quarta-feira, 31 de maio de 2017

O que dizemos, quando dizemos "coragem política"?


Em face da falta de corroboração das teorias de austeridade, não parece avisado, para não dizer justo, impor um sofrimento às pessoas no curto prazo em prol de benefícios futuros não verificados pela ciência económica. Como muito bem disse Tony Judt (conhecido historiador social-democrata inglês falecido em 2010): "Uma coisa é dizer eu estou disposto a sofrer agora por um futuro não observado possivelmente melhor. É uma coisa bem diferente autorizar o sofrimento de outros em nome dessa hipótese não verificável. Isto, na minha opinião, é o pecado intelectual do país. Aprovar julgamento sobre o destino dos outros em nome do seu futuro tal como você o vê, um futuro em que você não investirá, mas em relação ao qual reclama informação perfeita e exclusiva". Vale a pena lembrar que os políticos que o fazem não podem ser apelidados de corajosos. Citando ainda Tony Judt: "Os Pobres votam em número muito menor do que todos os outros. Não há por isso grande risco em penalizá-los: qual é a 'dificuldade' dessas escolhas? Hoje em dia ficamos orgulhosos ao ser suficientemente duros para infligir dor nos outros. Se ainda vigorasse um costume antigo, pelo qual ser duro consistia em suportar a dor, e não em impô-la, talvez devêssemos pensar duas vezes antes de preferir com tanta insensibilidade a [suposta] eficiência à compaixão". (...)
E independentemente das condições políticas e da imposição da Troika, há que reconhecer que o que devia ter sido aplicado nos países em crise deveria ter sido uma política orçamental expansionista que suportasse a política monetária também expansionista que, apesar das hesitações e por vezes inflexões, acabou por ser seguida pelo BCE. Portanto, pelo menos no que diz respeito à política fiscal deveria ter-se feito exactamente o contrário do que foi implementado. (...) Ajustamento orçamental em situação de crise grave (e em especial numa situação de armadilha de liquidez), e crescimento não são compatíveis. No que respeita ao curto prazo até os teóricos da austeridade expansionista como Roberto Perotti o acabaram por reconhecer. A única forma de sair da crise é adiar as medidas de ajustamento orçamental para o futuro (conceito de backload austerity), o que parece estar a ganhar adeptos, inclusive no seio do FMI, e dar prioridade ao estabelecimento da procura agregada. (...)
Muitas vezes ouvimos dizer que isso da política expansionista é muito bonito, mas de onde vem o dinheiro para gastar? Ora em primeiro lugar, devemos reconhecer que as políticas de austeridade aplicadas em recessão são muito lesivas da economia tanto no curto como no longo prazo, independentemente das imposições externas. Uma má política é uma má política quer possamos ou não escapar dela. Em segundo lugar, é nosso dever apresentar alternativas de política económica, exequíveis e alicerçadas na teoria económica. Este é o ponto de partida para influenciar positivamente o pensamento económico sobre o assunto e alterar o curso das políticas. (...) É importante que se saiba que dispomos de recursos, de instrumentos e de conhecimento que nos teria permitido ultrapassar a crise muito mais rapidamente, sem causar tanto sofrimento às pessoas, e sem colocar em causa o potencial de crescimento da nossa economia. Longe de serem uma excepção, as crises acabam por ser a norma, não só nos países em vias de desenvolvimento como também nos países mais desenvolvidos. (...) Por isso, a surpresa sobre esta crise financeira é precisamente o facto de ela não ter sido antecipada na sua intensidade e extensão pela generalidade dos economistas, observadores, políticos e investidores. Realmente, o primeiro grande erro dos governos e dos Bancos Centrais foi terem subestimado a dimensão e interconectividade da crise, e terem começado a agir tarde de mais. 
Para sermos justos, alguns economistas ficaram conhecidos por terem emitido sinais de alarme antes do despoletar da crise em Agosto de 2007. De entre eles destacam-se Nouriel Roubini, Raghuran Rajan e Robert Schiller (este último galardoado com o Prémio Nobel da Economia em 2013). Não obstante, o foco da chamada de atenção centrou-se nos desequilíbrios macroeconómicos, nos inadequados sistemas de compensação dos executivos que levaram os gestores a assumirem demasiado risco, e na existência de uma bolha no mercado imobiliário dos EUA, respectivamente, estando todos eles longe de prever uma falha sistémica do sistema financeiro global. 

Paulo Mota, Austeridade expansionista. Como matar uma ideia zombie?, Almedina, Coimbra, 2017, pp.22-25

terça-feira, 30 de maio de 2017

Migrações e sustentabilidade demográfica (projecções para o caso português)



Demografia

Sem migrações, sem entrada e saída de pessoas, os cálculos da equipa que trabalhou no estudo agora apresentado pela FFMS apontam para que Portugal passe de 10 milhões e 400 mil pessoas em 2015 para 7 milhões e 800 mil pessoas em 2060.

Com mais de 65 anos, nesta mesma projecção, a percentagem da população portuguesa passaria de 20%, em 2015, para 40%, em 2060.

Para que a população portuguesa não diminuísse, necessário seria que o saldo migratório anual fosse positivo em 47 mil migrantes (partindo do pressuposto de que os índices de fecundidade serão idênticos entre os migrantes que saem e aqueles que entram no país, e que a composição etária destes migrantes é idêntica à de anos anteriores, para os quais possuímos os dados dos Censos).

Para manter a mesma população em idade ativa (face à que hoje existe, no nosso país) o saldo migratório teria de ser positivo em 75 mil pessoas.

Quanto às migrações necessárias para parar a progressão do envelhecimento populacional, elas implicariam a chegada de um contingente populacional a Portugal muito mais significativo: 590 mil pessoas por ano.

Emprego

Em diferentes cenários prospectivos para o emprego, e mau grado a automação, a previsão deste estudo é que nas médias e altas qualificações o emprego aumente; diminua, “apenas”, entre as “baixas qualificações”.

Mesmo no cenário de mais baixo crescimento económico sempre seria necessário um saldo migratório positivo para atender à mão-de-obra necessária para a economia portuguesa.

Nas qualificações baixas, os trabalhadores, sem migrantes, serão escassos para as necessidades (em qualquer cenário, optimista ou pessimista) projetado. Já nas qualificações médias, num cenário de fraco crescimento económico, poderiam não ser necessários trabalhadores advindos de migrações. Mas só neste pior cenário. Nas altas qualificações, em qualquer cenário, as migrações são essenciais. 

De um ponto de vista global, para assegurar as necessidades de população activa, Portugal precisaria de um saldo positivo anual na ordem das 90/100 mil pessoas – nos melhores cenários da economia -, enquanto nos cenários menos exigentes, 40 mil/ano.

Segurança Social

Num cenário de baixo crescimento económico, mas com migrações de substituição, o desequilíbrio financeiro vai sendo corrigida ao longo dos anos.

As migrações de substituição, em qualquer cenário, têm um impacto positivo, sendo que vai sendo maior ao longo do tempo.

A existência de saldos migratórios positivos é condição necessária, ainda que não suficiente, para a sustentabilidade (demográfica e económica) do país.

AUSTERIDADE EXPANSIONISTA - UMA REVISÃO


A austeridade não tem, também, uma justificação política e moral evidente, sendo criadora de desigualdades económicas e causadora de sofrimento desnecessário e injusto nas populações. Por estas razões, a noção de austeridade expansionista (entendida como a possibilidade dos cortes da despesa pública poderem ter efeitos expansionistas sobre a actividade económica) é errada e pode ser considerada "uma ideia perigosa". Uma ideia que conduz a uma estratégia de retrocesso económico e civilizacional, e que pode, inclusive, pôr em causa a própria democracia. (...)
Não obstante a falta de consistência teórica e ausência de validade prática das políticas de austeridade como forma de resolução de crises como a que atravessamos, a austeridade tornou-se a abordagem dominante defendida pelos políticos, pelos opinion-makers e, curiosamente também, por uma parte da população que com ela sai amplamente prejudicada.
Uma explicação relaciona-se com o facto de as pessoas verem a economia em termos morais - há uma tendência (muito alimentada pela comunicação social) para considerar as recessões como o resultado de excessos no passado (sobretudo no sector público) o que limita a aceitação de estímulos fiscais. Na verdade a solução para a crise é de certa forma contraintuitiva, não sendo facilmente compreendida por não economistas. Como refere Lawrence Summers, entrevista à Reuters em 18 de Outubro de 2011: "A grande ironia da crise financeira é a de que enquanto ela é causada por demasiada confiança, demasiados empréstimos e crédito e demasiada despesa, ela só pode ser resolvida ainda com mais confiança, mais empréstimos e crédito, e mais despesa". (...)
Assim, apesar da evidência de que não resulta, e do reconhecimento por parte do próprio FMI de que tais políticas poderão ter tido um efeito recessivo maior do que o esperado, impedindo a recuperação da economia, não há sinais de inversão. A sobrevivência desta resposta de política económica, em face da esmagadora evidência ao longo dos tempos dos seus efeitos negativos, leva John Quiggin a classificar a austeridade como uma ideia que não se consegue matar, sendo por isso uma "ideia zombie!". As políticas de austeridade são uma terapêutica sem bases científicas, baseada num diagnóstico errado relativo às causas da nossa crise económica e financeira, equiparada por Paul Krugman aos tratamentos de sangrias através da utilização de sanguessugas aplicados às mais variadas doenças na Idade Média!
Uma outra justificação para o facto da ideia de austeridade expansionista não morrer definitivamente, e se ter transformado numa ideia zombie, está relacionada com a dificuldade de aplicação do método científico em economia, e em particular à dificuldade em conduzir à dificuldade em conduzir experiências controladas destinadas a verificar se um enunciado é verdadeiro. De facto, em economia a teoria diz que uma política x tem um resultado y ceteres paribus (isto é, tudo o resto constante). Ora na prática, considerando a complexidade dos sistemas económicos e dada a interação entre os diferentes agentes, é impossível controlar todos os factores que podem determinar o resultado y e que não derivam da política x. Por essa razão, mesmo quando observamos o fracasso absoluto das políticas de austeridade nos diferentes países onde ela tem vindo a ser aplicada, pode-se sempre argumentar que para se produzirem efeitos benéficos é precisa ainda mais austeridade, ou prolongar a austeridade durante mais tempo, ou ainda dizer que a economia tem que se retrair no imediato, e que as pessoas têm que sofrer em prol de uma recuperação sustentada no futuro. (...) Como dizia J.M. Keynes, "em economia não se pode condenar o nosso oponente por errar, apenas se pode convencê-lo de que está errado. E mesmo que você esteja certo, não o pode convencer...se a cabeça dele estiver já cheia de ideias pré-concebidas".
De facto, a "ciência" económica tem um sério problema: a dificuldade de eliminação de ideias manifestamente erradas, devido à dificuldade de condução de experiências controladas, o que abre a porta a enunciados não passíveis de serem testados através da experiência. Isto leva os economistas, e por inerência os políticos a cometerem sistematicamente os mesmos erros. Por isso, o conhecimento em economia não avança como nas ciências chamadas exactas. Paul Krugman refere, a propósito, que vivemos actualmente na idade das trevas do pensamento económico - o conhecimento (sobre como lidar com crises) foi descoberto com a revolução Keynesiana, e tal como aconteceu na Idade Média com as artes da civilização clássica, de certa forma perdido.
Convém, no entanto, notar que a aproximação da economia às ciências naturais constitui parte do problema, não sendo só por si uma solução. De facto, a teoria neoclássica, que constitui o paradigma dominante em economia, nasceu de uma tentativa de imitação da física do séc.XIX, e o pensamento económico ortodoxo continuou a ser influenciado pela física durante todo o século XX. (...) Esta influência está patente no modelo macroeconómico actualmente dominante designado de modelo estocástico dinâmico de equilíbrio geral. Este modelo assume pressupostos de tal forma simplistas que o tornam praticamente irrelevante em situações de crise, nomeadamente: i) os sectores económicos são representados por um único agente - o agente representativo, o que implica que não se têm em conta as interacções entre os diversos agentes económicos; ii) os agentes têm expectativas racionais no sentido em que não só aprendem com os erros na formação das expectativas, como também acabam por compreender o verdadeiro modelo que determina o comportamento da economia e usam-no na formação das expectativas; iii) a economia tende, no longo prazo, para uma situação de equilíbrio que é independente da política macroeconómica; iv) os mercados financeiros são eficientes. A assunção destes pressupostos com pouca aderência à realidade leva a que estes modelos, amplamente usados pelos Bancos Centrais antes da crise, não prevejam a existência de desemprego involuntário, crises financeiras, ou até a possibilidade de uma crise sistémica global como esteve prestes a acontecer em Setembro de 2008. São, por isso, modelos usados em experiências de teoria pura, mas revelam-se um instrumento insatisfatório para a compreensão de como a economia realmente funciona. Como pergunta de forma retórica James Galbraith, 'qual é o valor de uma descrição coerente de um mundo de fantasia?' "

Paulo Mota, Austeridade expansionista. Como matar uma ideia zombie?, Almedina, Coimbra, 2017, pp.16-20

segunda-feira, 29 de maio de 2017

UM FALHANÇO COLOSSAL E INESQUECÍVEL


Completar-se-ão 10 anos, em Agosto próximo, do início da crise financeira que levou a impactos brutais do ponto de vista social, em inúmeras sociedades, incluindo, com não pouco drama para imensas vidas individualmente consideradas, a portuguesa. Em 2008, essa mesma crise atingiria o apogeu com a falência do Banco de Investimento Lehman Brothers e, mesmo sem atingir as consequências económicas da Grande Depressão da década de 1930, terá sido ainda mais grave do que aquela no que diz respeito ao funcionamento dos mercados financeiros. Numa primeira fase, atingiu, sobretudo, os países mais desenvolvidos. 
Paulo Mota, Professor da Faculdade de Economia do Porto onde ensina as disciplinas de Política Monetária e Mercados e Investimentos Financeiros da Licenciatura em Economia, e Políticas Económicas no Mestrado em Economia e Administração de Empresas, sendo, ainda, membro do Centro de Investigação em Economia e Finanças da Universidade do Porto, recenseia estes últimos 10 anos de opções políticas e económicas tomadas, de causas da crise, do fundamento teórico e da adesão empírica que cada opção continha na obra Austeridade Expansionista. Como matar uma ideia zombie?, acabada de publicar pela Almedina.

CAUSAS DA CRISE: "É hoje claro que a crise foi causada por um problema sistémico dos mercados financeiros, ligado a uma bolha imobiliária nos Estados Unidos amplificada e propagada à escala mundial pela criação pelos bancos de complexos produtos financeiros resultantes da securitização, num ambiente de fraca regulação e de excessiva alavancagem, e onde a fraude foi prevalecente. Uma crise que começou no sector privado e que não foi causada por problemas relacionados com os défices públicos" (p.8)


RESPOSTA INICIAL À CRISE: "A resposta mais ou menos coordenada dos Governos e dos Bancos Centrais dos países desenvolvidos assumiu a forma de uma gigantesca operação de resgate sem precedentes, envolvendo: i) política monetária fortemente expansionista; ii) estabilizadores automáticos; iii) a prestação de garantias pelos governos a empréstimos interbancários; iv) recapitalização de instituições financeiras (os designados bail-outs); e v) estímulos fiscais moderadamente expansionistas. Estas medidas impediram o colapso dos mercados financeiros, evitaram o pânico, e sustiveram um impacto ainda mais recessivo da crise nas economias. Note-se, a este propósito a declaração da Cimeira de Pittsburgh do G-20 de 27 de Junho de 2009, em que os líderes destes 20 países se comprometem com uma forte resposta de política económica, incluindo política fiscal expansionista: "[...] Evitaremos qualquer eliminação precoce do estímulo [nossa ênfase]" (p.8)

["James Galbraith (2014) defende que foram os estabilizadores automáticos, mais do que os estímulos fiscais discricionários, como a segurança social, os subsídios de desemprego, e os impostos progressivos que evitaram que a crise financeira tivesse originado uma depressão económica como aquela que ocorreu após o crash de Wall Street em Outubro de 1929" [nota de rodapé nº5, p.8]

ENTRETANTO, NA ZONA EURO: "Para piorar ainda mais a situação, a crise dos mercados financeiros, que começou por se traduzir num excesso de endividamento dos agentes privados (bancos, empresas e famílias) metamorfoseia-se numa crise das dívidas soberanas nos países periféricos da Zona Euro, catalisada pelo anúncio em Outubro de 2009 pelo então recentemente eleito primeiro-ministro grego George Papandreou de que o governo anterior havia manipulado as contas públicas, e que o défice e a dívida pública em percentagem do PIB eram muito maiores do que os valores oficiais divulgados [o valor correto do défice orçamental em percentagem do PIB estaria perto dos 13%, nota de rodapé nº8]. O medo dos investidores relativo à existência de algum evento de crédito relacionado com as obrigações do tesouro gregas, na presença de deficiências na arquitectura da Zona Euro que não permitiram uma resposta apropriada à crise, afetou a capacidade dos países periféricos, como a Irlanda, Portugal, e mais tarde a Espanha e a Itália, para gerirem os seus défices, levando a uma subida substancial e abrupta das taxas de juro implícitas das obrigações do tesouro (as chamadas yelds to maturity)" (p.9)

UMA SEGUNDA RESPOSTA À CRISE. A MUDANÇA DAS POLÍTICAS: "Nesta altura os governos começam a deixar de aplicar medidas de estímulo fiscal, mudando subitamente para medidas de austeridade [austeridade refere-se normalmente a políticas governamentais destinadas a reduzir o défice orçamental durante uma recessão. Estas políticas podem incluir cortes na despesa pública, aumento de impostos, ou uma combinação destas medidas], numa altura em que as economias estavam ainda muito longe de apresentarem sinais de uma recuperação sustentada. A mudança para a aplicação sincronizada de medidas de austeridade é bem patente no seguinte excerto da declaração da Cimeira de Toronto do G-20 de 27 de Junho de 2010, onde foi acordado reduzir os défices orçamentais para metade num espaço de três anos" (pp.9-10) 

PORQUE HOUVE UMA MUDANÇA RADICAL DE POLÍTICAS? "De entre as razões que poderão estar na base desta trágica mudança de rumo, para um paradigma de uma espécie de austeridade perpétua, contam-se: i) pressões dos mercados financeiros, nomeadamente dos bancos largamente expostos à dívida pública dos países periféricos da Zona Euro; ii) existência de uma linha de investigação relativamente marginal em termos académicos, mas com elevada influência política que aponta para a existência de efeitos expansionistas decorrentes das consolidações orçamentais quando a dívida pública em percentagem do PIB é elevada; iii) a ideia de que a recuperação estava já bem alicerçada; iv) a ideia apelativa, embora errada, de que não podemos diminuir a dívida em percentagem do PIB através de mais endividamento." (pp.10-11)

PORTUGAL, NESTE CONTEXTO: "No que respeita a Portugal, não obstante terem sido aplicadas de forma voluntária medidas de austeridade a partir de 2010 com os sucessivos Programas de Estabilidade e Crescimento (os chamados PECs), os efeitos da crise agudizaram-se no primeiro trimestre de 2011 (...) Em Março de 2011, os partidos da oposição chumbaram o PEC IV e o primeiro-ministro pede a demissão, as agências de rating cortam a notação da dívida pública portuguesa para próximo de nível especulativo ("lixo" na gíria dos mercados financeiros), as taxas de juro do mercado secundário implícitas nas obrigações do Tesouro a 10 anos sobem até 9,6%, e o Governo encontra dificuldades crescentes para fazer o roll over da dívida pública. Esta situação de emergência levou Portugal a assinar em Maio de 2011 um programa de Assistência Económica e Financeira com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Comissão Europeia e com o Banco Central Europeu (BCE), entidades que ficaram conhecidas como a Troika. O país requereu, para o período de 2011 a 2014, um total de 78 mil milhões de euros de financiamento (cerca de 50% do PIB português em 2011), dos quais 52 mil milhões de euros através do Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira e do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, e 26 mil milhões de euros de assistência do FMI (...). A assistência financeira concretizou-se através de uma carta de intenções subscrita pelo Governador do Banco de Portugal e pelo Ministro de Estado e das Finanças, e de memorandos de entendimento assinados com a Comissão Europeia (...) e com o FMI." (pp.11-12) 

AVALIAÇÃO DO PROGRAMA DE ASSISTÊNCIA DESENHADO PARA APLICAÇÃO EM PORTUGAL: "Com base num diagnóstico errado sobre as causas da crise, e suportado por concepções ideológicas discutíveis e pouco alicerçadas na teoria económica, como contrapartida deste financiamento foi imposto a Portugal um programa de ajustamento económico assente em três pilares fundamentais: i) 'Profundas reformas estruturais para impulsionar o crescimento do produto potencial, criar emprego e aumentar a competitividade (incluindo através de uma desvalorização fiscal)'; ii) 'uma estratégia de consolidação fiscal credível e equilibrada, suportada por medidas fiscais estruturais e melhor controlo sobre as parcerias público-privadas (PPP) e as empresas públicas'; iii) 'esforços no sentido de salvaguardar a desalavancagem desordenada do sector financeiro através de mecanismos de mercado de apoio público'.
Na tentativa de redução do défice orçamental foram aplicadas medidas de política orçamental fortemente restritivas, inicialmente do lado da despesa pública, ao nível dos salários da função pública, das prestações sociais, e do investimento público, assim como reduções significativas das pensões. Numa segunda fase, e em face da dificuldade de redução do défice por esta via, foram também tomadas medidas restritivas do lado da receita através de um enorme aumento de impostos diretos e indiretos. (...) Paralelamente, as reformas estruturais deveriam passar pelo aumento da flexibilidade do mercado de trabalho (chavão normalmente usado para mascarar o objectivo de descida dos custos do factor trabalho para as empresas, conseguido principalmente pela via da redução dos salários), pela reforma do sistema de pensões, pela privatização de empresas públicas, e pela venda de participações públicas em empresas estratégicas, e pela tão falada reforma do Estado, cujo objectivo não é tanto torná-lo mais eficiente no cumprimento das suas funções fundamentais, mas normalmente um eufemismo utilizado para a redução do Estado Social nas suas diferentes vertentes. O objectivo de tais políticas era restabelecer a confiança do sistema financeiro internacional no sentido de reduzir os custos de financiamento do governo e consequentemente das empresas, permitir o regresso aos mercados no que diz respeito à obtenção de financiamento público e privado, e causar uma redução da procura interna (pela via do consumo interno e do investimento) provocando uma espécie de deflação voluntária - aquilo que ficou conhecido como desvalorização interna. Esta política permitiria supostamente aumentar a competitividade externa da nossa economia através da redução dos salários e da consequente redução dos preços (incluindo dos bens transaccionáveis), replicando de certa forma uma desvalorização cambial. Note-se, contudo, que diferentemente da desvalorização cambial, a desvalorização interna afecta apenas uma das componentes do preço dos bens e serviços - os salários que representam apenas cerca de 30% dos custos dos bens e serviços exportados, e fez cair a procura interna gerando desemprego, tendo, por isso, implicações graves do ponto de vista social. A preferência pelo ajustamento do saldo orçamental pela via da despesa serve, também, o objectivo de redução da dimensão do Estado no sentido de deixar mais espaço para a iniciativa privada e dar supostamente mais confiança aos consumidores e investidores, em função da expectativa de que no futuro um Estado mais pequeno possibilitaria uma descida de impostos.
Esta receita de política económica revelou-se muito similar aos programas de ajustamento económico falhados impostos pelo FMI nos países em vias de desenvolvimento que enfrentaram crises bancárias e cambiais graves nos últimos 30 anos. As medidas standard impostas pelo FMI, e suportadas pelo Tesouro dos Estados Unidos da América e pelo Banco Mundial, que incluem estabilização macroeconómica, desregulação financeira, abertura económica e expansão da economia pela via das privatizações, ficaram conhecidas pelo chamado consenso de Washington - termo introduzido pelo economista John Williamson em 1989. Importa, no entanto, notar uma diferença fundamental; nunca vários países desenvolvidos, e sem a possibilidade de desvalorização da taxa de câmbio. O programa de ajustamento imposto pela Troika a Portugal foi, ainda, extraordinariamente similar aos programas impostos à Grécia e à Irlanda, não obstante as distintas idiossincrasias dos países e os diferentes mecanismos de propagação da crise económica e financeira iniciada nos Estados Unidos da América em Agosto de 2007. Assim, desde pelo menos 2011 que os portugueses vivem num contexto de austeridade estrutural que ameaça perpetuar-se.
Este livro pretende mostrar de um modo fundamentado que as designadas políticas de austeridade, aplicadas durante uma depressão ou numa fase inicial da recuperação da economia, e sobretudo num contexto em que muitos países desenvolvidos as estão a aplicar ao mesmo tempo, têm um muito fraco apoio na teoria económica, e nenhum suporte empírico, ao ponto de não ser possível encontrar nenhum país no mundo, em circunstâncias similares em que políticas deste tipo tenham tido sucesso . Ao contrário, a austeridade cria invariavelmente ciclos viciosos e expirais recessivas, que tornam as crises mais severas, mais prolongadas, deixando cicatrizes irremediáveis na economia [esta é a posição defendida por autores como Koo (2009), Quiggin (2010), Blyth (2013), Schui (2014), e pelos galardoados com o prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz (2010) e Paul Krugman (2012a)]" (pp.12-15)  . 

Migrações e sustentabilidade demográfica em Portugal

Vídeo infográfico: migrações em Portugal

domingo, 28 de maio de 2017

Passos Perdidos


A recepção inclui um beberete que mete croquetes e tudo. As recriminações pela não paragem numa estação de serviço encerram-se. Os trabalhos, nas salas de comissões, estão prestes a iniciar-se. O antigo convento dominicano, que na passagem da infância para a adolescência me parecera enorme, oferece-se agora como uma casa imediatamente familiar. A generalidade dos deputados, é segunda-feira, encontra-se em contacto com o eleitorado.  Os adolescentes, face a tal informação, ainda não colocam um sorriso irónico-trocista dos adultos, esses cínicos (ou, pior, populistas, na nomenclatura do tempo). Parece que às sextas o contacto - com o eleitorado, ou "as populações", recorde-se - recomeça. O passeio pelos corredores dá-se com a sensação de visita à cidade em manhã de Domingo: sem tráfego, com tudo em sossego, dando para observar à larga cada coisa. Claro: há uns bons de uns parlamentares que são convocados a trabalhos-extra, moderando os infantes. Estamos entusiasmados e expectantes por escutar os nossos, várias vezes nossos: de distrito, de cidade, de escola, de afecto. Eles estarão atentos às intervenções dos colegas de outros "círculos" e manifestarão o desejo e a necessidade de uma acrescida eloquência, em próxima ocasião. Querem voltar. São do melhor, em termos intelectuais e não cognitivos, e interrogo-me se estas iniciativas não encontrariam modo de chegar a outros públicos (digamos assim). Vital Moreira falava sobre chegar a cidadãos que não se interessariam habitualmente por política, a propósito dos Conselhos Municipais da Juventude, ou dos Orçamentos Participativos (cito de cor, um artigo, já com vários anos, no Público). Mas Pérez-Reverte teria aqui uma boa surpresa, no interior da sua elaboração sobre a escola: eis a elite tratada como tal. Mas como a natureza humana não fica suspensa mesmo entre os melhores espíritos, a noite tende a ser uma preocupação adulta, e não me faltam relatos de quem fica nos corredores, toda a madrugada, para evitar aproximações mais conspícuas. Entendo, perdoem-me, que seria faltar ao respeito ao Fernando e à Almerinda e, mesmo não dormindo nada, não saio do quarto depois da meia-noite. Está um vento agreste para ficar na marina. E bons guias, só no Parlamento: certamente, uma especialista em História, muito preparada, grande capacidade de expressão, leva-nos aos assentos dos deputados (a falta que fazem no Rosas...) e explica toda a simbólica (bem como a mecânica) da sala (e seus trabalhos). Passaremos, do hemiciclo, para uma sala contígua, onde se realizam diferentes encontros, conferências, recepções a dignitários de outros países, mas na qual perpassa, nas pinturas, uma certa ideia (colonialista) de Portugal (de outrora), nem sempre bem aceite pelos convidados (africanos, nomeadamente) ao longo dos anos. Entre o politicamente incorrecto com respeito da história, e o revisionismo que retirasse os tapetes da parede, optou-se pelo primeiro. Fez-se bem. Ainda antes de abalarmos a Lisboa, explicara a colega Ricardina como estudara, muitas horas, muitos dias, naquele espaço, quando ainda na faculdade, dado que a Torre do Tombo ainda funcionava, então, naquele edifício - pelo que a informação de que tal se verificara até 1990 apenas acrescentou ao que já sabia. À hora do lanche, dirigimo-nos à cafetaria dos funcionários, com a bica pelos 35 cêntimos. Mal empregues, resmunga uma colega. O café não vale nada. Já o mesmo não pode dizer-se do pastel de nata, em qualquer caso a preço convidativo. Os trabalhos das comissões prolongam-se até cerca das 19 horas. Na fase de identificar as perguntas a colocar aos "verdadeiros" deputados, eis o ar do tempo: a questão de Almaraz; a laicidade perdida na tolerância de ponto ao Papa; as questões "de género". Seguimos para a sala do Senado, onde um espectáculo lúdico nos espera. Quem consultasse o site do S.Carlos perceberia que não era dia de espectáculos. Ora, como se sabe, quem quer ópera, vai ao S. Carlos, Pelo que, aquilo a que tivemos direito, apesar de estarmos no Senado, foi a um divertimento ligeiro. As meninges estariam cansadas das comissões, ou não se confia suficientemente nelas (ou, então ainda, seria demasiado caro confiar). Está concluído o dia inicial das jornadas, com o buffet que adivinho melhor bebericado na sopa e nas sobremesas, do que no arroz de tomate já pouco malandrinho e nas batatas já frias a acompanhar a carne de porco à alentejana. As crianças dão-me razão. Talvez, concedo, os vegan tenham sorte com a sorte de saladas (que se apresenta vigorosa). Ainda não aderi, falha minha.
A viagem a caminho do campus (de hospedagem) delata o desígnio emancipador e convivial que move tantos: na adolescência a sociabilidade ainda não é coisa superada (mas Houellebecq fala para adultos). Sei que não dormiram, fazem gestos para esconder o que se passa do professor, mas acho que têm direito a um território sagrado. Só deles. Sem que me imiscua. Não aparentam ter bebido (em excesso). 
Antes das 10h, já o quiosque parlamentar tem The New York Times do próprio dia (o que me leva a indagar acerca do "onde" da sua impressão). Na capa, a coluna de Paul Krugman sobre a esquerda, para continuar no interior do jornal. Levo o periódico ao Fernando, afinal o jornal não existe em Vila Real, é um dos mais prestigiados do planeta e o menino, que se quer cidadão do mundo, merece-o. Verifico, igualmente, que pelos escaparates está a revista Le Point e fico a pensar nos motivos que a tornaram célebre, entre nós, na última década e pico. Na sala do Senado, Eduardo Ferro Rodrigues lembra as vítimas de Manchester, de que muitos petizes por certo mal se haviam apercebido. Alexandre Quintanilha - que dará uma conferência de imprensa aos "estudantes-jornalistas" - fará uma resenha breve da história do Parlamentarismo. Dos grupos parlamentares, suceder-se-ão os deputados, incluindo pelo nosso círculo, que assistem (e respondem) às questões dos mais jovens. Joana Mortágua é a que se veste e fala de um modo mais próximo dos estudantes, recebendo, aliás, a maior salva de palmas dos presentes quando diz que o tipo de educação que preconiza implica mais ensino como aquele que estão a ter "nestes dois dias", com muita cidadania e ensino por projectos. Heloísa Apolónia abrirá, da parte da tarde, o debate quinzenal com o PM com o problema da central nuclear de Almaraz - uma preocupação que, de resto, lhe havia sido colocada pelos meninos de Castelo Branco (que a sentem com particular acuidade). Assisti, pela primeira vez, a um destes debates quinzenais, depois de devidamente despojado de telemóvel, chaves, moedas. Fico-me pelo cartão de cidadão, após uma volta ao quarteirão, entrando pelo lado oposto do edifício, após a obrigatória passagem pelos souvenirs para as crianças, na livraria oficial da AR. Constato, agora in loco, o artificialismo da coisa, os deputados que chegam atrasados e saem ao fim da primeira intervenção de uma das bancadas, os que conversam sem ligarem pevide ao que está a ser dito, aos que não olham para outra coisa que não o computador que têm à frente, ou Duarte Marques que berra, constantemente, da última fila, ao pior estilo do café. Estão uns pequeninos colegiais que vieram com Assunção Cristas, mas que de imediato abandonarão as galerias (ainda sem idade para aqueles preparos). Na tv, ouve-se muito melhor (o som de cada intervenção, isolado o ruído incomodativo circundante).
A hora é de ponta, a saída de Lisboa é, portanto, demorada, e isso permite escutar histórias deliciosas de colegas que por ali andaram há duas ou três décadas. A malta é mesmo aplicada e, verdade, juro, trouxe os manuais de História, de Inglês e de Físico-Química. Haverá tempo para, entre eles, estudarem pelo caminho, repartindo as tarefas entre quem explica as fórmulas e quem expõe a matéria histórica - que, no caso, se encontra no pós-II Guerra Mundial, com algum enfoque pátrio. A coisa durará uma hora, posto o que o cenário de sociabilidade regressa em todo o seu esplendor (pelo que os pequenos ensaios guardados para leitura entre as viagens não conhecem grande sucesso). Na rádio, noto, pelo menos três vezes, que Amar pelos dois continua a surfar a onda. É preciso aguentar, pacientemente, a paragem de 60 minutos em Viseu, por causa das horas consecutivas de condução do motorista (o meu colega diz que deviam ter ido dois chauffeur, mas assim a empresa de camionagem ganha mais). Os nossos despedem-se fraternalmente de cada colega que é deixado na sua terra. Ensaiam os sotaques que adquiriram noite dentro, sem discriminações: do nordeste transmontano ao açoriano. Vestem-se pouco formalmente, ao contrário de outros colegas que no dia do Senado trajaram de fato e gravata. A maioria, porém, foi de ténis. Chegámos a caminho da meia-noite. Amanhã é outro dia, há teste depois das oito da matina, mas neste caso a preocupação não é a maior: "o Inglês é fácil, são muitas séries, muitos filmes...", dizem-me a despedir. As colegas de Moimenta da Beira aconselham visita aquela terra: "tem lá um shooopping..."...

sábado, 27 de maio de 2017

Sistemas eleitorais


Existem duas grandes famílias de sistemas eleitorais: os sistemas maioritários, os primeiros a existir; e os sistemas proporcionais, que surgiram posteriormente. Enquanto os sistemas maioritários são normalmente melhores para se escolherem governantes e piores para se seleccionarem representantes, o inverso também é válido para os sistemas proporcionais: bons para se escolherem deputados e representantes, mas maus para se designarem governantes. Enquanto os sistemas maioritários privilegiam a governabilidade, os proporcionais preferem a representatividade e a legitimidade. Se o sistema proporcional é porventura mais justo, o sistema maioritário é mais eficaz. 
A adopção de um ou outro, destes dois sistemas, varia de país para país, não apenas em função das finalidades pretendidas, mas também em função da dimensão territorial e geográfica e em função da extensão populacional. Grandes e extensos países, com vastas populações, com ingentes tarefas de governação centralizada, acolhem normalmente sistemas maioritários que lhe proporcionem situações de governo maioritário e estável, e permitam garantir a estabilidade da governação. Pelo contrário, países pequenos, de reduzida população, e ainda por cima muita dividida étnica, linguística e religiosamente, tendem a optar pelo sistema de representação proporcional. Não é por acaso que a Bélgica é a pátria da proporcionalidade.

Manuel Braga da Cruz, O sistema político português, FFMS, 2017, pp.18-19

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Os jovens e a política


Num estudo encomendado pelo Presidente da República Cavaco Silva sobre a participação política e cívica dos jovens, o número de jovens portugueses que considerava que a democracia funcionava bem desceu, de 2007 para 2015, de cerca de 33% para 17,3%. O número de jovens que participavam em partidos desceu, nesses mesmos anos, de 13,6% para 3,7%, e os que participavam em sindicatos decresceu de 12,1% para 3,6%. A participação em associações diminuiu igualmente de 19,8% para 6%. (...) Desde 1974, o país já conheceu 27 governos e 16 Primeiros-Ministros, com uma média de duração de menos de 2 anos por governo (...) Das 12 legislaturas até hoje existentes, só 5 se completaram. 

Manuel Braga da Cruz, O sistema político português, FFMS, 2017, pp.14-15.

Na "carne do mundo"


Na noite de terça-feira, em Braga, uma reputada teóloga contemporânea, Maria Clara Bingemer, falou da experiência de Deus no mundo de hoje. Eis alguns apontamentos dos incisos que nos deixou:

Se, vista de longe, a teologia da libertação (que emerge da vontade latino-americana de não ser uma teologia-reflexo [da teologia europeia], mas uma teologia-fonte) surge (a seguir ao Concílio Vaticano II, a partir da Conferência de Medellín) como um monolito, observada à luz dos ensinamentos de Maria Clara Bingemer - na noite de terça-feira, em Braga -, ela reveste-se, em realidade, de quatro correntes: a) uma, mais afinada com as categorias marxistas; b) outra, que recorre a elas mas não se afina com aqueles princípios; c) uma terceira, que se afirma a partir da cultura (a “teologia do povo”) que hoje estará em grande evidência, com o Papa Francisco (a “teologia da Argentina”); d) finalmente, uma teologia mais hierárquica, “própria” dos Bispos.

Uma das crises que hoje vivemos é uma crise ética. Fala-se, constantemente, de ética, mas não daquela que acompanha a humanidade desde a Antiguidade (que propõe um sistema de valores, que configura a vida, etc.). Nas épocas pré-modernas, a moral era teológica (ou seja, a moral era Deus), sendo a fé atribuidora da virtude. O homem estava ao serviço de Deus e não da humanidade – que ficava em um segundo plano. Com a modernidade, assiste-se a uma desvinculação da moral da religião. O indivíduo passou a ser soberano e o direito e não o dever passou a posição preponderante. Moral moderna realça a autonomia individual, e entende o dever para consigo mesmo (auto-aperfeiçoamento). O trabalho, por exemplo, deixa de ser visto como uma obrigação a exercer face a uma sociedade, mas um modo de autorrealização, de enriquecer, de fazer uma carreira interessante. Não existe uma mística do trabalho que enobreça e implique transformar o mundo.

A segunda crise é cultural. Uma crise de incerteza, insegurança. Insegurança a propósito de uma posição sólida na sociedade, ou, então, de uma identidade clara. Vivemos num tempo que já não tem mais certezas ou verdades absolutas. Um tempo em que nada é categoricamente afirmado e em que, por vezes, temos a noção de viver sob um chão movediço. Uma enorme pluralidade e diversidade ladeiam-nos (com a queda das grandes narrativas, da utopia), com uma fraca institucionalização das diferenças. Fugacidade. Maleabilidade. Tudo é passageiro (nunca apegados a nenhuma vinculação para que possamos imediatamente abandonar qualquer ligação que tenhamos estabelecido).

A terceira crise é religiosa. A pós-modernidade, é certo, tem, ainda, uma sede do espiritual. Recuperou o Absoluto que os “mestres da suspeita” (Freud, Marx, Nietzsche) haviam colocado em causa, na modernidade. Mas esse Absoluto que foi resgatado não tem rosto, não tem contorno, nem a espessura da instituição. E, muitas vezes, até sem as características do Deus pessoal que o cristianismo sempre apresentou. O ser humano “está nesse estado de questão”. As pessoas não estão sem fé, nem deixam de procurar. Nos censos de 2010, no Brasil, aumentam aqueles que se dizem “sem religião”, mas isso não significa que deixem de prosseguir aquela busca (mas ligando deus a “uma força”, “uma energia”, um “fluído”; não uma pessoa). Charles Taylor (na sua obra monumental “Era secular”) criou a categoria dos “buscadores” (não por acaso). Cada vez mais, estes parecem prosperar. Assim, neste panorama, Deus parece ser um conceito basilar (numa época em que a religião sofre reconfigurações). Ele continua a dar sentido à vida e a colocar em crise todos os demais “sentidos”. Deus atrai, intriga e instiga. Mas será que Ele é hoje sentido, pelos nossos contemporâneos (em particular, as gerações mais jovens) como uma necessidade, sem a qual não podem viver? Como o ar que se respira, ou a água que se bebe? Ou Deus é, antes, hoje por hoje, percebido/experimentado como gratuidade, como estando (para os seus buscadores) na ordem do desejo (e não tanto na ordem da necessidade)? Será que, hoje, esse mistério de Deus não mobiliza mais como desejo (do que a vontade), e não se revela do reverso da história, a partir do lugar da insignificância e da vulnerabilidade (e não da razão e do conceito)?

Karl Rahner, jesuíta, o grande teólogo do Vaticano II, cujo pensamento revolucionou a teologia no século XX e que continua uma referência quando se pretende discutir teologia em profundidade, pode/deve ser um dos nossos mestres no tatear por este tempo. “O Homem, quer o afirme expressamente, ou não o afirme, quer reprima esta verdade ou a deixe aflorar à superfície, acha-se sempre exposto, em sua existência espiritual, a um mistério santo que constitui o fundamento da sua existência. Este mistério é o mais primitivo, o mais evidente mas, por isso, também o mais oculto e ignorado, um mistério que fala enquanto guarda silêncio, que está aí enquanto que ausente nos reduz às nossas próprias fronteiras. E tudo isso porquê? Como horizonte inexprimível e inexpressado, abrange e sustenta sem cessar o pequeno círculo da nossa existência quotidiana, cognitiva e ativa, o conhecimento da realidade e o ato da liberdade, nós o chamamos Deus”, afirma o teólogo alemão. Uma síntese enxuta e excelente – diz Bingemer. 

Dizer as coisas antigas de uma maneira nova. A partir da experiência concreta das pessoas. A teologia de Rahner não era sempre, ou necessariamente por causa de (por Deus ser tão bondoso, a vida ser tão bela), mas apesar de (de Deus fazer silêncio, de experienciarmos também a negatividade). Deus, mistério inabarcável, mas que deixa encontrar-Se no coração da realidade, na carne do mundo. “O mistério eterno me envolve e penetra. O mistério infinito que é completamente diferente dos resquícios juntados do que por enquanto ainda não se sabe, ainda não se experimentou. O mistério que em sua infinita densidade está no mais exterior e no mais íntimo das mil realidades fragmentadas que chamamos de mundo da nossa experiência. Esse mistério está aí, manifesta-se ao silenciar, deixa serenamente falar aqueles que dizem que falar Dele só produz palavrório sem sentido. No momento em que não se ama, em atitude de adoração, esse mistério que tudo envolve silenciosamente, Ele torna-Se um escândalo”. Rahner (que morreu em 1984) dirá que no dia em que Deus deixar de existir como palavra nos dicionários e nas bibliotecas, não era Deus que tinha deixado de Existir: era o Homem que teria deixado de ser humano.

Um outro teólogo a ter em conta, este, agora, mexicano, jovem é Carlos Mendonza Alvarez, dominicano. Doutorado em Paris e Friburgo. Procura pensar Deus a partir dos escombros da situação fragmentária pós-moderna. Segundo o autor, atualmente dá-se o colapso de imagens e seguranças (no que ao religioso diz respeito). Mas persiste, em todo o caso, a deidade: o fundo sem fundo de todo o real. O ser superabundante da sabedoria divina que mantém todo o real com o seu sopro vital. Estamos perante um Deus abscôndito que deve ser procurado no reverso da história, isto é, nas vítimas. Deus é inefável porque as narrativas e discursos anteriores já não podem dar conta da sua presença. Há que buscar novas palavras no submundo dos pobres, das vítimas que perdoam e resgatam os seus verdugos e permitem uma esperança discreta para a criação e a história. Derrubaram-se muitos ídolos como a evidência científica, o mercado, a religião e há um colapso do sagrado violento. Há agora a oportunidade de compreender Paulo ao falar do “Deus desconhecido” e conhecê-lo a partir da cruz. Para isso, o teólogo tem que estar ancorado no clamor do inocente. Do lado das vítimas. Para falar de Deus como amor assimétrico, não recíproco, de dolorosa gratuitidade. Só assim se recupera um discurso kenótico (de esvaziamento). “Recuperando a harmonia da razão com os seus limites próprios, e a fé como conhecimento silencioso do real, sem competir pela predominância de uma sobre a outra é possível que sociedades secularizadas e laicas deem espaço a expressões espirituais não tão religiosas mas que humanizem as pessoas e respeitem o cosmos. Na América Latina, isso significa dialogar com as outras sabedorias e tradições. Na Europa e na América implica dialogar com a secularidade e o laicismo. Trata-se de um cenário plural, onde adquire importância renovada as sabedorias dos povos originários, mas também as novas identidades que vão conquistando o seu lugar no espaço público”.


Paulo VI escrevera na Evangelii Nuntiandi que a sociedade de hoje escuta mais as testemunhas do que os mestres. E se houve os mestres é porque são testemunhas. São elas que têm maior conhecimento de Deus na sua densidade. Elas estão dilaceradas, entre o seu ideal que quer testemunhar e o indivíduo que ela sabe que (que) ela é (miserável, pequeno, limitado). Dilacerada entre o mundo de que dá testemunho e o mundo que não quer saber dessa realidade testemunhada. O homem exaltado, glorioso, da modernidade, no entanto, foi esmagado pelas ideologias totalitárias [do séc.XX: nazismo, comunismo e seus subprodutos]. O homem surgiu humilhado daqui, aparentemente sem confiança (em si), submetido à globalização, ao mercado, ao prazer. Entre o ser humano exaltado, glorificado, e o humilhado, a testemunha é um humano fragilizado, vulnerável. Alguém que desistiu, lucidamente, dos sonhos de omnipotência, mas não abdicou de sua capacidade de iniciativa. E a originalidade, e o valor inestimável da testemunha, para os seus contemporâneos e a história da humanidade é o conteúdo da sua narrativa coincidir com a sua pessoa. Por isso, a testemunha é sempre incómoda e embaraçosa. Ela traz consigo algo excessivo, o fundamento da condição humana como tal, denunciando tudo o que visa diminui-la/apoucá-la. Teologicamente, a testemunha é alguém que experimentou o Absoluto. E fez dessa experiência o princípio norteador da sua vida. A sua narrativa enxerta-se na volatilidade, na efemeridade do mundo. Fazendo da verdade a sua biografia e ousando expor-se à tentativa de uma nova lógica e de uma nova linguagem. Portador de uma verdade que não pode reduzir-se a uma opinião. Os místicos serão essas testemunhas. Mística e ética têm uma aliança íntima (para dizer Deus). Se a mística é o encontro profundo, comunhão com o Divino, então Este não se encontra fora das coisas deste mundo. Pois Ele deixa-se encontrar em todas as coisas. Então todo o agir humano está consagrado. O místico é apaixonado por Deus mas quer participar em todas as experiências do humano. Os teólogos percebem que não há falar sobre Deus, hoje, que não seja precedido pela compaixão, pelo sofrimento pela vulnerabilidade (das “vítimas do progresso”). Uma fé que justifica a injustiça e o sofrimento do mundo e não protesta contra eles é desumana. Maria Clara Bingemer deu o exemplo de Etty Hillesum como uma mística por excelência. 

domingo, 21 de maio de 2017

O início do Mundial sub20


Não deixa saudades o primeiro jogo da seleção nacional, no mundial de sub20, em futebol, disputado na Coreia do Sul (8 horas a mais do que em Portugal). A jogar frente à Zâmbia, campeã africana,  em toda a primeira parte raras foram as oportunidades de golo criadas, processos lentos e pouco dinâmicos, nenhuma exibição individual para entrar numa galeria da memória, por banda dos portugueses. Alguns apontamentos de um pé esquerdo com potencialidades, de Xadas (Braga), médio ofensivo, foram uma pequena excepção. Mas muito longe de deslumbrar, e sem aparecer nos segundos 45 minutos. No global, pouca intensidade e escassíssima criatividade. Muita posse de bola, mas sem progressão, nem mudanças de ritmo. Estéril. A Zâmbia, que tem um jogador que em Portugal alinha no Esmoriz, espreitou um ou outro ataque, mas, na realidade nunca se atreveu ofensivamente, parecendo apostar, sobretudo, no empate. No segundo tempo, entrada forte da Zâmbia, culmina com golo. Portugal, que tinha um jogo pouco ligado, finalmente é agressivo e cria algumas situações para finalizar (embora não tantas como o relato e comentários da RTP suporia). Nas duas primeiras substituições, certamente controvertidas e a suscitar debates e reparos nos próximos dias no mundo futebolístico nacional, realizadas já após o golo, Peixe não alarga a frente de ataque (com mais jogadores para essas posições). Uma equipa de tracção atrás, com dois médios muito juntos em zonas recuadas, desequilibra-se depois, também, em termos ofensivos, com a mudança operada nesse mesmo meio campo. Já em tempo de compensação, Portugal reduz, mas não volta a aproximar-se da área adversária no tempo que resta (3 minutos). Os dois laterais da equipa (Ribeiro e Dalot) entre o positivo do encontro. Jogo muito bem arbitrado por um trio mexicano, num início de tarde asiático com muito pouco público nas bancadas, uma relva que me pareceu pouco molhada (e a não potenciar um jogo mais veloz), uma bola com certos efeitos especiais (das mais enganadoras com que lidou até à data, segundo o técnico português), e uma equipa de futebol que remeteu para o Mundial de Seniores de 2002, jogado por aquelas paragens.
De entre as surpresas da 1ª jornada do mundial de sub20, o Venezuela- 2 - 0 Alemanha constituirá o maior destaque, com o desafio de maior cartaz a redundar numa vitória por 3-0 da Inglaterra face à Argentina. Um torneio onde marca presença o Vietname.

O futuro do trabalho (discutido em Mateus)


Ontem, o Francisco, nos seus 13 anos hiper-responsáveis, dizia-me que uma licenciada em arqueologia tinha garantido, há dias, à mãe que esse era curso que não tinha saída e estava condenado ao fracasso. Logo ele, um dos últimos resistentes entre os melhores alunos, pensando seguir Humanidades, em vista a essa formação (arqueológica). Dentro de dois anos, está convencido neste instante, seguirá, afinal tecnologias. Na tarde deste Sábado, em Mateus, na última sessão do micro-ciclo dedicado às utopias, desta feita sobre O futuro do trabalho, Pedro Santa Clara Gomes deu nota de um estudo de dois Professores de Oxford sobre profissões em vias de extinção. Com 99% de probabilidades, o desaparecimento dos vendedores de seguros, seguidos, com 98% de hipóteses de darem o último apito, os árbitros de desportos e 97% os caixas de supermercados. Inversamente, no fundo da tabela, com quase 100% de possibilidades estatísticas de sobrevivência, os arqueólogos (0,7% de probabilidades de se extinguirem, de acordo com o estudo citado). Há sempre mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa filosofia - e, pior, a doxa - pensa. Num outro reputado trabalho, porém, realizado em 2004, mencionado por este Professor e Economista, garantia-se que, se havia tarefa insubstituível, era a de conduzir camiões. Pois bem, sabemos, pela Google e pela Tesla - com novidades da Bosch (Braga) para breve - que nada mais falso. E 2004 foi ontem (à partida, aproximações bem menos susceptíveis de engano face às horas de trabalho previstas, por Keynes, em meados de 30, do séc.XX, para esta altura...que andariam pelas 15 horas de trabalho por semana). Quer isto dizer que mudanças ocorrerão que não tínhamos previsto e projectos que alvitramos que não se realizarão; empregos inesperados surgirão (desenhadores de mundo virtuais?). Pedro Santa Clara Gomes leu e citou Yuval Noah Harari, pelo que se mostrou otimista quanto à situação do mundo: nunca estivemos tão bem, considerou. E, sem citar aquele autor, prosseguiu, em realidade, com ele, e um texto por ele assinado, recentemente, no The Guardian, onde prognosticou um refúgio, para os deserdados e desocupados das mutações tecnológicas, em vidas cada vez mais virtualizadas (ou, no seu ateísmo, a continuação dessa virtualidade dado regras como "não comer porco" serem tributárias de jogos imaginários, por códigos não electrónicos). Tomar drogas, viver ligados a máquinas, jogar jogos todos os dias? Assim o futuro? 
O trabalho, seja como for, e como apontado por uma das intervenientes na plateia, pode deixar de ter a centralidade que hoje adquire na existência. Pode ter importância, mas em uma dimensão um tanto mais secundarizada. Hoje por hoje, e ao almoço, em tendo que nos apresentar, (ainda) tendemos a explicar-nos principiando pela atividade (profissional) que realizamos. Quando (e se, como não raros estudos têm sublinhado) a massa de desempregados (estruturais) for enorme (em virtude da automação), então essa centralidade desaparecerá. Uma socióloga francesa escreveu, recentemente, um ensaio (publicado na Gulbenkian) no qual defende que o trabalho não é uma realidade antropológica e que o homem primitivo, bem como as classes mais abastadas, em séculos pretéritos não trabalharam e, mais importante, não se incomodaram (ou suicidaram) com isso. Teresa Albuquerque, de modo espirituoso, observou que hoje o que dá status, ao contrário das classes ociosas do século XVIII que reivindicavam o seu tempo livre, é não ter tempo. Isso hoje é que é socialmente bem visto. 
Entre aqueles que, numa tarde muito agradável seguiram as conferências-debate, em Mateus, esteve José Gil que perguntou por uma tecnologia que influencie a política (uma tecnologia que diga a melhor forma de governar, p.ex.; algo que mataria a democracia, como notou Álvaro Vasconcelos, sentado a seu lado).

(cont.)

sábado, 20 de maio de 2017

Miguel Araújo - 1987 (com Catarina Salinas)



Depois de Carlos Tê ter imortalizado "Jardel sobre os centrais", a vez de Miguel Araújo dar corpo ao ano vintage de 1987, com o "passe [golo, na realidade] de Juary" e o "calcanhar" de Rabat Madjer. Logo à noite, vou ouvi-lo ao Teatro de Vila Real, descobrindo o novo álbum Giesta. O compositor-cantor propõe, nas canções, o "concreto-universal", a partir da sua realidade infante ou adolescente - ou, da sua memória, que não é bem a mesma coisa, mas muito mais interessante -, ele que é um moço de 34 anos e que recorda os Guns, Nirvana, McCartney, Pearl Jam, Rui Veloso, Caetano Veloso, entre muitos outros. Bem o compreendo: a malta da minha geração entrava no ciclo, como então se dizia, carregado a t-shirts negras, estampadas com esses mesmos Guns, Nirvana, mais tarde Metallica

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fé cristã


O papel da mediação cultural e antropológica, que compete à Teologia, implica ultrapassar uma visão milagreira e interventiva do agir de Deus, baseada numa interpretação fundamentalista dos textos bíblicos e das experiências místicas. O modo de interpretar os fenómenos místicos não pode ir contra os conhecimentos científicos e deve atender à sensibilidade cultural contemporânea. A presença espiritual de Maria, participante da humanidade glorificada de Jesus, não reduz Maria a uma personagem do passado. Não pode significar, contudo, o regresso a uma visão mariana de privilégios e excepções que a fazem assemelhar a uma figura mitológica e cair no risco de deusa-mãe de outras religiões e culturas. As visões têm sentido à luz de Maria «assunta aos céus, que reflecte a glória do Ressuscitado. Por isso pode trazer esperança àqueles que querem ultrapassar as estreitas paredes do mundo e sair da tristeza e da angústia» [Bueno de la Fuente]. A presença espiritual de Maria, que os pastorinhos vestem e põem a falar português, tem o seu valor à luz da manifestação de Cristo Ressuscitado. As visões são olhares humanos, a partir do olhar de Deus sobre a nossa realidade, para provocar e mover a Humanidade a corresponder ao maior bem, criador de esperança no futuro.

Carlos A. Moreira Azevedo, Fátima. Das visões dos pastorinhos à visão cristã, Esfera dos Livros, Lisboa, 2017, pp.74-75

P.S.: Carlos Moreira Azevedo é Bispo-Delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano

terça-feira, 16 de maio de 2017

Deletério


Riram, à gargalhada. Houve os que explicitamente vibraram com a vitória de Trump, nas televisões, nos jornais, nas redes sociais (mesmo após o que fora a enormidade de uma campanha). Entre estes, o grupo de radicais que nunca falham (cá, lá e pelo caminho). Mas houve muitos mais que preferiram a insinuação, que desde o primeiro minuto procuraram branquear o que aí vinha, maquilhar, normalizar o que não era normalizável - não há dúvida que a vinculação ideológica, para muita gente, supera tudo o mais, incluindo o bom senso. Isto, por cá, Portugal. Porque quem sofre não são as ideias - como se vê, bem resistentes e imunes à mais chã das realidades -, nem o cinismo ou o engraçadismo. Nem, tão pouco, numa leitura simplista, esses valentes. Quem sofre são as pessoas concretas e os grupos sociais esperados, nos EUA, perante uma Administração e um Presidente que são notícia diária pelos piores motivos.



Mas alguma vez houve algo como o Trumpcare, a legislação sobre cuidados de saúde que os Republicanos apresentaram na Câmara dos Representantes na semana passada? É uma lei feita sem o mínimo cuidado, cheia de consequências imprevistas. É um desastre moral, que rouba a assistência médica a dezenas de milhões de pessoas, principalmente para dar aos muito ricos um corte de impostos de quase um bilião de dólares.
O que é notável, contudo, é o nível orwelliano de desonestidade em todo o processo. Cada palavra que os Republicanos proferiram, de Trump para baixo, acerca da sua lei - sobre por que querem substituir o Obamacare, sobre o que fará a sua substituição e sobre como funcionará - é mentira, incluindo os monossílabos "um" e "uma", "a" e "o" e "e". E o que nos diz do estado da política americana o facto de uma maioria dos representantes de um dos nossos principais partidos ter avançado com este processo de pesadelo? 
Antes de recuperarem a Casa Branca, os Republicanos atacaram o Obamacare por muitas razões. Para começar, diziam que a lei foi apresentada sem debate prévio suficiente. Também alegavam que os americanos estavam a fazer um mau negócio. As deduções eram demasiado altas, declaravam, bem como os prémios. Prometiam reduzir estes custos para dar, como Trump insistia que faria, uma cobertura que seria "muito mais barata e melhor". E entretanto, prometiam manter as coisas que as pessoas gostavam no Obamacare. Ninguém seria excluído do Medicaid; a ninguém seria negada uma cobertura de saúde financeiramente acessível por causa de doenças preexistentes.
Depois temos a realidade da legislação Republicana. O Trumpcare foi apresentado tão depressa que é difícil acreditar que um número significativo dos que o votaram tenha tido sequer tempo para ler o pacote legislativo. E foi, claro, empurrado para o parlamento sem dar à Comissão Orçamental do Congresso hipótese de calcular os seus custos, os seus efeitos nas coberturas, ou qualquer outro aspecto. Mesmo sem uma análise cuidada, no entanto, é evidente que o Trumpcare rompe com todas as promessas que os Republicanos fizeram relativamente à Saúde. As deduções vão aumentar, não diminuir, porquanto as seguradoras têm mão livre para oferecer coberturas de qualidade inferior. Os prémios podem diminuir para um punhado de pessoas jovens saudáveis e com dinheiro, mas aumentarão e em muitos casos dispararão para os mais velhos (porque os spreads de idade aumentam), mais doentes (porque a protecção contra a discriminação baseada na história clínica é retirada) e mais pobres (porque os subsídios vão cair).
Muitas pessoas com doenças preexistentes ficarão com os seguros completamente indisponíveis ou totalmente indisponíveis ou totalmente fora de mão do seu poder de compra. E o Medicaid será reduzido, com os estragos a acumularem-se com o tempo.
O mais importante, porém, é não só perceber que os Republicanos estão a romper as suas promessas, mas compreender que estão a fazê-lo de propósito.
Não é um daqueles casos em que as pessoas tentam fazer aquilo a que se comprometeram, mas não conseguem lá chegar na execução. Este é um ato de traição deliberada: tudo no Trumpcare está desenhado especialmente para produzir resultados diametralmente contrários aos anunciados por Trump, Paul Ryan e outros Republicanos.
O que levanta duas questões: porque estão eles a fazer isto e porque acham que se vão safar? Parte da resposta à primeira pergunta é, presumivelmente, ganância. Dezenas de milhões perderão o acesso à cobertura de saúde, mas - de acordo com estimativas independentes de uma versão anterior do Trumpcare - as pessoas com rendimentos superiores a um milhão de dólares pouparão em média mais de 50 mil dólares por ano. E há uma poderosa facção do partido Republicano para quem cortar os impostos dos ricos é a única coisa que interessa. E numa nota mais subjectiva, não têm a impressão de que Trump tem algum prazer em brincar com as pessoas que caem na asneira de confiar nele?
Quanto a eles pensarem que podem safar-se: bom, a história recente não está do seu lado? O que aconteceu com a saúde não deveria ser tratado como mais um caso de política cínica. Era Liberdade e agora é Escravidão, a Ignorância faz a força. E pode ser assim que tudo vai passar a ser.

Paul Krugman, O "1984" do Partido Republicano, Visão nº1262, 11/05 a 17/05 de 2017, pp.30 (texto publicado originalmente no The New York Times)

PRECISÃO


No último Domingo, em apreciação à peregrinação do Papa Francisco a Fátima, José Pacheco Pereira escrevia o seguinte no Público:


A meu ver, o problemático deste passo de Pacheco Pereira reside no uso da expressão "psicológico" (não digo "apenas reside no uso da expressão 'psicológico' ", porque considero que se trata não de uma imprecisão menor, mas de um aspecto nuclear no que concerne à interpretação teológica do fenómeno e à rigorosa descrição dessa hermenêutica). A utilização do termo "visões" - em Ratzinger, como em Carlos Azevedo, em uma linha que, aliás, remonta bem mais atrás, no séc.XX - pretende-se como o mais rigoroso/exigente/respeitador de Fátima (possível), mas, como se percebe, a partir deste excerto, requer, igualmente, uma grande sensibilidade/cuidado de uso (o seu potencial explicativo, de densidade e busca da inteligibilidade do fenómeno é tão elevado quanto, ao que se percebe, o risco de ser, ainda que involuntariamente, desvirtuado). Do que se trata, nas "visões", não é, propriamente, de uma dimensão psicológica - que me parece remeter exclusivamente para uma dada subjectividade -, mas, bem mais, para o espiritual e para a alteridade (o totalmente Outro). Do contacto com o "mais íntimo que o meu próprio íntimo e mais sublime que o ápice do meu ser" (Agostinho, Confissões). Halík adverte, com subtileza bastante, que querer fixar Deus ao "subjectivo", ou ao "objectivo" (em exclusivo) é colocá-lO sem abrigo. O amor está em mim, mas excede-me (e precede-me). O teólogo Jacinto Farias oferece-nos, neste contexto, uma elaboração que se me afigura muito conseguida e que merece a melhor recepção. A partir de José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis, Fátima. Lugar sagrado global (2017, pp.244 e ss.) revisitemos este topos

Pensamos que, tanto para o caso das Aparições de Fátima, como para outros fenómenos similares considerados miraculosos, é mais plausível, do ponto de vista teológico, deslocar a percepção dos fundamentos da experiência sobrenatural para lá do plano da explicação ou não da mecânica material ou natural dos fenómenos, terreno próprio da ciência. Esses fundamentos deverão ser procurados numa outra dimensão que abre possibilidade de oferecer maior consistência e profundidade teológicas à fé na experiência sobrenatural inerente ao complexo processo das Aparições.
Numa outra esfera, na da interioridade que remete para a dimensão espiritual, que não a material, devem ser radicados os fundamentos da sobrenaturalidade, numa perspectiva de entendimento dos acontecimentos hierofânicos verificados em Fátima através daquilo a que podemos chamar a experiência de «toque de esferas», em que o sobrenatural toca o natural, utilizando a mecânica inabitual deste para suscitar uma experiência de carácter místico aos destinatários primeiros e, depois, aos transmissores da mensagem celeste.
É operatória, neste processo de compreensão, a «noção de mistério» estabelecida por Jacinto Farias para o entendimento teológico dos segredos de Fátima, mas que é da mesma forma significativamente operatória para a compreensão geral da experiência sobrenatural vivida no âmbito das Aparições. A noção de mistério permite apontar «para uma instância que se situa no fundo abissal do homem, na profundidade incomunicável das suas vivências, no sentido da liberdade, do amor, dos sentimentos que dizem o modo de relação do homem com o universo no qual habita» (Enciclopédia de Fátima, 2008, p.525).
Nesta linha, há que ter em conta que, segundo a teologia judaico-cristã, a experiência de Deus passa pelo mais fundo da interioridade do homem, tornando-se o mesmo Deus o mais íntimo do ser humano. A experiência antropológica de Deus é, portanto, aquilo que designamos, na esteira agostiniana, pelo conceito filosófico-teológico de «Íntimo Transcendente». (...)
Houve uma relação dialógica entre a abertura à revelação transcendente da parte dos Pastorinhos e os fenómenos extraordinários cósmico-naturais que se verificaram, sem dúvida, na Cova da Iria; relação dialógica que propiciou uma experiência de carácter místico acontecida na paisagem interior dos videntes. A partir desta experiência, que podemos autenticamente chamar de fé suscitada pelo acontecimento holomístico que se revestiu para eles de um carácter epifânico, aconteceu a inspiração divina, a mudança de olhar, como aliás pode significar teologicamente o conceito de milagre (em grego thaumatzõ, em latim miraculum), aquilo que permite olhar a realidade de maneira diferente, mais profunda, de forma maravilhada, captando-lhe o sentido e significados sobrenaturalizantes e transtemporais.
No quadro dessa experiência holomística, a tridimensionalidade do tempo cronológico (passado, presente e futuro) funde-se numa experiência/visão de tempo de tipo kairótico, em que a eternidade toca no tempo e permite uma visão para lá dos limites espácio-temporais em que a história humana normalmente se constrói. (...)
A mensagem [de Fátima] é passível de apelar para as fontes evangélicas. O conteúdo dela era fundamentalmente, depurando os revestimentos linguísticos da espiritualidade cordimariana epocal de um devocionismo reparacionista, de apelo à oração, à santidade e, na base, um desafio à conversão interior em ordem a uma vida de coerência com o Evangelho. (...) A mensagem apresenta-se intimamente como proposta-resposta ao contexto dramático de desesperança que no tempo se vivia por causa da guerra, das doenças e da crise económica, social e até política. Como bem reflectia o teólogo citado, Jacinto Farias, as Aparições podem ser mais adequadamente compreendidas no campo teológico do mistério. A pertinência cristã de Fátima será, por isso, mais bem entendida no «âmbito da experiência mística, de enriquecimento em Deus, de despojamento total de si, como forma de se encontrar, que é o ponto mais elevado da metafísica do amor: perder-se para se encontrar, esquecer-se de si, como condição para amar» (Enciclopédia de Fátima, 2008, p.525).
Deste modo, e como, aliás, já se pratica na exegese católica contemporânea para a matricial experiência da revelação bíblica, na hermenêutica das Aparições de Fátima podemos ver com olhar de fé a intervenção divina, para além de uma intervenção direta de carácter quase antropomórfico. (...) Joseph Ratzinger vai ao encontro desta perspectiva interiorista da compreensão do milagre: «Este ver interiormente não significa que se trate de fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjectiva. Significa, antes, que a alma recebe o toque suave de algo real, mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não visível aos sentidos, uma visão através dos 'sentidos internos' [...] A pessoa é levada para lá da pura exterioridade, onde é tocada pelas dimensões mais profundas da realidade que se lhe tornam visíveis".


Tantos olhares


Essencialmente, de acordo com a análise de Paulo Rangel, hoje, no Público:

Há depois perplexidades que o derrame avassalador do frenesim mediático necessariamente levanta. A primeira é a de que tudo começa com o Papa Francisco, como se ele tivesse ditado uma ruptura ou antes dele se vivesse nas trevas do obscurantismo. Felizmente muitos lembraram (e eu também, em 2015) que há enorme continuidade entre Bento XVI e Francisco. Desde logo, na dessacralização do papado. Bento XVI publicou obras como teólogo enquanto Papa em funções, distinguindo a sua pessoa do múnus papal, e renunciou em 2013, retirando parte da carga transcendental desse múnus. Já Francisco, em nítida continuidade, assumiu-se desde o início como Bispo de Roma e desprendeu-se de mais uns tantos sinais majestáticos que ainda rodeavam o papado. Depois, é absolutamente bizarra a ideia de que, com Francisco, finalmente a Igreja Católica e o seu Papa se focam nos pobres e na condenação do capitalismo. Como pode criar-se esta impressão, quando a Rerum Novarum de Leão XIII vem do século XIX? E que dizer da constituição conciliar Gaudium et Spes e do seu destino universal de todos os bens? E da Populorum Progressio de Paulo VI ou da Laborem Exercens e da Centesimus Annus de João Paulo II? Acaso alguém se terá olvidado de que João Paulo II nunca deixou de condenar o capitalismo desenfreado ao lado do comunismo (apesar de, diz-se, ter sido instado por Reagan e Thatcher, sem sucesso, a não ser tão contundente com o capitalismo liberal)? Claro que cada Papa tem o seu carisma e sublinha, mais ou menos, certos aspectos do ensinamento cristão; mas o foco de Francisco na ecologia, sem ser novo, é claramente mais inovador do que o foco na pobreza.

Fátima


Mas mesmo os que recusam o carácter sobrenatural daqueles acontecimentos deverão ser capazes de reconhecer o seu carácter extraordinário que se impõe contra as expectativas iniciais.
Os dois autores desta obra não coincidem necessariamente e sempre na forma como abordam o tema. Mas consideram que Fátima não foi um simples caso de manipulação pelas elites católicas. Fátima não tem nada de simples, é bem mais interessante e bem mais complexo do que isso.

José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis, Fátima. Lugar sagrado global, Círculo de Leitores, 2017, p.260

Umbilical


Maldade

Por que motivo há lágrimas nos teus olhos, meu filho?
Que maus que são aqueles que te ralham por tudo e por nada!
Enquanto estavas escrevendo, manchaste os dedos e a cara com tinta - será por isso que eles te chamam sujo?
Por Deus! Atrever-se-ão eles a chamar trapalhona à lua cheia por ela ter coberto a sua face com tinta negra?

Pela mais pequena coisa te censuram! Eles estão sempre
prontos a encontrar faltas naquilo que fazes.
Enquanto brincavas, rasgaste a tua roupinha - será por isso que eles te chamam descuidado?
Por Deus! Que dirão eles da manhã de Outono que sorri por detrás de nuvens esfarrapadas?

Mas, meu pequenino, não faças caso do que eles estão
sempre a lançar-te à cara!
Que bem contadas que eles têm as tuas faltas!
Toda a gente sabe como tu gostas de coisas doces -
será por isso que eles te chamam guloso?
Por Deus! O que não dirão eles de nós que gostamos
tanto de ti!

Rabindranath Tagore, A voz da mãe dava sentido às estrelas, Assírio e Alvim, 2017, p.29

Radar





segunda-feira, 15 de maio de 2017

Âmbitos de inscrição


O pior que pode acontecer é olhar para o Papa Francisco como um ovni. Claro que para compreendê-lo é essencial ler os Evangelhos ou a poética radical de Francisco de Assis. Mas não se entende Francisco sem o conceito de biopolítica de Foulcault, e da sua denúncia de que, no neoliberalismo, a liberdade produz-se negando-se; sem o retrato da vida nua perante a arbitrariedade dos poderes soberanos de que fala Giorgio Agamben; sem a dialéctica communitas/immunitas que os escritos de Roberto Esposito iluminam, onde a imunidade surge como o fechamento numa identidade da qual se exclui os outros, organizando em torno a ela os múltiplos cordões imunitários que conhecemos; sem o desejo de comunidade de que fala Zygmunt Bauman numa modernidade que tende a liquidificar todas as identidades; sem o alerta de Michael Burawoy: quando o mercado é imposto como única solução para todos os problemas humanos, denunciar a ditadura do mercado torna-se a condição necessária para afirmar a esperança. O Papa não fala sozinho e isso reforça a sua voz.

José Tolentino de Mendonça, E - A revista do Expresso, nº2324, 13 de Maio de 2017, p.95

Hoje por hoje


O erro fatal [de Passos Coelho] foi o de não só considerar que o castigo era bom para Portugal como a austeridade era necessária para purificar os pecados dos portugueses a viverem acima das suas possibilidades. Sabemos agora, por algumas investigações criminais, quem é que andava a viver acima das suas possibilidades, e não eram os portugueses. (...) o "país das cigarras" não era o dos pequenos funcionários públicos ou dos detentores de benefícios sociais como o rendimento mínimo. O país das cigarras era o dos banqueiros insolventes e falidos e dos altos quadros políticos do Estado sufragados pelo partido ou a nomeação. (...) Passos Coelho ficou para a história como o rosto severo dos anos da crise, da miséria e da perda de soberania (...) Os portugueses não esqueceram. Nem toda a gente morre de amores por Costa e amigos, mas não esqueceram.

Clara Ferreira Alves, O suicídio do PSD, in E - A revista do Expresso, nº2324, 13 de Maio de 2017, p.3. 

P.S.: considerar, diariamente, que tudo o que corre bem ao país é da responsabilidade do anterior governo, e tudo o que corre mal é da responsabilidade deste parece-me uma estratégia infantil, tal o maniqueísmo que encerra. Em qualquer dos casos, a volatilidade internacional é tal que dar por garantidos, hoje, e mau grado as sondagens, os resultados de 2019 parece-me, claramente, exagerado.

Plano inclinado


Continuam a chegar dados chocantes da Venezuela: um aumento de 30% da mortalidade infantil face ao ano precedente - uma revelação feita pela Ministra da Saúde, de Nicolas Maduro, de imediato demitida; o governo escondera estes resultados ao longo de muito tempo -, bem como das próprias mães que estão grávidas e morrem na sequência de "darem à luz" os seus filhos, tal como, segundo as estimativas da Bloomberg, cada venezuelano terá perdido, em média, mais de 8 kg no último ano. Uma deriva desastrosa.

Da complexidade de um perfil (de um) "terrorista"


A propósito da tentativa de uma melhor compreensão dos factores envolvidos no mais recente atentado terrorista perpetrado em Londres, e no seu protagonista, Khalid Masood, um texto de Jason Burke que me parece relevar do melhor que o jornalismo pode oferecer: muito informado, com dados de investigação, problematizando várias hipóteses, integrando a complexidade na sua aproximação ao fenómeno, sem simplismos, inteligente.


Pode não ser tão simples como parece. Há especialistas que contestam o conceito de radicalização. O FBI fala em “caminhos para a violência”, realçando que o percurso de cada indivíduo até se tornar num criminoso extremista é único e só seu. Há debates acesos sobre o papel da ideologia, das circunstâncias sociais e dos traços de personalidade individuais e da doença mental. Os analistas preferem falar de “factores de risco” em vez de “causas”.
Apesar de tudo, algumas coisas são claras. Uma é a idade. Masood tinha 52 anos, o que é raro. Há dez anos, a idade média dos atacantes no Ocidente andava pelos 29. Agora aproxima-se dos 25. Em França, quase dois mil adolescentes foram radicalizados (pelo Daesh?), um aumento de 121% entre 2015 e 2016.
Um motivo possível é a demografia. Há muitos imigrantes de segunda geração que chegaram à idade adulta. Outro é a utilização intensiva das redes sociais nos omnipresentes smartphones e a consequente exposição à propaganda. Uma terceira razão é o apelo específico do Daesh, que promete aventura, camaradagem, dinheiro e até oportunidades sexuais, o que contrasta com o ascetismo de grupos radicais anteriores, como a Al-Qaeda. Isto ajuda a explicar a razão pela qual a proporção de simpatizantes terroristas com perfis criminosos também cresceu. Antigos activistas do Daesh na Europa descrevem a atracção do grupo como a de um gangue, onde a violência e a misoginia se transformam em “resistência” e “redenção” para pecadores errantes. A mensagem distorcida do grupo, carente de argumentos teológicos ou políticos que não sejam simples e distorcidos, seduz, apesar de tudo, quem não tenha bagagem intelectual nem inclinação para debater, discutir ou aprender.
Masood foi condenado por atos de violência, o último dos quais em 2003. Parece ter-se convertido ao Islão por essa altura. Os conversos representam uma percentagem desproporcionalmente alta das pessoas envolvidas em atentados no Ocidente. No Reino Unido, entre 2001 e 2013, 12% dos “jihadistas caseiros” eram convertidos, categoria em que cabe menos de 4% da população muçulmana no seu todo. Nos Estados Unidos, a fatia de conversos terroristas era, em 2015, de 40%, contra 23% entre todos os muçulmanos. Terão os conversos algo a provar? Com um saber cultural e teológico superficial, serão mais vulneráveis a interpretações extremistas de ensinamentos e dogmas religiosos.
Depois vem a questão da identidade. Masood, nascido Adrian Russel Elms, cresceu numa aldeia de Kent, em que só havia dois homens pretos, filho de uma mãe adolescente branca e solteira. Muita da sua vida terá ficado marcada por tensões étnicas. Também isto ajuda a explicar a atracção, não apenas da conversão ao Islão como do extremismo.
Já em 2008, os serviços de segurança franceses sublinhavam as “identidades divididas” como factor importante por detrás do extremismo (…)
Masood não parece ter alguma vez tentado sair do Reino Unido para lutar pela sua causa. Entre 2004 e 2009, contudo, terá passado pela Arábia Saudita, onde ensinou inglês. Uma viagem ao mundo muçulmano é outra característica comum no percurso dos atacantes extremistas. A maioria deles passa uns meses a estudar e não a leccionar, língua árabe e religião islâmica. Muitos, provavelmente incluindo Masood, são doutrinados em correntes mais rigorosas, intolerantes e puritanas de uma fé que raramente questionam, dado o seu conhecimento limitado do Islão. (…)
Um fator revelado por estudos e notícias recentes sobre violência radical é o papel de pares, amigos e família. O terrorismo é uma atividade social, e não obra de solitários enlouquecidos. No ano passado, a investigação apurou que 45% dos radicais islâmicos discutiam a sua inspiração e possíveis acções com parentes e amigos.
É frequente haver irmãos envolvidos: em Paris, em Novembro de 2015, e em Boston, em 2013. Um casal levou a cabo um atentado na Califórnia. Amigos chegados unem esforços, como os convertidos de origem nigeriana que mataram o soldado Lee Rigby, em Londres, há quatro anos. Um estudo feito pelo FBI, em 2009, mostrou que há uma média de três a 14 “vizinhos” em cada ataque. Ou seja, são pessoas que provavelmente sabiam o que ia acontecer mas não o impedir (…)
Há, finalmente, a velocidade com que se percorre o “caminho para a violência”. As autoridades britânicas admitiram uma radicalização rápida, mas muitos peritos têm dúvidas. Lenta ou veloz, poucos dos que resvalam para o extremismo acordam de um dia e decidem que querem ser assassinos a soldo do Daesh. O processo é gradual, ainda que possa ser rápido. (…) Antigos radicais relatam que estavam longe de imaginar o seu putativo destino na fase inicial do percurso rumo à violência.
Quando Masood alugou, um ou dois dias antes a viatura que utilizou no ataque, estava decidido a agir há dias, semanas ou meses? A humilhação de ter tido de abandonar a casa em que vivia com a família terá sido a gota de água que o levou a avançar? Que dizia nas mensagens do WhatsApp minutos antes do atentado? E a quem?
É da natureza humana tentar interpretar o desconhecido criando narrativas lineares que fornecem respostas e explicações. É isto que a investigação à radicalização de Masood espera apurar. Sabemos, porém, que nem a nossa própria vida é simples e linear. Apesar da predisposição para a violência e o crime. Masood era, como a maioria dos assassinos, um homem vulgar.
Vamos ter algumas respostas às nossas perguntas. Quem, no entanto, espera resolver de forma definitiva o enigma de um homem nascido há 52 anos no Kent – que se torna assassino e morre no centro da capital britânica -, arrisca-se a uma desilusão.

Jason Burke, The Observer, 25-03-2017, publicado na edição de Maio do Courrier Internacional, nº255, com tradução de Mafalda Almeida