sábado, 31 de dezembro de 2016

Acordar


A verdade começa por libertar, e só depois consola. De resto, ninguém tem o direito de chamar a isto uma consolação. Porque não antes condolências? A Palavra de Deus é um ferro em brasa. E tu, que pregas a Palavra de Deus, querias pegar-lhe com uma tenaz, com receio de te queimares, não querias ser capaz de lhe pegar com ambas as mãos? Deixa-me rir. Um padre que desce da cadeira da Verdade, a fazer boquinhas, um pouco esquentado, mas contente, esse padre não pregou; o mais que fez foi ronronar. Nota que isso pode acontecer a qualquer pessoa; que somos nós senão uns pobres sonâmbulos? Às vezes é o diabo, uma pessoa acordar. Os Apóstolos, esses, dormiam bem no Getsémani! 

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, p.53

Um nome


Nem por isso este pobre mundo deixa de sonhar, mais ou menos, com antigo contrato assinado outrora com os demónios e que lhe devia garantir a tranquilidade. Reduzir à condição de rebanho, mas de rebanho superior, a quarta ou terça parte do género humano não era pagar caro demais, talvez, o advento dos super-homens, dos puros-sangues, do verdadeiro reino da terra...Se há quem pense assim não tem coragem de o dizer. Nosso Senhor, desposando a pobreza, tão alto elevou a dignidade do pobre que nunca mais o poderão apear da sua dignidade. Deu-lhe um antepassado - e que antepassado! Um nome - e que nome! Ainda se lhe tem mais amor revoltado que resignado. Parece pertencer já ao Reino de Deus, onde os primeiros serão os últimos. Tem o aspecto de uma alma do outro mundo - uma alma de outro mundo que regressasse das bodas nupciais com o seu vestido branco...Que queres tu? Depois disto, o Estado principia por mostrar boa cara diante dos infelizes. Toma conta dos garotos, cuida dos estropiados, lava as camisas e faz a sopa dos mendigos, esfrega os escarradores dos velhos senis, mas tudo isto sem deixar de olhar para o relógio e de perguntar a si mesmo se irá ter tempo para se ocupar dos seus próprios negócios. É certo que ainda espera, de algum modo, fazer com que as máquinas desempenhem o papel que outrora competia aos escravos. Ora bolas! As máquinas nunca mais param de girar, os desempregados de se multiplicar, de modo que dir-se-á que elas não servem para mais nada senão para fabricar desempregados - as máquinas, estás a perceber?

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, p.53

Um fogo inapagável


A sociedade moderna pode bem tentar renegar o seu Senhor, também ela foi resgatada. De nada lhe serve administrar o património comum, ei-la, ela lá vai, quer queira quer não, à procura do Reino de Deus. E esse reino não é deste mundo. Quer dizer que ela nunca mais se deterá. Nunca mais poderá deixar de correr. «Salva-te ou morre!». Não se pode dizer o contrário disto.
O que o teu amigo diz sobre a servidão é muito verdadeiro. A antiga lei admitia a escravidão, e os próprios apóstolos a toleravam, com ela. Não disseram à escravidão «liberta-te do teu senhor», quando é certo que diziam ao luxurioso, por exemplo, «liberta-te da tua carne e já!». É um matiz. E porquê? Porque eles queriam, segundo creio, dar tempo ao mundo de respirar antes de o lançarem numa aventura sobre-humana. E podes crer que um mocetão como São Paulo não tinha ilusões. A abolição da escravatura não acabaria com a exploração do homem pelo homem. Se virmos bem as coisas, um escravo custava dinheiro, o que fazia com que o seu senhor tivesse uma certa consideração por ele. Em vez disso, conheci na minha mocidade um maroto de um mestre vidraceiro que obrigava os rapazes de quinze anos a soprarem o vidro, e para os substituir, quando acabava por lhes arrebentar com os pobres pulmões, aquele animal não tinha mais que escolher novas vítimas. Confesso-te: tinha preferido mil vezes ser escravo de um desses bons burgueses romanos, embora a vida para os escravos nesse tempo, como é natural, não fosse um mar de rosas. Não. São Paulo não tinha ilusões! Simplesmente dizia consigo mesmo que o Cristianismo lançara ao mundo uma verdade que nada já podia deter, porque ela já estava antecipadamente no mais profundo das consciências e que o homem se tinha reconhecido nela imediatamente: Deus salvou-nos a todos e cada um de nós vale o sangue de Deus. Podes traduzir isto como quiseres, até mesmo em linguagem racionalista - a mais estúpida de todas -, isso obrigar-te-à a aproximares-te de palavras que explodem ao primeiro contacto. A sociedade futura terá sempre o recurso de lhe assentar em cima! A verdade é esta: que essas palavras hão-de acabar por lhe lançar fogo ao rabo

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, p.49


A linguagem e a conservação


Há certos pensamentos que eu não ouso confiar a ninguém, embora não me pareçam tolos, antes pelo contrário. Que seria eu, por exemplo, caso me resignasse a desempenhar o papel em que gostariam de me ver muitos católicos preocupados sobretudo com a conservação social, isto é, em suma, com a sua própria conservação. Oh! Não acuso estes senhores de hipocrisia, creio até que são sinceros. Quantas pessoas há persuadidas de defenderem a causa da ordem, quando afinal o que defendem são hábitos, por vezes até um simples vocabulário cujos termos, de tão bem polidos, de tão corroídos pelo uso, tudo justificam sem nunca nada ter sido posto em questão! Eis uma das mais incompreensíveis infelicidades do homem: o ele ver-se obrigado a confiar o que tem de mais precioso a qualquer coisa de tão instável, de tão plástico, ai de nós!, como as palavras! Muita coragem era precisa para estarmos sempre a verificar a chave e a adaptá-la à sua própria fechadura. Preferimos pegar na primeira que se nos depara, forçar um pouco e, se a lingueta gira, é quanto basta. Fico sempre muito surpreendido com os revolucionários que tanto trabalho têm para fazer ruir certas muralhas a dinamite, quando a verdade é que o molho das chaves das pessoas de princípios lhes teria proporcionado forma de entrarem tranquilamente pela porta sem despertarem ninguém.

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, p.42

Aprender com os críticos


A nossa sociedade é tão estranha que a felicidade se lhe afigura sempre suspeita! Sou da opinião  de que um certo cristianismo, bastante alheio ao espírito dos Evangelhos, intervém de qualquer modo neste preconceito comum a todos, crentes e incréus.

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, p.43

Toda a repetição é anti-espiritual


E depois sentia-me liberto dessa espécie de medo quase doentio, a que todo o sacerdote novo é sujeito, ao que suponho, quando certas palavras destas imagens nos vêm aos lábios, palavras e imagens de um escárnio, de um equívoco, que, quebrando o nosso ímpeto, fazem com que sustentemos austeras lições doutrinais num vocabulário tão usado, mas tão seguro, que a ninguém fere, tendo ao menos o mérito de desencorajar os comentários irónicos, vago e enfadonho como é. Quem nos ouve pode chegar a pensar muitas vezes que o Deus que nós pregamos é o dos espiritualistas, o Ser Supremo, nem eu sei o quê, nada que se pareça, em todo o caso, com esse Senhor que nós aprendemos a conhecer como um maravilhoso amigo vivo, que sofre as nossas dores, se emociona com as nossas alegrias, que há de vir a compartilhar da nossa agonia e nos receberá em seus braços, apertando-nos contra o coração.

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, Paulinas, p.30

Sentido


Gostava de encontrar diante de mim um desses sabichões que me chamam obscurantista. Dir-lhe-ia: não tenho culpa de trazer vestidos uns trajos de cangalheiro. A verdade é que o Papa se veste de branco e os cardeais de vermelho. Eu tinha o direito de me vestir como a rainha de Sabá, porque a alegria anda comigo. Dar-ta-ia por uma tuta-e-meia se ma pedisses. A Igreja dispõe da alegria, de toda a alegria reservada a este triste mundo. O que fizeste contra ela, contra a alegria o fizeste. Imperdir-te-ei porventura de calculares a precessão dos equinócios ou de desintegrares o átomo? Mas de que te teria servido fabricares a própria vida quando tu perdeste o próprio sentido dela? Não terias outra coisa a fazer senão estourares os miolos diante das tuas retortas. Fabrica vida para aí enquanto isso te dá prazer! A imagem que tu dás da morte envenena pouco a pouco o pensamento dos miseráveis, ensombra e descolora lentamente as suas derradeiras alegrias. A coisa aguenta-se enquanto a tua indústria e os teus capitais te consentirem que faças do mundo uma autêntica feira, com mecanismos que giram a velocidades vertiginosas no meio do estrondo dos metais e a explosão de fogos-de-artifício. Mas espera, espera pelo primeiro quarto de hora de silêncio. Então hão-de ouvir a palavra - não aquela que se recusaram a ouvir, e que dizia tranquilamente: Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida - mas a que sobe do abismo: eu sou a porta fechada para sempre, o caminho sem saída, a mentira e a perdição.

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia, Paulinas, p.25

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Revolução na comunicação


Uma característica que define esta revolta é a de o ímpeto para a mudança se ter tornado mais importante do que qualquer consideração sobre o que a mudança pode significar na prática. (...) O que importa é que a revolta está a acontecer e quem quer que seja que apanhe a onda vai estar na crista da mesma. (...) Num país como o Reino Unido, há 20 anos, quando eu era candidato às eleições como líder do partido, os principais noticiários da noite da BBC tinham uma audiência de dez milhões de pessoas; hoje, o número é pouco mais de 2,5 milhões. O que era uma conversa são agora muitas, e muitas vezes, entre pessoas com as mesmas opiniões. Esta mudança no método de receber e debater a informação é um fenómeno revolucionário em si mesmo.

Tony Blair, Salvando o centro, DN, 29/12/2016, p.22

'Era Trump'


Eu não gosto de dizer "Eu avisei", mas a eleição dele [Trump] não deveria ter sido uma surpresa. Como expliquei no meu livro de 2002, Globalização - a grande desilusão, as políticas que usámos para gerir a globalização lançaram as sementes do descontentamento generalizado (...) Claro que não há recuo. A China e a Índia estão agora integradas na economia global e a inovação tecnológica está a reduzir o número de empregos na indústria em todo o mundo. Trump não pode recriar os empregos bem pagos nas fábricas das décadas passadas; ele apenas pode promover a produção avançada que exige maiores qualificações e emprega menos pessoas. A crescente desigualdade, entretanto, continuará a contribuir para o desespero generalizado entre os eleitores brancos do Centro da América que entregaram a vitória a Trump. Como os economistas Anne Case e Angus Deaton mostraram no seu estudo publicado em dezembro de 2015, a expectativa de vida entre os americanos brancos de meia-idade está a diminuir, enquanto as taxas de suicídio, uso de drogas e alcoolismo aumentam. Um ano depois, o Centro Nacional de Estatísticas da Saúde informou que a expectativa de vida para o país como um todo diminuiu pela primeira vez em mais de 20 anos. (...)
Trump propôs que os grandes cortes de impostos para os ricos sejam combinados com programas maciços de gastos com infraestruturas, o que impulsionaria o PIB e melhoraria um pouco a situação orçamental do governo, mas não tanto quanto os defensores da economia da oferta esperam. Se Ryan não estiver tão preocupado com o défice como diz estar, ele vai assinar por baixo a agenda de Trump e a economia receberá o estímulo orçamental keynesiano de que há muito necessita. (...) Trump já se pronunciou contra as baixas taxas de juro, e há duas vagas no Conselho de Governadores da Reserva Federal dos Estados Unidos. Se acrescentarmos a isso o grande número de funcionários do Fed desejosos de normalizar as taxas, e é certo que o farão - isso mais que neutralizará o estímulo keynesiano de Trump. (...)
Se Trump seguir em frente com a sua ameaça de campanha de impor tarifas sobre as importações chinesas, a economia americana provavelmente sofrerá mais danos do que a da China. Sob a estrutura existente da Organização Mundial de Comércio, para cada tarifa "ilegal" que os Estados Unidos impõem, a China pode retaliar onde entender, como por exemplo usando restrições comerciais para atingir empregos nos distritos do Congresso dos que apoiam as tarifas dos EUA.
De facto, as medidas contra a China permitidas no âmbito da OMC, como as tarifas anti-dumping, podem ser justificadas em algumas àreas. Mas Trump não enunciou princípios orientadores para a política comercial, e os Estados Unidos - que subsidiam diretamente as suas indústrias automóvel e aeronáutica e subsidiam indiretamente os seus bancos por meio de taxas de juro ultrabaixas -, estariam a atirar pedras a um telhado de vidro. E uma vez iniciado este jogo de olho por olho, ele pode muito bem terminar na destruição da ordem aberta internacional criada desde a Segunda Guerra Mundial. (...)
Os democratas só terão futuro se rejeitarem o neoliberalismo e adotarem as políticas progressistas propostas por líderes como Elizabeth Warren, Bernie Sanders e Sherrod Brown. Isso colocá-los-á numa posição forte contra os republicanos que terão de descobrir como administrar uma coligação de cristãos evangélicos, executivos de empresas, nativistas, populistas e isolacionistas.

Joseph Stiglitz, A era Trump, DN, 29/12/2016, p.20

Desigualdades globais


O progresso tecnológico e os mercados em que muito poucos ganham muito estão a aumentar a desigualdade de rendimentos em muitos países, mesmo quando os rendimentos globais estão a convergir. Nas últimas duas décadas, nas principais economias avançadas, os rendimentos dos 10% que mais ganham aumentaram 40%, enquanto os rendimentos dos que menos auferem tiveram apenas um crescimento modesto (...) O FMI, por sua vez, considera que uma distribuição de rendimentos mais equitativa não é apenas uma política social correcta, mas também uma política económica sólida. Os nossos estudos mostram que a redução da grande desigualdade torna o crescimento económico mais robusto e sustentável a longo prazo (...) Os governos podem aumentar o apoio direto aos trabalhadores com menores qualificações, especialmente nas regiões geográficas mais afetadas pela automatização e terceirização. Especificamente, os governos devem aumentar os investimentos públicos em serviços de saúde, educação e formação profissional; e devem fazer um esforço para melhorar a mobilidade ocupacional e geográfica. Todos os países devem compreender a necessidade de educação permanente para preparar as gerações atuais e futuras para as tecnologias em rápida mudança (...) Os governos devem promover mais concorrência em indústrias importantes que não a têm, reprimir a evasão fiscal e evitar práticas comerciais que transferem lucros para locais de baixa tributação.

Christine Lagarde, O desafio da inclusão económica, DN, 29/12/16, p.20

Portugal social

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Leio no artigo de Maria de Lurdes Rodrigues, na edição comemorativa dos 153 anos do DN (29/12/16, p.19): "em 2016, voltou a crescer a riqueza dos 25% mais ricos e, simultaneamente, aumentou o número de trabalhadores a ganhar o salário mínimo. Metade das pessoas, em Portugal, ganham hoje menos de 730 euros por mês".

2017


Vamos para o 9º ano consecutivo em crise. A Europa, regista Vítor Bento, foi a pior região do mundo a responder aos idos de 2008. No Velho Continente, a palavra à Alemanha: a aposta continuada no modelo de poupança mais exportações, gerando sucessivos excedentes comerciais poderá ter consequências de maior. Paulo Rangel olha para a Comissão Europeia e faz notar que enquanto a Comissão Barroso abriu procedimento à Alemanha por tais excedentes, a Comissão Junker travou-o. O modelo alemão, aparentemente racional e maximizador das contas germânicas, no curto prazo (pelo menos) vai ser continuado mesmo depois das eleições do próximo ano, garante Nuno Garoupa. A ser assim, adverte Silva Peneda, a Europa será levada à desintegração. Vítor Bento realça, a propósito, que o excesso de poupança, alocada a determinados produtos financeiros, pode gerar nova crise financeira. António Barreto constata que, hoje por hoje, a Europa já "não é um bem maior, mas um mal menor". E de aí três linhas, separando as àguas dos olhares para 2017: "os optimistas acreditam que a esperança é a última a morrer, que tudo vai correr bem, que há sempre quem salve os povos das catástrofes e que a razão e o bom senso acabarão por imperar. Para eles, a Europa vai ressuscitar ainda mais forte"; "os pessimistas pensam que vivemos o crepúsculo da grande civilização ocidental, cristã, europeia, industrial, liberal e democrática. O que vier a seguir não será bom"; finalmente, "os cépticos admitem que uma solução razoável possa, em última instância, surgir e ser perfilhada pela maioria dos europeus, mas que será apenas a menos má das saídas da crise. A grande Europa está condenada. A Europa será uma solução de recurso (...) E perceber que ou há refundação, seja com quem for, ou há funeral". Augusto Santos Silva sublinha o trágico de para combater a crise se terem posto em prática políticas de austeridade.

[a partir da edição especial, comemorativa dos 153 anos do DN, 29/12/2016]

"O Independente" e o cavaquismo - reavaliação de uma relação


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Miguel Esteves Cardoso já fez uma certa contrição em algumas entrevistas. Mas, por outro lado, essa irresponsabilidade levou a que aquela geração, sem o perceber, desempenhasse, afinal, o papel de idiotas úteis do cavaquismo. Ao disseminarem na sociedade portuguesa um sentido festivo, desregrado, lúdico, em que não havia propriamente limites, disseminaram também uma noção de bem-estar que favoreceu as maiorias absolutas do PSD. Apesar de ter feito muitas manchetes contra os Governos de Cavaco Silva, O Independente promoveu e incentivou uma cultura hedonista, que começou no topo, nas elites, mas depois com a abertura das grandes superfícies e de autoestradas se disseminou por toda a sociedade. Tudo isso contribuiu para uma sensação de conforto difuso que teve efeitos politico-eleitorais evidentes.

António AraújoDa direita à esquerda, entrevista concedida a Filipa MeloLer, Inverno 2016/2017, p.40

Elites - província


Verificou [-se] uma relativa rarefação das elites da província. Não quero ser nostálgico, mas antigamente cidades do interior como Viseu, Guarda, Castelo Branco, et cetera, tinham uma vida cultural que hoje é mais movimentada à superfície, porque há mais realizações (sobretudo subsidiadas pelas autarquias), mas a produção de pensamento e a vida quotidiana e a convivialidade de elites intelectuais estão a desaparecer.

António Araújo, Da direita à esquerda, entrevista concedida a Filipa Melo, Ler, Inverno 2016/2017, p.43

Automatização


Leio o seguinte dado num texto de António Mexia, esta quinta, no DN: 9 em cada 10 postos de trabalho industriais no mundo ocidental foram perdidos na primeira década deste século pela automatização e não pelo comércio.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Língua portuguesa


A Academia das Ciências de Lisboa descobriu que «qualquer tentativa de uniformização ortográfica nos diversos países que usam a língua portuguesa como língua oficial é utópica, e na definição de novas disposições [do Acordo Ortográfico] o bom senso terá de imperar, a tradição lexicográfica de longa existência terá de ser considerada e alguns pontos reequacionados». É o que se pode ler num documento intitulado «Subsídios para Um Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa», com o qual a Academia pretende iniciar o processo para a revisão de alguns aspectos do AO (...) Enquanto milhares de portugueses prometiam acorrentar-se às consoantes mudas, em protesto, desculpavam-se erros de palmatória de português básico em documentos oficiais, em legendas e rodapés da televisão pública (onde, entre tantos provedores, nunca se encontrou ninguém para aplicar corretivos) ou na avaliação de testes nas escolas (houve inclusive, nos idos de 2009, uma nota distribuída aos professores para não assinalarem erros ortográficos nas provas de avaliação, naturalmente porque isso seria traumatizante).
Comparando o léxico de Mau tempo no canal, de 1944, com o romance de um autor contemporâneo, percebe-se que desapareceu cerca de 20% do vocabulário. A língua portuguesa está confinada ao seu ersatz, uma espécie de substituto ligeiro, uma língua de anúncios de aeroporto, de fala de supermercado. A escola é muito responsável por esse desastre, preferindo a pobreza do léxico, desculpabilizando os erros, desejando agradar à vulgaridade, parlapatando - esquecendo que quem fala e escreve mal, pensa mal. (...)
Veja-se este pedaço de, por assim dizer, «competência linguística» do Ministério da Educação num texto sobre educação de adultos: «Este programa deverá assentar numa maior integração das respostas na perspectiva de quem se dirige ao sistema, tornando, na ótica do formando, coerente e unificada a rede de portefólio dos percursos formativos, que no percurso individual devem ser passíveis de combinação personalizada». Não há ortografia que valha. As novilínguas tecnocráticas que os analfabetos popularizam são também um elemento a ter em conta para a perda da identidade da língua.

Francisco José Viegas, Carta do editor, LER, nº144, Inverno 2016/2017, pp.2/3

Soledade


Vou dizer-te o que é um povo cristão, explicando-te o que é o contrário disso. O contrário de um povo cristão é um povo triste, um povo velho (...) - Porque será que o tempo da nossa infância nos parece tão doce, tão brilhante? Um garoto tem os seus desgostos, como toda a gente, e está, em suma, igualmente desarmado contra a dor, a doença! A infância e a extrema velhice deviam ser as idades das grandes provas do homem. Mas do sentimento da sua própria impotência é que a criança tira humildemente o princípio da sua própria alegria. Relaciona tudo com a mãe, percebes? Presente, passado, futuro, toda a sua vida, a vida inteira se resume num olhar, e esse olhar é um sorriso. Pois bem, meu rapaz, se nos tivessem deixado, nós, a Igreja, teríamos dado aos homens esta espécie de soberana segurança. Claro que nem por isso os homens teriam deixado de ter a parte que lhes compete de aborrecimentos. A fome, a sede, a pobreza, o ciúme, nunca teremos força que chegue para acabarmos com o diabo, como deves calcular. Mas o homem teria sabido que era filho de Deus, e esse era o milagre! Teria vivido e morrido com essa ideia na cabeça - e que não era uma ideia apenas colhida nos livros, não. E essa ideia teria inspirado, graças a nós, os costumes, as distracções, os prazeres e até as mais humildes necessidades. Isto não teria impedido o lavrador de cavar a terra, o sábio de se agarrar à sua tábua de logaritmos ou até mesmo o engenheiro de construir os brinquedos para as pessoas crescidas. Mas a verdade é que teríamos abolido e arrancado do coração de Adão o sentimento da sua soledade. Com a sua cabazada de deuses, os pagãos não eram tão tolos como os pintam: pelo menos tinham conseguido dar a este mundo a ilusão de uma grosseira aliança com o invisível. Mas esse truque hoje em dia não valeria um chavo. Fora da Igreja, qualquer povo será sempre um povo bastardo, um povo de crianças enjeitadas.

Georges Bernanos, Diário de um pároco de aldeia (publicado originalmente em 1936), Paulinas, 2016, pp.23-24.


Livro das horas


Por alguém já te ter querido
sei que te podemos querer.
Ainda que toda a profundidade não quiséssemos ter
quando uma montanha ouro tem escondido
e mais ninguém a quer escavar,
um rio acaba por à luz do dia o mostrar,
porque o silêncio das pedras pôde prender,
sendo ele pleno.

Mesmo que o nosso querer seja pequeno:
Deus está a amadurecer.

Rainer Maria Rilke, O livro das horas (tradução Maria Teresa Dias Furtado), Assírio e Alvim, 2009, 59.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"Agnus Dei - as inocentes"


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O cântico em latim, as laudes da aurora que preenchem o convento, parecem querer sobrepôr-se e abafar os gritos que chegam do quarto: desde um dos momentos iniciais de Agnus Dei - As inocentes, de Anne Fontaine, que parece assinalar-se o quadro de fundo em que o filme mergulha, a saber, a tremenda dificuldade em lidar, num convento, com o nascimento de crianças advindas de violações a freiras, pelas tropas russas, que logo a seguir ao final da II Guerra Mundial, tomam tudo de assalto.

Da cruz vermelha francesa, estacionada na região, chega, de uma filha de comunistas, ateia, uma ajuda que uma das madres, mais "humana", solicita. "Casadas com Deus" como aceitarem, as monjas beneditinas, serem mães (humanas)? Ainda que vítimas de estupro, como consentir, como (absolutas) devotas, qualquer tipo de aborto? Como mães, como assentir em desprender-se das suas crias, permanecendo no convento como se nada fosse, entregando-as para outrem delas tratar? Como fiéis ao seu voto de castidade, como lidar com a desonra, como lidar consigo/com seu corpo (e aceitar que outros lidem com este)? E que ideia de fé: em nome da dignidade do convento, sacrificar as crianças? A madre superior (Agata Kulesza, que víramos em Ida), na sua gélida e temível determinação, oferece os bebés à Providência ("você não acredita na Providência?", dirigindo-se à mais terna das responsáveis do convento, representada por Agata Buzek), embora, no ocaso da narrativa, ela mesma carregada a sífilis, derrame que em nome da honra dos bebés, "perdi-me". 

Em crianças vamos seguros, guiados pela mão materna. Confiança, segurança. Largada esta é como que se a escuridão sobreviesse, e o silêncio a resposta a todas as demandas, a qualquer grito. Assim a fé, com a sua cruz. Os diálogos chegam a ser intensos, entre a médica da cruz vermelha - Mathilde, a soberba Lou de Lâage - e a madre Ana. Então e essa segurança, a fé como consolo? Que nada: 24 horas de dúvidas por um minuto de esperança.

As reacções das diferentes freiras tantas como as próprias presentes no Convento: desde quem entrou naquela casa com escassa fé, levada por um familiar, e entretanto a perdeu por completo, até quem se mantém no limite do racional, recusando tratamento, como mártir a oferecer a Deus (o título, Agnus Dei, cordeiro de Deus, já o sugerindo); desde quem quer ficar com o filho, até quem o confia aos demais para tratar deste. Tudo,envolto em uma grande sobriedade, nunca a realização encenando a violência e os abusos, como se a estética (o não mostrar) estivesse, ainda, ao serviço de uma ética (a do convento, no que este procura encobrir).

Baseado em uma história real, e a partir dos diários de uma médica francesa da cruz vermelha, na Polónia de 1945, com uma realizadora que antes de passar à acção esteve não apenas em retiros para perceber e conceber o quotidiano do convento, como assistindo a conferências sobre o significado da fé. Um dos melhores filmes que vi em 2016.

O tempo é este


Se a forma não é determinante, então tudo remete para a interioridade, o coração, a espiritualidade; a pertinência comunitária deixa de ser importante e lugar teológico (a individualização radical da forma de fé é um dos principais problemas, ou grandes perigos, da nossa época, pp.34-35). Se o passado é mitificado, tudo já foi dito e de uma vez para sempre, toda a história seguinte é história da decadência; a história pouco ou nada conta, pois. E, no entanto, uma comunidade religiosa, uma paróquia, fazem as coisas mais assim, ou mais de outro modo e a maneira como fazem muito indica de como pensam e procuram e tornar Deus presente. Muito embora as origens possam apresentar-se como referência para sopesar do que deve permanecer e do que deve mudar, a verdade é que há um cristianismo por encarnar aqui e agora, com os desafios deste tempo concreto. Todo o tempo é favorável a essa encarnação. O tempo é este. A misericórdia é apresentada por Francisco como a forma de fé que a Igreja deve adquirir (misericórdia, pois, não tanto, aqui, vista num plano pessoal, mas como forma de fé da Igreja). Lugar de visibilidade da experiência cristã, do seu ser visível. Categoria a partir da qual se organizam todos os outros conceitos. Com Tomás de Aquino, tivéramos a ratio, a razão, a lógica aristotélica como forma, moldura, ideia-geratriz - e durou 800 anos (mas agora está em crise; "o conjunto constituído pelo eixo portador da ortodoxia e ortopráxis, dirigido pela categoria de ratio (e de natureza), segundo o princípio da autoridade, deu uma forma de conjunto à fé cristã que dominou durante quase todo o segundo milénio", p.81). Com o Concílio Vaticano II, a forma foi "história da salvação". Os finais do séc.XIX, início do séc.XX, em colocando a tónica nas ideias de mudança, movimento, processo (o progresso, a dinâmica que tudo permeava, nomeadamente o núcleo científico que justamente de aí vivia, se alimentava), colocava a Igreja perante o desafio de não rejeitar a História; a ideia segundo a qual a verdade, o melhor, estão diante de nós, não acima nem a montante - face a isto, o Cristianismo tinha a ideia de que o melhor está no início, dito de uma vez para sempre (contrário à ideia de progresso); uma espécie de idade de ouro, a do início dos tempos, a dos primeiros cristãos.

"Um exemplo sintomático da crise em que nos encontramos é detetável numa narrativa comum a muitas experiências cristãs contemporâneas: a do conflito entre o tempo para rezar e o tempo para cuidar da vida. Na medida em que o segundo parece tirar tempo ao primeiro, a solução mais difundida é um exercício de ascese: levar a vida quotidiana como se fosse uma oração. O problema é que, para a sensibilidade comum, algumas ocupações «gritam» contra esta solução, ao passo que outras parecem naturalmente compatíveis. Não foi um acaso, por exemplo, que, no imediato pós-concílio, a maior parte dos leigos «comprometidos» se tenham dedicado a missões de cura, tornando-se professores, médicos ou assistentes sociais. Estiveram menos presentes nos campos da economia ou do serviço militar, ou naquelas ocupações que não aparecem primariamente como formas de uma vida cristãmente visível e praticável. Além disso, aqueles que foram progressivamente devorados pelos critérios de ação não propriamente cristãos, também devido ao facto de as comunidades eclesiais se terem raramente apetrechado para apoiar os seus membros que habitavam os lugares mais arriscados, como os da economia e do poder em geral.
A raiz deste mal-estar que, por um lado, induz à fuga mundi - porém, só como «fuga» e não como busca de Deus - e, por outro, à consideração de que talvez exista uma parte da vida incompatível com a «espiritualidade» (...) está precisamente nalguns elementos da forma gregoriana. Dito de maneira mais brusca, falta-nos ainda uma «interface» adequada com o outro lado da lógica subentendida na Gaudium et Spes.  O concílio afirmou, de facto, que a Igreja não é um mundo à parte e que os cristãos habitam cidades em que as regras não são estabelecidas só por si. A passagem de uma pertença à outra - quando a mudança é interpretada deste modo - corre, porém, o risco de ser bastante funesta, porque se «somos como todos os outros», que é que nos distingue, enquanto cristãos? Se a diferença é apenas algum elemento de ortopráxis - a participação na eucaristia, um compromisso pessoal  na paróquia, alguma argúcia moral -, é evidentemente louvável no plano pessoal, mas arrisca-se a dar por comprovado que uma vida ordinária segundo o Espírito é hoje impossível. (...) Será de qualquer modo decisivo voltar a considerar a vida segundo o Espírito como um critério e não como um conteúdo. Não é preciso ensinar que devemos rezar mais, mas é necessário construir uma forma de Cristianismo que seja compatível com a vida, não exilada dela" (pp.91-93)

Nas nossas comunidades, nos últimos séculos, transmitiu-se mais a doutrina do que o relato (p.98); preferiram-se os princípios às histórias. Sendo que aqueles não abarcam nem substituem (não são subsumíveis a estas). O catecismo primou sobre a Bíblia (como medo, nomeadamente, da má interpretação desta). As histórias não têm conteúdos que captar; elas são, na sua forma, auto-revelação. A reivindicação da narrativa, de um mundo que para além dela remetem, sem a estreiteza de uma definição, que na sua minúcia e laboratório, tudo já captou, por contraposição doutrinário ("filosófico", se assim se poderá dizer) fica aqui bem clara (em uma tendência que me parece fazer o seu caminho). A forma é revelação e não ocasião para conhecer a revelação (p.110): "As superabundâncias simbólicas vivem de figuras. Funcionam como os bons exemplos com que se pode ilustrar uma explicação. Os exemplos não se limitam a tornar visível e compreensível um conceito, mas abrem para algo de maior, porque chamam à berlinda uma situação vital. Tomemos o termo «relação». Se analisarmos o conceito, poderemos discutir até ao infinito sobre a maior exactidão da definição (...) Se damos exemplos sobre o que é que se «entende» - não apenas sobre que coisa «é» - uma relação, desencadeia-se uma série de mecanismos entre aquele que dá o exemplo e aquele que escuta, que, por sua vez, relê um mundo muito maior (...) É claro que esta lógica paga um preço à exactidão, mas no campo da prática pode ser extremamente fecunda. É o que acontece quando se sai de um curso académico com mais livros para ler e pensamentos para verificar do que com respostas a exibir. Ou quando uma classe inteira estuda o mesmo autor e, no fim, se descobre uma quantidade de elementos que procedem, de forma diferente, de leitor para leitor, gerando uma pluralidade de relações. Na divisão tradicional dos saberes e das artes, sobretudo depois do romantismo, a superabundância simbólica foi delegada - senão mesmo segregada - à poesia, ás artes figurativas e à música, ao passo que a exactidão era característica típica - senão mesmo exclusiva - das ciências matemáticas. A teologia achou-se em grande embaraço, porque - para sermos honestos - tinha necessidade de ambas. Habituados a privilegiar a exactidão conceptual, perante uma recuperação da superabundância simbólica encontramo-nos todos um pouco embaraçados, mesmo e sobretudo a Igreja. O mal-estar provém do deslocamento do centro de gravidade de quem explica para quem escuta: a lógica da superabundância simbólica, de facto, não tem como problema primário «transmitir exatamente aquilo que sou», mas, em vez disso, o de suscitar em quem escuta a superabundância de significado que a sua vida entrelaça com o património daquilo que é conhecido e trazido à palavra comum. Quem está na situação de interlocutor tem, até certo ponto, facilidade de se tornar parte do processo no momento em que toda a escrita do texto diminui a superabundância simbólica, que vive de muito mais" (pp.137-139). E do que precisávamos, afinal, mais do que lugares onde se transmita a doutrina ou os preceitos, é de zonas (lugares) onde se viva "segundo um tempo muito particular" (p.103). O cristão não pode ser aquele que sabe todas as respostas (p.106). O cristianismo deve passar de ser uma verdade, para passar a ser uma vida (p.107). Conquanto se problematize, nesta obra, com muito interesse, a relação entre ortodoxia (correcto entendimento; o que é correcto acreditar) e ortopráxis (o que é correcto fazer), sublinhando-se, de sobremaneira (e sendo algo menos frequente, ainda que longe de constituir-se como original), o carácter teorético do agir, ou o que do agir (a partir do agir, da acção) podemos (vir) a conhecer (como verdade), não me parece que possa, propriamente, descartar-se a necessidade de um esclarecimento doutrinário adequado nem de como este influencia, de facto, a acção - é bom ver-se a questão pela inversa, saber-se que, não raramente, faço o que não quero e não faço o que quero, e o acesso ao certo ou ao verdadeiro, não implica, necessariamente que eu aja em consequência, mas pura e simplesmente, descartar, ou negligenciar essa dimensão parecer-me-ia um erro (e nas contraposições estritas, verdade vs vida, poder cair-se em algum maniqueísmo; se bem que se perceba, em viragem epocal, diferentes acentos a produzir, em se identificando um excesso em um dos lugares - em que se teria ficado encaixado).

O Evangelho de Jesus é semelhante a um sistema de relações, mais do que a um corpus doutrinário (pp.109/110). E, nesta medida, pergunta-se se, na vivência cristã, o cognitivo será o mais importante: "Se, de facto, o aspecto cognitivo é o que mais nos aproxima do Altíssimo (...) por que razão Deus partilhou uma história e não nos deu um livro de instruções?" (p.116). Ocasião para se citar Bonaccorso:

"Porque é que os relatos bíblicos são entremeados por uma quantidade incrível de acontecimentos físicos que parecem ter a intenção de surpreender os programas elaborados pela mente humana? Porquê a Encarnação? Nesta perspectiva, Deus é verdadeiramente outro, ou seja, não é um outro mundo relativamente ao da sensibilidade, mas é o indizível e inexprimível que se confia às linguagens simbólicas da sensibilidade. Sobre este ponto, um contributo decisivo da complexidade à teologia vem da «emergência»"

Em âmbito de relação (das relações), a graça: "podemos encontrar-nos em situações - um casal, o nascimento de um filho, um enamoramento - em que, pelo facto de sermos provocados pela necessidade de uma pessoa a quem queremos bem, nos tornamos capazes de fazer coisas que não supúnhamos minimamente poder realizar. É como se o outro chamasse à vida uma parte de que mim que sou eu mas que, simultaneamente, não me posso dar sozinho
A teologia clássica chamava «graça» a toda esta dinâmica extremamente real mas dificilmente explicável com a pura lógica da causalidade. Isto é, existe na teologia um território intermédio relativamente à conceptualidade e à pura causalidade: é o reino da graça, que resistiu a toda a classificação e conceptualização. Esta superabundância é denominada, na epistemologia da complexidade, «emergência». É estudada em física, na dinâmica das relações humanas e, com termos análogos, em teologia: uma relação não coincide com a soma de uma série de atos, mas é muito mais." (p.118)

Sobre o Além-Mundo: "No plano teológico, perfila-se a interessante perspectiva segundo a qual a vida humana se abre a situações novas e, enfim, à sua consumação final, não porque está radicada numa natureza extra-física, mas porque avança num caminho histórico em direcção a complexidades irredutíveis aos estados precedentes. Se, graças à sua complexidade (relativamente ao resto do universo conhecido), a biosfera tende a contrapor-se à destruição e se, graças à sua maior complexidade, o corpo humano leva àquelas elaborações mentais em que ainda é mais marcado o esforço de se emancipar da morte, pode-se postular que, se por acaso houver uma vida para lá da morte, ela deve ser entendida como um nível ainda mais complexo do corpo: um corpo ressurgido, um corpo espiritual. A emergência e o consequente monismo não reducionista não podem, por certo, dar informações sobre uma eventual vida depois da morte, mas fornecem um modelo segundo o qual a fé numa vida depois da morte deve ser considerada não tanto como imortalidade de uma realidade incorpórea, mas como complexidade de uma realidade corpórea" (Bonaccorso, citado a págs.121)

Sobre os excessos do centrar na causalidade: "Hoje, a certeza de que Deus é a causa do mundo não conduz ninguém à fé. A nossa experiência de fé move-se a partir de uma outra intuição originária: acreditamos porque experimentámos a misericórdia. Todo o crente é tal porque, num momento da sua vida, num lugar e num tempo precisos, intuiu e experimentou uma bênção, em geral, uma experiência de misericórdia. A raíz da fé não tem nada a ver com a lógica da causalidade, mas pelo contrário é, muitas vezes, uma misericórdia sem causa, e é exatamente nisso que está o seu carácter explosivo, a estupefacção" (p.124)

[a partir de Stella Morra, Deus não se cansa, Editorial A.O., Braga, 2016]

Deco

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Como deve actuar um automóvel autónomo em caso de acidente?

A bola é redonda

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1.Lendo-se a entrevista de Fernando Gomes (FPF), hoje a ABola, percebe-se que o modelo da Liga dos Campeões será revisto em 2021, data a partir da qual é possível, ou provável, que venhamos a ter um modelo fechado tipo NBA, com os clubes a participarem na prova por convite. Gomes reconhece que não está fácil compatibilizar os interesses dos maiores tubarões futebolísticos europeus e os clubes de ligas menos prósperas (em termos económicos), e as reuniões, várias, ocorridas ao longo de 2016, neste âmbito, confirmaram as posições divergentes que se assinalaram. Já em 2017 vai ser criada uma empresa para tratar dos próximos ciclos da Champions, empresa esta formada, em 50%, pela Uefa, e na restante metade pela EGA (European Club Association). 

2.As selecções de futebol, exceptuando os A, geram um défice anual na ordem dos 12/13 milhões de euros, só possível e passível de ser compensado com a presença da principal selecção em Europeus e Mundiais. No entanto, da maneira como os prémios estão distribuídos, a Taça das Confederações dará prejuízo à FPF (primeiro jogo da Selecção portuguesa a 18 de Junho de 2018).

3.O Gil Vicente, o seu Conselho de Administração, aceitou vender 60% do capital ao empresário Gérard Lopez. Que tomará conta também do Lille a partir de 20 de Janeiro. Depois da Red Bull acumular clubes na Áustria (Salzburgo), Alemanha (Leipzig) e EUA (e se o Salzburgo defrontar o Leipzig?), parece prosseguir este caminho de concentração empresarial (e de perda dos sócios). Comum à aquisição de Lille e Gil Vicente estará, segundo ABola, o dedo de Luís Campos

4.Depois de um sólido primeiro terço (quase metade do campeonato), o G.D.Chaves prepara-se para perder dois jogadores nucleares da equipa: Bataglia regressa a Braga e Assis parece ir fazer o mesmo caminho (segundo ABola de hoje; ontem, OJOGO dava conta de que o jogador estaria entre o Marselha e o Bétis). De acordo com OJOGO, propostas por Paulinho e Perdigão, dos flavienses, estão também a ser analisadas. É certo que os transmontanos têm uns (aparentemente) confortáveis 22 pontos, mas convém não abusar (no desmantelamento do plantel). Se OJOGO falava numa saída de Assis a troco de 3 milhões pelo seu passe, hoje ABola fala no interesse (possível troca) em Pedro Tiba, do Braga. Mesmo 3 milhões não me parecia a verba possível de arrecadar, dada a qualidade, e sobretudo a consistência/regularidade do jogador em causa; sair por uma troca (se tais dados viessem a confirmar-se) menos bom, ainda, o negócio.

5.Importante, igualmente, a entrevista ontem concedida ao jornal OJOGO por Luís Gonçalves (diretor-geral do FCP). O mau estado financeiro do clube fica patente ao longo de toda a intervenção do responsável pelo futebol do FCP, com a concomitante aposta (tarde e a más horas) na formação (a ser uma aposta obrigada e não convicta, e não podendo deixar de gerar um downgrade de expectativas, ou, pelo menos, de resultados). Quando, ainda há meses, Pinto da Costa garantia que com o novo contrato televisivo por 10 anos, o clube não precisaria, anualmente, de vender o passe dos seus principais jogadores, não deixa de ser extraordinário que os responsáveis do clube prevejam mais de 100 milhões em vendas para esta época desportiva. Que ninguém coloque essa questão ao Presidente do FCP, nas entrevistas que vai dando (a última das quais, ao JN, há não muitos dias) é outro mistério. 40 milhões é uma cláusula escassa para o passe de Danilo, e se André Silva viesse a confirmar as previsões mais optimistas (e não sendo isso que se viu nesta primeira metade da época, com um André Silva naturalmente com muito para crescer e melhorar) também o valor da sua cláusula não seria especialmente bem delineado para uma posição tão valorizada como a de ponta de lança.

6.Percebe-se que Luís Freitas Lobo escreva que o Porto tem o melhor futebol do campeonato, atendendo às últimas exibições azuis-e-brancas (mas depois de um longo inverno, com um futebol insuportável). De facto, o FCP-Chaves foi, provavelmente, o melhor jogo do campeonato, e jogos no Dragão frente ao Braga e clube da luz foram algum do melhor futebol que se viu nesta primeira metade da época. Face a este futebol, os altos e baixos do sporting, o futebol "mais empolgante" porque jogado na vertigem (diz Lobo) e a consolidação, não propriamente entusiasmante, na luz (uma espécie de excelência da mediocridade, a mediocridade mais perfeita, sem falhas, exata).

7. No dia seguinte ao FCP-Chaves poder ler-se no editorial do Record que "não há dúvida de que os Dragões têm várias razões de queixa", e que são tantos os erros, no mesmo sentido, que se está a levar o campeonato "ao descrédito" era a prova provada de que o rei vai nu. Quando um dos jornais do regime, o diz de modo tão claro, pouco haverá a acrescentar. José Manuel Ribeiro, por outro lado, constata que se as análises, jornada a jornada, podem divergir, objectivo é que Portugal não conseguiu ter um único seu representante na arbitragem, no mais recente europeu de futebol. Como é que eles diziam? A arbitragem está muito melhor. Pois está.

8. Concluamos com um momento vintage. Uma ode ao sr.Presidente da FPF. Podíamos seleccionar uns versos de José Manuel Delgado (que hoje também não se faz rogado), mas, fanático por fanático, o momento zen do nosso comentariado, o mais fino espírito do futebol português, a taça da claque vai para Fernando Guerra. Como diria a minha tia Maria, "eles não se enxergam". Ou, então, cada um tem os elogios de quem merece. Fernando Gomes arrisca-se a ter mais manchetes e capas de ABola do que Luis Filipe Vieira:

"O futebol português é, pois, um exemplo único quanto à enorme qualidade de jogadores e árbitros. O ator mal visto continua a ser o dirigente (...) o que mais valoriza a sublime intervenção de Fernando Gomes, desde que em dezembro de 2011 tomou posse como presidente da FPF. De tal maneira a mudança que se justifica falar em antes e depois de Fernando Gomes. A vitória no Europeu de 2016, em França, é apenas a consequência mais gratificante desse extraordinário projecto, apoiado por uma estrutura profissional, ambiciosa, competente e provocadora até, no sentido de se antecipar aos desafios do futuro. A FPF é hoje uma referência, exatamente por lhe ser reconhecida indelével capacidade de inovar e organizar, tendo sido com naturalidade que se soube do seu papel determinante na eleição de Gianni Infantino para a FIFA. Testemunho de que, a este nível, a Federação Portuguesa de Futebol também é maior do que o país e Fernando Gomes, o seu líder (...) senhor de vasta influência internacional e arquiteto de obra notável, fechou o quadrado: Portugal tem o melhor dirigente do mundo".


A escola no proscénio


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O mais recente filme sobre a escola (sistema educativo) que vi, em 2016 (altura em que chegou às salas portuguesas, embora se trate de um filme esloveno de 2013), da autoria de Rok Bicek (de 31 anos), tem, como principal mérito, a meu ver, a forma distanciada como se coloca face às razões dos diferentes actores da/na escola, sem pretender dar, propriamente, uma (unívoca) lição de moral (ou uma escolha de campo), optando por expôr os diferentes ângulos a partir dos quais pode a mesma escola (hodierna) ser olhada.

Pode um professor impôr uma metodologia radicalmente diversa da que encontra na escola para a qual é contratado, para substituir uma colega? Não arrisca tornar-se num D.Quixote, ineficaz, incapaz de mobilizar um só dos seus alunos? Deve ser o Professor complacente com o que considera ser um clima de desordem e disciplina, sem exigência, que não prepara os alunos? Faz sentido uma liderança autoritária e austera em tempos horizontalizados? ("Bem-vindo ao século XXI", diz-lhe a diretora) Nenhum limite deve ser colocado à horizontalidade

Não é pueril (para lá de desrespeitoso) os alunos tratarem, em virtude da menor proximidade e maior austeridade do novo professor, o docente como nazi? Que argamassa de uma turma que não se encontra uma vez unida para falar sobre o caso da colega (Sabina) que se suicida? Não estão os alunos a desrespeitar tanto a colega (falecida) como alegam que o professor o faz, na medida em que dela (da sua morte) se aproveitam para erguer, a partir de aí, uma luta contra o sistema (educativo)? Mas não erra, de facto, o professor quando imediatamente após a morte da aluna diz "a vida continua", numa frieza brutal? Não haverá espaço a emoções na escola? Como se faz o luto, se se pretende ignorar a morte ("não temos tempo para o terceiro momento do luto [a tristeza]", afirma um aluno, em tom de constatação).

E a diretora da escola, complacente com a arrogância do novo professor - autoritário e no limite da impassibilidade e indiferença para com os outros (interpretação notável de Igor Samobor) -, ou algo temerária face à rebelião dos alunos? E que cultura, na escola, que referentes? "De que música clássica estás a falar? Afinal, o que está em cena? Mozart, música clássica, ou "El Clássico", Messi?, Xavi?" (atira, no tom empertigado e altivo de sempre, para uma colega de Educação Física, o professor de Alemão). Um professor que não julga que na escola há o direito à felicidade, o Secundário não é um direito, mas um dever e um privilégio, a escola não deve estar forrada a sentimentalismo e deve elevar até ao limite, está errado? Mas, por outra: ensinar não com, mas, no fundo, contra os alunos dá algum resultado? E aos alunos, mesmo não gostando, desde logo, da abordagem inicial do novo teacher, não terão obrigação de procurar superar estados de alma e concentrar-se na aprendizagem e no conhecimento? Que relacionamento (humano) mínimo será exigível entre professor e alunos para que a transmissão do conhecimento possa ocorrer? Não é uma condição prévia (necessária) a qualquer ensino, a qualquer transmissão de conhecimento, um laço que una de algum modo?

E que decisão é essa a do suicídio? A certa altura, a melhor amiga de Sabina, na composição, em alemão, comentando uma afirmação de Thomas Mann, o mais lídimo representante do humanismo - que, ainda que de um modo porventura paradoxal, pretenda ser assumido pela figura do Mestre todo-poderoso, ele que apenas parece enlevar-se e deixar-se ir pela música de Mozart - que afirmava que pior do que aquele que se suicida ficam os que permanecem (à sua morte, e permanecem com a sua morte), assinala como Sabina não quis pensar na família, nos amigos, na gata. Deixamos, neste momento da narrativa, de estar centrados no modo rude, severo, injusto até do professor - para com Sabina - identificado, sem complexidade de formulação (e veja-se que a falta de empatia mútua é enorme, e a incapacidade de se colocar no lugar do outro é de tal ordem que quando a diretora conta a um dos líderes da insurreição que Sabina era adoptada e que certamente teria interiorizado negativamente as palavras que este lhe dissera sobre o que são famílias normais na aula de ginástica, embora não sabendo este aluno da situação familiar da colega, ele não aguenta e vomita como somatização de um estádio de culpa que entretanto passa a assumir, apesar da diretora ser clara ao sublinhar que não foi certamente por isso que a colega se suicidou: como quem diz, não há uma causa exata, única, para o trágico desenlace), como o responsável pela morte da aluna (pelos colegas de Sabina), para passarmos à culpabilização da própria suicida, mas talvez aqui lembrando que nenhuma morte é estritamente individual (dado que somos seres de relação; e ("só") porque morreu o Alves da tabacaria, a cidade mudou).

E os colegas do Professor de Alemão, o dr.Robert Zupan? Corporativistas? A ver o que lhes sucederá a eles se a rebelião dos alunos não for travada? Preocupados com os alunos, ou, sobretudo, consigo mesmos? Desconfiados do colega? Com medo do que virão a dizer os jornalistas, ou centrados no percurso de uma juventude que surge a navegar, como que perdida, na viagem de finalistas? Bem ou mal, a vossa colega tomou uma decisão (aqui, Zupan assume o carácter filosófico, uma não psiquiatrização, da decisão de Sabina; a única questão da filosofia é o suicídio, dirá o Camus, de Sísifo; vocês, nem o que querem comer decidem). A pressão das expectativas - da escola, dos pais -, a vontade de liberdade quando a dependência dos progenitores ainda está para durar, eis o desafio explicado pela psicóloga da escola, ela mesma, às tantas, sem o antídoto para um outro comportamento dos alunos. E, pelo meio, na reunião de pais, para se perceber que medidas a adoptar em função da indisciplina da turma, uma espécie de salve-se quem puder, cada um a olhar por si, como se a fragmentação e os estilhaços, nunca uma visão de uma comunidade (próxima), fossem a única realidade da educação que aí vai.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Globalização (II)

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Jorge Pedreira e as origens da globalização:

Autores "tão reconhecidos" como Kevin O'Rourke e Jeffrey Williamson varrem da história da globalização "os relatos coloridos de exploradores" e "identificam o século XIX como o período áureo da integração dos mercados": "uma verdadeira revolução dos transportes, com a correspondente queda dos custos, e o liberalismo teriam feito a globalização depois do primeiro quartel de Oitocentos. Antes não houvera significativa convergência dos preços, e o comércio internacional, baseado em produtos que não concorriam uns com os outros (troca das manufacturas da Europa pelas matérias-primas, géneros tropicais e artigos de luxo dos outros continentes) pouco afectava a vida das populações, com excepção dos mais ricos, e condicionava escassamente a estrutura interna das economias dos países, mesmo daqueles que mais participavam nesse comércio" (pp.52/53)

Face a esta leitura, um posicionamento crítico, com recurso a Fernand Braudel:

"A noção de que os monopólios e a limitação da concorrência impedem a globalização e de que, por esse motivo, esta não poderia desenvolver-se sob o regime dos monopólios merece uma análise mais pormenorizada (...) O que está em causa nessa primeira fase, plurissecular, da globalização não é tanto que os mercados construídos a longa distância se encontrem plenamente integrados, mas que existam. Mas, ainda relativamente à integração dos mercados, a medida exacta, tanto ou mais do que a convergência de preços (...) será a covariação dos preços num mesmo sentido. E, neste ponto, Braudel detetou a propagação, desde o séc.XVI, de ondas de variação dos preços que, partindo da Europa Ocidental, de Antuérpia em particular, se transmitem por efeito da monetarização da economia a Moscovo e ao Extremo Oriente, a Manila e a Macau" (pp.53/54)


[Jorge Pedreira, Os paradoxos da globalização, in Estudos sobre a globalização, org. Diogo Ramada Curto, Edições 70, 2016, pp.41-58]

Religião em Roma


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Os romanos sabiam que os deuses existiam; não acreditavam, propriamente, neles. Em Roma, na religião romana, não há algo como "um sistema de crenças", nem, tão pouco, um livro sagrado. Há um conjunto de rituais a observar para agradar aos deuses, e, em algo correndo mal, das sementeiras às colheitas, é na forma, na correcta observação do rito que se coloca a questão. A religião não está ligada, pois, a uma dada moralidade pessoal, nem a uma salvação pessoal. O calendário está organizado em festividades que o religioso também marca e que, por exemplo, em Fevereiro desafia a concepção/imagem que tenhamos dos romanos como conservadores: jovens homens nus, pelas ruas, de chicote em punho para com as raparigas que encontrassem (isto, durante o festival de Lupercalia), que Shakespeare trará à cena em Júlio César

Globalização

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Sobre as origens (ou os marcos fundamentais) da globalização, costumam ser assinaladas quatro datas, ou momentos determinantes:

a) séc.XVI e "os novos mundos ao mundo" que os portugueses deram, gerando, nomeadamente, novas e importantes redes mercantis (capitalismo comercial quinhentista);

b) segunda metade do século XIX, com maior integração dos mercados, um peso inédito do comércio internacional e convergência de preços a essa escala;

c) início da segunda metade do séc.XX com a emergência, no pós II Guerra Mundial, de Instituições de Cooperação Económica Internacional, ainda hoje de relevo;

d) últimas três décadas, em especial finais do séc.XX/início do século XXI.

[E, numa versão menos eurocêntrica, notar-se-ia que mesmo antes do séc.XVI, noutras zonas e com outras potências essa rede de comércio principiou a ser gerada]

Mas, em qualquer destes casos, estamos a falar do mesmo fenómeno quando falamos de "globalização"? A resposta de Álvaro Ferreira da Silva é, claramente, negativa. A globalização do séc.XIX, para só recuarmos até esta data, foi muito diferente da do séc.XVI e, por exemplo, hoje não temos o sistema de câmbios fixos que no séc.XIX existiam, e o próprio Estado é hoje bem mais interventivo do que nos oitocentos.

Do ponto de vista económico, podemos definir globalização como "integração à escala da economia mundial dos diferentes mercados de bens, capital e trabalho" (p.24)

A globalização é uma escolha e não um dado da natureza ("não fora fruto de um progresso irresistível, ditado apenas por transformações tecnológicas no domínio dos transportes e comunicações ou da tecnologia da produção, uma visão que por vezes é mais enfatizada do que a componente de escolha", p.30). No entanto, há 100 anos, como até há bem pouco tempo, entendia-se a globalização como inevitável, um processo sem atrasos nem recuos. Em 1914, a explosão da I Guerra Mundial levou a que a globalização ficasse entre parêntesis, e a emergência comunista, alheia a qualquer lógica de integração dos mercados, mais a debilitou. A integração no pós-II Guerra "pareceu ser um compromisso conseguido entre soberania nacional, democracia política e reanimação da economia internacional, depois do neomercantilismo entre guerras" (p.30). É polémica/controvertida a asserção de que os anos de ouro do pós-guerra se devem a este controlo estatal (em vez de uma hiper-globalização, nos termos hodiernos de Dani Rodrik, que formulou o trilema decisivo entre democracia, soberania, hiper-globalização). O fim do comunismo e a queda das economias menos desenvolvidas em África ou na América Latina, que haviam prosseguido formas de nacionalismo económico, levou, de novo, ao incremento da globalização (e "uma progressiva desregulamentação fez também desaparecer grande parte dos anteriores controlos sobre os movimentos financeiros").

A globalização não é um processo impessoal e sem agentes. Existem agentes óbvios - os Estados, nas macro-decisões; as empresas, nas micro-decisões; os consumidores; diferentes instituições, universidades, mass-media, ONG'S, multinacionais.

A globalização apresenta "custos sociais inegáveis", sendo, certo, todavia, que as suas vantagens foram, igualmente, claras: "o acréscimo de integração económica tem contribuído para a subida dos rendimentos reais da população, diminuir a pobreza e aumentar o bem-estar, ampliar a capacidade de escolha" (p.36)

Não podem, em qualquer caso, ignorar-se os perdedores da globalização:
i) trabalhadores de empresas que fecham, ou se deslocalizam;
ii) pressões para a desregulamentação (mercado de trabalho, serviços públicos privatizados, sistemas fiscais e consequências ao nível das receitas e, logo, do Estado Social);
iii) segurança do consumidor e do meio ambiente.

Solução: manter integração económica, mas com reforço de formas de regulação e controlo

[a partir de Álvaro Ferreira da SilvaA globalização económica, história e actualidade, in Estudos sobre a globalização, org. Diogo Ramada Curto, Edições 70, 2016, pp.23-41]

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Um estorvo


A religião e a política (em mais um texto), no contexto espanhol, em Miguel Belloso, hoje no DN. Mostrando como para uma certa direita (liberal), as raízes democrata-cristãs são um estorvo. Bastante interessante constatar, como, apesar de tudo, tais raízes, a chegarmos a 2017, ainda são evocadas (e, pelos vistos, ainda bem, ainda condicionam e marcam as opções e escolhas para a cidade). Eis um excerto:

A ceder a custódia da própria vida ao Estado desde que nascemos até que morremos. Este é um veneno incubado com sucesso no corpo social do meu país, que contaminou todos os partidos, entre eles o PP, avivando o seu ramo democrata-cristão, que acredita que o capitalismo é incompatível com a fé católica e que o liberalismo te leva diretamente ao inferno.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Da dimensão social e política do cristianismo


Da entrevista, de hoje, feita pela RR/Público a José Tolentino de Mendonça:

Aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa e mesmo António Guterres trazem de bagagem cultural, e até de experiência de Igreja, está a mudar alguma coisa?
Para a Igreja, é um desafio olhar para estas e outras figuras, de não desistir, de ser também uma escola do compromisso político. E ser um lugar de acompanhamento próximo da realidade, sobretudo no trabalho com os mais jovens, no sentido de gerar uma sensibilidade humana para que depois, na diversidade do espectro político, um determinado ADN de valores esteja presente. Os nomes que citou, e de tantos outros que na política têm essa proveniência do espaço católico, é uma influência que qualifica a nossa democracia. E isso constitui, até mais do que um motivo de orgulho da Igreja, o desafio muito grande de abraçar uma tarefa de formação, de transmissão de valores, de apaixonar as novas gerações pela causa pública e pela nobreza da vida política. Esse é um trabalho que a Igreja tem de fazer com maior intensidade. No interior do catolicismo, depois dos anos de 1960 e 70 em que o envolvimento político e no mundo social era uma bandeira muito expressiva do viver cristão, passámos para um tempo em que a fé tem sido uma procura mais solitária, mais privada, mais individual. É necessário chegar a um equilíbrio, porque o cristianismo ficará sempre incompleto sem essa dimensão social.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Livro das horas (II)


Não te podemos arbitrariamente pintar,
a ti, alvorecer, do qual a manhã brotou.
(...)

Formamos imagens de ti como paredes de permeio;
de modo que mil muros de ti fazem rodeio.
Pois a ti escondem nossas pias mãos,
todas as vezes que aberto te vêem nossos corações.

Rainer Maria Rilke, Livro das horas, tradução Maria Teresa Dias Furtado, p.33

Livro das horas


No entanto por mais que olhe para dentro de mim:
o meu Deus é escuro e como uma trama
de cem raízes que em silêncio bebem.
Apenas sei que me ergo de sua chama,
e mais não sei, pois todos os ramos assim
repousam bem fundo e só ao vento acedem.

Rainer Maria Rilke, O livro das horas, Assírio e Alvim, 2009, p.31


sábado, 17 de dezembro de 2016

História da Ética (II)


Uma ética filosófica pode ou não pode encontrar o seu fundamento último na abordagem filosófica de Deus? A maior parte das filosofias ocidentais até ao século XVIII concordaram com a tese da fundamentação da ética no Deus encoberto pela razão. Esta tese não implicava uma confusão entre o discurso filosófico e discurso da fé. Significativo a esse respeito foi o caso de Tomás de Aquino (1224-1274), que soube muito bem distinguir discurso filosófico e discurso de fé. Com certeza Tomás de Aquino incorporava a filosofia como auxiliar - ou serva - da teologia (ancilla theologiae), mas não caía na confusão dos géneros, tanto mais que sentiu como sua tarefa primordial e como ponto de partida da sua reflexão a necessidade de assumir o pensamento de Aristóteles. A novidade da ética filosófica em Tomás de Aquino consistiu assim em mostrar filosoficamente que a finalidade última do agir humano reside em Deus; Deus é criador e causa final suprema, de tal modo que o sentido da existência humana e cósmica é o regresso (reditus) a Deus. A sua argumentação repousa na metafísica aristotélica do acto e da potência, graças à qual descobre que a tensão da busca humana para a verdade e para o bem não pode explicar-se se não existe efectivamente um Deus infinito que atrai a si todo o universo finito. (...)
Muitos pensadores cristãos - entre os quais Paul Ricoeur - consideram, com efeito, que a ética filosófica pode encontrar uma fundamentação independentemente da sua fé. Consideram que a fé não invalida nada da ética filosófica, de tal modo que esta, do ponto de vista puramente racional, deve desenvolver-se, segundo a expressão do teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, etsi Deus non daretur, como se Deus não existisse. Esta expressão não é confissão de ateísmo, mas tem uma significação meramente metodológica: mesmo para um cristão, uma ética filosófica deve procurar nela própria a sua consistência e a sua fundamentação, de tal modo que possa ser partilhada por não crentes. Nesta perspectiva, diferente da posição escolástica, o suplemento que a fé traz à ética filosófica não retira a esta nada da sua autonomia

Michel Renaud, A evolução histórica da ética, in Ética. Dos fundamentos às práticas, Edições 70, 2016, pp.129-131


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Roma (antiga) (VI)

Resultado de imagem para Santa Perpétua

Roma (antiga) e o Cristianismo:

A melhor estimativa é que por volta de 200 d.C. havia cerca de 200 mil cristãos no Império Romano, de entre 50 a 60 milhões de pessoas, embora possam ter sido mais visíveis do que esses números sugerem, pois concentravam-se esmagadoramente nas cidades; a palavra «pagão» era o seu termo para todos os que não eram cristãos ou judeus e significava tudo desde «forasteiros» a «rústico». (...)
De tempos a tempos ao longo dos dois primeiros séculos depois de Cristo, as autoridades romanas puniam os cristãos. (...) Serviam ocasionalmente como bodes expiatório, tal como quando Nero decidiu transferir a culpa pelo grande incêndio de Roma em 64 d.C. para eles. Eram candidatos plausíveis, talvez, pois alguns cristãos profetizavam que o mundo acabaria em breve em chamas. As cartas entre Plínio e Trajano sugerem que havia alguma legislação romana que, quer fosse explícita ou implicitamente, proibia a religião, apesar de não sabermos mais do que isso. A incerteza e confusão de Plínio são reflectidas em algumas outras ocasiões quando os romanos decidiram punir os cristãos em diferentes partes do império, desde a Gália até África.
Um momento particularmente revelador é descrito no relato do seu próprio julgamento, por uma mulher cristã que foi condenada a ser morta por animais selvagens no anfiteatro da Cartago romano em 203 d.C. Víbia Perpétua, uma cristã recém-convertida, tinha cerca de vinte e dois anos de idade, era casada e tinha um bebé quando foi presa e apresentada perante o procurador da província, que actuava no lugar do governador que tinha morrido recentemente. As suas memórias são o relato mais longo e íntimo feito por uma mulher das suas próprias experiências a chegar até nós de todo o mundo da antiguidade, incidindo nas suas ansiedades acerca do seu filho e nos sonhos que ela tivera na prisão antes de ter sido atirada às feras. Neste mesmo relato, surge a frustração do seu interrogador e o seu grande desejo dela se retratar. «Tem piedade dos cabelos brancos do teu pai, tem piedade do teu bebé», pediu ele insistentemente. «Faz apenas um sacrifício para o bem estar do imperador». «Não o farei», respondeu ela. «És uma cristã?», perguntou ele, colocando agora uma questão formal. Quando ela disse que sim - Christiana sum - foi sentenciada à morte. O  procurador ficou, obviamente, perplexo e, ao que parece, o mesmo aconteceu com a multidão que a viu morrer no anfiteatro. Os desportos sangrentos romanos obedecem a um conjunto bastante estrito de regras. Eram os animais e criminosos e a subclasse de escravos que conheciam a sua morte, não as jovens e as mães. De facto, «a multidão arrepiou-se perante esta cena», quando viram que a mártir que estava com a Perpétua, Felicitas, tinha leite a pingar do peito. Então porque estavam os romanos a fazer aquilo?
Independentemente da letra da lei ou das circunstâncias exactas de qualquer julgamento individual, havia um confronto irreconciliável entre os valores romanos tradicionais e o cristianismo. A religião romana não era toda politeísta, mas tratava os deuses estrangeiros como tratava os povos estrangeiros: através da inclusão. Desde a tomada de Veios no início do século IV a.C., Roma tinha, de modo regular, acolhido os deuses dos povos conquistados. Havia, de tempos a tempos, controvérsias e ansiedades acerca disto; os sacerdotes da deusa egípcia Ísis foram expulsos da cidade de Roma em mais de uma ocasião. Mas a regra básica era que, à medida que o Império Romano se expandia, também se expandia o seu panteão de divindades. O cristianismo era, em teoria, um monoteísmo exclusivo, o qual rejeitava os deuses que durante séculos tinham garantido o sucesso de Roma. (...) Para os romanos, o cristianismo era muito pior [do que o judaísmo]. Primeiro, não tinham um lar ancestral. Na sua geografia ordenada, os romanos esperavam que as divindades fossem de algures: Ísis do Egipto, Mitra da Pérsia, e o Deus judeu da Judeia. O Deus cristão tinha raízes, afirmava ser universal e procurou mais adeptos.  (...) O cristianismo era definido inteiramente por um processo de conversão espiritual que era ulteriormente novo. Além disso, alguns cristãos pregavam valores que ameaçavam derrubar algumas das presunções mais fundamentais greco-romanos acerca da natureza do mundo e do povo nele: que a pobreza, por exemplo, era boa; ou que o corpo devia ser domado (...) Ao mesmo tempo, o sucesso do cristianismo estava enraizado no Império Romano, na sua extensão territorial, na mobilidade que promovia, nas suas cidades e na sua mescla cultural. Desde a Bitínia de Plínio até à Cartago de Perpétua, o cristianismo disseminou-se a partir das suas origens de pequena escala na Judeia, em grande parte devido aos canais de comunicação por todo o mundo do Mediterrâneo que o Império Romano tinha aberto e devido ao movimento através desses canais de pessoas, bens, livros e ideias. A ironia é que a única religião que os romanos alguma vez tentaram erradicar foi aquela cujo sucesso o seu império tornou possível e a qual cresceu inteiramente no seu do mundo romano.

Mary Beard, SPQR, Bertrand, 2016, pp.563-567

Roma (Antiga) (V)


Roma (antiga) e o Cristianismo:

Provavelmente Plínio [advogado, defensor, ex-cônsul, novo governador da Bitínia, em 109 d.C. nomeado pelo Imperador] e Trajano [Imperador] teriam ficado surpreendidos ao descobrir que, dois mil anos mais tarde, a sua mais famosa troca [epistolar] estaria relacionada com o aparentemente insignificante, mas desagradável e desgastante, novo grupo religioso: os cristãos. Plínio admitiu que não sabia como lidar com eles. Para começar dera-lhes várias oportunidades para se retratarem e executara aqueles que não o faziam («a sua teimosia e obstinação inflexível devem, sem dúvida, ser castigadas»). Contudo, foram-lhe trazidos muitos mais nomes, à medida que as pessoas começaram a tentar resolver velhas disputas acusando os seus inimigos de serem cristãos. Plínio continuou a permitir aos que eram investigados que se retratassem, desde que provassem a sua sinceridade derramando vinho e incenso à frente das estátuas dos imperadores e dos verdadeiros deuses. Mas para descobrir o que estava no fundo de tudo aquilo, ordenou que duas escravas cristãs fossem torturadas e interrogadas (tanto na Grécia como na Roma antigas, os escravos só podiam apresentar testemunhos legais sob tortura) e concluiu que o cristianismo «não é mais do que uma superstição perversa e rebelde». Ainda assim, desejava que Trajano confirmasse que aquela fora a abordagem certa. E foi mais ou menos isso que o imperador fez, embora tivesse acrescentado uma nota de prudência: «Os cristãos não devem ser perseguidos», escreveu, «mas se forem acusados e considerados culpados, têm de ser castigados». Esta é a mais antiga discussão sobre o cristianismo, fora da literatura judaica e cristã, a ter chegado até nós. (...) [As cartas de Plínio] apontam para dilemas mais vastos acerca das relações oficiais com os cristãos que, com o passar do tempo, se tornariam um dos conflitos mais desagregadores do mundo romano.

Mary Beard, SPQR, pp.521-523


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Roma (antiga) (IV)


Roma (Antiga) e o Cristianismo:

Exceptuando uns poucos extremistas filosóficos, ninguém no mundo romano acreditaria seriamente que a pobreza era honrada - até à expansão do cristianismo (...) A ideia de que o homem rico pudesse ter algum problema em entrar no reino do céu teria parecido tão disparatada aos que conviviam no nosso bar de Óstia como ao plutocrata na sua mansão.

Mary Beard, SPQR, 517.

Roma (antiga) (III)


Fora do mundo das elites, que literatura em Roma? E dada a brecha entre ricos e pobres, porque não se deu uma revolução?

Este é igualmente o tom que pode ser captado no único género de literatura romana dominante que pode reclamar uma origem fora do mundo da elite: a fábula animal. As mais famosas destas histórias foram atribuídas a Esopo, supostamente um escravo grego de séculos anteriores, que continua a dar o seu nome às colecções modernas (Fábulas de Esopo). Mas em Roma uma outra figura, que adaptou as versões mais antigas e compôs novas versões, com um toque especificamente romano, foi Fedro, um ex-escravo da casa imperial que escreveu durante o reinado de Tibério, no início do século I d.C. muitas destas histórias resumem claramente as iniquidades da sociedade romana e o ponto de vista dos mais pobres, pondo os pequenos animais do mundo, como raposas, sapos, ovelhas, contra as criaturas de poder, sob a forma de leões, águias, lobos e falcões

[E porque não houve revolução, apesar do enorme fosse entre ricos e pobres na Roma Antiga?] Uma resposta é que, provavelmente, havia mais conflitos do que os que foram registados, mesmo que se tratasse, na sua maioria, de actos de guerrilha e não de franca revolta: ovos podres atirados às cortinas de uma cadeirinha de passagem e não ataques coordenados aos portões do palácio imperial. Os escritores romanos não tinham grande olho para os níveis de instabilidade moderados. Mas os imperadores sentiam-se, decerto, ansiosos em relação ao tipo de recepção que receberiam quando se apresentavam em público para assistir a jogos ou espectáculos. E (...) existem provas de motins violentos ocasionais em Roma e noutras cidades do Império. A principal causa era a perturbação do fornecimento de alimentos. (...)
Outra resposta é a de que, apesar da grande disparidade de riqueza, do desdém da elite pelos menos afortunados, e da chocante dualidade de critérios, havia uma sobreposição cultural maior entre os ricos e, pelo menos, os «medianos» de Roma (...) Afaste-se o superficial, e as duas culturas revelam-se mais permeáveis do que pareciam à primeira vista, o ponto de vista das andorinhas nem sempre assim tão diferente do das serpentes.


Mary Beard, SPQR, pp.511-514

Roma (antiga) (II)


E face aos infortúnios da vida, a criminalidade, um incêndio, que instituições oferecia Roma Antiga?


Havia poucos recursos e quase nenhuns serviços públicos regulares para mitigar estas crises. Na cidade de Roma, no século I d.C., existia um pequeno e rudimentar serviço de bombeiros, mas este estava equipado apenas com alguns cobertores e baldes de água e vinagre para apagar as chamas, dependendo acima de tudo da demolição das propriedades envolventes para impedir o avanço do fogo - o que era uma boa ideia, desde que não se morasse numa dessas propriedades. E não havia uma força policial à qual pudessem ser reportados os crimes ou através da qual se pudesse procurar compensação. A maior parte das vítimas de crimes dependeria de homens fortes ou amigos, familiares e vigilantes locais para se vingar da pessoa que acreditavam responsável. Não existia qualquer sistema para lidar eficazmente, mediante canais oficiais, com os crimes comuns, apenas um ciclo de justiça rude e vingança brutal. (...)
A sofisticada construção da lei romana, apesar da sua extraordinária especialização na formulação de regras e princípios legais, na decisão de questões de responsabilidade e na determinação de direitos de propriedade e contratos, tinha pouco impacto nas vidas dos que faziam parte das camadas abaixo da elite e não lhe servia de grande ajuda para os seus problemas. Quando o tentavam usar, o sistema demonstrava-se simplesmente sobrecarregado. (...)
A maior parte do tempo, as instituições oficiais da lei não estavam interessadas nos problemas das pessoas comuns, ou vice-versa. Ocasionalmente, os académicos romanos e os especialistas na lei olhavam para os azares dos mais pobres como casos de estudo (...) Mas, em geral, a lei estava fora do alcance da maior parte da população, que, como veremos em breve, olhava muitas vezes para os julgamentos e procedimentos locais mais como uma ameaça a temer do que como uma possível protecção.
Assim, se não podiam virar-se para a lei, a quem recorriam as pessoas comuns quando precisavam de ajuda, para além da família e dos amigos? Muitas vezes, para os sistemas de apoio «alternativos», para os deuses, o sobrenatural e aqueles, como os videntes baratos, que alegavam ter acesso a conhecimentos acerca do futuro e do resultado dos problemas - e em relação aos quais a elite era previsivelmente desdenhosa.

Mary Beard, SPQR. Uma história da Roma Antiga, Bertrand, 2016, pp.507-509.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

História da Ética


A ética vivida encontrou sempre no seu caminho a questão de Deus. Em todas as sociedades da antiguidade o bem e o mal estavam pensados em relação com o deus e os deuses.  As tragédias de Sófocles são disso um exemplo notório. Todavia, não é irrelevante notar que nas suas origens a ética filosófica apareceu como rompendo com o ambiente politeísta da sociedade grega. Deste ponto de vista, a narrativa platónica da morte de Sócrates não deixa de ser consideravelmente paradoxal: Sócrates foi condenado por impiedade e perversão dos jovens, mas, nos últimos momentos antes de morrer, pede a Críton para oferecer em nome dele um galo a Asclépio (deus da medicina), como que para mostrar contra os seus detractores o seu espírito religioso. Ética e religião tiveram relações tão estreitas como complexas. Será que existe também uma ética cristã? Não há dúvida que os Evangelhos e o Novo Testamento na sua totalidade propõem normas de conduta, orientações de comportamento baseadas na fé em Jesus Cristo. A ética do amor, de um amor que perdoa, que vai até ao extremo do amor até pelos inimigos, enraíza-se no próprio agir de Cristo, que chama os seus discípulos a imitá-lo.
Formados pela filosofia grega, os primeiros pensadores cristãos - por exemplo, Justino - propuseram uma teologia cristológica da história, sem preocupação pela possibilidade de uma ética filosófica autónoma. Com efeito, para os teólogos cristãos até ao século XIII, a tarefa principal consistia em mostrar a consistência de uma ética cristã e não estabelecer a autonomia da ética filosófica.

Michel Renaud, A evolução histórica da Ética, in Ética. Dos fundamentos à prática, pp.128-129 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

"Onde está a morte?" (VI)


Historicamente, o Uruguai foi o primeiro país a legislar o “homicídio piedoso” (em 1934), despenalizando-o sob certas condições, incluindo que a pessoa tivesse feito “súplicas reiteradas” (era esta a expressão usada na legislação).
Actualmente, na Europa, a possibilidade legal da eutanásia existe em três países – na Holanda (onde foi despenalizada em 1993 e depois legalizada em 2002, com a Lei sobre a Cessação da Vida a Pedido e o Suicídio Assistido), na Bélgica (legalizada em 2002, na circunstância de doente adulto ou menor emancipado, com capacidade e consciência na altura da realização do pedido, encontrando-se numa situação clínica irreversível que causa um sofrimento insuportável, resultando de uma condição acidental ou patológica grave e incurável, tendo sido, em 2014, alargada aos menores de idade) e no Luxemburgo (desde 2008, igualmente sob certas condições). Na Colômbia, a eutanásia foi despenalizada em 1997 e legalizada em 2015.

Na Suíça não existe penalização para o suicídio assistido, desde que a pessoa que presta ajuda ao suicida não tenha motivos de interesse próprio.

Nos Estados Unidos, em cinco Estados, a legislação permite aos médicos prescrever medicação letal a pessoas em situação terminal: Oregon, Washington, Vermont, Califórnia e Montana.

Em 2004, no Plano Nacional de Cuidados Paliativos definiu-se futilidade terapêutica como «procedimentos diagnósticos e terapêuticos que são desadequados e inúteis face à situação evolutiva e irreversível da doença e que podem causar sofrimento acrescido ao doente e à família». Na Lei de Bases dos Cuidados Paliativos, publicada em 2012, está definida a obstinação diagnóstica e terapêutica como «os procedimentos diagnósticos e terapêuticos que são desproporcionados e fúteis, no contexto global de cada doente, sem que daí advenha qualquer benefício para o mesmo, e que podem, por si próprios, causar sofrimento acrescido»

Assumimos que não é correcto que “se algo pode ser feito, então deve ser feito”; temos consciência de que nem tudo o que é tecnicamente possível, é eticamente adequado”

Parece evidente que assistimos hoje a um movimento que procura e defende a dignidade no processo de morrer. O movimento dos Cuidados Paliativos trouxe a público, ao sistema e às políticas de saúde, a possibilidade de reumanização do morrer, pois a morte é vista como parte do processo da vida e os cuidados devem visar a qualidade de vida e o bem-estar da pessoa, quando a cura não é possível. Assim, não se trata de apressar a morte (que seria eutanásia), nem do prolongamento do processo de morrer (que seria distanásia).
Esta é a perspectiva dos Cuidados Paliativos, que encaram a morte como um processo natural, que abordam de uma forma integrada o sofrimento e que se centram na procura do bem-estar do doente, ajudando-o a viver até ao fim, no respeito por autonomia, dignidade, conforto e qualidade de vida da pessoa humana. São conhecidos os (quatro) pilares dos Cuidados Paliativos: controlo de sintomas (da dor, por exemplo), comunicação, apoio à família e interdisciplinaridade (vulgarmente designada por trabalho em equipa).



Lucília Nunes, Doutorada em Filosofia, com agregação em Filosofia, Especialista em Ética, vice-presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (no IV mandato: 2015-2020), E quando não puder decidir?, FFMS, 2016, pp.73-85