quarta-feira, 30 de novembro de 2016

"Onde está a morte?" (IV)

Resultado de imagem para cuidados

10. Não são apenas os mais idosos que se encontram em situação de necessitar de cuidados paliativos. Também com jovens, e crianças, encontram-se, não raramente, em tal condição. Ora, de modo especial nestes casos, a pergunta acerca da (eventual) revelação da verdade da doença, a pessoas ainda com maturidade em formação, pode/deve equacionar-se.

11. E quem cuida dos cuidadores? Desde logo, assinale-se, os cuidadores informais - familiares, próximos, pessoas contratadas para o efeito - estão sujeitos ao desgaste pela atenção permanente que deles é requerida, à frustração face à doença que não conhece mitigação, presente nos mais queridos. Necessitam, não raro, de quem cuide deles, e de algum descanso ou compensação (de aí que posições mais extremadas relativas a quem possa incumbir estes cuidados careçam de uma aproximação mais complexa ao problema): "claramente, os cuidadores informais necessitam de quem os acompanhe, os oriente, os ouça e compreenda; mas também de dias de repouso, na forma de pagamento ou de férias, de isenção de trabalho, etc." (p.37).
E, não menos fundamental, a posição dos profissionais de saúde, e com especialização em cuidados paliativos: "é aos cuidadores profissionais que incumbe a tarefa de prestar auxílio aos informais, assim se adicionando mais esta obrigação ética à própria do exercício profissional" (p.37).  Os cuidadores profissionais deparam-se, em permanência, com gritos de revolta e desespero, manifestações dos doentes ou familiares, exigência de comunicar a perda, ajudar a fazer o luto...e seguir para o próximo paciente. O entusiasmo, o interesse, a motivação podem ficar em causa. Cada vez mais se fala no Burnout (queima) dos médicos, em especial dos mais jovens, pelo que, em tal contexto, se peça muito, e quase paradoxalmente, aos cuidadores profissionais: a partilha da dor e sofrimento sem que esta em si fique inculcada; médicos e enfermeiros têm que "«cuidar-se a si próprios», partilhar os problemas e as dificuldades, recorrer a apoio (...) ser compassivo, mas imune ao sofrimento" (p.37). Um dado mais optimista: um estudo de 2011 mostrou que o risco de bournout nos serviços de cuidados paliativos é baixo. Explicação: as unidades são recentes; foram criadas por profissionais entusiastas; as pessoas que neles trabalham estão animadas de fortes ideais (p.38)

12. Nas diferentes fases/estádios pelos quais passa (pode passar) aquele em que uma doença terminal se instalou, a aceitação é o momento mais demandado: "a aceitação é a fase que aparece como a mais desejável para culminar o processo de morrer: em paz, com serenidade, precedida por interrogações existenciais, a meditação sobre o essencial e o acessório, o efémero e o eterno, o sentido ou não sentido" (p.40)

13. De entre as pessoas que se posicionam, nos debates públicos, acerca das questões que contendem com o fim da vida (terrena), muitas colocam o problema da dor como sendo central à decisão de quem  possa decidir pôr termo à existência: "Galeno dizia mesmo que era divino suprimir a dor, atribuindo assim o carácter de dádiva dos deuses à capacidade de tratar as dores" (p.42). Devemos, em este âmbito, ter presente a diferença fulcral entre dor e sofrimento. É que há sofrimento sem dor, e dor sem sofrimento (p.43), isto é, quando falamos em sofrimento referimo-nos a um "mal-estar generalizado; vivência de se sentir ameaçado, com múltiplas facetas: dor, medo, ansiedade, perda de afectos, autonomia sem riscos, alteração da imagem corporal, perda do papel social, de expectativas, de planos, bem como aparecimento de sintomas «humilhantes» (dependência para higiene ou alimentação, incontinência, uso de fraldas)" (p.43). Sendo a dor ultrapassável, em virtude, até, dos meios tecnológicos disponíveis, já quando se remete para o sofrimento, cura-se de registar quanto compete ao cuidador profissional, no dizer de Chochinov, "preservar a dignidade de cada um até ao fim da vida, demonstrando-lhe que a sua pessoa é estimada, honrada, tida como valiosa. Se isto for feito com compaixão, honestidade e benevolência, o doente terminal recupera o sentido da vida (Frankl, 1994) (p.43). Por sua vez, Cecile Saunders falou do conceito de «dor total» (física, espiritual, social, económica). A importância de descentrar da doença a vida do doente: a pessoa está doente, mas não é um doente; há muita coisa importante na sua vida além da doença.

14. É a vontade do doente, é o que a pessoa quer, há que respeitar - escuta-se, ainda a propósito das questões bioéticas que se relacionam com o fim da vida e as doenças terminais. Importa, todavia, assinalar que a autonomia da pessoa que está doente não pode impôr-se, nem colocar em causa a autonomia do profissional de saúde; mais, de acordo com Walter Osswald, a centralidade da autonomia, como valor a primar numa escala axiológica, é um constructo ideológico: "a excessiva atenção hoje dada à autonomia individual é de raíz ideológica, provém do Iluminismo, foi exacerbada e é abraçada pelo anarquismo, mas uma antropologia filosófica moderna não lhe reconhece a preponderância que tantos lhe atribuem" (p.47)
Se o topos é a autonomia, então temos que excluir a eutanásia a pedido de um representante legal, ou de familiares da pessoa que se encontra em estado terminal. Para os críticos do argumento da autonomia, ninguém é inteiramente autónomo (o homem e a sua circunstância), e a autonomia deve ser usada de forma responsável tendo por fim o benefício do próprio e dos outros. Não tendo a pessoa contribuído para a sua existência (ninguém nasce porque quer), não se pode considerar dona de um bem gratuito, indispensável. O Código Penal fala de «bens não dispensáveis» e a Constituição estatui que a vida humana é inviolável. Na Teologia, Pio XII afirmou que as pessoas não são donas, mas usufrutuárias da sua própria vida (p.56)

15. Suicídio: alta prevalência nos países nórdicos, Mediterrâneo com baixa prevalência; em Portugal, o Alentejo como a região com maior prevalência
Porque se suicida alguém, que motivações possui para a sua acção? O psiquiatra João Barreto estudou o tema em profundidade e concluiu que 95% dos suicídios ocorrem em pessoas com perturbações psíquicas, nomeadamente de tipo depressivo (p.50). E os restantes 5%? Estes, decorrerão de "um suicídio racional ou consciente ou, como dizem os autores alemães, «à morte livre» (Freitod)? Não se pode excluir que também nestes exista um certo grau de perturbação emocional, de fragilidade frente ao fracasso, à frustração, à perda, à humilhação, à solidão, à desagregação da sua família; mas também é certo que há casos em que a escolha se deve apenas a uma decisão racional e ninguém vislumbra qualquer das motivações acima referidas - seria o caso de quem acha que viveu bem e o suficiente e prefere abandonar o barco antes de surgir a tempestade. Mas mesmo neste caso se poderá argumentar que se não trata de um suicídio racional, já que a motivação provém de um sentimento, o do medo. «Razões da morte, ou morte da razão?», interroga o psicanalista Coimbra de Matos. As decisões não são isentas de cambiantes subjectivas, como demonstrou António Damásio.
Até ao século XIX o suicida, além de condenado como pecador pela Teologia Moral, estava sujeito a severa penalização pela Teologia Moral, estava sujeito a severa penalização pelo poder judicial (sanções obviamente só aplicáveis aos sobreviventes de tentativa de suicídio). Com a evolução das sociedades e das Igrejas, a absurda penalização desapareceu e foi-se instalando um clima de aceitação do agente, que não do acto. Este último, admite-se hoje, não é geralmente um acto racional, tradutor da vontade esclarecida da pessoa, reflexo da sua autonomia, antes um sistema de profunda depressão, angústia e solidão. Por isso se entendem como moralmente legitimadas as tentativas de impedir a consumação de uma intenção ou de uma manobra suicida. De facto, o cidadão comum que impede que alguém se precipite de uma ponte ou de um edifício elevado, ou o polícia que desarma o suicida que ameaça matar-se, ou ainda os médicos e enfermeiros que tratam com todos os meios disponíveis os que se intoxicaram com medicamentos, todos esses agentes da conservação da vida não podem ser acusados de ignorarem a autonomia do suicida, porque ela na imensa maioria dos casos não existia, ou não tinha condições para se expressar. Ademais, a correcção de atitudes salvadoras encontra a sua confirmação evidente no facto de aqueles que viram goradas as suas perspectivas de morte não só não guardam rancor aos seus salvadores como lhes manifestam gratidão" (pp.50-51)


16. Desde 1935, há na Europa e EUA associações para defesa e difusão do suicídio assistido. Bélgica, Holanda e estado do Oregon (nos EUA) permitem o suicídio assistido. Neste estado norte-americano, os requisitos para o solicitar são: *estar em estado terminal; *requisitar 3 vezes a medida letal; *não sofrer de perturbação psíquica (depressão).
Dados muito reveladores surgiram do estudo desta experiência no Oregon: é raro o pedido para o suicídio assistido; metade dos doentes que solicitaram a poção final, depois não a toma(ram). Por seu turno, vários médicos recusaram receitar tal poção e vários dos que o fizeram não se sentem bem com a atitude que tiveram e propõem-se não a repetir (p.53). A motivação aduzida pelos que pediram tal poção foi: *tornarem-se dependentes ou vir a representar uma sobrecarga para a família. 
O que daqui se retira, por um lado, é que não foram dores intratáveis a motivar o pedido de suicídio assistido; por outro, que as causas invocadas podem ser, claramente, removidas e é imperioso, eticamente, que tal suceda. 
Do ponto de vista ético, o suicídio assistido em nada se distingue da eutanásia.

17. Quando alguém solicita a eutanásia, em todo o caso, a resposta não é abrupta, brusca, um simples não. Não se deve ignorar ou ridicularizar tal pedido, nem mesmo, de "o rejeitar liminarmente" (p.55), antes se devendo "entrar em diálogo franco e respeitoso com o paciente cansado de viver". Em realidade, "estabelecido o compromisso de acompanhar o doente, de lhe prestar os cuidados devidos, de não deixar que ele sofra e de lhe aliviar os sintomas incómodos, os pedidos (que algumas vezes serão apenas solicitações de ajuda) são quase sempre retirados" (p.55). 

18. Se os pedidos são escassos, porquê um tão grande interesse na matéria pelos media, pelos partidos ou outras organizações? "No início do século XIX e no início do século XX, publicaram-se na Alemanha dois livros que exerceram apreciável influência nos espíritos (...): O direito à morte, de Alfred Joost (1895) e de E.Rupp (1913). Nos anos 20, porém, veio a lume o livro dos Professores Binding e Hoche, reputados jurista e psiquiatra, ambos famosos. O título (A autorização para a destruição de vidas indignas de ser vividas) veio a ganhar tristíssima fama, pois fala de vidas que não vale a pena viver. A eutanásia voluntária é defendida com vasta argumentação, mas abre-se a porta à involuntária, escolhendo-se como alvos os dementes ou incapazes, carga humana e social, verdadeiros mortos-vivos, existências vestigiais que devem ser aniquiladas. Mais tarde, o nazismo apoderou-se deste ideário, adaptando-o aos seus objectivos: a vida indigna de ser vivida é a dos doentes mentais, mas também a dos vagabundos, sem-abrigo, prostitutas, mais tarde homossexuais e outros seres «associais» e, por fim, judeus e ciganos. Tudo isto se passou de forma progressiva. Em 1938, a partir do caso de um recém-nascido cego e deformado, iniciou-se o sacrifício de crianças anormais; até 1941 calcula-se em 5000 a 10000 o número de crianças assassinadas. Desde 1939 estendeu-se o programa aos doentes adultos incuráveis; cerca de 200000 foram gaseados, até suspensão do programa, em 1941. Supõe-se que a suspensão se deveu aos protestos de membros eminentes das igrejas católicas e protestante (sobretudo o bispo Clemens von Galen e o Professor Paule Braune), de alguns médicos, com realce para os psiquiatras, e de alguns militares de alta patente. Talvez a suspensão tenha sido devida à necessidade de concentrar todos esforços (...) nos campos de extermínio" (p.59).

19. Todavia, sublinhe-se devidamente, e recorde-se, a eutanásia nazi era involuntária e a eutanásia de que aqui se fala é voluntária (a pedido da pessoa doente). O que faz toda a diferença. Ainda que os que contestam a eutanásia reflictam: começa-se no excepcional e acaba-se no habitual. "A experiência mostra que a tendência é para a vulgarização do que inicialmente se admitia como excepcional" (p.60). E "o caso da Holanda, em que a eutanásia se encontra legalizada desde 2002, parece poder servir de exemplo elucidativo. Embora a lei só preveja a eutanásia voluntária, com definição de condições e processos, a experiência acumulada com os milhares de óbitos entretanto verificados sob a sua alçada demonstra com meridiana clareza que muitas, talvez a maioria, das mortes ocorreram sem pedido formal de eutanásia, isto é, foram involuntárias. De facto, os tribunais contentam-se com declarações de familiares ou vizinhos de que o doente, antes de estar inconsciente, manifestara a intenção de pedir a eutanásia; ou que, embora não o tivesse feito, era de presumir, dadas as suas convicções, que o faria, se tivesse capacidade para tal. Desta forma, dementes e até crianças têm sido sujeitos a eutanásia: estes factos constam dos relatórios oficiais e dos trabalhos de revisão entretanto publicados" (p.60). O argumento principal dos defensores da eutanásia, na leitura de Walter Osswald: "numa sociedade plural não há lugar para um normativo moral único. Se a eutanásia fosse legalizada, ninguém seria obrigado a sujeitar-se a este tipo de morte. Ora, não há sociedade alguma que não adopte certas normas universais; nem toda a gente está de acordo que o roubo deva ser sempre castigado (...) mas a lei estatui o crime do furto (...) traduzindo na sua formulação legal o vasto sentido maioritário da população". (p.61). Os argumentos aduzidos contra a eutanásia: "são de ordem moral (não somos donos, apenas curadores, da vida; esta é um dom sagrado, ao qual é vedado o acesso destruidor), médica (não é necessário matar para evitar a dor e o sofrimento), social (a legalização abriria a porta a abusos para satisfação de interesses ilegítimos ou criminosos - prática de eutanásia involuntária para acesso a herança; por exemplo; as relações médico-doente seria inquinada por desconfiança (...) e até política (...) mensagem de que os doentes deveriam solicitar a eutanásia" (p.61)

20. Pós-mortem. Sobre o sentimento de eternidade, Hans Jonas diz-nos que "o sentido moral da pessoa humana (...) e a entrada do absoluto nas nossas vidas (através do inefável do amor e do belo, um olhar à eternidade). «Assim se poderá fornecer uma razão objectiva para justificar metafisicamente aquele sentimento subjectivo de um eterno interesse, que nós experimentamos na voz da consciência, no momento da decisão extrema, na entrega à acção e mesmo no tormento da contrição [...] únicos sinais empíricos de uma lado imortal na nossa natureza». Por isso, «podemos pensar numa imortalidade, enquanto dure o curto lapso de tempo da nossa existência velarmos pelo cumprimento dos interesses morais ameaçados e formos auxiliadores do Deus imortal que sofre»" (p.69). E Vargas Llosa: "por maiores que sejam os esforços de intelectuais brilhantes que tentam convencer-nos de que o ateísmo é a única consequência lógica e racional do conhecimento e experiência acumulados ao longo da história da civilização, a ideia de um fim definitivo será intolerável para o ser humano em geral, que continuará a encontrar na fé aquela esperança numa vida para além da morte, a que nunca pode renunciar"(p.71). A concluir, Julián Marías

"Importam-me muito algumas coisas e sobretudo algumas pessoas. Mas, se no dia em que morrer, que certamente já está próximo, tudo acabar, deixarei de me importar com essas coisas e essas pessoas e então nada tem importância, nada tem última importância. Mas, e se não for assim? Se depois da morte continuarmos a viver? Então não acontecerá apenas que essas coisas e essas pessoas continuarão a ser importantes para mim, mas também durante o tempo que estou neste mundo terei escolhido livremente quem pretendo ser, quem quero ser para sempre. E então, precisamente então, comprometi-me a ser para sempre (e não apenas para um tempo limitado) esse tal que quero ser, esse que me esforço por ser. É então que tudo, concretamente este mundo, tem verdadeira importância: porque estou a fazer, a querer, a dizer algo para sempre"

[a partir de Walter Osswald, Sobre a morte e o morrer, FFMS, 2013] 

"Onde está a morte?" (III)


6. De acordo com Elisabeth Kubler-Ross são 5 as fases por que passa um doente em estado terminal: 
*Negação (não acredito, não pode ser), *Rejeição/Revolta (não aceito, é inaceitável), *Negociação (só quero viver até ao Natal, ou até à formatura da filha, ou a um casamento ou nascimento), *Depressão e Aceitação. Se nem todos concordarão com a existência destes estádios, em todos os doentes e com esta sequência, o trabalho da autora, em todo o caso, tem merecido admiração.

7. De entre as questões éticas que se colocam com o recurso aos cuidados paliativos (e a simultânea existência de recursos escassos) estão as seguintes:
- Dado que os recursos são escassos, eles devem ser consignados para os cuidados primários, para os prestadores nos hospitais, ou para apoio ao domicílio?
- Deve dar-se prioridade às equipas que prestam cuidados no domicílio, às instituições dedicadas em exclusivo a esta área, ou aos serviços especializados sediados em hospitais gerais?
- E quanto à nutrição e hidratação artificial, há que mantê-la em todas as circunstâncias?

8. Parece haver um consenso entre eticistas relativamente ao facto de não se dever atrasar, nem acelerar a morte. E de que, portanto, deixar morrer não é o mesmo que matar. Só se pode dizer à família a verdadeira situação em que se encontra um doente (seu parente), com a anuência deste. Em casos de incapacidade, ou inconsciência, aí sim, a questão poderá ser colocada à família de modo imediato.

9. Na perspectiva do Prof. Walter Osswald, "raríssimos se poderão contar [os casos de pedidos de eutanásia] entre os «puros», isto é, racional e reflexivamente decididos" (p.31). Mas, em ocorrendo, considera, os cuidados paliativos não serão, por eles vistos, como uma alternativa (à decisão de morrer): "nem a melhor rede de cuidados paliativos fará desaparecer os (raros) pedidos de eutanásia" (p.31) 

[a partir de Walter Osswald, Sobre a morte e o morrer, FFMS, 2013]

Barro de Bisalhães - Património Imaterial da Humanidade

terça-feira, 29 de novembro de 2016

"Onde está a morte?" (II)


3. Exige-se que a vestimenta negra, de luto, desapareça num instante. Que a superação de uma morte que seja próxima se faça imediatamente. Demanda-se que qualquer referência à morte seja ocultada o mais rapidamente possível. A morte, na nossa sociedade, foi silenciada. Esquecendo-se que esse ignorar da morte pode conduzir a uma bem maior dificuldade de cicatrização da perda. Se a evocação da morte não adquirir um carácter obsessivo, mas se integrar no normal devir do quotidiano, essa memória pode ter um claro efeito positivo: "a preparação para a morte, provam-no recentes estudos, torna mais fácil lidar e superar o sofrimento, a morte e o luto dos sobreviventes" (p.14).

4. Carpe diem não é uma injunção que tenha que ter (exclusiva) declinação hedonista - comamos e bebamos que amanhã morreremos -, mas pode ser contemplada pelo prisma moralista: aproveita o dia e faz boas obras que a morte está próxima. Na Idade Média, a proximidade com a morte, famílias com muitos filhos e uma medicina longe dos avanços que nos permitem durar até muito mais tarde, era muito grande, pelo que a sua força para uma dada praxis que tivesse em conta a sua preparação - assuntos materiais em ordem, despedida de familiares e amigos, espiritualidade privilegiada - não era negligenciável. O mesmo se diga durante o Ancient Regime: boa morte, considerava-se então, era ter resolvido os seus assuntos, feito testamento, estar (re)conciliado com a Igreja, acompanhado pelos seus, confortado por orações e sacramentos. Neste contexto, e por outro lado, a morte súbita era encarada como trágica. Assim, podemos falar da existência, à época, de uma ars moriendi, com manuais com instruções precisas acerca do que significava as pessoas morrerem bem.

5. O que em nenhuma época se negará é que na morte vai mais do que o indivíduo: "seres de inter-relação, os humanos não morrem só por eles (ou só neles): os familiares, os amigos, os conhecidos não são meros comparsas no drama de morrer de alguém; são duas pessoas, dramatis personae, como se dizia no elenco das peças teatrais" (p.21). E precisamente concebendo o humano como pessoa, ser de relação, pode cantar-se o amor que vence a morte: "eu sou a tua morte, ó morte". De resto, na senda da Medicina grega, o coração como sede do Espírito.

[a partir de Walter Osswald, Sobre a morte e o morrer, FFMS, 2013]

"Onde está a morte?"


1. Dados do INE: actualmente, cerca de 60% dos óbitos verificam-se em ambiente hospitalar. Em 1984, 60% dos óbitos sucediam no domicílio; em 2008, a percentagem desceu para os 29,9% (os restantes 10% acontecem na estrada, no lar, num acidente momentâneo). Isto sucede, com certeza, em parte por factores culturais - o ocultamento da morte, a negação da dor e sofrimento, da velhice, ou o individualismo que pretende não tomar a cargo outrem -, mas não nos fiquemos por uma abordagem apenas em sentido moral(ista): habitações há sem o mínimo de condições, famílias que têm que ter todos os seus membros a trabalha, ausência de habitação mesmo. Terrível é o hospital não estar preparado, apanhado desprevenido na curva da passagem do tratamento aos curáveis, aos susceptíveis de melhora, sem acomodar, em termos de preparação de infra-estrutura física e preparação humana, a definitiva presença dos que se encontram na fase terminal da existência; ou, em casa, sem quem possa promover os devidos cuidados, sem o acompanhamento devido para a higiene, alimentação, ou com um ruído insuportável dos vizinhos. "Morrer sozinho, sem apoio nem consolo não pode ser considerado resposta ao desejo de uma boa morte" (p.25). E acompanhamento aos doentes, por familiares, só ocorre em cerca de metade dos casos.

2.A expressão paliativos deriva, etimologicamente, de pallium, o manto: remete, pois, para o facto de o que se procura, ou visa, nestes cuidados não é já a recuperação (impossível) da saúde, mas antes o agasalho, o conforto, a protecção do doente, o respeito pela autonomia e dignidade da pessoa; acompanhamento no processo de morrer. Cecily Saunders principiou estes cuidados, compadecida com a situação de um jovem judeu, sem familiares, nem amigos próximos para dele cuidarem, em doença terminal. Foi da iniciativa de médicos e enfermeiros que surgiu o St.Cristopher Hospice. Sendo que se reconhece, hoje, que para além de os hospitais deverem estar capacitados, em termos de estruturas, para receber estes cuidados, também aos profissionais de Saúde não basta a competência profissional e a compaixão, necessitando de fundamentar bem - estudo e reflexão rigorosos - o seu agir: "Hoje reconhece-se que não basta ao profissional de Saúde ser bem preparado e competente na sua relação com os enfermos. É necessário alcançar um grau de conhecimento teórico e prático compatível com uma especialização ou uma competência; e é necessário que, além da humanidade e compaixão, exista uma fundamentação ética do agir profissional, o qual se não adquire senão pelo estudo e pela prática" (p.29).
É que, desde logo, é preciso definir o modelo de cuidados paliativos a instalar, ou aperfeiçoar.

[a partir de Walter Osswald, Sobre a morte e o morrer, FFMS, 2013]

Homo sapiens

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os infantis

Resultado de imagem para terra media senhor dos aneis

Escreve Dave Eggers no Guardian: 'Como um adolescente com baixa auto-estima, o povo americano preferiu o namorado espalhafatoso e abusivo ao namorado estável e aborrecido:'já tivemos demasiada decência por uma década'; dêem-nos o caos'. No The Baffler, assinala-se que 'o pensamento político' de Peter Thiel, o multimilionário do Twitter, e de outros titãs geeks de Silicon Valley, "parece derivar das fantasias da sua infância". Os escritórios do Twitter têm nomes de locais na Terra Média de O Senhor dos anéis, e Elon Musk, da Tesla, pensa que a educação devia ser como um jogo de vídeo. Não é apenas Trump que é o produto da cultura do entretenimento. Somos nós todos. O murmúrio dos livros ouve-se agora apenas na costa, antes de se desvanecer num Mediterrâneo cujo fundo são cadáveres.

Pedro Marta Santos, A costa dos murmúrios, Sábado, nº656, 24 a 30 de Novembro de 2016, p.23

Comandos


Fico a pensar nos dados que Nuno Rogeiro fornece, esta semana, na Sábado:

"Em Londres, por exigência parlamentar, o Estado-Maior revelou que, entre 2000 e 2015, desapareceram 125 militares em treinos, sobretudo de forças especiais, contra 179 mortos em combate. Breacon Beacons, uma montanha imponente do País de Gales, é tida como uma espécie de túmulo de instruendos (...) Os comandos militares franceses revelaram que, na década de 1999-2009, tinham morrido em instrução 316 jovens, sobretudo nas forças especiais. Na Rússia, Vladimir Putin decidiu, em 2015, alterar um decreto presidencial, considerando segredo de Estado a divulgação de baixas militares em tempo de paz, incluindo em treino e preparação" (pp.36-37)

De modo algum, por respeito aos que morreram, tais dados podem servir para dar cobertura a qualquer 'normalidade' de acidentes, e vitimação, neste contexto: "mesmo num regime de voluntariado pleno, queremos, no fim do caminho, forças especiais de homens preparadíssimos, mas vivos". Pelo contrário, o que se verifica, da prática comparada, é da necessidade que existiu de aprender a partir de erros trágicos: "houve consequências penais, reforma da instrução, equipas de acompanhamento, normas gerais adoptadas pela NATO (SOCC), e traduzidas em diversas directivas, incluindo sobre padrões de treino, objectivos, métodos, assistência médica especial e monotorização de práticas e resultados". Não se pode, nem pretende tenho a certeza, aludir à experiência comparada, com "cinismo", para procurar diminuir um mal irreparável.

Faz-me confusão, de resto, que sectores que, habitualmente, tomam como ponto de partida (filosófico) um profundo pessimismo antropológico, depois queiram presumir, em casos como estes, a inexistência de reais patologias de comportamento (humano), de maldade pura no tratamento de outrem, de violência gratuita (leia-se a reportagem do Público: desisti por dignidade; leia-se acerca dos factos na origem das piores notícias acerca dos comandos, nos tempos mais recentes, em Portugal, como aqueles que o Expresso revelou, com instruendos a desmaiar por desidratação e, por via das dúvidas acerca de algum fingimento, atirados às silvas) - e pior é ler que há quem legitime essa mesma violência. Mas, também aqui, e para além, de facto, da responsabilidade individual - que não pode, nem deve ser elidida -, há uma questão estrutural e é essa que se impõe também não negligenciar quando nos confrontamos com dados da experiência comparada.

Nunca elaborei, sistematicamente, acerca de casos que se impunha nunca defender, por alguém que exerça advocacia. Vi reportagens, ouvi diferentes testemunhos de causídicos, tomei, sempre, nota de um certo preconceito social relativamente a quem advoga, no domínio, digamos, da honestidade pessoal, acompanhado de um certo fascínio pela argúcia destes (com que os profissionais do foro resolviam as questões). Neste último ponto, sempre me pareceu existir uma abordagem, muitas vezes ingénua e destituída de sentido. Por um lado, e na experiência pessoal que me tocou, porque advogaram, ou advogam, algumas das pessoas que mais considero, também no domínio do carácter. E, em havendo outras destituídas do mesmo, com quem igualmente lidei, neste sector profissional, não vislumbro qual a casta que se encontra fora do mundo e dos tempos para comparar (para melhor, ou muito melhor; não é preciso possuir-se um arquivo de jornais muito generoso para o confirmar, ficando-nos apenas por Portugal, e pelos tempos mais próximos). Por outro, porque, conhecendo efectivas excepções de quem é culto e procura cultivar-se, não há, aqui também, uma grande diferença, estou em crer, relativamente à demais sociedade (não há, aqui, como um todo, uma casta do conhecimento).
Mas retomando o ponto: nunca tendo sistematizado acerca das causas indefensáveis, todavia, ao longo dos anos, confesso que aquilo que me foi sempre causando impressão foram as peripécias judiciais, as histórias reais que me eram narradas de quem advogava procurando culpabilizar a vítima. Isso causava-me especial espécie, por exemplo, em crimes de natureza sexual. Ia pensando para comigo que quem argumentava daquela maneira pouco escrupuloso seria. Há dias, na RTP, acerca do caso dos comandos, ouvi alguém, com responsabilidades, num programa dedicado para o efeito, dizer que era preciso ponderar que, por vezes, poderia haver instruendos que para se mostrarem (especialmente) fortes não bebiam a água que lhes mandavam, durante os exercícios. Instintivamente, irritado, mudei de imediato de canal. É: um dia elaborarei, sistematicamente, quanto o grau de ofensividade que consiste em transformar vítimas em carrascos ultrapassa todos os padrões.

domingo, 27 de novembro de 2016

Assembleias


1. Sigo, como habitualmente, a Assembleia Municipal de Vila Real (a mais recente, realizada na passada sexta-feira, 25/11/2016). Poucas foram as ocasiões, nos últimos 8-10 anos, em que deixei de procurar inteirar-me, pessoalmente, das principais questões do concelho, das tomadas de posição dos diferentes partidos representados naquela câmara, modos de articulação/contributos de cada bancada e seus principais protagonistas. Considerei que só assim - estando presente presencialmente, ou, desde de há cerca de 3 anos, seguindo as reuniões através da utadtv - poderia formular um juízo político mais consistente, e decidir, de modo mais livre porque mais informado e conhecedor, em quem depositar confiança em cada eleição local. 

2. Desde o Arquivo Distrital, até à Câmara Municipal, passando pelo Teatro Municipal fui seguindo a casa às costas que a Assembleia sempre percorreu. A dado momento, neste âmbito, verifiquei que ao 'abandono' do Grande Auditório, do Teatro Municipal, correspondeu, também, o fim de presenças, talvez esporádicas, mas pedagógicas, do ponto de vista cívico, que se verificavam, por banda, nomeadamente, de alunos, turmas inteiras, da Escola Secundária Camilo Castelo Branco. Este espaço, o Grande Auditório, de resto, era, e é, com efeito, aquele que, em realidade, permite (cabalmente) a presença de cidadãos na Assembleia.  A exiguidade do Salão Nobre da Câmara Municipal, ou o facto de em querendo um cidadão ausentar-se, mesmo que momentaneamente, da sala, dado o habitual prolongar-se destas sessões, no Pequeno Auditório do Teatro, ou no Auditório do Arquivo Distrital, poder, de algum modo, perturbar um tanto, com o ruído, fazendo-se notar, os trabalhos da Assembleia, torna o exercício de presença física muito mais cerceado. Se, com os constrangimentos financeiros com que o país se vê confrontado, sempre me pareceu disparatada a proposta, de uma força política, representada na Assembleia em mandato anterior, para a construção de um edifício no sentido de albergar, em exclusivo, a Assembleia Municipal, considero, outrossim, uma clara 'involução' o 'abandonar' (temporário?) do Grande Auditório do Teatro Municipal, para a realização das referidas Assembleias.
Dir-se-à que com o novo aparato tecnológico, e as transmissões televisivas, tal (eventual) pecha não adquire relevância. Não creio que o argumento proceda inteiramente: se se pretende a dita pedagogia cívica, em visita a efectuar em conjunto, por uma turma do Secundário - como verificar que todos assistem pela tv, desde logo? - o assistir presencial, com toda a dinâmica gerada numa sala - nem sempre captada pelas câmaras - não tem uma substituição (possível) correspondente. Se um cidadão pretende tomar a palavra, no final da Assembleia, no espaço de tempo concedido para o efeito, a obstaculização a essa presença é negativa. E finalmente, mas não em último lugar, a própria comodidade dos deputados municipais e espaço para trabalho (apontamentos, espaço para pequeno portátil, etc.), ficaria muito melhor garantido no Grande Auditório do Teatro.

3. Não ignoro, contudo, quanto o mencionado no ponto anterior pode ser lido à laia de bizantinice. Quantos cidadãos vila-realenses seguem as transmissões da utadtv, quantas visualizações encontramos para cada Assembleia, na página da Utadtv? Muito poucas, é certo. Só que este é apenas mais um dado preocupante que não devia ser recebido com indiferença. Aliás, assistir ao vivo a uma Assembleia e perceber como, às tantas, uma parte considerável de uma bancada parlamentar é formada por pessoas/deputados que têm, de algum modo, um vínculo profissional com o Município, é constatar, in loco, a desertificação da política, um auto-fechamento, a dificuldade (ou o não querer) recrutar fora de uma bolha. Para além de se poder ponderar acerca do modo como essa dependência contratual influencia, ou não, o grau de liberdade do exercício de um múnus.
Nesta desertificação não há, necessariamente, responsabilidade única de políticos: que cidadãos marcam presença/querem saber do que se passa, em linhas fundamentais de decisões para o concelho (que aí estão de modo desinteressado)? Muito poucos, posso atestá-lo.

4. A presença, múltiplas vezes, no referido fórum, levou-me, ainda, a ficar com especial apreço, enquanto cidadão, por aqueles que no desempenho da sua função manifestaram qualidades acima da média, fosse no domínio oratório (riqueza vocabular, ironia fina, capacidade argumentativa), como no caso de José João Bianchi (a quem, de resto, dediquei um apontamento radiofónico), a preparação, o estudo, a dedicação, a fiscalização política, como no caso de Jorge Pinho (que, fruto de tais qualidades, em todos os debates, de rádio ou tv, nas últimas autárquicas, se mostrou o candidato mais preparado, o que não deixei, igualmente, de sublinhar nos espaços de cidadania), a racionalidade, competência técnica, conhecimento de dossiers de Vasco Amorim. Para dar, apenas, três exemplos.
Preparar Assembleias, ler uma documentação não raro extensíssima, procurar apoio técnico no decifrar de elementos técnicos, contactar pessoas com quem os problemas contendem no terreno, trazer temas e pessoas mais esquecidas pelo poder político, releva de não poucas horas de estudo, de trabalho, de preparação oferecida à cidade. E esse agradecimento, a quem cumpre com zelo esta função para a qual se candidatou, livremente é verdade, deve ser feito, com sinceridade.

5. Nesta mais recente reunião, em se tendo debruçado a Assembleia, uma vez mais, sobre a questão das águas e resíduos (e seu preço, no concelho), disse o Presidente do Executivo, em se referindo à anterior gestão da EMAR, e como que se virando para a anterior tutela desta empresa, que actualmente não há "roubos e amiguismo" (sic). São palavras contundentes e que, pela sua gravidade, em assuntos tão sérios para a comunidade, deveriam levar a um esclarecimento cabal. Houve, na EMAR, em algum momento da sua história, práticas que configuraram a adjectivação mencionada? Se sim, quando e quem os autores das mesmas?
Confesso que fiquei muito surpreendido, por outro lado, mas imediatamente a seguir a tal intervenção, pela ausência de resposta, pelo drible da questão quando se esperava a defesa (da honra), relativamente a tais expressões, pela anterior tutela. 
Em quem assiste a tais sessões, isto causa uma impressão muito pouco positiva. O cidadão questiona-se acerca do que motiva a utilização de tais expressões, mas, não menos, o porquê de não ter existido uma resposta cabal às mesmas. 

6.Na mesma noite em que esta reunião ocorria, a RTP passava, pela terceira vez, novos (e clamorosos) desenvolvimentos sobre o chamado "caso UTAD" ("o maior escândalo de uma universidade pública", em Portugal, nas palavras da apresentação da responsável do programa que tem emitido um conjunto de reportagens de mérito e manifesto interesse público), relativo a questões, com alguns anos de existência (e, portanto, sem responsabilidades da actual Reitoria que, creio, muito tem feito para prestigiar a UTAD), mas não resolvidas por completo pelo que se depreende, muito pouco edificantes tudo indica, relacionadas a propinas de alunos brasileiros que terão frequentado mestrados nesta instituição. 

7. Percebo que o jornalismo de investigação exige meios que os media locais não podem, de modo algum, obter. Mas, por outro lado, não deixa de ser inquietante que mesmo os casos mais comezinhos (em que não seriam necessários recursos materiais significativos), relativamente a situações menos claras, com instituições locais, sejam, invariavelmente, relatados pela imprensa nacional, nunca tendo surgido localmente (pelo menos que eu tenha memória; mas corrigirei, com gosto, se assim não for).

8. Este dado tem clara importância na medida em que nos lembremos que o credo básico democrático implica, entre outros, a existência de uma imprensa livre. Que ajude na fiscalização (e contribua para não permitir abusos) dos diferentes poderes. E que não seja, isso não, mera correia de transmissão de quem está, em qualquer circunstância, aos comandos. 
Mesmo ao nível dos textos de opinião, com algumas excepções, e mesmo entre filiados na oposição, ao longo de anos, não são muitos os artigos com expressão crítica. Embora registe que, aos poucos, as coisas se movem (ainda que muitos militantes de partidos da oposição, não sem razão, achem que é muito curto). Até pela emergência das redes sociais, onde, também aqui, o registo é mais combativo (e mesmo quando o não é, mas a crítica feita em tom de grande racionalidade e razoabilidade, há sempre espaço para os censores de redes sociais que procuram silenciar essas poucas vozes, ou críticas, quando todos, como comunidade, precisamos é dessa massa crítica). E a oposição, independentemente de quem nela está circunstancialmente, é muito necessária a que o governo da cidade seja sempre melhor. Claro que nada destes exercícios - e muitos poderiam ser acrescentados, e pense-se, p.ex., em gráficos de teias de relações e vasos comunicantes entre diferentes meios, como os que surgem a nível nacional, e que ajudariam em casos como os que ficam apontados nos números precedentes - a que aqui aludo é fácil, pois, para lá de tudo o mais, todos nos conhecemos, numa cidade pequena-média, mas de que gostamos muito, como Vila Real.

À atenção de NES

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

E João da Cruz


OS ACONTECIMENTOS E OS DIZERES

(...)
As palavras só contam o que se sabe.
Mas quem disser: Deus é um espírito de paz,
está repetindo um menino de sete anos, que acrescentou:
eu tenho medo é de dia; de noite, não,
porque é claro.

Adélia Prado, Tudo o que existe louvará (antologia), Assírio e Alvim, 2016, 25.

Entre Francisco de Assis...


UM SALMO

Tudo o que existe louvará.
Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,
o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar.
Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,
os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar
vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,
u'a mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria.
A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia
o movimento pleno:
cantar e dançar TE-DEUM.

Adélia Prado, Tudo o que existe louvará (antologia), Assírio e Alvim, 2016, 24.

Outros números


Duas semanas depois do escrutínio para as Presidenciais norte-americanas é preciso rever algumas das coisas que então foram escritas, em domínios que são objectivos e factuais: mesmo sem a totalidade dos votos contados é falso que Hillary Clinton tenha ficado à distância de 6 milhões de votos do alcançado pelos democratas (Obama) nas últimas presidenciais: neste momento, está a 1 milhão e 700 mil votos do alcançado pelos democratas em 2012. Por seu turno, Donald Trump não só não teve menos votos do que Mitt Romney em 2012 (vai com 1 milhão e 300 mil votos a mais do que este), como, inclusive, acaba por ser o candidato do Partido Republicano com mais votos em absoluto da história (ainda que a obtenha a menor percentagem de um vencedor, desde Nixon e se encontre a 2 milhões de votos de distância de Hillary Clinton).

Ver: aqui

terça-feira, 22 de novembro de 2016

II Encontro de Bioética


Este Sábado realizou-se, na Aula Magna da UTAD, o II Encontro Nacional de Bioética, levado a cabo, numa iniciativa que se saúda, pela Associação Nacional de estudantes de Biologia e que reuniu perto de 70 interessados - quase na íntegra, creio, alunos e professores de cursos de Biologia, na UTAD e na Universidade do Minho - nas matérias que integravam o programa, a saber, os desafios que o início da vida coloca, o sofrimento dos animais, espiritualidade e fim da vida, as mudanças climáticas e o modo como a política com elas lida, o fim da vida e a dignidade da pessoa.

Marcámos presença ao longo da jornada, que principiou com um elogio a João Lobo Antunes, por parte de Jorge Ventura, a ideia de que os princípios de bioética não devem ser impostos por lei, mas por convicção - na escola e em casa, no registo de Luís Herculano, e no elogio da iniciativa, no poder de iniciativa que os estudantes em causa tiveram, um dos aspectos para o qual as universidades podem contribuir, nas palavras de Artur Cristóvão.

A primeira intervenção, focada nos dilemas que o início da vida coloca, foi da autoria de Natália Teles, da Associação Portuguesa de Bioética, médica no Centro de genética médica Jacinto Magalhães.

Começando por afirmar não ter nenhum conflito de interesses a registar - p.ex., ligação a farmacêuticas -, e sublinhando quão importante é que tais conflitos de interesse sejam afirmados quando alguém inicia uma conferência como aquela que se aprestava para proferir, mencionou o nome de Von Potter como o da pessoa primordial para a Bioética (área na qual se tornou, a conferencista, mestre, tendo, apenas, em 2003 surgido o primeiro mestrado na área, no Porto).
A Bioética poderia ser definida como "o estudo sistemático das dimensões morais (incluindo visão moral, decisões, políticas) das ciências da vida e dos cuidados de saúde, segundo uma variedade de metodologias éticas, num contexto multidisciplinar".

Nos nossos dias, referiu, os cursos de Biologia contém cadeiras de Ética e Bioética. E, esquematicamente, procurou identificar porque tal sucede, e porque a ética vai ganhando uma centralidade crescente em tantos debates: a) há uma consciência ética crescente; b) há, hoje, mesmo no nosso país, uma pluralidade de valores, religiões, filosofias de vida; c) assistiu-se, nos últimos anos/décadas a um crescimento de possibilidades técnicas; d) verificou-se uma expansão das intervenções médicas intrusivas; e) constatou-se o experienciar de sérios conflitos éticos; f) formaram-se equipas multidisciplinares em vários campos do saber.

Segundo a investigadora, há princípios éticos/valores universais como a Igualdade, Liberdade, Justiça, Equidade. Mas, no campo da Medicina, relevam os seguintes: Autonomia, Beneficência, Não-maleficência; Justiça. E, neste mesmo contexto, entender-se-à que nenhum princípio ético prima sobre os restantes e que o respeito pelos direitos humanos é fundamental.

Relativamente à Procriação Medicamente Assistida, os princípios a ponderar antes de haver vida serão:

*Respeito pela dignidade e não instrumentalização da pessoa (selecção de embrião saudável, mas sem selecção de sexo, segundo a legislação portuguesa)
*Direito à autonomia (todas as pessoas sem filhos têm direito a tentar resolver a sua situação)
*Consentimento informado, livre e esclarecido (nomeadamente, em virtude da existência de técnicas invasivas)
*Direito à objecção de consciência dos profissionais de saúde
*Acesso, em condições de equidade, pelos casais inférteis (quem doa, quando o material fica disponível, doa a quem? Tem que haver regras, um protocolo, quem decide)
*Protecção da vida embrionária

Quando se selecciona um embrião, temos um primeiro diagnóstico de doenças genéticas nos embriões in vitro

Vantagens: não há embrião dentro da mãe, não há abortamento

Estatuto do embrião: questão controversa da protecção moral e jurídica a conceder ao embrião

Em termos biológicos: qual o momento exacto do início da vida humana? Fertilização? Zigoto? Implementação?
Em termos filosóficos: o que é ser pessoa? Quando um ser é pessoa?
Em termos legislativos: o nascituro só tem personalidade jurídica ao nascimento completo e com vida
Para a Igreja: o embrião deve ser respeitado como pessoa desde o momento da conceção
Para o Conselho Nacional de Ética Para as Ciências da Vida: o embrião deve ser respeitado como pessoa humana em potencial

Até à 8ª semana o novo ser é chamado embrião; depois, passamos a chamar-lhe feto

Cada vez há mais pessoas que não querem saber o sexo da criança. Para muitos casais, isso tem um encanto muito próprio. E, em assim sendo, os que são profissionais de saúde devem ter o cuidado de não colocar, em nenhum relatório, p.ex., esse dado.

Toda a gente tem acesso ao Diagnóstico Pré-Natal
*Técnica invasiva, com riscos, no entanto
*Pode fazer-se um feticídio selectivo (no caso de gémeos)

(cont.)

[qualquer erro, evidentemente da responsabilidade de quem tomou os apontamentos e assina este blog]

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Bater na parede

Resultado de imagem para bater na parede

Ao ler este texto, de Novembro de 2016, lembrei-me deste apontamento, de Junho de 2014, no rescaldo das Europeias. Demoramos tanto a ver o que está debaixo dos nossos olhos (foi preciso mais extremismos vencerem para se bater na parede) e agir consequentemente...

O rebuliço habitual, ou muita parra e pouca uva


Entre a capa do Sol, deste fim de semana, com a conclusão que enuncia - Santana Lopes não desiste de poder vir a ser líder do PSD - e o que é indiciado no interior do jornal, vai uma distância que não consigo "fechar": como, com os dados que apresenta, retira, o jornal, tal conclusão? Creio que a notícia, mesmos nas fontes contactadas, não apresenta, sequer, uma opinião em on (e, ainda assim, nenhuma é contundente a respeito de uma possível futura candidatura de Santana). E, creio até, que Santana Lopes tem mais do que experiência e intuição para compreender que não seria esse um múnus que lhe assentasse nesta etapa da sua vida política. O mundo dá muitas voltas, é certo, mas não me parece ter o mínimo de probabilidades a ideia de Pedro Santana Lopes voltar a ser PM - algo a que um líder do PSD costuma aspirar. Sem embargo, a ideia de um líder, com uma outra personalidade como candidata a PM poderia fazer o caminho (e a ideia de transição geracional a que o jornal, de modo especulativo, aludia, prosperar). De resto, o conjunto de textos em torno do PSD, neste semanário, não apresentava qualquer outra solidez que não a especulação em torno dos nomes mais conhecidos. E, nesse aspecto, independentemente das hipóteses de vitória a nível interno, creio que José Eduardo Martins vem apresentando um perfil do que seria um candidato ideologicamente mais moderado no centro-direita português; Nuno Morais Sarmento surgiria, provavelmente, com um perfil que procuraria empolgar mais, com um lado de preparação programática prévia - decorrente, até, da sua passagem pelo governo - maior, e com uma personalidade de rutura (um pouco o oposto da fleuma que Passos muitas vezes entende passar); Paulo Rangel, se resgatasse uma dimensão mais centrista do que a manifestada no último ano e meio, e aproveitasse várias das propostas que levou a Congresso mesmo nos anos em que o seu partido esteve no Governo, além do que era um perfil mais intelectualizado (para retomar os termos, em sentido oposto, que Pedro Santos Guerreiro assacava a Luís Montenegro e Rui Rio); além da esperança, num sector mais elitista (expressão sem conotação negativa) do estrangeirado Carlos Moedas seriam os nomes que me parecia que teria mais interesse, como cidadão, em ver discutirem (no mais nobre sentido da expressão) a liderança de um dos mais relevantes partidos portugueses. 
Rui Rio, em duas entrevistas sucessivas, não apresentou uma única ideia que o distinguisse de Passos Coelho (e que dizer de Montenegro?) e este último, ao contrário do que possa parecer, ainda aparece com um apoio muito significativo no seu partido (e é ainda muito cedo para se perceber no eleitorado, em geral; dos tais casos, em que é muito precoce anunciar uma derrota). As águas mexem-se um pouco, há uma certa espuma mediática - apesar de ser clara a opinião pró-Passos do Sol -, mas nada de muito palpável e claro para além das cenarizações que fazem as delícias dos jornais do fim de semana.

domingo, 20 de novembro de 2016

Domingo


PARA COMER DEPOIS

Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
a campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
«Eh bobagem!»
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for impossível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.

Adélia Prado, Tudo o que existe louvará (antologia), Assírio e Alvim, 2016, 27.

sábado, 19 de novembro de 2016

"Esplêndido caos"


ANTES DO NOME

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o «de», o «aliás»,
o «o», o «porém» e o «que», esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado, Tudo o que existe louvará (antologia), Assírio e Alvim, 2016, 20.

Apontamentos históricos


Segundo Ian Kershaw, não se pode dizer que tenha havido indiferença, ou ausência de ansiedade na ida para a I Guerra Mundial. Em todo o caso, houve predisposição para a guerra, e as alianças antagónicas que se haviam formado em vez de dissuadirem o conflito bélico, generalizaram a guerra. Não existindo um (país) responsável único pelo eclodir da I Guerra Mundial, o principal responsável, considera o historiador, foi a Alemanha (acolitada por Áustria-Hungria, mas também com grandes responsabilidades da Rússia). A Alemanha, de resto, tinha um medo paranóico da Rússia. Para se atentar no caldo de cultura em que a Guerra viria a ter lugar note-se como entre 1885-1905 cerca de 10 milhões de indígenas do Congo foram assassinados pelos belgas. Os britânicos possuíam "campos de concentração" para boéres. Os italianos invadem a Líbia, em 1911, na primeira guerra com recurso a meios aéreos. Isto, depois da sua derrota, às mãos dos etíopes, em 1896, o que gerou um sentimento de humilhação. No início do século XX, o anarquismo tinha grande força na Andaluzia, e as insurreições múltiplas na Catalunha e País Basco.

Não há festa, nem festança onde não vá a D.Constança


Resultado de imagem para João Capela

No passado fim de semana, no futebol português, não houve penalties por assinalar a favor do FCP, nem golos invalidados, de forma surreal, ao mesmo clube. Nem o facto de o FCP não ter jogado, deve levar os adeptos do Porto a desprezar o feito. No ponto grotesco em que se encontra a arbitragem portuguesa, qualquer arremedo de seriedade, o mínimo de honestidade, neste grau zero, neste patético, branqueado, até ao delírio, nesta twilight zone em que nos encontramos, passar, do ponto de vista clubístico, um fim de semana tranquilo é épico. Deve acrescentar-se que na noite de Chaves, onde o Desportivo, segundo as estatísticas oficiais, fez 1 remate e teve 1 canto em 90 minutos - o que, para os nossos hábitos, suspeito que será lido como genialidade táctica, entre outras habilidades e façanhas científicas -, onde, em 120 minutos, portanto, o Chaves conseguiu cometer mais penalties do que rematar, onde cilindrou em faltas, em anti-jogo, em entradas da equipa médica em campo, João Capela fez o que sempre lhe vimos fazer: escamoteou, sem hesitar, 3 penalties ao Porto, conseguiu a proeza de admoestar muitas mais vezes, nos 90', os jogadores do Porto, cometendo não sei quantas faltas a menos que os seus opositores, e não se vislumbrando especial perigosidade nestas, pelo menos se comparadas com as dos flavienses. Todavia, não se pode dizer que não existiu coerência. Não, não foi a primeira vez que se deu a c(h)apelada de deixar por marcar 3 penalties, no mesmo jogo, contra a mesma equipa. E também não se julgue, contudo, que isto faz de João Capela um dos piores árbitros portugueses. Longe vá o agouro. Quem vê, há 20 anos sucessivos, Bruno Paixão apitar; quem segue a carreira de um Jorge Ferreira; quem sabe quem é o árbitro Manuel Mota; quem já viu um jogo arbitrado por Carlos Xistra; quem conhece as capacidades para a arbitragem de um Nuno Almeida, de um João Pinheiro, quem aguentou, sem desfalecer, a carreira de Lucílio Baptista, João Ferreira ou Duarte Gomes, não há-de estranhar. 
E, aliás, os classificadores da FPF concordam e reconhecem os beneméritos: João Capela ficou em 2º lugar na lista de melhores árbitros do último campeonato. Lucílio Baptista e João Ferreira fazem parte do Conselho de Arbitragem. Que ninguém ruborize, ou fique encavacado. Marco Ferreira, por exemplo e inversamente, sem qualidade, nem a personalidade para esta arbitragem, foi mandado para casa, como devia ser. E, a propósito, imagino o orgulho que deve ter.
Como repetiu, incessantemente, Carlos Daniel, ao longo da última meia dúzia de anos, na televisão, a arbitragem nunca esteve tão bem. E quem não concordar não é bom chefe de família.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Grande malha


Mais um episódio notável da série DENTRO, na RTP1. Desta vez, olhem, de modo especial, para o confronto (verbal), na cadeia, entre Elsa, uma detida vinda de um bairro onde a marginalidade sucede com frequência, e a ministra, acabada de chegar ao estabelecimento prisional, acusada de corrupção e como, justamente nesta semana, o discurso populista, o nós (virtuosos) frente ao eles (corruptos, todos iguais, que vão para a política), o preconceito contra os de "cima" desconstruído com a evocação do preconceito/estereótipo contra os de "baixo", a pessoa acima de tudo, acima de cada um dos catálogos e rótulos, é apresentado de maneira tão conseguida. E o mesmo se diga, ainda, de um momento outro, o diálogo entre a "doutora", presa há muito por aldrabices, voz da amoralidade, do não há bem nem mal, não há certo nem errado, valeu a pena infringir a lei, porque o que levamos desta vida são as grandes festas, os lençóis de seda, eis o nihilismo embriagado, e do outro a ministra clamando inocência, esse é o legado que pode deixar, e triunfa com um abraço que é maior do que o melhor lençol do mundo no hotel mais refinado do planeta. Há justo e injusto, há bem e mal, certo e errado. A mesma série, poucos episódios antes, que conseguira fazer questionar a facilidade da hierarquização dos crimes - uma detida que insulta outra por esta ter praticado pedofilia, mas que roubara idosos muito pobres, que ficaram sem dinheiro para comida e medicamentos, és melhor do que ela? -, mostrando a ambiguidade e complexidade da condição humana, não deixa, simultaneamente, de trazer a palco o plano da clareza moral, igualmente tão urgente. Passem a série nos liceus deste país.

P.S.: depois de um início menos conseguido, a meu ver, tenho igualmente acompanhado todos os episódios de Os Boys, divertindo-me com o seu excelente elenco. Uma série que vale a pena, ainda que insista que Dentro é, realmente, imbatível, a melhor oferta portuguesa neste âmbito.

P.S.1: Em boa hora, Vítor Gonçalves deu voz a João Pina, certamente, para muitos portugueses, um ilustre desconhecido, mas que de há muito, como fotógrafo (fotojornalista) dá cartas em alguns dos melhores media mundiais. Com grande repercussão o seu trabalho Condor - ainda sem ter sido exposto em Portugal -, eis um olhar para continuar a acompanhar.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Ifigénia de Áulis


Resultado de imagem para Ifigénia de Aúlis

1. Jacqueline de Romilly, em A tragédia grega, faz notar que um dos traços mais impressivos de Ifigénia de Áulis, de Eurípedes, passa pela reviravolta de caracteres, pelo modo, inesperado, contraditório, gerador de estupefacção com que Ifigénia, em um breve lapso de tempo, tudo faz, implora, para evitar ser sacrificada, demonstrando uma grande esperança de viver e, logo depois, aceita que assim venha a ser, resigna-se, conforma-se a esse resultado (de morte; que não chega a acontecer por interferência divina). A classicista releva quanto esta súbita inflexão psicológica contraria a disposição grega (antiga): ela "choca os hábitos da época" (p.133). De tal sorte que Aristóteles, na Poética, chegue, precisamente, a dar o exemplo de Ifigénia "para lamentar que Eurípedes tenha faltado àquilo que ele chama a «constância» dos caracteres. Uma tal crítica ajuda a perceber o que havia de audacioso na originalidade do poeta" (p.134). Porque terá mudado, tão repentinamente, Ifigénia? "Esta decisão brusca adquire um relevo maior apenas na medida em que parece ter emanado de um instinto mais profundo" (p.133). 
Se esta reviravolta interior causava perplexidade aos gregos, porém ela viria a alcançar uma grande "importância em toda a psicologia e literatura modernas" (p.134)

2. Ifigénia será uma das heroínas de diversas tragédias gregas - não apenas as de Eurípedes, como de Sófocles - engrandecidas pelo sofrimento e pela coragem, pela sua firmeza na dor e na sua resolução; numa palavra, "engrandecidas pela tragédia" (p.39).

3. A tragédia de Helena evoca gritos poderosos contra a guerra. A ambição de Agamemnon será criticada em Ifigénia de Áulis - mau grado, na peça, podermos ver como Clitemnestra o retrata positivamente, no que, face à leitura de Romilly tenderemos, então, a tomar, eventualmente, como esquema de persuasão -, os sentimentos e a dimensão política fundidos em Eurípedes.

4. Ésquilo chama a Menelau e Agamémnon "dois campeões da vingança", e os seus retratos, quando cada um caricatura o outro - no momento em que se juntam, pois Menelau se apercebe do arrependimento de Agamémnon, ficando, assim, o resgate de Helena em causa -, "descendo ao nível dos mais medíocres", mostrarão, afinal, "dois cobardes" (p.136). Eles, mesmos, apresentam reviravoltas psicológicas que antecipam a de Ifigénia (p.152)

5. Sobre a arte de Eurípedes, a sua força estética em Ifigénia de Áulis: "ele introduziu todo um jogo de peripécias: Ifigénia chegará ou não; será, ou não, massacrada; esperamos, desesperamos; e só no último minuto é que ela é miraculosamente salva. Mas a humanidade que ele atribuiu a Ifigénia, a Clitemnestra, ao próprio Agamémnon, torna, entretanto, cada verso tocante e impressionante. A sátira política e os jogos de intriga passam pelos sofrimentos humanos, próximos e intensos. É, aliás, precisamente por isso que Racine, cujo propósito era muito diferente, teve a ideia de se inspirar nela" (p.153)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Tempos incertos


*Francisco BethencourtEnquanto a vitória de Trump poderá conduzir ao isolamento dos Estados Unidos, permitindo a reconstituição do império russo e o realinhamento dos países asiáticos sob o domínio da China. (...) Não parece que a Alemanha esteja disposta a prescindir de uma moeda de valor inferior ao marco. Nestas circunstâncias, a Itália será provavelmente o primeiro país a sair do euro, acelerando a crise. Caso a extrema direita chegue ao poder em França, teremos o fim da União Europeia à vista. (...) A vitória de Trump tem o seu paralelo na vitória do “Brexit”. Em comum estão em jogo políticas anti-imigrantes. As diferenças entre o Reino Unido e os Estados Unidos, contudo, são abissais. Enquanto no primeiro caso existe uma relativa unanimidade em favor do Serviço Nacional de Saúde, nos Estados Unidos o Obamacare tem os dias contados, estando em cima da mesa a exclusão, de novo, de vinte milhões de pobres. A redução de impostos e a redução do Estado, promovidas nos Estados Unidos, não tem eco, de momento, no Reino Unido (...) O ambiente xenófobo é o mais visível legado do “Brexit” e da vitória de Trump. No caso dos Estados Unidos, a linguagem de Trump autorizou a emergência da extrema direita, que estava ausente do jogo político há longos anos. Aliás, expoentes de conhecidas redes da extrema direita estiveram diretamente envolvidos na campanha eleitoral de Donald Trump. O abuso racista e sexista tornou-se agora banal, invadindo os media e pondo em cheque as conquistas sociais e culturais dos últimos 50 anos. (...) A eleição do primeiro Presidente norte-americano que recusou a publicação das suas declarações de impostos não prenuncia o exercício de um governo isento e sério. Os problemas do sistema politíco norte-americano, onde a legalização dos lobbies procurou enquadrar a corrupção larvar que ensombra as instituições legislativas, serão provavelmente aprofundados nesta legislatura. Os poderes estrangeiros, que conhecem perfeitamente as possibilidades oferecidas pelo sistema, tendo-as usado amplamente, terão motivos para reforçar a sua presença, já notada durante a campanha eleitoral. (...) O ataque aos direitos dos trabalhadores irá conhecer uma nova fase num ambiente nacionalista, isolacionista e proteccionista, quando se sabe que tem sido um dos factores de estagnação do sistema económicoMais, é conhecido o impacto económico favorável dos imigrantes em diversos países, incluindo o Reino Unido, mas as estatísticas não se reflectem na opinião política, dominada pela competição por recursos, nomeadamente benefícios sociais, supostamente estáticos. O próprio sistema económico poderá estar em causa neste novo ambiente. Aliás, a robótica e a nanotecnologia irão provocar a curto prazo um enorme impacto no mercado de trabalho. A retracção politica a que estamos a assistir vem no pior momento, contribuindo talvez, pela ruptura que ameaça, para uma profunda reavaliação do sistema capitalista. 

*Daniel InnerarityMi hipótesis es que nuestros sistemas políticos no están siendo capaces de gestionar la creciente complejidad del mundo y son impotentes ante quienes ofrecen una simplificación tranquilizadora, aunque sea al precio de una grosera falsificación de la realidad y no representen más que un alivio pasajero. Quien hable hoy de límites, responsabilidad, intereses compartidos, tiene todas las de perder frente a quien establezca unas demarcaciones rotundas entre nosotros y ellos, o entre las élites y el pueblo, de manera que la responsabilidad y la inocencia se localicen de un modo tranquilizador. Poco importa que muchos candidatos propongan soluciones ineficaces para problemas mal identificados, con tal de que ambas cosas —problemas y soluciones— tengan la nitidez de un muro o sean tan gratificantes como saberse parte de un nosotros incuestionable. (...) Estos comportamientos del “soberano negativo” manifiestan una profunda desesperación: no se vota para solucionar sino para expresar un malestar. Y, en lógica correspondencia, son elegidos quienes prefieren encabezar las protestas contra los problemas que ponerse a trabajar por arreglarlos. Por eso la competencia o incompetencia de los candidatos es un argumento tan débil. Lo decisivo es representar el malestar mejor que otros. (...) Por supuesto que no basta con estar indignados para tener razón, ni los llamados “perdedores de la globalización” (o quienes así se llaman sin serlo o sin serlo en exclusiva) tienen una mayor clarividencia acerca de lo que nos conviene; la cólera, tantas veces justificada, no nos exime de hacer análisis correctos y proponer soluciones eficaces. La extrema derecha no es la que está en mejores condiciones de hacer frente a los desarreglos de la globalización sino la que ha ofrecido el relato más verosímil para una buena parte de los enfurecidos. Otra parte ha ido a buscar esa explicación simple en el extremo opuesto, en políticos como Iglesias, Grillo o Mélenchon, a quienes el hecho de compartir la misma lógica que sus siniestros oponentes no parece inquietarles demasiado. No tienen la misma ideología, por supuesto, pero sí la misma lógica simplificadora. (...)  Se equivoca quien juzga este incremento de los extremismos a partir del precedente de los movimientos antidemocráticos que dieron lugar a los totalitarismos del siglo pasado. A diferencia de aquellos, estos utilizan un lenguaje democrático. Lo que ocurre es que tienen una idea simplista de la democracia y absolutizan una de sus dimensiones. Por eso no haremos frente a esta amenaza mientras no ganemos una batalla conceptual que haga inteligible y atractiva la idea de una democracia compleja. La democracia es un conjunto de valores y procedimientos que hay que saber orquestar y equilibrar (participación ciudadana, elecciones libres, juicio de los expertos, soberanía nacional, protección de las minorías, primacía del derecho, deliberación, representación…). Los nuevos populismos tienen una retórica democrática porque toman uno solo de ellos y lo absolutizan, desconsiderando todos los demás. Se degrada la democracia cuando se absolutiza el momento plebiscitario o cuando entendemos la democracia como soberanía nacional impermeable a cualquier obligación más allá de nuestras fronteras. (...) Lo primero que nos enseña un concepto complejo de democracia es que la democracia es un proceso. Una democracia de calidad es más compleja que la aclamación plebiscitaria; en ella debe haber espacio para el rechazo y la protesta, por supuesto, pero también para la transformación y la construcción; el tiempo dedicado a la deliberación es mayor que el que empleamos en decidir. 

*Augusto Santos SilvaA emoção tende a prevalecer, levando as pessoas a quedar-se pela expressão radical do protesto e desarmando-as face aos demagogos. Os mecanismos de racionalização do debate público e escrutínio da informação caíram numa profunda crise, permitindo campanhas políticas vitoriosas fundadas no preconceito e na mentira. A ideologia da suposta comunicação universal generalizou uma espécie de nudez moral, que leva a que sejam apresentadas e apreciadas as mais abjetas representações de si e dos outros, como se já não fosse possível o trabalho da cultura (alguns dirão da civilização) para a elevação crítica e criativa do nosso ser. As similitudes com a atmosfera europeia dos anos de 1920 e 30 são flagrantes, com a mesma confusão de valores, a mesma incapacidade de valorizar as alternativas ao centro, o mesmo desprezo pela convivência pacífica, a mesma pulsão extremista, a mesma busca de um qualquer grupo que possa expiar todas as culpas. A verdade é que, hoje, ninguém pode descartar o pior cenário – que na Europa significaria o triunfo da retração nacionalista e a hegemonia do populismo. Não se trata de ser pessimista, mas de ser realista, admitindo, no sombrio tempo atual, todas as possibilidades. O que nos dá também alento para combater as possibilidades que não queremos, porque nos reconduziriam a um século atrás, como se o quadro institucional laboriosamente construído no Pós-guerra se tivesse desmoronado.  Afinal, só temos três opções. Ou repetimos o erro histórico dos revolucionários europeus dos anos 30, pregando a indiferença perante as alternativas ao centro, como se fossem equivalentes e igualmente inúteis ou nocivas. Ou incorporamos a agenda populista, traindo os nossos valores na crença ilusória de assim esconjurarmos o mal (quando, de facto, o legitimamos e fortalecemos). Ou então defendemos os nossos princípios e falamos a nossa linguagem, e a partir daí mobilizamos aqueles que continuam a ser as forças mais dinâmicas: os jovens, os educados, os profissionais, as classes médias e trabalhadoras. 

*Timothy Garton AshO que vemos em todos esses populismos nacionalistas é uma ideologia que afirma que a vontade expressa diretamente pelo “povo” vale mais que todas as demais fontes de autoridade. Quando Trump diz: “Eu sou a sua voz” está usando uma típica frase populista. Igual à primeira página do The Daily Mail quando acusa de serem “inimigos do povo” os três juízes britânicos que decidiram que o Parlamento deve votar sobre o Brexit. Como o primeiro-ministro turco, quando rejeita as afirmações da UE de que, com sua brutal repressão da liberdade de imprensa, cruzou uma linha vermelha, e diz que “o povo é quem traça as linhas vermelhas”. (...) Quando se examina isso em detalhes, vê-se que “o povo” – Volk seria um termo mais exato – não é, na realidade, mais que uma parte do povo. Trump encarnou à perfeição essa encenação populista em uma frase espontânea pronunciada durante um comício de sua campanha. “A única coisa importante é a unificação do povo”, disse, “porque os demais não contam”. Os demais: curdos, muçulmanos, judeus, refugiados, imigrantes, negros, elites, especialistas, homossexuais, ciganos, cosmopolitas urbanistas e juízes gays e eurófilos. Nigel Farage anunciou que o Brexit era uma vitória para as pessoas normais, as pessoas decentes, as pessoas de verdade: ou seja, que os 48% que votaram não no referendo não eram nem normais nem decentes nem de verdade. O populismo nacionalista de hoje, o liberalismo globalizado (o neoliberalismo) dos anos noventa, o fascismo e o comunismo dos anos trinta e quarenta, o imperialismo do século XIX. Talvez nos ensine duas lições: que essas coisas demoram certo tempo para serem resolvidas e que, para fazer com que a onda retroceda (quando são ondas que convém fazer retroceder) é preciso coragem, empenho, consistência, o desenvolvimento de uma nova linguagem política e novas respostas políticas a problemas reais. Um grande exemplo é a combinação da economia de mercado e o Estado de bem-estar que se desenvolveu na Europa Ocidental a partir de 1945. O modelo, que conseguiu pôr fim às ondas do comunismo e do fascismo, necessitou do gênio intelectual de John Maynard Keynes, a sabedoria de um William Beveridge e a perícia política de gente como Clement Attlee. Além de outros nomes nas diferentes versões adotadas em outros países. De qualquer modo, o desenvolvimento de um novo modelo requer tempo. Devemos, pois, nos preparar para uma luta prolongada, talvez geracional. Não estamos ainda num mundo pósliberal, mas talvez cheguemos a estar. Para começar, temos de defender o pluralismo. Também temos de compreender as causas econômicas, sociais e culturais que fazem com que as pessoas votem nos populistas. Temos de buscar – não só a esquerda, mas também os liberais, conservadores moderados e criadores de opinião de todo tipo – uma nova linguagem que atraia, em conteúdo e emoções, esse amplo setor do eleitorado populista que não é irremediavelmente xenófobo, racista e misógino (por exemplo, tratar de não chamá-los de “miseráveis”). (...) Por isso mesmo, as demais grandes democracias do mundo – todas as democracias nacionais da Europa, o Canadá, Austrália, Japão, Índia – precisam assumir uma carga muito maior. Se nós, europeus, pensamos que é vital que os Estados bálticos estejam protegidos contra qualquer possível agressão da Rússia, temos de fazer o possível, por meio da OTAN e da UE, para garantir isso. Não podemos confiar em um Trump que se dedica a elogiar Putin. Se nós, europeus, achamos que é importante que a Ucrânia continue sendo democrática e independente, teremos de nos ocupar de conseguir isso.  A resposta mais digna que vi à eleição de Trump é, de longe, a que Merkel deu. “A Alemanha e os Estados Unidos”, disse, “estão unidos pelos valores da democracia, da liberdade e do respeito à lei e à dignidade humana, independentemente da origem, cor de pele, religião, gênero, orientação sexual ou ideias políticas. Ofereço ao próximo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma estreita cooperação baseada nesses valores.” Magnífico.