terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O fim do tempo e o tempo do fim


Faz hoje, 28 de Fevereiro, às 20 horas, precisamente 4 anos que Bento XVI assumia o fim do seu ministério petrino (a renúncia fora anunciada a 11 de Fevereiro). Numa decisão que, pela sua raridade não deixou de causar estupefacção, vários foram os contextos de interpretação ensaiados sobre a mesma. Poucos, creio, com a densidade com que o filósofo Giorgio Agamben mergulhou nos textos bíblicos, na Tradição e nos escritos do próprio Ratzinger, dando origem a um livrinho intitulado El misterio del mal. Benedito XVI y el fin de los tiempos (Adriana Hidalgo, 2013), cuja síntese e principais sublinhados procuro deixar a seguir.

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Da renúncia de Bento XVI

Giorgio Agamben nota como a decisão de renúncia de Bento XVI foi meditada: a 4 de Julho de 2009, o Papa deposita, sobre a tumba do Papa Celestino V, em Sulmona, o pálio que recebera no momento da sua investidura. Ora, Celestino V (séc.XIII) também renunciara, e o Papa Bento quase que fez suas as palavras então registadas pelo Sumo Pontífice: debilitas corporis e infirmitas personae são os argumentos, mutatis mutandis, alegados pelos Santos Padres para a renúncia.
Ainda que, sem dúvida, regista o filósofo, tais motivações sejam verdadeiras e devam ter acolhimento, elas estão longe de esgotar o significado do gesto. Sobretudo, em Fevereiro de 2013, não se ignorava o que as fontes antigas asseguravam acerca da renúncia de Celestino V: “fraudes e simonias da corte”. Logo, o “carácter exemplar” da decisão de Bento XVI, nomeadamente para as nossas sociedades, dado que ela encerra, em si mesma, o carácter performativo de questionar radicalmente a razão última de um agir e, mais ainda, de um existir (pessoal/institucional): se a crise que atravessamos é tão profunda, é porque ela não se coloca somente ao nível da legalidade, mas, bem mais, da legitimidade. De aí, que não baste, hoje por hoje, o recurso ao poder judicial para resolver o que nos corrói mais densamente e, bem assim, tenhamos que anotar como a “hipertrofia do direito”, a tendência legiferante assinale “a perda de toda a legitimidade substancial” (p.13). Em realidade, “as instituições de uma sociedade apenas se mantém vivas se estes dois princípios (que na nossa tradição também receberam o nome de direito natural e direito positivo, de poder espiritual e poder temporal ou, em Roma, de auctoritas e potestas) continuarem a estar presentes e atuarem nelas sem pretender coincidir jamais” (p.13). Desde logo, portanto, Agamben assinala: “estamos convencidos de que, cumprindo a ‘grande renúncia’, Bento XVI deu prova não de vileza (…) mas de uma coragem que hoje adquire um sentido e um valor exemplares” (p.11). Afirmar a necessidade e pertinência daqueles dois princípios essenciais – legitimidade e legalidade – não significa, contudo, ordená-los de modo hierárquico, nem fazer com que um se sobreponha ao outro (como sucedia quer no caso e no tempo – como o medieval - de um poder espiritual triunfante e inquestionado, quer, inversamente, quando os Estados totalitários, no séc.XX, prescindiram do princípio da legalidade). E não se subsuma, nos nossos dias, ainda, o princípio legitimador da soberania popular ao momento eleitoral, como que (se) resolvendo “em regras procedimentais juridicamente pré-fixadas”, com a legitimidade a correr “o risco de desaparecer na legalidade” (p.14). Aqui, se prefigura, como nunca, a grandeza e ousadia do que Bento XVI reivindica: “por isso, o gesto de Bento XVI nos parece tão importante. Este homem, que era o chefe da instituição que ostenta o mais antigo e pregnante título de legitimidade, com o seu gesto vem colocar em questão o próprio sentido desse título. Frente a uma cúria, esquecida por completo da sua legitimidade, seguindo obstinadamente as razões da economia e do poder temporal, Bento XVI optou por usar apenas o poder espiritual, da única maneira que viu possível, quer dizer, renunciando ao exercício do vicariato de Cristo. Desta forma, a própria Igreja foi colocada em questão desde as suas raízes” (p.15)
O ensaio de Giorgio Agamben resulta de uma conferência – agora retomada com acertos, mas no essencial intocada, para reflectir sobre a renúncia de Bento XVI, mais ainda, do seu significado para as nossas sociedades hodiernas, contando com apêndice com os principais textos que evoca ao longo da sua dissertação -, por si proferida a 13 de Novembro de 2012, em Friburgo (Suiça), por ocasião do outorgamento da distinção honoris causa em Teologia. Neste contexto, não deve estranhar-nos a competência e proficiência do autor no estudo, investigação, conhecimento bíblico e da Tradição e, de modo especial, em esta estação, dos escritos eclesiológicos – não textos de divulgação, que têm o seu lugar, sublinhe-se, mas textos “técnicos”, de uma visão teológica mais aprofundada e densa – de Bento XVI. Em particular, Agamben toma o artigo de 1956, na Reveu de Études augustiniennes, que Joseph Ratzinger publicou com o título Beobachtungen zum Kiechenbegriff des Tyconius im Liber regularum [Observações sobre o conceito de Igreja no Liber regularum de Ticónio], para mostrar como o verdadeiro tratado de eclesiologia presente no autor que se revelou indispensável e sem o qual não se compreende Santo Agostinho, o marcou, seu olhar sobre a essência e o destino da Igreja, de modo determinante: “o conteúdo essencial da doutrina do corpus bipartitum consiste na tese de que o corpo da Igreja tem dois lados ou aspectos: um, esquerdo e outro, direito; um, culpável, e outro bendito, que constituem, sem embargo um só corpo”, escreve Ratzinger, que completa: “Não há nele [em Ticónio] essa clara antítese entre Jerusalém e Babilónia, tão característica de Agostinho. Jerusalém é, simultaneamente, Babilónia, inclui-a em si mesma. Ambas constituem uma única cidade, que tem um lado ‘esquerdo’ e um outro ‘direito’. Ticónio não desenvolveu, como Agostinho, uma doutrina das duas cidades, mas antes de um só cidade com dois lados”. A consequência desta exposição é, para Ratzinger, a seguinte: “a Igreja é, à vez, – até ao Juízo Final -, a Igreja de Cristo e a Igreja do Anticristo” (pp.17-18). Poucas vezes tão intensamente descrita, esta última, como na lenda do Grande Inquisidor, em Os irmãos Karamazov, de Dostoievsky (como recorda Agamben, p.23). E, no séc.IV, uma escola de pensamento via neste carácter bipartido da Igreja a causa do atraso da parusia.
Se estes dois corpos estão actualmente fundidos e irão ser separados no fim dos tempos, estribando-se Ticónio, na sua exposição, na célebre (e enigmática) passagem da Segunda Epístola de S.Paulo aos Tessalonicenses que contém uma profecia sobre o fim dos tempos, e se Bento XVI, a 22 de Abril de 2009, em audiência geral, volta a retomar Ticónio para fazer compreensível o “mistério da Igreja” hoje, Agamben retira a conclusão de que Ratzinger, ademais chamando a Ticónio “grande teólogo”, coloca sobre aquela concepção eclesiológica – e, com certeza, sobre a Igreja que então o próprio Bento XVI observa – a chancela do Bispo de Roma (o que “não é, em absoluto, indiferente”, p.25). Reitera o Professor de Iconologia no Instituto Universitário de Arquitectura de Veneza: não se trata, tão só, do entendimento da Igreja como sendo permixta, mas ainda, e não menos relevante, das “implicações escatológicas”, da “grande discessio”, a grande separação a ocorrer no fim dos tempos: “a abdicação não pode não evocar, nesta perspectiva, algo assim como uma discessio, uma separação da Igreja decora [justa] face à Igreja fusca [negra]; e, não obstante, Bento XVI sabe que esta pode e deve ocorrer apenas no segundo momento da segunda vinda de Cristo, que é precisamente o que a bipartição do corpo da Igreja, actuando como Katékhon [‘o poder que trava’], parece destinada a atrasar”(p.26).
Mesmo que se diga, com Troeltsch, que a Igreja, desde há tempos, “fechou o seu ofício escatológico” (p.27), “a decisão de Bento XVI mostra, precisamente, que o problema das coisas últimas continua a actuar subterraneamente na história da Igreja” (p.27). A Escatologia, aliás, não remete para uma paralisia das coisas actuais, inutilizando toda a acção, mas, bem melhor, “faz parte integrante do sentido das coisas últimas que estas devem guiar e orientar a acção nas coisas penúltimas” (p.27). É com esta noção que devemos seguir Paulo, a quem “interessa não o fim do tempo, mas o tempo do fim, a transformação interna do tempo que o evento messiânico produziu de uma vez e para sempre e a consequente transformação da vida dos fiéis” (pp.27/28). Desta sorte, o “mysterium iniquitatis da Segunda Epístola aos Tessalonicenses não é um arcano supratemporal (…) é um drama histórico (…) que está em curso (…) a todo o momento e no qual se jogam incessantemente os destinos da humanidade, a salvação ou a ruína dos homens". E uma das teses do Comentário ao Apocalipse, de Ticónio, que Bento XVI conhecia muito bem, era precisamente que as profecias do Apocalipse não se referem ao fim dos tempos, mas à condição da Igreja no intervalo entre a primeira e a segundo vinda, ou seja, no tempo histórico que estamos a viver” (p.28). Postas as questões nestes termos, a renúncia de Bento XVI é apreciada, do seguinte modo, pelo filósofo italiano: “a ‘grande renúncia’ de Bento XVI é todo o contrário de uma remissão ao futuro cisma escatológico: ela recorda (…) que é impossível que a Igreja sobreviva se remeter passivamente para o fim dos tempos a solução do conflito que despedaça o seu ‘corpo bipartido’. (…) O problema do que é justo e do que é injusto tão pouco pode ser eliminado da vida histórica da Igreja, mas deve inspirar, a cada instante, a consciência das suas decisões no mundo. Se, como frequentemente fez a Igreja, se finge ignorar a realidade do corpo bipartido, a Igreja fusca acaba por prevalecer sobre a Igreja decora, e o drama escatológico perde todo o seu sentido. A decisão de Bento XVI traz à luz o mistério escatológico em toda a sua força disruptiva; mas só de este modo a Igreja, que se perdeu no tempo, poderá reencontrar a justa relação com o fim dos tempos. Há, na Igreja, dois elementos inconciliáveis e, não obstante, estreitamente relacionados: a economia e a escatologia, o elemento mundano-temporal e o que se mantém em relação com o fim do tempo e do mundo. Quando o elemento escatológico se eclipsa na sombra, a economia mundana torna-se propriamente infinita, quer dizer, interminável e sem objectivo. A Igreja encontra-se, assim, face ao seguinte paradoxo: desde o ponto de vista escatológico, deve renunciar ao mundo, mas não pode fazê-lo porque, desde o ponto de vista da economia, é do mundo e não pode renunciar a ele sem renunciar a si mesma. Mas precisamente aqui se situa a crise decisiva: porque a coragem – esta parece-nos o significado último da mensagem de Bento XVI – não é senão a capacidade de manter-se em relação com o próprio fim” (pp.29-30).
E como esta indagação profunda, relativamente ao interior da Igreja, sua essência e modo de agir, tem tradução no plano civil, nas sociedades e democracias em que vivemos? Ora, também no âmbito civil, os problemas da sociedade bipartida não podem resolver-se com regras procedimentais, com arranjos técnicos, mas, antes, fazendo com que “a justiça não seja uma mera ideia”, e, assim, face à realidade com que nos confrontamos no presente, na perspectiva do pensador de esquerda, a auto-regulação que “a ideologia liberal hoje dominante” (p.31) proclama, significa não levar a sério, não pensar e não concretizar a justiça (no seu sentido mais completo) e permitir que a sociedade se divida cada vez mais.

Conferência PISA. Mesa redonda com ex-ministros da educação



David Justino: em primeiro lugar, estes resultados devem-se aos alunos. Logo, temos hoje melhores alunos, em média, do que há 15 anos. Podem dizer o que quiserem, mas os resultados são estes. Em segundo lugar, estes resultados devem-se aos professores. Foram eles que ensinaram estes alunos. Em terceiro lugar, as escolas. E há, também, políticas a sustentar tudo isto.
O projeto Aqueduto identificou as variáveis que mais tinham explicado a progressão verificada: [por ordem, na hierarquia de importância dos factores] a) número significativo de escolas, de meios desfavorecidos, a melhorar os seus resultados (diminuindo o número dos low performers). Isto é, melhorámos com os melhores alunos, melhorámos com os alunos médios, mas melhorámos mais com os alunos menos bons (vindos de escolas com meios e estatuto sócio-económico mais desfavorecido). Estas escolas conseguiram mobilizar melhor para as aprendizagens. b) hoje o nível de escolaridade dos pais de hoje é bem maior do que em 2000. Há hoje um background familiar mais favorável para um melhor desempenho; c) formação inicial e formação pedagógica dos professores muito superiores do que em 2000 (a formação de base e formação posterior são hoje bem superiores); d) hoje temos mais professores motivados (para a aprendizagem) do que em 2000.
O principal problema que ainda temos hoje é a taxa de insucesso escolar, do qual resulta uma grande destruição de capital humano.

Maria do Carmo Seabra: todos os portugueses “estão contentíssimos com os resultados do PISA”. Os resultados melhoraram imenso nos últimos 16 anos. Os PISA começaram há cerca de 50 anos. A correlação dos resultados do PISA com o TIMMS é enorme (sempre superior a 90%). Portanto, são resultados muito credíveis e consistentes. O desempenho dos alunos portugueses efectivamente melhorou. Uma das grandes conquistas destes testes é possibilitar-nos observar a multiplicidade de experiências internacionais, e como podemos aprender através de uma diversidade de políticas à escala global, práticas, políticas, caminhos (que podem ter iguais bons resultados, mas serem diversos entre si) e experiências de que não tínhamos nota há 15 anos. Uma outra vantagem destes testes teve que ver com a discussão, que trouxeram (para a ribalta, para as primeiras páginas) dos temas educativos. O desempenho escolar, é incontroverso, está muito ligado ao ambiente sócio-económico no qual se nasce – para além do talento, da motivação, da ecologia institucional…
Há um estudo muito interessante com os resultados de alunos chineses na Austrália, comparados com os resultados dos alunos australianos, e ainda comparados com alunos que estudam na China que mostram a grande proximidade do resultado destes alunos chineses a viverem na Austrália com o dos seus compatriotas que realizaram os testes no país de origem e com uma grande diferença para os resultados dos alunos australianos, mostrando, assim, também, a grande importância da dimensão cultural presente nestes resultados.

Maria de Lurdes Rodrigues: a análise dos resultados dos testes são preciosos suportes para as decisões políticas; entre factores institucionais de melhoria de resultados temos, por exemplo, a presença do pré-escolar na formação de um jovem. Em 2013, o impacto de um ano de pré-escolar era de 34 pontos. Também se mede a influência que a possibilidade, para um jovem, de ter tido uma formação genérica, ou de ser encaminhado, de modo precoce, para uma determinada via (mais estrita) teve no seu desempenho. O pré-escolar, ainda assim, em Portugal impacta menos em crianças que tem um nível sócio-económico menos elevado, do que aquelas inseridas em famílias com melhores possibilidades (um reforço positivo em cima de um dado de partida positivo); por outro lado, o relatório do PISA aconselha percursos mais ricos em vários sentidos (para melhor performance do alunos e, portanto, sem um afunilamento precoce); atrasar a idade do encaminhamento; introduzir flexibilidade no sistema de ensino em todos os percursos; garantir o acesso ao ensino superior para todos os percursos. Nada está garantido. Nada garante que os bons resultados que estão a germinar não regridam se desinvestirmos da Educação.
“Preocupa-me muito que a crise tenha afectado muito as taxas de pré-escolar”.

Isabel Alçada: uma percentagem elevada de jovens de 15 anos, em Portugal, não atinge os níveis elementares em Matemática (24%) e em Leitura e Ciências (17%). Todos os governos em democracia colocaram na agenda a questão do sucesso escolar. Com medidas diferentes e com maior facilidade de consenso quando a luta política não esteve ao rubro. Entre os factores mais importantes para os resultados positivos: a) uma filosofia inclusiva na educação; é possível harmonizar inclusão com exigência. Expansão do pré-escolar (com Marçal Grilo). Outro dado importante: a qualificação dos professores. Reorganização da rede de escolas, com os Agrupamentos foi, igualmente, factor importante. Requalificação das escolas. Esforço de melhoria das condições físicas da escola, com rede de bibliotecas, acesso à internet e recursos digitais. Modelo de avaliação: houve tendência para avaliação formativa, com altos e baixos, avanços e recuos. A par do pré-escolar, muito importante o investimento no primeiro ciclo. Há uma alteração “incrível” no 1º ciclo. Deu um salto qualitativo apreciável. Precisamos, no entanto, de rever a questão da retenção. A prática da retenção, entre nós, é encarada como natural. Temos décadas de estudos a provar que tal prática não dá resultados. Devíamos transformar a retenção numa excepção e não em regra. A retenção não leva a uma melhoria no ano seguinte. O custo da retenção é da ordem dos 380 milhões de euros por ano. Devíamos ter um modelo de prevenção, com especialistas, para apoiar os professores, os alunos e as famílias (a que seriam alocados esses milhões de euros).

Nuno Crato: o que se passou nestes resultados é de uma grande magnitude. Nós no TIMMS, em Matemática, no 4º ano, passamos à frente da Finlândia. E no PISA estamos à frente da média da OCDE. Em 2015, tivemos os nossos melhores resultados de sempre. Resultados que se somam a uma redução acentuada da retenção – baixou expressivamente. No caso do 4º ano, a retenção em 2015 é de 2,2%. Melhorámos os resultados dos melhores e melhorámos os resultados que estavam em baixo na tabela. Mas também a taxa de abandono escolar (jovens entre os 18 e os 24 que nem acabaram o Secundário nem estão a trabalhar) melhorou muito. Em 1992, 50% de abandono escolar; em 2000, 43%; em 2011, 23%; em 2015, 13,7%. Conseguimos resultados impressionantes (como descreveu The Economist). Mas devemos ambicionar estar muito acima da média da OCDE. Olhar para os que estão no cimo da tabela e ver o que estão a fazer. Um aspecto importante foi a avaliação dos manuais (Isabel Alçada). A introdução de metas (Maria de Lurdes Rodrigues). A introdução de exames nacionais no 9ºano (David Justino). Exames no quarto ano (Nuno Crato). Divulgação dos resultados. Maior autonomia pedagógica. Maior atenção aos jovens com dificuldades. Melhor organização dos exames do 12º ano (Marçal Grilo).

Os estudantes que fizeram os testes foram 7500/8000. “O país hoje percebeu a importância da avaliação e da exigência. Esta cultura está interiorizada pela sociedade e há 20 anos não estava. A cultura da exigência não tem a ver com testes, mas com a exigência de cada um consigo próprio” (Marçal Grilo). Educadores de infância, pais, sobretudo mães, coordenadores de turma, diretores de escola, media são também agentes nesta evolução positiva.

E o papel dos municípios? Há um conjunto de parceiros do círculo de contributos que não podem ser colocados de fora, mas é algo dificilmente mensurável (David Justino). Mas, por exemplo, a modernização do parque escolar foi importante.
As variáveis do abandono escolar estão ligadas ao mercado de trabalho; não tem a ver, necessariamente, com as políticas de educação.

Para mim, ficou claro que o tema da avaliação dos professores terminou. Não há condições para o colocar em cima da mesa. O meu desafio intelectual passa por descobri formas de melhorar o recrutamento, melhorar a qualidade do exercício profissional dos professores, com outros instrumentos que não o da avaliação. Provavelmente, fui uma das responsáveis por este instrumento hoje não poder ser utilizado (Maria de Lurdes Rodrigues)

[conferência da FFMS, Fevereiro 2017]

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Perseguição aos cristãos, no Japão


Ainda tendo o filme O Silêncio, de Martin Scorsese, como pano de fundo, anoto o artigo da Prof. Ana Fernandes Pinto (Em tempos de perseguição no Japão do século XVII. Práticas e discursos), no mais recente número da Brotéria: i) a presença de missionários e evangelização cristã no Japão, levou a uma atitude que era de abertura face ao exterior, para uma outra de desconfiança e fechamento, por parte dos nipónicos; ii) a partir dos relatos dos missionários naquele país, constata-se que "a perseguição não foi constante, não foi generalizada e não foi indiferenciada" (p.70); iii) a posição de intransigência japonesa evoluirá a par da unificação do arquipélago;  iii) o primeiro gesto de intolerância ocorreu em 1587 (decreto que proibia missionários de residir no país); iv) limites à liberdade de conversão (fazendo-a depender do estatuto social); v) em 1597, ocorre a primeira execução de 26 cristãos, seis frades franciscanos, três jesuítas e 17 japoneses convertidos ao Cristianismo (repressão pública e espectacular) (p.71); vi) em 1614, édito a decretar a expulsão dos missionários, a destruição das igrejas e a obrigatoriedade dos cristãos japoneses de abjurar a fé cristã: "os japoneses convertidos passaram a viver sob coação, muitos foram forçados à apostasia, e momentos houve em que as execuções foram mais intensas" (p.72); vi) mesmo a partir desta data, os actos de violência desenvolviam-se ao sabor dos interesses e do empenho das autoridades locais, não se tendo generalizado "no espaço ou/e (...) [no] tempo" (p.73); vii) em 1622, depois de 3 anos de calmaria, Nagasaki voltou a ser palco de violência, com a execução pública de 55 indivíduos (gente queimada viva) (p.74); viii) a partir de 1625/1626, assistimos à emergência de um "tempo novo", em que aquilo que era "geograficamente disperso" e uma "perseguição esporádica" passou "ao estatuto de determinação política" e "extensível a todo o arquipélago" ("éditos sucessivos que proibiam a entrada de missionários, a afixação de anúncios a publicitar que os cristãos iriam ser objecto de um 'exame e julgamento severo' ou que incitavam os escravos a denunciar os seus senhores cristãos, prometendo-lhe em troca a liberdade, ou ainda a divulgação de retratos de religiosos com vista a acelerar a sua captura") (p.75); ix) a partir de 1626/1627, alteração na forma de punir, "mais bárbara", verdadeiro "tormentado", "dor grandíssima", com o propósito de "dissuadir pela violência" a fé, modos que o missionário jesuíta relatava assim: "atormentando e não matando: meio verdadeiramente diabólico para a destruição dos cristãos, com incrível abate da santa fé". Obtida a renúncia, terminava o suplício. "Cristovão Ferreira foi o primeiro missionário europeu a apostatar sob a pressão do tormento" (p.76); x) a utilização do tormento "com vista a obter a renúncia obrigou os nipónicos baptizados a encontrar sofisticados mecanismos de dissimulação que lhe permitiu manter a sua crença e práticas religiosas de forma oculta durante dois séculos" (p.77) xi) da imensa panóplia de relatos que chegava do Japão à Europa, por parte dos missionários, resultava que "os conversos japoneses são descritos desde o primeiro momento da perseguição como uma população cristã que reagia e enfrentava as proibições das autoridades sem receio de ameaça ou sanções, que preferia sofrer as represálias da autoridade local a ceder a propostas de dissimulação simbólica, e que se mostrava, na generalidade, predisposta para «morrer mártir»; xii) o martírio exigia outros requisitos prévios ao acto de execução: sofrimento na caminhada até ao fim, alegria e aceitação dos sofrimentos infligidos e confissão prévia (p.79); xiii) num momento em que a Europa se dilacerava com a guerra religiosa, com os diferentes movimentos protestantes e sua oposição ao catolicismo, as missões no Oriente tinham o poder e a força de mostrar a verdade e universalidade cristã (p.80); xiv) houve incredulidade inicial sobre a apostasia de Cristovão Ferreira. Ele fizera, anteriormente, a apologia do martírio. Mas com a confirmação da sua situação, seria expulso da ordem Jesuíta. Esta sempre rivalizara com os mendicantes, em terras nipónicas (p.82); xv) o martírio no Japão adquiriu grande interesse na Europa: alimentou a "devoção católica", serviu "de propaganda às Ordens missionárias e à Igreja Católica que se procurava impor triunfante, e interiorizaram na memória colectiva a realidade martirológica no Japão" (p.83).

Para quarta-feira de cinzas


Porque não há ressurreição sem morte.


Poema em linha reta
Fernando Pessoa(Álvaro de Campos)
[538]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Violência e batota

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Do mesmo modo que, pelo menos desde Johan Cruijff, o F.C.Barcelona tem uma clara identidade de jogo assente num modelo ofensivo, uma equipa que quer ter bola, aceita o risco, faz a bola correr mais do que os jogadores, busca o passe e a tabela, não se basta com ganhar, mas quer vencer com beleza, também em Portugal, o Boavista F.C., desde Jaime Pacheco, tem uma identidade inconfundível, ao nível do jogo: arruaça permanente, traulitada de criar bicho, violência, entradas assassinas, canela até ao pescoço, intimidação física, faca nos dentes, ausência de um mínimo de interesse pelo futebol e o espectáculo, numa palavra, tourada. Características potenciadas se o adversário se chama F.C.Porto. 
A esta identidade, o regulador, isto é, o árbitro, deve opor o critério do jogo que está em causa, que só por acaso - se se olhar a mais uma impensável demonstração de pugilismo, ontem no Bessa - é o futebol. O que se passou na última noite, quanto à arbitragem, só é, de resto, explicável num contexto de uma permanente coação e domínio sobre o sector exercido por quem desespera por que o FCP volte a perder pontos, seja de que forma for, e por um conjunto de media que, para não falar dos restantes "comentadores" colocados expressamente por clubes (ainda que nem todos os "coloquem", mesmo se todos "comentadores", aparentemente, defendam a sua dama), oferecem como opinadores "isentos" Jorge Baptista, José Nunes, Rui Pedro Brás, Joaquim Rita, Manuel José ou Carlos Daniel (e durante anos, João Gobern, só mais recentemente remetido para a categoria de adepto de clube, depois de muito tempo a passear, no canal público, como expert e isento! É preciso lata para tal opção editorial). Para se ter uma ideia, e após o FCP ter tido um jogo em que foi beneficiado, há uma semana, frente ao Tondela, pôde ouvir-se Baptista na SicNotícias, dizer que, apesar de remunerado para comentar o desafio, a seguir ao terminus do mesmo, nem sequer quis ver a segunda parte (para a qual olhou sem atenção, nem vontade), depois dos erros de arbitragem da primeira; esta, nunca mais lhe interessou, apontando, mesmo, para o papel vazio (dos seus apontamentos, quanto ao segundo tempo) que estava sobre a mesa (do estúdio), para referir que apenas tinha registado os golos "para não me esquecer do resultado"(sic)! À mesma hora, na concorrente RTP3, José Nunes mostrava-se compreensivo com a arbitragem, notando que apenas quando é assim um caso muito flagrante se indigna (exemplo? Pois claro, um penalty de Marcano sobre um jogador do Nacional, por marcar, na época transacta; quer dizer, das dezenas de jogos em que o FCP foi prejudicado e o clube de Nunes beneficiado, nada lhe meteu espécie; o único caso a que lhe mexeu com os nervos foi o da Madeira). Manuel José confessava, há poucos anos, que desligara a televisão no intervalo de um Gil Vicente-slb - de facto, um jogo de arromba -, porque estando o resultado num empate, enquanto benfiquista o nervosismo não lhe permitia continua a assistir ao encontro. Quando se chega a este ponto de transtorno emocional, não admira o toque a rebate, o aqui del rei, o acudam, "o regresso do apito dourado", "o medo instaurado por Fernando Madureira", da última semana, em mais uma brilhante operação de propaganda, não se curando de ver, mínimos olímpicos, como para uma partida de benefício havia mais de uma dúzia de prejuízo (que nunca haviam causado o menor incómodo aos Baptistas da televisão). Amanhã, o clube da luz, na reunião marcada com o Conselho de Arbitragem, deverá, pois, por certo, pedir explicações sobre como é possível num campeonato de futebol assistir-se a exibição tão contundente de artes marciais (como a observada no estádio do Boavista), e, já agora, explicar a táctica, a estratégia e a clarividência que suportaram a vitória frente ao G.D. Chaves. Já houve, contudo, quem, com graça ,explicasse, que em fazendo amanhã anos o clube que solicitou tal reunião, esta servirá para comemorarem em família o aniversário. Não há melhor epitáfio para mais um campeonato.

Da crónica do maisfutebol, de Pedro Jorge da Cunha, sobre o Boavista-FCP:

O FC Porto saiu com vida de um edifício em chamas e tem uma história para contar. De sobrevivência, pois então (...) No Bessa, a taxa de incidência criminal pediu meças às mais problemáticas urbes latino-americanas. (...) O golo de Soares, de resto, é um dos momentos que escapam à fúria e onde prevalece a fantasia (...) Aos sete minutos, com muito por jogar e ainda mais para contar, o selvagem dérbi da Invicta estava resolvido (...) O início do FC Porto levou tudo à frente, até mesmo um Boavista ao velho estilo de comanche investido de pinturas de guerra e danças capazes de fazer chover. (...) Corona também estava bem, muito bem, mas foi afastado da segunda parte por uma entrada violentíssima de Talocha. Criminosa? Andou por aí. (...) Nos próximos dias vai falar-se muito do árbitro Fábio Veríssimo, da complacência com algumas entradas violentas do Boavista, da não expulsão de Talocha, do vermelho a Maxi 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Referências


Como já havia sublinhado neste blog, a obra de António Marujo e Rui Paulo da Cruz sobre o fenómeno de Fátima tem tudo para ficar como uma referência de entre o que se tem publicado este ano sobre o tema. Hoje, uma voz abalizada, neste âmbito, sufraga a escolha:


António Marujo e Rui Paulo da Cruz publicaram uma obra, A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima. Pode ser que ainda falte alguma, mas a sua música dissonante, a várias vozes, dá muito que pensar, como veremos.
Frei Bento Domingues, Público, 26-02-2017

Aulas de 10 minutos


Hoje, no Diário do Minho


OS DIAS DA SEMANA
Uma defesa de aulas de dez minutos

Eduardo Jorge Madureira Lopes


A um amplo conjunto de técnicas de diagnóstico e investigação se tem ficado a dever, em grande medida, a possibilidade de conhecer com minúcia o modo como o cérebro funciona. Os novos saberes têm fomentado o surgimento de disciplinas como, por exemplo, a neuroeducação. Um dos seus especialistas, o espanhol Francisco Mora, deu há dias uma estimulante entrevista ao diário espanhol El País, com reflexões e conselhos assaz pertinentes.
Uma das recomendações de Francisco Mora encontra-se no título da conversa: “É preciso acabar com o formato de aulas de 50 minutos”. As razões da sugestão são apresentadas no corpo da entrevista: “Estamos a perceber [ao estudar o cérebro], por exemplo, que a atenção não pode ser mantida durante 50 minutos”. O formato actual das aulas (de 50 minutos em Espanha e, muitas vezes, de 90 minutos em Portugal) está, por isso, errado, garante Francisco Mora, considerando que mais vale assistir a 50 aulas de 10 minutos do que a 10 aulas de 50 minutos. Como a mudança não poderá ser empreendida a curto prazo, o especialista em neuroeducação oferece uma sugestão prática: que os professores quebrem a aula, a cada 15 minutos, com um elemento disruptor; com uma história engraçada, uma pergunta ou um vídeo sobre um assunto diverso.
É, aliás, isso que Francisco Mora diz procurar fazer. Um recente convite da Universidade de Harvard para criar um MOOC (sigla inglesa de curso online aberto e massivo) sobre Neurociência obrigou-o a concentrar tudo em 10 minutos para que os alunos pudessem absorver 100% do conteúdo. “Nessa linha irão as coisas no futuro”, sentencia o professor de Fisiologia Humana na Faculdade de Medicina da Universidade Complutense de Madrid e de Fisiologia Molecular e Biofísica na Faculdade de Medicina da Universidade do Iowa, nos Estados Unidos da América. A entrevista inclui conselhos, mas a prudência não falta, uma vez que, para Francisco Mora, é preciso tempo e continuar a investigar porque o que hoje se  conhece em profundidade sobre o cérebro não é totalmente aplicável ao dia-a-dia da sala de aula.
Questionado sobre qual a principal mudança que o sistema de ensino actual deve promover, Francisco Mora explicou que as neurociências estão a começar a demonstrar que ninguém pode aprender seja o que for sem estar motivado. É, portanto, imperioso despertar a curiosidade, “que é o mecanismo cerebral capaz de detectar a diferença na monotonia diária”. Francisco Mora refere a existência de estudos recentes que mostram que a aquisição de conhecimentos partilha substratos neurais com o que dá prazer. “Por isso é preciso despertar uma emoção no aluno, que é a base mais importante sobre a qual se apoiam os processos de aprendizagem e memória”. Ou seja, “as emoções servem para armazenar e recordar de uma forma mais eficaz”.
As estratégias para despertar a curiosidade podem motivar o professor a começar a aula com algum elemento provocador, uma frase ou uma imagem que seja chocante. É preciso “romper o esquema e sair da monotonia”. Corroborando o que vários professores bem sabem por experiência própria, Francisco Mora refere que “sabemos que para um aluno prestar atenção na aula não basta exigir que ele o faça”. A atenção, acrescenta o neuroeducador, deve ser evocada com mecanismos que a psicologia e a neurociência estão a começar a desvendar. “Métodos associados à recompensa e não à punição”. Afirma Francisco Mora que, “desde que somos mamíferos, há mais de 200 milhões de anos, a emoção é o que nos move. Os elementos desconhecidos, que nos surpreendem, são aqueles que abrem a janela da atenção, imprescindível para a aprendizagem”.
A leitura desta entrevista muito beneficiaria, desde logo, os que se insurgem contra aquilo que designam pejorativamente por eduquês – gente que ainda julga que o ensino tem decaído mais por falta de pau do que de cenoura.


P.S.: Margarida Vilarinho deixa-nos como exemplo um admirável espírito combativo, sempre corajoso e esclarecido, que soube manifestar especialmente em momentos de grande adversidade.

Uma exigência e uma esperança


Sublinho a traço grosso o relatório que aponta uma clara lacuna à Associação de Estudantes: esta limita-se, diz o texto, a promover torneios desportivos e os desfiles de moda que consagrarão o mister e a miss escola. Algo que, observa a Inspecção, é demasiado pouco, demasiado curto ao nível da cidadania, desde logo na sua intervenção interna, na cidadania exercida na escola. Quando pensamos em maior ou menor regulação das, ou nas, instituições, neste caso concreto, digamos que o caminho que se fez/vem fazendo - e com o qual, de resto, estou de acordo - não foi em uma direcção liberal; bem ao invés, a surpresa que para mim adveio da leitura do relatório, em este concreto âmbito, deveu-se ao instintivo e imediato confrontar com a memória pessoal do (meu) Secundário e de como, então, ninguém se lembraria de que a actividade da Associação de Estudantes fosse alvo de qualquer escrutínio de uma Inspecção de Educação (salvo, imagino, práticas de tipo ilegal, ou de tal modo susceptíveis de ferir valores comunitários que, ainda que não ilegais, integrassem um contexto de intervenção exógena). É certo que se pode argumentar que uma concordância com uma maior regulação tem um significado de ver tais associações como incapazes de auto-regulação, ou de terem, mesmo, uma capacidade diminuída. Todavia, se todos os demais agentes da escola, suas práticas, bem como os seus órgãos são susceptíveis de avaliação, virá grande mal ao mundo em se introduzir um inciso com vista a existir, inclusive, uma (maior) consciencialização de que um determinado tipo de actuação, numa Associação de Estudantes, é demasiado redutor? Não é isto também educar (para a cidadania)? Não significará, aliás, uma maior inclusão dos alunos no interior da escola, valorizando o seu papel e contributo? Sinto nessa chamada de atenção, e eu não conhecia a actuação da Associação de Estudantes, uma outra coisa: é que desde que frequentei o Secundário, e até aos dias de hoje, pelo menos em algumas escolas, o que uma Associação de Estudantes faz é exatamente a mesma coisa. Ora, tanto que mudou no mundo à volta. Mas a despolitização e a ausência de um contributo público a dar estavam já, de há muito, interiorizadas. Aliás, os programas concebidos por adultos para adolescentes, para uma jornada de qualquer tipo, incluíam inevitavelmente, como ainda hoje incluem em não raras ocasiões, eleições de miss e mister e desportos radicais, como se a adolescência e juventude fossem subsumíveis a este(s) registo(s). Enquanto frequentei o Conselho Municipal da Juventude procurei sempre bater-me e dar contributos para que este tipo de pensamento não permanecesse um dado adquirido e indiscutido. É que se aquilo que transmitimos a adolescentes ou jovens é que as actividades que esperamos que sejam do interesse deles se resumam a desfiles de moda e desportos mais ou menos radicais, às tantas eles acreditam. Por isso, considero muito positiva esta mensagem que, simultaneamente, contém uma exigência (têm que ser mais interventivos e participarem mais na escola, nas suas decisões e actividades) e uma esperança (vocês são capazes de participar e intervir bem na escola e nas suas actividades, a escola precisa e quer escutar a vossa voz) em quem vem a seguir. E pode ser que a seguir, para muita desta malta, a universidade não seja sinónimo de uns desfiles mal amanhados e muito bebidos, e que muita da passividade e ausência de crítica sobre o mundo (desde logo, o mais próximo) circundante possam vir a ser quebrados. Não custa tentar - ainda que custe, e muito, e isso exige muito mais do que um inciso, e uma articulação curricular, institucional, etc., mudar de mentalidades.

Descentralização

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Agora que se fala tanto em descentralização - e numa reforma, próxima, a implementar nesse sentido, em Portugal -, e, até, em regionalização (com referendo; neste caso, sugestão do PCP)  é curioso voltar ao referendo de 1998, revisitar os seus resultados -  60,8% responderam "não", 34,9%, sim; 51,8% não votaram - e notar como passados quase 20 anos há uma unanimidade em torno do mal fundado projeto de regiões, então apresentado. Um excessivo número de regiões, para o país que temos; uma ausência, eventual, de autoridade para não ceder a todas as reivindicações locais; e, para José Junqueiro, que na altura esteve próximo do processo, no fundo uma ausência de vontade em levar o projeto adiante, isto é, de concretizar a regionalização (inscrita na CRP desde 1976).

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Responsabilidade objectiva


Das três hipóteses que o caso dos offshores podia configurar - a) decisão política/opção ideológica; b) responsabilidade política objectiva por negligência; c) ou caso com contornos mais obscuros, de interesse(s) (eventualmente pessoal) na não divulgação, ou eventual taxação de dinheiros a transferir para paraísos fiscais - até ao momento apurou-se b) (no sentido da assunção de uma responsabilidade política objectiva pela não divulgação das estatísticas e da não confrontação de dados que permitissem perceber a origem dos 10 mil milhões de euros). Continuo a pensar que em não havendo nenhuma opção política nesse sentido, igualizar essa negligência com decisões políticas/ideológicas outras - plasmadas do ponto de vista legislativo, muitas delas controvertidas e mesmo, a meu ver, erradas - redunda, com os dados até agora disponíveis, em algo não adequado (e nesse sentido, com o seu quê de demagógico) ao caso concreto (até pela legislação aprovada, relativamente aos offshores, no mesmo período de tempo a que este caso se refere). São precisas ideias claras e distintas a este respeito, e não meter ideologia, negligencia ou ocultação deliberada no mesmo saco. E percebeu-se, nomeadamente no debate parlamentar de quarta-feira, que existiu um certo spin nesse sentido. Este caso, ainda certamente com muito para averiguar e conhecer, mostra, também, que mesmo na oposição, de facto os políticos não devem isentar-se de assumir as suas responsabilidades políticas e assumir as consequências dos seus actos ou omissões.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Uma política adjectiva e lateral


Sigo na íntegra, em diferido, o debate quinzenal na AR. É um dos casos em que a mediação raramente me satisfaz, ou interessa. (Quase) sempre que vejo um debate parlamentar por inteiro, deparo-me à noite, nos telejornais, com sublinhados que não vão ao encontro do que (eu) selecionaria como o mais importante do que foi ali dito ou discutido. Da passada quarta-feira, a questão melhor preparada, e que mais embaraçou o PM, foi colocada por Assunção Cristas. Teve que ver com o preço da gasolina e do gasóleo, da política fiscal seguida a esse propósito, sendo que a deputada em causa expôs, com clareza, uma incoerência nessa política (em que havia sido prometida neutralidade fiscal), além de se evidenciar como a taxação resultou em mil milhões de euros para os cofres do Estado, no último ano, o que em muito excedia o previsto (e terá afectado, naturalmente, várias camadas da população menos favorecidas, também). Um bom contributo da oposição, nesse ponto em concretoAntónio Costa, em não conseguindo desfazer-se do embaraço, nem sendo convincente ao referir que a promessa que fizera tinha a ver apenas com o gasóleo profissional, começou por responder com a doutrina geral para a fiscalidade (por parte do seu Governo), e terminou dizendo que os únicos que não sofreram cortes, via impostos, nos anteriores 4 anos, foram os 20 que o Governo precedente deixou passar para offshores. A frase, para efeito de peça puramente política, e destinada ao soundbite tinha espaço garantido - como teve - no jornal das 20h. Acontece, como é evidente, que enquanto a política de austeridade, com cortes em salários, pensões, aumentos enormes de impostos foi decidida e aprovada conscientemente, está por demonstrar que existiu uma opção deliberada, política, consciente, com dolo, para deixar passar dinheiro, eventualmente tributável, para offshores. Os senhores tributaram e cortaram em quem menos tinha, e depois deixaram fugir quem tem muito dinheiro [e a constatação de que o dinheiro fugira, não podia, no contexto, deixar de ser lida não de modo objectivo - escapou sem terem estado atentos, por negligencia -, mas como um favorecimento de quem tinha maiores recursos]. Percebi a "cabeça perdida" de Passos [na expressão do I, que até é um jornal com uma linha editorial muito próxima do actual PSD], porque, com efeito, e com os dados públicos, a frase de Costa e os considerandos que se lhe seguiram , tinha um tom claramente demagógico. Mas vejamos: foi dito, em vários fóruns, por estes dias, que o Governo plantou a notícia da fuga dos 10 mil milhões para offshores, com o intuito de criar uma nuvem de fumo sobre o caso Centeno. Eu também acho que o Governo fez isso. Mas os mesmos que consideram demagógica a política e investida comunicacional assim levadas a cabo nesta semana, entenderam brilhante a nuvem de fumo da semana anterior, com os dados que mostravam como as coisas no plano orçamental e económico tinham corrido melhor do que o previsto no último ano a serem completamente abafado pela enésima questiúncula em torno da CGD, saindo a terreiro gente a bater no peito que ainda nos últimos 5 anos teve tantas e tantas vezes condutas muito pouco correctas - e com prejuízo do país - e que aparece agora como campeã da moral. Quando se prefere, sistematicamente, o adjectivo ao substantivo, quando numa semana se acha brilhante o golpe de marketing e a jogada comunicacional, fica-se sujeito a levar com uma resposta nos mesmíssimos termos, e ver jornais colocarem em capa, como se de equipas de futebol se tratasse, que o Governo conseguiu "virar o jogo" e colocar "a oposição à defesa". Pura espuma mediática
Na sessão da Assembleia da República, Assunção Cristas detalharia, ainda, o conjunto, significativo de medidas que o anterior governo tomou em matéria de offshores (numa intervenção bem preparada e bastante acima da do seu anterior parceiro de coligação). 
No entanto, depois disto, também esta parlamentar não quis perder a sua pitada de demagogia ao perguntar se crimes como os que têm ocorrido em Portugal nos últimos dias - como os da fuga da cadeia em Caxias, p.ex. - não teriam a ver com a diminuição do investimento público. Ora, bem: ou essa queda no investimento público, tendo ocorrido, teria levado o crescimento português para níveis muito bons (porque acima do já verificado sem esse investimento), e não só o instrumento - o investimento público - é surpreendentemente agora incitado à direita, sendo que, simultaneamente, se estabelece uma relação entre crescimento económico e diminuição de crime (o que não deixa de ser bastante curioso vindo do CDS-PP; mesmo com pouco investimento público, algum crescimento económico houve, pelo que não se pode, neste contexto, associar estes crimes a um período de depressão económica; em todo o caso, na Evangelium Gaudim (nº59), do Papa Francisco, diz-se que enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade a violência permanecerá e, portanto, a DSI a ser tida em conta), ou a ausência de investimento público é, nesta intervenção, ligada à falta de profissionais em àreas como a dos guardas prisionais - mas poder-se-ia falar nos problemas nos hospitais e nas escolas, por exemplo -, sendo que aí a crítica de Cristas situar-se-ia, curiosamente, na linha do que BE e PCP vêm fazendo (sendo que a contratação de mais elementos para a função pública costuma ser reivindicada por estes partidos, mas não pelo CDS-PP). 
Ricardo Costa chamava a atenção, num dos seus mais recentes artigos no Expresso que nos últimos largos anos os ministros caem, sucessivamente, não devido às políticas que sustentam, mas, ao invés, devido a graçolas, gestos pueris no Parlamento, questões adjectivas. Por mais que se digam e esgrimam frases feitas sobre "uma nova forma de fazer política", ela cai de madura, de tão gasta, em uma ecologia em que os media participam de um modo claríssimo e nós, enquanto cidadãos, não exigimos que se faça diferente, até porque, não raro, os que gostamos de política, achamos genial a chico-esperteza quando vem da nossa bancada, e uma miséria moral a mesmíssima habilidade realizada pela banda contrária. Não passou nas tv, que eu tivesse visto, a pergunta e observação de Cristas sobre o gasóleo e a gasolina, nem acerca de como se havia legislado nos últimos 4 anos em matéria de offshores. Mas não houve um telejornal que há coisa de um mês não tivesse passado a sua intervenção, num debate quinzenal, em que chamava "mentiroso" ao PM, a propósito da não assinatura, à hora do debate na AR, dos parceiros sociais, da concertação social, do acordo da tsu, desqualificando dessa forma um dos intervenientes desse mesmo debate, atendo-se a uma questão meramente formal (a assinatura; aliás, realizada instantes imediatamente a seguir a aquela frase ter sido proferida) e quando todos os parceiros haviam produzido as suas declarações favoráveis aquele entendimento (com a excepção conhecida da CGTP). Os incentivos, de visibilidade [e até de entusiasmo entre as hostes], que cada uma das intervenções (de Cristas) - a substantiva e a adjectiva - mereceu devia dar que pensar.

P.S.: Em tempo: David Dinis, diretor do Público, detalhou o modo como o jornal chegou à notícia, afastando qualquer espírito santo de orelha a soprar a notícia. Fica o registo. Ainda que não altere o essencial do que foi discutido. A questão era se politicamente houve uma decisão neste sentido de ocultar. E isso está completamente por demonstrar. Outra coisa é uma responsabilidade política objectiva que parece existir. E, por averiguar, eventuais contornos mais obscuros da motivação da não publicação e do porquê de agora até ficheiros estarem a desaparecer.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Messianismo político

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As suas reuniões públicas são completamente diferentes das de todos os outros concorrentes ao Eliseu porque tocam a transcendência e o seu estilo é único. (...) O candidato Emmanuel Macron tem um carisma inegável e assume de forma desassombrada a dimensão messiânica, por vezes até crística (no mínimo, marcadamente mística), que a sua postura transmite. "A política é mística, não procuro ser um pregador crístico, mas não renego a dimensão crística, embora não a reivindique", diz numa surpreendente entrevista ao "Journal du Dimanche". "Como se constrói o poder carismático? Com uma mistura de coisas sensíveis e de coisas intelectuais. Assumi sempre a dimensão da verticalidade, da transcendência (...) Não creio na transcendência etérea. É preciso misturar as duas, a inteligência e a espiritualidade porque, senão, a inteligência é sempre infeliz, as pessoas sentem sensações mas apenas no sentido de paixões tristes, tais como o ressentimento, o ciúme, etc. É preciso dar uma intensidade às paixões felizes", acrescenta (...) É mesmo preciso assistir ao vivo a um dos seus shows, que são um misto dos dos políticos americanos e dos pregadores religiosos brasileiros, para perceber o que aqui se descreve. Termina quase todos os seus discursos com os braços cruzados sobre o peito (...) Macron é verdadeiramente uma figura ímpar no mundo político francês e europeu. Reparem: "Deus fala-lhe?", pergunta-lhe a jornalista do "Journal du Dimanche". Ele responde: "Não (...). Não tenho a certeza que Deus tenha algum dia falado. No fim, são vozes que nós próprios criamos (...) Eu sei dizer o que se pode dizer sem nada revelar (...) Não separo Deus do resto. Faço a ligação entre a transcendência e a imanência" (...) Na realidade, Macron dá a entender que vive com temor a Deus e até, segundo parece, receia ter vivido em pecado, no passado. (...) "É um erro pensar que o programa é o coração de uma campanha. A comunicação social passa de um comentário sobre um pequeno pormenor do programa às piores polémicas, e daí em diante" (...) Ecologia: "Somos ecologistas, não queremos bloquear o progresso, mas somos ecologistas porque somos fraternos com os nossos semelhantes". Política: "não digo que a direita e a esquerda já não existem, mas as clivagens não serão ultrapassáveis?". Economia: "Temos de limitar os excessos do capitalismo" (...) Um barítono ensinou-o a projetar a voz e alguém lhe terá dito que nunca deve baixar o olhar. Quando discursa, olha sempre para cima, quando fala com as pessoas fixa-as olhos nos olhos, com os seus, azuis, bem abertos. Apresenta-se sempre como um sonhador, um naif um pouco angélico que, no entanto, galvaniza as plateias (...) Macron é inteligente e tem uma formação cultural sólida. Estudou num liceu privado de jesuítas (chamado La Providence) em Amiens (norte de França), onde nasceu no seio de uma família burguesa e rica. (...) O candidato presidencial - que tem um Diploma de Estudos Aprofundados em Filosofia, cursos no Instituto de Ciências Políticas e na Escola Nacional da Administração, duas instituições que são verdadeiras fábricas de políticos e altos funcionários franceses - começou cedo a gostar de literatura e de filosofia. No [seu] livro "Révolution", que é decepcionante em termos de ideias e pobre do ponto de vista político (...) revela que aos cinco anos de idade passava todos os dias horas com uma avó, cujo nome não revela, a estudar gramática, história e filosofia, bem como a ler e a recitar em voz alta textos de Moliére, Racine, Mauriac, Colette e Giono (...) o filósofo Paul Ricoeur, com quem estudou e trabalhou como assistente em Ciências Políticas (...) Sabe tocar piano muito bem - obteve o terceiro prémio como pianista no conservatório de Amiens. Os pais eram médicos e professores e ele aderiu ao PS aos 24 anos. Deixou de pagar as cotas poucos anos depois e hoje não é do partido.

Daniel Ribeiro, num curioso e surpreendente retrato do candidato presidencial francês Emmanuel Macron, na Revista do Expresso, edição 2312, 18 de Fevereiro de 2017, pp.26-33


Do fim de semana


Na mais recente sondagem, na Alemanha, o SPD, ora liderado por Martin Schulz, aparece à frente da CDU, de Angela Merkel, com uma distância considerável: 49%-38%. Ainda não há programas eleitorais. As eleições estão a muitos meses de distância. Há um efeito, habitual, de uma certa expectativa com o novo líder da oposição. Em duas semanas, o SPD alcançou 4500 novos militantes. Schulz liderou uma pequena câmara municipal, de onde partiu para Bruxelas, onde terá tido gastos excessivos com o gabinete e colocação de alemães em lugares importantes, em nomeações da sua competência ou influência. A hipótese de um acordo com os Verdes e o Die Linke coloca-se, ainda que a maioria dos votantes do SPD, nos inquéritos de opinião, rejeitem esta possibilidade. Segundo o Liberation, Hamon vem a Portugal estudar a experiência governativa em vigor (sua base de suporte político). O Expresso, do último Sábado, fez manchete com uma política substantiva - as mudanças na Educação -, preferindo policy a politics - sendo ambos indispensáveis em democracia, a hierarquização não necessita de ser, todos os dias, a inversa desta.  Depois de tanto empreendedorismo, depois de tanto vilipendiar aqueles que se dedicam (ao estudo da) História, depois da diminuição curricular desta, ou da Filosofia, recolocar a importância de disciplinas como estas em um currículo - e, antes deste, e da sua ponderação, em uma leitura de fundo coordenada por uma personalidade como Guilherme d'Oliveira Martins, sobre a ideia de humano que subjaz a qualquer paideia, e de aí com que comunidade nos confrontamos no delinear de opções aptas a poder contribuir para a sua emergência - e, mais do que isso, em lhe proporcionar direito de cidade (!) é um dos pontos que, desde há vários anos e mais do que um Governo, estávamos necessitados.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A Estrada

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A ver O filho de Saul, de Lazlo Némes, e a recordar A estrada, de Cormac McCarthy. A relação pai-filho como um - em ambos os casos, o - recanto de salvação, de redenção, a última esperança, o intocável, o pedaço intacto de um amor do qual não se desiste, a vida por um amor assim, a vida que ainda vale a pena até se cumprir esse toque e proteção, que suprime a morte, quando tudo à volta arde. No meio da vozearia de ódio, da loucura babélica chicoteada em alemão, do schenell, schenell, ao arbeit, arbeit vociferado no meio de fantasmas, as peças que povoam o inferno construído sobre a terra, só há uma palavra de salvação (para Saul): filho.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O momento culé


Sigo os senedrin das rádios espanholas, essas tertúlias noturnas tão características à nossa beira, com os melhores senadores desportivos do país vizinho (os Segurola, os Ramon Bessa, os diretores do Sport ou de ElMundo Deportivo, Schuster..., entre a Ser e a Onda Cero), em busca de conclusões sobre as causas da crise do Barça, exposta, com estrondo, em Paris. Retenho, sobretudo, dois elementos que me parecem cruciais: a) jogando, múltiplas vezes, um futebol diferente da sua identidade característica (aquela feita de posse de bola, passes, tabelas), o Barcelona tornou-se uma equipa...igual às outras; b) com um treinador mais resultadista (dos que os que o precederam), a querer o sucesso imediato, apostou-se, muito mais vezes, pelas transições ofensivas, passando-se, literalmente, por cima do meio-campo, o lugar por excelência do domínio culé nas últimas décadas; c) sem estética, tudo é exclusivamente medido pelos resultados (dir-se-ia que sempre são os resultados que decidem, mas basta olhar para os anos de Wenger à frente do Arsenal, para não se poder dar por absoluto tal pressuposto). Quando estes não surgem, o treinador fica imediatamente em cheque; d) A aposta no imediato, ignorou a cantera, o futuro (um pouco à semelhança do que vimos Scolari fazer na Selecção portuguesa, neste aspecto particular). Ou seja, Luis Enrique teria colocado a sua carreira em primeiro lugar, não tem sido um verdadeiro treinador de clube em toda a sua extensão. Ademais, em dimensões menos estruturais, questiona-se como jogadores como Rakitic ficam no banco, quando fizera uma primeira época bastante razoável, e se opta por um André Gomes, no seu lugar, hoje por hoje, um jogador muito criticado nos meios desportivos espanhóis. Sobra o tempo que as renovações de Luís Enrique e Lionel Andrés Messi têm demorado, o que cria ruído e perturbação (alvitra-se que Messi, para lá do dinheiro, quer saber se conta com uma equipa vencedora para continuar). Nas cúpulas - "os despachos não estão à altura da equipa", é um clássico no F.C.Barcelona - a pressão é colocada com ênfase, nos ataques do ex-presidente Laporta. Com um dos melhores tridentes da história do futebol, no ataque, o Barcelona prepara-se para vencer apenas a taça do rei, na presente época (se, entretanto, o "bajón" não for de tal modo que mesmo o Alavés se transforme num grande obstáculo). 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Colóquio "Católicos à Esquerda" - outras respostas (III)

Colóquio "Católicos à Esquerda" - outras respostas (II)



O Labour formado, também, por dissidentes cristãos protestantes.


Colóquio "Católicos à Esquerda" - outras respostas

Dúvida

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Fui ontem ver "Silêncio", de Martin Scorsese: a) será mais cristão morrer em martírio do que apostatar, ou apostatar salvando outros do sofrimento? b) como interpretar o silêncio de Deus?; c) como discernir o que Ele pede a cada momento?; c) uma religião é susceptível de ser transposta para outro universo cultural, tem tradução neste seio?; d) um fresco histórico, com uma dimensão romanesca; e) a condição humana atravessada pela dúvida (permanente). Para quem gosta de objectos culturais que colocam mais questões do que fornecem respostas, eis uma boa proposta.

Claro que em a), em se escolhendo a segunda opção, ainda se poderá perguntar: os que se salvaram devido a apostasia do padre Ferreira, que vida têm a seguir, se a inspiração era aquele, e se aquele apostatou, quer dizer, se aquele testemunho desapareceu (se a convicção for a de que aquele perdeu a fé, ou a sua fé não tinha a couraça suficiente?; claro que, em sentido inverso, alguém podia tomar a apostasia como fragilidade psicológica do padre, ou até dádiva pelos outros, pelo que a sua apostasia não diminuiria nesses a fé; para quem entenda essa fé como o mais fundamental da vida, o tipo de resposta que daqui saia reveste-se de importância primordial: de nada adiantaria, desta perspectiva, a permanência biológica, se ela fosse acompanhada de um sem sentido; como interpretar, in casu, o " Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, salvá-la-á.  "  (Mc 8:35)?); 

Faz sentido, ou é convincente, apostatar em nome de um valor cristão (salvar os outros), mas a seguir contribuir, em respeito pela ordem do governador, para perseguir outra pessoas, pelos elementos (imagens, amuletos) cristãos que estas possuem? E kishiro, será "apenas" a mera projecção de Judas? A mera projeção do padre Ferreira, seus assomos crentes, medos, negações, dúvidas? E não é verdade que "só me trai quem me ama"?

Relativamente à questão da tradução da tradição religiosa em ambiente diverso daquele em que originariamente tomou lugar, sem se negar essa problemática, ela também não pode fazer ver, por outro lado, que não há um cristianismo asséptico, puro, "caído do céu", sem se enxertar em uma cultura, adquirindo sempre certos traços de alguma singularidade em virtude da paisagem onde assenta?

E, como tem sido sublinhado, um filme do qual a música está ausente, e o encontro, desde logo na natura, se dá com o essencial.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Colóquio "Católicos à Esquerda" - João Miguel Almeida



Entre 1944-54, uma primeira vaga de um catolicismo de esquerda, com os padres operários; uma segunda, entre 1965 e 1975, reforço da figura do padre operário, comunidades de base, movimento católico estudantil.
Quem esteve e viveu nas décadas de 1960 e 1970 não ignora a presença fundamental dos católicos na arena pública, em Portugal e em outros países. De aí que seja estranho o desaparecimento, ou desvanecimento, dessa mesma esquerda católica.

Desvanecimento da esquerda católica nas últimas décadas (motivos):

- Falta de uma coordenação internacional
- Excessiva diversidade de posições e atitudes dos católicos face à Igreja
(excessivas divisões)
- “uma enérgica restauração do catolicismo com João Paulo II”

A esquerda católica foi importante no final do Estado Novo e na Revolução
A partir de final da década de 50, a sua oposição foi determinante porque:
a)      Colocou em causa/criticou as bases ideológicas do Estado Novo;
b)      Introduziu novos temas que colocou na agenda política e meios de intervenção
c)    
Contribuiu para evitar o ressurgimento de uma “questão religiosa” (católica) durante a Revolução e configurou relação com partidos que continuou em democracia

Salazar reconheceu, mesmo, a importância da oposição católica, nas eleições presidenciais de 1958, quando acusou alguns católicos de quebrarem o consenso político, e deixou a possibilidade de ilegalizar a Acção Católica, se esta se politizasse, pois não estava protegida pela Concordata.

Já tinha havido vozes críticas do regime na Igreja. O padre Joaquim Alves Correia, desde a década de 30, o padre Abel Varzim na década de 40, mas estas vozes tinham sido silenciadas. Na década de 50, estas vozes já não eram passíveis de silenciar. Como se vê pelas ameaças do Presidente do Conselho.

Colóquio "Católicos à Esquerda" - Tiago Fernandes



Segundo o investigador Tiago Fernandes, houve dois grandes ausentes do combate às medidas de austeridade, em Portugal: os grupos de estudantes; e a mobilização da Igreja Católica. Por contraponto à realidade norte-americana, que conheceu enquanto docente em uma universidade católica na qual leccionou, o investigador nota que em Portugal nenhuma paróquia foi/é mobilizada (frequentemente) para ocupar a rua, em defesa e luta por determinadas causas. As narrativas bíblicas demandam imaginação teológica que pode ser colocada ao serviço da defesa das causas dos mais excluídos. Os partidos deveriam ter em conta líderes destas comunidades, nas quais poderiam recrutar. A tradição católica é muito importante para dar uma argamassa transversal a um programa que, no caso de alguns progressismos, como os que vimos nos EUA, em falando para sucessivos nichos, ignoraram temas transversais em que todos pudessem reconhecer-se (e isso pode acontecer, a partir das narrativas bíblicas, com as quais todos os grupos sociais podem identificar-se; atender às questões redistributivas que podem levantar). Uma política verdadeiramente democrática terá que incluir todos os que compõem uma comunidade, nomeadamente os imigrantes. Com estes, em Portugal, a Igreja Católica lida em permanência, pelo que uma estratégia que os vise incluir terá, também, que passar pela Igreja. Esta, a partir do Vaticano II abriu-se mais a correntes progressistas, e coligações desta natureza, incluindo católicos nelas, foram fundamentais para a implementação quer de democracias, quer para o emergir do Estado Social. Os católicos encontram-se, hoje por hoje, em diferentes partidos, não reivindicando já a necessidade de um partido católico, porque o modo como na história pátria a Igreja havia sido acossada hoje não se coloca.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Colóquio "Católicos à Esquerda" - José Tolentino de Mendonça



De acordo com José Tolentino de Mendonça, ontem, em colóquio, no Centro de Reflexão Cristã, depois de uma temporada de forte inscrição social do catolicismo português (i.é., dos católicos portugueses), desaguando em opções políticas, em escolhas, em causas com carácter público bem marcadas, as últimas décadas ofereceram um outro panorama: das opções exteriores (exteriorizadas) às interiores, uma clara despolitização, a passagem, porventura, "do político ao estético". A quando do funeral de Alfredo Bruto da Costa, o sacerdote, teólogo, poeta, Professor sentiu que um imenso vazio se sentia: parecia-lhe que o lugar de Bruto da Costa não tinha sucessor; e era como que se fosse indiferente a ligação entre a sua opção ideológica à esquerda e o seu catolicismo. Numa palavra, ser católico, diz Tolentino - em uma intervenção com vários pontos de contacto com crónica recente, sua, no Expresso - foi sendo assimilado a ser ou situar-se (ou, ainda, ser colocado) à direita. Era isso que era dado por adquirido. Reitera-se: no momento presente, talvez nem isso, dado o refúgio num vago espiritualismo, sem corporização na polis, perto da auto-ajuda. Mas a sensibilidade de esquerda - de Manuela Silva a Maria de Lurdes Pintassilgo, de Sousa Franco a Guilherme d'Oliveira Martins -, nomeadamente no que esta tem de profético, faz falta à Igreja para um maior equilíbrio eclesial. Tocando na ferida, Tolentino de Mendonça diz que não percebe como este debate não chegou, ainda, a Portugal, quando são actores políticos de esquerda a citarem, constantemente, o Papa Francisco, e quando à direita cada vez que o Santo Padre fala há incómodo e se procura sempre explicar uma segunda vez o que o Papa pretende dizer, como se o que ele diz não fosse suficientemente claro (quem frequente as estantes de economia das livrarias, depressa percebe do que aqui se fala). Seja como for, a sonda que Tolentino de Mendonça coloca em cena, não descortina, mesmo com a crise que temos vivenciado, qualquer alteração ao status quo.

Peregrinação

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O retrato do peregrino actual é o retrato da Igreja e da sociedade. Julgo que é tempo de abandonarmos os estereótipos criados. (...) Tem sido transmitida uma ideia estereotipada do peregrino de Fátima, profundamente errada e profundamente injusta. Temos peregrinos mais jovens e mais idosos, pessoas com nível académico superior e pessoas sem formação académica. Temos aqui o retrato da diversidade que caracteriza Portugal e a Igreja portuguesa, bem como as dos países estrangeiros de origem (...) A peregrinação é um fenómeno vivo e claramente tem havido uma transformação que tem a ver com a peregrinação em si mesma, o que se verifica em Fátima, mas também em Santiago de Compostela. Peregrinar voltou a ser uma actividade digna e entendida como tal, o que levou, nestes últimos anos, a uma transformação do tipo de pessoas que vem a pé a Fátima, a pé, sem que houvesse uma organização dos grupos, quer nas pessoas que os integram. (...) Tínhamos uma população rural que vinha a pé por promessa. Agora, cada vez mais gente vem do ambiente urbano, com formação académica superior, não porque se tenha feito uma promessa, mas porque se pretende fazer a experiência do peregrinar a pé. Mas, na sua esmagadora maioria, os peregrinos de Fátima não vêm a pé. A peregrinação a pé é relevante, mantém-se; o que é interessante porque houve uns anos com um certo decréscimo e voltou a crescer e a ganhar interesse. Registou-se uma transformação evidente no paradigma do peregrino, que passou a ter uma representatividade muito mais vasta.

[A dimensão do sacrifício, no sentido de cumprir uma promessa, é hoje menor?]

Não me parece que seja menor. Talvez seja menor o número de pessoas que promete vir a pé a Fátima. A promessa mantém-se embora se vá também transformando. A peregrinação a pé deixa de ser vista exclusivamente pelo prisma do sacrifício e começa a ser vista como uma experiência mística que se pode fazer através de um exercício físico. Isso traduz a percepção de algo que sempre esteve presente em toda a vida cristã embora em alguns momentos tenha caído um pouco no esquecimento: a vivência cristã é profundamente arreigada no corpo e só é possível fazer uma experiência espiritual passando pela mediação corporal, isto é, também pela experiência física. A experiência do peregrinar ajuda a perceber o que é a fé como uma caminhada. E é essa a percepção que me parece que hoje é mais viva. (...) Mais essa experiência espiritual do que a dimensão da promessa, que se situa muito ao nível do comércio com o sagrado; dou para que dês; recebi uma graça, então vou pagar; ou para que receba, faço esta parte do sacrifício. Parece-me que também ao nível da motivação há alguma transformação.

Carlos Manuel Cabecinhas, Uma mensagem com passado, presente e futuro, entrevistado para a obra A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima, de António Marujo e Rui Paulo da Cruz, pp.239-240.



O mundo da peregrinação está em transformação desde sempre. A peregrinação a pé está a potenciar toda a dimensão de performatividade, de inscrição no espaço e na natureza, bem como a ideia de uma identidade em movimento, muito cara à nossa experiência contemporânea. Hoje, as pessoas não são «uma única coisa», constroem-se na mudança. Ninguém se pensa já a partir de uma lógica de imutabilidade ou de uma identidade cristalizada. A peregrinação é um gesto simbólico que descreve, de maneira lúdica e numa dimensão ritual, de forma muito eficaz, esta experiência contemporânea. Há muitos sinais que nos mostram que a peregrinação a Fátima pode estar cada vez menos dependente da tradicional religiosidade votiva, baseada especialmente na troca simbólica de dons, e mais próxima de uma religiosidade mais performativa, mais individualizada, agora com outro sentido: a realização de si mesmo, encontrando experiências fortes que são um acréscimo de motivação para os indivíduos, levando alguns a desvincularem-se de outras formas, mais sedentárias, de inscrição religiosa. Para muitos, porventura, a sua identidade religiosa pode passar a ter, como marcador essencial, a peregrinação que todos os anos se faz a Fátima. Aquilo que era o ir á missa todos os Domingos, para algumas dessas identidades passará a ser este ir a Fátima todos os anos. Há aqui mudanças de escala, que vão afectar certamente o perfil dos peregrinos e os modelos de peregrinação.

Alfredo Teixeira, Na rota de uma recomposição do religioso orientado para o indivíduo, entrevistado para a obra A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima, de António Marujo e Rui Paulo da Cruz, pp.266-267.