sábado, 30 de dezembro de 2017

O QUE É O POPULISMO (?) (II)

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Em O que é o populismo, Jan-Werner Muller não distingue, como fazem Cass Mude e Kasswalter, entre democracia e democracia liberal: para este investigador o pluralismo é intrínseco à democracia, pelo que o populismo é adversário da democracia - ponto. Todavia, há muitos pontos de contacto entre a teorização deste investigador e a daqueles vindos de mencionar, sendo que Muller, por vezes, concretiza/explicita algumas consequências dos mesmos pressupostos: por exemplo, a ideia de que o populista encarna o "verdadeiro povo" tem, de facto, como consequência, que este não tem de prestar contas perante ninguém, não assume responsabilidade política perante outros órgãos do poder político (ou de outros poderes): só responde perante o povo (sendo que este, por sua vez, é desenhado pelo populista; "nós somos o povo e vós quem sois?", pergunta Erdogan aos seus compatriotas). Sendo o populista (e/ou o movimento social, partido a que pertence) a encarnação do povo, então quem contra ele estiver, está contra o povo - assim se deslegitima a oposição (por natureza não devia existir, está a usurpar do que são os "reais interesses do povo").
Muller diz que não há receitas absolutas para lidar com os populistas, mas considera que se deve falar com estes, mas não como estes (nem na forma, nem seguindo a sua agenda). O académico sugere, outrossim, que não se centre a abordagem na luta política com o eleitor(ado) populista em arrazoados de tipo psicologista: é que a descrição de tal eleitorado como eivado de "raiva", "fúria", "cólera", "ódio", "ressentimento" será e soará como paternalista - característica que os críticos das elites costumam apontar a estas. A exclusão dos populistas do debate apenas reforçaria a razão de queixa destes - que se querem e pretendem "excluídos" (seria, pois, beneficiar o infractor). 
É verdade que a maioria dos eleitores de partidos populistas é, claramente, masculino. É igualmente certo que, nos EUA, eleitores populistas pertencem, de modo maioritário, a grupos menos escolarizados e com rendimentos mais baixos. Mas não é possível estabelecer um padrão classista da filiação do eleitorado em movimentos/partidos populistas: "como mostrou a cientista social alemã Karin Priester, os cidadãos bem instalados na vida adoptam muitas vezes uma atitude social darwinista e justificam o seu apoio aos partidos de direita [populista] perguntando, no fundo: «Tive êxito; porque não podem tê-lo eles?». Pensem no cartaz do Tea Party a exigir: «Redistribuam a minha ética de trabalho!". Não é menos importante que nalguns países, como a França e a Áustria, os partidos populistas se tenham tornado tão grandes que de facto se assemelham ao que costumava chamar «partidos interclassistas»: atraem um grande número de trabalhadores, mas grande parte dos seus eleitores também vem de muitas outras classes sociais"(p.30).
É, ainda, curioso verificar como a preocupação académico-científica com o populismo tem décadas, mas como este fenómeno se transmuta com o tempo - em finais da década de 60 do séc.XX, a questão do futuro populista estava ligado às questões do comunismo, do maoísmo, da descolonização, o futuro do campesinato ("um espectro paira sobre o mundo: o populismo". Esta frase foi escrita na introdução a uma colectânea sobre o populismo organizada por Ghita Ionescu e Ernest Gellner e publicada em 1969", p.23). 
Se Mude e Kasswalter identificavam Laclau como um nome que fundamental de entre os que consideram o populismo como ideologia emancipadora, Muller deixa-nos Christopher Lasch como outro referente da mesma escola de pensamento. Em todo o caso, assinala, o populismo enquanto progressismo é um modo americano (no sentido de continente, abrangendo o norte e o sul) de tomar tal ideologia (que na Europa se formata também, e muitos casos, à direita). 
Reconhecendo ser o populismo um "conceito político contencioso", o Professor de Política em Princeton recupera Fukuyama: não há, mesmo, adversário sério à democracia e a prova é que os autocratas tendem a pagar boas quantias a especialistas em relações públicas para os apresentarem internacionalmente como grandes democratas (p.22). 
Num certo sentido, adverte o autor, nem é que os populistas sejam rigorosamente anti-elitistas: desde que os representantes (do povo) sejam eles, a liderança não é coisa má (em si mesma). E, entendendo o mandato como imperativo, não esperam uma deliberação continuada popular - e gostam da lógica binária dos referendos. E escolhem uma parte do povo como "o povo". Em termos romanos, defender os interesses da plebe não é ser populista; dizer que só a plebe é o povo, é.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Como está Portugal?


Neste momento, estamos numa fase com um duplo registo. Noto isso nos meses depois de Pedrógão Grande. Antes estávamos num registo de autêntica euforia, com o governo de António Costa. A situação melhorou em àreas importantes, como a dívida nacional, a vinda dos turistas para Portugal, por exemplo. Agora há uma espécie de dissonância, como na música moderna. Por um lado, é a euforia, por outro lado, os incêndios, o lado pessimista português a reemergir. Se calhar, esta dissonância é que é o registo correcto porque as duas vertentes coexistem sempre. (...)
Estou há 45 anos nos EUA e nunca vi Portugal tantas vezes referido, nem tão positivamente como hoje. Por todo o lado. Não sou nada dado a teorias da conspiração, mas chego a pensar assim: quem é que anda por trás a gerir isto? Lembro-me de que, no tempo do Cavaco Silva primeiro-ministro, houve uma bolsa de um milhão de dólares concedidos a um grupo de jovens americanos com a intenção de alterar a imagem de Portugal nos EUA. Pareceu-me um desperdício. Não creio que tenha resultado em algo palpável. Hoje em dia, o que é que está a acontecer? Nos últimos cinco anos, então, é deveras incrível. Lisboa é referida como uma das melhores cidades do mundo, o Porto idem.  (...) Ouvi passageiros [no avião em que vim para Portugal] sentados atrás de mim dizerem que vêm duas vezes por ano e a recomendarem vivamente Portugal a uma senhora que ia seguir sem sair em Lisboa. Isto nunca acontecia. (...) Ninguém fazia caso de Portugal (...) Agora não. Hoje há gente na minha universidade que tem casa nos Açores. (...) Tenho viajado nos aviões com estes americanos que vêm cá e regressam com uma belíssima impressão. Nada desiludidos, pelo contrário, muito entusiasmados. Gostaram tanto que querem voltar. (...) [Um taxista] disse-me descaradamente que, se eu fosse estrangeiro, iria aproveitar-se. Estas coisas marcam. E pensa o mesmo quem está a arrendar casas. Há esse perigo. É tradição portuguesa não se pensar "à la longue", mas no imediato. "Isto está a dar é agora, depois a gente não sabe". Isso pode ser fatal se não houver controlo, se as situações não forem corrigidas.

Onésimo Teotónio Almeida, Jornal de Negócios, nº3654, 29-12-2017, Weekend, p.8

Universidades americanas


Concretamente, o que é que lhe agrada nas universidades americanas?

Primeiro, os recursos de que dispõem. Depois, a abordagem do ensino: é muito democrático. O aluno é respeitado como uma pessoa inteligente que quer aprender. Não vai decorar um catecismo para depois repetir no exame. O professor orienta, abre os horizontes do aluno. Há uma grande consciência de que o aluno precisa de crescer por si, a partir de dentro, e desenvolver-se. (...)

[E relativamente às universidades portuguesas?]

Há facetas que são endémicas. Muitos dos professores foram formados na universidade onde leccionam. Herdaram hábitos e estão a transmiti-los aos alunos. Nas universidades americanas, em regra, uma pessoa não fica a leccionar na universidade onde se formou. Quando termina o doutoramento, tem de ir leccionar noutro lugar, para se libertar do "complexo do pai" e sentir-se livre de expressar divergências em relação aos seus formadores. Há um grande arejamento. (...)

A questão da hierarquia é mais atenuada aqui ou nos EUA?

Lá, a relação é bem mais horizontal. Não é que não haja hierarquia, mas encaixa numa atitude completamente diferente. A começar por algo simples. A rapaziada nova, no primeiro ano, pergunta: "Como é que o senhor quer que eu o trate?". E eu, que não sou nenhuma excepção, costumo dizer: "Olha, desde que eu saiba que estás a falar comigo, podes tratar-me como quiseres. Podes chamar-me Onésimo". E muitos fazem-no. Um ou outro chama-me "Mister Almeida", outros tratam-me por "Professor". Hoje, o mais normal é o uso do primeiro nome. E, no entanto, na aula sou Professor. Uma coisa é a autoridade e o respeito pela pessoa que está a ministrar, a gerir o conhecimento, outra o facto de ele ser uma pessoa humana. (...) Se o professor falhou, qualquer aluno pode corrigi-lo. Se o professor não for capaz de admitir: "Tem razão" ou "Não sei, mas vou ver e logo te respondo por e-mail", esse professor fica diminuído perante os seus alunos. 

Mas já se sentiu desconfortável por ser chamado à atenção por um aluno?

Não. Por exemplo, no outro dia eu estava a explicar que, tal como no inglês, em que Josephson significa "filho de Joseph", também em português Fernando Fernandes é Fernando filho de Fernando. O mesmo acontece noutras línguas. E dei exemplos, inclusive em italiano: Galileu Galilei...Um aluno interveio: "Desculpe, mas no caso de Galileu não foi essa a razão". E explicou-se. Eu agradeci. Mais tarde fui verificar e ele tinha razão. Mas na altura disse-lhe apenas: "Olhe, não sabia. Obrigado". Aprendi imenso a ensinar. Dizia-se antigamente que no primeiro ano nós ensinamos mais do que sabemos; no segundo, ensinamos o que sabemos; e a partir daí começamos a ensinar menos do que sabemos. Quanto mais inteligentes os alunos são, mais inteligentes são as perguntas. E uma pergunta inteligente é a melhor coisa que um professor pode ter. Nunca penso naquilo, no entanto, vai pensar. Quem tem um grupo de alunos muito dotados, e motivados e interessados, está sempre a aprender.

Onésimo Teotónio Almeida, Jornal de Negócios, nº3654, 29-12-2017, Weekend, p.8

Trump reeleito?


Se Trump voltar a concorrer, não será reeleito?

Não creio. Tenho conversado com pessoas que votaram nele e agora apercebem-se do seu erro. A mim, a sua ausência de comportamento ético repugna-me. Ele não tem o menor interesse pela verdade. (...) Por isso, ele não tem conseguido segurar a franja do eleitorado que atraiu nas eleições. O Partido Democrata tinha-a perdido por se ter tornado demasiado liberal para essa franja, sobretudo em matéria sexual (...) Mas Trump ganhou também uma outra franja ao prometer uma política económica proteccionista que traria de volta os empregos perdidos para o estrangeiro. Ora, a economia mudou completamente e é hoje global. Ele prometeu o impossível e não está a cumprir as promessas feitas à classe média e média-baixa, o colarinho azul. A sua grande vitória foi na redução de impostos, mas essa redução só vai beneficiá-lo a ele próprio e ao «pântano» que queria secar.

Onésimo Teotónio Almeida, Jornal de Negócios, nº3654, 29-12-2017, Weekend, p.7

Força do poder local nos EUA


Como nos EUA o poder é muito local, as pessoas sabem como é que o político que elegeram vota, e estão constantemente a controlá-lo. Fazem pressão, escrevem e telefonam aos políticos. Exigem que o seu ou a sua representante os ouça e intervenha. Cada um, à sua escala, desde o regional ao nacional, vai dando mais atenção às causas em favor das quais há maior pressão, fazendo-as sentir dentro dos canais do partido até chegarem ao topo, em Washington. (...) Há sempre campanhas: "Escreva ao seu senador".

Onésimo Teotónio Almeida, Jornal de Negócios, nº3654, 29-12-2017, Weekend, p.6

Um gestor de pressões


Tive um aluno que foi assistente de Al Gore na Casa Branca e um dia convidei-o a vir à minha aula falar sobre a sua experiência. Para ele, o Presidente não é mais do que um gestor de pressões. Recebe-as de todos os lados. Um bom exemplo de um bom gestor de pressões foi Clinton, que era um contorcionista. Inclinava-se mais para a esquerda, mais para a direita, mais para trás, mais para a frente, conforme a pressão. Quem não exerce pressão sobre o poder é como se não existisse. 

Onésimo Teotónio Almeida, Jornal de Negócios, nº3654, 29-12-2017, Weekend, p.6

Contrariando estereótipos


Em Portugal era costume ouvir-se dizer que, ao contrário da Europa, não existia esquerda nem direita nos EUA, pois eram todos capitalistas. Essa ideia ainda persiste. No entanto, há diferenças enormes entre esquerda e direita nos EUA. E ambos os lados têm uma forte intervenção política

Onésimo Teotónio Almeida, Jornal de Negócios, nº3654, 29-12-2017, Weekend, p.5

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O QUE É O POPULISMO (?)

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Aspectos problemáticos do uso do conceito de populismo, tão presente na esfera pública, nos últimos dois anos (em especial), passam por este ser entendido em termos tão vagos, genéricos, onde tudo, ou quase tudo, parece caber (politicamente), podendo não permitir, afinal, descrever qualquer realidade política substantiva a que (supostamente) pretenderia referir-se, ou, ainda, dado o vocábulo adquirir (ter adquirido) o carácter instrumental de ferramenta lançada a quem se situa em outro pólo político (partidário, movimento social) de quem a utiliza, em assim se des-substanciando também.
Em realidade, em diferentes partes do mundo, populismo significa coisas diferentes: anti-imigração e xenofobia, na Europa; clientelismo e má gestão económica, na América do Sul. Acresce que os políticos tidos como populistas não se descrevem - não assumem a qualificação - como tal. Ademais, teóricos políticos, como Laclau e Mouffe, não atribuem, sequer, um traço pejorativo, antes, mesmo, emancipador ao populismo: este permitiria mobilizar, para a política, sectores excluídos da população.
Cass Mude e Cristóbal Kaltwasser detectam, como tónica comum a todas as formas de populismo, o apelo ao «povo» e uma denúncia da «elite». E, considerando, pois, fundamental, preencher, (ainda que) sob o modo ideacional, um conceito que crêem adquirir grande pertinência e centralidade no fenómeno político-societário dos nossos dias, intentam a seguinte definição: o populismo é uma ideologia de baixa densidade que considera que a sociedade está, em última instância, dividida em dois campos homogéneos e antagónicos - «o povo puro» versus «a elite corrupta» - e que defende que a política deveria ser uma expressão da volonté générale (vontade geral) do povo (p.18). 
Esta proposta, em particular, a consideração da "baixa densidade" da "ideologia" em causa revela particular interesse e importância: é ela que permite explicar a i) "maleabilidade" do populismo; ii) a sua justaposição/complementaridade/acoplamento a outra ideologia (temos "populismos nacionalistas", como temos "populismos socialistas"); iii) a plasticidade no interior de diversas ideologias (há populistas conservadores, socialistas, neoliberais, nacionalistas, etc.; o populismo não é de direita ou de esquerda, supera essa divisão, ou pode adquirir qualquer uma das tonalidades ideológicas desse par).
O populismo, de outro prisma, tem dois opostos fundamentais: o elitismo - uma visão completamente inversa à do populismo, considerando que "o povo é perigoso, desonesto e vulgar", ao passo que a "elite" é superior "não só moralmente como também cultural e intelectualmente" (p.20) - e o pluralismo - rejeita o dualismo, ou, se quisermos, o maniqueísmo de sinal contrário representados por populismo e elitismo, e afirma que "a sociedade se encontra dividida numa ampla variedade de grupos sociais que se justapõem parcialmente, com diferentes ideias e interesses. No pluralismo, a diversidade é vista como uma força, e não como uma fraqueza" (p.20).
Um aspecto bastante interessante a compreender, face ao populismo, passa pela necessidade de se atentar, devidamente, na categoria de "povo": esta é, sobretudo, uma "construção mental" - e é por isso que o populismo tem tanta força (o que o "povo é", o que "o povo quer", "quem é o povo" está em discussão, embora haja quem entenda encarná-lo, como se este fosse força homogénea e susceptível de ser captada por um indivíduo). E, do mesmo modo, pela observação do significado de "elite": não acomodada, no discurso populista, como sinónimo de uma dada classe económico-social, ou dirigente - na verdade, elite é descrita das mais variadas formas por populistas diferentes, em paragens diferenciadas -, mas, antes, referenciada em termos morais (os homens fácticos, dos vários poderes presentes em uma sociedade, que "traem" os interesses do "verdadeiro povo", em favor de determinadas faixas da população...faixas que podem ser assinaladas como "o 1%", como podem ser "os imigrantes", ou "os afro-americanos", etc.). Este enfoque "moral" é, do ponto de vista analítico, precioso para se obter uma possível chave de leitura que integre o paradoxo de um membro destacado de uma elite económica - como sucede com variados líderes populistas, no mundo, que são empresários, sendo, evidentemente, o exemplo de Donald Trump o mais emblemático - possa vociferar contra a "elite" como sendo lugar outro daquele em que o "denunciante" se situa (ele, apesar de multimilionário, "não pertence" à esfera dos que traíram o "povo puro" para outros sectores da população...assim, se ataca uma "elite"...à qual se finge não pertencer, p.125).
Se tomarmos a democracia como o regime da soberania popular e da regra da maioria, dificilmente encontraremos uma oposição populista ao sistema democrático. Coisa diversa, contudo, é se a democracia lhe acrescentarmos o qualificativo de liberal, com o que este significa de tribunais independentes, media livres, opinião pública e publicada não controladas, pluralismo partidário, direitos das minorias, sistema de controlo mútuo (interdependente) dos diferentes poderes. Aí, sim, o populismo poderá oferecer-se como força contrária. No seu "maioritarismo extremo" (p.116), visando, não raro, uma homogeneidade étnica, considerando que todo o poder emanado do povo não pode ser contrariado - nomeadamente, por decisões dos tribunais, ou escrutinado e criticado por uma imprensa livre -, o populismo coloca - tem colocado em causa, em diversas latitudes, da Polónia à Hungria, até à Venezuela - grandes obstáculos a uma democracia liberal (propondo-se a modelos de democracia iliberal). Coloca, em todo o caso, a eterna e nada negligenciável questão de quem guarda os guardas
Se, na esteira de Karl Lowenstein, nos anos 30 do século XX, o conceito de "democracia militante" - isto é, a ideia de que "as democracias deviam banir as forças políticas extremistas para impedir que estas chegassem ao poder através da via democrática" - foi integrado em diversos sistemas democráticos (com Constituições que não permitem, por exemplo, partidos nazis), já essa configuração, em contendo com partidos populistas, se depara com fortes obstáculos, se não mesmo a impossibilidade, de operatividade.
Um exercício não menos sugestivo, imaginativo e fundamental - mas muito menos vezes intentado quando se fala de populismo -, passa por perceber da relação do populismo com regimes não democráticos - sejam autoritários competitivos (sistemas autoritários, mas que permitem, de alguma foram, algum tipo de oposição), sejam autoritários hard. Dada a sistemática remissão para o povo, o populismo parece desempenhar, nestes contextos, um papel positivo de abertura e do reclamar de eleições livres (tendo, de resto, historicamente, em algumas geografias, desempenhado esse papel). Diversamente, parece ser o papel populista na consolidação democrática (em um país, nomeadamente depois de sair de um regime autoritário para um democrático), em um sentido liberal, dado o seu referido apego absoluta à regra maioritária. Este perspectivar e elencar de aspectos ou efeitos positivos - para lá dos negativos, mais comumente relatados - que o populismo pode acarretar, conta-se entre as tentativas, bem sucedidas, na obra de Mudde e Kaltwasser, de conferir complexidade ao tema teorizado: "o populismo pode dar voz a grupos que não se sentem representados pela elite política"; "o populismo pode mobilizar sectores excluídos da sociedade, melhorando a sua integração no sistema político", "o populismo pode melhorar a capacidade de resposta do sistema político, promovendo a implantação de políticas favoráveis aos sectores excluídos da sociedade", "o populismo pode aumentar a responsabilização democrática, tornando os problemas e as medidas parte do domínio político" (sendo que a estas virtudes, se opõem os seguintes efeitos negativos: "o populismo pode fazer uso do conceito e da prática da regra da maioria para ignorar os direitos das minorias", "o populismo pode fazer uso do conceito e da prática da soberania popular para debilitar as instituições especializadas na protecção de direitos fundamentais", "o populismo pode promover a criação de uma nova clivagem política que impeça a formação de coligações políticas estáveis", "o populismo pode conduzir a uma moralização da política devido à qual o alcance de acordos se torne extremamente difícil, se não mesmo impossível", pp.103-104).
Em realidade, a polarização política - se se quiser, um certo radicalismo, ou extremismo - que a visão bipolar, antinómica, maniqueísta, moralista que o populismo traz implica que haja vozes que não podem continuar silenciadas no "consenso mole" dos partidos "convencionais" (e que efectivamente se liberta(ra)m), mas, simultaneamente, a imputação de uma desqualificação (moral) dos adversários ou opositores políticos, em permanência, torna as sociedades mais crispadas e a política como lugar onde o acordo passa a ser uma impossibilidade.
Os contornos (e contextos históricos, sociais e culturais), muito diversificados, em que o populismo se concretiza - liderança personalista (de "cima para baixo"), movimento social (de "baixo para cima") ou partido político (combinação de ambos, com vários sectores sociais) - leva-nos, ainda, uma outra abordagem, a da sociedade em que este medra: fenómenos como o aumento da escolarização, cidadãos mais informados e cultos, que estão atentos à derrapagem e às falhas das elites, paradoxalmente (se pensarmos que as populações mais cultas estarão, eventualmente, mais imunes ao populismo), tornam o discurso, ou a grelha de leitura populista, a ser integrada por uma fatia importante das populações. O populismo pode não ter razão, embora critique aspectos que, de facto, merecem censura - ou, nas palavras de Mude e Kaltwasser, "faz perguntas certas mas dá as respostas erradas" (p.143). Um outro factor que permite explicar o populismo passa pelo facto de não serem mais os partidos políticos e/ou o Estado a deterem os principais meios de comunicação social do país (como sucedeu durante muito tempo): com estes a distanciarem-se do político, por um lado o tratamento mais convencional - e, por vezes, situacionista - do mundo político desaparece; por outro, com vista à captação de audiências, temas como o crime e a corrupção são tidos como primordiais (ajudando a uma agenda populista; diferentes países têm diferentes experiências com os tablóides no que à proximidade com partidos populistas diz respeito, com o Bild, na Alemanha, por exemplo, a ser crítico do partido populista alemão; mas, mais do que a concreta relação com esses partidos, é a própria agenda que trazem para o espaço público que creio cumpre destacar). Quando programas como o Big Brother passam a primar sobre os de "alta cultura" (sem controlo de nenhuma autoridade), então, a prioridade e liderança das "elites" passam a ser colocadas em cheque pelas "celebridades" e "vedetas" que chegam ao poder (mediático, público, popular). Não se entende o populismo - que surge, em termos históricos, no séc.XIX, na Rússia e nos EUA - sem se compreender todo este caldo de cultura. Bem como as especificidades locais/regionais: com Estados a funcionar mal e com a existência de desigualdades gritantes, o populismo adquire contornos socialistas (América Latina); com a imigração e o confronto com o  diverso a ser um tópico importante em sociedades afluentes, o populismo reveste a capa nacionalista. Muitos populistas, ainda, não teriam surgido sem a última grande recessão (que assolou o mundo ocidental, desde logo e inicialmente), com os níveis de desigualdade, pobreza, corrupção a ficaram bem visíveis: em tais contextos, muitas vezes, fontes de autoridade tradicionais (ou a lei) são substituídas pela aposta nas características pessoais de determinados indivíduos, vistos como homens-fortes.
Sim, em muitos casos homens - com uma linguagem vulgar e com assomos de virilidade. Mas também muitas mulheres (vejam-se os casos da Austrália ou Dinamarca, p.ex.), que podem suceder a uma linhagem familiar (modo preferido destas emergirem politicamente em sociedades machistas tradicionais, como, p.ex., no Sudeste Asiático), ou surgindo como outsider, não politica, carregando em si os sonhos de emancipação (dos que as elegem). O carisma - que não é tudo; temos, aliás, populismo em sociedades nas quais nem há partidos nem líderes populistas, como no Chile - não tem, outro apontamento a registar, um registo unívoco/universal: o que é o carisma é definido culturalmente (virtudes diferentes, presentes em diferentes tipos de lideranças, são tidas por carisma, em culturas diversas).

Pensar a esperança (transcendente)


Muito interessante, esta entrevista de Luciano Floridi ao Público.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Falta de imaginação (II)


- Então e o financiamento partidário?
- Não deve haver limites aos donativos privados.
- Não? Então a corrupção, em várias democracias, não está ligada ao financiamento partidário?
- Eu não suspeito das pessoas. Para mim, as pessoas são boas até prova em contrário.
- Então, mas considerando-se, de há muito, de direita, não é um pessimista antropológico?
-...Já vos disse que quero mais inspecções quanto ao modo como os subsídios do Estado são aplicados por diferentes instituições?
- Então, e o Estado abusador? Como compaginar essa maior fiscalização e a baixa do IRC que propõe? Não haverá menor receita para o Estado poder intensificar-se essa fiscalização?
- Não, quando houve a última baixa de IRC, em Portugal, a receita de IRC até aumentou.
- Também aumentou a seguir, quando não se prosseguiu a mesma política fiscal. Isso não quer dizer que não houve uma relação de causa-efeito entre a baixa do IRC e o aumento da receita fiscal nesse ano? Não teria esse aumento a ver com o facto de a receita ter descido tanto, nos anos anteriores a essa baixa do IRC, que era inevitável - tão baixo o patamar - que essa receita viesse a aumentar, ao primeiro aquecimento, mesmo frágil, da economia?
-...
-Já afirmou que quer modernizar, por completo, em termos tecnológicos o partido. Mas as propostas do ponto de vista de política económica e slogans como o Estado abusador não são muito anos 80? O que o distingue do outro candidato cuja proposta estrutural é...baixar o IRC? Não há aqui muita falta de imaginação?
-...
- É a favor ou contra a harmonização fiscal na Europa? Qual o limite mínimo em termos de taxação fiscal das empresas (capital) que considera adequado? Até onde devia Portugal ir? Se para concorrermos com outros países, em termos fiscais, tivéssemos que abdicar praticamente de taxar estaria de acordo? Não teme que se verifique o mesmo que em outros países, onde a baixa de impostos corresponde à necessidade de se cortarem apoios sociais - quando o candidato diz que essa é uma das suas grandes preocupações? Ou, então, ao aumento da dívida? Ou ambas? E que serviços, prestações sociais, apoios deveriam ser travados? Ou, em afirmando o candidato, em função do Orçamento de Estado apresentado, que a taxação irá subir para as empresas, no próximo ano, em Portugal, e em apontando, simultaneamente, as previsões, de diversas entidades, para um razoável crescimento económico (ainda que se possa questionar se o suficiente para convergirmos com a UE, é certo), em quanto calcula que esse crescimento estaria com a baixa de impostos? 4%/5%?

Falta de imaginação


 - Não sou liberal, sou de centro esquerda.
- Então, diga lá uma medida estruturante dentro dessa visão das coisas.
- Baixar o IRC [claro].
- ...
Ah, não sei se já vos disse: a social-democracia que eu defendo não é a dos anos 50, é do século XXI.

Os diários de Marçal Grilo (XI) (Educação, competências, conhecimento, doutores, engenheiros)


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Recordo-me de um braço de ferro no Conselho de Ministros sobre a hora legal. A TAP queria ter a mesma hora das grandes capitais, Bruxelas, Paris. Nós, no Ministério da Educação, queríamos ter a hora da claridade - a que impedisse que as crianças fossem para a escola quando a manhã ainda era noite. Uns esgrimiam razões económicas, alguns chegavam a invocar a coesão europeia, dizendo que tal implicava a mesma hora no espaço europeu. Eu usava o único argumento que tinha: o interesse das crianças, fazendo uma tangente ao slogan eleitoral do PS, "as pessoas estão primeiro". O António Guterres até se riu e o ministro que defendia o acerto da hora acabou por perder para os meninos que se levantavam sem sol para chegar a tempo à escola.

p.135

Escola de Forjães, concelho de Esposende. Como as escolas estão diferentes do que eram há vinte anos! Os miúdos desinibiram-se. Estão à vontade, conhecem mais mundo, não têm medo de enfrentar as pessoas. Acredito que com estas novas gerações o país vai dar a volta. Os mais velhos, aqueles que ainda falam com saudade da "sua boa velha escola" ainda não perceberam como tudo mudou. Os pais destes miúdos são os que hoje têm quarenta e poucos anos e um nível de educação que alterou por completo o clima que se vive nas escolas. Com os professores é a mesma coisa. Ao jantar, do que se falou foi de livros

Diário, 21.09.2016


Há uma discussão recorrente na Educação que, na verdade, é uma falsa questão. A dicotomia entre o conhecimento científico e as chamadas competências. Na área da Matemática podemos dizer que a Sociedade Portuguesa da Matemática (SPM) e o Nuno Crato, por um lado, e a Associação de Professores de Matemática (APM) por outro, encarnam este problema. A linha da SPM defende uma boa formação científica de base, professores que saibam muita matemática, alunos que sejam capazes de fazer as coisas por si próprios, muito independentes das novas tecnologias e das máquinas de calcular. A APM tem uma ideia mais lúdica, dá uma grande importância às competências, aquilo a que se poderia chamar as capacidades habilitantes: a iniciativa, a responsabilidade, a autonomia, a independência, etc. Ora, ambas são verdadeiras, ambas são necessárias.

p.199

Fiquei preocupado. Não sei se o que o Nuno Crato [ministro da Educação] está a fazer é o mais correcto. A médio, longo prazo, tenho muitas dúvidas de que este seja o caminho certo. Resumir toda a escola ao Português e à Matemática é muito redutor. Passamos do eduquês com as competências para o back to basics sem se terem em conta as novas realidades. Então e as artes e a música? E as novas competências que a maioria dos empresários querem ver nos seus colaboradores? Adquirem-se todas na vida prática?

Diário, 16.07.2012

Não estou a ser pessimista [sobre a necessidade de tempo para a resolução do conflito israelo-palestiniano], estou apenas a concordar com o que George Steiner, um dos maiores pensadores europeus, me sugeriu, num jantar, depois de uma brilhantíssima conferência em cuja organização eu estivera envolvido:
- Você devia passar a organizar conferências sobre problemas que não têm solução.
- Como?
- Sim, há problemas que não têm solução.

p.117

Não partilho dessa ideia peregrina de que há universidades ou diplomados a mais em Portugal. Haverá possivelmente cursos em excesso, embora já se tenha feito uma limpeza de alguns milhares. Só pelo facto de existir, a A3ES alterou substancialmente o cenário existente. A Agência eliminou cursos e as próprias instituições desistiram de apresentar muitos que não se justificavam. Houve uns dois mil cursos que desapareceram. (...) Há é estudantes a menos - devíamos ter mais jovens no Ensino Superior. Não lhe chamem é doutores, não é preciso estar a chamar doutores às pessoas. Temos gente qualificada a menos, mas isto também não significa que devamos fazer com que todos tenham um diploma do Ensino Superior, há muitos que não precisam do Ensino Superior para se realizarem profissionalmente e serem úteis ao país
A ideia de que só quem é doutor é alguém é um preconceito que vem desaparecendo lentamente. Os doutoramentos, os mestrados, as licenciaturas estão superbanalizados. Isto é óptimo, falta agora acabar com os títulos de doutores e engenheiros para aqui e para acolá. Passamos a ser todos os senhores isto e os senhores aquilo - o que eu mais gosto é que me tratem por senhor Eduardo. (...) Habituei-me na Inglaterra, que era tudo "mister" e "mrs" ou "miss"; o tratamento mais comum e mais natural é sermos tratados pelo nosso nome. (...)

Não somos os únicos a viver obcecados com os títulos. Quando pertenci ao Council for High Education Accreditation, com base em Washington, que faz a acreditação das agências que fazem a acreditação dos cursos, participei numa reunião onde um ex-agente do FBI explicou como funcionavam os chamados Diploma Mils. Estes são conferidos por universidades que existem como entidades jurídicas, mas não passam de fábricas de diplomas falsos atribuídos pela internet. A pessoa envia o seu currículo com experiência profissional para obter equivalências, é-lhe pedido um preço que pode ser negociado, e recebe o seu diploma. Os grandes clientes nos EUA eram curiosamente (ou não?) os funcionários federais, porque os seus salários estavam indexados ao seu grau académico. Estas "universidades" vendem sobretudo doutoramentos, e a máquina é de tal ordem gigantesca que até entidades de acreditação falsa criaram. Um negócio que move cerca de mil milhões de dólares anuais, uma vigarice que o FBI perseguia, e que mandou para a prisão dezenas de pessoas

p.159 e segs.

Ainda me lembro de ver jardins-de-infância e creches, em 96/97, em que as crianças passavam o dia em frente a um televisor a ver filmes e outros programas!

Diário, 30.08.2011

p.193

O Umberto Eco dizia há tempos: "Aquele que não lê, aos setenta anos terá vivido uma só vida. Aquele que lê terá vivido cinco mil anos. A leitura é a imortalidade olhada para o tempo que nos precedeu..."

Diário, 05.03.2016

p.242

Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube de Autor, 2017.

P.S.: Marçal Grilo afirma-se federalista, no plano europeu. Caracteriza-se como "mimado", na infância, não porque houvesse grandes pieguices dos pais, para com ele, mas porque ficava, por exemplo, com os melhores pedaços das refeições. Na sua terra natal, e na sua família em particular, o peso da Igreja na moral comum era tremendo; as opiniões clericais, seguidas a preceito. A mãe, quase "beata". O ciclismo virá a ser uma das grandes paixões. Tal como o futebol, "um mundo opaco e de corrupção", levando a que, enquanto ministro, e em dia de jogos grandes colocasse o cachecol verde sobre o computador. A mãe, que nunca cozinhou, chamava, por vezes, "insolente" a Dadinho: sempre gostou de contrariar e de pregar partidas. Enquanto ministro, conheceu vários líderes estudantis, considerando dois deles especialmente inteligentes. Convidou-os para jantar em sua casa. Um deles, Fernando Medina. A quando de eleições autárquicas em Lisboa, em sendo solicitado pela campanha para fazer donativo, deu 1000 euros para a candidatura em causa.

Escolas para hoje



Como uma escola que fez uns avanços extraordinários, pelo menos no que é medido pelos testes internacionais e em certas disciplinas, mas receio que também esteja um pouco cristalizada e tenho pena de que tenha perdido a riqueza curricular. As pessoas, os meninos, são tão diferentes e há quem possa dar o melhor de si de outra maneira que não só na matemática e na língua materna. Era importante que houvesse uma muito maior variedade de actividades e de aprendizagens. Por [uma questão de] justiça individual, já que toda a gente merece desenvolver-se em vários aspectos, mas também por justiça social, porque enquanto existem meninos cujas famílias valorizam a música e o teatro e os levam a essas actividades, há outros que não têm essa possibilidade. E, já que a escola é a única rede que chega a toda a gente, deveria proporcionar a todos essas aprendizagens e esse contacto com outras realidades.


(...)

Mas há uma determinada cultura escolar que ainda perdura, do século XIX, século XX, que é dar a matéria. Isso antes fazia-se para grupos de alunos relativamente homogéneos, mas entretanto a população mudou, já não é uniforme. Terá de haver um repensar da escola no seu todo para fazer evoluir esta cultura da escola para uma cultura algo diferente e penso que isso vai acontecer. Porque a economia está a pedir coisas diferentes. O que a economia hoje pede são competências diferentes daquelas que este modelo de escola desenvolve. Para além das competências digitais e do inglês língua estrangeira, requer-se hoje os chamados “soft skills”, ser capaz de colaborar, ter espírito de iniciativa. Sem querer que a escola ande a reboque da economia, penso que isso vai condicionar a escola. O que eu gostava é que a escola, para além de desenvolver estas novas competências, também formasse pessoas capazes de decidir o seu destino e de escolher em que tipo de sociedade pretendem viver.

Maria Brederode Santos, Presidente do Conselho Nacional de Educação, em entrevista a Clara Viana, hoje no Público.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Os diários de Marçal Grilo (X) (o futuro de Portugal)


Há que desenvolver o sector dos caminhos-de-ferro para potenciar a importância dos nossos portos e de Sines em particular, que tem tido um crescimento brutal, ao contrário dos outros, que estão quase estagnados. Trata-se de aproveitar o nosso posicionamento geo-estratégico - a abertura e duplicação da capacidade do canal do Panamá vai permitir-nos ser o país receptor das mercadorias que os navios trazem da Ásia, e temos de ter capacidade de as levar ao resto da Europa. (...) Depois temos a plataforma continental que vai ser entregue ao país dentro de dois ou três anos. Este é um desafio para décadas. O país tem de encontrar um modelo jurídico para lidar com o que está no fundo do mar e debaixo do fundo do mar. Negoceia concessões? Com quem e como? Cria uma empresa pública? O próprio Estado gere a plataforma? Contratamos e fazemos acordos com empresas? Terá de ser um pouco parecido com o que se passa com os países produtores de petróleo, que utilizam muitos modelos diferentes.
A plataforma continental não resulta de uma discussão política, mas sim de uma análise científica e técnica sobre o contorno definido geologicamente pelas características da crosta terrestre. Portugal vai-se tornar num dos dez países com maior área no mundo, uma coisa gigantesca, pois engloba a Madeira e os Açores. Há, pois, que encontrar formas para explorar aquilo que existe, designadamente metais raros, fontes térmicas, eventualmente, petróleo e gás. (...)

(Há pouco tempo fiquei perplexo com o que vi na Universidade de Aveiro. Estamos a ter problemas gravíssimos de poluição no mar. No Ecomar, no departamento dedicado à fauna marinha, existe uma parte de investigação e uma parte hospitalar e de recuperação dos animais, coisa única na Europa. Tem um acordo com a Fundação Oceano Azul e com o próprio Oceanário de Lisboa, e um dos animais que lá estava era um golfinho fêmea que tem uma gastrite crónica provocada pelo plástico que comeu). (...) 

Olho com alguma apreensão para a geração mais nova. Espera-os um mundo muito rápido, avassalador, que muda à velocidade da luz. E receio que não estejam treinados para isso.

O que é preciso é fazer um "bom curso" e não "o curso". Vocações muito marcadas só são verdadeiras em meia dúzia de casos. Hoje, a profissão ou as profissões que se vão desempenhar não têm muito a ver com os cursos que se tiram, a não ser em alguns casos específicos.

Diário, 23.01.2008  
(...)

Pela primeira vez na história, os filhos podem vir a ter condições piores do que as que os pais tiveram. Os desafios serão muito intensos e eu gostaria que tivessem os instrumentos necessários para os enfrentar, gostaria de dar-lhes mundo (por isso é que ofereci agora um ano, um gap year, no Dakota do Sul, à minha neta Matilde).

Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube de Autor, 2017, pp.313 e segs.

Os diários de Marçal Grilo (IX) (catolicismo)


Cresci católico. Hoje, sou um católico com uma prática muito pessoal (…). Uma coisa é olhar para a vida e o exemplo de Cristo, e o chamar a atenção de que a nossa vida depende dos outros e que os outros dependem de nós – isso toca-me muito e rege a minha actuação e a maneira como eu encaro a vida. Outra coisa (…) um conjunto de ideias, de ritos, liturgias, mandamentos, dogmas, etc. (…)
O Papa Francisco está a humanizar a Igreja. Acompanhei muito, nos anos 60, a evolução que se deu com o Vaticano II e o Papa João XXIII, como ele aproximou a Igreja das pessoas, alterando a parte litúrgica. Este Papa, figura muito humana e próximo do comum mortal, está a fazer algo talvez ainda mais meritório – colocar a Igreja a tratar das questões concretas do mundo. (…)
O Estaline estava muito enganado. Quando lhe falaram da importância do Papa, perguntou: “Quantas divisões é que ele tem no Exército?”. Ora, o Papa tem o poder da palavra, como diz muito bem o Professor Adriano Moreira: o poder da palavra contra a palavra do poder. Com o que diz, o Papa influencia o que as pessoas pensam. E isso é mais forte do que a força militar. A palavra dos Papas é sempre ouvida e respeitada no mundo. Mas este Papa é particularmente escutado, pois vem de uma região especial, a América do Sul, e tem uma força indiscutível, contrariamente ao Vaticano, que a tem vindo a perder.
É curioso constatar que a Igreja se reformou sempre da periferia para o interior. João XXIII recusou os primeiros textos elaborados para o Concílio produzidos no Vaticano e baseou-se muito no episcopado francês e alemão, para poder fazer as reformas que pretendia. Hoje, a periferia não é a França nem a Alemanha, mas sim a América do Sul, a África e a Ásia, é aí que a Igreja sente mais os problemas dos Direitos Humanos, da fome, da desigualdade, da ignorância e da doença. Por isso concordo com o Frei Bento Domingues, quando diz que o Papa Francisco traz as “periferias” para o “centro”.

O Papa Francisco está a mudar o discurso da Igreja e a sua mensagem de forte denúncia das desigualdades e do Poder do Dinheiro, está a trazer-lhe uma aura de grande combatente numa guerra em que se coloca ao lado dos pobres e dos desfavorecidos contra esta manipulação dos mercados por parte de quem só vê o lucro e os dólares como valores supremos.

Diário, 14.02.2016

Este não é só o Papa dos católicos. O que diz tem uma repercussão enorme nos agnósticos e ateus que acabam por ser sensíveis ao seu discurso simples, em que aborda a justiça social e ataca os males do poder financeiro. As pessoas, independentemente de terem fé ou não, ouvem-no. Ele sabe, por isso fala para o mundo, não para as ovelhas que estão no seu redil.

Este é o Papa menos clerical da história recente da Igreja. É seguramente com este discurso que a Igreja pode ter algum papel na vida das pessoas, em especial dos mais novos. (…)

Diário, 01.05.2016

Em Portugal, temos várias vozes como, por exemplo, a do Frei Bento Domingues, com a sua linguagem que não é típica da Igreja, é um bocadinho out of the box e próxima dos nossos problemas. O que é positivo, enriquece o debate, cada vez mais necessário, dentro da Igreja.
Também escutamos a voz do D.Manuel Clemente. É um homem do nosso tempo, embora de formação conservadora. Cultíssimo, o Cardeal Patriarca tem um grande conhecimento da História, não apenas da Igreja, mas do mundo e do país, sendo pois uma voz forte, muito autorizada.


Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube do Autor, 2017, pp.182 e segs.

Os diários de Marçal Grilo (VIII) (a pobreza)


Fui hoje à entrega do Prémio Gulbenkian da Solidariedade, que foi dado a uma organização que se dedica ao apoio e à reintegração dos “sem-abrigo”. Fiquei impressionado com o discurso do representante desta associação, Comunidade Vida e Paz. Fiquei chocadíssimo quando ele sublinhou que os “sem-abrigo”, por força da sua desinserção social, acabam por esquecer o próprio nome, uma vez que há muito que deixaram de o ouvir! É impressionante. Pior ainda é saber que no ano passado foram enterradas em Lisboa 166 pessoas cujas famílias já nem sabiam da sua existência! Completamente abandonados, marginalizados e esquecidos!

Diário, 20.10.2004

Era calçado só para alguns. Na escola primária tinha muitos colegas que andavam descalços. Vinham sem sapatos, com as calças presas por um cinto feito com um bocado de pano e com uma bolsa às costas onde levavam a ardósia para escrever e fazer as contas. A escola pública ofereceu-me o primeiro contacto próximo com a realidade, muito mais do que o que tinha em casa, onde às vezes, em noites de Inverno com chuva e frio, alguém tocava à porta e a criada vinha dizer:
- Está lá fora uma mulher com três filhos, todos descalços e cheios de frio, a pedir que lhes dêem qualquer coisa para comer.
Eram momentos muito dramáticos em que a mãe mandava vestir e calçar os miúdos com o que havia em casa nos armários, ao mesmo tempo que lhes serviam a comida que tinha sobrado do almoço ou do jantar e que estava no frigorífico.
Aliás, a mãe, como a maior parte das senhoras pertencentes a uma classe economicamente mais desafogada, tinha os “seus” pobres privativos. Pessoas com dificuldades, geralmente viúvas ou velhinhos, que apoiava regularmente, dando-lhes dinheiro ou um cabaz de produtos, como arroz, café, massa, bacalhau, açúcar e conservas. Era um tempo difícil e duro para muita gente. A fome e a miséria tinham presença viva na cidade.

A CRISE; os fechos de empresas; os despedimentos; o aumento dos impostos; o imposto extraordinário sobre o 13º mês; o Cavaco a dizer há uns meses (ainda com o Sócrates) que há limites para os sacrifícios; a baixa dos salários…Entretanto, em Portugal, as 25 pessoas mais abastadas viram as suas fortunas crescer 18,4 por cento nos últimos tempos. Como é que estes crescimentos se verificaram? Que impostos é que esta gente paga? Onde é que as suas empresas estão registadas? Que benefícios receberam do Estado? Que razões invocaram para despedir parte dos seus funcionários? Que uso fazem dos off-shores?
Os Governos, sempre tão prontos a carregar sobre os mais fracos, deviam responder a estas perguntas quando tantos e tantos sofrem na pele um desemprego que as despersonaliza e as atira para a valeta como se fossem um bem descartável.
Sempre houve ricos e pobres, sempre haverá, mas neste momento estamos como estava o Brasil nos anos 80, quando os Ricos viraram Milionários e os Pobres se tornaram Miseráveis.

Diário, 8.8.2011


Este relatório lançado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos mostra que há dois mitos que são mesmo mitos. A crise não poupou os mais pobres. Pelo contrário, foram estes os mais afectados com a perda de rendimento disponível, na ordem dos 25 por cento. Por outro lado, segundo mito, a crise afectou a classe média, o que também não é verdade. Os mais pobres e mais jovens foram os mais afectados. As crianças foram as que sofreram mais, o que nos devia envergonhar a todos. A diminuição da prestação do apoio social – rendimento mínimo, apoio de solidariedade a idosos, abono de família – foi fatal para muitas famílias que viram os seus rendimentos fortemente reduzidos, levando a que muitos não tivessem o mínimo para viver decentemente. Um em cada cinco portugueses vive com menos de 442 euros por mês e temos no país cerca de 2,20 milhões de pobres. É uma situação intolerável.

Diário, 22.09.2016

Os níveis de risco de pobreza anunciados recentemente em Portugal ainda são elevados. Desceram um pouco nos últimos dois anos, mas basta ir à porta de um restaurante ou de um supermercado ao fim do dia e ver as pessoas que vão lá ver se recebem alguma coisa, para constatar que o problema se mantém.

Incrível, um dado apresentado por Noah Harari no livro Homo Deus – História Breve do Amanhã. “Os 62 homens mais ricos do mundo têm tanta riqueza acumulada quanto 3,6 mil milhões de cidadãos do mundo”. As desigualdades são demasiado gritantes para poderem durar. Não é possível nem moralmente entendível uma distorção destas na distribuição da riqueza.

Diário, 27.06.2017


Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube do Autor, 2017, pp.216 e segs.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Uma palavra de esperança sobre a morte




P. Pablo Lima


O que não é a morte para a Bíblia? A Bíblia desmistifica a morte: para os povos semitas, ela era uma divindade; para a Bíblia será mais um acontecimento. No panteão da cultura semita, cultura que se encontra antes do Antigo Testamento mas também que lhe dá vida/alimenta, encontra-se o deus morte. Uma espécie de irmão do deus Baal, muito idolatrado pelos judeus nas escrituras (denunciadoras) do Antigo Testamento, que, de resto, será morto por este deus morte (que, por sua vez, sucumbirá às “mãos” da irmã do deus Baal e que passado algum tempo ressuscita). A morte, na Bíblia, deixa, pois, de estar personificada e passa a ser um acontecimento de todas as criaturas vivas (não apenas dos humanos, mas de todas as criaturas vivas). É verdade que em Jeremias 9, 20, p.ex., se diz que “a morte subiu pelas janelas, meteu-se nos nossos palácios, exterminou as crianças e os jovens”, no que são resquícios raríssimos daquela concepção da morte enquanto divindade.
Na Bíblia, nos textos mais antigos do Antigo Testamento, não havia a ideia de vida para além da morte (em Isaías, “para quem desça ao túmulo, acaba a esperança na tua fidelidade. Só os vivos podem louvar-te”; no Livro dos Salmos: “na morte não haverá lembrança de Ti, no Sheol quem te lembrará?”). Para o judeu antigo, a vida nesta Terra é única, por isso preciosa, dom, sagrada. Alguns textos sapienciais referem-se a uma morada dos mortos, o Sheol, que é já um avanço; mas sem consciência. De aí que se enquadrasse a sobrevivência como se traduzindo em deixar descendência.
O culto dos mortos surgiu no Antigo Egipto – a oferta, a oração aos mortos, o vestir muito bem os mortos surge no Egipto. Israel recusou este culto aos mortos, porque não concebia sobrevivência pós-mortem. Em Israel, o culto dos mortos era estritamente proibido (bem como orações sobre os mortos). Previa-se a existência de sete dias de luto, com rasgar de vestes e cinza em cima das cabeças – mas apenas. O luto era apenas uma expressão de dor: nunca uma oração ao defunto, ou pelo defunto [no contexto dos sécs.X-IV a.C.]. Até a sobrevivência da alma, postulada cultura helénica de então, encontrava grandes resistências de aceitação por banda da cultura hebraica. Não existe no mais original da Bíblia um dualismo antropológico, sendo que a ruah será quase como que o respirar, quase a garganta, sendo que séculos volvidos se tornará a dimensão espiritual, o pensamento, o lado emotivo da pessoa. No AT, não há uma grande reflexão teológica sobre a morte; é vista como um dado natural e universal. Mas há uma morte ideal, isso sim, descrita, nomeadamente, no Génesis: morte ditosa, com as últimas vontades feitas, e já com uma idade provecta.
Descrição de duas personagens no Antigo Testamento: Elias e Enoch. Estes textos começam, então, a abrir a porta para a entrada da vida eterna. O que a morte nos ensina é que a vida é frágil e breve (sempre frágil e sempre breve). Moisés é a única pessoa que sabia até onde (de onde não passaria, não propriamente o dia e a hora) duraria a sua estadia na Terra (caso único na Escritura).
A certa altura, a Bíblia apresenta a morte como um castigo. Um castigo pelo pecado. E até um castigo pelo pecado de Adão. Posteriormente, face a este mesmo absurdo da morte, a culpa passa para o inimigo: a culpa é do demónio (“foi por inveja do diabo que entrou a morte no mundo”, diz o Livro da Sabedoria). O pensamento de São Paulo tem um pouco disto: “o salário do pecado é a morte”. Mas a ideia central do AT é: a morte é um absurdo.
A expressão pecado original não é uma expressão bíblica: trata-se de uma expressão Patrística. É uma categoria bastante problemática, sendo que nos últimos 60/50 anos tem sido tentada repensada pelos teólogos. Então, e os que morrem sem terem feito mal algum, as crianças, as vítimas inocentes da história?
Mesmo o Livro de Job, na medida em que, no final, Job passa a ter uma vida melhor do que aquela que tinha antes de as coisas começarem a correr-lhe mal – e isso não suceder, normalmente, com as pessoas, dado que quando as coisas começam a correr mal correm mesmo mal e não ficam num estado melhor do que antes -, não será um livro completamente conseguido ou satisfatório. A morte, mesmo para a Bíblia, é revoltante, é injusta, absurdo. Vapor, tudo é vapor (diz o Ecclesiastes, normalmente traduzido por vaidade, tudo é vaidade).
Aqui, coloca-se a questão de Camus – perante o absurdo -: não será o suicídio a única questão filosófica [início de O mito de Sísifo]. E como vê a Bíblia o suicídio? Judas suicidou-se, mas o rei Saúl, o primeiro rei israelita também se suicidou. Na Bíblia aparecem 4 suicídios: os de Sansão, Saul e seu escudeiro, Ahitofel e Judas. Ahitofel comete suicídio por orgulho (por frustração por não ter sido ouvido); Judas, por remorsos. A Bíblia diz que só Deus pode reclamar a vida humana. Na tradição hebraica, o suicídio de Saul levanta a questão do suicídio que santifica ou ofende o nome de Deus.
Para o AT há antídotos para começar a vencer a morte (durante a própria vida, durante a existência): a) sabedoria ou vida justa; b) práticas de reanimação; c) a existência da ruah (espírito). No cristianismo, não é o homem que vai ao encontro de Deus, mas o Deus que veio “montar a tenda no meio de nós”. A existência de “santos” é completamente estranha ao AT. Só Deus é santo. A ideia de comunhão do homem com Deus é, pois, verdadeiramente singular no eclodir bíblico, na sua máxima intensidade, no NT. Forte como a morte é o amor. A morte biológica deixa de ser uma morte identitária. Se Deus ama tanto os seus fiéis, não pode permitir que esta os separe de SI. Qual o sabor da morte, nas Escrituras? A morte é amarga (Ben Sirá: ó morte, como é amarga a tua lembrança; Ecclesiastes: encontrei algo mais amargo do que a morte – um certo tipo de mulher). Jesus saboreou a morte em favor de nós. Deus beija na hora da morte. É como retirar um cabelo da taça do leite. É preciosa, aos olhos do Senhor, a morte dos seus fiéis. Um beijo para ser autêntico não pode ser roubado; tem que ser trocado entre duas pessoas que se conhecem e se amam: a vida é o tempo oportuno para preparar o beijo de Deus.

Natal


Resultado de imagem para o pequeno caminho das grandes perguntas

Natal

José Tolentino de Mendonça sente que estamos sedentos de uma sabedoria, no meio do trânsito infernal de uma sobreinformação e um ruído incessantes, e de mil não sei quês que nos afastaram do essencial. Ousa, contra a corrente, ser um dos aventureiros em busca de perguntas, sim perguntas, e de traços que nos indiquem um caminho. Por exemplo, o da senhora alemã que dava esmola a toda a gente que lha pedia. Não que não soubesse que havia gente matreira - e que, portanto, alguma vez iria ser enganada; mas, ainda assim, sempre que lhe pediam, dava. “E esse gesto, que parece insensato, salva o mundo. A insensatez daquela mulher – escreve Tolentino – enche o mundo de maior amor do que todos os apetrechos de uma prudência que facilmente se torna uma trincheira que nos defende do encontro com a vulnerabilidade, nossa e dos outros”. Esta história real, verdadeira que pude ler nesse requintado O pequeno caminho das grandes perguntas (editado pela Quetzal) remeteu-me, outrossim, para três versos, de que gosto muito, num livro dedicado à Esperança, do poeta Charles Peguy, colocados na boca de Deus: “porque as crianças são minhas criaturas/mais do que os homens/porque elas ainda não foram derrotadas pela vida”. A morte, a separação, a doença, o sofrimento, os sonhos por cumprir, as vezes em que não estivemos à altura: ser adulto, de alguma forma, e sem negar as vitórias que felizmente registamos, é ter sido, também, derrotado (pela vida). A visão do vencedor puro, sem fragilidades, todo-poderoso é apenas uma mentira que alguém conta a si mesmo. E, aliás, da constatação da insuficiência própria, a compreensão de que carecemos de adimplemento. De completude. A vida é, por vezes, como escreve Tolentino de Mendonça, decepcionante. Nesse sentido, questão essencial é como respondemos, existencialmente, a essa derrota. Se só amarmos a vida como ideal, e à espera deste, nunca dela nos abeiraremos. E a vida passa, como areia movediça, por entre os dedos que a pretendem, mas já não conseguem, deter. É preciso, porventura, uma aposta, uma senha de confiança: viver, aconteça o que acontecer, como se estivéssemos ao colo; ou, como poderia dizer um teólogo, viver como se a realidade fosse…a realidade. O que nos permitiria, ainda, recuperar a virtude da compaixão (uma virtude de quem divisa no rosto do outro um mandato, com maiúscula, de responsabilidade por ele, uma virtude afastada do desespero e da indiferença): na compaixão, dá-se “a suspensão do julgamento sobre a vulnerabilidade do outro. Constrói-se como um consentimento oferecido ao outro como nos aparece, aqui e agora. A compaixão liberta-nos do peso do passado ou das idealizações do futuro: ancora-nos vitalmente neste instante, que é o que temos de viver”.
O padre e poeta convoca, como seu hábito, um bazar excelso, de referências, escritores, realizadores, poetas, gente comum que sabe histórias e experiências. E, neste estádio da aventura humana em que nos situamos, é o filósofo Cioran a ser chamado: “esse inesperado mestre contemporâneo dos caminhos da alma, explicava que a maior dádiva da religião só pode ser essa: ensinar-nos a chorar. As lágrimas dão um sentido de eternidade ao nosso devir. Elas guiam-nos da orfandade ao êxtase. São as lágrimas a linha divisória que distingue os seres que sabem tudo dos seres que não sabem nada. E se, por um absurdo, as lágrimas se esgotassem, o nosso desejo e o nosso conhecimento de Deus desapareceriam também”.
Tolentino não o diz aqui, mas, de facto, o Papa Francisco indica que uma das maiores debilidades do nosso tempo passa por termos desaprendido de chorar. Com Ermes Ronchi podemos redescobrir como a omnipotência de Deus é a omnipotência do amor. Deus, que em si mesmo, na imagem cristã Dele, é relação ao outro, sendo esse ato relacional a essência de Deus, pode o que o amor pode. E o amor – expresso sobre modos variados, da philia ao eros, desejavelmente agapê - pode tudo.

Boa semana.

Pedro Miranda

domingo, 24 de dezembro de 2017

Esta noite é de alegria

Quando ainda se acredita(va)


A minha mãe obrigava-nos a ver todos os grandes ciclos de cinema. Um dos gozos que tínhamos era descrever os filmes do Dreyer que ela nos obrigava a ver. Sempre nos obrigou a ler e a ver muita coisa. Nesse sentido, foi muito presente e preparou-nos muito bem. 

Manuel Aires Mateus, arquitecto, Prémio Pessoa 2017, em entrevista ao Expresso deste Sábado


P.S.: hoje falta convicção e motivação - as pessoas como que perderam a razão/o argumento - para procurar levar a cabo uma educação que vise esta elevação e confronto com as obras maiores do espírito. E então relembre-se o argumento: do contacto com as grandes obras do espírito humano é que a pessoa se eleva, está mais perto de conhecer o coração e condição humanas, pode superar preconceitos vários em contacto com outras, múltiplas, vozes que lhe conferem um horizonte de largo espectro, segue rumo a esse desiderato maior de ser um homem livre. Nos termos relembrados por Rob Riemen, essa elevação, segundo Espinosa, levaria o indivíduo a (procurar) ultrapassar  a estupidez, ou, em termos cristãos, essa elevação levaria o homem a procurar tornar-se mais justo. Se quiséssemos, com o mais recente Roger Scruton, a nossa humanidade não é dada, é conquistada e podemos compreender como da paideia a propor se encontram propostas como a acima descrita.

P.S.1: Lendo-se alguns dos artigos de Klaus Mann, em Contra a barbárie, melhor se percebe a inspiração de Riemen, em O eterno regresso do fascismo e o significado que aí a palavra "fascismo" adquire: a mesma noção presente na descrição de a revolução niilista, isto é, embora um conjunto de pessoas que estão em partidos possam acenar com uma determinada retórica que possa recobrir a defesa de determinados valores políticos, a sua prática demonstra que essa alusão a tais valores é meramente instrumental em um projecto (pessoal) de poder e que, no fundo, tais pessoas nada defendem (e como Grouxo Marx, perguntam "gostam destes princípios? Se não, tenho ali outros"). Não acreditam em nada e, recorde-se, estão, portanto, em óptimas condições para acreditar em tudo (fazer de conta que acreditam em alguma coisa para além da sua carreira; olhamos hoje tanto para a realidade que nos rodeia e é tão isto, infelizmente...não necessita de adquirir contornos de completa catástrofe...basta ser banal e insidioso, como é, esse mal).


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Os diários de Marçal Grilo (VII) (política)


Sobre os primeiros [os deputados], a minha opinião é muito crítica. (...) no Parlamento não se pensa muito. Nos debates, a notória falta de preparação chegava a ser confrangedora, preocupavam-se sobretudo com as questões do dia-a-dia, com o que vinha no jornal, e não propriamente com assuntos de fundo. Quando eu tinha propostas de espectro mais largo queriam medidas concretas, quando levava ao Parlamento medidas concretas, queriam enquadramentos gerais. (...) As pessoas de maior qualidade estavam na primeira e na última fila. Na primeira sentavam-se os dirigentes dos grupos parlamentares, nas últimas os membros que não estavam na melhor sintonia com os líderes do grupo parlamentar. Havia depois uma massa de deputados menos activos, que pensava pouco, estudava quase nada e tinha uma participação a raiar o irrelevante. Sobrava um grupo, a que Ferro Rodrigues e eu chamávamos os hooligans - estavam junto à parede e emitiam uns sons que não se entendiam, serviam só para interromper e criar confusão. Julgo que o cenário não mudou muito de então para cá.

Dos deputados há de tudo - miúdos, ignorantes e tontos. Há alguns que passam as sessões a dizer bocas e a fazer provocações. Felizmente que há um grupo qualificado que dignifica o conjunto

Diário, 12.11.1995

Recordo-me de uma triste tarde em que se discutia o Pacto Educativo e o plenário estava quase vazio. Disputava-se o Portugal-Croácia [Euro 1996]. Os deputados saíam e entravam, gesticulavam dando conta do progresso do jogo, e quando houve um golo ou uma jogada arrebatadora do Figo, até palmas se ouviram no hemiciclo. Não é só o futebol que os entusiasma. O que se passou depois de Portugal ter vencido o festival da canção da Eurovisão foi dos espectáculos mais tristes a que já assisti. Levantarem-se todos para aplaudir o feito é de um ridículo inacreditável, muito pouco digno da Assembleia da República. Ganhar o festival é uma coisa trivial, não há nenhum país na Europa (talvez só a Albânia) que festeje a vitória com os deputados, a parecerem uns badamecos, de pé, no Parlamento
Nas reuniões da Comissão Parlamentar Especializada, o cenário só se diferenciava para pior. Trocavam bilhetinhos, estavam sempre a levantar-se para irem fumar ou atender o telemóvel, liam revistas, rasgavam papéis...parecia uma turma malcomportada

Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube do Autor, 2017, pp.146-147

Os diários de Marçal Grilo (VI) (pay-back)


O Ensino Superior deve ser pago porque corresponde a uma valorização pessoal enorme que a pessoa leva para qualquer parte do mundo. Não havendo propinas, faz-se um investimento que pode não ter retorno para o país, se a pessoa, e bem, assim o entender.
As universidades lutam com problemas financeiros, todos o sabemos. Porém, têm hoje capacidade para apoiar os estudantes, individualmente, não apenas as suas associações. A Universidade de Aveiro, por exemplo, tem um programa de apoio aos alunos em que ninguém fica fora da instituição por falta de condições financeiras; tem no seu orçamento verbas destinadas aos estudantes, o que é inédito em Portugal.
Há uma parte no financiamento das instituições do Ensino Superior que falta desenvolver: a constituição de endowments, ou seja, de fundos financeiros pertencentes às instituições que permitam ter uma maior disponibilidade orçamental. Isto faz-se com a criação de um fundo no qual são colocados donativos de ex-estudantes, de empresas, e outros, como têm as universidades americanas, privadas e públicas. Nos EUA há mais de 200 universidades públicas com fundos acima dos dois mil milhões de dólares, sendo que os grandes contribuintes são em geral ex-estudantes (estes montantes parecem muito elevados, mas são muito reduzidos quando comparados com o que se passa nas universidades privadas; Harvard, por exemplo, dispõe de um endowment na ordem dos 36 mil milhões de dólares). 
Os europeus não têm muito esta cultura do fund-raising, nem do pay-back. Não lhes passa pela cabeça restituir à instituição que os formou uma parte da verba que o Estado gastou nessa formação para que possa ser aplicada em benefício de outros. Por outro lado, como os europeus já pagam impostos muito elevados, não se sentem na obrigação de dar mais às instituições públicas que funcionam com o dinheiro desses mesmos impostos.
Também não é fácil para os reitores fazerem uma campanha de fund-raisins assente apenas nas dificuldades financeiras das universidades. Uma das formas de atrair donativos das pessoas é estas saberem que o dinheiro que estão a dar tem um objectivo concreto (bolsas, bibliotecas ou outro qualquer objectivo), e isso implica um grande planeamento, que as universidades não têm.

Eduardo Marçal Grilo, Quem só espera, nunca alcança, Clube do Autor, 2017, pp.144-145.


A guerra das propinas terminou em 1998, e de então para cá deixou de haver temas controversos! Será mesmo assim ou o movimento estudantil morreu de vez?

Diário, 21.10.2015, Marçal Grilo, p.145

P.S.: Marçal Grilo trabalhou também no LNEC, deu aulas na Academia Militar, participou em Projectos de Desenvolvimento em cooperação com o Banco Mundial, foi Diretor-Geral do Ensino Superior, Membro de Curadores da FFMS, apoiante e mandatário da candidatura de Maria de Belém à Presidência da República.