Um relatório de Cristianisme i Juticia indica que a escolarização primária de todas as crianças poderá tornar-se realidade dentro de trinta e três anos; que a nutrição das crianças menores de cinco anos poderá ser possível dentro de vinte e três anos; e, passados vinte anos, é possível que haja água potável para todos...Estamos longe do cumprimento de Mateus 25.
Para concluir, queria aludir ao livro de E.R. Dodds, Pagãos e cristãos em uma época de angústia. O autor informa que as vantagens que acarretava ser cristão não ficavam confinados ao além; as pessoas não se tornavam cristãs [apenas] para salvar a sua alma no outro mundo, mas porque a Igreja cristã oferecia uma espécie de segurança social: tinha um fundo comum para os funerais dos pobres e um serviço para as épocas de epidemia. E Dodds acaba dizendo que tão pouco era esse o essencial que o cristianismo oferecia, mas, antes, a sua principal ajuda consistia em mitigar a solidão. E cita a Epicteto, que fala do horrível desamparo que o ser humano pode experimentar no meio dos seus semelhantes. O cristianismo vinha preencher os três âmbitos: o do alívio da existência presente, o do além, e o do desamparo e da solidão. Uma espiritualidade à medida daqueles tempos!

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.73-75 [tradução minha]

A "verdade", para lá, e mais importante, do que a "função"


Segundo Manuel Fraijó, desde a Ilustração (Iluminismo), relativamente à religião, perguntamos pela sua função, mais do que, ou em vez de, a sua verdade. Algo impossível de aceitar, porém, para um filósofo (da religião), que continua, pois, em demanda. E, bem assim, diria eu, para qualquer crente que se sinta vinculado a um dado credo e leve a sério essa pertença. 

Serviço cívico obrigatório


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Segundo o Expresso (15/07/2017), deputados do PS e do CDS estão de acordo - e com possibilidades de o tornar extensível a demais bancadas parlamentares - no que concerne à criação de um serviço cívico obrigatório, que implique presença de todos os cidadãos (em formação), entre 6 meses a 1 ano - em instituições ligadas à acção social, bombeiros ou forças armadas. Se esta presença se coloca em termos alternativos - o serviço é obrigatório, mas o tipo de instituição, social, bombeiros ou forças armadas, à escolha do cidadão -, parece-me uma ideia com potencialidades positivas, num tempo diagnosticado, a meu ver bem, como muito deslaçado e no qual a ideia de "liberdade dos modernos" (não interferência; ou, mesmo, liberdade = ausência de vínculos; nenhuma responsabilidade que não aquela que eu contratualizar) aparece extremada. A possível compatibilização com estudo ou escola também poderia ser equacionada. Ou, em uma outra variante, talvez aquela que eu preferiria, a inserção nos currículos escolares (bem sei que sobrecarregados, mas ainda assim) de hora semanal (ou conjunto de tempos lectivos semanais) dedicado(s) à prestação de auxílio/cuidados/tarefas em instituições de cariz social (ou outros), como lares, ou centros de reabilitação, etc., na esteira de experiências muito bem sucedidas em outras zonas do globo (das quais já neste blog dei conta, a propósito do descrito, p.ex., por Jeremy Rifkin em A terceira revolução industrial).
Do modo como abordo o serviço cívico obrigatório não o vinculo, como se vê, a qualquer solução relativa à (falta de) atractividade de que as forças armadas carecerão (pelo que se vai lendo hoje). E faço este ponto, porque a notícia parece misturar tais dimensões, e porque o regresso do serviço militar obrigatório tem sido um tópico muito presente na actualidade informativa/opinativa. Nem, por outro lado, se pretenda chamar serviço cívico obrigatório a algo que se queira serviço militar obrigatório. É bom que, na nossa política, não se insista na habitual cosmética das nomenclaturas (os nomes dos partidos já seria suficiente artificialismo face à sua substância), nem se faça entrar pela janela aquilo que não se anuncia pela porta; que se pensem, devidamente, objectivos e finalidades para eventual medida (política) a implementar, objectivos e finalidades que não podem ser exatamente os mesmos nos dois casos assinalados.

sábado, 15 de julho de 2017

O futuro do cristianismo


Vinculo o futuro do cristianismo com a fé em Deus. Esta identificação entre «cristianismo» e «fé em Deus» não é universalmente compartilhada. Há quem opine que a sombra do cristianismo é mais alargada que a de Deus. Poderia, pois, dar-se o caso de que o cristianismo sobrevivesse a Deus. Aduz-se que, inclusivamente em épocas de «eclipse» de Deus (M.Buber), o cristianismo não se sentiu obrigado a fechar para liquidação; o cristianismo continuou vivo inclusivamente quando Deus foi declarado morto.
Mas cabe perguntar: para quem é que Deus estava morto? Unamuno dizia que um misere cantado por uma «multidão açoitada pelo destino» vale tanto como uma filosofia. E, por desgraça, à história conhecida nunca faltaram miserere. Provavelmente, são esses miserere os que mantém a fé viva em Deus. Não parece, pois, possível identificar uma época na qual Deus haja estado morto e o cristianismo tenha continuado a funcionar. A fé em Deus é o respaldo essencial do cristianismo. (...)
E o futuro do cristianismo e do seu Deus tem que ver, creio, com o futuro das vítimas da história. M. Horkheimer assinalava que ante o grande problema das vítimas inocentes, ante o «passado irredento» de tantos homens e mulheres vilmente sacrificados, a filosofia do materialismo histórico declarava-se «incompetente». No seu arsenal de estratégias não há nenhuma aplicável ao caso. O passado está fechado. Os mortos não conhecerão nenhum desagravo. Inversamente, [Walter] Benjamin está consciente de que a religião «geriu» muito bem o desejo de justiça das vítimas. A religião não esquece o passado irredento. Frente à razão técnico-científica do materialismo, alça-se a razão anamnética da religião, quer dizer, a razão que não vira a página, que mantém viva a recordação dos humilhados e ofendidos.  (...) Em linguagem kantiana: as vítimas fizeram-se dignas de uma felicidade da qual nunca desfrutaram. A história está em dívida para com elas. Talvez por isso, escrevia Aranguren que a imortalidade «deve ser admitida, não para a moralidade, mas por moralidade».

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, pp.62-63 [tradução minha]

A religião e a morte


A vossa última pergunta retoma o futuro da religião e do cristianismo. Citais o veredicto de Feuerbach: se não tivéssemos que morrer, não haveria religião. Feuerbach é o crítico da religião mais severo que conhecemos. Todos renunciámos a refutá-lo. A suspeita de que a religião brota da necessidade, da precariedade, da indefesa humana frente à morte, será sempre actual. Penso, sem embargo, que ao «a religião existe porque temos que morrer», caberia acrescentar: «a religião existe porque temos que viver». De facto, R. Otto e outros fenomenólogos da religião substituíram o termo feuerbachiano Bedurfnis (necessidade, precariedade) pelo de Erlebnis (experiência). Pretendiam dotar a crença religiosa de um matiz mais positivo: não surgirá apenas do medo da morte, mas da afirmação da vida. Na sua origem, estaria a experiência de um encontro com algo, ou com Alguém, que ilumina a vida e o seu sentido último

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, p.64 [tradução minha]

ESPIRITUALIDADE


Gostei muito daquele livrinho de Paul Tillich intitulado A dimensão perdida, que continua a ter actualidade. Nele, identificava a espiritualidade com a profundidade. Falando da espiritualidade perdida, quis dizer várias coisas. Em primeiro lugar, para começar pelo positivo, estou convencido de que nenhuma pessoa pode viver sem espiritualidade. A espiritualidade está em todas as pessoas, em todos os povos - todos os povos têm a sua história espiritual, feita da forma como vivem e morrem, feita das suas filosofias e teologias, da sua literatura, da sua ciência, da sua arte, etc. Ninguém pode viver sem espiritualidade. Em algum sentido, também a filosofia é espiritualidade. O filósofo, como o teólogo, inclina-se, sem cessar, sobre o mistério da vida e da morte. É, segundo Ortega, o que Dilthey sempre disse. Evocando o quão importante que o mistério é, escreve G.Scholem no seu livro Há um mistério no mundo: "Se alguma vez desaparecesse da humanidade o sentimento de que o mundo esconde um mistério, tudo estaria acabado. Não creio, em qualquer caso, que cheguemos tão longe".

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, 2016, p.66 [tradução minha]

MISTÉRIO


Pouco antes de morrer, dizia [o importante cientista] Severo Ochoa: «lamento ir-me deste mundo sem saber exatamente onde estive»

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia en Dios, Trotta, 2016, p.66

Fragmentos cruciais


Pessoalmente, sempre me questionei se o cristianismo morreu em Auschwitz, ou se Auschwitz existiu porque o cristianismo nunca foi posto em prática.

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia en Dios, Trotta, 2016, p.62

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Medo, e segurança a todo o custo - o fundamentalista


Tem razão Pannenberg quando assinala que o fundamentalista é «o homem da coisa segura». O «pecado» dos movimentos fundamentalistas não se localiza na busca do fundamento. Essa procura é humana e necessária. Sem ela, esfuma-se a identidade e caminha-se à deriva. O passo para o fundamentalismo produz-se quando se esquecem as contingências da história e se considera que a identidade é um produto enlatado, livre de toda a turbulência.
Expressou-o muito melhor Bergson com a sua célebre distinção entre religião «estática» e religião «dinâmica». A primeira afasta a fadiga da dúvida e o exercício da razão crítica. A sua meta são as «certezas», a busca de seguranças. O seu problema é o medo. Necessita esquivar-se dele acumulando dogmas e pautas imutáveis de conduta. E, quando as acumulou, defende-as com intransigência e fanatismo. Em contrapartida, a religião dinâmica articula-se em uma profunda iniciação à pergunta. E culmina, segundo Bergson, na mística, na busca do contacto direto com Deus. A religião dinâmica não é assunto de dogmas nem de certezas. A tentação fundamentalista é alheia à genuína experiência religiosa. É, melhor, a sua negação.
Em Espanha, não nos faltaram místicos. De facto, Bergson enaltece São João da Cruz e Santa Teresa acima de todos. Mas talvez - seria injusto generalizar - prevaleceu entre nós a religião estática sobre a dinâmica. E, desde logo, sempre fomos mais proclives a «sentir» a religião do que a «pensá-la».

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia in Dios, Trotta, Madrid, 2016, p.55 [excerto por mim traduzido]

A impopularidade do populismo (em Portugal): causas

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Segundo António Rolo Duarte podemos divisar um acervo de explicações para que o populismo não obtivesse vencimento em Portugal (sendo Marinho e Pinto apontado como único caso de relativo, e efémero, sucesso):

i) características da imigração em Portugal - "ainda hoje, temos a segunda taxa de imigração mais baixa da União Europeia. A ausência de um aumento súbito de população estrangeira desde 1976, de números significativos de refugiados, e de crimes mediáticos associados à imigração (caso do terrorismo), leva os portugueses a não se sentirem ameaçados. Neste contexto, o eleitorado não sente a necessidade de um tipo de partido que politize este assunto.; Um estudo recente do Eurobarómetro concluiu que apenas 4% dos portugueses vêem a imigração como um dos principais problemas do país. É um número baixo, se tivermos em consideração que a média da UE se situa nos 26%.os estudos de diversas agências europeias mostram que os portugueses não são menos xenófobos ou anti-imigração do que os outros europeus."


iii) a transição histórica entre o Estado Novo e a Revolução de 1974, criando desorientação psicológica foi convidativa a grandes reservas quanto a mudanças radicais na ordem sócio-política.

iv) Portugal é um país que não teve a tradição industrial de outras nações que, no pós-II Guerra, viram as condições materiais satisfeitas e puderam dedicar-se a reivindicações pós-materiais, entre as quais questões atinentes à dimensão identitária, libertação de minorias, ecologia. Muito do mundo fabril rebelou-se contra um certo tipo de agenda que colocava no topo tais questões. A fractura não se deu em Portugal, país agrário com o Estado Novo, com sector secundário sempre relevante mesmo no que se seguiu.

v) Apesar de não poder negar-se uma diferença de valores entre o litoral urbano e o norte mais conservador, o eleitorado é passivo e ninguém foi capaz de mobilizar as massas para um confronto identitário.

vi) os partidos existentes cumprem já o desiderato de cobrirem todo o espectro ideológico, pelo que se não afigura fácil o surgimento de novos partidos.

Na íntegra, o texto no Públicoaqui.