quinta-feira, 30 de março de 2017

Parlamento dos jovens


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Parlamento dos Jovens

Realizou-se, há duas semanas, em Vila Real, nas instalações do Instituto Português da Juventude, a sessão distrital do Parlamento dos Jovens, com a participação de dezenas de alunos, do 3º ciclo do Ensino Básico, de várias escolas do Distrito (Alijó, Boticas, Chaves, Mesão Frio, Murça, Valpaços e Vila Real).
Para além de ganhos de noções de democracia, algum estudo da Constituição da República Portuguesa, capacitação quanto ao domínio oratório, de argumentar e rebater ideias, saber escutar as posições contrárias, controlar (estrategicamente) o tempo disponível para exposição, de participação na vida pública – esperando-se que um pouco destes apartados possam ficar, sempre e quando, ainda, a educação seja demasiadas vezes vista como mero adestramento técnico para o exercício de uma profissão, quando dela se deve esperar bem mais -, sublinharia, sobretudo, uma outra dimensão: o conteúdo das propostas apresentadas, com vista a obterem vencimento e, em última análise, chegarem à Assembleia da República, através dos representantes eleitos pelos colegas de ciclo, e que irão ao Parlamento, durante dois dias, em Maio (próximo).
Bem observadas, essas propostas mostram duas preocupações centrais, que relevam, nas escolas, de debates prévios entre alunos, e com supervisão e contributos, também de professores, a saber: a) uma concretização, digamos, mais efectiva de um preceito constitucional relativo a um direito à habitação e b) a inserção nos currículos escolares (na escolaridade obrigatória) do estudo da Constituição.
Creio que estas preocupações podem, potencialmente, ser lidas como resultado, não exclusivo (por exemplo, ao longo destes anos as aspirações, em França concitadas, relativamente à questão da habitação conheceram ampla divulgação e repercussão pública internacional), mas muito relevante, dos anos que temos vindo a passar e na demanda de uma maior preocupação com a dimensão social e com uma repolitização que traga cada um cidadão crescentemente preparado para ler e lidar com os desafios políticos que situações mais extremas, na nossa vida colectiva, implica(ra)m.
Regra geral, os alunos estiveram longe de esgotar o tempo disponível para cada escola – o que evidencia ou uma desatenção aos debates parlamentares (e seu modus operandi), onde a tática passa por ir sempre além do tempo consagrado a cada grupo parlamentar, ou a adopção de uma estratégia diversa daquela para persuadir os demais grupos do bem fundado de cada proposta; por outro lado, nem sempre as propostas conheciam qualquer tipo de cabimento, em realidade, em uma Constituição (não seriam normas aptas a preencher os requisitos de integração na nossa Lei Fundamental; e o que daqui resulta é: e quem estaria/está qualificado para ensinar a CRP nas escolas?); e creio que se verificou, ainda, ao longo do dia de trabalhos, nesta sede, a importância da inteligência emocional no que ao estabelecimento de pontes diz respeito para o momento da eleição dos representantes distritais. Uma das regras destes Parlamentos Distritais que me parecem mais controvertidas passa pelo facto de os representantes a eleger poderem ir defender, ou ter que defender, propostas nas quais não votaram, ou, mesmo, em que não se reconhecem. A separação entre o momento da votação das propostas e da escolha dos representantes, podendo, eventualmente, ter algumas vantagens, pode, igualmente, inculcar nos alunos a ideia de que se pode defender tudo e o seu contrário, que a retórica é tudo, numa espécie de antecipação e apologia da figura do sofista que os adolescentes virão a conhecer na disciplina de Filosofia, no Ensino Secundário.

No início deste evento, o deputado Luis Leite Ramos esclareceu as questões que lhe foram colocadas pelos mais novos, recordando, no plano pessoal, a dificuldade da primeira intervenção parlamentar, da ansiedade da noite anterior, mal cumprida, até à gestão do tempo disponível para a sua alocução parlamentar que precisou, sempre, ao longo dos anos, de aprimoramento, o que reclama muito trabalho. E aconselhou a que ninguém fique dependente da política, em termos profissionais, mas, igualmente, que em tendo uma profissão não se desligue ninguém da dimensão pública e política e do contributo que como cidadão cabe dar à comunidade em que nos inserimos. Um bom conselho, de resto.

Resignação


Se lermos os textos de Francisco Louçã e de Rui Tavares, esta quarta-feira, no Público, como pólos opostos no que ao pensamento sobre o futuro da União Europeia - e da inserção de Portugal nela - diz respeito, o que verificaremos, de modo curioso, mas sintomático é que eles se unem pela forma como diabolizam a posição contrária, sendo que em nenhum momento, em ambos os casos, se pronunciam pela positiva (relativamente ao que sustentam). Francisco Louçã faz o diagnóstico negro do statu quo europeu (e de cenários avançados, a partir deste), para defender, no fundo, a saída do país do euro; Rui Tavares acusa os que pretendem a saída de Portugal do euro de não apresentarem, nem de estarem em condições de apresentar, qualquer estudo, qualquer realidade palpável ou credível para o day after de um Portugalexit. Percebe-se, sem dificuldade, a estratégia (discursiva) dos dois autores: Louçã, com efeito, não parece poder apresentar qualquer suporte sólido acerca do dia depois de amanhã, relativamente aos elementos aos quais Rui Tavares se refere (a começar pela dívida, passando pela questão da saída da UE e dos termos em que tal se faria, até ao quanto a desvalorização da moeda se reflectiria em diferentes aspectos das economias pessoais, culminando no modelo de economia em que nos queremos basear no futuro próximo que segundo, nomeadamente, o actual Executivo, que o BE também suporta, não deve assentar em mão de obra barata); a Rui Tavares custará muito, igualmente, por certo, defender o actual estado de coisas na UE onde as regras determinantes estão longe de serem social-democratas e as tendências de grandes avanços redistributivos, no interior da União (Orçamento robusto, instrumentos contra as assimetrias, sanção dos excedentes comerciais, caminho para uma união fiscal, eurobonds, mudanças no Tratado Orçamental, etc.) estão por provar (que venham a ter lugar). Pelo que a encruzilhada, com anos, permanece, e ninguém vai além da solução menos má, ou da enunciação da verdadeira catástrofe se a posição contrária vingar.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Abstenção artificial

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Há quem não queira ver, nem integrar nas suas análises, até porque isso lhe permite um discurso apocalíptico, que uma parte significativa da abstenção, em Portugal, é artificial. Mas continuam a chegar dados claros nesse sentido. Hoje na universidadefm:

"O distrito de Vila Real tem mais eleitores registados do que população votante.
Segundo dados divulgados hoje, no nosso país existem mais de 850 mil eleitores do que a população maior de 18 anos.

Segundo a Comissão Nacional de Eleições este facto pode ser consequência da emigração e de alguns casos de falecimento não declarados que “engrossam” a lista do recenseamento eleitoral.

O distrito de Vila Real é onde a diferença entre eleitores e população é mais significativa, com o concelho de Montalegre a registar 76% de eleitores a mais do que população.
Em Ribeira de Pena, Boticas e Vila Pouca de Aguiar existem mais 50% de eleitores recenseados do que população com idade de votar".

Plenitude


Encontrei ainda uma outra forma de ateísmo nas conversas com pais. Muitas vezes, eles sentem-se impotentes perante os argumentos dos seus filhos acabados de entrar na puberdade, que dizem claramente aos seus pais que Deus não existe.  Este seria apenas uma projecção do homem, afirmam eles. Assumem a posição de Ludwig Feuerbach, ou, ainda, de Sigmund Freud, que não caracteriza Deus como projecção, mas como ilusão. Deus seria uma ilusão na qual os homens de boa vontade se refugiam para se sentirem um pouco mais aclimatados neste mundo áspero e severo. Eles argumentam, como Sigmund Freud, que a religião seria uma coisa infantil e que importa, sobretudo, ser adulto e aceitar a realidade e dominá-la como ela é. Muitas vezes, por detrás do protesto dos filhos pubescentes contra Deus esconde-se também a tentativa de se libertarem do abrigo junto dos pais e da sua convicção religiosa fundamental. Eles não notam que se excedem com esta crítica da religião. A posição de Freud está cheia de pessimismo. E, em Freud, não é prevista a felicidade do homem, que deve simplesmente contentar-se com a vida tal como ela é. Para os jovens, porém, esta não é a perspectiva que lhes permita viver. Ao invés, esta visão induz à resignação, ao cinismo e à oclusão perante tudo o que poderia ser maior do que nós próprios, tudo o que poderia abalar a nossa raquítica e estreita autoimagem. (...) Para mim, há duas respostas (...) Em todas as dúvidas sinto-me apoiado por Deus. E isto dá-me segurança. Apesar de tudo, agarro-me firmemente a Deus. Experimentei que não se trata aqui de nenhuma ilusão. A minha experiência diz-me que Deus é o fundamento em que posso sentir-me seguro e firme. E a outra seria antes uma questão aos jovens: que ouves tu, quando escutas uma música? Trata-se apenas de acalmar os nervos? Que vês tu, quando admiras a beleza de uma flor, quando contemplas um quadro belo? Para mim, a beleza é um vestígio de Deus. E isso dá cor, variedade, profundidade, animação e chama à minha vida. Que experimentas quando sentes o amor em ti? Será isso apenas um sentimento provisório, ou tocas aí o mistério de todo o ser, o fundamento de toda a realidade, que é amor? O argumento em prol da incredulidade em muitos jovens induz, a meu ver, à banalidade. E eu recuso-me a viver de forma apenas banal. Gosto de viver e saborear a plenitude. A minha tarefa seria, então, falar aos jovens da plenitude que também eles poderiam experimentar (...) Trata-se da questão do que é a vida real e onde e como ela se há-de encontrar.

Anselm Grun, A alma não conhece o ateísmo, in O abandono de Deus, Paulinas, 2017, pp.36-37.

domingo, 26 de março de 2017

Combate


Quando encontro um homem que afirma não acreditar em Deus, apresento-lhe sempre a questão: que Deus é esse em que não acreditas? Que é que te leva a não crer nele? E consegues representar e especificar sob o conceito «Deus» ainda algo de diferente daquilo que negas?
«Deus morreu! Deus está morto», afirma o louco em A gaia ciência. Todavia, numa outra passagem, Nietzsche indica que a morte de Deus, finalmente, não é definitiva: talvez o voltemos a ver, talvez Ele «tenha despido apenas a sua pele moral». Talvez surja, de novo, um deus no qual o louco de A gaia ciência, o sábio Zaratustra e também o próprio Nietzsche (tratar-se-à de um só ser em três pessoas?) poderiam começar a acreditar: um deus que saberia dançar; um deus que constituiria um contraste com o «espírito de pesadume», com o «espírito de vingança». Talvez Nietzsche, este louco sábio e este sábio louco, «o mais piedoso entre os descrentes», busque, após a morte do deus antigo, um deus assim, que já não acorrenta, mas liberta, que solta o homem para a coragem, para a força criadora e para a responsabilidade? (...) Ateísmo não significa a «irreligiosidade» na acepção de uma recusa de Deus, mas da rejeição de um determinado tipo de teísmo, de uma determinada representação de Deus. Cada ateísmo refere-se a um determinado tipo de teísmo (...) [e] há muitas espécies de teísmo que são mais obstáculo do que um apoio para as pessoas no seu caminho para o mistério que chamamos Deus (...) Começar a crer não significa poder apoiar-se em pilares de certezas, mas entrar na nuvem do mistério e aceitar o desafio: mergulha fundo! (...) Goethe divisava na luta da fé com a incredulidade a essência de toda a história. Acrescentemos ainda que esta luta se trava, muitas vezes, no íntimo de um homem (...) O mundo e a vida são ambivalentes e polifacetados. «Há luz bastante para os que querem ver e treva suficiente para os que têm uma disposição contrária», escreveu Pascal.

Tomás Halík, Prólogo, in O abandono de Deus. Quando a crença e a descrença se abraçam, Paulinas, 2017, pp.24-28


Só no convento é que o argumento de Ludwig Feuerbach, segundo o qual os homens projectam em Deus os seus desejos e as suas ânsias, se tornou uma questão pessoal. E, acima de tudo, a ocupação com a psicologia obrigou-me a interrogar-me com honestidade: é Deus, para mim, tão-só uma projecção pessoal? Esta reflexão ocorria-me sobretudo na oração. Emergia aqui, muitas vezes, a pergunta: será tudo isto imaginação? Pensas que com Deus tudo te corre melhor, que podes viver em paz e saíres-te bem dos teus problemas?
No entanto, se levar estas coisas até ao fim, parece-me que tudo seria absurdo. O homem não podia conhecer nada. Também o ateísmo seria uma projecção. O homem excogita que não há nenhum Deus, para poder viver livremente e não ter de se preocupar com nada que o desafie a partir de fora. Ambas as alternativas são, pois, projecções. A solução seria que eu relativizasse todo o conhecimento humano: em última análise, andamos às apalpadelas no meio da escuridão. Ou, então, decido-me por uma alternativa. E torna-se claro, para mim, que me decido pela fé. Aposto tudo na fé. É claro que alguém me poderia dizer: decido-me pela fé, porque estou habituado a ela desde a infância. Isto desempenhava, certamente, um papel. Mas sinto interiormente que a alternativa da fé é mais humana do que a do ateísmo. A decisão pela fé, para mim, não vai contra a minha razão. Sujeito a minha razão a um esforço, mas chego assim a um limite. E o salto vai para lá da fronteira, quer na fé quer na descrença. No meio nada existe. Uma outra alternativa seria não forçar o meu entendimento. Mas seria então, para mim, um agnosticismo tardo e indolente: não me preocupo com a questão de Deus, e pronto. Mas tenho a busca de Deus por muito mais essencial do que o facto de simplesmente poder negá-la ou passar por cima dela.
A minha decisão «aposto na fé» ocorreu-me quando pensei, até ao extremo, a dúvida acerca da existência de Deus. Só mais tarde, nos meus estudos, embati na famosa aposta referida e descrita por Pascal nos seus Pensamentos. Nela encontrei uma confirmação e um reforço da minha experiência pessoal: Pascal entretém-se e dialoga com um céptico e agnóstico (...) Pascal nada conserva das tradicionais provas da existência de Deus. Mas, numa época em que os jogos de azar e as apostas se tinham amplamente difundido, fala de uma aposta no âmbito da pergunta sobre Deus. Esta obriga a decidirmo-nos. Não podemos, pois, contentar-nos com a atitude do agnóstico, ou seja, não saber se Deus existe ou não. Walter Dirks resume assim o argumento da aposta: «Não sabes se Deus existe. Tens a opção entre dois pressupostos, entre a suposição de que Deus existe e a presunção de que Ele não existe. Não podes esquivar-te, tens de apostar numa destas possibilidades. Em alguma ocasião, talvez na experiência da tua morte, se há de verificar se apostaste de forma correcta ou falsa. Se apostaste contra a existência de Deus, então, no caso de Ele não existir, nada perdeste e nada ganhaste - nem sequer terás a consciência de teres procedido bem; porém, no caso de Deus existir, então perdeste tudo. Se, pelo contrário, apostaste na existência de Deus e se Ele não existir, então não perdeste nada; mas, se Ele existir, ganhaste tudo: a bem-aventurança eterna. Nestas circunstâncias, é sensato e racional apostar na existência de Deus». Como é evidente, aqui também não se trata de nenhuma prova da existência de Deus. Cada um de nós vê-se e redescobre-se quer no céptico, quer ainda no crente. Mas a aposta de Pascal reforça em nós, pelo menos a posição do crente. Incute-nos coragem para nos decidirmos em prol de Deus.

Anselm Grun, A alma não conhece o ateísmo, in O abandono de Deus. Quando a crença e a descrença se abraçam, Paulinas, 2017, pp.32-34.


sábado, 25 de março de 2017

Um espírito


No Espírito de 45, de Ken Loach, está presente, a partir de um olhar britânico, muito do que lera nos livros de Tony Judt: a convicção, em 1945, de que não se podia voltar aos níveis de pobreza e desemprego do período prévio ao deflagrar da I Guerra Mundial e, bem assim, ao intervalo entre guerras. Que, segundo o historiador, teriam sido determinantes para o eclodir bélico. De entre os testemunhos escutados, a ideia de que se se tinha gasto e mobilizado um país para a guerra, com os sacrifícios brutais que se congregaram, também havia agora que ter forças para vencer a paz, ainda que isso implicasse um dispêndio público considerável, não só ao nível infra-estrutural (200 a 300 mil casas por ano, numa economia esfrangalhada, e sendo necessário conhecer a história, a geografia, orografia de cada local devastado pelos bombardeamentos, por exemplo, ou criar novas cidades; as casas construídas durante este período, para pessoas de baixos ou médios rendimentos era de grande qualidade, com duas casas de banho e um jardim a delimitá-la), como, ainda, na contratação de pessoal para funções públicas. O célebre Relatório Beveridge coloca os vários dedos na ferida das chagas por que passara a sociedade inglesa e que se acreditava, então, não poderem mais prosseguir. A insalubridade das casas (cinco irmãos a dormirem na mesma cama), com as várias cortiças a serem objecto de arranjos que nada melhoravam, um país (longe de ser o único, europeu, nestes termos, como infelizmente sabemos, pela nossa própria realidade, bem mais periférica, contudo) onde era normal nos anos 30, mesmo no Inverno, as pessoas andarem descalças por falta de condições materiais, onde no pós-I Guerra Mundial havia pessoas, de uniforme, regressadas das trincheiras, pelas esquinas, sem ter onde trabalhar, muitas vezes mutiladas, onde tirando a geleia pouco havia que colocar no pão - poucas vezes se comia carne; quase sempre nabos com batatas -, as maleitas tratadas com os conselhos das avós, dado que o Serviço Nacional de Saúde era uma miragem (e tinha que se trabalhar mesmo doente) e fora os que pagavam seguro de saúde (e, mesmo assim, só estes, e não seus familiares) teriam médico assegurado, foi aquele onde a febre das eleições de 1945 colocou toda a gente nas ruas a seguir os vários comícios, diariamente, tempo em que tudo parecia, então, possível. Nessa campanha que culminaria numa surpreendente e imensa vitória trabalhista, liderada por Clement AtleeChurchill  - muito respeitado e ouvido com a maior atenção pelo país, nomeadamente nos discursos radiofónicos -e os conservadores distribuiriam dezenas de milhares de cópias do essencial de O caminho para a servidão, de Hayek, alertando para a linha recta entre o planeamento central e o totalitarismo (uma conclusão advinda de um diagnóstico errado do que se passara na Viena natal de Hayek, como explica Judt na obra conjunta com Timothy Snyder). Sem convencerem, desta feita, a esmagadora maioria do eleitorado, e sem que os piores prognósticos, nessas cópias contidas (relativas aos "socialistas radicais") se tivessem vindo a verificar. A perspectiva de que o alistamento sindical, e a coesão daí adveniente, era uma componente essencial na defesa do trabalho - um pai que no período entre guerras de modo deliberado leva a filha a ver uma fila de 10 mil desempregados em Liverpool e lhe diz que quando a geração dela chegar ao poder não pode permitir que semelhante situação volte a ocorrer - fez parte desse tempo, em que o Labour, dadas as origens e o ambiente de certa utopia vivida, falava, nos comícios no erguer da nova Jerusalém (vide o hino dos trabalhistas britânicos). É interessante observar como, p.ex., o nascimento do SNS só teve a aquiescência dos médicos - consultados, aliás, expressamente e através de referendo para o efeito - porque, entre outras coisas, lhes era garantida a possibilidade de permanecerem também a trabalhar no privado, em simultâneo - um debate ainda hoje, a cada passo, presente (também entre nós; a questão da exclusividade). 
O documentário, bem entendido, surge, em 2013, nestes anos de austeridade, para reclamar um espírito e uma atitude política - um gozo apolítico de determinados bens políticos traz em gestação o putativo desaparecimento destes, para retomar Judt -, para salvar o essencial do que Beveridge tentou legar. Sendo certo que mesmo quando os donos ("tiranos", como são designados por antigos mineiros, neste documentário) foram substituídos por uma nacionalização, e mau grado as mudanças para melhor ao nível da segurança no e do trabalho, as cadeias de comando existiam, não passaram propriamente a ser os trabalhadores a determinar, antigos oponentes da nacionalização são nomeados para a Administração, e há também pessoas que passam a laborar de forma diversa porque as minas deixam de ser públicas e passam a privadas. Na década de 70, a indústria britânica fraqueja quer porque necessitava de novos investimentos que estão por realizar, quer porque a oferta mundial está sobreaquecida. Os reflexos são claros a nível político, com o regresso ao poder dos conservadores, em 1979, pela mão de Thatcher. A um período em que o colectivo primava, outro sucedia como era do indivíduo. Thatcher começa por citar Francisco de Assis, mas segue sobretudo M.Friedman. As minas desaparecem, quase por completo - o desemprego e a droga virá a prosperar entre várias comunidades. As lideranças dos sindicatos abandonam os mineiros e os portuários à sua sorte. Os correios, muito mais tarde, já sem Thatcher, passarão a fazer chegar as coisas com atraso, pois das suas entregas por dia, uma apenas restará. Os monopólios naturais são questionados. O emprego passa a ser precário. Os hospitais recorrem a empresas privadas para limpeza e outros serviços. Vários sectores são abalados. O mundo muda muito, a demografia altera-se, a ideia esbate-se, a globalização impõe-se, o crescimento económico é outro. As diferentes visões sobre a sociedade permanecem e nestes anos de repolitização Ken Loach toma parte nos debates.


Pós-humano


Retomando um livro fundamental de Peter Sloterdijk, António Guerreiro e as novidades do século, aqui.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Chave d'ouro


Provavelmente, a mais interessante e bela das respostas de Bento XVI, na última entrevista a Peter Seewald, aquela que mostra o carácter sempre inacabado de uma busca, a recusa da rotina das imagens e conceitos gastos e (a)batidos, o homem de fé que procura e sente a necessidade de dizer de novo, de fermentar e pensar a fé a partir do essencial.

Peter Seewald: Faço-lhe agora a pergunta que repetidas vezes nos tem ocupado: onde está na verdade esse Deus de quem falamos, do qual esperamos ajuda? Como e onde podemos localizá-l’O? Hoje em dia, vemos sempre cada vez mais longe no universo, com os seus muitos planetas, os incontáveis sistemas solares, mas até onde quer que seja que tenhamos conseguido ver até hoje, em lado nenhum há aquilo que poderíamos imaginar ser o céu, no qual Deus supostamente reina.

Bento XVI: (Ri) Sim, porque não existe tal coisa, não existe esse lugar onde Ele reina. Deus é, Ele próprio, o lugar dos lugares. Quando [você] olha para o mundo, não vê nenhum céu, mas por toda a parte vê os vestígios de Deus. Na constituição da matéria, em toda a racionalidade da realidade. Do mesmo modo, onde vê pessoas, encontra vestígios de Deus. Vê o vício, mas também a bondade e o amor. Esses são os lugares onde Deus Se encontra aqui.
É preciso libertar-se totalmente dessas noções antiquadas de espaço, que já não são bem-sucedidas, quanto mais não seja porque o universo, embora não sendo infinito na acepção rigorosa da palavra, é tão vasto que nós, os seres humanos, podemos designá-lo de infinito. Além disso, Deus não pode estar algures dentro ou fora, a sua presença é inteiramente outra.
É realmente importante renovar o nosso pensamento em muitos aspectos, eliminar por completo essas questões do espaço e compreender de novo. Tal como entre as pessoas existe a presença anímica – duas pessoas que estejam em continentes diferentes conseguem tocar-se, porque esta é uma dimensão diferente da espacial -, também Deus não Se encontra num lugar determinado, Ele é a realidade. A realidade que suporta todas as realidades. Para essa realidade eu não preciso de nenhum «onde», porque este «onde» já é uma delimitação, já não é o infinito, o Criador, que é o universo, que atravessa todos os tempos, mas Ele próprio não é tempo, cria-o e está sempre presente.
Creio que é preciso mudar muita coisa, tal como também se alterou toda a nossa imagem do ser humano. Já não são 6000 anos de história, segundo a imagem dada pelo calendário bíblico, mas não sei quantos mais. Deixemos em aberto essa questão desses números hipotéticos. Seja como for, com este conhecimento, a estrutura do tempo e da História é hoje diferente. Antes de tudo a teologia tem aqui de pôr mãos à obra e trabalhar mais profundamente para dar mais uma vez às pessoas possibilidades conceptuais. Neste aspecto, a transposição da teologia e da fé para a linguagem de hoje ainda é imensamente deficiente; é preciso criar esquemas conceptuais, ajudar hoje as pessoas a compreenderem que Deus não deve ser procurado num lugar determinado. Há muito a fazer. (…)
Ser amado e amar os outros de volta é algo que fui reconhecendo cada vez mais como fundamental para poder viver; para podermos dizer sim a nós próprios e aos outros. Finalmente, foi sendo para mim sempre mais evidente que Deus, Ele próprio, não só não é, digamos, um governador poderoso e uma autoridade distante, mas também é Amor e ama-me, e que a vida se deve por isso organizar a partir d’Ele, dessa força que se chama Amor.

Bento XVI, in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, pp.268-269 e 272.


As "últimas conversas", de Bento XVI (II)

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[o Cristianismo na Europa]

Não podemos desistir de anunciar o Evangelho. No mundo greco-romano, a iniciativa de alguns judeus de partirem à conquista, para o cristianismo, do grande mundo greco-romano erudito e inteligente também pareceu uma ideia totalmente absurda. Haverá sempre grandes insucessos. Não sabemos como a Europa irá evoluir, em que medida é que ainda será Europa no caso das histórias de outros povos lhe darem uma nova estrutura. Independentemente de qualquer cálculo de percentagem de sucesso, é absolutamente necessário anunciar essa outra Palavra que tem em si a força para construir o futuro, dar um sentido à vida das pessoas e ensiná-las a viver. Os Apóstolos não podiam fazer nenhum estudo sociológico para saber se resultaria ou não. Tinham de confiar na força interior dessa Palavra. No início, as pessoas que aderiram eram muito poucas e insignificantes, mas depois foram crescendo. É evidente que a Palavra do Evangelho pode desaparecer de alguns continentes. Vemos bem que as primeiras regiões cristãs – a Ásia Menor e o Norte de África – já não são cristãs. Pode também desaparecer de espaços onde a sua presença era forte. Mas nunca pode deixar de ser dita e nunca pode deixar de ser importante.
pp.230/231

É notório que já não somos coincidentes com a cultura moderna. A configuração fundamental cristã já não é determinante. Hoje em dia vivemos numa cultura positivista e agnóstica, que se tem mostrado progressivamente mais intolerante em relação ao cristianismo, o que fará com que a sociedade ocidental – pelo menos na Europa – não seja, assim sem mais, uma sociedade cristã. Os crentes terão de esforçar ainda mais por continuarem a moldar e serem portadores da reflexão sobre os valores e a vida. Importante será uma religiosidade mais decidida por parte de cada uma das comunidades e das igrejas locais. A responsabilidade torna-se maior.
pp.261/262

Diria que sou um Papa do período entre essas duas eras [uma era passada e uma nova era]. Já não pertenço ao mundo antigo, mas o novo também ainda não chegou verdadeiramente.
p.262

[sobre a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, conhecida como «encíclica contra a pílula»]
A Humane Vitae foi para mim, nas circunstâncias de então e no quadro do pensamento teológico em que me situava um texto difícil (…) nós, eu incluído, não considerávamos o tipo de argumentação satisfatório. Eu procurava uma visão antropológica mais abrangente.
p.186

Peter Seewald: Qual considera ser o seu ponto fraco?
Bento XVI: Talvez a governação resoluta e clara, bem como as decisões que têm de ser tomadas não sejam o meu forte. Neste aspecto sou de facto mais professor, alguém que pondera e reflecte sobre os assuntos espirituais. A direcção prática não é bem a minha qualidade, o que é, diria eu, uma certa fraqueza.
p.266

Cada qual tem o seu carisma. Francisco é um homem da reforma prática. Foi durante muito tempo arcebispo, conhece o ofício, antes tinha sido superior dos Jesuítas e tem designadamente coragem para as questões de carácter organizacional. Eu sabia que não era o meu ponto forte, e também não era necessário porque tinha havido a reforma da Cúria levada a cabo por João Paulo II.
p.222

Talvez eu tenha pensado e escrito demais, é possível. Mas dizer que fiz apenas isso também não corresponderia à verdade.
p.223

Na posição de cardeal da Congregação para a Doutrina da Fé, fica-se a saber de tantas situações, já que ali vão parar todos os escândalos. É preciso ter uma alma forte para poder suportar tudo isso. É sabido que há sujidade na Igreja, mas aquilo que se tem de digerir como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé é imenso.
p.229

Contudo, no geral, [o Pontificado] foi um tempo em que muitas pessoas despertaram de novo para a fé e houve uma enorme movimentação positiva.
p.267


Bento XVI, in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D. Quixote, 2017.


A encíclica preferida


Peter Seewald: Tem uma encíclica preferida? [de entre as que publicou] De qual é que gosta mais?

Bento XVI: Sim, talvez da primeira, Deus Caritas Est.

in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, p.237


quarta-feira, 22 de março de 2017

Social-democracia de taberna


Soaram-me a um completo falso unanimismo, em Portugal, as reacções às afirmações de Dijsselbloem sobre os países (e as pessoas) do Sul da Europa: qual foi o discurso predominante, no nosso país, como explicação da crise, pela qual também (e tanto) passámos (e passamos), durante os últimos sete anos? Não foi o de que as pessoas, as pessoas concretas, tinham gasto mais do que podiam, e que tínhamos vivido acima das nossas possibilidades (com enfoque individual/subjectivo)? A abordagem não foi aos plasmas que se compraram, às subscrições de tvcabo, aos automóveis adquiridos a crédito, às férias nas Caraíbas (de quem, supostamente, ganharia o salário mínimo, ou coisa parecida)? Então não foi este o discurso hegemónico, de cariz moralista, que não precisava de estudo - o que é uma união económica e monetária, os choques assimétricos, o tipo de moeda que temos, a abertura à China da OMC em 2000, o alargamento da União a Leste, a localização geográfica dos países e o tipo de economia que cada um destes possui e o que mais lhe convém, os desequilíbrios comerciais no seio da UE, a relação entre culturas diferentes e as políticas comuns, a diferenciação e concorrência fiscal (aceitável?), o projecto federal, etc., etc., etc. -, que passou das televisões, de figuras muito reverenciadas, adoptadas por inúmeros políticos e repetidas nos cafés? Pior do que o preconceito externo sobre os nacionais - ou os cidadãos da Europa do Sul - é, na verdade, compatriotas a tratarem seus congéneres como PIGS. Isso, sim, devia indignar, mas não indignou, e de que maneira. Aliás, se, hoje mesmo, se pedir à generalidade dos portugueses que identifiquem as causas da crise, e como não lhe deram melhores explicações - e a maioria não se interessa, nem tem possibilidades, a diferentes níveis, de gastar horas a ler ensaios políticos que foram sendo publicados entre nós a propor linhas bem mais complexas de interpretação dos nossos problemas económico-sociais -, o que esperar se não a ladaínha, triste e pobre, paupérrima, debitada semana após semana, ao longo de anos? Vale a pena dizer, entretanto, que por coincidência, ontem, um estudo, assinado (atente-se no título desta notícia, Afinal, as empresas e o Estado é que viveram acima das suas possibilidades), entre outros, por um ex-secretário de Estado do governo anterior, Fernando Alexandre, não deixava de sublinhar que não foram as famílias, mas antes as empresas e o Estado a gastarem em excesso ("“Às vezes, há uma leitura moralista destes dados dizendo que as pessoas vivem acima das suas possibilidades, mas as pessoas não são estúpidas”, afiança o investigador, considerando que “grande parte das despesas que as pessoas fazem não são consumo, são investimento“. Fernando Alexandre dá o seu próprio exemplo, notando que tem três filhos e que gasta “a maior parte do rendimento na sua educação”.). Segundo este académico, o que as pessoas gastaram em habitação - a esmagadora fatia do crédito concedido foi para esse efeito - fazia, evidentemente, todo o sentido (por muito que isso custe aos moralistas dos plasmas). Hoje, em todo o caso, um colunista do Negócios que é muito requerido por programas de tv que crêem que as pessoas não devem ser confrontadas com pensamento crítico, assume as palavras do presidente do Eurogrupo e coerentemente refere que aquilo que o holandês disse é o que "muita gente pensa" por cá, a começar, claro, pelo dito colunista. As pessoas que por diferentes motivos passam, diariamente, horas em frente aos televisores, às vezes em grande sofrimento, não mereciam que lhes oferecessem motivos suplementares de masoquismo. Parece que descobrimos o populismo com Trump, e o ranço com Dijsselbloem. Lamento informar: já cá estavam.


terça-feira, 21 de março de 2017

As "últimas conversas" de Bento XVI

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[A Igreja (alemã) e o Terceiro Reich]:

Conhecemos uma época em que o «novo Reich», o mito alemão, o alemanismo é que era, e o cristianismo, em especial o católico, era algo desprezível por ser romano e judaico (...) Nós conhecemos a Igreja em apuros (não quero dizer perseguida) e como um lugar de resistência (...) É certo que não houve [da parte da Igreja alemã] uma oposição fortemente ativa nem atos revolucionários. (...) É verdade que por vezes também o meu pai protestava por o cardeal Faulhaber não se opor mais claramente aos nazis; mesmo assim, ele testemunhou contra eles. (...) O meu pai também achava que os bispos deviam ter sido mais claros. Tudo bem, havia temperamentos diferentes, mas nunca tivemos a sensação de que a Igreja estivesse a colaborar. Só por si, o livro programático Der Mythos des 20. Jahrhunderts [O mito do século XX, de Alfred Rosenberg], veiculador da base ideológica, que era absolutamente anticristã, deixava antever a incompatibilidade.

pp.98-100


[Sobre a "mania da reverência" em certos meios eclesiásticos]

No quadro de uma visão moderna, não só tomámos consciência de que a mania da reverência estava errada e de que o sacerdote é sempre um servo, mas também trabalhámos interiormente e de forma intensa essa consciência, para nem sequer subirmos a esse elevado palanque. Eu nem me atreveria a apresentar-me como «reverendo». Ter consciência de que não somos senhores, mas servos foi para mim não só consolador, mas também pessoalmente importante inclusive para me poder ordenar. Para mim, essa frase [o lema «não somos donos da vossa fé mas servidores da vossa alegria", escolhido para a missa nova de Ratzinger] foi por conseguinte um motivo central. Um motivo que encontrei nos textos das Leituras, na leitura pessoal da Sagrada Escritura, nos mais diversos textos, e no qual me revia especialmente.

p.113


[Como se posiciona/enquadra Ratzinger]

Nós éramos progressistas. Queríamos renovar por completo a teologia e, com ela, também reestruturar a Igreja e torná-la mais viva. Estávamos, portanto, felizes por vivermos numa época em que se abriam novos horizontes e novos caminhos a partir do movimento de jovens e do movimento litúrgico. Queríamos avançar com a Igreja, e estávamos convencidos precisamente de que assim ela rejuvenesceria. Nós todos sentíamos um certo desprezo pelo século XIX, estava na moda na altura sentir isso. Por outras palavras, sentíamos desprezo pelo novo gótico e por aquelas figuras de santos um tanto kitsch, bem como pela religiosidade rígida e um tanto kitsch, e pelo sentimentalismo excessivo. Queríamos deixar tudo isso para trás, dando início a uma nova fase de religiosidade que, voltando às origens, se moldasse justamente a partir da liturgia e das suas sobriedade e grandeza, sendo por isso outra vez nova e moderna (pp.103/104). 
Naquele tempo, ser progressista não significava ainda abandonar a fé, mas sim aprender a compreendê-la melhor e a vivê-la mais correctamente a partir das origens. Na altura eu ainda achava que era isso que todos queríamos. O mesmo pensavam progressistas famosos como Lubac e Daniélou, etc. (p.156)


[sobre a necessidade de derrota, da aprendizagem com esta, da dificuldade de aprovação da dissertação e da angústia por ter estado, então, no limiar de ver chumbada essa prova]

Bem, doutorei-me muito rapidamente. Se tivesse conseguido logo de seguida a habilitação sem problemas, a consciência de ser capaz seria demasiado forte e a autoconfiança teria meio caminho andado. Assim, por uma vez, fui apoucado. Faz-nos bem de vez em quando reconhecer toda a nossa miséria e não nos apresentarmos como grandes heróis, mas sim como pequenos candidatos que estão à beira do abismo e têm de se habituar à ideia e ver o que irão fazer. Consequentemente, a lógica era que eu precisava de uma humilhação e que de certa forma fui justamente - neste sentido, justamente - humilhado (...) Isso [o sucesso académico subir à cabeça] não, mas, mesmo assim, precisamos de humilhações. Creio que atingir facilmente objectivo atrás de objectivo e ser louvado em tudo é perigoso para um jovem. É bom que ele aprenda a conhecer as suas limitações; não vá simplesmente de vitória em vitória, mas experimente também as derrotas. O ser humano precisa disso para aprender a avaliar-se correctamente; para aprender a suportar e, por último, mas não menos importante, para pensar nos outros. Ou seja, não fazer juízos rápidos e sobranceiros, mas também aceitar, positivamente, o outro nas suas tribulações e com as suas fraquezas.

pp.119/120

[sobre a política]

Nunca tentei fazer política; porém, pessoalmente, sempre tive um enorme interesse pela política e pela filosofia que lhe está subjacente. Sim, porque ela vive de uma filosofia. Ela não pode ser meramente pragmática, no sentido de «vamos fazer alguma coisa». Ela tem de ter uma visão do todo. Isso impressionou-me sempre muito (...) Hoje como ontem, sou um apoiante convicto de Adenauer.

pp.142-143

Bento XVI, em Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017


segunda-feira, 20 de março de 2017

Metamatemática e algorítmica do pensamento ocidental

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Num ensaio de 1999, "O crepúsculo das humanidades?", George Steiner questionava(-se) acerca de uma má definição - ou ausência dela, de delimitação, fronteira - de Humanidades (o que cabia no interior destas) enquanto sintoma desse mesmo crepúsculo enunciado em epígrafe:

Se há um consenso difuso sobre a inclusão no seio das humanidades da edição e da compreensão das literaturas do período clássico até à contemporaneidade (e aqui a questão da contemporaneidade coloca problemas quase políticos), se a filosofia, a história, a teoria e a história da arte estão ligadas às faculdades de letras e artes, qual será então o lugar das artes performativas, no âmbito humanístico? Será que a linguística teórica e formal, cada vez mais metamatemática e algorítmica, pertence aos litterae humaniores? E será que o mesmo sucede com aspectos econométricos da história económica (ou mesmo da própria história)? E o que dizer da lógica formal no que diz respeito ao discurso metafísico? Ou da filosofia da ciência e da musicologia mais teórica? Não será um elemento central daquilo que está a ser interpretado como uma crise a forma como a matematização exponencial do pensamento ocidental, depois de Descartes e Leibniz, reduziu fundamentalmente (e continua a reduzir) o outrora imperial terreno das humanidades?

George Steiner, As artes do sentido, Relógio d'Água, 2017, p.104 [tradução de Ricardo Gil Soeiro].

domingo, 19 de março de 2017

Notas dos jornais


1.O ministro do Trabalho, Vieira da Silva, "filosoficamente" está de acordo com a ideia, "perturbadora e interessante" da renda básica universal, mas "na prática" identifica "mais riscos" do que vantagens: menor propensão ao risco, e um olhar nada agradável para os beneficiários dessa medida. Para o governante, em (mini) entrevista, hoje, ao Público, não é grande ideia taxar robôs, porque a inovação pode ficar em causa, e as previsões de perda de postos de trabalho, em função da automação, não consegue (não conseguirão) integrar empregos que virão a ser criados. Estes, advirão da quarta revolução industrial, desta vez mais benéfica aos interesses nacionais, pois não são necessárias matérias-primas, ou outras condicionantes exógenas à nossa vontade ou valor. Vieira da Silva, um optimista sobre o futuro do emprego e de Portugal, "filosoficamente" à esquerda, mas na prática...muito longe de Benoit Hamon (pelo menos!).

2. 20 a 25% é quanto fontes parlamentares do PSD, que o SOL ouviu (e não é indiferente o jornal que ouviu as fontes parlamentares em causa), julgam como patamar mínimo para Teresa Leal Coelho, em Lisboa. Jorge Coelho, com cara de póquer, disse na Quadratura do Círculo, na passada quinta-feira que se tratava de "uma excelente escolha". Em centenas de edições em que participou, neste programa, foi a única vez que Jorge Coelho teve graça.   

3.A entrevista de Assunção Cristas, na passada segunda e terça-feira ao Público, caiu como uma bomba à direita: a ex-ministra estava na praia, recebeu um sms de María Luis Albuquerque e foi ao mail dar o ok à resolução do BES (estranha forma de governar e participar nas decisões do governo); em Conselho de Ministros, os assuntos da banca não foram tratados; ninguém no CDS-PP ficou choroso com a saída de Paulo Portas que, aliás, "não fez tanto" trabalho como Cristas tem feito nos dossiers levados ao Parlamento e, se quiser ser candidato a PR terá que "mudar de vida"; Passos não aceitou uma coligação a Lisboa, porque pensava que o Governo da República ia cair quanto antes; o livro de Cavaco está em lista de espera, e "não é uma prioridade", pois têm muito pouco tempo para ler e antes das memórias do ex-Presidente há "livros de literatura" a que dar vazão. Durante a semana, as opiniões dividiram-se: ou uma loba feroz na liderança do CDS-PP, ou uma ingénua. São José Almeida, no Público, acha que foi a entrevista da emancipação de Cristas, mas "não se sabe a que preço". O Sol garante que se o ambiente com o PSD era frio, depois destas considerações gelou.

4.Bem mais acutilante a (primeira parte da) entrevista a Cavaco Silva, feita pelo Público, do que aquela que havia sido realizada por Vítor Gonçalves, na RTP. Dominando melhor o dossier das escutas que, aliás, deu à estampa no jornal onde ainda se encontra, a entrevistadora provou que a haver criação de um facto político, ele só poderia ter vindo, então, da casa civil da presidência. Um caso para o qual não há boas explicações, nem nunca haverá. No resto, Cavaco regista que apesar da incompreensão do povo para o caso, "um dos maiores contributos" que deu ao país prendeu-se com "o estatuto político-administrativo dos Açores". Nessa altura, "é que se vê a fibra de um político", para a mais face "à cobardia" nunca vista, nem sonhada, dos "deputados". Além disso, a sua ação foi determinante para o fim da megalomania do aeroporto na OTA, que não se justificava, como sabia o ex-PR depois de ter estudado tudo o que havia sido publicado, pelos peritos, sobre a matéria. Como erro, não ter colocado condições para empossar Sócrates num segundo mandato, o que fez com que este abordasse, sem vontade de coligação, os demais parceiros partidários. 
Tendo saído, mesmo com crispação final, com um grande capital político como PM, Cavaco saiu bastante contundido de Belém. 

5. O despacho da Procuradora-geral da República indica que as pistas iniciais para que a investigação da Operação Marquês apontava não foram abandonadas. A ideia de que se começou com uma suspeita, que deu lugar à seguinte e desaguou em uma que nada tinha a ver com a inicial encontra-se, no despacho, desmentida. 

6. Não se entende como um formalista como Jorge Sampaio decide falar de um ex-PM como "o Santana Lopes" e  utilizar uma expressão com displicência como "fartei-me dele". Definitivamente, o tempo dos "institucionalistas" já era.

7. Sobre o nosso futuro transhumano, as notas de Anselmo Borges, no DN, ao livro de Luc Ferry: "http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/transhumanismo-e-pos-humanismo-1-5730228.html"

8. Pau-Marí Klose, no ELPAIS, e os modos de viabilizar o Estado de Bem-Estar: a necessidade de pré-distribuição.



sábado, 18 de março de 2017

Bento XVI e o futuro da Igreja


Sobre o seu sucessor, Bento XVI afirma, na entrevista a Peter Seewald, Conversas Finais, que se trata de "uma lufada de ar fresco na Igreja, uma nova alegria, um novo carisma com o qual as pessoas se identificam; de facto, é algo bonito" (p.60). A quando da sua eleição, Bento XVI ficou surpreendido ("foi por isso uma enorme surpresa para mim", p.54). Não que tivesse um nome na cabeça, mas um perfil ("não alguém em concreto, mas uma pessoa diferente, sim (...) não pensei que ele fosse um dos candidatos pré-seleccionados", p.55); ainda que o nome de Jorge Mario Bergoglio tivesse surgido com força no conclave que elegeu Ratzinger, a partir daí não mais tinha aparecido e o Papa Emérito não estava a pensar no argentino para Papa ("mas depois a sua forma, por um lado, de rezar e, por outro, de falar ao coração das pessoas acendeu imediatamente a centelha", p.54). Conhecia-o das visitas ad limina, tinha-o como um homem resoluto da argentina ("alguém que, na Argentina, de um modo bastante resoluto, afirmava: 'Isto faz-se e isto não se faz». Não conhecia a sua faceta afectuosa, de dedicação muito pessoal às pessoas", p.55), mas encontrou, agora, um afecto, um apego às pessoas, um calor que desconhecia. 
Francisco não consulta Bento XVI constantemente. Mas envia-lhe documentos - como exortações apostólicas - com especial reverência e simpatia. Sobre a Evangelii Gaudium: "Não é um texto pequeno, mas é bonito. Foi escrito de uma forma que nos prende. Certamente nem tudo é dele, mas contém muita informação pessoal" (p.59). Ou seja, Francisco "é certamente também um Papa da reflexão. Ao ler a exortação apostólica Evangelii Gaudium ou ainda as entrevistas, constato que é uma pessoa meditativa, alguém que trabalha intelectualmente as questões modernas" (p.57). Em todo o caso, Bento XVI acha "bem que que ele [Francisco] estabeleça um contacto tão direto com as pessoas, Pergunto-me naturalmente, quanto tempo é que ele irá aguentar, porque duzentos ou mais apertos de mão, e por aí adiante, todas as quartas-feiras, exige muita-força" (p.58) Vindo da Argentina, o Papa Francisco é também italiano, símbolo de uma união entre o antigo e o novo, no mundo católico que assim bebe uma inspiração tão necessária:

"Significa que a Igreja se mexe, é dinâmica e aberta e nela estão em curso novos desenvolvimentos. Significa que ela não ficou cristalizada num qualquer modelo. Antes pelo contrário, há sempre qualquer coisa de surpreendente a acontecer, ela tem uma dinâmica que a pode renovar constantemente. Admirável e encorajador  é o facto de precisamente também no nosso tempo acontecerem coisas de que não estávamos à espera e que mostram que a Igreja está viva e cheia de novas possibilidades. Por outro lado, era de esperar que a América do Sul tivesse um papel importante.  É o maior continente católico e, ao mesmo tempo, o mais sofredor e o mais problemático. Possui de facto grandes bispos e, apesar de todo o sofrimento e todos os problemas, também conta com uma Igreja muito dinâmica. Nessa medida, de alguma forma, era também a hora da América do Sul, sendo que o novo Papa é simultaneamente interior entre o antigo e o novo mundo, bem como a unidade interior da História (...) É evidente que a Europa já não é o centro da Igreja Universal. Pelo contrário, a Igreja surge agora verdadeiramente na sua universalidade, tendo o mesmo peso em todos os continentes. A Europa mantém a sua responsabilidade, as suas tarefas específicas. A fé na Europa tem-se enfraquecido de tal maneira que isso, só por si, faz com que apenas de forma limitada ela consiga ser a verdadeira força impulsionadora da Igreja Universal e da fé na Igreja. E vemos também que, através de novos elementos (por exemplo africanos, sul-americanos ou filipinos), há uma nova dinâmica que entra na Igreja e renova um pouco o Ocidente cansado, volta a dinamizá-lo, desperta-o mais uma vez do cansaço, do esquecimento da sua fé. Quando penso designadamente na Alemanha, lembro-me de que aí há certamente uma fé viva e um profundo empenho em Deus e nas pessoas. Contudo, por outro lado, temos o poder das burocracias, que está presente, a teorização da fé, a politização e a falta de uma dinâmica viva, que ainda por cima, sob o peso das estruturas, muitas vezes parece ser quase esmagada, pelo que a valorização de outros pesos na Igreja Universal e a nova evangelização  da Europa a partir do exterior são encorajadoras. (...) Não é apenas a Igreja, no seu todo, que influencia a igreja local. Segundo São Paulo, a doença de um qualquer membro afecta todos. O empobrecimento da fé na Europa, por exemplo, é também uma doença para os outros continentes" (pp.56-57 e 60)

Uma renúncia explicada


Sobre a renúncia de Bento XVI, a explicação do próprio não eliminará as desconfianças de muitos, nem, evidentemente, poderia (poderá) esgotar a leitura (plural) do seu significado. No entanto, sobre este ponto, o Papa Emérito, no livro de entrevistas com Peter Seewald, Conversas Finais, é bem claro, ao afirmar que não foi empurrado, nem pressionado para sair - e, caso tal tivesse sucedido, então é que permaneceria, mesmo, no cargo. Nem, tão pouco, em algum momento, causaria um escândalo para provocar uma limpeza na Igreja (p.50). Pareceu-lhe que o que tinha a dar, estava dado (à Igreja), o cansaço das viagens ao México e Cuba tremendos, o horizonte das Jornadas Mundiais da Juventude, no Brasil, demasiado penoso - o médico proibira-lhe viagens para a América. Só porque tudo estava pacificado, aduz, pôde tomar a decisão, comunicada em latim (p.44), porque uma decisão tão relevante teria que ter tal solenidade. A ideia de que já não consegue cumprir as funções inerentes ao Pontificado pode cair em âmbito de uma interpretação excessivamente "funcionalista", da sua parte, do Papado, mas há limites que lhe pareceram, mesmo, inultrapassáveis. O exemplo de João Paulo II estava contextualizado num Pontificado longo, num século em que o seu antecessor tinha carregado "o mundo aos ombros" e aquele martírio se incluía em tal lógica; a um pontificado de 8 anos, não poderia juntar-se 8 anos no mesmo estádio de doença (que se vira a J.Paulo II). E, na verdade, "não podíamos repetir a experiência [de J.Paulo II] indefinidamente" (p.48). Em todo o caso, o entrevistador não deixa de questionar, comentando o significado de um gesto: "Não foi certamente por acaso que a sua última grande celebração litúrgica coincidiu com a Quarta-feira de Cinzas. Foi como se dissesse: «vejam, era até aqui que eu vos queria conduzir: purificação, jejum, arrependimento"(p.61). Ao que Bento XVI responde, não contraditando propriamente in limine, no fim da resposta: "Ter, por um lado, o Sábado Santo a prevalecer sobre o início da minha vida e, por outro, a Quarta-feira de Cinzas, com os seus múltiplos significados, a recair sobre o fim do meu serviço concreto foi algo pensado, mas também aconteceu assim" (p.61). Rejeitando a ideia de que com a sua decisão tenha secularizado ("um cargo como os outros") o Papado (até porque, exemplifica, também os Bispos não ficam no lugar até ao fim, o que não os dispensa de particulares responsabilidades e cuidado para com a ecclesia), Bento XVI reconhece, contudo, que com a sua renúncia "o carácter humano [do Papado] se tenha tornado mais evidente"(p.54). Talvez o choque tenha sido superior ao que o próprio pensava, houve quem gostando da sua mensagem se sentisse em luto pela perda de um mestre, mas não dormiu especialmente mal na noite anterior de revelar a sua decisão, tomada em Agosto de 2012, aos cardeais e ao mundo. Peter Seewald que fez um conjunto de livros-entrevista com Joseph Ratzinger, e ganhou a sua consideração, não tem dúvidas na nota que deixa na Introdução: "por fim, mas não menos importante, o acto histórico da sua renúncia transformou profundamente o ministério petrino. Devolveu-lhe a dimensão espiritual que lhe tinha sido originalmente confiada" (p.22)

Uma auto-crítica


Provavelmente, não estive de facto muito no meio das pessoas.

[Bento XVI, questionado por Peter Seewald, acerca de que características do seu Pontificado estariam a ser corrigidas pelo Pontificado do Papa Francisco, Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, p.58]

O prazer da contestação


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Sim, ele está cá, o prazer da contestação, é verdade.

[Bento XVI, questionado por Peter Seewald, sobre a rebeldia como uma das características de personalidade - em episódios desde a escola, até ao treino militar - em si presentes, em Bento XVI.Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, p.79]

Como nós?


O que caracteriza o ser humano, a pessoa? Isto é, o que lhe é específico, próprio, particular, não partilhável com os demais seres e espécies? Há, hoje, uma forte corrente científico-filosófica para a qual entre o Homem e os outros animais a diferença é apenas de grau. De outra banda, estão os que pensam – entre os quais me incluo – que não há apenas uma diferença de grau, mas existe, mesmo, uma diferença qualitativa aqui. O filósofo Pedro Entralgo propõe que a melhor forma de comparação é a conduta humana observável. Assim, verifica que de entre todos os seres da Terra, só o Homem é livre, só ele tem a capacidade de razão abstracta, de autoposse, só ele tem a noção de ser sujeito de obrigações (deveres) para lá das instâncias meramente instintivas, só ele pode rir e sorrir, só ele é animal simbólico, só ele é capaz de amor de doação; o animal também sabe, mas só o Homem sabe que sabe, só ele é capaz de autoconsciência, de linguagem duplamente articulada, de sentido do passado e do futuro, de promessas, de criação e contemplação da beleza, de descida à sua intimidade e subjectividade pessoal, só ele sabe que é mortal, só ele pergunta e fá-lo ilimitadamente, só ele cria instituições jurídicas e compõe música, só ele tem de confrontar-se com a questão da transcendência e do Infinito: “outra característica sua essencial é a busca de sentido. Enquanto os outros animais aparecem feitos, o Homem, por causa da neotenia – nascimento prematuro -, aparece no mundo por fazer e tem de fazer-se. Daí a pergunta: fazer-se como e para quê, com que meta e objectivo?”[1]



[1] A.BORGES, Deus e o sentido da existência, Gradiva, 2011, p.57.

Competências de leitura


A escrita de qualquer obra depende, em larga medida, do contexto social e cultural. Também a leitura. Escrita e leitura têm, portanto, como referentes implícitos códigos socioculturais que podem coincidir ou não. Se coincidem, a leitura é imediata. Se não coincidem, uma leitura imediata produz inevitáveis mal-entendidos. O problema torna-se exemplarmente evidente na leitura moderna da literatura medieval. A sociedade medieval concebia-se como parte de uma totalidade metafísica de que o mundo material era o aspecto visível. Por isso, a literatura medieval visava sempre a designar o concreto para significar o abstracto. A realidade concreta tinha, enquanto real e concreta, um valor semântico metafórico. Não hoje. E o leitor moderno que não refira o discurso medieval ao código sociocultural nele implícito entenderá, em função do seu próprio código, a designação da realidade concreta como a sua significação última. Na pior das hipóteses, o texto torna-se incompreensível por absurdo. Na melhor - o texto fará sentido, mas erradamente, porque terá parecido fazer sentido total.
Exemplo do primeiro perigo, no campo da literatura portuguesa, é a persistente incompreensão dessa obra-prima de um Renascimento ideologicamente medieval que é a Menina e Moça

Hélder Macedo, Uma cantiga de D.Dinis, in Camões e outros contemporâneos, Presença, Lisboa, 2017.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Inteligências múltiplas


Howard Gardner, o psicólogo que propôs, em 1983, a teoria das inteligências múltiplas - quer dizer, não é o QI que importa medir, mas, bem melhor, cuidar das diferentes inteligências, que estão presentes em diferentes pessoas, e potenciá-las; assim, também a escola devia atentar nessa diversidade: inteligência linguística (capacidade de compreender, usar e explorar a linguagem falada e escrita); inteligência lógico-matemática; inteligência musical; inteligência cinestésico-corporal (p.ex., capacidade de comunicar através do corpo; presente especialmente em actores, bailarinos, desportistas); inteligência espacial (p.ex., habilidade para organizar o espaço; arquitectos ou escultores possuem essa capacidade, p.ex). Em 1999, Gardner acrescentaria à sua lista, num novo livro (Intelligence Reframed) a inteligência naturalista (aptidão para diferenciar as espécies, encontrar padrões na natureza; p.ex., botânicos ou biólogos) e a inteligência existencial (capacidade de reflectir acerca da nossa própria existência e da relação do Homem com o mundo. Pessoas que se questionam sobre o propósito da nossa existência no Universo, que relacionam o pequeno e o infinito, que se debruçam sobre as grandes questões filosóficas). Diz Rui Lima: provavelmente, esta última é a que menos encontramos na escola (demasiado centrada, ainda, nas duas primeiras inteligências, aqui mencionadas).

quinta-feira, 16 de março de 2017

Choque de classes médias (mundiais)


Em vez do choque de civilizações, a guerra em curso, o que mais desestabiliza, nesta altura, o globo são os ganhos e perdas de diferentes classes médias, pelo planeta. A interpretação de Moisés Naím.

Por falar em politicamente correcto (II)


Há dias, durante a sessão distrital do Parlamento dos Jovens, diz o deputado sénior, na introdução aos trabalhos: vejam como progredimos, que maravilha: quando começámos, há uns anos, estas sessões, tínhamos 1/3 de deputadas e hoje temos aqui 2/3 de representantes femininos! Qual o motivo para que um colégio de representantes com uma sub-representação feminina seja uma tragédia e esse mesmo colégio com uma sub-representação masculina seja olhado como razão de júbilo e o estado adequado das coisas?


domingo, 12 de março de 2017

Cínico, mas também lúcido - um grande livro de Michel Houellebecq (IV)


6. Daniel faz-se à vida como “one man show” (p.20), nada mais apropriado aos tempos (híper-individualistas), sendo o “bobo” – e o narrador reflete acerca do humorista como o colaboracionista que evita(va) ao mundo revoluções dolorosas e inúteis, pois que responde ele, com as suas piadas, sketches e outros motivos, com violência à violência (do mundo) - que converte todo o tipo de estereótipos sobre comunidades (particulares) em motivo de escárnio, fazendo do obsceno um veículo de atracção de massas. No mesmo espectáculo, congrega piadas anti-islâmicas e anti-semitas (p.41). Ele que passa pelo cinema (p.41), tem um último espectáculo precisamente intitulado “100% de ódio” (p.50). Chega a ter 6 milhões de euros (p.27). E não lhe escapa o que isso significou quanto ao modo como encarou o trabalho: “fora de certo modo uma espécie de puta, adaptara-me ao gosto do público” (p.174). A escrita, contudo, nesta narrativa de vida que enceta – e quanto à narrativa da vida, não há regras (p.26) –, e em particular a quando da perda no/do amor, dava-lhe “a ilusão do auto-controlo” e isso “permitia-me não desabar” (p.340). Até porque “é graças à memória que o sono não destrói de modo nenhum a sensação de identidade” (p.25).
As memórias de Daniel não são, em qualquer caso, um mero adentrar sociológico num dado espaço-tempo; elas são, em grande medida, uma reflexão existencial de quem parte da premissa de que “a vida não tinha [tem] nada de divertido” (p.174). “Na primeira parte da vida, só sabemos da felicidade quando a perdemos; depois, sabemos que quando começamos a viver uma felicidade a acabaremos por perder. Na terceira fase, a antecipação da perda de felicidade inibe a própria vida” (p.143). A juventude “era o tempo da felicidade, a sua única estação” (p.321). A maior parte das pessoas nasce, envelhece e morre sem conhecer o amor (p.144). A humanidade, já se sabe, está longe de ser grande coisa, na mundividência de Daniel1: “é uma tendência da sociedade (…) uma tendência geral para a barbárie, não há nenhuma razão para esta seita [elohimita, no interior da qual se registam homicídios e lutas fratricidas pelo poder] escapar” (p.299). Fox, o cão, era “o único ser digno de ter sobrevivido” (p.393), segundo o clone neo-humano do narrador que, acerca da vida, ela mesma, não era propriamente mais optimista que o seu antecessor: “o simples facto de existir era só por si uma desgraça” (p.390); “apreendia o meu corpo como um veículo de nada. Não fora capaz de ascender ao Espírito; continuava, no entanto, à espera de um sinal” (p.386). Este ser “nunca tivera decisões nem iniciativas a tomar, esse processo era-me totalmente estranho” (p.365), numa vida, aliás, organizada/regida pela Irmã Suprema, uma guia à laia de big brother (totalitário). E que lá pelo séc.XXIV vivia completamente isolado, rodeado de umas criaturas, os “selvagens”, que na economia do livro de Houellebecq como que são o mais aproximado dos (antigos) humanos: a “brutalidade das suas relações, com a ausência de compaixão pelos idosos e pelos mais fracos, pelo apetite indefinidamente renovado de violência, de humilhações hierárquicas ou sexuais, de crueldade pura e simples” (p.386). Havia, aqui, uma perenidade que se entendia observar: “as cenas a que eu assistira perto de Alarcón, ela vira-as repetir-se, quase as mesmas, em Nova Iorque – embora as tribos se encontrassem a distâncias consideráveis e não tivessem há sete ou oito séculos nenhum contacto” (p.386).
Interessado no religioso porque, como pontuou com grande sagacidade, ele tem a capacidade/natureza de permear/influenciar/determinar todos os sectores da vida social, Daniel que encontrara um católico com dificuldades de relacionamento sexual em virtude da sua filiação religiosa, no entanto “quando discutia com um cristão ou muçulmano no liceu tinha sempre a impressão de que a sua crença era de ‘segundo grau’: era evidente que eles não acreditavam, diretamente e no verdadeiro sentido, na realidade dos dogmas apresentados, mas de que se tratava de um sinal de reconhecimento, de uma espécie de palavra-passe que lhes facultava o acesso à comunidade dos crentes” (p.212). O seu clone, quando passa por “condições extremas” lamenta “a ausência de Deus, ou de uma entidade da mesma ordem” (p.384) a quem se dirigir [assunto de há muito arrumado no séc.XXIV; ao mesmo tempo, a resposta necessária face ao mal, no sentido de Pascal: é absurdo que Deus não exista – na medida de uma reparação final (necessária/urgente); embora também “é absurdo que Deus exista” em face do mal, para o francês; de qualquer modo, fica uma dada concepção e imagem que muitos possuem de Deus (como bombeiro)].
Num sublinhado curto, mas incisivo Daniel alude àqueles que “pelo simples facto de serem pais seriam [viriam a ser] julgados culpados” (pelos filhos) (p.327). Como que de tal sorte sublinhando ser essa a condição da parentalidade; dada a sua intrínseca imperfeição, a sobrevinda da crítica, o elenco de faltas ou falhas [pelo dedo acusador da descendência…que dali a nada se transformará em acusada, assim mude de papel]. Mal nasce, o pai ou a mãe, é culpado, pois que não foi – nunca será – perfeito. A sua “culpa” inapelável e nunca superada.
Em uma visão sombria da vida, dos humanos e do estádio civilizacional em que se encontra (em que nos encontramos), Daniel não pode contemplar ou conferir, como não contempla nem confere, qualquer carácter salvífico às suas memórias: as pessoas, mesmo que soubessem que o humorista/escritor estava a redigir acerca de um grande acontecimento “não se importariam, porque estavam habituadas a uma vida insípida e a um comentário” (p.302). O comentário insere-se na lógica do achismo quotidiano, que sobre cada assunto tem uma opinião, para no fundo não levar nada a sério, no meio da cacofonia (de que participa); o comentário da sociedade dos comentadores que merecia ser substituída pela sociedade dos artistas, bem mais inspiradora, seguramente (Tolentino de Mendonça).

Numa conferência, na Culturgest, há cerca de um ano, Maria Filomena Molder recordava que, em As razões de ser, Fernando Gil dizia que viver não é um facto, é um bem. Viver não é um facto empírico – eis o que a frase quer dizer. Mesmo os elementos da respiração (“ganhar o fôlego”, “perder o fôlego”), os elementos fisiológicos não são apenas elementos fisiológicos, são elementos da nossa vida. Ao serem elementos da nossa vida entram numa relação entre a confiança e adesão ao facto de termos nascidos. Mas mesmo antes de termos nascido nós não somos um facto: “nós fomos esperados na Terra” (Walter Benjamim). A próxima criança a nascer não é um facto; é um bem. Isto tem a ver com a experiência de aceitar viver. E o aceitar viver remete para o antes de qualquer experiência: a do recém-nascido. Ele come. Ele olha, toca. Pré-experiência: a criança agarra-se à vida (“nós agarramo-nos à vida”; e Sá de Miranda agarra-se à vida: “aquela esperança…”; ele já bebeu a dor inteira desta ruína). Confiança originária. Será terrível colocar em causa essa confiança, esse princípio da existência. Mas depois é necessário um esforço de despertar para a vida. Esse esforço é um exercício espiritual: não no sentido religioso, mas numa disposição para a vida. Lembra-te de viver, de Goethe, é o mote (um leit-motiv na obra de Goethe)”.

Se tivéssemos que nos recolher a autores para quem a vida é um bem, na qual importaria depositar confiança, há um dom que importa agraciar e talentos a colocar a render, então, evidentemente, como pontos de partida, a ideia da vida como “desgraça”, a existência como incessante “dor de ser”, a imagem que retiramos desse mundo na mediação humana – sempre com lobos ferozes por rostos e companheiros, em vez de seres que fazem do amor, do apego, o essencial e entendem a alma, a dimensão espiritual como algo que lhes permite tocar os valores eternos – bem, verdade, beleza - não seria, evidentemente, à cosmovisão expressa pelo narrador Daniel que recorreríamos.
Todavia, se a partir de um ponto de vista em que queremos perseverar nessa confiança na vida e no mundo, se a mundividência postulada passa pela necessidade da relação, de um forte vínculo e preocupação com o outro, então a crueza, a brutalidade, a violência extrema de um universo povoado de átomos que são indiferentes ao que quer que seja – sem riso e sem lágrimas -, incapazes de se perguntar por qualquer sentido – nenhuma conversa séria – e deixando de fruir das grandes indagações filosóficas e teológicas que marcaram a sua caminhada (algo agora simplesmente inacessível, com o aniquilamento da religião, sob o signo do cristianismo, e da Filosofia, pelo culto do cientismo, do tecnológico), nesse mundo onde todo o dissenso foi castigado, nesse cosmos de humanos que não passam de exclusiva biologia, então, dizíamos, a denúncia sem equívocos de Michel Houellebecq adquire uma grandeza incontestável em virtude do seu talento literário (e de um background onde avultarão, nesse sombrio sobre a existência, Nietzsche ou Schopenhauer).
A propósito deste romance, e da distopia que ele encerra – o fim do amor, das relações como a libertação/emancipação da humanidade; o isolamento como a nova condição, num humano maquinal e petrificado, no qual apenas a razão instrumental permanece - Leonidas Donskis faz suas as palavras de Slawomir Mrozek: “o amanhã é o dia de hoje exceto por chegar um dia depois”. “A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq, é uma teoria sociológica da morte da sociedade, uma teoria apresentada sob a forma de literatura e que desenvolve uma narrativa convincente. A morte da sociabilidade na fase tardia da modernidade não é uma fantasia. As pessoas já não querem estar juntas. Já não têm razão alguma para ficar umas com as outras”. Assim, “tudo o que resta da sociedade são indivíduos atomizados, solitários, fragmentados, com um frágil poder de associação. O seu único problema é consigo mesmo e com a sua morte e extinção. Uma cultura viva cria as suas próprias formas de vida. Uma cultura moribunda já não cria mais nada, apenas se interpreta” (Donskis). Num universo muito marcado pelo determinismo, o fatalismo assacado ao fim das próprias relações humanas, de cada relação que entabulamos, parece querer surgir como resposta - na narrativa de Houellebecq. Contudo, testando-o até ao extremo, circunscreve um limite que irrompe enquanto esperança, e esta com(o) uma força da natureza que não adquiriria num texto delicodoce: “a história das relações humanas é sempre cíclica: elas começam, desenvolvem-se e depois definham silenciosamente. Só uma pessoa amada ou amiga pode romper o ciclo e superá-lo. Vencer o ciclo das relações humanas e a sua morte constitui a própria essência do amor e da amizade” (L.Donskis). Como Daniel sabia, “acabamos sempre por morrer de amor ou falta de amor” (p.146). Um amor inscrito em/mediado por Esther: “não sobreviveria à sua partida [para Nova Iorque, para uma Academia de Piano, e para representar uma peça de Sócrates]” (p.273). A perda do amor seria uma verdadeira “catástrofe” e aí estava a angústia pronta a devorar (p.274). É na debilidade da ferida, na inocência talentosa – e talento é algo que falta aos sem carácter, desenvolve – que Daniel se oferece na beleza da lágrima, na redenção do sentimento, na verdade do viver [num inusitado golpe romântico, de alguém que, porém, assume as suas “oscilações ciclotímicas entre o desânimo e a esperança”, p.349]: “ao mesmo tempo, tornara-me um perfeito cachorro, que um simples torrão de açúcar teria bastado para apaziguar (…) mas ninguém me ofereceria esse torrão de açúcar” (p.341). Numa palavra, “um pouco sentimental, um pouco cínico” (p.327).
Podemos, pois, dizer que nesta obra “ainda assim, Houellebecq deixa-nos uma palavra de esperança (…) As suas palavras sobre o amor como mistura de desejo e compaixão transformam-se na esperança do homem líquido moderno (…) O breve e infeliz amor de Daniel por Esther (…) isso é esperança. Se a extinção dos poderes de comunidade, sociedade e sociabilidade representa o começo do fim do mundo, e se os indivíduos que se usam uns aos outros, mas não se querem ver nem ouvir, aceleram a autodestruição mútua, então esse ciclo só pode ser superado por uma vitória, mesmo que apenas momentânea, sobre o determinismo: por exemplo, uma inesperada palavra de compaixão” (L.Donskis).
O desiderato de despertar para a vida pode ribombar com um tremendo som estridente de um chicote usado sem clemência – “A possibilidade de uma ilha, de Houellebecq é a primeira grande distopia do século XXI, até agora sem rival, destinada e feita sob medida para a era da modernidade líquida, desregulamentada, obcecada pelo consumo e individualizada” (Donskis) - pela pena de um autor que, em qualquer caso, mesmo no mais tenebroso dos cenários encontrou espaço para a alteridade.  


(conclusão)