sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Escolhas totais (em "A peste", de Camus) (II)


Apesar de, sem dúvida, a certa altura e questionado sobre o tema, - "Acredita em Deus, doutor?
A pergunta fora ainda feita naturalmente. Mas desta vez Rieux hesitou.
- Não, mas que quer isso dizer? Estou nas trevas e tento ver claro. Há muito que deixei de achar isto original" (p.112)" - se confessar ateu, num outro passo o médico dr.Rieux diz que ou bem que se dedicava a tratar vidas (a salvar pessoas), ou bem que se dedicava a saber (no fundo, a investigar as "questões últimas"). Uma espécie de reconhecimento agnóstico (talvez, já, mesmo, entrevisto, implicitamente, na resposta anterior - "mas que quer isso dizer?"), mas não sem uma certa admiração pelo comportamento próprio: "- Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E, contudo, também eu me afasto, sem que possa saber porquê - deixou-se cair de novo sobre a almofada. - É um facto, aí está. Registemo-lo e aceitemos as suas consequências.
- Que consequências? - perguntou Rambert.
- Ah! - disse Rieux. - Não se pode ao mesmo tempo, curar e saber. Curemos, pois, o mais depressa possível. É o mais urgente" (p.179).
Um período (textual) que me fez lembrar, muito e duplamente, o Cardeal Carlo Maria Martini: se, aqui, Rieux manifesta uma certa estupefacção pelo seu próprio cumprimento do dever (uma espécie de obediência às "leis eternas" de que falava Antígona), o homem de Igreja perguntava a Umberto Eco (Em que crê quem não crê?): há muitos "crentes" que têm um comportamento péssimo, "não crentes" que têm um comportamento exemplar, mas em que fundamenta você a obrigação de dar a vida pelo outro, sem conhecer um Deus pessoal? (ao que Eco respondeu que queria ficar sempre com o exemplo de Jesus, porque só o facto de a humanidade se ter proposto o Cristo como modelo significava que esta espécie bárbara e terrível, estava, com tal gesto/desejo, redimida). E, num livro de perguntas colocadas pelos jovens: [qual o sentido da vida?] Estive demasiado ocupado a trabalhar [no seu múnus, a ajudar os outros, a curar, a salvar] para poder dedicar-me à questão.

P.S.: Rieux realmente afasta-se do que/de quem ama, na medida em que a mulher tinha saído de Orão em tratamento e, entretanto, com a peste a isolar a cidade, o médico e esposa estavam, também, separados. A questão da obrigação de dar a vida também se coloca neste romance, porque, em realidade, ao tratar aqueles que padeciam da peste contagiosa, o médico esteve sempre a arriscar (-se pelos outros).

Escolhas totais (em "A peste", de Camus)


Uma das mais interessantes questões/dilemas colocados pelo extraordinário A peste, de Albert Camus (reeditado, recentemente, pela Livros do Brasil, com tradução de Ersílio Cardoso), é-nos apresentada através de Rambert, o jornalista que aportara a Orão e que se vira, depois, apanhado na prisão que a cidade passou a constituir a partir do momento em que a epidemia tomou conta da urbe e esta foi encerrada (para que não viessem a ocorrer contaminações extra-muros). Tendo deixado mulher, o amor da vida, fora daquelas muralhas; não sendo um natural de Orão e não estando por ali há demasiado tempo, a vontade, manifestada por Rambert, de fugir, a convicção de se evadir dali, mais do que presente, fosse necessário envidar os meios que fosse (uma saída clandestina e ilegal). Conquanto os preparativos se demorassem por semanas e as tentativas de encontrar cúmplices - desde logo, uma declaração que o médico dr.Rieux não passou por escrúpulo profissional - prolongasse a estadia, o certo é que, amadurecida e finalizada, a decisão não foi pela "felicidade", pelo "egoísmo do amor" (espantoso paradoxo formulado por Camus, na medida em que o amor é saída de si para o outro, mas neste caso, a recusa dos demais para se concentrar no amor de uma vida poderia ser interpretado à guisa de egoísmo), mas pela solidariedade com uma comunidade. Ou, se se preferir, não se é feliz, segundo Rambert, vendo todos os outros infelizes: "Rambert disse que tinha reflectido, que continuava a acreditar no que acreditava, mas, se partisse, teria vergonha. Isso perturbaria o seu amor por aquela que tinha deixado. Mas Rieux endireitou-se e declarou, com uma voz firme, que aquilo era estúpido e que não era vergonha preferir a felicidade.
- Sim - disse Rambert -, mas pode haver vergonha em ser feliz sozinho.
Tarrou, que nada dissera até então, observou, sem voltar a cabeça, que se Rambert queria compartilhar a desgraça dos homens, nunca mais teria tempo para ser feliz. Era preciso escolher.
- Não é isso - disse Rambert. - Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver convosco. Mas agora, que vi o que vi, sei que sou daqui, quer queira quer não. A história diz respeito a todos nós. - Ninguém respondeu e Rambert pareceu impacientar-se. - Os senhores sabem-no bem, aliás. Quando não, que fariam neste hospital? Acaso fizeram a vossa escolha e renunciaram à felicidade?" (p.179)
Na sabedoria do dr.Rieux, o dilema - que o binómio felicidade vs solidariedade talvez coloque, no caso, de modo demasiado simplista - começa por ser tratado a uma luz deontológica: não aceita passar um atestado médico para que Rambert pudesse sair de modo lícito de Orão. Mas toda a sua atitude está isenta de soberba, de moralismo, de lições: ele é informado por Rambert dos preparativos deste para a fuga, compreende-os, aceita-os, convive com o jornalista e parece-lhe perfeitamente natural, ou muito compreensível do ponto de vista humano, a "opção pela felicidade" (chegando, nesse esforço de empatia pela posição do outro, por repreendê-lo por não seguir esse caminho: "aquilo era estúpido e não era vergonha preferir a felicidade"). Confrontados com uma situação de uma epidemia (uma guerra, um avanço totalitário), e, ademais, com a família, e o amor maior de uma vida, longe, seria, ou não, legítimo evadir-nos? Ir em busca do amor (que também sofre por nós) seria, propriamente, e apenas, "egoísmo"? Aqui, a fórmula é notável na sua ambiguidade e complexidade: "o egoísmo do amor". Em todo o caso, poderíamos pensar que a irmandade na desgraça seria uma opção mais elevada, uma resposta maior. Mas sem atirarmos pedras, ou julgarmos (severamente) quem assim não decidisse. O ponto, talvez, ainda possa ser outro: quem é, quem compõe o "demos"? E a resposta seria: aqueles que compartilham "a desgraça dos homens" da cidade (mesmo que aparentemente estrangeiros). Peguy perguntava o que Deus nos dirá se chegarmos ao Paraíso sem os outros (?) - ninguém se salva sem os outros serem salvos. E este apelo de partilhar a história, e o discernimento de que um prazer que não pode ser partilhado não é um prazer, pareceram sobrelevar em Rambert.

A Alemanha que vai a votos (II)


Ontem, no Linha da Frente, na RTP1, o outro lado da Alemanha. O reverso da medalha, uma reportagem de António Louçã, com narração de António Esteves.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Eleições locais


1.Não sei se hei-de rir, ou chorar, ao ver o vídeo, com comunicado em português de quinta categoria, de um presidente de uma Associação Académica, ladeado por colegas de pé e em pose fúnebre. Depois de anos a fio sem uma palavra para com o país, nenhum protesto ou manifestação, qualquer forma de solidariedade quando milhões sofreram a bom sofrer medidas e medidas que a tantos desesperaram, sendo tais estudantes universitários, como alguém escreveu, "os grandes ausentes" - como nem em ditadura tinha sucedido neste país -, aparecem agora, por causa de umas "barraquinhas", em "marcha silenciosa" (!) pela cidade. Eles não entendem o ridículo, nem ninguém lhes explica - mas, mais do que isso, as suas acções e omissões e seu significado ético. Se lessem Tony Judt tinham percebido como quando estudantes, mesmo os que se consideravam "radicais", como ele escreveu, no pós-1960, se preocupavam mais com "as horas do fecho dos portões das universidades do que com as práticas laborais fabris" (p.94, Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos), quando o umbigo prevaleceu sobre uma visão sobre o "bem comum" da sociedade, em que cada grupo apenas quer saber de si (ou da sua identidade), então a sociedade caminhou para a "fragmentação", "o relativismo ético" prevaleceu e o sucesso de um modelo de Estado Providência pelo qual lutaram os ascendentes ficava em causa pela "privatização" de tudo e o "individualismo" da descendência.
Não me admirou, ainda, ver políticos formados na mesmíssima escola quererem cavalgar uma onda, incapazes, naturalmente, de contrariarem esse eleitorado potencial, procurando, inversamente, como lhes competia, formar e apresentar uma plataforma política que fosse capaz de reivindicar o cimento social onde ficaram os resíduos de reclamações vãs, pequeninas, tão parciais.

2.Olho para programas eleitorais e constato esquizofrenias políticas: de dois em dois anos, alternam entre o reclamar, a nível local, apoios sociais universais (nem sequer tendencialmente, que é para não haver dúvidas) e, ao nível central, a denúncia de um Estado Social que "prende", "aniquila", "desresponsabiliza" do nascimento à cova. Em que ficamos? Obras públicas são muito más, num ano, mas, passados dois, pede-se infra-estruturas que ultrapassam o delírio. Nada disto perturba os espíritos: nem de quem formula tais propostas e por elas se apresenta, nem de um eleitorado que não está para tais complicações.

3.Mudar horários na mobilidade (pública) urbana, tornando-os mais exíguos, mais espaçados, oferecendo piores condições a uma população que muito havia ganho com essa oferta é errado e seria um tiro no pé se houvesse quem estivesse preocupado com outras coisas que não as "barraquinhas", ou, mais propriamente, as "barracadas". De que vale estar-se ufano por se aligeirar, um pouco, a factura com a mobilidade se o preço para os cidadãos é terem, no fundo, um pior, claramente pior, serviço? Isto impede alguém de reivindicar o campeonato da defesa dos serviços sociais, ou o representante da respectiva junta de prosseguir com os bombos, como se nada fosse?

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Antigamente é que era bom

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Segue mais um excerto de Luc Ferry, desta vez sobre a escola e os alunos de hoje face aos de um passado mais distante, nomeadamente o período da III República em França (1870-1940). Para dizer que se compararmos os melhores alunos de então com os um último quartil de hoje, realmente aqueles eram melhores, mas que se compararmos os melhores de então com os de hoje, provavelmente, embora, impossível de provar,os de agora sabem mais em diferentes àreas (e em "abertura de espírito"); em todo o caso, o nível médio universitário de hoje será menos bom do que então, mas os alunos excelentes aumentaram em grande número; e se esse nível médio era melhor tal devia-se a uma elitização do ensino, com os filhos das "boas famílias" a serem hegemónicos na escola. Em suma, Ferry coloca em causa e desmente o "antigamente é que era bom", mas também refere que tendo a escola proporcionado a hipótese de mobilidade social ela por vezes não sucede porque faltam os esforços para chegar e penetrar o conhecimento, falta que atribui "à problemática desconstrução dos valores e das autoridades tradicionais" (sendo que, entre essa desconstrução, assinala a ideia de Levi Strauss, continuada por Bordieu, da alfabetização como modo de controlo sobre o indivíduo pelo poder: "porque é preciso que todos saibam ler e escrever para que este último possa dizer: ninguém pode ignorar a lei", pelo que assim a escrita, e a sua correcta aprendizagem, seria opressiva; ou ainda a tentativa, recente, em França de acabar com as notas escolares, por estas serem violentas, substituindo-as por cores - como se as pessoas não percebessem a diferença entre o verde, o laranja e o vermelho e se pudesse evitar a desigual avaliação de um desempenho; ou, ainda, a ideia de que a civilidade e polidez eram uma "imposição de classe" com avaliadores de candidatos a professores a valorizarem mais os que, enquanto estagiários, condescendiam com erros ortográficos ou gramática (dos seus alunos), pois que esta seria "fascista", dando, assim, com tal postura, origem a duvidosas inovações pedagógicas).



Será preciso portanto regressar aos bons velhos tempos, à boa velha escola da III República, com (...) as suas batas cinzentas, as suas boas notas e as suas orelhas de burro, as suas canetas de aparo e os seus tinteiros de porcelana cheios de tinta roxa? Deveremos a todo o custo reintroduzir no programa a edificante história do bom Lavisse, bem como o método silábico e as reguadas nos dedos? Mesmo sendo um pouco brutal, eu diria que a idealização da III República é absurda. Ela testemunha apenas uma ignorância crassa das realidades do passado.
Eis porquê: 
Para aqueles que se comprazem nesta mitologia falaciosa, começarei por observar que, sem incivilidades na escola, a criminalidade geral era então muitíssimo superior aquela que existe nos nossos dias, a expectativa de vida incrivelmente baixa (cerca de quarenta anos), a miséria omnipresente nas cidades, o analfabetismo a regra nos campos para 90% das raparigas, o produtivismo devastador, o nacionalismo belicoso, o cientismo ateu de um dogmatismo insuportável e o racismo colonial portador das piores catástrofes. (...) Dir-me-ão que talvez fosse verdade com o racismo, as guerras coloniais e nacionalistas que se preparam na época da III República, mas que, no respeitante à escola, o nível era ainda assim muito superior ao de hoje.
Na verdade, não, e trata-se, mais uma vez, de uma ideia recebida fora de qualquer avaliação minimamente séria da realidade dos factos. Comecemos, portanto, contrariando o célebre adágio de Rousseau, para não os rejeitar a todos de uma penada. Em primeiro lugar, deve lembrar-se que, no início da III República, 90% das raparigas e 75% dos rapazes eram analfabetos. O bacharelato, criado a 17 de Março de 1808, não conta, na sua primeira sessão, com mais de 31 laureados! Em 2008, dois séculos depois, há 500 000!
Ora, ao longo desse século XIX tão idealizado hoje pelos nossos «republicanos», o número anual de bacharéis permanece estável, nunca ultrapassando os 10000 laureados, e isso até 1920. É somente desde os anos de 1920 que esse número aumenta 1% a 2% num grupo etário! Continuemos a olhar para os números: em 1950, 30000 laureados (5%); em 1960, 60000 laureados (11%); em 1968, 170 000 (20%); e 500000 em 2008.
O mínimo que se pode dizer é que durante a III República a democratização do ensino nunca aconteceu, o que simplificava consideravelmente as coisas no que respeita ao nível escolar, sendo apenas escolarizados aqueles que pelas suas famílias...não necessitavam disso ou, pelo menos, não tanto quanto os filhos das classes populares
Já consigo ouvir a objecção; ela é ritual, está regulada como uma partitura musical: claro, democratizou-se o bacharelato no século XX, mas, justamente, o nível caiu a pique. Isso é sem dúvida exacto se compararmos o quingentésimo milésimo laureado de hoje ao décimo milésimo de 1920, o qual tinha decerto um nível de cultura e de ortografia muito superior.  Mas se tomarmos os 10000 melhores de hoje, ou mesmo os 50000 melhores, estou disposto a apostar que eles não têm nada a invejar aos dos anos de 1920, que eles são decerto muito superiores em ciência, provavelmente também em história, em letras e em abertura de espírito. É impossível, claro, verificar ou destruir a hipótese, mas o que é incontestável é que ela é conhecida para as raparigas. Porque, mais uma vez, em vez de idealizarmos o passado, olhemos para os factos: a primeira rapariga a obter o bacharelato em França - o nome dela é Julie Daubier - só consegue tal façanha em 1861! E com razão, porque, na verdade, até então o exame está reservado aos rapazes, sendo a escolarização das raparigas considerada inútil, ou mesmo prejudicial, como aliás o direito de voto para as mulheres - o que só por si já deveria proibir a idealização deste período.
Além disso, é só em 1920 que elas virão a receber um ensino secundário idêntico ao dos rapazes, embora não no domínio tecnológico, em que a aprendizagem da costura e da culinária continuará a ser regra até ao Maio de 68! Na universidade, a escolarização é marcada por um elitismo que não tem nada de republicano: 50000 alunos em 1900, e apenas 135000 ainda em 1950, contra 1500000 em 2013. E, também aí, se o nível médio é porventura menos bom que no passado, isso não é obviamente verdadeiro para a proporção de estudantes excelentes que aumentou muito em relação ao século XIX.

Luc Ferry, filósofo e ex-ministro da Educação francês, Sete lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017, pp.216-223

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A Alemanha que vai a votos



*Ana Carbajosa aponta para um grande centro ideológico na sociedade alemã (80% dos alemães dizem-se do centro, muito mais do que sucede em Espanha ou França), na qual, afora algumas minorias, a grande maioria da população estaria de acordo em matérias como a política europeia, a economia, o meio ambiente, os direitos civis, o papel da religião, sendo que os próprios slogans refletem este estado de coisas (para além do que se viu no debate entre Merkel e Schulz, no qual "as diferenças foram micro" e a cada um dos candidatos "só faltou abanar a cabeça enquanto o outro falava"; isto, também, por razões históricas, nomeadamente a experiência do entrincheiramento partidário na República de Weimar a dar passo ao nazismo; uma sondagem da Forsa indica que 75% dos alemães estão contentes com a sua situação financeira, enquanto 59% entendem que o país vai na boa direcção, contrastando com uma média europeia de 36%): aqui.

*Wolfgang Munchau, no DN, entende que o SPD não foi capaz de pensar a globalização e assim que os alemães desacelerem nos seus "campeões nacionais" não haverá estratégia para o dia seguinte. Se os sociais-democratas aceitaram as "linhas neoliberais" do défice e da dívida "desde 1990" não apresentam alternativa, embora o colunista do FT também considere que na Alemanha não resultaria uma viragem pura e dura à esquerda como a de Corbyn, no Reino Unido. Mas faltou uma reflexão de fundo sobre o futuro europeu, com mais solidariedade, com Schulz a deixar todo o peso (e/ou brilho) nas costas de JunckerAqui.

*Clara Ervedosa, no Público, liga ainda a grande erosão eleitoral do SPD ao conjunto de reformas do tempo de Schroeder que entende terem debilitado o trabalho, gerado precariedade, colocado em causa a coesão social e a classe média, promovido a desigualdade (40% dos salários mais baixos são inferiores aos de 1995). Sem o "pai" Estado, fica a segurança simbólica da Mutti MerkelAqui.

*Lluis Bassets alude ao prestígio global de Merkel, que ultrapassará Adenauer e igualará Kohl no número de anos à frente do Governo, caso vença as eleições de dia 24, elenca possíveis coligações, mas refere também a falta de infra-estruturas (pelo medo do endividamento), a erosão das grandes marcas alemãs, uma demografia que mostra uma população muito envelhecida. Aqui.

sábado, 16 de setembro de 2017

O problema do livre-arbítrio, segundo Luc Ferry


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Reforça-se: para o filósofo Luc Ferry, a felicidade tem um carácter antinómico, isto é, o que nos faz felizes é também responsável pelos momentos de infelicidade. Reparemos na liberdade: como poderíamos ser felizes na servidão? Mas, sendo a liberdade a opção de escolha entre diferentes hipóteses, muitas vezes verdadeira e terrivelmente dilemáticas, estar perante essa decisão é, em si mesmo, causa de infelicidade. Neste âmbito, Ferry começa por colocar o binómio felicidade/liberdade como pólos alternativos: prefiro ser feliz, mesmo que à custa da liberdade (não é que esta última não seja relevante, mas na ordem dos valores, podemos, eventualmente, concebê-la num plano secundário), ou prefiro ser livre, ainda que à custa da felicidade? Entre os autores que se situariam na primeira das opções, de acordo com este pensador, estariam, de modo mais ou menos controverso segundo interpretações diversas - e penso em especial nos campos em que Ferry coloca Hans Jonas ou Rousseau - Hobbes, Marx, a ecologia política - é citado Hans Jonas); entre os que se filiariam na segunda das opções, estariam Rousseau, Kant, Tocqueville.
Em nome da felicidade (Hobbes), da sabedoria (Espinosa) ou da serenidade (Nietzsche) fomos tendo, inclusive, a pura e simples negação da existência da liberdade (livre-arbítrio). Ferry concede: "a liberdade e a responsabilidade são fardos, factores incontestáveis de perturbação, que nos impedem de andar à roda [dançar]". E isto porquê? "Desde que eu esteja convencido de que o mundo poderia ser diferente do que é, que eu poderia ter agido de forma diferente no passado ou que deveria corrigir o tiro no futuro, então é certo que a perturbação se instala na minha vida. Digamos as coisas francamente: o sentimento da liberdade, a convicção de que existem possíveis, de que o curso do mundo poderia ser outro, pode deixar-nos acordados durante a noite, estragar-nos o sono" (p.147). O facto de a liberdade poder ser perturbadora é motivo suficiente para a considerarmos inexistente? "Será isso uma razão para negar a nossa liberdade? Duvido, e, sem a menor hesitação, se eu tiver de escolher entre a felicidade e a liberdade, opto, seja qual for o custo, pela segunda, sem entrar sequer no debate metafísico sobre o seu carácter ilusório ou não, pois o debate que desde sempre opõe o kantismo e o espinosismo parece-me impossível de decidir, «infalsificável», como dirá Popper. Pelo que estou convencido de que a única categoria filosófica que nos permite pensar de maneira adequada as relações da liberdade e da felicidade é a do trágico no sentido que os gregos tinham dado a este termo. Porque o trágico designa em primeiro lugar os dilaceramentos do mundo engendrados pelas nossas escolhas livres e resolutas, dilaceramentos que, decerto, arruínam a vida de quem os vive, mas são inseparáveis daquela liberdade sem a qual eles já não se considerariam mais como seres humanos dignos desse nome - pelo que o exercício do seu livre-arbítrio soberano tem primazia sobre a preocupação com o seu bem-estar" (pp.147-148)

Luc Ferry, Sete lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017

O entusiasmo de aprender

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Porquê o entusiasmo com o conhecimento, com o aprender, com esse processo (aparentemente doloroso) de chegar a adquirir conhecimentos?

a) para Platão: porque regressamos - temos o sentimento de regressar - a casa. Adquirimos o conhecimento (verdade) no "céu do mundo inteligível"; esquecemos como o nascimento; aprender é, pois, recordar, anamnese, voltar a saber o que sabíamos; plenitude (em casa).

b) para Kant: quem tudo conhece é Deus, um sábio ideal; no processo de aquisição de conhecimentos, sentimo-nos, pois, a participar dessa experiência de tipo divino, junção da matéria e do espírito, do sensível e do inteligível; entendimento divino. Onde estão as verdades? No "entendimento divino". "Quando faço uma descoberta, quando aprendo algo importante, quando opero um progresso real nos meus conhecimentos, mesmo se for ateu, não posso deixar de ser tomado pelo sentimento de que me aproximo do divino, de que participo de alguma maneira do saber ideal, que seria o de um Deus ou de um sábio perfeito". "O processo de aquisição dos conhecimentos é, no sentido etimológico da palavra, «entusiasmante»: ele faz-nos entrar na esfera do divino (en theos)".

(pp.190-194)

[Então, se é assim, se há entusiasmo em adquirir conhecimentos, porque é que temos a sensação de que hoje novas gerações não estão entusiasmadas em os prosseguir, em chegar até eles, em participar nesse processo, com a sua penosidade, com as horas de estudo, mas a promessa da alegria da descoberta? Segundo Luc Ferry, um conjunto de imposturas pedagógicas, nomeadamente a ideia do conhecimento auto-construído pelas crianças como se fossem uma tábula rasa a criarem (-se) ex nihilo, a deslocação da noção da educação como continuidade na transmissão de uma herança de conhecimentos e competências (p.200), a perda da gramática, da civilidade, das boas maneiras (como se fossem uma imposição de classe), a inovação capitalista associada a uma "desconstrução muito problemática dos valores e das autoridades tradicionais" (p.225) são causas apontadas para muitos dos casos em que se não nota esse querer conhecer, sendo que o ex-ministro da educação francês não defende um regresso ao passado, mas deixa claro que medidas sublinhava da sua passagem como membro do Executivo: luta contra a incivilidade, reforço da autoridade dos professores, etc]

a partir de Luc Ferry7 lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Ainda a crise vista do cinema


A crise económica que recentemente afectou o país deixou marcas profundas na sociedade portuguesa. Não se tratou apenas de um período de austeridade esmagadora, com uma grande depressão que empobreceu quase todos levando casas e empregos. Foi uma crise com graves sequelas morais, emocionais e psicológicas, que se repercute ainda nos nossos dias. O ambiente durante o período de auxílio financeiro da troika era de tal forma devastador que não sobravam penas para escrever os sucessivos episódios dramáticos, muitas vezes roçando a tragédia, de cada família
Alguns cineastas portugueses sentiram a urgência de retratar aquele período, para memória presente e futura, até porque, além do mais, como se sabe desde a Antiguidade Clássica, as tragédias albergam um manancial de histórias. Contudo, não deixa de ser notável que a crise económica tenha despoletado tantos filmes, sabendo que outros períodos marcantes da história recente de Portugal (...) tenham sido objecto de relativamente poucas obras ao longo dos anos.

Manuel Halpern, As pequenas histórias da grande crise, JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.18

Uma espécie de razia


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Por isso, arrendámos um apartamento na Póvoa de Santa Iria. Estive sozinho três, quatro meses, e depois esteve lá a equipa toda. Ia escrevendo enquanto fazíamos o casting. E há medida que fazíamos o casting também nos apropriávamos das histórias que nos contavam. Foi um processo de formação de ideia. Apercebemo-nos de uma gravidade a todos os níveis: pessoal a divorciar-se, a matar-se...Todo o tipo de dramas. (...) Sim, [a crise provocou sequelas] aos níveis psicológico, físico, emocional, afectivo...É muito mais do que o encerramento de uma fábrica. Havia ali uma espécie de razia. É um sentimento de impotência e humilhação, comum a toda a sociedade portuguesa. Quisemos trabalhar sobre essa impotência, sobre a escuridão. E procurar luzes para sair dali. Sendo que as narrativas ideológicas do século XX não são operacionais para a realidade deste século. (...) É essa a questão do filme: o que fazer com esta espada? (...) Algumas das cenas vêm diretamente de episódios relatados. Como é o caso dos valores de indemnização escritos na casa de banho, com uma das propostas muito desigual. Aconteceu mesmo, fez parte de uma estratégia de uma administração para dividir os trabalhadores (...) O filme é dominado por aquele momento. Mas fala de coisas que extravasam Portugal. A questão do fim do trabalho vai tornar-se central e falar-se-á nos próximos anos.

Pedro Pinho, realizador do filme Fábrica do Nada, também com a crise como pano de fundo, em entrevista a Manuel Halpern, JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, pp.16-17

Os afectos destruídos que não se mudam por decreto


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A angústia é algo individual e paralisante, causa depressão que é a coisa menos reactiva que há. Acho que quando houve aquela manifestação gigante em 2012, a primeira do Que se lixe, as pessoas sentiam-se todas no mesmo barco, depois começaram a ver que não era bem assim, e que uns iam ficando pior que outros. Veio o medo de ficar tão mal como os que já estavam mal e as pessoas foram-se isolando. Não é como quando acontece uma catástrofe natural ou uma guerra, em que todos sofrem por igual. Aqui muitos desempregados iam ficando com vergonha da sua situação, primeiro perante os de fora, e depois mesmo perante os elementos da família. Em muitas famílias instalou-se um silêncio novo, um problema diferente dos problemas que as famílias já conheciam. Claro que nem todas as famílias reagiram assim, felizmente, mas o que me interessou mais foi esse silêncio (...) E sim, penso que quando chegamos à angústia e à vergonha por termos perdido o nosso trabalho, por não termos dinheiro para honrar os nossos compromissos, há o grande risco de acharmos que a culpa é só nossa, perdemos a energia para sequer tentar identificar o que nos levou aquela situação. (...)
Muitas famílias foram talvez irremediavelmente destruídas. As relações entre muitas das pessoas mudaram. Filhos e pais, mulheres e maridos e vice-versa. Mesmo com melhores políticas a nível nacional, isso não vem com varinha mágica, os afectos não se alteram por ordem governamental. (...)
Acho que o filme acaba em suspensão, em interrogação. Talvez que por cordões invisíveis, cada um esteja ainda a cuidar do outro. Todos são humanos e estão confusos, o que é normal naquelas circunstâncias. Penso que tem sempre que haver esperança, mesmo quando não a vemos, ela está sempre escondida em algum lugar, e às vezes um quase nada, faz uma diferença enorme. (...) Mas em relação a Portugal preocupa-me a ideia de que tudo vai já bem. Há muita gente que ficou para trás, e não se pode esquecer isso

Teresa Villaverde, realizadora do filme Colo, agora a estrear nas nossas salas de cinema, com o pano de fundo da crise, em Portugal, em entrevista a Manuel Halpern, JL nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, pp.14-15.

Guia para a noite eleitoral (de Vila Real)


Revendo os gráficos das últimas duas eleições autárquicas no concelho de Vila Real, como intróito para a avaliação de 1 de Outubro:

2013: votaram 30 mil pessoas (60% dos inscritos nos cadernos eleitorais)

*Diferença de 541 votos entre PS e PSD (13467 vs 12926 votos; 44% vs 42,23%)
*PS ganha mais de 2500 votos face a 4 anos antes
*PSD perde 2900 votos face às autárquicas 2009
*Possível (muito provável) transferência de votos do PSD para o PS
*O CDS perdeu 301 votos em 2013 face a 2009 (1482 votos; 4,84%)
*BE desce 297 votos, cerca de 1/3, em 4 anos (612 votos; 2%)
*O PCP perde 46 votos em 4 anos (730 votos; 2,39%)
*Todos os partidos, portanto, em 2013, perdem votos, na eleição para a Câmara Municipal, com excepção do PS
*Há mais votos brancos que votos no PCP e BE
*Há mais votos nulos que no BE
*Estes dois últimos dados são bastante curiosos e relevantes do ponto de vista cultural/sociológico
*A abstenção aumentou cerca de 3% em 4 anos

*Pode especular-se, não sem razoabilidade, creio, que num contexto de forte bipolarização, no concelho, além de transferência direta de votos do PSD para o PS, este último conseguiu captar votos que os restantes partidos perderam, sendo que os restantes votos terão ido para (engrossar) a abstenção

P.S: Nos debates pré-eleitorais fiquei a saber que 50 contribuintes que pagam IMI pagam 18% da receita deste imposto apurada no concelho e que, a crer no que disseram os candidatos dos dois partidos com maior implantação no concelho, o famigerado Hotel do Parque irá mesmo ser intervencionado (mesmo que para ser demolido em parte, pelo menos, em uma das soluções apresentadas) nos próximos quatro anos.

A Escola e a nação

(...)

4.Muitos, ainda não compreenderam a escola. Repetem que a educação não traz o desenvolvimento. Sempre pensei que o assunto havia sido encerrado por Ortega y Gasset na sua célebre conferência de 1930: "Quando uma nação é grande, também é boa a sua escola. Não há nação grande se a sua escola não for boa. Mas o mesmo deve dizer-se da sua religião, da sua política, da sua economia e de mil coisas mais. Se um povo é politicamente vil, nada se pode esperar da escola mais perfeita. A escola, como instituição normal de um país, depende muito mais de um ambiente público em que se integra do que do ambiente pedagógico artificialmente produzido dentro dos seus muros". Mas não. De tempos a tempos, temos de ouvir a ignorância de quem não entende que a escola é um lugar de humanidade, isto é, da arte e da ciência que forma os seres humanos. Não sendo uma condição suficiente, a escola é uma condição necessária do desenvolvimento.

5.Ler livros difíceis dá muito trabalho. A música dá muito trabalho. A matemática, também. Mas é nessa "dificuldade" que está a chave da educação. Não é fácil educar num tempo de gestos superficiais, de palavras irresponsáveis. Mas é preciso. Só se educa pelo exemplo. É por isso que os bons professores são tão necessários. Nada os substitui. Na educação, nada substitui a relação humana. "O meu professor me ensina para quando eu ganhar meu dinheiro eu ir morar bem longe do tiro com a minha mãe", escreve um aluno de oito anos do Rio. Não há nada mais importante do que adquirir na escola a possibilidade de ir "morar" num outro lugar.

6. 20 de Junho de 2017. O professor Roberto Ferreira é homenageado na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. No início da sessão, há um estampido na ligação do microfone. Uma criança ao meu lado assusta-se: "Ui!, outro tiro". A rede municipal tem mais de 1500 escolas. No decurso do último ano, houve apenas sete dias em que todas as escolas estiveram abertas. Nos outros dias, houve sempre escolas fechadas por causa da violência. "É muita guerra que eu vejo mesmo", diz uma criança. A violência tornou-se a regra. E quando a violência se torna a regra, deixa de haver educação e desenvolvimento.

 (...)
António Sampaio da Nóvoa, Rio de Janeiro, 1 de Setembro de 2017. O corredor da música, in JL, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.8

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O rico e a agulha (II)


A tradução e notas de Frederico Lourenço acerca do dito de Jesus sobre a agulha e o rico desmentem o que Luc Ferry escreveu no seu mais recente livro (a propósito de Mateus 19, 24):

"Atendendo à imagem presente na literatura rabínica de um elefante a passar através do buraco da agulha, é certo que os evangelistas sinópticos se estavam mesmo a referir a um camelo. Abandonada, por também carecer de fundamentação objectiva, está a ideia em tempos aventada de que o camelo era um portão muito estreito que dava acesso à cidade de Jerusalém (Nolland, p.795). Essa interpretação trazia um certo consolo a todos quantos quisessem juntar os dois projectos de vida (ser rico; ser cristão)" (p.123, do Primeiro Volume da Tradução da Bíblia que Frederico Lourenço está a empreender, este dedicado aos Quatro Evangelhos do Novo Testamento).

O Catolicismo face ao Ambiente

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A Igreja Católica e o ambiente: doutrina e testemunhos


O Cristianismo não encontrou uma resposta idêntica ao lento processo de formação do que hoje se pode designar como crise ecológica, ou crise global do ambiente. Católicos, Ortodoxos e Protestantes responderam em tempos e modos diversos, como bem notou Lynn White, Jr., há quase meio século.  No caso português, talvez uma das primeiras manifestações de preocupação com a salvaguarda do ambiente, onde a Igreja Católica assumiu um papel de destaque, se encontre na fundação do Corpo Nacional de Escutas - Escutismo Católico Português, cujas raízes remontam a Maio de 1923. Ao longo de quase um século de actividades, este movimento tem desempenhado um notável e pioneiro papel no desenvolvimento da consciência ecológica de muitas gerações de jovens, traduzida numa atitude de respeito pela integridade da paisagem natural, e um respeito pela diversidade biológica.
Pessoalmente, registo dois testemunhos que considero relevantes (...). No Outono de 1986, num período em que presidi a uma organização ambientalista na cidade de Setúbal - o Projecto Setúbal Verde - tive ensejo de travar uma longa e fascinante conversa sobre as implicações filosóficas e teológicas da protecção das espécies em perigo com o então bispo de Setúbal, D.Manuel Martins. Na altura, essa notável figura do clero estava no centro das atenções públicas pelo modo corajoso e frontal com que denunciara o aumento exponencial da pobreza e da degradação das condições sociais da Península de Setúbal. A sua palavra muito contribuiu para a realização de um importante Plano de Emergência, que canalizaria fundos e recursos que em muito contribuíram para minimizar o sofrimento e as carências de muitas centenas de famílias.
Mas nesse dia de Outono, a conversa que mantivemos a sós - num diálogo entre um jovem professor e ecologista e um dos mais respeitados pastores da Igreja Católica em Portugal - tinha como objecto criaturas ainda mais desprotegidas, e completamente destituídas de voz: as cegonhas brancas, que, nessa altura, se encontravam em acelerado recuo populacional em Portugal. Dom Manuel Martins mostrou ter um coração suficientemente amplo para dinamizar o papel que os membros do clero poderiam desempenhar na protecção dos ninhos, e na educação dos crentes para o respeito por essas criaturas tão profundamente instaladas no nosso imaginário cultural. Poucos anos depois, a população de cegonhas recuperava, em zonas críticas como o distrito de Setúbal, encontrando-se hoje completamente fora de perigo no nosso país
O segundo testemunho, mais recente, foi suscitado por um amável convite do falecido cardeal-patriarca, D.José Policarpo (1936-2014) para se organizar uma reunião no Mosteiro de S.Vicente de Fora, em 6 de Junho de 2008, com meia centena de personalidades com fortes responsabilidades na área ambiental, nos planos político, científico, educativo, cívico e cultural. Numa altura em que o debate internacional já se encontrava bem marcado pela temática crucial das alterações climáticas, foi interessante verificar como tantas das mais conhecidas figuras do ambientalismo nacional tinham sido profundamente marcadas por uma educação católica, alimentando enormes expectativas sobre o grande potencial resultante do maior envolvimento da Igreja nesta causa ecuménica de primeira grandeza.
No plano doutrinário, contudo, a visita do Papa Francisco situa-se no momento de maior maturidade conceptual do Catolicismo universal em relação aos problemas ambientais
Acertadamente, João Paulo II designou o Santo de Assis como o patrono dos ecologistas. Com a sua recente e incontornável Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco situa-se na linha direta do pensamento desta figura maior do Cristianismo.
Para S.Francisco, a natureza não se reduz a um mero valor instrumental. Como que antecipando o advento do mecanismo cartesiano, em que a nossa civilização continua mergulhada (as versões do mecanismo têm-se sofisticado, "digitalizado", mas o núcleo semântico permanece inalterável). No triângulo metafísico representado por Deus-Homem-Criaturas, Francisco de Assis assinala e acentua a vizinhança ontológica da humanidade relativamente a todas as outras criaturas (seres vivos ou entidades físicas, como a "Irmã Chama"). Nesse gesto procura São Francisco obter um duplo efeito: primeiro, chamar a atenção para o verdadeiro abismo metafísico que é aquele que existe entre Criador e Criatura, entre a génese do Ser e o universo das criaturas, onde o homem tem um lugar ao lado de todos os outros entes; segundo, prevenir ou reduzir a arrogância antropocêntrica face às outras criaturas, insistindo em que o único privilégio da razão humana deveria ser o da responsabilidade pelo correcto cuidado do mundo, abrindo caminho para uma prudente e sustentável (para usar uma expressão dos tempos actuais) habitação da Terra.
A crise ecológica está mergulhada no mistério da história. Como nos diz o Papa, no capítulo III da Laudato Si, ela tem uma raíz humana. Uma perigosa combinação entre tecnologia e globalização aliada a uma visão desumana da economia, como processo de acumulação e reprodução de capital, e não como meio para vencer a pobreza e emancipação dos indivíduos e dos povos. Nessa poderosa aliança reside a fonte de muitos dos males e ameaças à nossa civilização. Não se trata tanto de colocar em causa cada um desses elementos de modo autónomo e isolado (tecnologia, globalização, economia de mercado), que correspondem a capacidades e necessidades humanas, mas sim de compreender os laços patológicos que actualmente os unem numa errada hierarquia de valores.
O segredo do futuro, passará por uma nova recomposição dos laços entre esses poderosos campos de experiência e da ação, numa nova aliança destinada a reconciliar História e Natureza. Sem essa recomposição, tanto a Terra como os mais pobres e deserdados continuarão a ser devorados no altar de uma concepção de crescimento, sem valores que a limitem e lhe confiram propósito. Que a visita do Papa a Portugal em 2017 possa servir de estímulo para que todos nós, seja qual seja a nossa postura religiosa ou política, saibamos assumir a nossa responsabilidade ética como cidadãos do mundo, face aos desafios escatológicos deste tempo.

Viriato Soromenho Marques, JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.26 

[o texto integrará uma obra colectiva e monumental, comemorativa da recente visita do Papa Francisco a Portugal, intitulada "Portugal Católico: A Beleza na Diversidade", a sair com a chancela da Círculo de Leitores]

Da secção "prendas de Natal"




"Maria Callas Live 1949-1964" reúne 20 óperas em 42 CD e três 'blu-ray', todas elas lendárias, testemunhos dos grandes encontros, com os mais importantes intérpretes da época. E, acima de tudo, dos anos de ouro de Maria Callas, da sua glória nos palcos, do seu génio - um génio único usado a favor do canto, da música, sempre ciente do risco, numa entrega sem limites", assim a descrição de Maria Augusta Gonçalves, no JL, sobre a edição da Warner Classics. 

Rei Lear


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"Apesar de ser um texto de teatro, tem uma componente literária fortíssima, sendo uma obra muito complexa e extensa, que fala de muitas coisas, talvez de quase tudo", adianta o encenador [Bruno Bravo]. "Por isso, a ideia não foi fazer o todo porque exigiria dinheiro que não existe, um tempo de trabalho praticamente impossível, pelo número de personagens e por tudo o que envolve. Pensamos antes em iluminar uma parte". Surgiu assim Lear, que estreia a 16, no Teatro Nacional D.Maria II (TNDMII), pelos Primeiros Sintomas.
E o que se ilumina em Lear? Interessou a Bruno Bravo, desde logo, a ideia de um rei que perde tudo, o reino, as filhas e a razão. "Ao perder-se tudo, o que resta de humanidade?", interroga-se o encenador. E essa é uma das perguntas centrais do espectáculo. "É uma questão que dialoga com um plano mais filosófico, mas também com o que sentimos a nível quotidiano". Sobretudo em tempos de crise, em que se põe com particular agudeza a hipótese de se perder tudo, tendo nós "por garantidas coisas que não o são".
Lear fala sobre a perda, a loucura ou sobre a família como "um lugar de absoluta violência, em que os pais querem matar os filhos, os irmãos uns aos outros"."Fazemos igualmente uma reflexão sobre a própria peça que Shakespeare escreveu no séc.XVII, mas que se passa num tempo anacrónico, bárbaro, em que Lear pode ser o primeiro rei ou o início da Europa, da ideia de Ocidente", salienta ainda Bravo. "E, no final, tudo se desmorona. É uma peça muito pessimista, como se a verdade e a pureza não tivessem lugar no mundo. Há todo um simbolismo no texto que nos interessou".
Também o "valor das palavras ditas" foi tomado como fulcral na abordagem dos Primeiros Sintomas, quer na estética do espectáculo, quer a nível de interpretação. "Lear é como se fosse um livro, com uma parte sonora forte, através do texto e do modo como se representa, mas também da música, criada por Sérgio Delgado, a partir de coros", salienta ainda. "Quisemos explorar uma vertente mais lírica nesta peça, sempre num equilíbrio entre o drama, a emoção, e a poética". (...)
A missão [de interpretar o velho rei Lear] (...) foi entregue à atriz Paula Só. (...) A tradução é de João Paulo Esteves da Silva, músico e poeta, o que não terá sido indiferente no caso. Além do mais, um apaixonado por Shakespeare. "É uma belíssima tradução de tal forma que o texto é mais uma personagem do espectáculo", diz Bruno Bravo, para quem encenar o dramaturgo britânico não deixou de "meter algum medo". "É uma peça difícil, acho mesmo que Shakespeare é um dos autores mais difíceis de fazer em português, e por isso angustia um pouco, mas é um imenso desafio.

[esta encenação de Rei Lear vai passar por Vila Real]

[JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.22, peça de Maria Leonor Nunes]

Adolescentes e a cultura


Na mais recente entrevista ao JL, Tiago Rodrigues, director artístico do Teatro Nacional D. Maria II volta - como em outras entrevistas - a enfatizar a importância de aposta cultural num público adolescente, muitas vezes descurado nas programações culturais, e essencial de trazer às salas de espectáculo se se pretende formar públicos para futuro. Indo além das visitas pela(s) escola(s), procurando fomentar o gosto que leve o adolescente e os amigos, agora por vontade própria (não já acompanhando os pais enquanto crianças; não já por imposição da escola) aos espaços de cultura da cidade:

"Ainda este ano, teremos no Salão Nobre um conjunto de conferências sobre temas fundamentais da adolescência (...) Temos a convicção que é nessa fase que é interrompida a relação com o teatro. E acreditamos que o adolescente não pode ir ao teatro apenas no contexto escolar, embora trabalhemos com mais de 150 escolas. Tem que vir de mote próprio, escolher vir sozinho ou com amigos. Por isso, queremos que esse espaço exista e com legitimidade artística".

[JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.23, entrevista conduzida por Maria Leonor Nunes]

Sobre a felicidade e outros enganos


Para Luc Ferry, é muito mais fácil de determinar o que nos faz infelizes do que o que nos garante a felicidade - e isto, porque considera que não existindo algo como uma "natureza humana", essencial e imutável, tal implica que o que nos pudesse garantir um bom estádio de realização própria está vedado ao nosso conhecimento. Daqui resultam, ainda, dois precipitados: a) todas as receitas sobre como garantir a felicidade - nas quais estamos imersos e encharcados - são uma fraude intelectual (os livros de auto-ajuda e quejandos); b) a própria definição exacta de felicidade é de muito difícil, ou impossível, acesso. Momentos de alegria, de serenidade, de bem estar pessoais, sim. Saber o que seria uma felicidade (contínua) muito mais difícil.
Por outro lado, ainda, Ferry sustenta que o que nos faz estar contentes, com momentos de alegria, serenidade - amor, amizade, uma profissão - está ligado indissociavelmente ao que nos faz infelizes - o luto stricto senso, a separação, a perda, o desemprego...Não há, assim, uma via tão direta - e sem regresso/retrocesso - a um estado feliz, ou há uma antinomia indeclinável na felicidade (seja lá o que isso for) com o seu reverso.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Balanço de 120 meses de crise


A duração da actual crise financeira já ultrapassou por larga margem as anteriores crises sistémicas que a Europa viveu desde o início da década de 70. Segundo um relatório do Banco Central Europeu (BCE), publicado recentemente, as crises europeias - países da União Europeia e Noruega - duraram, em média, 50 meses e a sua gestão pelas autoridades estendeu-se por mais 24 meses. Esta crise financeira que chegou à Europa em Agosto de 2007, já leva 120 meses no total e a sua gestão ainda não terminou. O BCE continua com medidas extraordinárias no terreno e só a partir de Dezembro poderá começar a reduzir gradualmente a dose de compra de activos. Nos EUA, o processo de desmame da política monetária vai mais adiantado, mas continua, ainda assim, longe de regressar à normalidade (...) Portugal é um exemplo: foi um dos que mais utilizou a política orçamental em 2009, acabou resgatado em 2011 e a apertar o cinto entre 2010 e 2013 e agora é um dos países da Europa onde a política orçamental mais deverá contribuir para o crescimento até 2018.
A política orçamental, nomeadamente a 'moda' da austeridade com a crise da dívida soberana a partir de 2010, teve um papel importante no double dip (recaída na recessão) da zona euro em 2012 e 2013. O que marcou a viragem na crise foi a chegada de Mario Draghi ao BCE. (...) Baixou juros até zero, injectou doses massivas de liquidez no sistema financeiro, fez discursos decisivos e trouxe os QE para a Europa. (...) Ficaria célebre a sua frase proferida em Londres, em Julho de 2012, de que faria "tudo o que for necessário para preservar o euro". Draghi levou o BCE a fazer o que, de facto, era preciso, após três anos de austeridade, que levaram a que cinco economias periféricas integrassem o 'clube' das maiores contracções orçamentais (...) A própria 'locomotiva' da zona euro, a Alemanha,registou um aperto orçamental acumulado, entre 2011 e 2013, de 8% do PIB. (...)
A crise financeira nasceu no crédito hipotecário de alto risco (subprime) dos EUA, mas foi no continente americano que mais rapidamente morreu (...). A economia americana teve apenas um ano de recessão - 2,8% em 2009 - e voltou a crescer a partir daí. Logo em 2010 bateu o nível pré-crise e, desde então, a maior economia do mundo já acumulou um crescimento de 24%. Do lado de cá do Atlântico, a zona euro tem andado a soluçar. Caiu 4,5% em 2009, voltou a crescer em 2010 e 2011, mas, com a crise da dívida soberana que arrastou vários países para resgates, teve uma recaída em 2012 e 2013. Só em 2015 voltou ao nível pré-crise. O desemprego está em 9,1%, enquanto nos EUA está já com uma taxa de 4,3%, quase pleno emprego. Os diferentes desempenhos dos dois gigantes são, em larga medida, resultado das respostas dos seus responsáveis políticos. A Fed agiu mais cedo e de forma decisiva, algo que o BCE só fez a sério quando Draghi chegou no final de 2011. E a política orçamental foi bastante diferente
Enquanto nos EUA os dois pacotes orçamentais de 2008 e 2009 de resposta à crise somaram 1,5 biliões de dólares (mais de 1,1 biliões, no câmbio da altura), representando cerca de 10% do PIB, a União Europeia (UE) fica-se, em Novembro de 2008, pelo anúncio de um Plano de Recuperação Económica, advogando um impulso orçamental de €200 mil milhões, cerca de 1,5% do PIB. Mesmo em 2010, já depois de sofrida uma contracção do PIB muito superior na zona euro do que nos EUA, a política orçamental continuou expansionista em Washington, enquanto na área da moeda única foi claramente contraccionista (...) No conjunto dos três anos, o impulso orçamental na zona euro foi inferior a 3% do PIB, enquanto nos EUA foi de cerca de 6%. No plano da actuação dos bancos centrais, a diferença de intervenção é abissal. "A Fed agiu rapidamente no corte das taxas de juro e no arranque do quantitative easing, muitos anos antes", refere Charles Wyplosz, professor do Graduate Institute de Genebra, na Suiça. De facto, o BCE só quase sete anos depois da Fed lança um programa de QE, em Março de 2015, quando em Washington já se terminara esse tipo de intervenção no ano anterior. E, com um atraso de quase oito anos, desce a taxa de juro de referência para zero.
Também na gestão da crise bancária a Europa revelou fraquezas. Para Barry Eichengreen, professor da Universidade de Berkeley, nos EIA, essa é "a principal diferença" em relação aos EUA. "A Europa fez menos para limpar o seu sistema bancário. Os seus testes de stresse eram mais fracos". O pico do crédito malparado registou-se logo em 2009 nos EUA e só três anos mais tarde na União Europeia. Ainda no final de 2016, o peso do crédito mal parado na UE era de 5,1%, enquanto nos EUA não passava de 1,5%. Wyplosz recorda que "a Autoridade Bancária Europeia e as autoridades nacionais afirmavam que a 'limpeza' dos bancos estava completa, umas semanas antes de os problemas emergirem".
E conclui: "Mesmo dez anos depois, as recentes falências em Espanha, Itália e Portugal fazem-nos questionar se o trabalho está mesmo concluído".

João Silvestre e Jorge Nascimento Rodrigues, Mundo evitou Grande Depressão 2.0, suplemento Economia, Expresso nº2338, 19-08-2017, pp.10-11.

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"Um dos maiores golos (...) da história do próprio futebol"



David Borges candidato a Puskas da Twilight zone. O problema é que a concorrência é muita.

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Filosofias de vida (colectiva)


Luc Ferry, em 7 lições para ser feliz, afiança que, do séc.XVIII em diante e até aos anos 60 do século XX, houve duas éticas laicas a prevalecerem: a) o republicanismo como secularização da parábola dos talentos cristã, assenta na ideia antiaristocrática de que não há mérito nos talentos com que se nasce - não há, aí, sentido moral -, mas no modo como estes são potenciados/plenificados e, portanto, a ideia de igualdade (em dignidade) entre todos e a possibilidade de o homem ser livre, mesmo que através de trabalhos penosos e duros, a sobrelevar sobre a ideia de felicidade (o trabalho não degrada o homem em animal, mas permite-lhe a liberdade e o colocar-se ao serviço da comunidade); b) o utilitarismo como a maximização do bem-estar geral, com diminuição da dor e potenciação do prazer e o humano sempre como alguém interessado na felicidade, que releva sobre tudo o mais (mesmo o suicídio seria uma forma de procurar a felicidade; o doar-se pelo outro, incluindo dar a vida, idem aspas). Finalmente, emergiria uma «ética da autenticidade», na qual o «direito à felicidade», o cada um a ser feliz à sua maneira, sem nenhuma regra a sobrepôr-se, digamos assim em termos latos, a esse desiderato a ser a regra, com a quebra de todas as autoridades tradicionais, incluindo no mundo do trabalho e o hedonismo e individualismo a serem caucionados em todo o Ocidente.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A felicidade apesar da morte


Para que se consiga ser feliz apesar da morte, a nossa mas mais ainda porventura a daqueles que amamos, é preciso pois, como Denis Moreau, um filósofo cristão, demonstrou perfeitamente no seu belo livro Les Voies du Salut, que estejam reunidas quatro condições:

Que a morte não seja o fim; que haja uma persistência da identidade pessoal depois da morte; que haja uma relativa heterogeneidade entre a forma de ser que conhecemos hoje e aquela após a morte; que seja permitido esperar que essa continuação post mortem ocorra em condições relativamente felizes, ou mesmo muito felizes.

Luc Ferry, 7 lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017, p.21


O rico e a agulha


Sempre a aprender:

"É então que o jovem, muito triste, se vai embora a chorar, pois sente-se incapaz de se separar dos seus haveres - enquanto Jesus, virando-se para os seus discípulos, profere a famosa mensagem segundo a qual será tão difícil a um rico entrar no Paraíso como fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha - metáfora que designa, devo dizê-lo, porque às vezes nos enganamos quanto a isso, não uma agulha real, mas uma porta da cidade sob a qual os camelos tinham de se baixar para entrarem".

Luc Ferry, 7 lições para ser feliz, ou os paradoxos da felicidade, Temas e Debates, 2017, p.20 [tradução de Jorge Pereirinha Pires]

Ligações


Nas derradeiras leituras antes das aulas a sério começarem, registo que o filósofo Luc Ferry, mesmo sendo ateu, no livro que escreveu acerca da felicidade ("7 lições para ser feliz"), no capítulo acerca do amor, cita, com vários excertos, a encíclica "Deus Caritas Est", de Bento XVI. O livro acaba de sair na Temas e Debates; o original, em francês, foi publicado, no ano passado, em França.

Provocações


[Respigado de Luc Ferry, no mote para o seu novo livro]

«Ser estúpido, egoísta e ter saúde
eis as três condições requeridas para ser feliz
Mas se nos falta a primeira, tudo está perdido»

Flaubert, carta a Louise Colet


«Se a Providência tivesse querido
que fôssemos felizes,
não nos teria dado a inteligência»

Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes

domingo, 10 de setembro de 2017

Colocações


1. Atualmente, há 82 cursos com média superior a 16 e 20 com média superior a 17 valores.

2. Este ano, foram já pedidas 40 mil bolsas de estudo.

3. As estatísticas de empregabilidade por curso, universidade, politécnico:

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O futuro da(s) paróquia(s)


No link que se segue, uma excelente entrevista do Pe.Tiago Freitas, acerca do futuro das paróquias, ele que apresentou recentemente a sua tese de Doutoramento, nesta área, da Diocese de Braga: > Igreja Viva 07 de Setembro de 2017

O que (não) é o populismo


Os populistas dizem sempre que eles - e só eles - representam o povo, ou o que chamam de "verdadeiro povo" ou "maioria silenciosa" (...) Para os populistas, todos os assuntos são imediatamente moralizados. Não existe discordância legítima sobre políticas (ou valores). Apenas o bom contra o corrupto e traiçoeiro (...) [No entanto] Criticar as elites pode ser um sinal de compromisso com a democracia, de se ser um cidadão bom e preocupado. É um problema do discurso político de hoje: aquilo que qualquer velho livro de educação cívica teria advogado - manter a vigilância sobre os poderosos - é automaticamente visto como um sintoma de perigoso populismo (...) Pode ser fatal classificar novos partidos e movimentos como populistas porque enviamos a mensagem de que, basicamente, não aceitamos nada de novo e não há lugar no sistema para os apoiantes daquilo que, por vezes, são movimentos ou partidos democraticamente produtivos. Isso pode dar a impressão de que o sistema faliu e que não se pode fazer nada diferente naquilo que os críticos por vezes chamam de tecnocracia ou pós-democracia.  Eles são rapidamente apelidados de anti-europeus apenas porque querem uma Europa diferente (...).
Trump não se tornou presidente como candidato de uma classe trabalhadora branca e zangada. Ele representou um partido estabelecido e precisou da bênção de pesos pesados republicanos como Rudy Giuliani e Newt Gingrich. O que aconteceu a 8 de Novembro não foi um triunfo do populismo mas a confirmação de quão partidária a política americana se tornou: 90% dos republicanos registados votaram em Trump. (...) Em resumo: até hoje, nenhum populista de direita chegou ao poder na Europa Ocidental ou na América do Norte sem a colaboração das elites conservadoras estabelecidas (...) Os conservadores, em vez de colaborarem oficialmente com eles, estão a copiar as suas ideias (...) Órban fez campanha de forma muito moderada em 2010, tal como o partido populista de direita na Polónia, que só revelou a sua agenda para destruir a democracia quando chegou ao poder (...) Seria louco dizer, por exemplo, que a Turquia era uma sociedade aberta e pluralista até que o maluco do Erdogan destruiu tudo. Há circunstâncias em que as pessoas não começam como populistas, mas radicalizam-se. Não podemos dizer logo como as coisas vão terminar (...)
Especialmente na crise do euro vimos uma oposição fatídica entre tecnocracia e populismo. Os tecnocratas argumentam que só há uma solução racional e nós, como cidadãos, só temos de concordar. Senão somos irracionais. O debate é desnecessário. Este tipo de discurso torna fácil aos populistas dizerem "pensei que tínhamos uma democracia, o que significa ter escolhas". Mesmo que pareçam extremos opostos, a tecnocracia e o populismo têm algo em comum: os tecnocratas dizem que "só há uma solução racional"; os populistas dizem: "só há uma vontade popular autêntica (e só nós a conhecemos)". São ambas formas de antipluralismo. Tudo entre os dois extremos desaparece. E tudo o que está no meio é, para mim, democracia: debate, persuasão, a hipótese de ter uma escolha real. (...) É importante não fazer aos populistas o que os populistas fazem aos partidos e às pessoas: excluí-los. Temos de envolvê-los. Caso contrário confirmamos a narrativa populista: a de que as elites nunca ouvem, têm medo de falar com eles porque falam dos verdadeiros problemas, etc. Mas falar com eles não é o mesmo que falar como eles

Jan-Werner Muller, A vitória de Trump não foi um triunfo do populismo, entrevista concedida a Nuno Tiago Pinto, Sábado, nº697, 7 a 14 de Setembro de 2017, pp.24-26.

Comandos


Um documentário, a ver, de João Santos Duarte, no Expresso.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Um mestre


Até então, o mestre era uma figura de estilo, uma composição literária, um arrimo poético. Um arquétipo de histórias que prometem um guia, barbudo, em montanhas distantes, rodeadas de mistério e névoa; um arauto que lança os dados, um mago de adivinhações. O mestre tem acesso aos códigos últimos do cosmos, aos desígnios da ordem insondáveis aos mortais; à poção mágica.
Talvez tenha começado numa explicação, assaz curiosa, um seu companheiro de estrada sorri perante o gesto, deixá-lo lá, ele é assim, de uma técnica, sem receituário nem cópia, de como fazer frente à Invernia, antes, ou ao entrar, numa aula do primeiro ano da faculdade. Há uma melodia nessa estranheza, nesse aceitar a promessa do homem livre que na combinação de todos os saberes; radicado, fielmente, na experiência; nunca temendo fazer caminho e elaborar a sua própria síntese – pode ser um franzir do sobrolho, caneta na mão, tampa na boca, enquanto, num ápice, aponta e fixa, corrige ou completa o seu apontamento único – que tem o travo de uma liberdade interior que foge ao cansaço e à derrota do espírito que a pura repetição, em si mesma, manifesta e engendra. O homem é o estilo e o estilo é, rigorosamente, singular.
Pode ser um sorriso numa manhã de Sábado, agora estamos no mestrado e encontramo-lo, a caminho da secretaria, sempre sem cara de funeral como pede o Papa, interessado na peripécia que algum discípulo, mais jovem ou mais adentrado na idade, lhe confidencia. Essa curiosidade, essa alegria pela vida, esse interesse por tudo e, sobretudo, por todos – aquela escuta concentrada, sem disfarces, sem enfado, em cada aula ou intervalo, afiança-nos, definitivamente, que tu és – é a confiança, a certeza, a intuição legada aos interlocutores de que a vida vale a pena. Sem retórica.
É possível que tenha sido no final de licenciatura, a mais recente novidade sobre o cérebro dos peixes, na publicação de referência do dia anterior, digitalizada madrugada fora, como tantas e tantas vezes, cada investigação, cada leitura é tão importante e decisiva, o professor é o que passa a paixão à plateia, que introduz a novidade de um livro exemplar na aula seguinte, o entusiasmo até o podemos tocar, o estudo é infinito e as notas de rodapé, sempre somadas, mostram um contemporâneo do seu tempo.
Decididamente, foi o gentleman sem fraque e sem títulos, sem fraque e sem títulos, que pegou na poesia, no conto, no romance, na diarística, na filosofia, no Nobel da Física ou da Economia, muito no neurocientista, em todos os autores vivos e defuntos, que criou uma escola de santos seculares e os deu a beber naquela talha dourada, pura filigrana, em que se constitui a aula exigente para o aluno de todos os lugares e origens. Desconhecia, também, que o pedido do Cardeal Newman – a universidade não seria propriamente o lugar de formação do técnico, mas do gentleman iniciado à universia dos conhecimentos – tivesse, em Braga, tão insigne cultor. Abençoada faculdade que guarda, religiosamente, este segredo escondido. E escusado será dizer como, de novo, não foi preciso teorizar para se fazer entender: o sábio situa-se na fronteira. Ele é capaz de dialogar, antecipou que viria a geração dos buscadores e o amor à Igreja foi o monumental ágape que serviu aos que devem agora ter unhas, sopro e fôlego para tocar e responder, talvez como nunca foi tão necessário, a essa divisa de auxiliar ao reconhecimento de um excesso, de um plus que atravessa o tempo, da realidade da realidade a que só não se será surdo se munidos de uma completa gramática suficientemente ampla para a entrever e nomear sendo, ao mesmo tempo, entendido/compreendido (pelos demais, na cidade).
Decididamente, foi a humidade diária, o acolhimento fraterno, a hospitalidade (“nunca os toureei”, mesmo a quando de responsabilidades maiores na formação do Seminário, diz, e a gente percebe logo que aquilo é absoluta verdade); a capacidade de gerar comunhão, de pôr em conversação, de partilhar contributos múltiplos, daqueles com quem privava e insistia e inseria num diálogo de décadas, de gerações múltiplas, em que cada um sabia o nome próprio – não uma dissolução num mar indistinto, não um de um terminal -, mas, simultaneamente, cada qual se encontrava perante o reconhecimento do quanto devia ao edifício que antes de si se erguera – o mundo não começou agora -, e quanto a obrigação de cada um contribuir para o capital de todos, se tornava manifesta. A parábola dos talentos podia, aqui, ressoar. A compreensão do outro nunca redundava em paternalismos que dispensassem o estudo e o trabalho sérios.
Decididamente, foi a sua recusa da maledicência, uma ética escrupulosamente seguida, sem falhas, todos os dias. A ela juntava a noção de que cada aula era um novo encontro eclesial, e o seu testemunho aí fundamental (a sabedoria tal de não dizer ou fazer o que contradissesse o credo em que bebia). Da liturgia, evidentemente, não estava afastada a ironia necessária para reclamar mais concentração à terceira vez que era necessário explicar o dogma mariológico – in-te-lec-tuais!, suspirava então, com graça -, o entremear de histórias deliciosas de um rosário riquíssimo de um arguto e humorado observador da natureza humana que, assim, fazia aquela pausa no tempo útil da aula – segundo os positivistas – mas que é o tempo necessário segundo os pedagogos do dia (que não desconhecem como com a brincadeira se aprende também, e como é necessário tomar ar antes de continuar a escalada da montanha).
Decididamente, foi a opção preferencial pelos pobres que sempre transmitiu, e que porventura em todos os tempos e lugares nunca parece ter sido muito fácil de sustentar – Adela Cortina fala em aporofobia -, numa coerência existencial – sempre sem fraque e sem títulos – muito palpável e impressiva.
Temos mestre. O que doa aos outros todas as riquezas, muito laboriosamente construídas ao longo dos anos – o imaterial de que tanto necessitamos -; o que estimula, puxa para cima, oferece os melhores espíritos para compreender e entrar em um tempo; o que respeita absolutamente o outro, entrando na sua gramática (dando-se, portanto, ao trabalho de a conhecer), reconhecendo valor – dignificando – cada um, com uma autenticidade desarmante (o outro tem, efectivamente, alguma coisa a dizer e aqui não é respeitado apenas de modo formal); o que coloca todos em comunidade, partilha, solidariedade, fraternidade; o que faz do saber uma paixão, um serviço, um trabalho em permanente progresso, estudante de mochila a tiracolo por Santa Margarida; aquele que escuta e que confia; inteligentíssimo, rigoroso, cavalheiro; o que nunca anula, mas acrescenta, corrige, ternamente mas sem medo, é paciente; o que continua a espantar-se com o mundo e quer ler, sem amargura, sem anátemas, sem ressentimentos nem apocalipses o jornal do dia seguinte; o que ajuda a ler a vida, não tem todas as respostas porque não é Deus, abstém-se se for caso disso, não tem, nem cria a ilusão de tudo resolver ou de se substituir ao que só a responsabilidade individual pode eventualmente solucionar (e para a qual faz questão de remeter); ao que acompanha, nunca deixa um bom dia sem resposta, investiga tudo para esclarecer uma dúvida académica; sobretudo, e numa palavra, aquele que se constitui como bênção de vida para todos.
Temos mestre. Mestre porque cristão; cristão porque mestre.
Há em Braga um homem que a brisa suave conhece e cujo rumor permanecerá eternamente entre todos os que contamos como tem sido um privilégio contar com ele. Chama-se Manuel Moreira da Costa Santos.

Deste pequeno cantinho, o meu muito obrigado.
Pedro Miranda

P.S.: pelos 50 anos da ordenação sacerdotal hoje em celebração.
Adenda: Bela cerimónia na capela do Seminário Menor de Braga.

95 anos


De Viriato Soromenho Marques para Adriano Moreira, hoje, no DN:

Para os leitores mais jovens, recomendaria a leitura do capítulo que lhe é dedicado na derradeira obra de Manuel Lucena (Os Lugares-Tenentes de Salazar, Lisboa, Aletheia, 2015, pp. 261-371), onde a sua peculiar estatura de estadista, que pretende efetivamente aproximar a realidade e a justiça, fica patente nos anos decisivos de 1960-62, num contexto de guerra e desorientação interna, tentando, mesmo contra Salazar e os setores mais cristalizados do Estado Novo, evitar, ou ao menos atenuar, o trágico capítulo português no grande crepúsculo do Euromundo. Cada ser humano tem o seu segredo interior (que até o próprio desconhece), mas atrevo-me a considerar que uma parte da laboriosa, mas serena, resiliência de AM se fica a dever a uma espécie de software comportamental, que permanece inalterável ao longo do tempo, nos seus três tópicos fundamentais. Primeiro, nunca desistir do conhecimento na avaliação do mundo - com o imenso trabalho de estudo e investigação que ele implica - mas sem nunca cair na arrogância científica e intelectual, que é uma das formas mais modernas de ideologia, usada como desculpa para subestimar, excluir e reprimir as vozes dos que pensam de modo diferente. Segundo, acreditar sempre que o melhor se atinge preferencialmente pelas estradas do possível, envolvendo voluntariamente na viagem também os que dela duvidam, do que abraçando a retórica das promessas utópicas, que cedo se transformam em terror e violência. Terceiro, nunca abdicar dos princípios fundamentais, pois são eles que não só mantêm intacta a integridade e a identidade do agente (a sua alma política e ética), mas são também eles que temperam e limitam o que deve e pode, ou não, ser realizado pela ação. Para AM esses princípios básicos são os da igualdade e os da cooperação universal do género humano. Ao mesmo tempo um ponto de partida e uma tarefa sempre à espera de ser cumprida, como as duras promessas do nosso presente-futuro bem o comprovam.

Na íntegra, aqui

Turandot (III)



A semelhança de Turandot com Medeia; o fascínio que esta ópera denota pelo Oriente; uma ópera, vista do Oriente, como italianíssima (como é); a personagem de Liú mais próxima de Puccini do que propriamente Turandot; a sedução que as personagens negras conseguem transportar para o espectador/leitor; uma ópera escrita ao longo de vários anos e não terminada por Puccini; a última página do compositor, que tinha uma grande bagagem cultural e era contemporâneo de si (conhecia o que se fazia nos outros lados, e nos melhores autores), a da morte de Liú; o final controvertido que lhe foi aposto; todos os grandes tenores do mundo - e foi um aragonês a estar no Scala de Milão, na estreia, em 1926 - a quererem cantar a ária nessun dorma; uma ópera muito exigente no que reclama de cenários e de músicos, composta por quem podia não ser um grande colega, dado a luxos, mulheres, abraçando os últimos avanços tecnológicos e que aqui sonda o feminino, mas também o homem face a esse mundo outro (numa peça que à época não convenceu de imediato a crítica, ainda que tendo a aclamação popular).

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Escrever



Nesta entrevista, Roberto Bolaño conta que começou por escrever poesia. Que o seu poeta preferido é Nicanor Parra. Que a melhor poesia do último século foi escrita em prosa, fosse pelo Joyce de Ulisses, fosse por Proust (ou Faulkner). O escritor meteu-se, neste caso, numa senda onde ninguém tinha ido.

"Yo creo que todos los escritores, incluso los más mediocres, los más falsos, los peores escritores del mundo, han sentido durante un segundo, la sombra de ese éxtasis, sin duda el éxtasis no lo han sentido, el éxtasis tal cual, quema. Y alguien que lo siente durante un segundo y luego retorna a su mediocridad existencial, es evidente que no se ha metido en el éxtasis, porque el éxtasis es terrible, no? es abrir los ojos ante algo que (es) difícil de nombrar y difícil de soportar."

Hoje pode habitar-se poeticamente, mas não é aconselhável (“vivir sin timón e en delírio”). A lucidez e o senso comum são muito necessários. Para Bolaño, não é certo o verso “porque escrevi, estou vivo”, mas, justamente, o inverso “porque escrevi, estive quase a passar-me” e, “se não tivesse escrito” – isto dito com certa ambiguidade e humor, note-se -, então “estaria mais vivo e mais são”.

Porque escrever? Um romance é longo, porque há aí uma estrutura que necessita dessa extensão. Borges dizia que as novelas são desnecessárias, basta o conto. Escrever, porquê? Por nada. Roubar livros numa livraria, mais do que um “acto sagrado, era uma necessidade e aí decidi-me a entrar no grémio dos ladrões; ladrar livros não é um delito; muitos adolescentes fazem isso e é belíssimo”. Um começa a comprar livros, ou a roubá-los e termina lendo-os. Para mim, os livros são, já, uma obsessão: compro-os e já não os leio [alguns dos que compro]. Para mim, são como cromos.

Toda a literatura está feita de plágios consecutivos; Todos estamos a escrever o mesmo livro; e esse mesmo livro é Nada (com maiúsculas; ou, talvez, com minúsculas). O que me enerva é mais a má cópia, o puro plágio. Quem melhor leu Whitman foi Ezra Pound. Pound não é um escritor: é uma literatura. Um gigante.

Os homens que marcaram o nosso cânone literário foram homens bons; isto soa muito cristão, ou até escolástico, mas é assim. Whitman foi um homem bom, Kafka foi um homem bom.