sexta-feira, 30 de junho de 2017

A longa mão do positivismo sobre a política e as ideologias


Resultado de imagem para positivismo

As descobertas de Newton sobre a gravitação espantam os espíritos e muitos filósofos e cientistas pretendem descobrir, para o comportamento humano, leis tão gerais e objectivas como as estabelecidas por Newton para o mundo físico. Benjamim Constant seguirá esta linha: está convencido de que a vida social obedece a leis rigorosas e de que é possível descobri-las. Neste sentido, a vontade pouco pode: os homens são movidos por forças que ignoram. No passado, estas forças eram tomadas por "desígnios divinos"; agora, como "leis históricas e sociais" que cabe aos cientistas captar. Estas leis não escritas contam muito mais do que a lei positiva(da), dos legisladores. Partindo desta pré-compreensão das coisas, Constant recusa o frenesim legislativo, a sanha reformista, o dirigismo revolucionário. O Estado deve, pois, ser mínimo, e afora a segurança, a justiça, a administração interna, a defesa tudo deve ser deixado às mãos dos indivíduos. "Para o pensamento, para a educação, para a indústria, a divisa dos governos deve ser: laisser faire et laisser passer". A natureza é boa e conduz-nos ao bem, a menos que a vontade, ignorante ou maligna, o impeça. Aqui está a "mão invisível". Eis como Tzvetan Todorov nos mostra como os fundamentos do pensamento liberal (na economia) assentam num espírito cientista (positivista).  Cientismo, note-se, contudo, a que, evidentemente, Marx não é, numa perspectiva oposta à do liberalismo, alheio; bem pelo contrário: "muito mais que em Constant, o carácter quase religioso da crença na vitória do bem revela-se num defensor hiperbólico do pensamento liberal pertencente à geração seguinte, o jornalista Fréderic Bastiat, cujas expressões categóricas chamaram a atenção dos neoliberais actuais. Tal como os liberais que o precedem, pensa, à maneira de Pelágio e não de Agostinho, que o mundo criado por Deus não é mau e que, além disso, evolui espontaneamente na boa direcção. «Deus faz bem o que faz», escreve ele em A lei (1850), «a Providência não se enganou, organizou as coisas de maneira a que os interesses [...] chegassem naturalmente às combinações mais harmoniosas» (Justiça e Fraternidade, 1848). A sua ideia principal é então «religiosa, pois diz-nos que não é apenas a mecânica celeste, mas também a mecânica social que revela a sabedoria de Deus e conta a sua glória» (Harmonias Económicas, 1850). Desta maneira, Bastiat denuncia a origem religiosa de fórmulas como «a mão invisível» em Adam Smith ou «o sentido da história» em Marx: representam a laicização da ideia de uma Providência que conduz os seres humanos pelos caminhos estabelecidos por Deus, mesmo quando estes não estão disso conscientes. O mundo avança inexoravelmente para o bem, e o seu avanço não deve ser contrariado.
Ao mesmo tempo, como Condorcet e Constant, que haviam substituído Deus pela História, Bastiat ambiciona basear as suas conclusões na ciência (...) Em 1848, a revolta popular em França levou a Assembleia Nacional a interrogar-se sobre a utilidade de introduzir na lei, ao lado da protecção das liberdades civis, a justiça social - assegurar aos necessitados trabalho ou auxílio material. Bastiat, eleito deputado, opõe-se vigorosamente a isso. As «instituições humanas», escreve ele, «não devem contrariar as leis divinas» (pp.100-101).
Assim, os liberais "apresentam a sua doutrina como uma submissão às leis da natureza, aspecto em que se assemelham aos agostinianos, que esperam tudo da graça divina - com a diferença de que, ao contrário do pessimismo de Agostinho, imaginam essa natureza como benevolente e conduzindo inevitavelmente ao progresso. Aquilo que rejeitam são as acções voluntárias, que ameaçam perturbar o movimento benevolente da natureza. No entanto, este pensamento enfrenta uma dificuldade: a própria vontade é natural aos homens; por isso, as duas categorias, natureza e vontade, não se opõem. A vontade de criar projectos não é menos espontânea que a sua ausência. Por isso, uma economia do laisser-faire não é mais «natural» que uma economia dirigista. Ter de escolher entre natureza e vontade é já uma maneira de optar pela vontade; de outro modo, toda a sociedade iria apenas na direcção desejada. A verdadeira oposição situa-se, não entre elas, mas entre vontade colectiva (estatal) e vontades individuais. Com efeito, os liberais que defendem a suspensão das intervenções públicas no domínio económico não preconizam a passividade dos indivíduos. Pelo contrário: os que perseguem os seus objectivos com mais empenho são os mais dignos de elogio. Só o Estado deve submeter-se às leis da Providência ou às leis inflexíveis da História;  os indivíduos, por seu lado, são convidados a dar provas de iniciativa pessoal. A este respeito, a diferença entre neoliberais e socialistas não é uns serem voluntaristas e outros não; mas reside no facto de o voluntarismo, que lhes é comum, ser acima de tudo individual num caso e colectivo no outro. Sob este ponto de vista, o liberalismo é um pseudo naturalismo e um verdadeiro voluntarismo" (pp.99-100). 
Para o neoliberalismo, se o rumo natural da coisas ocorresse, tudo estaria no melhor dos mundos. E esse rumo natural seria a ausência de qualquer obstáculo à livre concorrência: «foi a submissão do homem às forças impessoais do mercado que, no passado, possibilitou o desenvolvimento de uma civilização», escreveu Hayek. Para Todorov, "poderia dizer-se que, como Deus, o mercado não pode fazer mal". Assim, reafirma o ensaísta, "esta combinação de fé cega nas leis da natureza e da história com a convicção de que se podem alcançar todos os objectivos visados é característica do cientismo, comum aos comunistas e aos neoliberais: como a ciência pode conhecer tudo, a técnica pode fazer tudo. A remodelação da sociedade é um problema técnico entre outros" (p.105). 
Este posicionamento crítico pode ajudar-nos a ler melhor e em maior profundidade o que se disse nos últimos anos sobre "folhas de Excel" e "ratinhos de laboratório" em que populações foram transformadas; a perceber como há diferentes tipos de engenharia social; como o positivismo cientista pode subjazer e ser pano comum a comunismo e (neo)liberalismo; a pensar no erro em que se labora quer quanto ao conhecimento - o comportamento humano e social igual ao comportamento do meio físico e, por isso, susceptível de ser conhecido nas suas leis -, quer quanto à ideia de que, em sendo tal possível, a técnica pode fazer tudo (nem tudo o que pode ser feito, deve ser feito). A ideia de que a vida social dos homens depende, essencialmente, da economia é, igualmente, partilhada por neoliberalismo e marxismo. E se "no regime comunista, a existência individual estava totalmente submetida ao controlo da colectividade", já "na vulgata neoliberal, qualquer influência da colectividade sobre os desejos individuais é logo assimilada ao gulag" (pp.106-107).

Tzvetan Todorov, Os inimigos íntimos da democracia, Edições 70, 2017

A política enobrece?


O envolvimento universal na política, em causas do interesse de todos, a procura do bem comum , o transcender do particular e do egoísmo, enobrece o humano, diz um argumento em favor da democracia. É exatamente o contrário que se passa, replica Jason Brennan, em Contra a democracia: para muitos homens e mulheres, o seu envolvimento na política traduz-se no despertar das piores paixões, no alimentar de ódios, das guerras mais mesquinhas. A política, em vez de enobrecer, envilece, provoca. Melhor fora que a maioria se dedicasse á poesia e à escultura, ao futebol e até aos reallity shows. Premissa para ajuizar do enobrecimento ou aviltamento que a política conleva para o humano: de que perspectiva, de que ideia de Homem partimos. De um lado, Mill a pensar no engrandecimento que advirá, com a participação política, para o humano. Do outro, Schumpeter a advertir para o mal que tal participação representará para imensos cidadãos.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Poder. E "produção de pensamento global"


Muito interessante a entrevista do Professor de Sociologia, na Universidade de Florença, Pippo Russo, a Bruno Roseiro, no Observador, a propósito da apresentação do livro A orgia do poder, agora traduzido para português, "a história nunca contada de Jorge Mendes". Deixaria aqui quatro destaques:






Na íntegra, aqui.

Anjos (II)


Para Renzo Lavatori, "importa concluir que a existência dos seres celestes é um dado doutrinal inalienável e revela uma realidade inserida na visão geral do universo como elemento constitutivo da sua ordem hierárquica e da sua harmonia" (p.31). O anjo tem um lugar próprio no interior de uma concepção cristã do cosmos: "não se pode confundir com Deus ou com o homem; simples e totalmente, é ele próprio, uma criatura espiritual, não uma emanação da divindade ou uma sublimação da humanidade, como um ser misto de qualidades divinas e humanas. É ele, sem mais, com as suas características pessoais que o distinguem e, ao mesmo tempo, o ligam ao mundo divino, humano e cósmico, de modo a formar uma espécie de balança entre os dois mundos para evitar, por um lado, toda a mescla e, por outro, toda a tentativa de separação e de contraposição" (pp.31-32).
Se o "Concílio Vaticano II, empenhado sobretudo em redescobrir a natureza da Igreja e a sua missão no mundo contemporâneo, não se ocupou diretamente da temática dos anjos" (p.15), falando deles apenas em "três contextos: eclesiológico, porquanto os anjos fazem parte da Igreja celeste e são venerados pelos cristãos juntamente com a Virgem Maria, os Apóstolos e os Mártires, formando com eles uma comunidade espiritual (LG 50); escatológico, recordando que no fim dos tempos o Senhor virá na glória com os seus anjos (LG 49); mariológico, onde se afirma que a Mãe de Deus foi exaltada acima de todos os bem-aventurados e dos anjos (LG 69)", já o IV Concílio de Latrão, de 1215, "assinala uma etapa de capital importância na história da angeologia e da demonologia" (p.45). O Concílio declara a) a realidade criatural dos anjos; b) a sua natureza originariamente boa; c) a sua realidade imaterial, embora não afirmada de forma directa; d) a origem do mal a partir da livre escolha e decisão do diabo e do homem.
Lavatori assinalara a concepção filosófico-teológica dos anjos: nela, estes são "considerados sobretudo no seu modo específico de ser, na sua realidade entitativa, no laço que os une, por um lado, ao Ser divino, como as suas criaturas e ministros e, por outro, ao mundo criado, como guardiães, protetores e ordenadores. São seres criados, não divinos, puramente espirituais e superiores ao homem; foram postos ao serviço de Deus e do homem para ligar estes dois mundos assaz longínquos, afastados um do outro e, por vezes, contrapostos, mas também reciprocamente referidos, de modo a cooperar no ordenamento universal" (pp.5-6)
Hoje, "os anjos tornaram-se também moda, a todos os níveis e em todas as formas; um fenómeno de proporções mundiais (da América ao Japão). Mas nem sempre se consegue determinar a sua consistência ou a sua figura; muitas vezes, não se vislumbra se eles são fruto de imaginações ou se correspondem a seres reais" (p.10).
John Henry Newman foi um dos cultores da angeologia.

[a partir de O anjo. Um feixe de luz sobre o mundo, Paulinas, 2017, pp.5-48]

Anjo da guarda


O sonho de Gerôncio


Feito está o meu trabalho,/ acabada a minha tarefa./ por isso, vou levá-lo para casa,/ porque a coroa foi vencida,/ aleluia, para a eternidade./O meu Pai/confiou-me/este filho da terra/ desde o seu nascimento/ para o servir e salvar;/ aleluia.
E já está salvo./Este menino de carne/foi-me dado/para o educar e instruir/ com penas e dor/ na via estreita,/ aleluia, desde a terra ao céu.

John Henry Newman



P.S.: poema de 1867. "Newman descreve nele o momento da «passagem da alma», em que aparece a figura angélica que recolhe, abraça e acompanha Gerôncio na transição para a vida eterna, com a morte. O anjo aproxima-se dele e revela-se na função desempenhada relativamente a quem lhe foi confiado por Deus, declarando que tudo foi cumprido. Gerôncio pode, pois, passar felizmente da Terra ao Céu" (Renzo Lavatori, p.38) 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

"Onde estão os novos empregos?"

Resultado de imagem para informático


"É nas engenharias informáticas que haverá mais emprego", afirma, convicta Vânia Neto, responsável da Microsoft Portugal pela área da educação, concretizando: "Tudo o que tem a ver com a cloud; com a análise de dados, ou seja, a ciência da big data; com a criação na área da internet das coisas (sensores biométricos nos equipamentos, por exemplo); com o design de jogos e o webdesign; com a transcrição de voz; com a cibersegurança..."
O que queres ser quando fores grande? Há 20 anos, ninguém responderia "programador de Android ou de IOS". IO...quê? Hoje, muitos sonham com um emprego numa Google, numa Apple ou numa Microsoft. O que é preciso ter para lá chegar? Não basta o curso superior...
"As grandes competências do século XXI são o pensamento crítico; a capacidade de colaboração, de trabalhar em equipa; e a capacidade de resolver problemas com base na informação disponível", continua Vânia Neto. "Isso as máquinas nunca vão poder fazer - inovar e criar".
Segundo o guia do mercado laboral da consultora Hays, relativo a Portugal, 79% das empresas consultadas dizem ter dificuldade em recrutar talentos. "Os profissionais das Tecnologias da Informação sabem o seu valor no mercado e colocam o factor salarial, a par da inovação nos projectos, como um dos principais elementos diferenciadores num processo de decisão entre diferentes ofertas de emprego", refere o estudo, que aponta as profissões mais solicitadas: programador; web developer; mobile developer; especialista em integração; administração de sistemas; especialista em business intelligence; data scientist, especialista em big data...
Segundo o mesmo documento, um programador ou um analista em início de profissão ganha, em média, €24500 por ano (€1750 por mês); com três a cinco anos de experiência aufere €35000 (€2500); e com mais de cinco anos de profissão recebe €50000 (€3571). São estes "salários baixos", ou pelo menos "competitivos" que têm atraído ao nosso país algumas multinacionais, que aqui instalam os seus centros de engenharias. Como está a fazer o Natixis, que encontrámos a recrutar candidatos no Landing careers Festival, o maior festival de carreiras em tecnologia da Europa, que este mês recebeu, em Lisboa, 1500 visitantes, na maioria estrangeiros, 60 empresas como a Google, Trivago, OLX, Farfetech, Microsoft, entre outras.
Depois da Polónia, Roménia e Espanha, o banco francês de investimento vai transferir para Portugal uma parte das actividades informáticas, criando 600 postos de trabalho no Porto, ao longo dos próximos três anos. O Natixis explica a escolha de Portugal pelos "salários competitivos", as "competências linguísticas e técnicas" dos profissionais e a oferta de imóveis. Para Philippe Becret, responsável pelo expositor do banco na feira, interessam os "falantes de francês", com "boas competências técnicas", para trabalharem nas áreas de IT banking, investment banking, insurance, etc. (...)
"Vivemos numa época em que um bom curso universitário não é suficiente para se conseguir muitos dos empregos que se veem ser publicados diariamente. E isto não se passa apenas em Portugal. O foco das entrevistas de emprego é cada vez mais avaliar capacidade de raciocínio, de solucionar problemas sobre pressão ou de comunicar com clareza e assertividade. Apesar de ser um factor relevante, essencialmente nos primeiros anos de carreira, nunca me perguntaram qual a minha nota do mestrado em nenhuma entrevista de emprego que fiz até hoje", refere [David Bento, 26 anos, analista de estratégia operacional da Deliveroo, em Londres].
David Bento diz mais: "Quem trabalha na indústria tecnológica encontra-se actualmente numa posição muito favorável relativamente à procura de emprego". Esta ideia é reforçada por Tatiana Fomicheva, consultora de recrutamento na Hays (...): "Estes candidatos beneficiam de 100% de empregabilidade, independentemente de terem formação superior, da universidade de onde vêm ou da linguagem/ferramentas com que trabalham. Isto faz com que não necessitem de procurar emprego, e sejam os empregadores a tentar aliciá-los com condições mais atraentes (...) São o tipo de talentos que, caso se sintam insatisfeitos, têm sempre muitas oportunidades para mudar, pelo que é extremamente importante existir um acompanhamento e desenvolvimento interno das suas carreiras por parte das empresas". (...)
Este engenheiro informático [Miguel Valente, da Microsoft] (...) deixa um conselho aos jovens à procura de emprego: "Ao invés de assumir que basta enviar um CV para a empresa, procurar activamente pelas vagas que encaixam no nosso perfil - e nas nossas ambições de desenvolvimento a nível profissional, mas também a nível pessoal (experiência profissional, culturas a conhecer...). Depois de as encontrar, desenvolver uma estratégia de 'ataque' às vagas - percebendo o que é procurado, quem é a equipa e a empresa, como podemos estabelecer o primeiro contacto, fazer o que chamamos os 'informational calls' (para saber mais sobre a empresa, equipa, objectivos, definição da vaga). E, finalmente, preparar muito bem as entrevistas".
A criatividade é a grande mais-valia. Não basta estar dentro do mundo digital; é preciso saber usar os equipamentos para a criação e não se limitar a ser um consumidor. "Quem está agora a estudar, provavelmente vai ter um emprego no futuro que hoje em dia nem sonhamos que virá a existir. E, no entanto, aqui temos estes alunos do século XXI, em instituições quase do século XIX, a serem educados por professores do século XX...", diz Vânia Neto, da Microsoft. Dá que pensar. 

Alexandra Correia e Clara Teixeira, Onde estão os novos empregos, Visão nº1268, de 22-06 a 28-06 de 2017 pp.67-71.

P.S.: na peça da Visão, escreve-se que para os Millenials "passar a vida no escritório, como fazem os seus pais, não é para eles" e entre as suas pretensões encontra-se a criatividade - ter liberdade para sugerir novas ferramentas ou tecnologias -, teletrabalho - a partir de casa e, por vezes, de outra cidade do país, experiência - de preferência com um período fora do país, ambiente informal - o tempo das gravatas no escritório está a chegar ao fim -, benefícios - um bom salário não chega. São valorizados o seguro de saúde, a formação, o ginásio, etc. -, horários - de novo, a procura pela flexibilidade e a recusa do horário rígido das 9h às 17h, podendo, assim, as empresas, para recrutar talentos, oferecer formação - na Dreamworks, por exemplo, é possível, nas horas de trabalho, frequentar aulas de fotografia, pintura, cinema, karaté -, ou avaliação por objectivos e não pela presença das 9h às 17h. 

Exame de português (fuga de informação)


Subscrevo o que Alexandre Homem Cristo escreveu acerca da resposta da tutela relativamente à fuga de informação no exame de Português:


"Sobre o exame de português:
1: o Ministério ainda não conseguiu confirmar a fuga de informação. É incrível, porque não se percebe a dúvida, a menos que se acredite que o miúdo que circulou a gravação no whatsup é bruxo e adivinhou o exame todo. Quanto muito, o Ministério ainda não apurou a fonte da fuga de informação (uma semana depois?) -- mas ter dúvidas sobre se houve fuga de informação é um gozo.
2: os "beneficiários" da fuga (leia-se, os alunos que ouviram a gravação) vão ser penalizados. E como é que se identifica os beneficiários? Como se distingue quem ouviu a gravação de quem não a ouviu no whatsup? E que culpa tem um aluno se ouviu uma gravação que, em bom rigor, nem sequer sabia se era fidedigna, e em que se calhar nem acreditou? E se, sendo penalizado, essa penalização tiver impacto negativo no acesso ao seu curso superior? E se o aluno decidir processar o Estado, alguém duvida que ganha?
3: isto vai ser uma grande trapalhada. Talvez seja a trapalhada possível, a menos má, porque repetir o exame nacional de português seria igualmente uma grande trapalhada. Não há uma saída airosa disto. Se os exames nacionais não estivessem pendurados no acesso ao ensino superior, isto não seria tão problemático".

Anjos

Resultado de imagem para anjos

Até ao Concílio  Vaticano II (1962-65), a existência dos anjos, como sujeitos reais, era não problemática, admitida pacificamente fosse entre crentes, fosse entre estudiosos da teologia. A crítica vinda do campo protestante, ainda nos finais do séc.XIX, ao sobrenatural na religião cristã, viria a fazer-se sentir, posteriormente, no campo católico (para o teólogo luterano Rudolf Bultmann, "os anjos são apenas o resíduo de uma mentalidade supersticiosa pré-científica e, como tais, definitivamente eliminados", p.18). Ainda assim, nem no interior do pensamento teológico protestante a unanimidade se impôs, com Karl Barth a afirmar a existência de anjos e demónios ("claramente atestada pela Escritura"). Para Barth, dos anjos "podem reconhecer-se apenas as suas acções na história, porque eles estão totalmente ao serviço de Deus e o seu ser constitui-se em tal serviço, não na pertença a uma categoria ou ordem ontológica; mais ainda, eles, de algum modo, desaparecem diluindo-se na função (...) Eles estão sobretudo implicados na acção que Deus desenvolve a favor do homem, e nela estão sempre presentes, mesmo se o homem de tal não se dê conta. Recebem para esse fim missões com autoridade e poder da parte de Deus. Barth, aqui de acordo com toda a tradição, afirma que os anjos são criaturas, «indivíduos de essência celeste», não emanações de Deus, ideias ou formas de Deus. Não é possível, porém, saber se são pessoas ou sujeitos, porque os anjos não estão perante Deus em «subsistência própria», como os homens. Barth (...) nega-lhes o livre-arbítrio (...) A liberdade criatural dos anjos é idêntica à sua obediência, porque o seu ser coincide com o seu agir" (p.19-20). 
Para Tillich e Ricoeur, diferentemente, enquadram os anjos em perspectiva simbólica. Para o primeiro dos autores, "os anjos e os demónios (...) hão-de entender [-se] como realmente existentes, mas não como seres autónomos, antes como símbolos poético-históricos do bem e do mal presentes no ser e na estrutura do mundo. O segundo dos pensadores "interpreta o diabo como figura simbólica do mal que cada ser humano introduz no mundo com a sua opção pelo pecado; Satanás representa a presença negativa sempre atual para a humanidade, que disso é consciente e responsável. Outros estudiosos sustentam que os dados bíblicos a propósito dos anjos e dos demónios se devem olhar como representações figurativas respectivamente do amor - Deus que vem ao encontro do homem para o salvar - e da força do pecado - que habita nele e o impele ao mal (p.20-21).
Alguns teólogos católicos de influência bultmaniana rejeitam totalmente a realidade dos anjos e dos demónios, sobretudo do Diabo, chegando a esta afirmação peremptória: «Com a crença no diabo lidamos, em última análise, com algo de pagão e, portanto, de profundamente anticristão» [é a posição de H. Haag, M. Limbeck, K. Elliger e B. Lang, bem como H. Kung ou J. Quinlan]
Para P. Schoonenberg, não é possível demonstrar, "a partir dos documentos bíblicos e magesteriais, que a existência de anjos e diabos seja uma implicação substancial da mensagem revelada nem se pode demonstrar, racional ou cientificamente, a sua existência. 
Em jeito de balanço quanto ao estado da arte, Renzo Lavatori assinala que "a atitude actual da maior parte dos teólogos católicos é a de uma consciência das exigências críticas, que são estudadas e examinadas para repropor a validade substancial da doutrina sobre os anjos": "eles [como M. Seeman] recuperam o significado a dar aos espíritos celestes na perspectiva soteriológica, onde ocupam um lugar relevante, porquanto actuam na economia salvífica realizada em Cristo (...); outros apoiam-se e insistem em sublinhar a sua incidência antropológica, porque oferecem valores essenciais para reencontrar a verdadeira identidade do sujeito humano; outros ainda [como J.Auer] dirigem o olhar para a universalidade do cosmo, visto que no seu desenvolvimento e nos seus movimentos, onde a obra angélica presta ajuda para usar os recursos naturais com sapiente estruturação e no seio de uma visão integral.
Seja como for, dos anjos fala-se "não só no ambiente de tradição cristã, mas em todas as expressões religiosas, quer antigas quer actuais, nas várias literaturas, nas representações artísticas, nas produções cinematográficas e audiovisuais e sob outros múltiplos aspectos" (p.10)

[a partir de Renzo Lavatori, O anjo. Um feixe de luz sobre o mundo, Paulinas, 2017, pp.5-28]

terça-feira, 27 de junho de 2017

Emprego e resposta política


Resultado de imagem para robert b reich

(...)

Robert Reich: A teoria da austeridade, tal como a teoria trickled-down [políticas económicas que favorecem os mais ricos, crendo que estes privilégios acabam por beneficiar as camadas de baixo] é uma ideia falhada, não funciona. A única forma de reduzir a dívida é fazer crescer o PIB e, com políticas de austeridade, não é possível. Keynes tinha razão quando dizia que a melhor resposta para combater o desemprego é através do investimento e da despesa pública, como recurso final. Não é um problema, é uma solução: esse investimento é um multiplicador ligado a cada dólar gasto, que cria mais postos de trabalho e, por isso, mais receitas. Quem não compreende isto, não sabe matemática básica.

Expresso: A austeridade não faz sentido...

Robert Reich: Não. O mesmo acontece com a teoria de que se se cortar nos impostos sobre os mais ricos a economia vai crescer, porque geram-se receitas que compensam perdas fiscais. A única forma de as empresas crescerem é gerando mais clientes, e só podem tê-los se a classe média, que é mais propensa ao consumo, tiver mais dinheiro. Estas duas teorias já tiveram resultados terríveis. Fascina-me que ainda estejam vivas.

(...)

Os cidadãos têm de ser mobilizados e ser agentes de mudança. É o que está a acontecer com Trump. Desde a guerra do Vietname que não via tanto activismo. A maioria dos protestos é contra ele, mas este activismo tem de se virar a favor das reformas económicas e da democracia. Por outro lado, as elites económicas, por causa de Trump, começaram a perceber - é uma esperança - que ficariam melhor com uma fatia menor da riqueza numa sociedade menos zangada, ao invés de uma economia de fraco crescimento desigual, polarizada e instável por causa da política. 

(...)

As desigualdades são criadas por três factores: a globalização, as mudanças tecnológicas e as políticas das elites. Este terceiro factor é determinante, porque não há nada nos dois primeiros que por si conduzam inevitavelmente à desigualdade. Com investimento público como forma de criar emprego e apostando em educação e em formação contínua para capacitar os trabalhadores, já é possível melhorar. Não é lógico nem inevitável que as pessoas que perdem o trabalho tenham novos empregos onde lhes pagam menos


Expresso: Então?

Robert Reich: Podem ter um salário subsidiário, um crédito fiscal para os que estão abaixo de um certo nível salarial. Eventualmente todos poderemos vir a ter um rendimento básico universal. Não é politicamente possível agora, mas à medida que a tecnologia tirar cada vez mais empregos, terá de ser. É o que me dizem os executivos de empresas de alta tecnologia.


Expresso: Tesla, afirmou que essa é a solução.

Robert Reich: Sim. Os empresários já perceberam que estão a eliminar postos de trabalho a um ritmo muito elevado. Se continuar assim, quem irá comprar os seus produtos? Foi o mesmo argumento de Henry Ford no início do século XX para argumentar os salários: quem iria pagar pelos seus carros?

(...)

Existem três grandes questões, que vão dominar o mercado laboral. A inteligência artificial e a consequente eliminação de empregos; o fim do emprego tal como o vemos hoje e o aumento do número de trabalhadores independentes ou contratados a projecto; e o monopólio que está a ser criado pelas empresas de tecnologia, que usam o efeito rede e os big data, para aumentarem as suas posições de mercado. Todos estes problemas podem ser resolvidos, mas há uma questão política: estes grupos têm cada vez mais poder. A Google é a maior lobista em Washington. 

Expresso: De onde virá a vontade política para fazer o que é preciso?

Robert Reich: Com o desemprego tecnológico será necessário um rendimento básico universal. Mas quem abrirá o caminho? Até podem ser as empresas...Quanto ao fim da relação de trabalho tradicional, a resposta é dar às pessoas formas diferentes de segurança laboral, porque durante todo o século XX o contrato de trabalho baseou-se no emprego. Não há nenhuma razão para que os trabalhadores independentes ou temporários não possam usufruir de protecção. Já as empresas de tecnologia dependem da propriedade intelectual, das patentes e dos direitos de autor. Estes direitos e leis antimonopolistas podem ser adaptados a este novo mundo. 

Expresso: Faz sentido o rendimento básico universal para todos, ricos ou pobres?

Robert Reich: Pode ser estruturado como um salário de subsistência. Ninguém ficará rico com ele, mas também não cairá na pobreza. Se quiser trabalhar e aumentá-lo, OK, se arranjar um óptimo emprego bem remunerado, melhor. Esse salário não será generoso e a sociedade não poderá provavelmente dar mais do que um subsídio de subsistência. Mas será muito importante. 

Expresso: E onde irá o Estado buscar receita para o pagar?

Robert Reich: Pode vir de várias fontes. Basta uma pequena parcela das receitas geradas pela propriedade intelectual, já que as patentes e os direitos de marca geram receitas elevadíssimas. Em 1928, John Keynes previu que em 100 anos, a tecnologia eliminaria todos os empregos e que o maior problema seria como ocupar as pessoas no seu tempo de lazer. Deixou de fora da previsão o mecanismo de como fazer circular o dinheiro. Se este é um dos problemas centrais no futuro, podemos legislar de modo a retirar parte dos rendimentos gerados pela propriedade intelectual, ou criar um imposto sobre o rendimento, como sugere Thomas Piketty. Ou outra coisa. O aumento da capacidade tecnológica vai gerar mais rendimento é riqueza, tornando as sociedades mais prósperas.

Robert B. Reich foi secretário de estado (o equivalente a ministro) da Administração Bill Clinton, nos EUA. Entrevistado por Joana Pereira Madeira e Luísa Meireles, para o suplemento de Economia do Expresso de 13 de Maio de 2017.

Turistas brasileiros, em Portugal


Nunca, como no ano passado, tantos brasileiros visitaram Portugal como turistas: foram 624,5 mil. Um aumento de 13% face a 2015.

O custo de um curso, em média, em Portugal


O custo anual de tirar um curso superior, em Portugal, é, em média, de 6445 euros. Os custos com a educação, que inclui propinas, taxas, livros, equipamentos e material, totalizam 1718 euros anuais. O estudo é do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.

Às terças


Mas podemos esperar mais, ainda mais, da estratégia do FCPorto, que tem faseado as revelações, criando um suspense inusitado. É preciso esperar por cada terça-feira, tal como se espera pelos novos episódios da nossa série favorita. E eu sei, eu sei, nunca mais é terça-feira. Ah, e quantos implicados não estarão em transe, com medo de terem sido espiados? Os próprios responsáveis do Benfica estão paralisados por saberem que ainda falta a parte pior, que o filme é de terror e o enredo vai em crescendo. Ó sim, tenham medo. Muito medo. Há quem saiba o que vocês fizeram em épocas passadas.

Álvaro Magalhães, OJogo, 18-06-2015, p.56

domingo, 25 de junho de 2017

Triplete


Resultado de imagem para triplete hoquei patins

Ou seja, os árbitros não merecem respeito por serem árbitros, só se decidirem a nosso favor. No futebol, são todos excelentes e o Benfica defendia-os como política do clube (veja-se a cartilha). Os do hóquei devem ser filhos de outras mães e são maus. Só que no hóquei não há ninguém que lhes dê razão. E ver os adeptos contentes com isto é o grau abaixo de zero do desporto.

Manuel Queiroz, OJogo, 25-06-2017, p.18

P.S.: Depois de JJ ter dito, ao serviço dos encarnados, que um árbitro auxiliar não viu um fora de jogo "porque não quis", desta vez foi Pedro Nunes a falar numa "decisão premeditada" pelo árbitro. A inimputabilidade continua. E, a quando da falta de comparência do Liceo da Corunha, numa supertaça europeia, disseram que era "uma demonstração de falta de respeito".  A hipocrisia bate recordes. Pelo meio, um campeonato ganho contra tudo isto. Parabéns.

Callas

O procedimento, nos exames


Actualmente, nos exames de Português, pelo menos no 9º ano, a prova inicia-se com um aúdio escutado pelos alunos. Os alunos têm que estar concentrados, escutar bem, procurar compreender, para depois responderem - nomeadamente, em questões de escolha múltipla -, acerca do que acabaram de ouvir. Em termos logísticos, o Ministério da Educação envia o ficheiro aúdio; alguém do Secretariado vai às salas, onde os exames decorrerão, colocar no "ambiente de trabalho" do computador (dessa sala) o ficheiro aúdio; assim que o tempo da prova começa a contar, faz-se play e os alunos escutam (o som, mesmo numa sala ampla, está perfeito). Este ano, o aúdio foi de uma edição do programa "O livro do dia", da responsabilidade de Carlos Vaz Marques, da TSF. Passa uma vez, depois há uma outra voz (grande irmão) que dá instruções - "agora, têm 4 minutos para resolver as questões do Grupo I" - e, dali a um pedaço, a voz de Vaz Marques regressa para uma segunda audição daquela mesma edição do programa da TSF.

Como o Público tem, como em anos anteriores, um diário de uma aluna do Secundário, sobre este período de (estudo para os) exames, achei curioso o que ela escreveu, anteontem, sobre as centenas de voltas que os professores vigilantes deram durante a prova que a adolescente realizara (e dei por boa a opção que fiz de não andar "sala acima, sala abaixo"). E acho mais do que compreensível a ironia de que usa para se referir à fuga de informação no exame de Português, que irá gerar o caos no sistema, seja qual for a decisão a adoptar quanto à repetição da prova (o mal está feito e não vejo maneira de conseguir torná-lo indemne). 

Frei Francolino Gonçalves


2. Frei José Nunes, O.P., na celebração da Eucaristia de evocação de Frei Francolino, referiu-se a um dos seus estudos decisivos e inovadores sobre as representações de Deus nas duas religiões iaveístas do Antigo Testamento (AT) [5], isto é, a existência de dois iaveísmos diferentes. Esse estudo é muito extenso e muito analítico. A eleição de Israel, a sua libertação do Egipto e a aliança que Iavé fez com ele são os artigos fundamentais da fé iaveísta. Esta era a opinião comum que fazia das relações entre Iavé e Israel a matriz do iaveísmo. Tornou-se, para vários autores, uma posição insustentável. Era contestada a opinião corrente liderada por uma grande figura da exegese, von Rad. A própria constituição dogmática Dei Verbum, do Vaticano II, deve muito à teologia desse teólogo luterano. Mas, na sequência de outros investigadores, Frei Francolino mostrou, pelo contrário, que o AT contém duas representações diferentes de Iavé. Segundo uma, ele é o Deus criador que abençoa todos os seres vivos; segundo a outra, ele é o Deus que está ligado a Israel, o seu povo, a quem protege e salva. Segundo o Fr. Francolino, os exegetas não prestaram a atenção que mereciam estas vozes discordantes. A esmagadora maioria parece nem as ter ouvido. Por isso, ficaram sem eco, não tendo chegado ao conhecimento dos teólogos, dos pastores nem, por maioria de razão, do público cristão. “As minhas pesquisas, nesta matéria, confirmaram, essencialmente, os resultados dos estudos que referi e, além disso, levaram-me a propor uma hipótese de interpretação do conjunto dos fenómenos religiosos do AT, que é nova. A meu ver, o AT documenta a existência de dois sistemas iaveístas diferentes: um fundamenta-se no mito da criação e o outro, na história da relação de Iavé com Israel. Simplificando, poderia chamar-se iaveísmo cósmico ao primeiro e iaveísmo histórico ao segundo. Contrariamente à opinião comum, a fé na criação não é um elemento recente, mas constitui a vaga de fundo do universo religioso do AT.” 3. Qual é a importância da descoberta de dois iaveísmos? Julgo-a de grande alcance para todos os leitores do AT e considero-a uma das raízes do universalismo cristão. É a diferença entre um Deus universalista, Deus de todos os seres humanos e da criação, casa comum de todos, e a representação de um Deus nacionalista que confunde o Mundo com os interesses de um povo, capaz não só de o defender, mas de se tornar inimigo dos outros povos, podendo até mandá-los exterminar. É esta distinção que nos pode ajudar a compreender o sentido e o absurdo da violência de muitas páginas da biblioteca do povo de Israel. Colocou-se na boca de Deus os interesses de um povo contra os outros povos. Não pode ter sido o Deus do Universo a escrever essas blasfémias. Quando tropeçamos nessas passagens, devemos perguntar: que causas e interesses defendem?

Frei Bento Domingues, Público, 25-06-2017

Um enorme elogio


A Bíblia de Frederico Lourenço

Para mim, que sempre tive com Deus uma relação complicada, que tanto me zango com Ele, que às vezes sou tão injusto (ou talvez não, pode ser que em algumas ocasiões a razão esteja do meu lado) que me apetece, quando me interrogam acerca da nossa relação, responder como Voltaire (– Cumprimentamo-nos mas não nos falamos) mas este trabalho de Frederico Lourenço fez-me aproximar mais d’Ele e de Cristo Susa Monteiro Este livro, a tradução da Bíblia por Frederico Lourenço, é um dos mais importantes publicados em Portugal nos últimos muitos anos. Repito: um dos mais importantes publicados em Portugal nos últimos muitos anos. Como leitor tenho de agradecer a Francisco José Viegas que para além de escritor de mérito é uma das figuras fulcrais da nossa Terra no que à literatura diz respeito, quer como difusor dela quer como director de revistas literárias, quer como crítico, quer como editor. Podemos discordar dele: não pode ser-nos indiferente e, coisa muito rara, é intelectualmente honesto. Com a publicação desta Bíblia assina indelevelmente o seu nome no panorama literário português. E agora, se me permitem, vou falar um pouco da obra em apreço. Eu sou um colecionador e leitor de Bíblias. Devo ter duas dezenas nas línguas em que consigo ler, julgo ter estudado um número razoável de versões do texto sagrado e de comentários a ele, e enche-me de orgulho dizer que não conheço outro trabalho da grandeza deste e da sua altíssima qualidade. Devemos a Frederico Lourenço um texto excepcional, de seriedade e talento imensos. Estou muito à vontade para falar disto porque não conheço o autor, nunca o encontrei, nunca falei com ele, vi, por junto, uma fotografia sua no jornal. Não li os seus romances, não sabia sequer que os tinha escrito, li dois volumes seus de estudos sobre autores gregos que me pareceram sérios e muito bons, apreciei principalmente o que escreveu sobre Eurípedes, um dos meus dilectos (convém ter imensos dilectos para não ter nenhum) e a minha amiga Sara Belo Luís ofereceu-me o primeiro e depois o segundo tomo da sua tradução da Bíblia. A qualidade deste feito é excepcional. Frederico Lourenço consegue dar-nos a beleza única deste monumento único com uma surpreendente fidelidade e uma capacidade criativa em tudo invulgar. Não encontrei nenhum livro comparável a este, em primeiro lugar no que à escrita diz respeito, transmitindo-nos tanto quanto posso avaliar a sua beleza e qualidade ímpares e acompanhando-as de uma coleção de notas de espantosa elegância, erudição e humildade que honram ainda mais o seu Autor. A orgulhosa modéstia de Frederico Lourenço, o respeito absoluto e a compreensão orgânica do material fazem desta Obra qualquer coisa de único no panorama intelectual português e do homem que a conseguiu uma figura de cumeeira. Nunca tinha, que me lembre, falado assim de um Livro e de um Escritor. Para mim, que sempre tive com Deus uma relação complicada, que tanto me zango com Ele, que às vezes sou tão injusto (ou talvez não, pode ser que em algumas ocasiões a razão esteja do meu lado) que me apetece, quando me interrogam acerca da nossa relação, responder como Voltaire - Cumprimentamo-nos mas não nos falamos mas este trabalho de Frederico Lourenço fez-me aproximar mais d'Ele e de Cristo, fez-me sentir um orgulho de filho em relação ao Pai e aumentar, no meu espírito, o meu amor por Ele. Eu acho que Frederico Lourenço foi tocado pela Graça e invejo-o por isso, e tenho ciúmes por isso só de imaginar que Deus o prefere a mim, mesmo achando que tem boas razões para tal. Esta Bíblia possui todas as características para perdurar e creio que o autor deste livro português poderá dizer, como Bocage Isto é meu, isto não morre que, aqui para nós, é o que costumo pensar do que escrevo. Percebi também que Frederico Lourenço é filho de M.S. Lourenço, que tão pouco conheci mas de quem li alguma coisa. Estava a lembrar-me de uma obra chamada "O guardador de automóveis", encontrada na adolescência, de que ainda sei alguns versos de cor, por exemplo "aceito Deus uno e trino mas não aceito Deus cabeleireiro de senhoras" ou de um outro que me impressionou muito e continua a impressionar-me: "Porque estais tristes: não me reconheceis?" Peço perdão se cito mal mas é assim que os recordo. Sobretudo este último, que me tem acompanhado ao longo dos anos por razões que não sei ou, antes, creio que sei mas não vou mencioná-las. O importante é esta Bíblia, um grande livro que decerto perdurará muitos, muitos anos na reduzida prateleira da Grande Arte da nossa Literatura, pelo seu rigor, pela sua beleza, pela sua absoluta e luminosa fidelidade. Como português agradeço-lhe do coração. Como escritor agradeço-lhe do fundo da alma. A Arte não é um desporto de competição a Casa do Pai tem muitas moradas. E sempre achei que a grandeza dos outros aumentava o meu tamanho: muito obrigado por me ter dado alguns centímetros a mais. Agora vejo mais longe. E, além disso, ajudou-me a sentir orgulho no meu trabalho. Isto é meu, isto não morre. Bocage, tradutor do meu querido Ovídio, deve estar cheio de peneiras do Frederico Lourenço.

António Lobo Antunes, Visão, 15-06-2017

sábado, 24 de junho de 2017

Carta aberta aos amigos que agora concluem o 11º ano


Caríssimos:

"Aquele que vive dessa vida nova é o Homem novo, que não possui a vida por si nem para si. O Homem novo é aquele que reconhece e vive a vida como dom de Deus - e não como produto da sua autoconstrução orgulhosa - para dar a Deus - e não para guardar e salvaguardar, numa atitude de sobrevivência estéril e, em última instância, inglória, devido ao assalto final da morte. E note-se que não é mais fácil acolher a vida como dom gratuito, imerecido, injustificado, do que dar a vida por Deus. Ao herói orgulhoso, até pode ser mais fácil o segundo. Só aquele que se reconhece «ontologicamente» pobre é que é capaz de acolher a vida como dom gratuito. E só esse será capaz de a dar completamente, já que o dom de si se encontra implicado no acolhimento de si, e vice-versa (...) Trata-se de viver a existência como acolhimento da vida a partir do outro, enquanto irmão, e para o outro, enquanto próximo. O acolhimento da vida e a doação da vida a Deus não constituem uma alternativa, relativamente ao acolhimento e doação da vida ao próximo. Antes pelo contrário: só na medida em que esse acolhimento e doação se realizam em relação aos outros, com que nos relacionamos concretamente, é que se pode falar em acolhimento e doação, relativamente a Deus. Por outro lado, só na medida em que o acolhimento e doação ao outro procedem do acolhimento e doação a Deus é que se tratará de autêntica solidariedade (...) sem o perigo de estar simplesmente sob a alçada de interesses próprios ou de grupo (...) Por isso, todos nascemos filhos - de Deus e dos nossos pais - e todos nascemos para ser pais, isto é, para darmos a vida e para gerarmos outros humanos ou algo noutros humanos. Sempre que somos férteis - sempre que originamos algo, seja o que for e como for - para bem dos outros, para lhes dar vida, estamos a realizar a nossa paternidade (e maternidade). A perdição dos humanos resulta da sua não aceitação da condição filial - por orgulho da autoprodução de si mesmos - e da recusa da condição paternal - por fixação na pura autorrealização de si mesmos"

João Manuel DuqueFátima. Uma aproximação, Paulinas, Prior Velho, 2017, pp.74-80


Neste magnífico passo, um conjunto de anotações:

1. Se entendo a vida como (me sendo) dada de graça, dom, ela reclama de mim uma resposta (a essa gratuitidade). Um reconhecimento. O reconhecimento da existência como não sendo um "produto" de uma (minha) "autoconstrução" (orgulhosa). Se  me reconheço fundado/filiado Noutro, e lhe estou grato pela gratuitidade e dom da vida, esta, a vida, não serve para ser "guardada", ou "salvaguardada" - ficar quieto, no meu canto, sem fazer nenhum erro, mas nunca metendo a mão na massa, sem arriscar nada, sem dizer um palavrão, fazendo tudo correto, mas nunca me implicando na realidade e na vida, nunca sendo ou fazendo parte de um "hospital de campanha", que "suja as mãos" -, até porque estaríamos perante uma "sobrevivência estéril", "inglória" (que vitória em não fazermos nada - de errado; porém, nem de certo -, deixar passar a vida, não a tocar, para desaparecermos depois?), dado que a morte advirá.

2. Quando se fala aqui em "herói orgulhoso" podemos pensar em alguns "terroristas"/kamikazes que pensam que ao dar a vida por Deus (no entanto, um deus completamente abstrato, vingativo, que é tudo menos misericórdia e amor) são capazes de gestos "brutais" como arrasar com uma comunidade. Neste sentido, eles julgam ganhar, por si, pelo seu mérito, só pelas suas forças, o "Além". Não se sentem pobres, enraizados no Outro, irmãos com os outros; eles são, ainda, "uma orgulhosa autoconstrução".

3. Não se pode, porém, morrer por Deus, matando os outros. Não se pode amar a Deus, e (ou mesmo) que se odeie os humanos. Não. Não se trata de uma alternativa (Deus vs humanos). Nós só podemos amar Deus nos humanos (no cuidado por toda a criação): "só na medida em que esse acolhimento e doação se realizam em relação aos outros, com que nos relacionamos concretamente, é que se pode falar em acolhimento e doação, relativamente a Deus". Mas, não menos relevante, o melhor fundado desse acolhimento dos outros é compreendê-los como irmãos referidos ao mesmo Pai, como criados à imagem e semelhança de Deus, como tendo dignidade (isto é valor - e não preço). Esta radicação do meu entendimento sobre o porquê do valor do outro é decisivo para que esse acolhimento do outro não incorra no "perigo de estar simplesmente sob a alçada de interesses próprios ou de grupo ".

4. Eu não me auto-justifico (não é meu mérito andar e permanecer ainda, e isso é um milagre quotidiano) e, nessa media, eu sou intrinsecamente filho (mesmo que venha a ser pai). Mas eu nasço para ser fértil - sempre que fazemos "algo, seja o que for e como for - para bem dos outros", isto é, sempre que "damos vida" (em qualidade e bem) aos outros, estamos a assumir a nossa paternidade/maternidade (não se nega aqui o biológico, mas o olhar para a paternidade/maternidade, como se percebe, recebe uma adicional compreensão).

5. O ser humano perde-se quando recusa que foi originado ("não aceitação da condição filial - por orgulho da autoprodução de si mesmos"), que não é uma construção sua - quer dizer, que nem tudo depende dele, que não controla tudo, que está numa relação a que lhe cabe responder -, ou quando recusa a sua missão e tarefa de ser para os outros, de sair de si, de se preocupar com os demais; quando é egoísta, narcísico, quando não quer saber dos outros está a recusar a paternidade (gerar vida - de qualidade - nos outros). Isto é, quando recusa ser pai/mãe de outros (se quisermos, quando recusa assumir a responsabilidade pelos outros). É a "fixação na pura autorrealização de si mesmos". 

6.Nesta altura, em que irão fazer esse exercício de discernimento sobre a vocação a que se crêem chamados - para realizar, tanto quanto possível - ao longo da existência, cabe dizer, desde logo, que não há lugares interditos (profissões/atividades) a este acolhimento do dom, a este reconhecer que não nos fazemos - o mito do self made man -, mas que se nos oferecendo o dom gratuito de termos sido criados (por amor), cabe-nos responder oferecendo-nos e arriscando-nos por inteiro pelos outros, santuários de Deus que nos cumpre cuidar, sendo férteis a partir de Deus, em Deus, para os outros (para Deus).  

Para além do significado que isto possa ter no interior de uma comunidade crente, creio, sinceramente, também e ainda, na pertinência antropológica do que aqui se assinala (face à finitude da vida, sermos férteis com e para os outros, sem nenhum outro interesse que não o deles mesmo - o agapê). E, nessa media, para além de toda a infra-estrutura técnica, a validade do discernimento espiritual nessa imersão no futuro, a um ano da universidade.

Quando se pensam, no futuro, a partir de missões a realizar, pessoas a ajudar, resgates de refugiados no mar, por exemplo, diria que estas categorias e este entendimento estão já como que subsumidos/interiorizados. Mas o Espírito sopra onde quer, e demanda a criatividade de todos nós para no dia a dia o actualizarmos.

Boas reflexões, boas decisões.
Abraço fraterno,
Pedro

Voando sobre um ninho de cucos


Creio que ao longo da semana tudo (o que podia ser) foi dito - até porque não houve silêncio - sobre a tragédia de Pedrógão Grande. Na noite de Domingo, a Sic já tinha os seus separadores, na película a preto e branco, na música fúnebre, na "poesia" (em voz off), no que António Guerreiro chamou, e bem, "a estetização da dor" alheia (e Pacheco Pereira relatou como "masturbação da dor"). Depois, como também denunciado, saltaram especialistas, a cada minuto, sobre gestão florestal, ordenamento do território, combate a incêndios (a doxa habitual, no achismo tipicamente português, repleto de palpites, na tal logomaquia perturbante). Pelo meio, claro, o jogo partidário, nunca deixou de estar latente, quando não explicitado, particularmente duro numa circunstância como esta: entre quem subsume todo o sucedido ao curso da natureza, a quem nega que esta tenha qualquer papel que não possa ser contrariado; entre quem acha que tudo foi feito, e quem considera que há um único culpado; entre quem considerou um artigo no ElMundo a coisa mais importante para o país na última semana, e os que se dedicaram a atacar o seu subscritor (que não conhecemos, dado, pelos vistos, tratar-se um pseudónimo). Pelo meio, o Público fez um bom trabalho, colocou várias questões pertinentes, trouxe-nos um conjunto de dados pertinentes para avaliarmos como cidadãos: desde o sistema de comunicações adquirido, pelo Estado, a um preço exorbitante e que não funciona, até ao consórcio que o vendeu, e onde encontramos os suspeitos do costume, culminando na manutenção dos equipamentos ao dobro do custo do mercado, segundo uma auditora (consultada pelo Estado), até à redução, em negociação, do preço deste equipamento de manutenção, acordado, há dois anos, mas estranhamente não colocado em vigor no momento em que o acordo foi concluído (com o Secretário de Estado de então, Fernando Alexandre, a vir agora dizer que é necessário averiguar porque não foi concretizado/implementado, no devido tempo, esse acordo). Tudo isto, espanta o leitor/cidadão e faz-nos temer que o ar intoxicado possa ainda deteriorar-se. Em que circunstâncias, e com que cumplicidades, se fizeram este conjunto de negociações, ao longo de vários anos, e diferentes governos? Ontem, a manchete do DN era bem reveladora, a propósito daquilo que se seguirá, por certo: "ao fim de 5 dias, verniz estalou entre o PS e a direita". Vai ser muito feio de ver, estou em crer, ainda que seja absolutamente essencial também apurar responsabilidades (políticas). Ricardo Costa, no Expresso, chama a atenção para as novas condições em que o Governo passa a estar - claramente mais precárias, e necessariamente um Executivo "menos autosuficiente" - no diálogo com o país. 
Mas, desta feita, é com Henrique Monteiro, um articulista que está longe de entrar no meu lote de favoritos, que estou mais de acordo: "Podem começar uma enorme discussão sobre as culpas dos incêndios. Afinal, já se passou uma semana, os mortos estão enterrados e as populações podem voltar, de novo, ao esquecimento. Aqui não há compaixão nem luto. Há ataques de baixa política. A uns porque não coordenaram, a outros porque permitiram eucaliptos. No auge da crepitação pediram-se cabeças, fosse a da ministra atual fosse a da líder do CDS por ter feito uma lei há dois anos e meio. O ministro da Agricultura também andou perto de ter a cabeça a prémio. Quem não anda, nesta altura? Mas há uma sentença que abarca todos. Todos os políticos presentes e passados, assim como as cadeias de comando dos bombeiros, da Protecção Civil, da GNR. O crime é simples de identificar: abandono, puro e simples, do território. 
Meus caros: todos vós, uns com mais culpas do que outros, abandonaram o interior. E esse abandono nem compensado foi por uma descentralização. Pelo contrário - colocaram quase tudo no litoral. (...) Deixaram aldeias inteiras com velhos. 'O mais novo devo ser eu, que tenho 56 anos', dizia numa delas um homem. Nem uma criança nem um motivo para lá se viver. E depois indignam-se porque as pessoas não limpam as matas ou não sabem sequer onde ficam as suas matas. E vós que fizésteis? Governantes, Protecção Civil, bombeiros? Acaso exigiram, mais do que equipamentos de combate, que fosse feito o cadastro de propriedade? Acaso pediram (e nisto estou de consciência muito tranquila) que não cedessem às 'jotas' partidárias e utilizassem um serviço cívico obrigatório que auxiliasse o interior (com a vantagem de reunir jovens de todas as origens e estratos sociais)? Acaso se sobressaltaram, sabendo que ali, no Pinhal Interior como noutras zonas, tudo pode arder como um fósforo? Que interessa aos mortos e aos que sofrem a sua partida saber se tudo começou com um raio ou mão criminosa? Tanta gente que enche a boca com a igualdade promove a mais iníqua situação nas aldeias que vai abandonando. O que não arde são as cuidadas matas das fábricas de celulose. Tudo o resto não tem valor: é confusão. É assim há 30 ou 40 ou 50 anos. É por isso que, mais do que conclusões, são necessárias acções. É por isso que nem tudo pode ser visto com os olhos de Lisboa" (Expresso, 24-06-2017, p.40).

Férias



Normalmente, gosto muito dos textos que o autor publica. Este, contudo, tem, ainda, o suplemento de me identificar muito com ele. Por achar, precisamente, que a única viagem - sempre prescindir das exteriores - é, de facto, a viagem interior. Um texto, além do mais, belíssimo (também do ponto de vista estético).


José TOLENTINO MENDONÇA, A AVENTURA DE NÃO IR  A PARTE NENHUMA, Expresso. A Revista do Expresso, n. 2329, 17. 067. 2017, 92

UMA VEZ ENSINARAM-ME UM PROVÉRBIO QUE SE REPETE NA REGIÃO DE QUIOTO, NO JAPÃO. DIZ O SEGUINTE: “NÃO TE LIMITES A FAZER COISAS. SENTA-TE”

AS VERDADEIRAS VIAGENS SÃO AQUELAS QUE NOS ENTUSIASMAM E INICIAM NO REGRESSO A NÓS PRÓPRIOS

Creio que levamos uma grande parte da vida a funcionar como nessa parábola que é “O Feiticeiro de Oz”. Vivemos aspirados por ciclones ou a desejar sê-lo; queremos voar para longe do sítio onde estamos; qualquer mapa que folheemos aparece-nos cheio de promessas encantadas; a felicidade define-se como um lugar que alcançaremos além do arco-íris. A vida comum assemelha-se a um inglório arrastar-se com sapatos de ferro, enquanto rebrilha nos nossos sonhos um extraordinário e levíssimo calçado de rubi.
Sentimo-nos emparedados por um quotidiano que asfixia, quando poderíamos estar a trilhar um caminho de tijolos tão amarelos como o sol, na direção da cidade que refulge, e não do regresso previsível ao lugar cinzento que nos abriga. Desta maneira, o primeiro sinónimo que encontramos para a palavra aventura é evasão. E colocamos em cima dessa carta o nosso ouro.
Depois, demoradamente, à custa dos desencontros, passos em falso ou de tempo gasto com outras escutas, aprendemos o que a pequena Dorothy de “O Feiticeiro de Oz” conclui: Se voltar a procurar os anseios do meu coração, não irei procurá-los além do meu quintal. Se não estiverem lá é porque realmente nunca foram meus.” A moral da história não é propriamente a dissuasão da viagem. É importante que os nossos olhos tenham contemplado tudo aquilo que lhes coube contemplar. E, como recomenda o poema “Ítaca”, de Constantino Kavafis, temos, de facto, de peregrinar a muitas cidades numa rota desejavelmente longa, vivida com euforia, contactando com empórios e sábios, arrematando mercadorias belas, madrepérolas e corais, âmbares e essências que fiquem, para sempre, a perfumar a vida. Mas as verdadeiras viagens são aquelas que nos entusiasmam e iniciam no regresso a nós próprios, sem o qual a viagem é só dispersão e em vez de conhecimento, um amontoar ruidoso e desconexo de experiências em vez de sabedoria. Não nos aconteça aquilo que vem ilustrado num velho relato islâmico: era uma vez um homem que tendo perdido a chave de casa, algures dentro do quarto, foi no entanto para a rua procurar a chave perdida, porque lá havia mais luz. Um dos maiores viajantes da literatura ocidental é Henry David Thoreau e os seus mais de vinte livros, muitos escritos numa solitária cabana nas margens do lago Walden, repetem o mesmo: a vida só tem sentido se for vivida de uma forma deliberada; e não importa por onde viajes ou quanta distância os teus passos alcançaram: a única coisa verdadeiramente importante é saberes quão vivo estás.
Uma vez ensinaram-me um provérbio que se repete na região de Quioto, no Japão. Diz o seguinte: “Não te limites a fazer coisas. Senta-te.” Na sua concisão esconde um programa exigente e cheio de possibilidades. Creio que nessa linha vai também o aforisma filosófico de Pascal: Toda a infelicidade do ser humano nasce de um simples facto: não conseguir ficar quieto no seu quarto.” É claro que o quarto não é apenas o quarto, mesmo se muitas vezes não é mau começar por aí.
O verão sobrecarrega de atividade as agências de viagens, as redes sociais bombardeiam-nos com sugestões mirabolantes, as autoestradas e aeroportos bloqueiam-se com a nossa sofreguidão, os “ciclones” que fantasiamos durante o ano atiram-nos para paragens que supostamente cumpririam uma função compensatória ou supletiva em relação à vida ordinária. Há, porém, cada vez menos quem nos ajude a abraçar uma aventura só nossa, uma maravilhosa aventura necessária: a aventura de não ir  a parte nenhuma.

Angústia, nervos, aborrecimento


Na sala que me calhou vigiar, dos 16 alunos do Secundário que fizeram o exame,15 esgotaram o tempo de tolerância. Olhando os rostos em volta, percebe-se o sofrimento: 3 adolescentes vão roendo as unhas, ao longo da prova. Uma, fala, abundantemente, ainda que não em voz alta, claro, consigo (mesma) e gesticula incessantemente. Repito uma observação dos últimos anos: todos (os examinados) trazem ténis calçados, a informalidade é predominante no traje. Longe do fato e gravata de há 60 anos,menos formalidade, ainda, do que os sapatos de há 16: ali se espelha uma sociedade mais horizontal. Só uma aluna sai mais cedo, escreveu apenas em duas páginas, passou o tempo a olhar para o tecto e a fazer desenhos (na folha de rascunho), seguramente não estava preparada (para a prova). Os nervos apertam: 4 alunos têm que rasurar o número de páginas, que registaram mal. É preciso que eles, "vigiados", e nós, "vigilantes", assinemos no verso da folha (a correcção, entretanto, produzida). A cada dúvida, chama-se o Secretariado: "estou ainda mais nervosa do que eles", sussurra-me, com um sorriso, a parceira de vigilância. Às 8h30 da manhã estão 29 graus na cidade. A sala está muito abafada. Faltam dois dos inscritos. Entregamos as folhas de prova e uma aluno agita, de imediato, ansiosamente, a perna, sem parar. Lembro-me dos que ali não estando, permanecem-me colados à pele (dos afectos): estarão a resistir a esses minutos de ansiedade, antes, mesmo, da prova se iniciar? Número de páginas utilizadas, nesta sala, variam entre 6 e 11,verifico no fim. Angústia e nervos para alunos; 2h30 sem um livro ou jornal para ler para vigilantes (imagino que há uns 16 anos não era exatamente assim; diz-me uma colega: "antigamente, saíamos para tomar o pequeno almoço, demorávamos, estávamos com a calma toda..."). A professora que me acompanha vai até ao fim da sala,aproveitando um mapa mundi, literalmente do tempo da guerra, que por ali está,aliviando, por instantes,a aridez do momento. Penso no que vivi na mesma altura que aqueles que agora passam pelo exame, e procuro evitar andar, constantemente, de um lado para o outro da sala, fazendo barulho e desconcentrando, ou, então, precipitar-me sobre cada cadeira em termos inquisitivos e intimidatório: não acho que alguém vá copiar. Recordo a pena, no Secundário, ordem alfabética dixit, de não estar a turma toda (reunida); seria um combate com os amigos de sempre; mas, ao fim de alguns instantes, verdade se diga, o foco é tal, acho, que somos todos aquela menina muito compenetrada que fala sozinha e gesticula. Durante 150 minutos,o mundo cabe numa sala de aula. 
Agora é tempo de uma boa descarga de tensão, um suspirar e esvaziar, antes de um novo encher de motivação e transpiração para o exame de Biologia. 

domingo, 18 de junho de 2017

Saltos quânticos


Duas conclusões que tirei da entrevista do presidente do IAVE, este Sábado, ao Expresso: a actual geração (ou, se se preferir, e mais rigorosamente, o conjunto de alunos) que está agora a realizar exames nacionais no Ensino Secundário será a última a i) realizar os exames em papel (já está pronta, e será operacionalizada, ainda que a título experimental, a partir do próximo ano letivo, a plataforma que permitirá que os exames sejam respondidos em suporte digital); e, muito provavelmente, a ii) fazer exames em que cada um deles corresponde a matéria de (apenas) uma disciplina (sendo que os exames híbridos, que contemplem, simultaneamente, matérias de Matemática e Ciências Naturais, ou História e Geografia, por exemplo, estarão a caminho. O que se compreende numa escola em que o ensino por projectos venha a adquirir um peso significativo e, sobretudo, que subjacente a essa perspectiva esteja a tentativa de superação do puro fragmento e de um enquadramento mais amplo de cada conteúdo lecionado).

Igualdade nas Orquestras

Resultado de imagem para mulher a tocar bateria

No mais recente número da XXI. Ter opinião, dedicado à Igualdade e tendo por directora Bárbara Reis, Pedro Boleó conta que as primeiras "audições às cegas" (blind auditions) nas orquestras - aquelas audições que se realizam atrás de um pano ou de uma tela, porque o que interessa é ouvir a música, mais do que saber o sexo, a cor da pele, o aspecto da pessoa, a origem escolar dos candidatos - aconteceram, pela primeira vez, em 1952, pela Boston Symphony Orchestra, ainda que apenas em 1970 se tenha estendido a outras orquestras. "Na primeira metade do século XX, as grandes orquestras de todo o mundo eram, com poucas excepções, compostas quase exclusivamente por homens. Em raros casos, o número de mulheres chegava aos 5% no total de intérpretes de uma orquestra sinfónica com cerca de 100 elementos". Depois, as coisas mudaram, com a feminização do trabalho, a entrada das mulheres em campos de atividade que lhe eram habitualmente vedados, direito à educação, ao voto, etc. Ainda assim, a importância das audições às cegas para que mais mulheres passassem a integrar orquestras não deve ser negligenciada: "um estudo extremamente interessante de Claudia Goldin e Cecilia Rouse, publicado em 1997 pelo National Bureau of Economic Research, mostrou "a partir de dados sobre os músicos das orquestras, que a mudança para audições cegas pode explicar entre 25% a 46% do aumento na percentagem de elementos femininos nas orquestras desde 1970". O certo, em todo o caso, é que a diferença ainda se encontra latente numa espécie de código para certos instrumentos musicais: "encontramos, apesar de tudo, em muitas grandes orquestras mundiais, mulheres que tocam contrabaixo, trombone, trompa ou tuba, instrumentos em que é muito mais raro encontrar instrumentistas do sexo feminino. Se nas cordas (com excepção do contrabaixo) a igualdade parece já não encontrar freios nem grandes preconceitos, e nas madeiras há até posições ocupadas maioritariamente por mulheres (as flautas seriam um bom exemplo), os metais e as percussões continuam a ser instrumentos com poucas mulheres". 
Há, com efeito, casos de maior resistência às audições às cegas e de integração de mulheres no interior das orquestras. A Filarmónica de Viena será o caso mais conhecido: só integrou mulheres em 1997 e em 2013 tinha apenas seis. Em Portugal, há orquestras que realizam audições às cegas, como é o caso da Orquestra Gulbenkian, que as pratica nas duas primeiras fases do concurso (das três que realiza) para integrar um naipe orquestral.