segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Tio Sam


Muitas vezes, acabamos por utilizar expressões sem conhecer a história das mesmas, ou o porquê de uma dada designação. Aconteceu-me com o Tio Sam e só há dias me apercebi, quando um miúdo me perguntou pelo significado da expressão. Uma pesquisa pela net:











Civilização


Nas palavras de um grande contemporâneo de Aron, «o termo civilização designa simultaneamente o processo de converter um homem num cidadão, e não um escravo; um habitante de cidades, e não um rústico; um amante da paz, e não da guerra; um ser polido, e não um rufia»; trata-se do «cultivo consciente da humanidade, quer dizer, o que faz de um ser humano um ser humano». Civilização é essencialmente o «cultivo consciente da razão». Portanto, «os pilares gémeos da civilização são a razão teorética e prática, ou a «ciência» e a «moral» [Leo Strauss].

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, 2017, pp.237-238

Estado Administrativo


Em primeiro lugar, não foi Montesquieu quem inventou a separação de poderes. A discussão precedeu Do Espírito das Leis, uns bons cem anos, sobretudo em Inglaterra. (...) A ascensão do administrativo ilustra bem os problemas com que a doutrina da separação de poderes acabaria por se defrontar. (...) A filosofia política tarda em enquadrar de modo coerente e sistemático esta tremenda inovação nos últimos 150 anos. Foi a solução política e institucional que emergiu para dar conta da assunção cada vez maior de tarefas pelo Estado. Encarregou-se o Estado de fazer mais coisas, muito mais coisas, do que era o caso no final do séc.XVIII. E essas inúmeras tarefas novas não podiam ser levadas a cabo dependendo apenas dos três poderes do cânone. [e para além do Estado Administrativo, surgiria o Estado Regulador]

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, 2017, pp. 228-233

Aprender com os erros


Quando a crise financeira de 2008 estoirou, a Fed, liderada por Ben Bernanke, tomou acções extraordinárias. Cortou as taxas de juro para zero e "imprimiu dinheiro" em larga escala - não literalmente, mas comprando biliões de dólares de obrigações.
Muitos conservadores ficaram irritados. Comentadores televisivos hiperventilaram sobre inflação e vozes, aparentemente respeitáveis, denunciaram as acções da Fed. Em 2010, um "Who's who" de economistas conservadores publicou uma carta aberta a avisar que as políticas da Fed causariam inflação e "rebaixaram o dólar". Mas nunca aconteceu. (...) Quatro anos após aquela carta aberta a Bernanke, a Bloomberg abordou muitos dos signatários e perguntou-lhes o que haviam aprendido. Nenhum deles - nem um - admitiu sequer que se tinham enganado. O que acontece aos economistas que nunca admitem erros e não mudam as suas opiniões à luz da experiência? A resposta, aparentemente, é que entram na lista de finalistas para ser o próximo presidente da Fed.

Paul Krugman, A doutrina da infalibilidade Trumpal, Visão, 16 de Novembro 2017, p.34

domingo, 19 de novembro de 2017

Responsabilidade parental


Tomo nota que um conjunto de quadros - sociólogos, juristas, psicólogos nacionais e estrangeiros - subscrevem, em Uma família parental, duas casas que a residência alternada (Sílabo, 2017), relativamente à guarda da criança, em casais que se separam, de acordo com uma acervo de estudos que mobilizam, seria/será o que mais convém aos infantes. E isto, porque, explica Sofia Marinho à Visão, as actuais decisões sobre estas matérias são "pouco informadas, assentes em estereótipos de género e das relações familiares", privando "as crianças de igual envolvimento da mãe e do pai no seu dia a dia. A residência alternada não está prevista na lei, mas os subscritores deste livro ora lançado, entendem que devia ser a regra. "Idealmente, a criança deve residir alternadamente com a mãe e com o pai entre 33 e 50% do tempo durante o mês, para beneficiar do envolvimento pleno de ambos em todos os domínios da sua vida. (...) Os resultados de estudos internacionais representativos mostram que (...): menores que viviam, desde cedo, em regime de residência alternada tinham melhores indicadores de bem-estar emocional do que as que cresciam com o modelo de residência única".
Se, não raramente, o senso comum, nestas matérias talvez nos indicasse o possível problema de regras duplas, de falta de coerência educativa, de um projecto que mesmo que partilhado em termos teóricos iria ter concretizações muito diversas em casas distintas, etc., o que este conjunto de interessados nestas matérias nos vêem dizer é que nem sempre o senso comum é bom senso, e/ou que os ganhos da inovação pretendida superarão os constrangimentos a ela potencialmente associados. 
Enquanto se espera que haja interlocutores qualificados neste domínio, fica, pois, esta tomada de posição que significaria uma considerável mudança na conformação das situações de responsabilidade parental a ela inerentes.

Exames nacionais: uma experiência comparada



No Brasil, ou na Grécia, o Ensino Superior não consegue absorver sequer 1/5 dos alunos que concluem o Secundário e querem ir para a universidade pelo que a pressão dos exames é tremenda; na Coreia do Sul, os exames nacionais são uma Instituição, a Administração Pública fecha e os alunos que se atrasam têm direito a escolta policial para o exame. Os aviões têm a sua frequência reduzida para não fazerem barulho para os alunos. 
Fazemos exames para que se consiga tirar pelo menos 10 em 20 valores. Mas podíamos exigir 12, 14 ou 7: depende do que queiramos que os alunos saibam. 
Na Finlândia, só há exames no final do Secundário e tem sido passado a ser administrado online: computadores ligados fisicamente por cabo ao servidor da escola ligado ao Ministério da Educação e os alunos recebem o enunciado, respondem, copy paste, processador de texto e enviam para o Ministério da Educação. Os exames não são mais os mesmos: por exemplo, os exames de ciências sociais, ou História, incluem vídeos, a Matemática há uma série de outras ferramentas disponíveis para os alunos. 
Em Singapura, no final do Secundário, os exames são produzidos por Cambridge e têm reconhecimento internacional desses exames/diplomas. Singapura indica os conteúdos, o que pretende examinar, mas são produzidos por Cambridge.
Nos últimos 250 anos, apenas a partir de aí, surgiram os exames de aferição. A Irlanda tem um sistema de exames de aferição muito interessante. O Canadá tem dos exames de aferição mais precoces no mundo: logo no final do jardim de infância. Provas voluntárias para ajudar os pais a decidir o melhor percurso para as crianças. Em Singapura, numa sociedade multicultural e multilingue, os alunos vão para turmas especiais, logo no 1º ano do ensino básico.
Em França não há numerus clausus para o ensino superior. Mas em Janeiro os alunos começam a inscrever-se e a serem distribuídos da melhor forma. Para Medicina e Informática, há sorteio. 
Na Holanda, existem 400 provas escritas e 200 on line para acomodar todas as vias possíveis.

sábado, 18 de novembro de 2017

Um polvo com 15 anos



1.A principal novidade de O polvo encarnado (Ideias de Ler, 2017), de Francisco J. Marques e Diogo Faria, passa por inserir e contextualizar os mais recentes acontecimentos obscuros no futebol português, numa teia de poderes que tem 15 anos ("pelo menos, nos últimos 15 anos", p.8). Isto é, deixamos, neste livro e nesta abordagem, de ter um plano muito apertado dos acontecimentos - dos quais estamos a ter uma sucessiva actualização, relativos a esquemas poluídos de bastidores do futebol português, dos últimos 4 anos - para passarmos a um plano muito mais amplo/global do que está em causa.

2.Considero que se trata de uma lente mais apurada para interpretar os factos: a) porque, e isto é o fundamental/mais importante, a meu ver, ela regista a verdade histórica (ignorar, ou passar uma esponja, pelo "vergonhoso campeonato de 2004-2005", só para dar um exemplo, era inaceitável); b) porque o concentrar exclusivo nos quatro anos do treta oferecia, com facilidade, a acusação de que se tratava de uma mera justificação para os campeonatos formalmente atribuídos ao clube da luz.

3.A origem genética desta captura dos órgãos decisores do futebol português fica, indissociavelmente, ligada a uma afirmação de Filipe Vieira de que o importante era ter gente na Liga [hoje, em grande medida, FPF, dada a transferência de órgãos de tutela da arbitragem, disciplina, justiça para aquela sede]. Essa frase célebre é, não raro, trazida à colação no debate público, mas contraditada por representantes encarnados que chegam a negar a sua existência. O polvo encarnado cita [p.14], quem mais, A Bola, de 2 de Junho de 2003, p.3, que reproduz - imagina-se  que com fidelidade estrita - o grande líder: "O Benfica tem prioridades definidas e uma das mais prementes, devido à sua dimensão, era voltar a ter presença nos órgãos sociais e de decisão do futebol português, concretamente a Liga".

4.De resto, este documento do diretor de informação e comunicação do FCP e de um outro membro deste departamento, revela-se, sobretudo, como uma sistematização da quantidade de casos estranhos - em prejuízo, direto e indirecto do FCP - do futebol português, na última década e meia, oferecendo-se, em realidade, como uma interpretação - que, estou certo, recolheria consenso entre a nação azul e branca - do que foram os últimos 15 anos do futebol português. Assim, e como, aliás, Francisco J.Marques não deixou de advertir, ninguém vá ao engano, procurando notícias (propriamente) bombásticas no livro.
O livro recorda o Estorilgate [Carlos Xavier, à Sábado de 4 de Dezembro de 2015: "No Estoril, quando fui adjunto de Litos, passei por uma situação incrível. O presidente deixou que a equipa descesse para a segunda divisão a troco de ir jogar contra o Benfica ao Algarve apenas por causa da receita. Perdemos porque dentro de campo as coisas estavam todas feitas, ao ponto de mais tarde eu e o Litos termos sido ouvidos pela Polícia Judiciária sobre o caso o que se tinha passado. O jogo foi comprado, ou vendido, neste caso"]; a colocação de Cunha Leal no centro das operações e as decisões deste sempre enviesadas (como nesse ok ao Algarve, o caso Ricardo Rocha, inscrito irregularmente, ou os bilhetes não vendidos em 5% ao FCP, para a Luz, em 2004-2005, com a anuência do diretor-executivo da Liga); a participação de Cunha Leal no filme sobre Carolina Salgado realizado por João Botelho  [que, refira-se, disse já ter vergonha e estar arrependido de ter assinado semelhante fantochada, assumindo ter-se tratado de uma vingança, por situação ocorrida com o seu sogro, Carlos Pinhão]; a entrada em cena de Ricardo Costa; o gigantesco castigo aplicado a Hulk por parte do órgão liderado por Ricardo Costa (contraditado, em última instância jurídica-desportiva, com uma redução abismal da pena...depois de esta cumprida, sendo relembradas as recentes palavras de Jesualdo Ferreira a ABola de que sem aquele castigo o FCP teria sido "tetra campeão"); os sumaríssimos, entre a farsa e a tragédia, aplicados semanalmente a jogadores do FCP (nem um jogo, nem um joguinho aplicado a jogadores encarnados; McCarthy apanha 2 jogos em virtude de uma destas manigâncias, recorre e como resultado passa para três jogos de castigo...apanhando o terceiro jogo o FCP-clube da luz a realizar no Dragão: não fora o Conselho de Justiça e assim teria sido); o castigo aplicado a Lisandro Lopez por simulação de um penalti, castigo inédito e ainda irrepetido no futebol português; a utilização, por Ricardo Costa, de escutas em sede de processo disciplinar; a preterição de possibilidade de defesa a Pinto da Costa durante o dito processo; a dualidade de critérios disciplinares para com Maxi Pereira de vermelho ou de azul, as nomeações de Vítor Pereira, o controlo das classificações de Ferreira Nunes, as subidas e descidas de árbitros, uma comunicação social manipuladora...etc, etc, etc. [Marco Ferreira, relembrado (p.47), ao DN: "Eles têm medo que Vítor Pereira acabe com as suas carreiras como acabou com a minha. Sou um exemplo para eles daquilo que se pode passar. Eu era árbitro internacional e nunca na história de Portugal um árbitro internacional tinha descido à segunda categoria"]
Talvez pelo rocambolesco do tema, também pelo ineditismo do caso, vale a pena relembrar hoje, o apoio de Manuel Vilarinho a um partido político, em plena campanha eleitoral. A citação [p.165] é do Expresso: "Foi uma decisão, uma deliberação dos órgãos sociais do Benfica: apoiar esta candidatura, apoiar o PSD. Exatamente para ter influência nas eleições. Nós não somos feijão-frade. Não temos duas caras. Queremos que tenha influência". Na realidade, o Benfica não entregara ao Estado o valor do IRS que era descontado aos salários dos jogadores, ficando a dever cerca de 10 milhões de euros, mas o Governo - resultante das eleições em que Vilarinho queria influir - aceitou como garantia 20% das acções da SAD do clube, que nem sequer se encontravam cotadas em bolsa, avaliando-as unitariamente em 3,30 euros, um valor que foi considerado manifestamente exagerado. Para, por exemplo, assinar um contrato relacionado com a construção do estádio a aceitação da garantia revelou-se essencial.

5.Um ponto para mim curioso do livro prende-se com a avaliação estrita das arbitragens nas últimas épocas, comparando, nomeadamente, os prejuízos do FCP nos consulados de Julen Lopetegui e Nuno Espírito Santo
Aqui, vale a pena não ter a memória curta: com o FCP a fazer várias exibições de gala, com um excelente plantel, chegando aos 1/4 de final da Champions, onde chegou a vencer, na 1ª mão o Bayern, e com o clube da luz, em 6 jogos, a conseguir uma vitória, na mesma competição, eis que Lisboa, para esconder a sucessão obscena de jogos adulterados pela arbitragem, decide assestar baterias em Lopetegui - o treinador mais odiado do Porto, pelo menos no pós-Villas Boas. Adeptos do FCP vão na casca de banana e alimentam o discurso anti-Lopetegui. Embora a avaliação da SAD do FCP, e em particular do seu experimentado Presidente, fosse inequívoca - Lopetegui continuou para a época seguinte mesmo sem que o FCP formalmente tenha ganho qualquer competição - a verdade é que a quando da saída deste treinador a própria estrutura do FCP o veio cumular de defeitos. 
Pois bem, o que dizem agora o Diretor de Informação e Comunicação do FCP e outro membro deste departamento? Com base no critério - certamente, discutível, como outros - da opinião dos ex-árbitros que compõem o painel do jornal OJOGO, e atendendo a penalties por marcar ou mal assinalados (além de golos mal validados ou invalidados), a conclusão é a de que (convertidos os penalties em causa) a equipa de Lopetegui "poderia ter sido campeã com 15 pontos de vantagem" (p.40). Mais: "por muito que custe reconhecê-lo aos arautos do regime, nessa época o FCPorto foi, de muito longe, a melhor equipa portuguesa" (p.40). À lenga-lenga e à lenda negra de que a equipa nada jogava, que era só posse, que se jogava para trás e para o lado, o diretor de informação e comunicação do FCP responde do modo concludente e contundente que acabámos de verificar. 
Então e por comparação com a época de NES? Não foi esta a pior época de sempre a nível de arbitragem, tudo somado, para o FCP? Não, não foi. A pior, como sempre aqui se disse - e como causa próxima para grandes desaires financeiros foi a golpada determinante - foi a do tempo de Lopetegui. Cito, de novo, os autores de O polvo encarnado: "se (...) em 2014/2015 [época de Lopetegui] os Dragões foram muito penalizados e o Benfica muito beneficiado, desta vez os erros incidiram especialmente sobre a equipa portista, enquanto houve um certo equilíbrio entre prejuízos e benefícios à turma da Luz" (p.41).
Com um certo recuo vê-se melhor e neste aspecto também se fez justiça ao treinador basco.

6.Nenhuma novidade sobre o caso dos emails? Não será bem assim. Pelo menos, há duas pequenas histórias que eu não me dei conta de já terem sido contadas. Uma, relativa a Ferreira Nunes. O vice do Conselho de Arbitragem à época, e responsável pelas nomeações, decide interceder pelo clube da sua terra que ajudou a formar Éder, procurando que a esta colectividade fosse entregue o valor monetário relativo ao mecanismo de solidariedade, no âmbito da transferência do jogador do Swansea para o Lille. Ora, para acionar os mecanismos legais para tal efeito, o vice do Conselho de Arbitragem não está com meias medidas e contacta o assessor jurídico de um dos principais candidatos ao título (mas fosse qual fosse o clube e a sua escala). Nunes não viu nenhum conflito de interesses entre o cargo que ocupava e pedir um favor a Paulo Gonçalves (p.51). 
A segunda história tem que ver com o então presidente da AG da Liga, Carlos Deus Pereira. Em email enviado a Pedro Guerra, escreve (p.28): "Eu enquanto Presidente da AG e o Mário enquanto Presidente da Comissão Executiva [sic] espetámos uma faca, talvez facalhão numa das cabeças da hidra, o Joaquim Oliveira. O Pinto da Costa agora mais frágil vem por arrasto, porque o J.Oliveira está falido". [isto, reportando-se à Olivedesportos]

7.Aspecto controvertido, no livro, passa por tentar uma análise fina às tendências políticas (clubísticas) de cada diário desportivo (por muito que, aparentemente, estas se nos afigurem claras). Para lá da curiosidade da indicação de uma tese de mestrado, de 2016, sobre o assunto, os autores, no fundo, assumem saber, ao nível dos jornalistas independentes de cada jornal desportivo, a filiação clubista destes. Embora, é certo, isso muitas vezes seja absolutamente claro (Fernando GuerraJosé Manuel DelgadoNuno FarinhaJoão Bonzinho, etc.), será que é possível fazer esse exercício para a totalidade dos jornalistas que em ABolaOJogo e o Record têm uma coluna de opinião? [Ivo Miguel Costa Neves, dissertação à Universidade do Porto, é o autor da dita tese de mestrado]

8.Apesar da interpretação fundamental dos acontecimentos da última década, feita neste livro, recolher, creio, quase unanimidade entre os portistas, devo, no entanto, aqui, uma vez mais, referir que no que à factualidade do processo Apito Dourado diz respeito, circunscrever o caso às artimanhas e manigâncias jurídicas com vista a prejudicar o FCP - que as houve - é a meu ver extremamente redutor e essa omissão não poderia fazer parte de uma história completa deste período. Os autores, dadas as suas circunstâncias (nomeadamente, profissionais), não poderiam ir além da abordagem jurídica, mas esta não esgota aquele, como qualquer outro, caso. Houve comportamentos eticamente reprováveis e isso também não pode ser apagado da história (como receber um árbitro em casa).

9.O facto de para o caso Apito Dourado sobejarem jornalistas, dos mais variados órgãos comunicação social, para escreverem, como escreveram, livros sobre o tema e darem vazão a todo o tipo de catilinárias - alguns dos quais se refugiando agora na mais absoluta ortodoxia jurídica para pronunciarem nadas sobre o que se passa no caso dos emails - e O polvo encarnado ser da autoria de duas pessoas do departamento de informação e de comunicação do FCP é mais revelador do que são os jornais desportivos portugueses e do poder fáctico do clube da luz em Portugal do que mil teses de mestrado. 
[Chega a ser cómica a memória, passada para o livro, de, na mesma edição do jornal I, escreverem em páginas pouco intervaladas, António GalambaAntónio RolaRicardo Costa e Afonso de Melo]

10.Uma colectânea, um best-off do futebol português, um documento sem grandes pretensões mas para memória futura. Já menos a quente do que, naturalmente, quando casos sobre casos, no campeonato, sucediam e, simultaneamente ou quase, se conheciam os emails da vergonha. Mais madura e, por isso, mais afinada interpretação. Mas, claro: uma interpretação. Com óculos azuis. Interpretação com óculos azuis que mais ninguém pôde publicar, com excepção do Departamento de Informação e Comunicação do FCP.
Interpretação de longos dias de 15 anos, antecipados assim por José Veiga, na época 2004-2005: "Pela primeira vez, a CD da Liga está a funcionar como deve ser. O sr. Jorge Nuno [Pinto da Costa] ainda não percebeu que as coisas mudaram e que as pessoas não têm medo de tomar as decisões mais justas para o futebol nacional". Como concluem Francisco J. Marques e Diogo Faria, "quase dez anos antes de Adão Mendes anunciar que 'hoje o SLB manda mesmo e outros lá não mexem nada', já Veiga comunicava ao mundo que as coisas estavam diferentes" (pp.71-72)


Saltar à corda


O exercício do livro, depois de uma conversa sobre a gratidão pelo existir: "Desenha o que mais gostas da vida". Ainda não lê, ela, e eu pergunto-lhe: "O que há de melhor na vida?". E ela responde-me, sem um segundo de hesitação e, claro, com o tom mais sério do mundo: "saltar à corda!". Era tão bom sermos, antes de termos mil e uma justificações e tretas para tudo. O melhor da vida é saltar à corda, mas nunca o diríamos. Só ela, que ainda não sabe ler. [ou como diz certo ditado: há dois tipos de pessoas que dizem a verdade. Às crianças, educam-nas; aos adultos, colocam-nos em manicómios].

Ele há perguntas


Primeira pergunta da 24 sapo.pt a João César das Neves, na entrevista ontem publicada por aquele site:

Defende a doutrina social da Igreja e, ao mesmo tempo, uma política de salários baixos, de cortes, de austeridade. Há aqui um conflito?

A entrevista na íntegra:


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Marcelo em homenagem a Freitas do Amaral



A sessão de lançamento do novo livro de Diogo Freitas do Amaral serviu a Marcelo Rebelo de Sousa, sobretudo, para fazer o elogio - um grande elogio - do autor em causa. Dele, disse Marcelo ter 

“incansável curiosidade”, “perscrutante inteligência”, “espantosa capacidade de comunicar”, “um grande pedagogo”, “o gosto por ser iconoclasta”, “visceralmente independente”, “um livro que é gesto de vingança por ter sido demasiado cedo muito importante e de não ter podido fazer certas coisas aos 20 ou 30 anos”, “o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa maravilha-se com ele ser inesperadamente heterodoxo”, “um grande português”.

"No representation without taxation"


Muito bem invertido o axioma democrata, por José Ignacio Torreblanca, em Queremos pagar impostos.

Exames: como e para quê? - experiência comparada

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Um conservador?


Neste sentido, o desígnio de Bento XVI de articular a liberdade humana com a responsabilidade, a razão com os conteúdos éticos, a solidariedade com o amor corresponde, em última análise, a um esforço profundo de edificação da boa sociedade. É o seu contributo para uma sociedade que prefigura a Cidade de Deus. Por vezes diz-se que, neste domínio, o papa é «conservador». De uma certa perspectiva, o epíteto não é inteiramente enganador. Afinal, o propósito de proteger e reconstituir os conteúdos morais da sociedade, que não podem estar à mercê do ímpeto destruidor de certas forças sociais, económicas, políticas e históricas, pode ser visto como um acto de conservação, porquanto há coisas e práticas, costumes e símbolos que é conveniente e necessário conservar. Mas este seria apenas um ponto de vista excessivamente unilateral. Se, como nesta concepção, a boa sociedade e os conteúdos morais que a acompanham forem elevados pelo amor, a atitude meramente passiva de conservação perde consistência. O amor, ou a caridade na verdade, é sempre, como se sabe, promessa de transformação.

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, p.150

Abertura à verdade da fé


As exigências da política são de tal ordem que podem conduzir os seus actores a uma «cegueira ética». A tendência para o empobrecimento espiritual das sociedades ocidentais estimula as condições propiciadoras dessa mesma «cegueira ética», que afecta, ou pode afectar, políticos e cidadãos comuns. Superar a «cegueira ética» solicita uma certa força espiritual que é difícil, se não impossível, receber sem o auxílio da fé ou da abertura à verdade da fé. É certo que a política mobiliza o uso da razão, e não da fé. Mas as perdições da razão requerem uma orientação e uma bússola que só pode provir de um domínio que transcenda a própria política
Note-se que o papa não pretende que a Igreja se imiscua nas questões do Estado ou criar um falso vínculo entre a adesão à fé e conduta católicas, por um lado, e a política sã, por outro. Bento XVI aceita como aquisições que podem reclamar validade universal a proibição da imposição de uma religião pelo poder do Estado, a liberdade religiosa, o respeito pelos direitos fundamentais e iguais para todos os homens e a separação de poderes e o controlo da acção do Estado (...)
O que me parece crucial para este papa é que a voz da fé possa assumir-se, sem complexos ou pressões externas, como interlocutor indispensável na orientação da razão política nas sociedades

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, p.143.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Uma imanência radical


Nas sociedades modernas, segundo Gauchet, a religião (no singular ou no plural, pouco importa para este efeito) sobrevive, mas separada do mundo social e político. Separada no sentido em que os não influencia e muito menos os determina. Mas, como se disse há muito tempo, quando cai a teoria platónica dos dois mundos e se abole o mundo transcendente (ou o mundo das formas ou o mundo das ideias), o mundo que resta (o mundo sensível, temporal, da experiência, o mundo «meramente humano») afinal também não sobrevive. Quer dizer que a relação entre ambos também era constitutiva do mundo da «experiência». Desaparecendo o mundo do além, é «este» mundo que se vê radicalmente diferente. A dinâmica da «saída da religião» parece seguir o andamento nietzschiano do colapso da teoria dos dois mundos. Neste caso, o mundo social e político transforma-se porque absorve e reconstitui o reflexo que a religião emitia sobre ele. Não se trata de uma simples operação aritmética de subtracção. A «política do homem» faz-se agora, não a prefigurar o céu, não em substituição do céu, nem contra o céu, mas simplesmente sem o céu. Uma experiência que, como se sabe, não tem quaisquer precedentes históricos
Se é verdade que o homem ocidental se tornou «metafisicamente democrata», isto é, consciente de que a ordem que habita é da sua criação e de que se rege por leis que ele próprio fez e mais ninguém, então a invocação de uma terceira pessoa fora do universo dos homens obreiros da ordem que habitam tem de assumir uma carácter clandestino e até insuportável. Insuportável porque, na luta entre a política da autonomia e a política da heteronomia, a primeira é para a segunda a manifestação da insolência e da soberba, e a segunda é para a primeira um despotismo intrusivo e paternalista. (...) A imanência radical da vida colectiva nas sociedades modernas tem esta consequência. «A compreensão temporal de nós mesmos - falo da compreensão espontânea, quotidiana, prática - é real e completamente subtraída à imemorial estruturação religiosa do tempo» [Marcel Gauchet, La religion dans la démocratie, p.30]

Miguel Morgado, O conservadorismo e outros ensaios, Edições 70, 2017, pp.85-86


Um chão comum


No seio de cada universo espiritual que cada comunidade política necessariamente constitui, não se nega a heterogeneidade ou as tensões. Mas, se for o próprio cariz de universo espiritual a ser negado à comunidade política, se não há qualquer bem comum a ser partilhado pelas partes que constituem a comunidade política, então ela ou já não existe ou está prestes a deixar de existir - de forma violenta ou não
E há que reconhecer este limite de integridade, estabilidade e até prosperidade da comunidade política - a sua forma de universo espiritual comum, por mais heterogéneo e complexo que possa ser. Se essa unidade for radicalmente posta em causa, a política tem de enfrentar esse facto e não refugiar-se por detrás de uma teoria do pluralismo dos valores que silencia a resposta política ao problema em toda a sua extensão e gravidade. Mas também significa que cabe à política, dentro dos seus limites próprios, cuidar da conservação dos elementos basilares constitutivos desse universo espiritual.

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, p.45

As revoluções nunca se anunciam


Não foi há muito que se realizaram as eleições em Angola. Houve uma grande unanimidade, entre os comentadores, quanto ao facto de o actual Presidente ser uma mera emanação do anterior, Eduardo dos Santos. Tudo seguiria, inevitavelmente, como dantes. 
Uma entrevista de Rafael Marques ao Expresso, há poucas semanas, despertou-me particular atenção: o jornalista referia que aquilo que João Lourenço estava a dizer era o mesmo que ele, Rafael Marques, tinha reivindicado durante anos. Indo até mais longe. Ainda assim, Marques adoptava, nessa entrevista, a reserva céptica do esperar para ver no teste do algodão: manter-se-iam, nos cargos em que estavam, os descendentes de Eduardo dos Santos? Não seria, entretanto, aniquilado Lourenço? Por ora, da Sonangol à televisão pública angolana, são dados passos que, pelo menos, contrariam o já escrito. As revoluções - será? - nunca se anunciam (e mesmo que nem sempre terminem em bem, como se tem visto).

Humor negro


"O PSD não contabilizava a progressão de uns em detrimento dos outros; não discriminava carreiras; não desconsiderava os professores", disse, esta manhã, no Parlamento, a deputada Nilza de Sena (no dia em que há uma muito significativa greve de docentes). Como que a dizer: com o PSD (dos últimos anos) ninguém (na função pública) teria as carreiras descongeladas (e assim todos estavam em igualdade de circunstâncias). Um momento involuntário de humor. Nem o PSD, nem os professores agradecem.

O melhor comentador do mundo


Pedro Guerra, com dúvidas sobre um lançamento de linha lateral num Alpendorada-Alcabideche, ao minuto 35.44, da quinta pré-pré-eliminatória da taça de Portugal, e como gosta de se preparar para os programas (televisivos em que participa), ligou, como sempre faz, e dentro do elevado sentido de responsabilidade e preparação que o caracterizam, a trinta e dois especialistas do SIS, da CIA, da Mossad e do KGB. Respondeu-lhe quem estava de serviço. Horácio Periquito, a ser verdade o que a Sábado publica, levanta dúvidas à FPF sobre se (este) colabora, exemplarmente, no esclarecimento do abnegado cidadão. 
Claro que isto, a ter ocorrido - Guerra, a esta hora, não se lembra, acha que não, mas amanhã, estamos em crer, lembrar-se-á de ter conhecido, por acaso, Periquito, numa final da taça no Jamor, e acabará, afinal, por concluir, que lhe chegou a perguntar por um lançamento de linha lateral ocorrido ao minuto 35.44, da quinta pré-pré eliminatória da taça de Portugal, entre o Alpendorada e o Alcabideche - só diz respeito a Pedro Guerra, pessoa privada. Os esclarecimentos, por email, de matérias que se passavam no interior da FPF, e eram confidenciais, não visava beneficiar - com um conhecimento restrito e privilegiado - um clube, mas, tão, só tornar mais conhecedor e transformar no melhor comentador desportivo de sempre - como o é - o cidadão Pedro Guerra. Como dizia o avisado Presidente, ainda na semana passada, "ele não percebe nada!". De computadores, claro.

P.S.: Ao mesmo tempo que rasgavam as vestes por acesso ilegal externo aos seus documentos...estavam a ter acesso ilegal aos documentos da FPF.

Os católicos face à política


O que o papa [Bento XVI, na encíclica Deus Caritas Est] não diz, mas que me parece estar implícito no que escreve, pode ser descrito do seguinte modo: para que os católicos e a Igreja possam cumprir o seu papel de interlocutores no espaço público plural das sociedades modernas, é preciso levar a cabo a sua remobilização política. Mobilização política quer dizer participação política, significa participação no espaço público-político comum.
Evidentemente, não se trata aqui de fundar partidos políticos ou movimentos eleitorais, nem sequer de criar ligas católicas dispersas pelos vários partidos existentes. Trata-se, antes, de interromper uma tendência de apatia ou pelo menos de desmobilização dos católicos enquanto cidadãos católicos nas sociedades modernas. Portanto, trata-se de assumir uma responsabilidade pública.
Na verdade, é possível ler as considerações do papa como uma chamada dos católicos à responsabilidade cívica. Até porque a Igreja sempre denunciou a ilusão de que as estruturas políticas estatais pudessem substituir a espiritualidade que preenche realmente de sentido as instituições infra-políticas, assim como inúmeras práticas públicas, semipúblicas e privadas. E tão-pouco a espiritualidade cristã pode ser substituída pelas normas e conteúdos do Iluminismo setecentista que alguns reclamam como única fonte legítima do tecido moral das sociedades modernas. A assunção desta responsabilidade implica que a atitude cristã diante da política nunca poderia ser a do alheamento ou do distanciamento olímpico
A Igreja não pertence ao mundo da política, mas está presente e, no centro, se é lícito dizê-lo, do mundo da política. 
É verdade que a Igreja não é um «agente da sociedade», antes uma «sociedade distinta» e com uma vocação própria. Mas nas questões da justiça e do bem comum, e enquanto «sociedade distinta», a Igreja não está situada fora das fronteiras da política e da discussão pública. De resto, como nota Bento XVI, apoiando-se evidentemente na Cidade de Deus de Santo Agostinho, «[o]s olhos da fé permitem-nos vislumbrar que as cidades celestes e as cidades terrenas se compenetram de forma mútua e estão intrinsecamente ordenadas umas para as outras».

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, pp.144-145

Decência



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Secularização


Miguel Morgado vai ao ponto: ainda que 100% dos membros de uma dada sociedade fosse crente (em Deus), em esta crença sendo (entendida, inclusive pelos próprios, como) puramente privada, então essa crença não estruturaria - nem sequer influenciaria - uma ordem social, um conjunto de regras com as quais vivemos, não permeava a cidade e, portanto, em boa medida, não contrariaria a afirmada - embora simultaneamente objectada com razões também atendíveis - secularização das sociedades. A Igreja, que visa o bem comum, não pode, pois, aceitar, tal privatização da crença (como coisa boa). Nem ratificar, como positiva, uma mera liberdade negativa na sua presença na polis - o Estado não interferir na Igreja. Ou o direito "ao reconhecimento", de uma diferença específica, vista como voz isolada e fragmentária. E, no entanto, a ambiguidade na relação com o Estado, ou o poder temporal: a sua reivindicação de verdade não pode ser imposta, nem excluir uma neutralidade estatal, nem, por outro lado, para um chão comum (para visar uma proposta susceptível de recolher amplo apoio social), ela pode ser meramente coisa privada sem repercussão no espaço público
Hoje, creio, é muito vivida a crença, desse modo, como que desligada da vida - das propostas que se fazem - para a cidade. Revejo-me, no essencial, na equação do público-privado hodierno, na questão da separação em dois do (mesmo) indivíduo (sendo que aqui, com o autor, se aconselha maior complexidade e menor reducionismo do que as fronteiras estanques mais vezes convocadas para o problema). Quer no que respeita a este problema, quer, em boa medida, no que à secularização e à presença da voz crente na cidade diz respeito, as soluções que preconizei na tese que dediquei ao tema, enquadram-se bem nesta teorização de M.Morgado (que li, com redobrado interesse, precisamente por afrontar tópicos que também me haviam merecido entusiasmada investigação).

domingo, 12 de novembro de 2017

Realismo


Por «realismo» entende-se algo tão simples como a abertura à totalidade da realidade.
Assim, enquanto os vários socialismos colocam no centro da problemática política os conflitos e os dilemas  de natureza socioeconómica (a condição opressiva do trabalhador como agente no mercado de trabalho, a desigualdade na repartição dos rendimentos, a dinâmica das estruturas produtivas e por fora), como se todos os restantes problemas que afectam a condição humana e a determinam fossem uma sua decorrência, também os vários liberalismos reincidem na mesma unidimensionalidade ou parcialidade ao focar o essencial do problema do indivíduo com o direito (o exercício concreto dos direitos individuais, a lista dos direitos reconhecidos e protegidos, o compromisso e conflito entre direitos). Socialismos e liberalismos escolhem uma parte da realidade humana e fazem dela a substância da sua problematização. A prática política obriga-os depois a outras considerações, mas só com extrema dificuldade esse recuo penetra no conteúdo da teoria política e social.
Ora, o conservadorismo «realista» supera essa parcialidade, essa unidimensionalidade, e situa a acção humana, os conteúdos espirituais e sociais da existência, assim como a própria razão histórica, numa totalidade referencial em que não existem aspectos da vida superiores no complexo de conteúdos morais e culturais. É um animal simbólico, homo religiosus. É um animal socialis e um animal laborans. E por aí adiante. Daí que a formulação aristotélica continue a ser a mais satisfatória - o homem é um ser político por natureza e que constitui e revela o seu próprio mundo porque possui a faculdade da linguagem. (...)
Para o conservadorismo, não existe uma única forma de onde brotam os infinitos problemas sociais e políticos - nem sequer a «cultura», noção onde frequentemente se refugia algum pensamento conservador para substituir uma parcialidade nociva por uma abstracção multivalente. (...) Para as teorias socialistas e liberais os estados de «excepcionalidade» são interrupções aberrantes de uma condição essencialmente estável. Já o conservadorismo compreende a essencial fragilidade dos assuntos humanos. Assim se dispõe como uma confrontação com a (ir) regularidade das emergências, que portanto devem ser controladas e integradas politicamente, e não ser emissoras de pânicos sociais catastróficos ou causadoras de rupturas constitucionais dramáticas. E a abertura à realidade contempla desde o início todas as possibilidades de interrupção exógena ou endógena da normalidade política. Isto é, estas não são consideradas aberrações que o pensamento deve excluir ou como condições que um futuro radioso poderá pura e simplesmente abolir

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, pp.30-32

O que há que conservar (politicamente)?


Em primeiro lugar, é preciso conservar a capacidade de pensar. Aqui não me refiro apenas ao exercício da racionalidade instrumental, se bem que esta, no seu devido lugar, não deva ser depreciada. Em todo o caso, este tipo de racionalidade está mais bem protegida pelas circunstâncias e estruturas próprias da sociedade moderna (...) A capacidade de pensar vai, no entanto, mais longe do que a simples racionalidade instrumental que dispõe de infinitos «objectos» que vai encontrando e que é capaz de multiplicar. Pensar devolve-nos a nós próprios. O homem e a sua existência são o seu oxigénio. Poderá supor-se que esse oxigénio é inesgotável. Porém, como Montesquieu avisou há já muito tempo, o homem é um ser capaz de se esquecer de si mesmo. Só pensar permite recuperá-lo, reconduzi-lo a si mesmo - recordá-lo de si mesmo. Pensar supõe hábitos do espírito que, como quaisquer hábitos, requerem cultivo e cuidado. Isso é importante porque só esta capacidade nos concede a possibilidade de nos abrirmos à realidade do futuro e aos bens que ela sugere
Trata-se evidentemente de uma banalidade, mas não desprovida de recomendações. Desde logo, impõe uma tarefa conservadora: a de conservar os hábitos do espírito
Em contrapartida, renova o repúdio pela ideologia, pelo gosto da simplificação redutora, pela aversão à ambiguidade do real. Exige ainda cuidados institucionais de criação de espaço para o cultivo desses hábitos e pela contenção das forças que os aniquilam, ou pelo menos os adormecem. A crítica da cultura do entretenimento, da instantaneidade da comunicação social, das hegemonias pensantes, e do endoutrinamento político-estatal não são, assim, reflexos de uma sobranceria elitista. É um exercício constante de protecção - e de conservação
Por outro lado, isto confere uma abertura à novidade histórica que não pode ser recusada. Abertura não dispensa ponderação. Mas também não é compatível com a presunção negativa da novidade. Pensar traduz um desejo pelo mundo. Por um mundo que aparenta ser essencialmente mudança e transformação. E, portanto, frustração desse desejo motriz a negação perpétua e consequente do mundo que muda.
Em segundo lugar, se o que distingue o género humano no reino animal não é a sociedade enquanto tal, mas os meios pelos quais a ordem social é transmitida através das gerações, então é forçoso problematizar não apenas a transmissão da ordem social do passado até ao presente, mas também a sua transmissão para o futuro. Isso significa que é preciso incluir numa filosofia política as mudanças na autoconsciência individual e na consciência comum colectiva no contexto dessa transmissão de «cultura», bem como a preservação dos meios de reprodução cultural. Os meios de reprodução cultural no tempo adquirem, por conseguinte, maior importância do que os conteúdos culturais que são transmitidos. (...)
Nesse âmbito, o conservadorismo do futuro, revendo-se nas tarefas humanas de experiência, descoberta e preservação da Verdade, da Bondade e da Beleza, pode ir muito mais longe e acompanhar a extraordinária frase escrita por Dostoievsky, recordada memoravelmente por Soljenitsin:, «a Beleza salvará o mundo». A velha trindade Verdade, Bondade, Beleza não é resquício de um passado supersticioso, dogmático e opressivo. Trata-se da estrutura básica de orientação dos fins da natureza e nobreza humanas.

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, pp.25-27

Conservadorismo do futuro


Este conservadorismo é do futuro porque olha para a sociedade que deseja que exista. Isto decorre, não de uma cedência ao construtivismo político, mas da circunstância de uma filosofia política conservadora ter de reflectir o facto primordial de que a sociedade é um projecto para si mesma e de que (...) não deixa de se determinar constantemente como projecto. A expressão da comunidade enquanto projecto está no desejo colectivo de ser o que ainda não é. (...) Uma sociedade que é apenas o que já é ou - pior - o que já foi é uma sociedade que perdeu a sua vitalidade.

Miguel Morgado, O conservadorismo do futuro e outros ensaios, Edições 70, 2017, p.21

Conservadorismo


As formas de pensamento a que chamamos «conservadoras» constituíram-se modernamente em contraste e em oposição à deriva revolucionária em França.

Rui Ramos, Prefácio a O conservadorismo do futuro, de Miguel Morgado, Edições 70, 2017, p.10

P.S.: E, acrescentará Miguel Morgado, as surgidas na sequência da Revolução Russa e da Guerra Fria.

Um país em questão

Resultado de imagem para I'M not your negro

Também neste fim de semana, pude, finalmente, ver I am not your negro, de Raoul Peck. Extraordinário documento - baseado no manuscrito inacabado Remember this house, de James Baldwin, lido, na voz-off de Samuel L.Jackson, das representações norte-americanas (mais voluntaristas/perversas, mais inconscientes/mais perversas talvez no que tem de naturalização, impensada/irrefletida, dessas imagens), ao longo de décadas - em particular no cinema, mas ainda na publicidade, ou em programas de tv: uma antologia impressiva - da população negra nos EUA, em narrativa cheia de vivacidade, ritmo, colocando-nos, por um lado, entre 1955 e 1968 - intervalo de tempo em que grandes líderes das comunidades negras, nos EUA, Malcom X, Martin Luther King ou Medgar Evers emergiram, ainda se encontravam na sua juventude, aos vinte e alguns anos, na esfera pública norte-americana e a data em o último deles foi assassinado...à semelhança do que sucedera com os restantes dois referentes - e, por outro, nos traços de semelhança com a actualidade. Os supremacistas brancos, com suas suásticas, o segregacionismo, os negros como tendo uma espécie de condição natural à servidão, as lógicas de combate (com ou sem recurso à violência, com as estratégias a serem discutidas e, porventura a aproximarem-se, mesmo partindo de mundividências diversas) entre as comunidades negras, a elegia da música, do rosto, do modo negro de habitar o mundo, a tentativa, bem intencionada, de passar por cima dessas diferenças de cor de pele (mas a demonstração como tais tentativas pretendiam ignorar esse papel decisivo), o modo como a religião podia ser usurpada para os piores fins ("deus perdoa o homicídio ou o adultério, só não perdoa a integração"), os EUA como tendo criado, justamente, "o negro" e como necessitando de se questionar sobre o porquê de o ter criado, os ganhos de produtividade e crescimento económico - em particular no Sul - conseguidos à custa de trabalho escravo ou mão de obra barata, as forças de segurança como perpetuando uma ordem injusta, os demónios interiores de uma dissonância entre vida pública e vida privada (com esta mergulhada num grande crise de auto-confiança e autoridade), os negros que depois de mais de 450 anos nos EUA finalmente conseguem eleger um Presidente (negro), os EUA indagados até à medula num filme-documentário a guardar.


sábado, 11 de novembro de 2017

O rosto humano da guerra


Cartaz do Filme

Fui à estreia de Marcas de guerra, de Jason Hall. Um filme bastante razoável sobre as sequelas inultrapassáveis da presença de cada singularidade, fenómeno que não se repete na história, num teatro de operações. Seguimos as disruptivas vidas (reais vidas), alvo de um trabalho jornalístico que esteve na base do filme, de um conjunto de soldados norte-americanos que regressaram (a casa) - ou, na verdade, nem por isso - do fogo do Iraque.

P.S.: Lembrei-me, ainda, com um sorriso, da primeira vez de que tenho memória de ter ouvido falar/lido sobre o stress pós-traumático, na leitura londrina de um Público, comprado a uns bons 300 escudos ao câmbio de então, que não faltou ao leque das fidalguias (o 1,5 l diário de Cola, face à imposta dieta de qualquer coisa parecida com comida), nas férias londrinas entre amigos, a meio do Secundário.

DESIGUALDADE (IX)


Nem só de causas benignas se faz a redução da desigualdade - maior educação, aumento da esperança média de vida com demandas sociais que implicam um Estado Social resiliente, forças sociais e políticas que apoiam essa perspectiva; ela socorre-se, por vezes, de causas malignas: guerras, pestes, epidemias. A guerra, por exemplo: exige um maior sacrifício financeiro, lançamento de impostos, tributando mais quem tem (e em caso de sistemas progressivos, com incremento de equidade), diminuindo a desigualdade; a guerra que ceifa vidas, diminui as disponibilidades de mão de obra, com esta a exigir ser melhor remunerada (melhores salários; se bem que não dissociado, este factor, das instituições: em sociedades feudais, mais controladas estas expectativas de subida de salário, em particular no Sul da Europa, ao contrário do Norte); guerra coloca em causa a propriedade - destrói-a - e isso acaba por redundar em sacrifícios para sectores da população mais abastados.
Branko Milanovic, em A desigualdade  no mundo, estabelece, ainda, um claro nexo de causalidade entre a eclosão da Primeira Guerra Mundial e as enormes desigualdades internas, ao nível de rendimentos, em sociedades cujos dirigentes assinaram o deflagrar do conflito bélico.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Da identidade europeia


O Estado tem o monopólio da violência, através da polícia. Mas na cidade de Wuppertal, por exemplo, há uma polícia da sharia (...) Nos meus cinco anos na Universidade de Cornell, trabalhei num projecto chamado Religião numa Europa em Expansão. Argumentámos que a religião estava a desaparecer. Mas com as migrações está a voltar - mas não é o cristianismo, é o islão. Sabe quantos muçulmanos há na Europa? 30 milhões. Em 1950, eram 800 mil e, em 2000, 15 milhões. Em 2050, haverá 60 milhões. Se eles não se tornarem europeus, a Europa, está em perigo. Defendo a europeização do islão. A alternativa é a islamização da Europa. (...)
A Primavera Árabe aconteceu porque as pessoas estavam fartas. Houve uma explosão. Conseguiram depor Mubarak, Kadafi e por aí fora, no entanto não existia oposição democrática para preencher o vácuo. Mas os movimentos islamitas estavam organizados. (...)
Mas os jovens árabes [de terceira geração a viver na Alemanha] vão para a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Procuram uma identidade e a Al-Qaeda e o EI dão-lhe uma, o Estado alemão não.



Bassam Tibi, Os europeus não estão a defender os seus valores, entrevistado por Nuno Tiago Pinto, Sábado,  nº706, 9 a 15 de Novembro de 2017, pp.26-28. O autor é docente Universitário, muçulmano, deu aulas em Harvard, Professor Emérito de Relações Internacionais da Universidade de Göttingen, com vasta obra publicado no âmbito do estudo das religiões.

NÃO HÁ VOLTA A DAR



Jesus Cristo, com as palavras que lhe são atribuídas nos quatro evangelhos, é a figura que mais me interessa. Continuo a achar que, independentemente de ele ter dito aquelas palavras ou não, elas são as coisas mais extraordinárias que foram ditas à face da terra. Por exemplo, quando leio para mim o Novo Testamento, estou num momento maravilhoso que é só meu e que me preenche muito, animicamente, espiritualmente. Apesar de ser um linguista crítico-histórico, não sou um ateu a traduzir a Bíblia. Serei sempre, até ao último segundo da minha vida, um apaixonado por esse judeu chamado Jesus de Nazaré. (...) Eu próprio leio todos os dias um bocadinho do Novo Testamento em grego, para mim. Aí, sem ter de explicar aquilo a ninguém, sem ter de traduzir, é completamente diferente de todos os outros textos. Os Evangelhos têm ainda hoje, em 2017, o potencial para mudar o mundo para radicalmente melhor. São textos que actuam em nós de uma forma extraordinária

(...)

Consegue conceber um mundo sem Deus?

Não, só se não existir nele nenhum ser humano.

Como dizia Voltaire, se Deus não existisse, teria de ser inventado?

Penso que sim. Essa dimensão divina foi e será sempre o grande objecto da intuição humana. Não há volta a dar


Frederico Lourenço, entrevistado por Filipa Melo, Ler nº147, Outono de 2017, pp.26-38

Natureza (biologia) e cultura


Porque será que os seres humanos eliminam periodicamente, pelo menos em parte, os ganhos que fizeram culturalmente? (...) Segundo a perspectiva biológica que delineei, os repetidos fracassos dos esforços culturais não deveriam surpreender. Eis porquê. A base fisiológica e o principal interesse da homeostasia [tendência para o equilíbrio e a conservação de elementos fisiológicos e do metabolismo, através de elementos de regulação] básica é a vida de um organismo individual dentro das suas fronteiras. Dadas essas circunstâncias, a homeostasia básica continua a ser uma questão um tanto ou quanto limitada, concentrada no templo que a subjectividade humana concebeu e erigiu - o eu. A homeostasia pode ser alargada, com mais ou menos esforço, à família e ao pequeno grupo. E pode ser ainda mais alargada para grupos maiores, pela força da nossa vontade civilizacional, o que depende de circunstâncias e de negociações em que os benefícios gerais e o poder estejam bem equilibrados. Contudo, a homeostasia básica, tal como a encontramos nos nossos organismos individuais, não se preocupa espontaneamente com grupos muito vastos, sobretudo grupos heterogéneos, e muito menos com culturas ou civilizações como um todo. Esperar harmonia homeostática espontânea de colectividades grandes e cacofónicas é esperar o improvável. (...)
A diversidade étnica e de identidade cultural, característica fundamental da Humanidade, resulta naturalmente dessa vontade e tende a enriquecer todos os participantes. Todavia, a diversidade contém a semente do conflito. Ela aprofunda as divisões intra e extragrupo, alimenta a hostilidade, e faz com que seja mais difícil chegar a soluções de governação gerais e implementá-las, sobretudo numa era de globalização e de interligação de culturas
É pouco provável que a solução para este problema seja a homogeneização forçada das culturas, algo que, na prática, é inalcançável, além de indesejável. A ideia de que a homogeneidade tornaria as sociedades mais governáveis ignora um facto biológico: os indivíduos que pertencem a um mesmo grupo étnico diferem em termos de afectos e de temperamento. (...) A única solução razoável e, assim esperamos, viável para o problema consiste em enormes esforços civilizacionais através dos quais, graças à educação, as sociedades consigam cooperar no desenvolvimento de requisitos fundamentais para a governação, pese embora as diferenças, sejam grandes ou pequenas. (...) [Há ainda dificuldade em conseguir harmonizar os] conflitos com origem no interior de cada indivíduo, ao choque entre impulsos positivos e afetivos, e impulsos negativos, hetero e autodestrutivos. Nos últimos anos da sua vida, Sigmund Freud viu a bestialidade do nazismo como uma confirmação de que a cultura nunca seria capaz de domar o nefasto desejo de morte que ele acreditava estar presente em cada um de nós. (...) Em 1932, Einstein escreveu a Freud, pedindo conselhos sobre como prevenir a conflagração mortífera que ele via aproximar-se (...) Na sua resposta, Freud descreveu a condição humana com uma clareza impiedosa e lamentou-se a Einstein dizendo-lhe que, tendo em conta as forças que estavam em jogo, não tinha quaisquer conselhos a dar, não tinha como ajudar, não tinha qualquer solução, tinha pena e não mais. Note-se que o principal motivo para o seu pessimismo era a condição internamente imperfeita do ser humano. Não atribuía culpas às culturas, nem a grupos específicos. Apenas culpava os seres humanos.
Ainda hoje, aquilo a que Freud chamou de «desejo de morte» continua a ser um factor importante por trás dos fracassos sociais humanos, embora eu o descrevesse com termos menos misteriosos e poéticos. Segundo penso, esse factor é um componente estrutural da mente cultural humana. Em termos neurobiológicos contemporâneos, o «desejo de morte» de Freud corresponde à activação desregrada de um conjunto específico de emoções negativas, a subsequente perturbação da homeostasia e o caos avassalador que isso provoca nos comportamentos humanos individuais e colectivos. (...)
Diz-se comummente que a activação dessas emoções negativas é um regresso à nossa emotividade animal, mas isso é um insulto desnecessário a muitos animais. Essa avaliação está parcialmente correcta, mas nem de longe capta a natureza mais sombria do problema. Nos seres humanos, a destrutividade da ganância, da fúria e do desprezo, por exemplo, foi responsável por actos de crueldade impensada perpetrada, desde a Pré-História, por seres humanos contra outros seres humanos. Em muitos aspectos assemelha-se à crueldade dos nossos primos símios, famosos por desmembrarem o corpo dos rivais, reais ou supostos, mas por certo aprofundado por certos refinamentos bem humanos. Os chimpanzés nunca crucificaram outros chimpanzés, mas os romanos inventaram a crucificação e crucificaram seres humanos. É preciso invenção criadora humana para conceber novos métodos de tortura e de morte. A raiva e a malícia humana são apoiadas por conhecimentos abundantes, por raciocínio retorcido e pelos poderes desgarrados da tecnologia e da ciência que os seres humanos têm ao seu dispor. (...) Por que motivo os animais não exibiam lutas culturais (...) a resposta é clara: os animais carecem da estrutura intelectual necessária para o fazer. Nós temo-la. (...)
Os homens continuam a demonstrar uma maior propensão para a violência física do que as mulheres, em consonância com os seus papéis sociais ancestrais - a caça e a luta pelo território. As mulheres também podem ser violentas, mas de notar que a maioria dos homens é composta por indivíduos afectuosos e que nem todas as mulheres o são. Claro que sobeja afecto em ambos os lados da divisória. (...) A expressão do temperamento chega até a ser influenciada pelo actual ambiente social e pelo clima. (...) Parece razoável pressupor que o equilíbrio entre a cooperação salutar e a competição destrutiva depende, em grande medida, da contenção civilizacional e da governação justa e democrática, capaz de representar aqueles que estão a ser governados. Por sua vez, a contenção civilizacional depende do conhecimento, do discernimento e, pelo menos, de um pouco de bom senso e sagacidade que advém da educação, do progresso científico e técnico, e dos bons efeitos das tradições humanistas, tanto religiosas como laicas. (...)
A educação, no sentido mais vasto do termo, é o caminho óbvio a seguir. Um projecto educativo a longo prazo que tenha como objectivo criar ambientes saudáveis e socialmente produtivos terá de destacar comportamentos éticos e cívicos e de encorajar as virtudes morais clássicas - honestidade, bondade, empatia e compaixão, gratidão, modéstia. Deverá ainda abordar valores humanos que transcendem a gestão das necessidades imediatas da vida. (...)
A condição humana engloba dois mundos. Um dos mundos é composto pelas regras naturais da regulação da vida, guiadas pelas mãos invisíveis da dor e do prazer. Não temos consciência dessas regras, nem do que lhes está subjacente; estamos apenas conscientes de determinados resultados a que chamamos «dor» ou «prazer». Não tivemos nada a ver com a criação de regras - nem com a existência das poderosas forças da dor e do prazer - e não as podemos modificar, tal como somos incapazes de alterar o movimento das estrelas ou de evitar terramotos (...) Todavia, existe ainda um outro mundo em que contornámos em parte as condições que nos foram impostas, e inventámos meios culturais de gestão da vida para complementar a variedade básica. Daqui resultaram descobertas sobre os nossos próprios universos e sobre aqueles que nos rodeiam, e daí resultou a capacidade extraordinária de acumular conhecimentos, tanto na nossa memória como em arquivos exteriores. A situação neste segundo mundo é diferente. Podemos reflectir sobre o conhecimento, analisá-lo, manipulá-lo de forma inteligente, e inventar toda uma série de respostas às regras da natureza.  (...) Culturas e civilizações são os nomes que damos aos resultados cumulativos desses esforços.
Tem sido tão difícil preencher o fosso que separa a regulação de vida imposta naturalmente e as respostas que vamos inventando que a condição humana se assemelha, frequentemente, a uma tragédia e, talvez menos frequentemente, a uma comédia. A capacidade de inventar soluções é um privilégio imenso, embora propenso a fracassos, e muito oneroso. Podemos chamar a isto «o fardo da liberdade», ou, mais concretamente, «o fardo da consciência». (...) Poderão as sociedades finalmente conseguir introduzir, através de meios seculares ou religiosos, uma forma de altruísmo inteligente e recompensadora que substitua o egocentrismo reinante? (...) Está aqui a grande novidade evolutiva das culturas humanas, a possibilidade de negar a nossa herança genética e exercer o controlo firme sobre o nosso destino, pelo menos temporariamente. (...)
As estratégias que os seres humanos se sentiram motivados a desenvolver para garantir uma boa vida - preceitos morais, religiões, modos de governação, economia, ciência e tecnologia, sistemas filosóficos, e as artes - levaram a ganhos inquestionáveis no bem-estar. Contudo, essas mesmas estratégias também levaram a graus impensáveis de sofrimento, destruição e morte. Pouco admira que, tantas vezes, os seres humanos tenham concluído imprudentemente que tinham chegado a uma era de estabilidade e de razão, em que a injustiça e a violência seriam para sempre banidas. Mas têm acabado sempre por descobrir que os horrores da profunda iniquidade ou da guerra regressam e recrudescem.
Daí a tragédia, tão bem captada pelo teatro ateniense há 25 séculos, quando os problemas que atormentavam os personagens de uma peça não eram causados pelas suas decisões, mas sim por forças caprichosas que lhes eram exteriores, deificadas, incontroláveis e inevitáveis. Édipo mata o pai e não tem como imaginar que Jocasta, a sua nova esposa, é, na verdade, sua mãe. Vê-se obrigado a desempenhar essa acções, comportando-se tão cegamente como o cego em que acaba por se tornar. Ele é obrigado. (...)
[Temos, hoje em dia a] possibilidade de planear uma estratégia mais inteligente do que no passado. Esta abordagem veria como tolice ou mesmo loucura a ideia da razão a dever assumir o controlo, uma ideia que mais não é do que o resíduo dos piores excessos do racionalismo; mas esta abordagem também rejeitaria a noção de que nos devemos limitar a promover as recomendações das emoções - ser gentil, cheio de compaixão, irado ou repugnado - sem que as filtrássemos pelo conhecimento e pela razão. A nova abordagem promoveria a parceria produtiva entre sentimentos e razão, destacando as emoções positivas e suprimindo as negativas. Por fim, rejeitaria a noção das mentes humanas no molde das criações de inteligência artificial.

António Damásio, A estranha ordem das coisas, Temas e Debates, 2017, p.298-314 

Hobbes, Rousseau, ou os dois

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A maioria dos seres humanos consegue, na verdade, ser brutal, selvagem, dissimulada, interesseira, nobre, tola, inocente e adorável. Ninguém consegue ser tudo ao mesmo tempo, embora haja quem tente. As visões sombrias ou soalheiras da Humanidade continuam intactas na erudição contemporânea.

António Damásio, A estranha ordem das coisas, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2017, p.308

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Emprego, em Portugal


Ouvido a João Duque, esta noite, na sicnotícias: nestes dois anos, em Portugal, foram criados cerca de 80 mil postos de trabalho para pessoas com o ensino básico; 87 mil postos de trabalho para pessoas com o Secundário; 6 mil postos de trabalho para pessoas licenciadas. A ideia de empregos muito qualificados e a mensagem que se passa a quem está a estudar não serão as mais esperadas. Mas a realidade é a que é.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Da grande e da pequena política


1.Macron, na entrevista à Der Spiegel (na tradução do Expresso, p.59 da Revista, edição 4/12/2017): “há que voltar a ter receptividade à criação de grandes narrativas. Se quisermos, o pós-modernismo foi a pior coisa que podia ter acontecido à nossa democracia. A ideia de que temos de desconstruir e destruir todas as grandes narrativas não é boa. Desde então, a confiança em tudo e em todos evaporou-se”. Sustenta uma defesa “heróica” da democracia, e questiona: “Por que é que parte da nossa juventude se deixa fascinar pelos extremos – o jiadismo, por exemplo? Por que é que as democracias modernas recusam permitir aos seus cidadãos que sonhem?”. Implicitamente, a pergunta (que surge no contexto da entrevista como retórica), parece ter como resposta a falta de sonho, de ideal (seria por isso que a juventude desertaria para um refúgio aparentemente forte).
Acontece-me ter lido por estes dias o Maritain de Cristianismo e democracia, no qual, precisamente, o filósofo utiliza a expressão “heróica” para se referir à crença (do Evangelho) fundamental para a Democracia ter seiva onde haurir (no desenvolvimento de uma perspectiva de Bergson).
Entre o desprezo pelas grandes visões que no século XX inflamaram tantos, a ponto de uma destruição maciça de vidas humanas – bendito desprezo, dirá Luc Ferry, só morremos por pessoas e já não por ideias, no que poderia ser vista como contraponto de Macron – ter destruído essa “confiança”, e o niilismo que se apodera de tantos (quando nenhum ideal parece sobreviver); quando qualquer visão – há visões nas quais a ideia é a pessoa -, para muitos, perdeu qualquer atractividade (credibilidade), e sabendo-se de interpretações muito restritivas – e essa interpretação é e deve ser disputada – do liberalismo (neutralidade) das democracias o desafio a pensar-se – e em termos globais, sem etnocentrismos -, de facto, o que poderá ser bem para lá de justo continua a erguer-se como problema nada menor dos nossos dias (problema de ordem tanto prático quanto teórico).

2.Ao mesmo tempo que Karen Armstrong, em interessante entrevista ao ElPaís semanal, dizia, há três dias, que ainda não alcançámos, ainda não se encontrou um fundamento racional para os direitos humanos, em A estranha ordem das coisa, por sua vez, António Damásio pensa o inverso: teria sido muito bem-sucedido o empreendimento de inculcar nas pessoas a ideia de um “antepassado universal comum” que justificaria a dignidade da pessoa e a igualdade em dignidade da mesma. Inclino-me mais para a primeira das posições, neste sentido: não se encontrou um fundamento racional suficientemente forte (que realmente me obriga, com o qual me sinta verdadeiramente constrangido) para essa defesa (sendo que, aqui, “racional” é entendido nos mais estritos termos “positivistas”; a razão ampla pode ir além dos mesmos).

3.No jornal – no caso, semanário – mais próximo do PSD, o Sol, José António Saraiva prognosticou uma vitória de Pedro Santana Lopes nas próximas eleições internas do partido ainda liderado por Passos Coelho, enquanto no interior do jornal Sebastião Bugalho zurzia em Rui Rio (o que são alguns sinais sobre para onde pende uma parte do partido com acesso aos media). As duas críticas substantivas de Bugalho a Rio, a meu ver, têm pleno cabimento: a) fazendo uma apresentação da candidatura em tons sociais-democratas, Rio veio agora dizer que se estivesse no lugar de Maria Luís Albuquerque, enquanto titular da pasta das Finanças durante parte do mandato do anterior Executivo, teria feito “o mesmo ou pior” do que aquela (e os esclarecimentos posteriores do candidato, fosse ao Observador, fosse ao Expresso, em nada invalidaram o sentido que se retirou de uma primeira aproximação às suas afirmações), no que, com efeito, se assinala como contradição de termos (entre a aproximação ideológica inicial da candidatura e essa posição nas jornadas parlamentares do PSD; a não ser que se considerem as medidas de Albuquerque como sociais-democratas). Diga-se, aliás, que Pedro Adão e Silva, no Expresso do último Sábado, reclamava para o PS outdoors com esta mesma afirmação de Rio, na campanha das próximas legislativas (ao passo que lembrava afirmações sobre municípios sobreendividados e suspensão de eleições nos mesmos, presidencialização da justiça, mudança de regime…Rio que vá tomando nota dos tópicos a que terá que responder, pelo menos, em saindo vencedor nas internas do PSD, em 2019; por outro lado, é bastante elucidativo todo o texto de Adão e Silva, quer como prognóstico acerca da próxima liderança do PSD, quer, porventura, daquele candidato que mais temerá defrontar num futuro-próximo).
A segunda das críticas, a meu ver igualmente procedente, tem que ver com o “banho de ética” prometido por Rio e a simultânea presença, a seu lado, de alguns dos piores personagens do PSD ao nível de jogadas de bastidores (a imprensa, naturalmente, tem trazido, a esse respeito, fotos de personagens lisboetas desse jaez, mais ou menos conhecidos; mas a questão está longe de se subsumir a personagens lisboetas, e não deixa de ser realmente absurdo que um dos méritos, ou o mérito, de Rio, na vida pública portuguesa, tenha sido o processo de refiliação no PSD, com vista a acabar ou mitigar sindicatos de voto – conhecido, à época, em analogia com outros processos no país, como “gangue do multibanco” – e, agora, tenha a seu lado quem é conhecido, onde é, precisamente, por essas jogadas, pagamentos de quotas em lugar de outros, manipulação de pessoas…sem nunca esquecer que rei morto, rei posto…em dez segundos).
Se as críticas a Rio encontram sustentação – a inabilidade tática, aliás, faz com que Rio seja contestado por querer ser um “António Costa dois”, um defensor de um “bloco central”, um “social-democrata quando a social-democracia está no PS” e, ao mesmo tempo, represente, e suscite críticas, por ser a “continuidade de Maria Luís”, “um segundo contabilista”, “um tecnocrata economicista” -, já a argumentação de Saraiva, relativamente a Santana Lopes, não me parece merecer o mesmo beneplácito: uma promessa (no caso, política), a meu ver, só o é até provar (e, nesse lugar e tempo, ou se cumpre, ou não). Pretender que depois das responsabilidades tidas – nomeadamente, ao mais alto nível como PM -, Santana ainda é uma “promessa” não creio que cole com o que a maioria dos portugueses pensam. De facto, durante uma boa parte da década de 1990, Pedro Santana Lopes assumia um dom juanismo político que empolgava muitos (mesmo os que, no interior do PSD, optavam por preferências mais sisudas, não raramente manifestavam o seu apreço pelo Santana grande agitador dos congressos). Ora, os que apreciavam esse Santana dificilmente estarão agora em condições de apreciar um outro – dito mais maduro, mais “pesado”, mais sisudo. Um dos problemas, com efeito, da candidatura de Santana Lopes é ela parecer mais motivada pelos anti (Rio) do que pelos pró (Santana). Um dos motivos principais pelos quais continuo a pensar que Rui Rio sairá vitorioso.
Por outro lado, a ideia (de Saraiva) de que Santana se apresentará aos portugueses dizendo “fui derrubado por Jorge Sampaio, tenho direito a uma segunda oportunidade” tem dois grandes problemas: i) colocaria o candidato em contradição com a repetida ideia – por si reiteradamente transmitida - de que está “de bem com a vida”, não se candidata para “fazer um ajuste de contas”, hoje “está mais maduro” (e segue uma linha de “descrispação” mais próxima de Marcelo Rebelo de Sousa); ii) concorde-se, ou não, com a decisão então tomada por Jorge Sampaio, entenda-se que foi motivada por melhores ou piores intenções (mais, ou menos obscuras/maquiavélicas), a verdade é que a seguir a tal decisão houve eleições legislativas (e a decisão de Sampaio só seria ratificada se, no país, houvesse uma maioria absoluta contrária à maioria parlamentar dissolvida; e isso sucedeu mesmo).
Finalmente, é a meu ver inaceitável que se considere “provinciana” qualquer personalidade política que não esteja de há muito radicada em Lisboa (numa perspectiva tributária, ela sim, de uma parolice e patologia centralistas). Saraiva chama “provinciano” a Rio, da mesma maneira que Fernando Rosas, por exemplo, o tinha feito na TVI24. É outro dos grandes défices democráticos de que este país padece (que se manifesta nos grandes investimentos, candidaturas, obras, apostas, e outras áreas múltiplas para além da política e da economia).

Em suma, o PSD, estou convencido – pura análise política -, vai considerar escolher um mal menor – nenhuma candidatura entusiasmando, visto de fora. E nessa escolha – o ponto em que a candidatura de Rio tem estado bem na mensagem – estou persuadido que no fim entre a endogamia (de uma amargura passista) e o cálculo do que o país escolherá e votará, a maioria dos militantes do PSD acabará por optar por este último critério.