terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Ensinar e educar


Que se quer dizer quando se fala em «ensinar»? [De acordo com] Israel Scheffler (...): teaching that, ensinar que, teaching how to, ensinar a (fazer), teaching to, ensinar porquê. Vejamos, por exemplo, estes dois enunciados que correspondem a «ensinar que»: 1) Pedro aprendeu que Colombo descobriu a América em 1492; 2) Pedro aprendeu que é preciso ser honesto. 1) tem apenas um sentido, enquanto 2) é ambíguo, pois pretende dizer que Pedro se tornou honesto, e que ele sabe que é preciso sê-lo sempre que o não é. Assim, na educação moral, mas também na educação física e mesmo intelectual, prefere-se o «ensinar a», o ensino que forma àquele que informa; 3) Pedro aprendeu a ser honesto; logo, é-o. Só que, atendendo a 3), pode sê-lo sem saber porquê; por hábito cego ou por temor. O mesmo acontece, evidentemente, noutros domínios. Pode muito bem saber-se - saber de cor, mas também saber falar uma língua, calcular, etc. - sem compreender o que se faz. Na verdade, «ensinar a» é uma formação; mas uma formação que fosse conseguida só com certezas e apressadamente seria ainda uma educação? É por isso que é preciso levar a sério o terceiro sentido, «ensinar porquê», e que se pode ilustrar em 4) - Pedro compreendeu que é preciso ser honesto

(...)

No francês do século XIX, «educação» tem sobretudo o sentido de saber-viver, o que implica a adaptação às normas da classe «superior», aos seus símbolos, aos seus valores, ás suas convenções, mas também um real domínio de si; educado é o homem que sabe conter-se, no duplo sentido de guardar o seu lugar e guardar o sangue-frio. De todo diferente é a palavra inglesa education, palavra enganadora, cujo sentido se introduziu sub-repticiamente entre nós. Education significa o ensino como instituição, o sistema escolar e universitário; an educated person é alguém instruído, o que não quer dizer bem educado.

Olivier Reboul, A filosofia da educação, Edições 70, pp.13-14 e 20.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Guerra à distância

Resultado de imagem para drones

Por vezes, acredita-se que as questões éticas levantadas pela morte pilotada à distância, em conflitos bélicos, emerge muito recentemente. Mas não é assim.


«Estamos a transformar-nos em animais. Sinto-o nos outros. Sinto-o em mim», confessou um soldado francês numa carta à família, em 1915. Nem todos os soldados ficaram brutalizados com a experiência da guerra, mas a verdade é que muitos ficaram-no. A matança era brutal, mas sem emoções. A maior parte era obra de artilharia, das metrelhadoras, das granadas ou de outras armas letais utilizadas à distância contra inimigos sem rosto. O fogo da artilharia foi responsável por 75% das baixas francesas entre 1914 e 1917. Os soldados referiram na altura, e mais tarde, a facilidade de disparar de longe sobre um inimigo anónimo e impessoal. O combate de proximidade - por exemplo, saltar para dentro de uma trincheira inimiga e espetar a baioneta num homem - foi muito mais raro. Das baixas alemãs na frente ocidental, na Primavera de 1917, somente 0,1% decorreu de combates corpo a corpo, em comparação com 76% causados pelo fogo de artilharia. Alguns soldados que participaram em combates de proximidade tiveram de ultrapassar inibições ou escrúpulos

Ian Kershaw, À beira do abismo. A Europa 1914-1949, D.Quixote, 2016, p.94

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Continuando a ouvi-los


Da entrevista (com duas partes) que Sampaio da Nóvoa deu, esta semana, ao Público três sublinhados essenciais: i) a candidatura do ex-Reitor, considera agora o próprio, ficou situada numa complexa zona cinzenta, entre não ser de partidos e não ser contra os partidos (por um lado, pode curar-se de uma certa hipocrisia ou cinismo do sistema político e mediático em torno das candidaturas independentes: uma retórica assente na necessidade de alargar o campo de participação cívico-política, mas sempre que este surge fácil se torna acusar uma candidatura de ser populista e anti-partidos - e, neste caso concreto, diga-se que Sampaio da Nóvoa evitou cair na demagogia que tinha sido a marca de Fernando Nobre, ou, noutro contexto, de Marinho e Pinto, e sempre realçou a centralidade dos partidos em democracia; diferentemente, já a sua independência, muito encostada ao PS, tornava difícil esse situar-se entre uma independência de jure, uma promessa de facto (de apoio, por parte de António Costa) e a emergência de uma parte do PS mais alinhada com o segurismo que fez com que a ambiguidade se tornasse especialmente dura (na medida em que o gato com o rabo de fora, afinal em parte já não o era, com um PS um tanto dividido; se é que, em todo o caso, algum dia apoiaria Sampaio da Nóvoa de alma e coração); ii) Nóvoa faz notar que aqueles que se entusiasmam (ou entusiasmarem excessivamente) quando o pêndulo presidencial se encontra mais próximo do seu, terão, depois, mais dificuldades em afirmar coerência nos elogios, em caso do "pêndulo mudar"; iii) o candidato às presidenciais de 2015, em uma entrevista com indiscutível honestidade intelectual e sentido auto-crítico - muito raro em política, mostrando elevação -, Sampaio da Nóvoa reconhece os galões a Marcelo na cena internacional considerando-a muito importante e assumindo que não estaria nas mesmas condições, nem teria o mesmo traquejo, para a enfrentar (vindicando, de alguma forma,  o que o actual Presidente da República garantia na sua mais recente entrevista televisiva, a saber, que foi necessário, no plano internacional, intervir seriamente para explicar como todos os compromissos do Estado português e suas opções estruturantes seriam cumpridos; por outro lado, e em se elencando esta como uma prioridade, como fez Nóvoa, alguma candura em se reconhecer menos preparado para uma das incumbências fundamentais do cargo, em especial nestes tempos).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Ennui


Hoje em dia, a opinião universal, ou aproximadamente universal, é que ser um maçador é um pecado imperdoável. Isto é um engano tremendo. Se é para se usar esta terrível fraseologia, deve-se dizer antes que o pecado imperdoável é ficar aborrecido. O Ennui é, de facto, o grande pecado, o pecado pelo qual todo o universo tende continuamente a ser subvalorizado e a desaparecer da imaginação. Mas trata-se da pessoa que o sente, não da pessoa que lhe dá origem (...) A culpa, se é que faz sentido falar de culpa, é somente nossa por nos deixarmos aborrecer. O assunto não é de todo maçador; não existe no mundo um só assunto que seja maçador. O simples facto de ele, o nosso interlocutor, uma pessoa perante todas as evidências muito mais estúpida do que nós, ter encontrado o segredo e captado o charme desse assunto em particular constitui a demonstração suficiente de que não se trata necessária ou invariavelmente de um assunto maçador. Se ele consegue ficar entusiasmado com o mecanismo de uma alavanca ou com a abominável conduta dos Robinsons, como não poderemos nós partilhar desse entusiasmo? Achamo-nos subjugados, ele mantém-se extasiado. Numa frase, somos apresentados à sua definitiva e imensurável superioridade. O homem feliz é natural e necessariamente superior ao homem enfastiado. A tristeza e a inércia do indivíduo aborrecido podem revelar-se como o resultado da educação ou da intelectualidade, mas não é possível que estas sejam particularidades tão cativantes em si mesmas quanto a grande convicção, o cintilante entusiasmo e a divina felicidade do maçador. (...) Uma discussão familiar, por exemplo, pode ser um acontecimento deveras sórdido e maçador (...) Mas seguramente uma discussão familiar não é por si algo de desinteressante (...) Que ninguém se felicite a si próprio por abandonar a vida em família com o pretexto de partir em busca da arte ou do conhecimento; ele abandona-a porque anda a fugir do desconcertante conhecimento da humanidade e da impossível arte da vida (...) O pecado diz respeito àquele que se deixa aborrecer, não à pessoa maçadora. Dada a fraqueza de espírito da humanidade, vamos permitindo que se façam revoluções e se promovam emancipações e rupturas com laços afectivos. Mas o indivíduo vigoroso, o indivíduo ideal, achar-se-ia interessado por qualquer ambiente em que, pela ordem natural das coisas, fosse inserido. O herói seria assim uma pessoa inteiramente domesticada; o Super-humano sentar-se-ia aos pés da sua avó.

G.K. Chesterton, Em defesa dos maçadores, in Ficar na cama, Relógio d'Àgua, tradução de Frederico Pereira, 2016, pp.50-53


Houve entusiasmo na ida (das populações) para a I Guerra Mundial?


Ainda a questão do entusiasmo (ou falta dele) com que a ideia e decisão, dos diferentes governos, de ida para a guerra, em 1914. De acordo com Ian Kershaw, em A Europa à beira do abismo. 1914-1949, a questão coloca-se nestes termos: há diferenças claras entre a reação que se registou nas grandes cidades (de entusiasmo e fervor) face à que se verificou nas pequenas cidades e aldeias (onde terá prosperado mais a ansiedade e o receio), entre classes sociais, grupos etários (maior entusiasmo jovem, ou de classes médias, menor alegria entre operários), sendo certo que a noção de que a guerra seria curta, uma aventura heróica, resolvida pelo Natal; a demonização, em larga medida, feita pela imprensa, relativamente aos oponentes; a desmesura nacionalista que os mesmos media inculcavam nas populações fez com que mesmo entre os mais tradicionais grupos pacifistas a resistência não fosse muita. Os socialistas, por exemplo, colocaram o patriotismo em primeiro lugar, face às convicções ideológicas e, mesmo se com reticências, em diferentes países aprovaram os orçamentos para a guerra. Apenas 5 bolcheviques se recusaram a ratificar a medida, na Duma, e foram, de imediato, parar à cadeia. A guerra eclodiria, pelo Natal de 14 havia já centenas de milhares de mortos e o fim da mesma, por essa altura, era simplesmente uma quimera. Mobilização de milhares de comboios com a tropa, e um curioso papel, ainda, dos cavalos (pelo lado da Alemanha, Rússia, Áustria cerca de 2,5 milhões de cavalos mobilizados; entre britânicos e franceses centenas de milhares - ainda à maneira napoleónica). A conscrição não encontraria quase a menor resistência - 1,5% em França, quando o Governo esperava 13%. Estávamos perante a primeira guerra a envolver todos os continentes - de aí a primeira guerra mundial -, muito em virtude da Europa, colonizando, se ter projectado para bem longe do Velho Continente (1 milhão de indianos combateu ao lado dos Aliados; mais de 2 milhões de africanos serviram como soldados ou trabalhadores). Quando a guerra se desencadeou milhares de jovens em Berlim, ou Londres entoaram cânticos pejados de orgulho nacional pelas cervejarias, bares, ruas, ou em frente às sedes das instituições políticas. Mas a angústia e ansiedade de quem sabia que poderia perder os mais queridos, não deixou de estar patente em tantos outros rostos. Houve entusiasmo, alegria, como houve medo. Temos registos de quem pôs em papel a triste profecia da carnificina que haveria de chegar tão prontamente. Mas a conclusão do jogo de todos os actores, naquele Verão de 1914 é, ainda, para o historiador, uma: no início "a guerra foi popular" (p.68).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A tensão entre natureza e cultura


A ideia de que nada é impossível à educação tem como pressuposto o ignorar da existência de uma natureza humana (universal), sendo que esta se consubstancia na capacidade para aprender ("há, pois, claramente, uma natureza humana universal, que consiste precisamente na possibilidade de aprender", p.25), e em formas de resistência como a psicologia (os estádios pelos quais a criança passa) ou o carácter ("tens que ser como o teu irmão", como se houvesse um molde comum). Se faz sentido não descurar o realismo de um adestramento que contempla a sociedade em que se vive e as funções/competências/conhecimentos que reclama (teses  empiristas e culturalistas), o enviesamento e reducionismo do mesmo cairia no erro de ignorar que a própria sociedade não é fixista/imobilista (e que há um contributo singular a esperar; uma sociedade "não é simples nem estática; e a educação deve preparar a criança para a sua complexidade e evolução", mais, "ao pretender-se fazer do indivíduo um meio da sociedade, esquece-se a sua dignidade própria e, acrescendo a isso, faz-se dele um meio muito pobre", p.28). Homens como Mozart, Beethoven, Rousseau, Nietzsche ou Van Gogh foram (uns) inadaptados (p.27). Inversamente, também, "se, sob o pretexto de respeitar a espontaneidade criadora dos alunos, se renuncia a obrigá-los a exprimir-se bem e a bem compreender, acaba-se por destruir a própria comunicação. Do mesmo modo, destroem-se, desde que se renuncie a transmiti-los aos jovens, os tesouros da ciência, da arte, da moral, que são os únicos que lhes permitem tornar-se inteiramente adultos" (p.27). Ora, perante esta antinomia, indivíduo vs sociedade, a humanidade: "Porque entre o indivíduo e a (uma) sociedade existe um terceiro termo, que é a humanidade. A própria educação testemunha-o Não se educa a criança para que ela não vá mais longe. Mas também não se educa para fazer dela «um trabalhador e um cidadão». Educa-se para fazer dela um homem, isto é, ser capaz de compartilhar e comunicar com as obras e as pessoas humanas. Pois, para além de todas as culturas, há a cultura, que consiste, acima de tudo, no facto de todas elas poderem comunicar entre si; do mesmo modo, há línguas, mas nenhuma intraduzível. Ora, o modelo humano não é imposto a partir de fora: ao despertar a inteligência e a personalidade da criança. converte-a num homem mas, permitindo-lhe ser ela mesma. Insistindo ainda na linguagem, Montaigne e Rabelais, Gide e Proust aprenderam a mesma língua, mas cada um, para além dos lugares comuns, soube encontrar o seu próprio estilo e exprimir-se nele.
Assim, parece-nos que o fim da educação é permitir a cada um realizar a sua natureza no seio de uma cultura que seja verdadeiramente humana. Se tal fim parece utópico, é o único que resguarda a educação tanto do abandono como do endoutrinamento" (p.29)

[a partir de Olivier Reboul, A Filosofia da Educação, Edições 70]

Filosofia


A filosofia começa onde as coisas já não são claras (...) Assim, cada um interroga-se: «Que horas são?». E a filosofia questiona: «O que é o tempo?» (...) Sócrates, no Protágoras, pergunta ao sofista que se vangloriava de introduzir um ensino excepcional: «Que lucro se pode tirar das tuas lições?». Responde Protágoras: «Voltarás a casa melhor...».

Olivier Reboul, A filosofia da Educação, Edições 70, 2017 (1ªedição, ano 2000), pp.7-8.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Um século


Para este ano, está prevista a publicação de extensa bibliografia acerca de Fátima, pelos 100 anos das "aparições". Creio que Fátima. Milagre, ilusão ou fraude? (Guerra e Paz, Clube do Livro, 2017) , de Len Port, foi o livro a dar o mote para o que se segue.
A obra é, manifestamente, escrita num registo para o grande público, seja na forma - a recusa de qualquer academismo, a ausência de notas de rodapé, por exemplo; em várias ocasiões, podendo, estas, ser tidas por maçadoras, permitem, todavia, ao leitor confrontar-se com documentos que acabam por revelar-se essenciais na sua avaliação de uma dada temática (e, bem assim, do modo como o autor se projecta sobre ela, interpretando-a de um dado jeito) -, seja no conteúdo (em diferentes capítulos, com uma visão muito sintética do objecto que trata: por exemplo, o tema da teodiceia, no qual, para relevar, apenas, uma das dimensões, não se estabelece, sequer, uma diferenciação entre mal moral e físico, e em que obras mais recentes, ao nível da teologia católica não são inscritas, nem conhecidas; embora a viagem por acontecimentos como o terramoto de Lisboa, de 1755, e subsequentes questões-debates que originou, um clássico, tenha cabimento, ainda que não novidade).
Não raro, a obra ameaça transformar-se num verdadeiro albergue espanhol, em que tudo cabe: desde uma espécie de súmula da história de Portugal e sua relação com a Igreja (um capítulo VI bastante afastado do que julgávamos ser o objecto do livro, e, ainda para mais, destacando, nessa mesma História pátria, alguns aspectos mais pitorescos, e susceptíveis de captar as sensações - mas cujo liame com Fátima não se vislumbra -, como os relacionados com D.Sebastião; nessa mesma síntese, como em vários momentos do livro, parte-se do princípio que o leitor nada conhece, que o background deste anda perto da absoluta nulidade; além de se perceber, também, o fascínio por certas personalidades em particular, como a do Marquês do Pombal), passando pela história da maçonaria (o autor entende que para estabelecer uma ligação, mesmo que bastante indireta, entre Fátima e a maçonaria  - segundo o autor, organização ligada à morte de João Paulo I - deve contar toda a história daquela organização), a história da Opus Dei, dos Jesuítas (por exemplo, o autor alude à importância que os Jesuítas teriam tido na divulgação de Fátima, mas, em vez de sustentar a tese, opta por nos descrever a história dos Jesuítas, p.99), todas, e mesmo as mais implausíveis e absurdas, teorias da conspiração (dos Iluminati aos movimentos anarquistas), algum argumentário ateu (sem contraditório, e sem problematização), a caracterização do pós 25 de Abril, etc.
Qualquer admirador da encíclica Deus Caritas Est ficará impressionado com a maneira como é tratada com os pés. 
Dito isto - e que é bastante na economia do livro, pouco focado, muito disperso, indo a demasiados sítios e com um tanto de superficialidade nessas deambulações -, a obra é rigorosa a tratar o comentário teológico (a Fátima) de Ratzinger (isto é, cita-o rigorosamente e em excertos significativos e resume-o com fidelidade; o comentário pode ser lido aqui.) e expõe (iniludíveis) problemas que a literalidade da mensagem - do livre arbítrio (uma história já escrita), do tipo de concepção/imagem de Deus (castigador), de um intervencionismo divino que perpassa  - para além das questões do tratamento (eclesial, ou do magistério) de Lúcia (e seu regime de clausura), pertinência, gestão e significado dos tempos da revelação do "segredo", beatificação (precaridade de provas, significado de milagre) relativamente a Jacinta e Francisco. Mesmo que não sejam questões novas (são questões importantes).
Para mim, novidade, e surpresa, um estudo - mencionado nesta obra - de 2001 e 2002, segundo o qual a maioria dos peregrinos (que responderam a inquéritos) não estava ciente da mensagem (de Fátima), ou ignorava-a: só 18,4% encarava as aparições como importantes e menos de cinco por cento identificava Fátima em termos de «santos, milagres, sofrimento» (p.213). Embora, refira-se, toda a descrição subsequente do que o autor encontra em Fátima, nas referências empíricas, pareça contrariar esta ciência (nomeadamente, nos pedidos e sacrifícios por intercessões divinas diretas, imediatas). Mas tal poderia ser lido, em chave benigna, (em) como os fiéis observam, mesmo não conhecendo (bem, ou completamente) a mensagem, em Fátima, um lugar de paz, oração, penitência, conversão (o essencial, creio, paradoxalmente, da mensagem).
Sendo o livro muito focado em curiosidades, fico a saber que Ali Agca, que era partidário de uma organização de extrema-direita turca, viu-se associado, pela primeira vez, a uma encomenda dos serviços secretos búlgaros (quando a Bulgária estava na órbita comunista) para matar João Paulo II numa publicação das Selecções do Reader's Digest (e, ao que parece, desenvolvimentos recentes, tenderão a desmentir tais relações). Para Len Port é indesmentível uma mística anti-comunista associada a Fátima. Bem como a ideia, dos sectores mais tradicionalistas católicos, de que o "terceiro segredo" se encontraria ligado a profundas divisões no Cristianismo (e responsabilidades eclesiásticas em tal suceder).
"O padre Dhanis duvidava seriamente que Nossa Senhora tivesse pedido a consagração da Rússia, dado que isso teria sido repugnante para a Igreja Ortodoxa. Desprezado por alguns como «um opositor viscoso» da mensagem de Fátima, Dhanis era tido por outros em grande conta. No seu comentário do Terceiro Segredo, o cardeal Ratzinger fala de Dhanis como um eminente teólogo, especialista em revelações privadas. É o único teólogo citado por Ratzinger no comentário, o que levou os tradicionalistas a acusar o próprio cardeal e futuro papa de se opor à mensagem de Fátima" (p.116).
O "milagre do Sol" merece um capítulo: neste, são recolhidos um vasto conjunto de aproximações, diferenciadas, não se tendo estabelecido, nele, uma conclusão definitiva - que não a de que em mais lado nenhum se observou, ou foi registado, um fenómeno extraordinário do Sol, e de que certas descrições (oculares, que nem sempre terão coincidido entre si) não teriam acolhimento positivo/científico - e, para outras, várias, possibilidades de explicação são avançadas, não sendo indisputada a interpretação desse momento (mesmo ao nível da causalidade científica). João Paulo II sofre o atentado em S.Pedro a 13 de Maio de 1981, e vem a Fátima um ano depois (onde volta a ser alvo de uma tentativa de homicídio; neste último caso, por banda de um padre espanhol que não estaria na posse das suas faculdades, ao nível mental). As datas, e suas coincidências com a das "aparições", serão sempre alvo das mais variadas conjecturas (por quem se filia em correntes apreciadoras da exploração das mesmas); Ali Agca tem uma irmã chamada Fátima, "a que brilha", e a filha de Maomé que sobrevive possui o mesmo nome.
Quando relemos os sublinhados de Len Port da alocução do cardeal que no ano 2000, em Fátima, leu e pronunciou-se acerca do "Terceiro Segredo" é da distância a que estamos, fora os contextos mais fechados, de qualquer zeitgeist que (no fundo) a entenda (faça sentido) que mais nos marca. Aliás, mesmo então, estaríamos no dobrar, no fim de um tempo para essa manifestação. Neste sentido, a descrição do que os anos 90 nos trouxeram conta-se entre o que o diagnóstico do jornalista, autor deste ensaio, acerta: "Em Portugal, como no mundo em geral, a norma foi sempre mais a auto-indulgência do que a camaradagem fraternal. O consumismo, em vez do comunismo, tornara-se a força dominante do mundo. A rejeição do marxismo-leninismo tinha permitido um renascimento do Cristianismo em antigos países comunistas da Europa de Leste, numa altura em que as Igrejas na Europa Ocidental, tradicionalmente católicas, estavam vazias. A popularidade das seitas evangélicas «born again» e outras confissões fundamentalistas, particularmente na América, aumentava, enquanto as Igrejas Católicas perdiam público. A religião de Roma estava também a sofrer com a vaga de cultos New Age e da pseudociência. Uma estonteante panóplia de terapias e movimentos místicos surgia como cogumelos, à medida que o homem moderno tentava preencher vazios emocionais deixados pela insatisfação com os dogmas cristãos e as deficiências espirituais da ciência" (p.134).
Outros livros, outros registos, maior foco e densidade nos esperam sobre um dos acontecimentos que marcaram o século XX português.


Mapa mundi



Domingos à noite, na RTP2


Conversas inteligentes e cultas, no Curso de Cultura Geral.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Da impossibilidade da redenção


Resultado de imagem para Manchester by the sea

Lee é um daqueles homens simples e bons, contente com a família que contribuiu para construir, amável e paciente com os pequenos rebentos. Lee, o homem dos sete ofícios, o polivalente que é electricista, carpinteiro, picheleiro, faz tudo. Numa noite, na cave do apartamento no qual vive, prolonga o jogo de ténis de mesa e de álcool partilhado com amigos. Madrugada dentro, numa cena típica, a mulher irrompe para acabar com o barulho. Ainda sem sono, demasiado bebido, Lee vê televisão, com os filhos na sala; o tempo está frio, mas a sede aperta. Sem condições para conduzir, a noite já não era uma criança, a loja que pode fornecer as cervejas que faltam a vinte minutos a pé, Lee reforça a lareira com uns tocos adicionais. A meio da viagem, casa-loja, a dúvida acerca da protecção à lareira ter sido, por si, colocada, assalta-o. A casa arde e, apesar da volta em sentido inverso a caminho do lar, já não há regresso. Lee é, ali, sepultado. Lee (Casey Affleck imenso), vê-mo-lo e senti-mo-lo ao longo de todo o filme, experimenta-mo-lo no imenso bloqueio, na palavra que não diz, no supérfluo que esta representa, na zanga com os outros e o mundo - uma espécie de projeção na impossibilidade da reconciliação consigo próprio - no irrepresentável da sua situação, na cruz que o pai não consegue carregar, na incapacidade de exprimir o que não tem redenção, a falha, a negligência, o azar, a culpa tão densa e tão sombria, nunca superada. Irreversível. Irremediável.  

Duas cenas, imensas, no filme, sempre acompanhadas de uma banda sonora (um violino no primeiro caso) que iluminam a tortura interior, a chama que consome o homem que, a partir daquele evento trágico, desliga a ficha da inteligência emocional: é só isto?! pergunta Lee, na esquadra da polícia, quando o deixam ir embora, solto, afirmando, afinal, o carácter tantas vezes aleatório, misterioso, que nos ultrapassa da existência: não colocar protecção na lareira. Dos milhares de pessoas que na última noite cometeram milhares de pequenas falhas, infelizmente coube-lhe a si este desfecho terrível. E o é só isto?! como que nos comunicando que o homem, incapaz de se perdoar, sendo impossível de aceitar o que lhe sucedera, esperara, porventura, fora de si, o castigo, a pena que, afinal, consistirá no não consigo que dirá ao sobrinho que se vê (praticamente) compelido a adoptar/tutelar, após a morte do irmão. A narrativa de Manchester by the sea, de Kenneth Lonergan, é, pois, a da debilidade, da fragilidade humana, de um falhanço (insuperado).

A segunda cena: Patrick, o sobrinho que Lee tutela, adolescente em fase de relacionamentos múltiplos, solicita ao tio o favor de entreter a mãe de uma das girlfriend que seduz, esperando, com isso, ter o tempo necessário para concretizar os desejos mais efervescentes, no quarto da rapariga. Acontece que Lee, o tio, nem a conversa mais banal consegue manter. Não que ele não queira satisfazer o pedido do sobrinho, mas nem o tempo - não sabias falar dos juros, como qualquer adulto normal?! -, nem nenhum tópico é capaz de resgatar 5 minutos em conjunto com a mãe da jovem. O silêncio, entre não íntimos, é sempre constrangedor, e esse bloqueio, insista-se, esse poço em que Lee se mantém sitiado, esse laço apertadíssimo junto à garganta, não pode ser desfeito: vejam se se despacham porque eu já não consigo aguentar o silêncio do tio do Patrick, diz a mãe, exasperada, na irónica visita ao quarto dos adolescentes em namoro.

Carregado com o acidente mortal, o tesouro perdido à incúria e à concentração de todo o terror do mundo, mea culpa mea máxima culpa, posto entre a espada e a parede para ser tutor de Patrick - o irmão tudo planeara, dada a doença que o afactara determinantemente, e com uma cunhada profundamente alcoólica e sem família por perto, quase impossível deixar o sobrinho ao deus-dará -, Lee escuta do outro lado do telefone a mulher de quem se separou - imagina-se, em função da tragédia pela qual os dois passam - a contar que vai ser, de novo, mãe. E, numa outra cena, sóbria, esta evoca uma conversa - a que não nos é dado assistir, mas percebemos, facilmente, a violência que continha - tida após a morte dos filhos, e pede desculpa a Lee pelo que então lhe disse: além de interna e eterna, a culpabilização outra, ademais vinda da mãe das crianças, a tornar a humilhação e o fracasso totais.

Se a nova paternidade (no contexto, adoptiva), por banda de Lee, poderia sugerir uma dupla leitura - ele é confrontado, simultaneamente, como novo pai, com o pai que havia tido o destino brutal que vimos de recordar, mas, por outro prisma, ao ser convocado, de novo à paternidade, o resgate, a redenção, desde logo na confiança por outros em si depositada -, contudo, em momento algum, Lee sempre contrariado, sempre avesso a assumir o encargo, a dizer sim e pensar que não, exasperado, desesperado, Lee em momento algum se liberta - ou, sequer, pretende libertar-se - da culpa bebida até ao fim do cálice. E nunca há hipótese de lamber as feridas.

P.S. Em certo momento do filme, a quando da cena na esquadra de polícia, recordei uma frase do Papa Francisco, creio que após, ou durante, uma visita a reclusos: "Senhor, porquê eles e não eu?". 
Basta não fecharmos a protecção de uma lareira (uma vez mais, o "match point").

P.S.1. A mãe de Patrick, alcoólica, convida o filho para um almoço, com o seu companheiro. Na mesa, orações antes da refeição. Um quadro de Jesus na parede. Um homem à cabeceira. Um tom profundamente "conservador". Uma América profunda, dos "cristãos renascidos" ecoa nesta cena.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Relações laborais


1.Parece-me objectivo dar como assentes os seguintes factos, relativamente à conformação legislativa das relações laborais (e suas balizas estruturantes), em Portugal, para o período da presença da Troika no país, ou, se se preferir, para a legislatura 2011-2015:

a) congelamento do salário mínimo;
b) diminuição das indemnizações por despedimento;
c) diminuição do montante e da duração dos subsídios de desemprego;
d) enfraquecimento da contratação colectiva

2.A meu ver, não pode prescindir-se desta constatação para proceder a uma avaliação judiciosa do que está em causa, e do que cada um considerará a melhor decisão (política) no caso da TSU.

3.Ademais, importa notar, o assinalado congelamento do salário mínimo interrompeu um acordo prévio, em concertação social, assinado entre as várias partes que a integram, no sentido da sua actualização, com a explícita indicação de que tal se estribava na grave crise pela qual o país passava.

4.Ainda durante a legislatura anterior, celebrou-se o fim da crise, a saída da troika do país, o regresso ao crescimento económico.

5.Desta sorte, a ponderação do (quantum do) aumento do salário mínimo e da consideração pelos diferentes actores que com ele contendiam, implicaria, quer para esses mesmos agentes, quer para os poderes públicos, creio, considerações de dupla natureza: e) a convocação de um critério de justiça (no sopesar do que havia que conceder e impor, a empregadores e trabalhadores por conta de outrem) e f) a avaliação da eficácia relativamente ao que do acordo resultasse para a promoção (ou destruição) de emprego e, bem assim, para o incremento da actividade económica.

6.Neste contexto, não se afigurará destituído de razoabilidade conceber que exigências possivelmente contraditórias entrariam, aqui, em presença. De uma banda, certamente não se ignoraria quanto os trabalhadores por conta de outrem haviam deixado de auferir, a cada fim do mês, no último quadriénio, em função da não actualização (da prevista subida) do salário mínimo, bem como muita da conformação legal que lhes oferecia uma mais densificada rede de proteção (social) ficara, seriamente, danificada. Acresce que uma muito significativa manifestação de cidadãos portugueses (cerca de 1 milhão, segundo várias estimativas então realizadas), tendo por base uma mudança na tsu - ainda que em termos muitíssimo diferenciados dos actuais, sublinhe-se - se fizera sentir na legislatura anterior. Estes factores, de uma relevância social e política que me parecem insofismáveis, revestiam-se de uma inequívoca pertinência e de um significado que não poderia negligenciar-se.

7.No outro prato da balança, o Governo teria de sopesar: o impacto direto (do aumento, nos termos prescritos, do salário mínimo) no emprego nas pequenas empresas; o modo como um aumento do salário mínimo tocaria as IPSS; o sinal (aqui indirecto e implícito) político, estando o governo permanentemente sob a acusação de uma deriva à esquerda - acusação, esta, em todo o caso, tantas vezes contraditória com o simultâneo apontar de que o Executivo não teria outra preocupação senão a do défice, e que, assim, não promovia o investimento público, não potenciando, com esse elemento, o crescimento económico -, da não preocupação com o investimento e competitividade das empresas, dos débeis números do crescimento económico - efectivamente bastante aquém do que o programa de Governo previra e do que o país necessitaria. 

8.Colocada a questão nestes termos, importa, pois, em primeira instância, registar, na senda, um pouco, dos trabalhos de Innerarity, como uma visão menos apaixonada do problema, não nos colocará acima do bem e do mal - cada um de nós, nesta mesma ponderação, decidiria, por certo, de modo diverso -, mas tornará clara que qualquer que fosse a decisão - e não havia como fugir-lhe -, acarretaria riscos de injustiça e/ou ineficácia.  
Falamos em riscos, que não certezas: argumentarão alguns, de resto, neste caso, à esquerda, que aumentar o salário mínimo (e sem compensação às empresas), significaria, simultaneamente, uma decisão justa e que na aceleração da procura que geraria traria efeitos positivos sobre a economia e o emprego. À direita, inversamente, arguir-se-ia que injustiça não haveria em não aumentar o salário mínimo (pelo menos, para os níveis ora estatuídos), na medida em que quer as condições que o país vivia na legislatura anterior, quer relatórios que pretendem identificar um nexo de causalidade entre a flexibilização das leis do trabalho e o crescimento do emprego, respaldariam as opções legislativas anteriormente verificadas.

(cont.)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Substância política


A concertação social será a versão (democrática) travestida da Câmara Corporativa? Se sim, ela será o lugar onde prepondera um imutável veto patronal (Francisco Louçã), ou onde um Estado oligárquico impõe à partida as suas soluções? (João Miguel Tavares) Pode discordar-se da leitura de Francisco Assis, hoje no Público (e na entrevista a Flor Pedroso, na antena1), do actual momentum político português, atribuir-lhe, até, as mais variadas intenções, mas ele coloca em cima da mesa um cenário político que deve levar-se em conta, num olhar político substantivo, e que não se fica pela espuma das coisas (nem pela crítica pessoalizada, como, por exemplo, sucede no texto de J.M.Tavares, que está muito longe de oferecer ao leitor a mesma riqueza de perspectiva que Assis deixa nesta quinta-feira). A ler, aqui.

As benevolentes (II)


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida!

Luis Vaz de Camões



[cf. Génesis 29, 15-30]

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

As benevolentes


A propósito desta entrevista de José Vera Jardim, hoje, ao Público:

Tão influente foi a Bíblia nas artes ocidentais que hoje os leitores de livros, revistas e jornais, os visitantes de catedrais medievais, de igrejas ou museus e os ouvintes de peças musicais cantadas pouco entenderão se não têm uma cultura bíblica. As fascinantes figuras e imagens literárias, pictóricas, esculturais ou sonoras desses monumentos culturais estão cheias de alusões à Bíblia, da qual os visitantes não sabem quase nada! Mesmo que o guia turístico apregoe: esta figura é Abraão, este é Moisés, estes são os doze patriarcas, estes os doze apóstolos, o ouvinte ficará sem perceber a explicação, se não conhece a história bíblica. E que entende o espectador que ouve a peça musical “A criação” de Haydn ou a oratória “O Messias” de Handel? Apreciará a música: mas não escuta os sentimentos religiosos que perpassam toda a música por meio do texto bíblico que serviu de base a essas obras: se a música dá vida ao texto, o texto oferece o espírito às notas musicais.
A falta de mínima formação bíblica torna incompreensíveis e desinteressantes os tímpanos da catedral de Chartres e a Crucificação de Tintoreto, Velasquez e Picasso; e desencadeia a trivialização do quotidiano, quando a Trindade não soa a mais do que uma estação do Metro ou de comboio, e quando os dias feriados e as férias de Natal e da Páscoa não são mais do que um acidente do calendário. A Bíblia é um monumento cultural, que é indispensável conhecer se queremos compreender alguma coisa da cultura dos países que ela marcou profundamente. É isso o que precisariam de entender os grupos políticos que querem ver proscrita das escolas oficiais a disciplina de Educação Moral e Religiosa, assente na formação bíblica. Esta política pretensão paradoxal é, para o espírito humano, suicidária a prazo”

Armindo dos Santos Vaz, A Bíblia, o livro que mudou o mundo ocidental, in Dez livros que mudaram o mundo, Quasi, 2005, p.75.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

As vantagens da interioridade



Na mesma semana em que, em Vila Real, pudemos deleitar-nos, no Teatro, com um novo concerto de Pedro Burmester - que mereceu, inclusive, chamada a sugestão no suplemento cultural do Expresso - verifiquei (na sugestão da Sábado para idêntico espaço temporal) que o mesmíssimo programa (para Burmester executar), na Casa da Música, implicaria, para o espectador, um investimento que é o quádruplo daquele que faria em Vila Real (sendo, aliás, que é quase 10 vezes mais, se tivermos em conta o preço unitário do bilhete para alguém que seja assinante do cartão do Teatro vilarealense). Nem sempre são (só) desvantagens no interior.

Ao pé de página


Segundo Len Port, o primeiro autor a utilizar o vocábulo agnóstico foi Aldous Huxley.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Só para começar


A análise de ElPais à primeira conferência de imprensa do Presidente Trump (na íntegra aqui: http://internacional.elpais.com/internacional/2017/01/11/estados_unidos/1484149346_305823.html):

"Trump, que además de constructor de rascacielos y fallido empresario de casinos fue estrella de la telerrealidad, escenificó la comparecencia como unreality show, con el drama, las digresiones, la confusión, los exabruptos propios de un espectáculo de este tipo. Hablaba a ratos en tercera persona de sí mismo. Bromeaba sobre su alergia a los gérmenes para negar que hubiese participado en orgías en Moscú. Descalificó a periodistas y medios de comunicación y negó la palabra a uno de los periodistas de uno de estos medios, CNN. Aclaró pocas dudas y terminó citando con el estribillo de su reality show El aprendizYou're fired, "estás despedido". "

"Toda comparación con la Alemania nazi siempre es delicada en el debate político, pero que la utilice el próximo presidente para describir su propio país y golpear a sus espías muestra lo insólito de los Estados Unidos de Trump, que en la campaña tuvo el apoyo del Partido Nazi de EE UU."

"El caso ha introducido en EE UU el término ruso kompromat, el material comprometedor —de carácter sexual, por ejemplo— destinado a dañar a un adversario. Si el kompromat, en este caso, existe, o es ficticio, sus efectos pueden ser los mismos. El presidente electo, que jaleó las filtraciones sobre Clinton, que propagó mentiras y desafió a la CIA, ve ahora como todo esto se le gira en contra. Y se prepara para asumir el cargo con parte del establishment de la inteligencia —parte fundamental del aparato de seguridad nacional— enfangado en luchas internas".

"El otro problema que afronta en este convulso traspaso de poderes es la sospecha de que sus empresas puedan beneficiarse de su poder político. Publicar sus declaraciones fiscales, como llevaban décadas haciendo los candidatos presidenciales, arrojaría luz sobre estos asuntos, pero el presidente electo volvió a negarse a hacerlo".
"Lo que el presidente electo ha anunciado hoy no cumple con los estándares que sus mejores nominados [a cargos en la administración] están cumpliendo y que todos los presidentes en las últimas cuatro décadas han cumplido", dijo Walter Schaub, director de la Oficina de Ética del Gobierno.
El arreglo no resuelve el principal problema con el conflicto de interés: Trump seguirá siendo el propietario del grupo y cualquier beneficio acabará siendo un beneficio para Trump o su familia".
E, em editorial, o mesmo jornal não poupa nas palavras, sobre a conferência de imprensa de Trump, a começar pelo título do texto:
"Um começo lamentável". No subtítulo: "um grotesco espectáculo" (na íntegra aqui: http://elpais.com/elpais/2017/01/11/opinion/1484161406_176374.html)


"grosero con los periodistas, mal hablado, despectivo y amenazante. Trump demostró que sigue creyendo estar dentro de uno de los reality shows que tanta fama le han proporcionado pero tan poco tienen que ver con la gran responsabilidad a la que se enfrenta".

"Resulta de todo punto impresentable que interrumpiera una pregunta y mandara callar a un periodista hispano con un “usted es un cutre y da noticias falsas”; como lo es el que para referirse a temas tan graves como la construcción de un muro en la frontera con México o a la deslocalización de empresas, sus frases fueran encabezadas con expresiones del tipo “no me apetece” o “me da igual”."

"Las amenazas contra la industria farmacéutica, la alusión a “poderosos lobbies” y la mención directa a una firma de automóviles de la que, dijo, espera que siga el mismo camino de otras que ya han anunciado inversiones millonarias en EE UU y desinversiones en el extranjero, casan mejor en un guión de cine sobre el hampa que en una intervención presidencial. Mención aparte merece la disparatada puesta en escena, con una larga mesa con decenas de carpetas con documentos sobre las empresas a cuya administración dice renunciar.
Cuanto más se acerca Trump a la Casa Blanca, más se justifica la preocupación por lo que se avecina y se entienden menos los intentos de apaciguamiento de algunos Gobiernos como el español".

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Esperavas o quê?

Distopias (II)


Ainda que aparentemente desirmanados, sem terem que ver uns com os outros, funcionando autonomamente, os episódios de Black Mirror apresentam, parece-me, um claro pano de fundo (comum): uma vida vivida pela televisão (ou pelos ecrãs), uma vida (equacionada) como simulacro, a (im)possibilidade de aceder ao real - nesse sentido, o excepcional segundo episódio da I temporada leva a alegoria ao seu pináculo, com a trindade a ser representada pelo júri do American Idol, como se a (ida à) televisão fosse o único meio de escapar a uma vida de produtivismo (o pedalar incessante nas bicicletas) sem existência individual (e como se pedalar para se ser entretido pelos ecrãs, que demandam mais pedalada, fosse a única coisa a fazer), ou como a alienação chega ao ponto de o melhor discurso anti-sistema dar direito a um show semanal nos ecrãs, como se impossível fosse sair do campo de minas (às tantas, à personagem desafiadora do sistema, parece que apenas a morte é um lugar verdadeiro, o que coloca todas as questões da epistemologia sobre o que é conhecer e estar no mundo e me fez lembrar as aulas de Filosofia do Conhecimento e uns excertos do Matrix); de igual sorte, o capítulo, da II Temporada, dedicado ao Andróide, que serve para fazer companhia e servir de amparo à senhora cujo marido faleceu - mas, captando-se deste (do homem que acabaria por morrer), um conjunto de dados cerebrais, como se pudesse replicar-se, inicialmente sem corpo, depois com um design de linhas parecidas, a pessoa - sendo certo que se oferece todas as limitações que implica cada escolha quotidiana, mostrando-se como a pessoa é coisa outra que um processador, e é um corpo inteiro -, bem como aquele outro episódio em que com uma pessoa a ser atacada, a estrada enche-se de gente que tudo filma por telemóvel, mas nada faz para ajudar, como se os tiros, as pessoas perseguidas e as que perseguem não fossem mais que um espectáculo adicional que serve para preencher até à medula o vazio dos dias, ilustra à exaustão essa caixa negra que parece surgir de uma fusão (real-virtual) pouco esclarecida (e isto num episódio em que aquela que é prisioneira é levada todos os dias a um show televisivo e mostrada, como se de um animal se tratasse, a todo o público, enjaulada, entre o regresso a uma prisão doméstica com electrochoques e a sala de audiências, nunca lida de modo tão literal; sendo que nessa exposição, recordamos a "Vénus negra" e a sua exposição pública, como que a falar-nos da nova escravatura do espectáculo).

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Passagem de ano

Resultado de imagem para passagem de ano+Melbourne

Sem som, não se distingue o foguetório que ribomba na pantalha: o fogo de artifício tanto pode ser de Melbourne (em diferido), como de Madrid, Nova Iorque, Amarante ou dos Açores (que me dizem ter festejado, desta vez, com uma hora de antecedência 2017; haja alegria!). Não se distingue a festança, porque a alegria só se vislumbra postiça: o modelo jantarada de hotéis, concerto e foguetes no ar - a que se junta o inevitável banho no mar de dia 1, sempre acaloradamente reportado - está, manifestamente, esgotado. Mesmo em uma lógica comercial, a lógica hegemónica, não se entende a inércia de quem (atenção municípios) poderia experimentar o novo, nitidamente a pedir para ser desenhado, e não o tenta (sequer). Repetimos o que estava a dar há 15 ou 20 anos como se fossemos originalíssimos. Sinto que o tempo necessita de uma certa irupção que o torne realmente novo, porque a normalização em vigor torna todos os tempos iguais. O que é de uma pobreza - e, aliás, de uma tristeza - estiolante. Que sufoca. Sem espírito. Sem aurora. Os congelados que a RTP repesca para a noite de 31 de Dezembro - passamos de uma aposta esfuziante numa das maiores estrelas da estação, nos anos 90, em noites que de tão procuradas tinham direito a repetição em dias seguintes, para o cumprir calendário, rotineiro, de 2016/17 - dão bem a ideia da banalidade, da apatia, dos braços caídos em que se transformou a data. O velho caiu, e ainda não se ousou o novo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Distopias

Resultado de imagem para black mirror

No primeiro episódio da temporada I, de Black Mirror, o populacho nos bares, entre a cerveja, como se da bola se tratasse, mais uma jornada da Premier ou do críquete,  a seguir o reallity show - e como se a lógica do reallity show tudo perpassasse -, preparado pelo sequestrador da princesa, e a que o PM se acha obrigado, por entre pressões múltiplas, desde sua majestade até (sobretudo) à variação absoluta das sondagens (num dia a doxa dirá tudo e o seu contrário, manipulada através dos ecrãs), o populacho da cegueira moral, a dignidade do homem a quem é decretado que se envolva sexualmente com um bicho em direto na tv, que não distingue já entre real e virtual, entre gente de carne e osso e os jogos de pc, ou que acha que tudo é susceptível de jogo, de gozo, de indiferença perante a sorte, sorte real, de cada qual. E, antes, mesmo, da sessão se iniciar, o momento house of cards, de black mirror, quando a assessora política diz ao PM, segundos antes de este principiar a ser filmado, que aquilo que (este) irá fazer não pode durar um tempo demasiado curto, na medida em que isso levaria o público a pensar que este estava a ter prazer - um perverso mundo totalitário no qual nada escapa ao (domínio) político. O apogeu do maquiavelismo, de uma espécie de prazer sádico, a frieza absoluta ciciada ao ouvido do príncipe, a perversão do poder (eros e a polis). Um ano depois, a princesa continua nas recepções sociais, o PM lidera as sondagens, o passado foi lá trás (e que papel para a memória?). A mulher do PM é que não recupera. E há um travo (muito) irónico sobre o que é uma obra de arte, na sociedade dos comentadores.

Pobres


Não gosto dos meus pobres como as velhas inglesas gostam dos gatos vadios ou dos touros das corridas. Isso são modos de rico. Eu gosto da pobreza com um amor profundo, refletido, lúcido - de igual para igual -, tal como uma esposa de ancas fecundas e fiéis. Coroei-a com as minhas próprias mãos. Não a dignifica quem quer, não a serve quem não envergou primeiro a branca túnica de linho. Não é quem quer que reparte com ela o pão da amargura. Quis que ela fosse modesta e fiel, não servil. Ela não recusa aceitar um copo de água desde que este seja oferecido em seu nome, e é em meu nome que ela o aceita. Se o pobre pudesse afirmar os seus direitos unicamente baseado na necessidade, o vosso egoísmo em breve o teria condenado ao estritamente necessário, pago com o reconhecimento e a servidão eternos. Por isso te revoltas contra essa mulher que acaba de ungir os meus pés com óleos tão caros, como se os meus pobres não tivessem o direito de beneficiar da indústria dos perfumes. Tu pertences a essa espécie de pessoas que, depois de dar cinco réis a um vagabundo, se escandaliza de o não ver precipitar-se imediatamente para uma padaria a atafulhar-se de pão rijo, que o comerciante lhe venderá como se fosse fresco. No lugar deles, iriam também à taberna, pois que um ventre de miserável tem mais necessidade de ilusões que de pão. Desgraçados! Pois será o ouro que tanto vos seduz alguma coisa mais que uma ilusão, que um sonho, e até por vezes que a promessa de um sonho? A pobreza pesa muito na balança do meu Pai Celeste, e nem todos os vossos tesouros, que são fumo, poderão equilibrar os pratos da balança.
Haverá sempre pobres entre vós, pela simples razão de que sempre haverá ricos, quer dizer, homens ávidos e duros, para quem o poderio importa mais que a posse. Homens assim tanto os há entre os pobres como entre os ricos, e o miserável que na valeta coze a sua bebedeira está talvez cheio dos mesmos sonhos que César adormecido sob o seu dossel de púrpura. (...)
Os fracos serão sempre para vós um fardo insuportável, um peso morto, que as vossas civilizações orgulhosas vão legando umas às outras com desgosto e cólera. Pus-lhe o meu sinal na fronte, e vós nunca ousareis aproximar-vos dela senão de rastos; devorareis a ovelha perdida, nunca ousareis atacar o rebanho. Se o meu braço se afastasse um momento, a escravatura ressuscitaria por si própria, com este ou outro nome, pois a vossa lei tem as suas contas em dia, e o fraco nada mais tem para dar além da sua pele.

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, 1936 (reedição em 2016), Paulinas, pp.61-62

Rerum Novarum


Mas a injustiça e a infelicidade, lá isso esquentam-me o sangue nas veias. Hoje, de resto, já tudo passou, nem tu podes calcular...Por exemplo, a famosa Encíclica de Leão XIII, Rerum Novarum, é coisa que vocês lêem hoje tranquilamente sem pestanejar, como um mandamento qualquer da Quaresma. Quando ela apareceu, meu filho, parecia que a Terra tremia debaixo dos nossos pés. Que entusiasmo! Eu era então pároco de Norenfontes, uma terra de mineiros. A simples ideia de que o trabalho não é uma mercadoria sujeita à lei da oferta e da procura, que se não pode especular com os salários, com a vida dos homens como com o trigo, o açúcar ou o café, isto revolvia as consciências, podes crer. Pelo facto de ter exposto, do alto do púlpito, aos meus paroquianos a doutrina da Encíclica, acusaram-me de ser socialista, e os camponeses de princípios fizeram com que eu fosse chamado a Montreuil, caído no desagrado. Lá com o facto de ter caído no desagrado podia eu bem, como calculas. Mas na altura...

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, Paulinas, p.57

Ministério da cultura


Leio a mais recente entrevista (de fundo) do Ministro da Cultura, Luis Filipe Castro Mendes: a) o Plano Nacional de Leitura quer integrar o Ensino Superior e colocar a literatura científica em cena; b) existe a intenção de auxiliar as livrarias independentes (porventura, tornando-as especializadas), em sede fiscal; c) o Ministério da Cultura terá claras preocupações com a RTP, procurando melhorar a qualidade existente.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Gostar de política

Resultado de imagem para mário soares


Talvez um dos últimos políticos de uma geração sobre a qual não ouvíamos com frequência "já não há grandes políticos como...". De um tempo ainda "heróico" da política. Recordo, ainda, na campanha para a sua reeleição presidencial, na sua passagem por Vila Real, como as pessoas diziam ter estado com ele com um brilho nos olhos, uma graça que lhes fora dispensada. Aí, pelos inícios dos anos 90, era, literalmente, acolhido como "pai da pátria". Não raro, contudo, diziam-nos que estava a ser bom PR, mas que não fora bom PM. Verifiquei, com os anos, que esta asserção mudava consoante o campo ideológico em que cada cidadão se situava. Em 1991, o país era outro e estava, ainda, em plano ascendente (no campo económico-social). Diversas intervenções posteriores suas, e mau grado o estatuto e a idade, foram muito menos susceptíveis de unanimidade, criando inclusive reacções epidérmicas de animosidade. Vi-o como político, muito mais homem de acção, do que um teórico, um ideólogo, um pensador ou doutrinário (apesar de prolixo nos livros e em artigos de jornal), aspectos, estes últimos, que interessando-me de sobremaneira, nem sempre me pareciam, nele, os mais conseguidos (como quando implicava com conceitos, como "democracia liberal", p.ex.; todavia, p.ex., acho o título "Um político assume-se", com a implícita afeição à política, muito conseguido e importante quando a tecnocracia estava de regresso e o desdém pela política a caminhar para níveis perigosos). Fica o mais importante, das suas lutas, ganhas, pela liberdade e o país (de que os inúmeros testemunhos destes dias deram conta).

Nexo de causalidade


1. Hélder Sousa, Presidente do Conselho Executivo do IAVE (Instituto de Avaliação Educativa), no JL: se o argumento relativamente aos exames de aferição é os alunos não se preparam (tão bem como nos exames com implicações na nota) porque não vão ver o seu esforço escrutinado/repercutido na sua avaliação final, então como justificar as boas notas em exames internacionais, em que participam, sendo que estes não apenas não contam para a sua avaliação como, ademais, nem os testes (por si resolvidos) lhes são devolvidos? A avaliação é um factor que se vem revelando determinante em diferentes sistemas de ensino, mas tal vocábulo não só não se reduz aos exames, como não existe evidência científica de que um exame que conte para a nota melhor sirva o aluno que um de aferição. Se tínhamos, em versão empírica, por relativamente constatado um não tão grande investimento (em estudo), por parte de quem (já há décadas) se sujeitou a exames de aferição, a argumentação de Hélder Sousa, certamente com outras amostras, faz impender a dúvida científica sobre qualquer eventual adquirido.

2. Pita Barros, na Visão, concede: desde o euro, a performance da economia portuguesa é muito fraca. Mas, de seguida, enuncia a dúvida científica, ou se se preferir, reclama o nexo de causalidade: constatando-se que desde o início dos anos 2000 a nossa Economia teve desempenhos frágeis, e tal período temporal coincidiu com o Euro, não está feita a demonstração de que há aqui mais do que uma coincidência. Falta demonstrar: desde os anos 2000 crescemos pouco por causa do Euro. Se para outros autores o factor euro é mesmo decisivo, para Pita Barros, louvando-se no último livro de Aguiar-Conraria, não há prova cabal de que assim seja.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Muito à frente

Resultado de imagem para black mirror

Guardo os primeiros dias do novo ano para assistir a Black mirror: de facto, (uma série) muito à frente. A ideia de, em ficando a pessoa com pena privativa de liberdade, em vez de encerrada numa cadeia, poder ser bloqueada por, ou para, todos os outros, não apenas assinala uma espirituosa e arguta analogia com o digital (facebookeano), como, na ideia da fusão do biológico com esse mesmo digital, inscreve no horizonte a possibilidade, tantas vez demandada, de superação da prisão (enquanto edifício). Sendo que, não menos importante, a prisão passa, então, a significar, neste contexto, a abolição de qualquer relação (que não a estabelecida consigo mesmo). Parece que o inferno - afinal não são os outros - nunca foi outra coisa.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

"Regresso ao Admirável Mundo Novo"



1ª Revolução Industrial: vapor a permitir a mecanização; 2ª Revolução Industrial: combustíveis fósseis e a electricidade a permitirem a massificação; 3ª Revolução Industrial: electrónica, a permitir a automação; 4º Revolução Industrial: fusão da esfera física, biológica, digital.


António Câmara: há países que competem num quadro de capitalismo; outros, preparam-se já para o pós-capitalismo. Na Educação, procurar que os alunos pensem por eles próprios. Encontrar problemas e soluções. Pensamento divergente. Modelo de inventores (e eventualmente empreendedores). A parte de propriedade intelectual não será tão crítica, dada a emergência dos Creative commons, onde as obras criativas poderão ser partilhadas e pagarão royalities se tiverem um fim comercial. Qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pode ter uma ideia, criar um protótipo, ir para o crowdfunding – que permite exposição global, desenvolvimento de uma comunidade, estudos de mercado grátis, permite o financiamento. Na Dinamarca, uma medida pública que incentiva estes mecanismos passa pela duplicação do adquirido neste processo. Fabricação digital, dinheiro electrónico, energia solar, redes de comunicação distribuídas. Este movimento sente-se já em Portugal. Na Europa não desenvolvemos nenhuma empresa significativa nos últimos 60 anos. Os melhores alunos não querem ser empregados de ninguém; querem criar a sua empresa (ou ir para a Tesla). Israel tem mais empresas no Nasdaq do que toda a Europa. Hoje temos 670 startups portuguesas listadas no Angelist e é muito mais por aí que devemos ir do que pelo milagre de uma nova AutoEuropa (Tesla) que resolva todos os problemas do país. As nossas escolas têm que desenvolver a criatividade e a confiança dos alunos, e as nossas são o contrário.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Perspectiva (IV)


Em 2003, 2004 não havia um estudo, uma estatística [sobre o valor da economia do mar] (...) No 25 de Abril [de 1974] tínhamos mais de 60 mil pescadores, hoje são 13 mil (...) Na cadeia de valor do pescado quem beneficia menos é ele [o pescador], que correu riscos, trabalhou de noite. (...) Um francês que assistiu a uma conferência minha, disse-me: "Vocês portugueses estão distraídos com o centro da Europa, onde há gente muito rica. Têm uma coisa destas e não têm marinas?". Foi ele que me contou que os iates vão para a América Central [só em França há 60 mil iates sem lugar para atracar que são levados para a América Central]. (...) Nos Açores já foram encontradas fontes termais submarinas com riquezas naturais, onde brotam permanentemente metais com amostras à volta de 15% de cobre e 11% de estanho, prata ou ouro. (...) Neste momento já se retira 35% do petróleo do mar, com tendência para chegar aos 40% (...) A lei internacional sobre a coluna de água dá-nos soberania até às 12 milhas e alguns poderes especiais das 12 às 24 milhas. Até às 200 temos jurisdição sobre os recursos vivos biológicos da coluna de água. Repare que eu disse "dá" mas era melhor dizer "dava" porque o Tratado de Lisboa no artigo 3º atribuiu à União Europeia competência exclusiva - repito - exclusiva para a conservação dos recursos biológicos do mar (...) Ou seja, [a lei] foi organizada em conjunto, excepto no que diz respeito à conservação dos recursos biológicos do mar, e aí a competência é exclusiva de Bruxelas. Ninguém falou nisso quando o Tratado de Lisboa foi aprovado! E quando o professor Adriano Moreira referiu esse artigo 3º, houve muitas pessoas que ficaram chocadas por estarmos a levantar a questão. Por agora, a União Europeia não tem competência sobre o solo marinho, portanto até às 200 milhas ele é da soberania de Portugal - são 1,7 milhões de metros quadrados. Com a extensão da plataforma continental a soberania estende-se até aos 4 milhões. Foi preciso fazer uma grande investigação científica, um levantamento tridimensional do fundo do mar, e fomos obrigados a apresentar o programa às Nações Unidas no prazo de 10 anos (em Maio de 2009). Espera-se que esteja avaliado em breve. Depois é tirar partido da enorme extensão do fundo do mar e evitar que outros o façam. Estes "outros" não implicam uma ameaça militar; são os outros gabinetes, sobretudo em Bruxelas. Os nossos diplomatas e políticos têm de estar muito cientes das invejas que existem de Portugal, um país tão pequeno acima do nível do mar e com tanto fundo de mar. É preciso mostrar que somos um país muito grande - na União Europeia só valemos um vírgula não sei quantos por cento. Mas se calhar, em assuntos do mar, temos a maior extensão dos países europeus, e por isso a nossa opinião tem de pesar mais.

Nuno Vieira Matiasem entrevista concedida Bernardo Theotónio-Pereira e Rui HortelãoSábado, nº661, 28 de Dezembro de 2016 a 4 de Janeiro de 2017, pp.48-51

Perspectiva (III)

Resultado de imagem para ramalho eanes

A democracia que temos é praticamente uma democracia eleitoral. Há eleições, instituições democráticas, concorrência entre partidos, mas onde estão os mecanismos que permitem à sociedade civil julgar a acção política? Onde está a exigência de que a política seja responsável e eficaz? Não há um diálogo de exigência entre a sociedade civil e o Estado e isso deve-se ao conformismo (...) O Atlântico não está aproveitado, tínhamos grandes companhias de transporte que podíamos ter transformado em companhias internacionais ou mistas e não o fizemos. Acabámos com isso como acabámos com o transporte de meios e produtos para a Europa (...) A dívida externa do Estado e a dos privados, por junto, chega aos 700 mil milhões, 400% do PIB. Quando é que vamos pagá-la? Nunca! (...) Defendo a Europa como uma unidade política, uma confederação ou outro tipo de unidade com uma política social, fiscal e militar única. (...) Desde 1640 nunca mais tivemos uma sociedade civil forte (...) O corporativismo é muito interessante. Como o bispo António Ferreira Gomes dizia, em Portugal nunca houve corporativismo e sim centralismo corporativo. Num regime corporativo, as corporações nascem de baixo para cima e traduzem a preocupação dos cidadãos de defender os seus interesses. No corporativismo salazarista as corporações eram criadas pelo Estado e era ele que as tutelava (...) Todos os anos devia ser apresentado aos estudantes que vão para o ensino superior um quadro de oportunidades profissionais (...) Temos uma especialização distintiva na área militar. Somos um território exíguo e periférico, mas foi isso que determinou que realizássemos um milagre geoeconómico e geopolítico. Fomos autores da primeira mundialização do espaço e não por causa da fé, mas porque isto não dava trigo suficiente para a gente se alimentar e porque os espanhóis eram uma ameaça grande. Se viermos a ter a porção de mar que nos cabe, passamos a ser uma grande potência marítima. Se houvesse estratégia já tínhamos criado uma grande universidade do mar e tentado que não fosse só portuguesa mas luso-moçambicana, luso-angolana. O mar é indispensável mas sem estratégia arriscamos a que venha a ser um espaço europeu - é nosso, devemos negociá-lo com a Europa, mas com contrapartidas. (...) Na área intelectual, há gente de grande competência que tem marcado posições internacionais significativas e devíamos utilizar essa gente para fazermos com que o nosso ensino e a nossa investigação e tecnologia fossem atractivamente mobilizadores em África, na China, Indonésia, países com os quais temos ligações culturais

António Ramalho Eanes, em entrevista concedida Bernardo Theotónio-Pereira e Rui HortelãoSábado, nº661, 28 de Dezembro de 2016 a 4 de Janeiro de 2017, pp.32-35

Perspectiva (II)

Resultado de imagem para freitas do amaral

Os cadernos eleitorais é que não são representativos! Segundo os meus cálculos, apresentam como cidadãos inscritos, com direito de voto, um milhão a mais do que aquilo que é a realidade (...) O que é que correu mal? Fundamentalmente, a nossa entrada no Euro, nas condições em que entrámos. Foi mal negociada. Logo aí a Alemanha impôs uma taxa de equivalência entre o Escudo e o Euro que nos foi altamente desfavorável em termos de importações e exportações. Durante os 10 ou 12 anos que se passaram entre a nossa entrada no Euro e o início da crise, praticamente deixámos de crescer. Fazê-lo 1% ao ano, em média, é o mesmo que não crescer. Passou-se a viver melhor? Sim, e porquê? Porque houve crédito abundante e barato (...) Hoje podemos dizer que devia ter havido por parte do governo e das autoridades europeias uma limitação maior à facilidade de crédito (...) Também acho que o memorando de entendimento foi demasiado duro para Portugal, Grécia, Irlanda, e até para Espanha. Ir além da troika foi um erro grande que vamos pagar por muitos anos (...) Não foi fácil a Portugal perceber que estava a cair numa armadilha. O Euro esteve armadilhado desde o início para beneficiar a Alemanha e alguns países nórdicos, para prejudicar todos os outros! Com estas regras, nomeadamente o Tratado Orçamental ou a proibição de ajudas do Estado a empresas de valor estratégico, cada vez haverá maior divisão entre os países que beneficiam da Europa e do Euro e os que são prejudicados por estes. Entrámos para a Europa com base em promessas formais: vocês abrem as vossas fronteiras de par em par para os nossos produtos - mercado comum, liberdade de circulação - e nós ajudamos com fundos comunitários, à luz do princípio da solidariedade. Isto funcionou até à crise de 2008. A partir daí, a Europa esqueceu o princípio da solidariedade, o respeito que devia aos tratados e o princípio da igualdade entre os Estados-membros. Estando, por isso, a funcionar em violação dos tratados (...) Ou se consegue dar essa volta (...) ou o Projecto Europeu passa a ser anti-patriótico para Portugal, Espanha, Grécia. Se a Europa não mudar de estratégia, no limite, daqui a dois ou três anos podemos ter de perguntar ao povo português, em referendo, se aceita continuar numa Europa que o sacrifica em vez de o ajudar. Só que os custos da saída são elevadíssimos. A maior parte das nossas empresas públicas e privadas faliriam e o nível de vida dos portugueses desceria para menos de metade. [Qual a opção, neste caso?, pergunta a Sábado?] Sempre defendi que Portugal não devia ter uma política externa unicamente orientada para a Europa. E que devíamos ter uma política externa mais aberta, assente em cinco políticas: atlântica, europeia, CPLP e, depois, América Latina e Países Árabes, em especial com Marrocos, Argélia, Tunísia, Egipto (quando não está em revolução), Arábia Saudita, Emirados Jordânia e outros países árabes islâmicos moderados. Só a Europa não nos resolve todos os problemas e até nos cria alguns
Fomos o primeiro país europeu a extravasar para fora do continente europeu - comemorámos os 600 anos da Tomada de Ceuta, que foi onde começou a gloriosa epopeia dos Descobrimentos, e nada foi feito para os assinalar, no dia 21 ou 22 de Agosto. Foi uma vergonha! Fomos os melhores nos Descobrimentos e os piores no desenvolvimento económico. Depois de 40 anos em democracia, com ajuda substancial dos fundos europeus, continuamos a ser o País mais atrasado da Europa, a seguir à Grécia. Isto devia ser investigado. Devia-se abrir um concurso nas universidades para descobrir o que nos falta. Sabemos que o solo é pobre, não temos riquezas naturais, mas o século XIX só não foi melhor porque tivemos 30 e tal anos de guerras civis e golpes de Estado. (...) Esta aposta exclusiva na Europa parece a aposta exclusiva do dr.Salazar no Ultramar. Só podemos crescer verdadeiramente através de investimento directo estrangeiro cá (não é comprar o que já temos; é para fazer coisas novas!) e da exportação. Mas exportação maciça! (...) Nas privatizações estamos a dar tudo aos chineses - e acho bem que se dêem algumas coisas aos chineses, mas porquê só aos chineses? Porque não damos ao Canadá, à América Latina? (...) A China até há meia dúzia de anos não foi aproveitada, a Rússia continua a não ser - e a Rússia gosta de Portugal, assim Portugal seja capaz de gostar da Rússia e de perceber que já não é a União Soviética. O Japão tem a maior admiração pela História de Portugal e pela nossa presença. Ninguém liga a isso. A Tailândia, a Coreia do Sul, a própria Indonésia deseja-nos! (...) Há outra zona de comércio livre importantíssima entre a Turquia e os países islâmicos ex-soviéticos - 300 milhões de habitantes! Só precisamos de fazer a viagem! (...) Temos uma Zona Económica Exclusiva enorme e corremos o risco de que nos façam aquilo que a Inglaterra fez ao mapa cor-de-rosa. Ou arranjamos aliados fortes - Estados Unidos, Canadá, eventualmente Brasil e países nórdicos - ou ela vai-nos ser retirada. (...) Se soubesse o que sei hoje, se calhar tinha-me tornado diplomata e não tinha entrado na política.

Diogo Freitas do Amaralem entrevista concedida a Bernardo Theotónio-Pereira e Rui HortelãoSábado, nº661, 28 de Dezembro de 2016 a 4 de Janeiro de 2017, pp.36-39