quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Sopro


O primeiro documento do magistério da Igreja Católica no qual se aceita o evolucionismo é a encíclica «Humani Generis», de Pio XII, em 1950. Contudo, no mesmo documento, ainda se olhava para Adão e Eva como sendo duas personagens com existência histórica. A leitura alegórica, a Bíblia que não faz ciência, não diz o como, mas o porquê, explicitando um sentido na cosmogonia do Génesis, com a ilustração da auto-suficiência como maior pecado (recusa de Deus, na maça comida), um cosmos criado (continuamente) por (um) amor (que continua a sustentá-lo) ainda teria um caminho pela frente (tão longo que no ano da graça de 2016, não tão raros petizes ainda se espantam com a interpretação metafórica). Alfredo Dinis e João Paiva, que escreveram sobre isto, não deixaram de reconhecer o quão problemática é a concreta dilucidação de quando se está em presença, na Escritura, qual o critério claro definidor, de um texto que deva ser assumido de modo literal, ou metafórico. Um dos pontos de Frederico Lourenço. E quanto a aceitação do evolucionismo não resolveu a questão do pecado original.
  

Pensões mínimas e combate à pobreza


Há 1 milhão 194 mil pessoas a receber as pensões mínimas, em Portugal. Com estas pensões, o Estado português gastará 4670 milhões este ano. Muito oportunas, a respeito destas e seu papel na (suposta) redução da pobreza, as considerações do Prof.Carlos Farinha Rodrigues na entrevista ontem concedida ao DN. Através dela, ficamos a saber que i) o último estudo realizado sobre pensões mínimas, em Portugal, data de 2003, e é da autoria de Carlos Farinha Rodrigues e Miguel Gouveia; ii) esse estudo concluiu que só 31,25% dos beneficiários das pensões mínimas eram pobres; iii) não há estudos de avaliação do Complemento Social para Idosos (CSI); iv) ainda assim, o que se verifica é que houve uma grande redução da pobreza entre os idosos, que era de 40% em 1990; v) a taxa de pobreza entre idosos teve uma descida, entre 2006 e 2012 de 25,5% para 14,7%, e entre 2012 e 2014 subiu para 17%; vi) na avaliação do investigador, o CSI "teve efeitos positivos". Mas "esperava que beneficiasse mais idosos" - o que não sucederá devido às exigentes/difíceis condições para o seu acesso (a medida devia, pois, ser melhorada).


Portugal Desigual - Desigualdade de Rendimento e Pobreza (FFMS)




Alguns sublinhados das conclusões apresentadas a propósito do que o estudo revelou:


Os 10% mais pobres da população portuguesa estão piores em 2014 face a 2009, quer do ponto de vista relativo, quer em termos absolutos.

Todos os decis perderam rendimento; o que não quer dizer que todos os indivíduos perderam rendimento. “Em virtude da crise e das políticas seguidas”.

O aumento do fosso entre os 5% mais ricos e os 5% mais pobres é ainda (bastante) maior do que o encontrado para os 10% que se encontram nos extremos (entre 2009 e 2014).

O país tem revelado uma grande dificuldade em implementar medidas que travem a pobreza infantil, um dos principais problemas do Estado Social português.

As famílias mais jovens, as famílias alargadas com crianças, as famílias desempregadas, as famílias com menor qualificação foram as mais afectadas com a crise.

42% das transferências sociais vão para os 20% mais ricos (na medida em que as pensões contributivas estão aqui incluídas). 70% dos impostos são pagos pelos 20% mais ricos da população portuguesa.

A eficácia das pensões e das restantes prestações sociais é semelhante, mas a sua dimensão é bastante diferente. O que mostra que a eficiência é muito maior nas outras prestações sociais. Assim sendo, as prestações sociais baseadas nas condições de recursos são insuficientes, em Portugal. Eficiência foi reduzida no período 2009-2014; neutralização da sua capacidade distributiva.

Os impostos são a fonte mais eficaz de redução da desigualdade. Entre 2009-2014, a carga dos impostos aumentou, tal como aumentaram a eficiência e eficácia na redução das desigualdades.

As famílias do 1º decil (as famílias mais pobres, portanto), com a mudança de regras do RSI, entre 2010 e 2014, perderam 16,8% do seu rendimento. Com as alterações no IRS, o impacto nestas famílias foi praticamente insignificante; elas afectaram, antes, as do décimo decil (com maiores rendimentos declarados, pois). As alterações ao RSI tiveram um impacto fortíssimo na intensidade (severidade) da pobreza. Os impactos das alterações produzidas no abono de família não foram muito substantivos. As alterações das políticas sociais foram num sentido fortemente regressivo.

Valorização do factor trabalho, melhoria das qualificações devem ser apostas de futuro.

Escolas


Há dias, numa crónica de Edson Athaíde, no Dinheiro Vivo, li que na Argentina estava a estudar-se incluir uma disciplina de cinema, nos currículos obrigatórios dos alunos do primeiro ciclo. Numa rápida pesquisa pelo google, encontrei esta notícia que dá essa introdução por garantida (e, portanto, não em estudo). Intervenção de Hollande, e interesse não apenas cultural mas económico, terão estado entre as motivações para que o cinema vá às escolas (nas Pampas). De imediato, a crónica e a notícia, remeteram-me para o Plano Nacional de Cinema, inscrito, há uns anos, como (boa) aposta cultural nas escolas portuguesas. Na minha não longínqua experiência por essas mesmas escolas, nunca dei por ela, ou melhor, por eles: o dito Plano, e os filmes. Nem em uma única conversa, em uma reunião, informal ou formalmente, eles estiveram presentes. Isto não implica que se possa extrapolar para o panorama nacional (como um todo), nem, tão pouco, que antes dessa ideia escolas não houvesse - como creio que havia - que tivessem as suas salas de cinema (activas, frequentadas, participadas). Por outro lado, lembrei-me de Marcelo, o Presidente, ou o comentador e analista político, que há menos de um mês dizia que nunca viu nenhum governo, em Portugal, ganhar eleições por causa da Educação. É uma pena, com efeito, que não se coloque no centro do debate o que devia constituir o nuclear de uma sociedade: uma paideia (e qual) ao serviço do Homem (e qual). Os alunos, tenho aliás a impressão, na grande maioria dos casos, vêm a escola como uma soma de disciplinas a cumprir para uma entrada, um dia, na universidade, para, por sua vez, ter um emprego (o melhor, ou mais bem remunerado, possível). Dá-se por adquirido, ou então considera-se que não há interesse em reflecti-lo com os discentes, que se sabe o que é a escola, em que consiste. Para além destes (discentes), toda a sociedade, incluindo os professores, pode alhear-se, de tal maneira, do fundamento do âmbito em que intervém profissionalmente - e quando nos questionamos do radical do que quer que seja? -, que às tantas trabalha para algo (e alguém) que não é a escola. A propósito de experiências, o que venho notando muito é que os últimos anos de carreira, aqueles em que os professores já estão com uma idade com muitos e muitos alunos nas costas, reuniões, discussões, mágoas, testes, rotinas são um sacrifício desmedido (como me dizia hoje uma colega, e não foi caso único, "agora, cada ano parecem 10!"). Embora, como a diversidade é a regra nos assuntos humanos, um outro docente, de visita à escola, me confidencie: "sabe, mal saí daqui para a reforma entrei em depressão. Não aguentei. Moro aqui ao lado da escola, mas estive anos sem cá vir. Isto era a minha casa, a minha família").


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Contrastar

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Já por aqui manifestei que considero Números do dinheiro (RTP3) o melhor programa sobre economia que passou, até hoje, nas televisões portuguesas. Em boa hora, a RTP decidiu prosseguir para mais uma temporada, e a sua mais recente edição é um excelente (e adicional) exemplo de como se pode fazer serviço público, empoderando os espectadores, na medida em que se lhes empresta um aparato crítico para ler o mundo económico (fruto de uma preparação prévia rigorosa, de estudo, e de uma dada visão do mundo, que não é coincidente, felizmente, entre os três participantes). Em particular, na última segunda-feira, a intervenção de Ricardo Paes Mamede esteve eivada de uma substância rara, hoje, nos nossos media e que importa anotar, esquematicamente, no contributo para se pensar a cidade:

*Relatórios do FMI publicadas na última semana (sobre a situação portuguesa):

1.O que causou a crise, segundo o FMI? O excesso de crédito, causado pelo excesso de afluxo de capitais, causado pela liberalização da economia.

Sobre este ponto, em termos substantivos, crítica não houve, por parte do Professor de Economia; essa crítica foi, antes, dirigida para a Instituição FMI, por ter sido uma das grandes defensoras da liberalização agora por si mesma apontada. Apresentada como receita, apontada agora como veneno.

2.Constrangimentos da economia portuguesa. Houve uma explosão do crédito ao consumo (FMI)

Crítica de Ricardo Paes Mamede: Esta observação é errada. O crédito não foi dirigido ao consumo, mas, ao invés, direccionado ao investimento. E, sobretudo, ao investimento privado.

3. O excesso de crédito resultou de falhas de supervisão das autoridades nacionais

Crítica de Ricardo Paes Mamede: o excesso de crédito tem tudo menos o ser uma especificidade portuguesa (logo, tal crédito em abundância não pode ser creditado a tais autoridades)

4. O problema de competitividade da economia portuguesa tem a ver com o excessivo custo do trabalho e este é consequência do mercado de trabalho existente.

Crítica de Ricardo Paes Mamede: hoje, documentos do BCE, e muitos outros estudos, provam que o aumento dos custos unitários do trabalho não foram a causa, mas a consequência dos desequilíbrios externos; eles surgem na sequência do afluxo de capitais - não causam, pois, os desequilíbrios. A perda de competitividade no preço, desde 2002, fica, quase exclusivamente, a dever-se ao valor do euro face ao dólar. Não houve, desde 2002, praticamente aumento de custos unitários relativos; aliás, a partir de 2005, estes até desceram. O FMI ignora os factores não preço da competitividade. Hoje, sabe-se que as grandes diferenças de desempenho exportador tem a ver com dois factores essenciais: o que se exporta e para onde se exporta.

O FMI, sobre o sistema bancário, diz ainda que ficou tudo por fazer, mas a culpa não é nossa e, acerca das Finanças Públicas, que estas ficaram piores (no final do ajustamento).

Como o programa abordou, também, as questões atinentes ao recente estudo da FFMS acerca da desigualdade, relevou-se o aumento da intensidade da pobreza; isto é, não apenas o aumento da pobreza - mais gente abaixo dos 60% da mediana de rendimentos -, mas aumento da intensidade da pobreza - mais gente mais longe dos 60% de tal indicador. Se o principal factor para o aumento das desigualdades foi o desemprego, para quem considera que se foi além da troika, não deixa de incluir o anterior Executivo em uma parte desse desemprego (e das desigualdades geradas por esta via); por outro lado, estas resultaram, também, da diminuição de apoios sociais (por exemplo, para se ir buscar pouco mais de 30 milhões de euros, decidiu-se cortar no Complemento Solidário para Idosos).

CUIDAR DA ALMA


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A primeira coisa que aprendeu com Platão foi que a verdadeira Filosofia é metafísica. É a Filosofia que ultrapassa o empirismo, o mundo quotidiano, porque procura compreender o significado mais profundo do que é ser humano. É isso que torna única a cultura europeia. A Europa não é uma tradição de costumes que passa de geração em geração, não, a Europa é antes de mais essa busca da verdadeira humanidade. Qual é a essência do ser humano? Bom, isso é o que Sócrates sublinha em quase todas as suas conversas: é a alma, a alma imortal o que faz um ser humano, humano. A posse de uma alma significa que os seres humanos são as únicas criaturas plenamente cientes da sua própria vulnerabilidade, da sua mortalidade. É essa a ansiedade fundamental que qualquer homem ou mulher sente. Ao mesmo tempo, é às nossas almas que temos de agradecer a nossa grandeza, porque nos permitem conhecer o absoluto, o eterno, o que não é transitório: a verdade, o bem, a beleza, o amor, a justiça. Ecce homo. A grandeza dos seres humanos é a sua capacidade de tornarem seus, com o tempo, estes valores espirituais, que são eternos. É também esse o propósito de todo o grande artista, permitir-nos ter a experiência deste mundo imperecível (...) Pelo que a linguagem do poeta, a linguagem das Musas, é um dos mais importantes dons que nos foram concedidos. É nessa linguagem que aprendemos a conhecer o Logos, o significado daqueles valores espirituais, expresso por palavras. O palavreado dos media, a conversa oca dos políticos, o discurso de vendas do comércio, o jargão vazio dos académicos, tudo isso, literal e figurativamente, nada diz. Porque é desprovido de significado. O cuidar da alma, a capacidade de dar ao eterno um lugar no tempo, é isso a Filosofia. Dá-nos a todos a capacidade de nos erguermos acima de nós próprios, de darmos o melhor de nós, de nos transformarmos, e de darmos à verdade e à justiça uma morada neste mundo. Por isso,  a essência da Europa não é a política, ou a economia, ou a tecnologia, não, é a cultura. Nada mais. Não é por acaso que o nosso conceito de cultura tem origem na afirmação de Cícero: Cultura animi, filosofia est. O cultivo da alma, é isso a filosofia. Palavras sábias, que lhe foram ensinadas por Sócrates, e todos os europeus de verdade deveriam tê-las gravadas nos seus corações. Em prol desse cultivar da alma, em prol da busca contínua desses valores espirituais e do esforço de os tornar nossos, em prol de todas essas coisas, qualquer filosofia digna desse nome é sempre metafísica. A filosofia nunca pode ser uma doutrina ou ideologia, pois o bem, o belo e o verdadeiro não podem jamais ser captados numa só forma. Esta busca, este cuidar da alma, este esforço de viver em verdade e de tornar o mundo justo nunca estarão completos. O que significa que ser europeu é acima de tudo um estado de espírito, e a Europa nunca está completa. Ser europeu significa também lutar, lutar por uma sociedade europeia humanista em que o que é central na educação não é o indivíduo mas  a ideia do ser humano - principalmente nas universidades onde os jovens podem adquirir uma consciência cultural e moral, onde se cultiva a alma humana de modo a que as pessoas se tornem moralmente maduras e sejam guiadas na sua sociedade por um desejo de verdade e justiça. Porque só isto, o cuidar da alma - o desejo que a alma tem de ser alimentada pela verdade e a justiça e de viver num mundo verdadeiro e justo - só isto pode ser a bitola, a linha orientadora para um mundo que quer ser civilizado.


Rob Riemen [aqui, dando voz a Radim, um dos intervenientes num conjunto de conferências-debate em que o filósofo também participaria, mas que pode ser visto em chave de uma leitura em que personagens-tipo como o padre que pretende restaurar a Cristandade, Sashi, o   deslumbrado tecnológico, ou Radim o velho sábio, Walter, o humanista que desfaz as ilusões da religião do cientismo, expressam um conjunto de pontos de vista acerca do modo como responder para que a princesa Europa regresse verdadeiramente ao proscénio da história], O regresso da princesa Europa, Bizâncio, 2016, pp.98-102.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Do prazer estético

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A prova de que não precisamos de estar sempre de acordo com o que lemos para nos deleitarmos, seguirmos a volúpia, exercício hedonista, com uma escrita que nos prende e contagia, está no volume de crónicas de Nélson Rodrigues, agora finalmente publicado em Portugal (pouca coisa do autor havia chegado até nós, apesar das referências quase míticas que o seu nome sempre rumorejava), selecção de Pedro Mexia, sob o título O homem fatal (Tinta da China). Trata-se da "arte da frase", como escreve Abel Barros Baptista, e de um humor soberano, seguro, fatal. Sem condescendências, nem indolência. Vital. Por exemplo, sobre os inúmeros feriados,  pontes, momentos de ociosidade dos brasileiros, Nélson Rodrigues sentencia, com a magnífica impenitência de quem assesta uma fatwa necessária, caricatura que na hipérbole, junta crónica de costumes a uma reivindicação do literário, o exagero necessário para criar distância e civilidade: "O brasileiro é um feriado (...) Era uma terça-feira e - note-se - o primeiro dia útil depois de sexta, sábado, domingo e segunda de Natal. Imaginei que, exausto da própria ociosidade, o brasileiro estivesse, no escritório, na oficina ou na pedreira, fazendo a sua pátria (...) E eu já via, com olhos de imaginação, uma praia deserta, sem uma mísera alma ou de calção ou de biquini. Todavia, quando dobro a avenida Atlântica, eis o que vejo: do Forte de Copacabana ao Vigia, era só uma multidão que daria para lotar várias vezes o maior Fla-Flu". Ou, no seu anti-comunismo, a pérola forjada para retratar a cegueira dos seus compatriotas, face ao estalinismo: "Sim, o que se sentia, aqui, por Stalin, era uma dessas admirações hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer «travesti» do João Caetano ou do Teatro República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um amor quase físico, uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trêmulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de «o Velho». E essa paixão era de um sublime ignóbil" (p.40). Ou, ainda, na injusta, mazinha, pérfida ironia sobre D. Hélder da Câmara que, segundo Rodrigues, olharia para o Céu apenas para saber se deve sair à rua com guarda-chuva, numa crítica a uma teologia política que, da sua perspectiva - a meu ver errada, sobre isso escrevi uma tese, mas isso aqui não interessa -, ficava pela imanência, sem remeter para a transcendência (então e a vida eterna? , perguntar-se-ia ao bispo. Há fome no Nordeste, responderia). Apegado às formas mais tradicionais de fé - "minha infância foi a época dos valores nítidos, sim, dos valores precisos. Céu era Céu. Deus era Deus. O Diabo era o Diabo. Por outro lado, o céu era a evidência do sobrenatural e, repito, por trás do azul residia o sobrenatural. E, quando o sujeito olhava para o alto, um arroubo subia de suas entranhas" (p.35) -, viu esta, a fé, tornar-se obsoleta, uma extravagância, algo tão inactual como o espartilho da Belle Époque. E, no entanto, muito esporadicamente, a missa de Domingo agarrava-o - "Ah, quando entro na igreja, e vejo o sono dos círios nos altares, e o frêmito das rezas, sinto angústias tremendas. Há em mim o despertar de velhas culpas e a memória de não sei que abjecções", p.45 - levando-o a verberar os padres progressistas: numa dessas histórias, agora mais hilariantes do que irónicas, quase sempre intercaladas com outras narrativas no seu interior, como parêntesis-matrioskas, dá conta de, numa das eucaristias dominicais em que ingressara, ter ouvido o padre dizer que "criança não peca", sendo que, em fechando o círculo da crónica, entremeada por boutades graciosas, lembra uma velha indignada com o cura que em confissão lhe pergunta a idade: "60? Aos 60 ninguém peca". Soma-se à gargalhada (que damos) a verdade antropológica que contem afiada: moral da história, sem responsabilização, a pessoa não existe, e ela tem direito a reivindicar seu pecado, quer dizer, perdão e graça; existiu quando obrou (mal), e essa dignidade não podem roubar-lha ("Doeu-me que alguém visse na criança um ser mínimo e tão amoral como um bichinho de avenca (...) E, mexendo o café, tinha a sensação de que o sermão degradara a criança. Se é verdade que um menino está isento do bem e do mal, então é um pequenino canalha", pp.45-46), ainda que a despeito de um bonzismo bem intencionado, a criança imaculada que só existe no manto diáfano da fantasia kitsh: "Lembro-me de coisas que eu fazia, aos oito, nove anos, e que me causaram lesões de sentimentos ainda não cicatrizadas (...) [Ao dar uma estalada noutra criança sua congénere] Fui varado por um sentimento de culpa que ainda hoje, quase meio século depois, me persegue (...) Desejo notar que a consciência infantil tem um dramatismo que nós, adultos, já perdemos". Para mim, num século (XX) em que o rosto adquiriu, nos contornos que a filosofia conseguiu imprimir-lhe, uma forma manifestandi de um Outro, cujo significado só poderia ser um não matarás (dignidade absoluta), e talvez porque na sensibilidade por certo permeada por essas leituras, sempre este me assomou como intocável de facto, e o pudor impedia toná-lo objecto de bofetadas, foi muito curioso e interessante encontrar esta reflexão enxertada na crónica vinda de perpassar: "Dar na cara. Não sei se nos outros povos e nos outros idiomas a bofetada tem a mesma transcendência. Mas, para o brasileiro, a bofetada é sagrada. Criei-me ouvindo o adulto dizer: «Se alguém me der na cara, eu mato, mato!"». De aí o seu estremecimento décadas depois de violar o compromisso sagrado de uma interdição alçada a imperativo.
Sem politicamente correctos, procurando o nu, o cru, a verdade sobre si, Nélson Rodrigues dá conta, em outra intensa crónica, da humilhação na escola: todos os dias, leva uma banana, que não sabia ser tão magro manjar ("No terceiro dia, comecei a ter vergonha da banana. Fosse prata, ou maçã, mas era banana. Nasceu em mim, então, a utopia do sanduíche de ovo", p.24) Dia após dia, é a gemada na sandes do colega, escorregando-lhe pelo queixo abaixo, que o derrota - mas outros há que levam goiabada e bife. Já com mulher, adulto, pede a sandwich com ovo à empregada, nunca mais esquece. Tal como a exposição à frente dos colegas, a professora a chamar e a colocá-lo de frente para o quadro, depois face a face com os colegas ("Estou de frente para o quadro-negro, de costas para a classe. E ela [a professora]: - «Vira, vira! Fica de frente!». estou cara a cara com os outros"), por fim identificado com as lêndeas detectadas no seu cabelo («Não disse?» Vira-se para a classe: - «Eu sabia! Eu sabia! Tem piolhos, lêndeas!». Levou-me para a sala da directora: - «Esse menino não pode ficar com os outros! Pega piolho nos outros!». A directora, de óculos, papada, fez uma boquinha de nojo. Depois da aula, levei para casa um bilhete da professora. E mudei de calçada para não passar pela porta de Lili"). Sente-se, palpa-se, o ambiente e o sentimento de quem alguma vez foi sujeito a semelhantes suplícios - que cheira mal, que deve afastar-se dos outros meninos («Não quero menino sujo na minha classe. Já basta o Nélson». As meninas me olhavam, e eu tinha de novo o sentimento de nudez pública"); compreende-se melhor esta condição, a literatura pode iluminar - mesmo que a redenção da ternura fraterna (ou a irmandade na desgraça), um tesouro manejado com tanta descrição e parcimónia, se abeire também: "E, de repente, vem uma pretinha lá da minha aula. Pára diante de mim, ri para mim. Olha para um lado, para outro e para trás. Estávamos sós, maravilhosamente sós. Seu riso não tem os dentes da frente. Diz baixinho: - «Eu também tenho piolhos, lêndeas»" (p.30).
Fome fome foi entre 1930-1935, para Nélson Rodrigues. O lado dickensiano, como o próprio assinala (e Pedro Mexia, na Introdução, corrobora) está, pois, bem presente, sendo que as memórias desses cinco anos estão em carne viva. A cada passo, em alguma boutique, Rodrigues pede um copo de água, por obséquio. E, nesse interim, "não estava bebendo, estava comendo água" (p.34). Se o cronista, ao referir que "o sujeito que não come não se revolta (...) Fui a menos indignada das fomes. Eu me sentia inteiramente desfibrado", pode dizer-se que quem se revolta alguma coisa tem na barriga, interpretação inversa é susceptível, igualmente, de lobrigar-se: não fora a fome, e revoltas outras emergiriam. Mas a coisa não é apenas política: "se me aparecesse a Ava Gardner, de Salomé, eu continuaria incomovível. Durante esses cinco anos, não namorei. Fui incapaz de um sentimento forte. A fome esvaziou-me; e eu me sentia oco, sem entranhas, como um autopsiado". Um retrato cruel de quem, em certo momento, foi remetido para a margem e sabe que "certos pundonores, certos brios, exigem um salário e as três refeições" (p.34). 
De igual modo, no mesmo texto em que é implacável com Sartre, e relatando uma visita deste ao Brasil, atribui-lhe razão quando pergunta: "então e os negros?". Bem podemos, de novo o dedo na ferida, falar em democracia racial que à pergunta onde estão os negros? não sabemos responder. Sim, Rodrigues o moralista, considera o prefaciador, alguém que denuncia a esquerda, mas sem demasiadas preocupações ideológicas. Talvez porque, o escanção da frase, regressamos ao início, seja o desígnio que o determina fundamentalmente, controvertido posicionamento acerca da relação com a arte, a relação artista-mundo, ele que era um declarado admirador de João Guimarães Rosa: "Obsedado como um Flaubert, estava mais interessado na cadência de uma nova frase do que em todo o Vietnã" (p.28). E ainda há muitas crónicas para ler.

Presidenciais EUA 2016 (1º debate)


"Está na altura dos ricos e as empresas pagarem a sua parte" (Hillary Clinton)

"Os ricos irão criar imensos empregos" (Donald Trump)

"A epidemia das armas é a principal causa da morte dos jovens afro-americanos" (Hillary Clinton)

"Nós precisamos de lei e ordem no país; se não, nunca teremos segurança" (Donald Trump)

"Em Chicago, milhares de pessoas foram abatidas nos últimos anos. Estamos numa guerra, ou quê? Só em Chicago, 4 mil pessoas foram abatidas, durante a Presidência Obama. Muitas vezes, são comunidades imigrantes que provocam estes atentados. Muitas vezes, a polícia tem medo de actuar" (Donald Trump)

"Se um jovem afro-americano fizer o mesmo que um branco, tem mais possibilidades de ser acusado, ir a tribunal, ser condenado; não basta lei e ordem" (Hillary Clinton)

Como as frases acima expostas indiciam, o debate, do ponto de vista da narrativa de cada candidato, foi bastante previsível e, em grande medida, seguiu as habituais coordenadas ideológicas que democratas e republicanos representam. Talvez, com uma excepção maior, muito ditada pela conjuntura internacional que se vive: em relação a um binómio comércio livre/proteccionismo, houve como que uma inversão de papéis quanto ao posicionamento mais tradicional (ou conservador) no interior de cada espaço político (mas até essa dimensão era esperada). Assim, Trump reclamou quanto aos acordos comerciais "desastrosos" que os EUA têm firmado, garantindo que com ele na Presidência as empresas não irão sair do país (como agora acontece com a Ford). No entanto, quanto ao como fazê-lo, e ainda que reiteradamente questionado, apenas afiançou que não mais produtos estrangeiros iriam entrar sem taxação nos EUA. Como quase sempre ao longo do debate, como do que se tem visto da campanha, a ausência de detalhes, da proposta política de Trump, é manifesta. Apela a sentimentos de desprotecção de quem viu os empregos sumirem, mas não oferece grandes soluções para conseguir dar a volta à situação, ou resolver esse problema das classes média-baixa e baixa. Do mesmo lance, considera mesmo, em aceno populista, que se as empresas saem e se movimentam à vontade, é porque muitos políticos que fazem as leis são também donos de empresas que lucram com a saída para destinos mais atractivos para as suas empresas. Clinton responde-lhe com os aumentos das exportações, muito significativos, mesmo com os países que Trump aponta como os que são mais espertos que os EUA. Os acordos comerciais devem ser justos, prossegue, mas recusa muros. A candidata democrata quer aumentar o salário mínimo, apostar em novas infra-estruturas, na inovação, nas energias renováveis. Um dos pontos centrais da sua argumentação é o resultado da avaliação independente ao plano fiscal de cada candidato: o seu plausível, o de Trump aumentando a dívida de modo colossal. Trump responde que a Administração Obama duplicou a dívida. Ele, sim, sabe como criar empregos, "eu sei como ganhar", um dos outros tópicos da campanha, num país que adora vencedores. Trump volta a ufanar-se da fortuna que possui. A sua aposta é numa baixa monumental de impostos, que irá criar emprego "como nunca, desde Reagan". Clinton, num dos seus melhores momentos, realça a importância dos impostos para que haja educação, saúde, defesa. Os impostos são necessários, e a recusa do canto de sereia, e de não ter medo de jogar contra-corrente conhece um outro apontamento que deve destacar-se: face ao sentimento para com os vencedores empresariais, Hillary afirma que nem sempre as qualidades para alguém se destacar no mundo das empresas são as requeridas para se ser bom político. E é em matéria de impostos que o debate, muito também na forma, surpreende perante a performance habitual em ambos os candidatos: Hillary é de uma contundência inesperada, e Trump fica na defensiva surpreendentemente. Trump não é convincente acerca dos motivos pelos quais não apresenta declaração de impostos e Clinton é implacável: a que bancos deve? tem pago impostos? que dívidas terá com Wall Street, ou a banca internacional, que o coloque em cheque estando na Presidência? Trump fala nos políticos como outros, "eles", e volta aos clichés habituais: "os políticos falam, falam, mas não fazem nada", ou "paleio, paleio, paleio...".  Ele é o enésimo não político quem vem de um mundo puro, em particular das empresas. Mas Hillary continua a ir à jugular: os negócios falhados, os salários não pagos a trabalhadores, o empresário que esteve 6 meses falidos, a fortuna que não será tão grande como apregoa, o berço de ouro: com as baixas de impostos, Trump está a beneficiar-se a ele próprio, pois inclui-se nos milionários. Ele que começou a carreira com processos por "discriminação racial", "tem um historial de racismo", dado que como empresário do imobiliário se recusava a alugar a afro-americanos. Trump diz que não foi sequer a julgamento, nem aceitar a culpa. Também o tratamento às mulheres lhe foi severamente censurado por uma opositora com uma combatividade feroz.

(cont.)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O permanente


E sonhei que o propósito e essência da vida
conhecida, do transitório, é formar e decidir
a identidade da vida desconhecida, o permanente

Walt Whitman, em Folhas de erva 

Viriato

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Na segunda entrega de Barbarians Rising (Historia, 2ª feira), a figura de Viriato. Roma não perdoa as tribos que haviam lutado ao lado de Aníbal para colocar em causa o poder romano. Estas têm que ser aplacadas, perceber as consequências de se oporem ao jogo romano; servirem de exemplo. Roma não faz por menos: viaja para a Hispânia Ocidental para esmagar os guerreiros celtas, os lusitanos. Impiedosa, faz 30 mil mortos ou escravos, dizima, busca o genocídio. Galba é o líder das legiões romanas, num território de 260 mil km, no que abarca uma parte do território a que hoje chamamos Portugal (mas que estava à distância de séculos de o ser; estamos a meio do séc.II a.C.). O que se propõe fazer não é menos que um genocídio. Só que, em não sendo este nunca 100% eficaz provoca nos que escaparam à degola um intenso desejo de vingança. Ele será reunido por um líder, pastor segundo as fontes, Viriato. O pai de Viriato lutara em África ao lado de Aníbal, fora capturado e torturado, marcado para gáudio dos romanos; mas fugira. Acaba às mãos de Galba. Ora, Viriato irá adoptar a guerra possível, quando tudo foi pilhado, as espadas furtadas pelos romanos: provoca uma guerra de guerrilha, uma ou a forma mais antiga de guerra. Conhecendo o terreno, ele furta-se ao controlo romano, ilude-o, transforma-se num fantasma que cada pretor quer apanhar. O momento de maior responsabilidade, o líder confrontado consigo mesmo, ocorre quando percebe que a sua rebelião dá origem a sucessivos massacres sobre as tribos, os povos daquele território, os acampamentos devastados: ceder perante a ideia que a força romana não dará tréguas e nunca será vencida, causando-se apenas dores próprias com aquele atrevimento, ou seguir resistindo, imaginando o impossível, dar-lhe corpo? Viriato não se fica; decide-se pela resistência, um povo não se verga. Já com o novo pretor, ex-lugar tenente de Galba no comando, e só a cabeça de Viriato sendo prémio para regressar a Roma, o pastor consegue 4 anos sem que os seus opositores o encontrem. E, nessa data, a guerrilha, por si mesma, nunca garantirá uma vitória final, terá que dar lugar a uma guerra convencional, adversário enfraquecido e forças próprias já bastantes, são cerca de 10 mil os guerreiros sob a liderança de Viriato - sempre alguém que corporize um objectivo, uma aspiração -, em Tríbola a manobra daquele "povo de bandidos" é tremenda: levar até ao abismo das montanhas as legiões romanas e empurrá-las montanhas abaixo, depois da cabeça cortada, sabendo-se que estas fazem, naquele terreno, o percurso de uma serpente. Os lusitanos inflingem cerca de 4000 mortes aos romanos, cuja pax podem agora ditar - aparentemente. São 8 anos os de paz. Mas, findos estes, com o ouro roubado da Hispânia Ocidental, os romanos, que não venceram no campo da batalha, irão subornar membros do próprio povo de Viriato, que o apunhalam pelas costas. Menos de um ano após esta traição, Roma tem aquela terra dominada.

Moedas


Nuno Garoupa tem apontado, com frequência, Carlos Moedas como o quadro político mais capacitado e gerador de maior esperança à direita do espectro político português. Hoje, em entrevista ao Jornal de Negócios, Moedas afirma que a Comissão Europeia (CE) pode preferir um ou outro caminho para a consolidação das contas públicas dos Estados-membro, mas tem a obrigação de aceitar caminhos diversos para atingir esses mesmos resultados. Referindo-se, evidentemente, ao caso português, o Comissário Europeu é, pois, claro, na defesa democrática de respeito pelas mais diferentes vias para se alcançar o desiderato, pelo que a CE não pode ter preconceitos face a políticas que não exactamente iguais no actual Executivo português face ao seu antecessor (menos livre, indica, ainda, Moedas). Não pode ter, e não tem - garante. A Comissão tem recebido todos os dados atempadamente, do Governo português e, hoje, a Comissão Juncker, é muito mais política que a anterior - o que não agrada a Estados que queriam uma tecnocracia que aplicasse de forma cega os Tratados, reconhece. "Tudo mudou", sublinha, desde o 2009 em que o défice na zona euro era de 6% e hoje se fica pelos 2% (com algumas décimas). O plano Juncker expande-se, de tal sorte, que há dinheiro para investimentos em África, no valor de 44 mil milhões, podendo chegar aos 80 mil, havendo, aqui, oportunidades para investimentos, na área da energia, em Moçambique e Angola. Não menos importante: com os dados disponíveis, Carlos Moedas não observa nenhum motivo para um novo resgate em Portugal. Mantém-se opositor a multas e sanções, pelo défice português (agora sob a forma de suspensão de fundos europeus, como se sabe). Portugal, até Junho, era o nono país da UE a aproveitar fundos do plano Juncker, estando agora essa comparticipação orçada nos 1,2 mil milhões euros. Mas se esse plano tende a privilegiar os maiores investimentos, sentido faz que os empresários portugueses promovam sinergias nas candidaturas a investimentos. Não sei se Moedas será um dia candidato à liderança do PSD, se a maioria das pessoas concordará com as suas ideias e programas; e que é mais fácil falar a partir de Bruxelas, sem estar enredado nos mecanismos de luta partidária corpo a corpo; em todo o caso, sei, também, o que é o plano das afirmações equilibradas, ponderadas, com bom senso e como isso costuma gerar credibilidade, além de tacticamente útil, em captar a atenção de outras bandas do eleitorado (que não a dos fiéis de sempre), determinantes para as eleições serem ganhas. Não é com os líderes de claque da última semana que se atinge tais objectivos.

"QUEM ENSINA HOJE A LER A VIDA?"


Um excerto que vale um livro:


'Atrevo-me a sugerir que as grandes questões da vida, questões acerca da tragédia, do sofrimento, da verdadeira felicidade e do significado das nossas vidas, nunca serão resolvidas pela ciência nem pela tecnologia. Wittgenstein tem razão: a ciência e o mistério da vida são dois mundos diferentes. Claro que a ciência e a tecnologia são impressionantes, frutos de grande coragem intelectual e em muitos aspectos uma benção para a humanidade. Sem a ciência médica eu, que agora sou um velho, não estaria aqui sentado. Mas é preciso compreender que o pensamento científico nos trouxe também uma caixa de Pandora. E não, não estou me refiro à destruição que a tecnologia também pode causar. Não estou a falar da tecnologia. Refiro-me a algo mais fundamental, algo que penetra muito mais fundo as nossas vidas, no nosso mundo, sem que nos demos conta disso (...) A ciência privou-nos da verdade (...) Riem-se, e entendo isso, entendo muito bem. Parece loucura. A ciência, a ciência que quer pura e simplesmente permitir-nos conhecer a verdade, para a qual nada pode existir além da verdade, como poderia privar-nos da verdade?! Porém é o que sucede. Era isso que Wittgenstein queria que compreendêssemos, mas infelizmente só algumas pessoas compreenderam. Escutaram uma palestra, e não desejo fazer outra palestra, e porém, Verzeihung bitte, es ist wichtig [Atenção, por favor, isto é importante], isto é mesmo muito importante. A verdade científica nunca é mais que a realidade, os factos, o que podemos observar, tocar e calcular. É a razão, o racional, mas a razão [positivista] jamais pode determinar o valor, não tem significado. A razão [positivista] pode descrever, pode informar-nos acerca dos factos, mas não pode dizer-nos qual é o significado moral desses factos, porque não sabe o que é o bem ou o que é o mal. A ciência, e é este o seu maior dom, permite-nos conhecer a natureza, mas não o espírito. A ciência tem de trabalhar com teorias e definições, mas o espírito humano não pode ser aprisionado em teorias e definições, e tampouco a nossa ordem moral, o reconhecimento do que é, ou não, uma sociedade justa. Esse conhecimento pertence a uma verdade diferente, uma verdade que a ciência não pode conhecer porque é uma verdade metafísica. Talvez por inveja, motivada pelo facto de haver outra verdade superior, a ciência tenha tentado privar-nos da verdade, fazer-nos esquecê-la, fazer-nos acreditar que tudo o que existe é científico, de contrário não será importante. Uma mentira, senhoras e senhores. Uma grande e perigosa mentira! Uma mentira em que infelizmente todos passámos a acreditar e à qual nos submetemos. Para nós só os factos contam; apaixonámo-nos por dados e informação, e como já não podemos conhecer o verdadeiro significado, o único valor que ainda reconhecemos é o valor económico: Quanto podemos cobrar? Quanto renderá? De modo que tudo tem de ser útil, instrumental, 'temos de conseguir ganhar alguma coisa com isto', porque de contrário de nada nos serve. A ciência tornou-se uma ideologia, uma ideia, uma ilusão, na qual estamos enredados. Enredados porque no nosso mundo só as coisas materiais existem, tudo se transformou em dinheiro, tudo é calculável e redutível a um número. Compreendem? Compreendem as consequências, o terrível resultado do facto de com o desaparecimento da realidade metafísica perderemos todas as qualidades, a qualidade de vida, porque a qualidade é a expressão de um valor espiritual, um valor que já não reconhecemos, já não desejamos reconhecer? O mundo, o futuro, como acabam de nos dizer, torna-se 'exponencial'. Os desenvolvimentos tecnológicos, a informação, aumentarão exponencialmente e transformarão o mundo. Sem dúvida. Mas sabem o que aumentará ex-po-nen-ci-al-men-te? A estupidez! A ciência oferece-nos conhecimento, mas nem o mais ténue auto-conhecimento. Pascal, que, não esqueçam, era matemático, estava certo: Le coeur a ses raisons que la raison ne connaît point. O coração tem razões que a razão desconhece. O novo conhecimento, com o auxílio do conhecimento científico, tudo quer tornar sagaz. Mas já ninguém procura a sabedoria e a ciência jamais a encontrará. Todo o ensino superior tem de ser científico, o que significa, cheio de teorias, definições e demonstrações. Porém, a literatura, a história, a filosofia e a teologia, não conhecem teorias, definições ou demonstrações. Contam histórias, histórias acerca do que é ser-se humano, acerca das limitações humanas e de quem nós, como pessoas, deveríamos ser. A verdade não é científica, porque a verdade que oferecem é metafísica, e isso foi-nos retirado e já nem se ensina. Quem ensina hoje a ler a vida? Tudo isto nos tornou cegos ao que é verdadeiramente importante na vida e ao que a torna digna de ser vivida. O que é que consideramos ainda importante? A utilidade, em especial a utilidade económica. O nosso ideal de conhecimento, o mundo da cultura, a nossa vida social - a tudo e todos se mede por esta bitola económica. Os economistas tornaram-se por isso os novos sumo-sacerdotes da nossa época, que numa linguagem oracular de teorias e números declaram o que tem, ou não tem, utilidade económica, o que se deve, ou não deve, permitir que exista. Porque a qualidade de vida não se pode provar económica nem cientificamente, a economia só reconhece a quantidade; tudo é um número, de modo que economia tem de crescer sempre, porque um número maior é melhor do que um número menor, quaisquer que sejam as consequências sociais. Tudo o que conta é o dinheiro. (...) A ciência como ideologia tornou-nos não somente estúpidos, mas também mudos. Já não fazemos ideia alguma do significado das palavras e tornámo-nos incapazes de manter uma conversa a sério. O que resta é a tagarelice.

Rob Riemen [aqui, citando a alocução de Walter],  O regresso da princesa Europa, Bizâncio, 2016, 63-70.

Tudo por responder


Bem, a Filosofia nada pode consertar (...) mas pode dar-nos ideias sagazes. Como aquela que Wittgenstein, que era filósofo, engenheiro, arquitecto, nos dá quando observa, no final do seu Tratado Lógico-Filosófico,'Sentimos que mesmo quando todas as questões científicas possíveis foram respondidas, os problemas da vida permanecem completamente intocados'.

Rob Riemen [aqui registando a alocução de Wolfgang Waldersee], em O regresso da princesa Europa, Bizâncio, 2016, 63.

domingo, 25 de setembro de 2016

Lar


Até à porta de saída, percorro as portas abertas da casa, passo inclusivamente pela cozinha, quero assinalar que me vou. Não posso berrar, Oh da casa!, ninguém me ouviria de qualquer forma aposto, porque no rés do chão para onde sigo da visita, só há anciãos, cinco, cada um para si, em sono, o sono que é ainda o que lhes vale (menos penas), uma televisão que possa dar a ilusão, tão triste e tão frustre, de algo vivo, mas que não lhes interessa, quase já nada interessa aos que ali estão - a televisão para nós já não diz nada -, a maioria dos quais, quando lúcidos - o que está longe de ser a norma, O meu Alberto? Vem jantar? Mas não tenho nada para lhe aquecer - assinala, não raramente, e de modos diversos, que apenas está à espera que devenha o ocaso. Não divisando, pelo menos num tempo primeiro, a casa deixada sem apelo nem agravo, a casa suspirada e chorada, a casa sinónimo de privacidade, intimidade, (o primeiro) eu que se começa a perder antes de tudo o resto ir, outro motivo que não a espera terminal. Arrepia. Caminhar amparado em alguém quando alguém aparece, a cada passo um próximo ainda não desvanecido por completo mesmo que habite uma debilidade tão evidente e clara também, a comida que é tão desenxabida, a higiene confiada, que remédio tão duro de tomar, a outros. Ah, que a Luísa não fala, entrou em mutismo, tão ingrata. Que nada, que ideia é essa do humano?, o silêncio pertence-lhe, o último direito que não podem roubar-lhe, e a única atitude digna é compaixão, o braço de ferro definitivo que pode ganhar. Um grito surdo de revolta, a devolução do bilhete, quando se toca a finitude. Regressar-se-à, ainda, conceder-se-à à vida um último passou bem, um olhar pela paisagem, uma visita surpreendente, um encontro de amigos. Mas há um imenso luto, pelo meio, que se pressente, que se lê num rosto, numa expressão, num silêncio denso, tenso, fundo. Esse silêncio, que tanto comunica, deve absolutamente ser respeitado, porque é a exposição mais nua que nenhuma máscara já evita. Um desamparo, uma súplica.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A ideia determinista e o humanismo europeu

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Tudo isto me pareceu irritante. Primeiro, a ciência e a tecnologia eram absolvidas quanto ao seu papel na suprema barbárie [holocausto], agora, subitamente, as possibilidades tecnológicas eram equiparadas a uma lei natural à qual não se podia escapar. Isto é não compreender a essência de se ser humano, ou pelo menos da humanidade como é entendida pelo humanismo europeu: a humanidade é livre. Podemos fazer escolhas. É esta a própria essência de ter moralidade, do conhecimento do bem e do mal. O facto de a natureza humana conter muita agressividade e, de todos sermos capazes de homicídio, pilhagem e violação, não significa que tenhamos de aceitar tal agressividade segundo o princípio de que simplesmente nos temos de habituar a ela, é assim que as coisas são e não podemos escapar-lhe. A civilização é precisamente a capacidade de dizer «não».

Rob Riemen, O regresso da princesa Europa, Bizâncio, 2016, pp.60-61

Cultura


A cultura é conservadora porque representa a retenção de tudo aquilo que é intemporal e de valor espiritual. A cultura é também elitista, porque só o mais excelente pode ser suficientemente intemporal e valioso (...) A cultura, porém, nunca é puramente conservadora e elitista, porque a essência de toda a cultura é a busca incessante da verdade e a ânsia de lhe dar expressão. Precisamente porque esta verdade é absoluta, se ergue acima do tempo, nós os mortais, não temos poder sobre ele e na nossa busca teremos sempre de estar preparados para a forma mutável da verdade, resultado de mudanças ao longo do tempo. A cultura, portanto, significa estar sempre aberto ao novo, procurar novas formas que resistam ao teste do tempo (...) Ao defender os seus próprios interesses, o conservadorismo esquece que a cultura nunca é somente a «bela arte», mas também a procura da verdade (filosofia) e a criação de uma sociedade justa (que requer uma política que não pode ser conservadora, porque as necessidades sociais exigem mudança).

Rob Riemen, O regresso da princesa Europa, Bizâncio, 2016, pp.40-41

Filmar o vazio


Este é o terceiro episódio de "Dentro". Nele, se dá expressão, como cena central, ao vazio que corrói a vida de tantos, e a pobreza que remete e consiste em viver, ou invejar, os sonhos (já de si) fingidos dos jet7 possíveis (lusitanos), ainda assim requentados, vividos em segunda mão, a segunda mão de um fingimento, e só acessíveis nas revistas do coração, não há dinheiro para mais, de um conjunto de portugueses que nem conseguem sonhar na primeira pessoa. Mas nessa fuga, há irmandade, e nesse vazio fraterno, se encontram a empregada de limpeza e a star da tv - numa tensão bem conseguida, bem construída, bem filmada. Há tempos, na Visão, seguindo uma longuíssima linhagem que passa pela melhor filosofia, Tiago Bettencourt retratou esta condição de desesperados que encontra cada vez mais, quem é o culpado?!, quem é o culpado?!, grita, esperneia do abismo, a empregada de limpeza, abismo de onde alguns olham melhor, sem filtros, a realidade crua (percepcionada como cruel), a mulher que sente a pedra de Sísifo diariamente a sufocá-la, e não se conforma com menos do que em trazer a palco, a evocar o louco da Gaia Ciência, uma revolta que pressupõe um sentido, uma procura radical, no fio da navalha entre a presença pela ausência e/ou um niilismo exasperado para quem bate com a cabeça no ídolo, e dificilmente, imagina-se, em uma primeira instância, pelo menos, aceita o provisório da analogia, o seu delinear sem traços definidos e dogmáticos, e em aberto, a simultânea fragilidade e omnipotência do amor que tudo sustenta (a carta da irmã pop star, por exemplo).

O poder frágil, as utopias do passado, o gasto em armamento



Para quem pensa em termos estratégicos, a constatação da falência de ideais pensados para o início do século XX enquanto mobilizadores (dos cidadãos) de 2016. Na política comezinha destes dias, pretende-se, contudo, agitar fantasmas (ideológicos) gerados no século XIX. Vamos longe.

Das consequências da anomia social para a paz

Extremismo, não é?


"Leninistas", "Chavez", "Venezuela", "Che Guevara". Foi o que lemos, o surreal e o ridículo nunca são suficientes, nos últimos dias, a propósito de uma medida fiscal, sobre o património imobiliário, entre 500 mil euros e 1 milhão de euros, a apresentar por este Governo. Gosta de insulto político? Excitou-se com todo este punch? Vibrou com os slogans vazios? Pois, se assim foi, há boas notícias. Soube-se esta quinta-feira que Portugal foi o país da OCDE em que o agravamento fiscal maior foi para os salários mais baixos, de 2014 para 2015.  Note-se bem: "o". Não "um". Em mais de 20 países. Portanto, prepare as pupilas gustativas: se foi um frenesim, uma agitação, uma emoção, um chorrilho, uma catadupa de adjectivação grossa e traulitada, com a referida taxa de 1% a criar para o referido património - sem obliterar os seus riscos, em post anterior identificados, esta medida levou, no entanto, alguns comentadores a dizerem, contas feitas nas últimas horas, que o problema não seria o do número de afectados com a proposta, mas a injustiça, ela mesma, em causa; outros, garantiram que se a classe média não fosse tributada com esta medida, seria, certamente, no Orçamento de Estado de 2017 ou 2018 (!) (se não foste tu, foi o teu primo) - imagina-se o que não sairá de tanta sensibilidade e tanta pena à disposição, o que não será dito, o que não se escreverá nas próximas horas e dias sobre a notícia da incidência fiscal nos baixos salários. Ninguém acredita que tamanha paixão pela justiça, e sobretudo tamanhos apaixonados, seja(m) desperdiçada/desperdiçados (sem os teclados serem bem premidos). Força.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"O ataque às Humanidades a favor de um mundo pior", José Pacheco Pereira



"É aos ignorantes que as humanidades incomodam (...) a ignorância de hoje não é conjuntural, mas estrutural (...) ela é um elemento do conservadorismo social, um obstáculo ao empowerment dos que mais precisam, numa sociedade que emancipe e não exclua (...) É a ignorância como projecto social, como desejo e política (...) uma turba que não só é ignorante como dá a essa ignorância o estatuto de igualdade (...) os estudantes que aqui estão vão ter que lidar com um mundo que não está todo na internet, pelo contrário (...) o ataque às humanidades é o ataque ao saber puro pelo qual avançam as fronteiras do humano. A necessidade das humanidades vem do mundo, vem da vida, vem da imperfeição das coisas, vem acima de tudo da violência do mundo que só pode ser contrariada por uma atitude a que podemos chamar cultural. A construção dessa atitude pode ser considerada obra fundamental das humanidades, na tradição de homens como Boécio, Thomas More, Erasmo, Montaigne, ou, mesmo, a frase de Shakespeare sobre a frase do leite da humana ternura (...) ou do olhar de Thomas Mann, ou do soldado Schweik, em que o nosso olhar muda e muda sempre para melhor".

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Merecemos melhor

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Embora Carlos Farinha Rodrigues tivesse, já em Maio (!), nas Conferências de Gaia (de que neste blog se deu conta) dito que não foi a classe média que mais sofreu com a crise, mas os mais pobres - isto em Portugal -, a notícia com, mais detalhada, com as principais conclusões do estudo, da FFMS, sobre a desigualdade, no nosso país, foi recebida como se de uma absoluta novidade se tratasse. O que, aliás, diz muito da primazia de uma mitologia - aqui sim, de uma narrativa - sobre a realidade. O que agora importa reflectir é sobre o porquê do aumento das desigualdades, do motivo pelo qual foram os mais pobres afectados. E qual é a resposta a esta pergunta? Ela está espelhada no estudo da FFMS: "as alterações introduzidas nas transferências sociais, em particular no Rendimento Social de Inserção, no Complemento Solidário para Idosos e no Abono de Família, foram determinantes no aumento da pobreza".
Face a este facto, o espaço fica disponível para as interpretações. O problema surge quando aquilo que são interpretações aparece sob a capa de factos, em claro mau jornalismo: "Ou seja, o Estado não podia ajudar como dantes e os efeitos sentiram-se com particular peso na camada mais pobre da população", escreve o jornal I (uma espécie de Sol diário), na descrição do estudo da FFMS. Como se fosse um facto da natureza, inelutável, sem escolha o corte no RSI, CSI e Abono de família. Não foi assim. Houve escolhas, e poderemos discorrer sobre quais as menos más, naquelas circunstâncias. Mas de opções, limitadas ou limitadíssimas é certo, se tratou. Que o jornalismo pretenda, uma vez mais, incorporar como factual o plano do ideológico, remete para uma péssima compreensão do político. Na parte final do mandato do anterior governo, o executivo de então entendeu mexer no IRC, baixando-o, numa medida que inúmeros expertise - de aqui se deu conta, em particular recorrendo ao dossier publicado pelo Jornal de Negócios, peritos e publicação que não me parecem que tivessem qualquer ligação com a esquerda do espectro político - consideraram que iria ser um desperdício de recursos públicos, sem nenhuma vantagem para a comunidade (no seu conjunto). Embora a expressão "luta de classes" se tenha ouvido muito por estes dias, convém ter memória para não nos esquecermos de que ela foi, igualmente, evocada, embora com um significado oposto, na altura em que a medida vinda de descrever foi lançada: o mesmo governo que cortara nos apoios sociais, concebia, afinal, espaço orçamental para acomodar uma perda de receita de alguns milhões (consoante as teses, dos 70 milhões aos 200). Portanto, "luta de classes" há muitas, ou "ninguém tem o monopólio da luta de classes". Mas se se preferir uma outra lente para olhar para as medidas do anterior e deste governo, vejamos: a baixa do IRC, idealmente, serviria para que houvesse um relançar do investimento (e não para favorecer "os de cima", "os ricos", etc.), que se traduzisse em maior crescimento da economia e, em particular, aumento do emprego (que aparentemente, pelo menos, não se verificou). Ou, na visão dos críticos deste paradigma ideológico: a medida estaria eivada do pressuposto trickle down: simplificando, é bom favorecer os de cima, porque, a partir de aí, necessariamente virão benefícios para os que se seguem na escala social (um efeito que as baixas de impostos para os mais ricos, introduzida por George W.Bush, numa espécie de tea party avant la lettre, seria o expoente máximo; note-se que Diogo Freitas do Amaral, nos anos mais recentes, chegou a denominar o PSD de Passos Coelho, a corrente dele no interior do PSD (por sinal maioritária e com poder de decisão efectiva) como Tea Party; já agora, acrescente-se, como as instituições permanecem para lá das pessoas, nos EUA não foi suficiente a mudança da Presidência para que aqueles benefícios terminassem - algo de que muitas vezes não se tem noção). 
Pela lente da "luta de classes", a medida sobre o IMI é confisco da riqueza, é querer roubar aos "de cima" para dar e distribuir aos demais; é estar contra uma parte da população, ter horror à riqueza, querer destruir os que ainda têm algum património. Sob o ponto de vista ideológico, a medida é justificada com a necessidade de "justiça fiscal", de redistribuição dos sacrifícios, da possibilidade de encontrar receita para diminuir a carga fiscal a sectores mais desfavorecidos da sociedade. Para os críticos, do que se trata, em suma, é de estrangular o investimento (imobiliário), de afastar as poupanças, de taxar tudo o que mexa, de atrofiar a economia, numa palavra, de ter dificuldades em aceitar e jogar o jogo de uma economia de mercado. Num país que não cria riqueza, a medida sugere, pois, um nivelar por baixo; e, como esperava, e aqui escrevi, dá, sem dúvida o flanco, a quem quis recuperar o célebre diálogo atribuído a Otelo e Olaf Palme: o querer acabar com os ricos, ou o pretender acabar com os pobres. Uma crítica, de resto, que considero que tem que ser ponderada e não pode ser pura e simplesmente descartada pela liderança política do Governo.
Isto dito, estou em crer que António Costa não deixará de, na apresentação do Orçamento de Estado, colocar um grande enfoque, com medidas muito dirigidas ao investimento (privado, mas também público, acho provável); se não o fizesse, o acosso não seria apenas político - e aí penso que Marcelo Rebelo de Sousa cumpre bem, no puxar dos diferentes equilíbrios que é preciso gerar na atenção, simultânea, à criação de riqueza e à redistribuição -, mas seria algo de negativo para o país. E repito: a explicação quanto ao "modelo", ou se se preferir, quanto ao conjunto de ideias e medidas para procurar fazer/contribuir com que a economia cresça terá que ser dada, de modo desenvolvido. Não pode, nem deve ser evitada. Se esse crescimento não for conseguido, cada medida com mais carga fiscal corre, efectivamente, o risco de dar razão à dita asserção acima exposta.
Portanto, e sobre estas questões, não há aqui uma resposta científica: o político tem que pensar se com a impressionante ausência de coesão social, com uma percepção generalizada na população de um Governo com pouca, ou nenhuma sensibilidade social, um executivo que tinha ido ao ponto de preconizar a baixa da tsu (que um dos membros da coligação de então, aliás, repudiou em termos públicos e notórios), se se justificava e era oportuno - no conjunto de efeitos económicos, sociais, simbólicos - decidir uma medida como a da baixa do IRC, nos termos em que foi colocada (e esta avaliação é a que pertence tipicamente aos políticos), sendo que a meu ver não foi uma medida especialmente avisada, bem como, agora, com o investimento muito deficitário, dúvidas externas quanto a um compromisso com o relançamento da economia portuguesa, atracção de pessoas de outros países baseada num quadro fiscal distinto, provavelmente, a medida em causa, à partida (dado que o seu desenho definitivo está por apurar, com todos os ângulos, ontem identificados pelo PM, em aberto) tem riscos sérios (e é o tal cálculo, até sobre o que beneficia os mais desfavorecidos, que pode não ser exactamente o que num primeiro olhar se alcança, que cabe ser formulado pelos políticos).
Sou dos que consideram (ou constatam) que a austeridade prosseguiu neste ano de 2016. Mas não nos mesmos termos - nem com as consequências, nem a afectação social idêntica à anterior. Sim, foi uma "austeridade de esquerda". O aumento de impostos nos combustíveis, ou a sobretaxa exemplificam como a austeridade permaneceu. A reposição salarial, de apoios sociais, ou algumas revogações, além das questões atinentes ao salário mínimo reportam diferenças face à austeridade anterior (embora a reposição salarial também fizesse parte dos programas dos partidos que sustentavam o anterior governo e a reposição imediata e integral seja questionável pelo que limitou de opções e pressionou o orçamento, ainda para mais no quadro dos défices excessivos, que face à ausência de capitais endógenos teria a dramática consequência de perigar os fundos europeus; mas este governo tem, essa a realidade, segundo órgãos independentes como o Conselho de Finanças Públicas, o défice controlado). Mas a questão, para o que tem sido dito, é a seguinte: vivendo o país em austeridade, ainda, como tem sido arguido à direita - e, como digo, com razão, embora com nuances nada negligenciáveis -, que sentido faz dizer que alguém que é contra qualquer política que contemple alguma dose de austeridade, e se opõe às actuais regras europeias, como Mariana Mortágua, é a nova ministra das Finanças. Não conseguem ver a  incongruência lógica? Ou bem que este Governo só se interessa pelo défice, não faz investimento público e não quer dizer não à Europa, não conseguindo uma alternativa ao que vinha de trás (para mim, as nuances, que se traduzem em mudanças na vida de centenas de milhares de portugueses, não são nada desprezíveis), ou isto é gastar à fartazana, destruir tudo e acabar com a economia de mercado. Mais: centra em pessoas, uma discussão - importante, fundamental, interessante: de como captar investimento, fazer crescer a economia, criar coesão social, promover a justiça fiscal e social: e se tudo isto é compatível e como - muito mais complexa e abrangente. Agita hostes e claques, mas só faz ruído. Não ajuda à deliberação. Durante meses, era Mário Nogueira que era ministro da Educação; agora que o ano escolar começou bem, passou Mariana Mortágua para ministra das Finanças. E que tal um bocadinho mais de imaginação e substância?
Discutindo o assunto com seriedade, num media onde sobeja o histrionismo, os slogans, e os anátemas mais confrangedores (vem aí o leninismo e o coisas que tal), o Prof.Aguiar Conraria começou por constatar que quer a diminuição do IRC, à direita, quer uma maior tributação do imobiliário à esquerda eram medidas completamente previsíveis, óbvias, em cada um dos hemisférios políticos - aquilo que neste texto procurei introduzir foi um contexto que torna mais complexas, controvertidas, discutíveis soluções que em abstracto encaixam em cada uma das ideologias em causa. Este modo de encarar as medidas, sem rasgar vestes nem encenando agitprop faz uma diferença imensa, em seriedade, face ao que se lê noutros colunistas. Depois, sim, criticou, e bem, no sentido de uma leitura literal da frase de Mariana Mortágua, o que disse a deputada do BE: "temos que ir sem vergonha buscar o dinheiro a quem o acumula", pode, com efeito, ser lido, como uma ameaça à propriedade privada, e portanto como uma espécie de promoção de um sistema (colectivista) alternativo a uma economia de mercado. Repito: numa leitura literal da frase de Mariana Mortágua: será que todos entendemos que Mortágua não deixará, ou não deixaria, se pudesse, qualquer poupança intacta (transferindo-a para o Estado, e deixando-a nas mãos dos burocratas e da nomenclatura), acabando com a propriedade privada? O leitor decidirá. Parece-me que nem uma boa parte dos eleitores do PCP, ou do BE terão vontade, ou saudades, de modelos que suprimiram, sempre, a liberdade e resultaram em catástrofes económico-financeiras. Mas será que Mariana Mortágua, no fundo, gostaria de ser associada ao sistema vigente e não gostaria de o colocar em causa? Se sim, seria, propriamente, confiscando tudo o que mexe?
No início do seu mais recente artigo, António Barreto (que revisitou a questão de Otelo e Palme, que não pode deixar de ser considerada, pese a sua repetição, o contexto muito diverso em que surgiu, etc.) afirmando que normalmente as pessoas de esquerda têm pouco dinheiro e apanhando-se no governo, pilotando a máquina do Estado, sente-se com mãos livres (e uma psicologia que advém de nunca ter tido muito) para adoptar liberalidades e irresponsabilidades na gestão da coisa pública. Isto não está muito distante dos editoriais do Sol ("coração de esquerda, razão de direita", escrevera o arquitecto Saraiva na semana anterior). Confesso, por um lado, que quando leio qualquer ensaio sistemático sobre política, de quem se dedica a sério a fazê-lo não encontro este psicologismo de pacotilha, estes lugares-comuns sem nenhum respaldo, esta conversa da treta. Por outro, quem denuncia uma visão marxista, acaba por colocar tudo na economia (quase como se ter pouco dinheiro fosse condição para se ser de esquerda, ou, podia dizer-se, o inverso para a direita). Em teorizações, portuguesas, de quem quis sistematizar ideias, como Adriano Moreira, ou Manuel Maria Carrilho, por exemplo, no campo político, felizmente nunca vi tais simplismos.  Veja-se a complexidade deste último livro de Innerarity, sobre o mesmo tópico. Merecemos melhores debates. Por exemplo, para concluir com este último autor, a dicotomia austeridade vs crescimento deixou de ser um pólo dinamizador do confronto político porque, simplesmente, direita e esquerda não renegam nenhum dos elementos do par e querem ambos.


Um dia na escola


Na sala, estão 10, 12 alunos. Todos têm 12 anos. Pergunta-se-lhes pelo escritor/escritora favoritos. 5 respondem: "o Éder". Um compasso de espera, para (não) reagir imediatamente, estupefacção. Aos 12 anos, raramente leram um livro até ao fim, não compreendem que o Éder não é escritor, seguem a moda e o mercado, com um ponto de partida - que como se vê a escola, em seis anos, não conseguiu fazer superar - que evidencia o nosso atraso. Há uma minoria, em todo o caso não tão escassa assim, surpreendentemente imensa, que chega com 5 a todas as disciplinas, cita Sophia, Luísa Ducla Soares, ou as inevitáveis aventuras de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada ou Enid Blynton - sim, ainda companhias das novas gerações -, que todos os Sábados de manhã viaja até ao Porto para umas aulas de inglês no Instituto XPTO. São os que menos precisam da escola, ou aqueles que chegarão à meta não pelo que a escola fez/faz/fizer (por eles), não essencialmente por isso, mas pelo background de suporte (em casa). De outra banda, um futebol omnívoro, que até a literatura devora, espaço público espelhado em quem apenas o devolve, em resposta, sem possuir, ainda, naturalmente, capacidade crítica (para o questionar). E, no entanto, nos melhores dos casos, já a interrogação clássica sobre a causa sui surge espontânea - e me espanto de novo, agora pela positiva - e o António e o Tomás, sem terem a noção exacta da importância do que estão a discutir, dizem que "eu tenho um corpo", num dos casos, e "eu sou um corpo", no outro. E isso dá uma aula toda animada - lá do alto do estrado, no caso, mesmo alto, a escola não é do tempo da Parque Escolar, mas bem mais antiga, percebe-se com uma nitidez impressionante quando a dispersão acontece, ou, em alternativa, quando uma espécie de suspense se apodera dos rostos, parados, a ouvir, a querer saber, e nisso há magia, por certo -, que mete cyborgs e todas as novidades que a bioética debate por estes dias. O tempo voou, (quase) sem tempo para apresentações.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Do fundamento da moral


Quando se procura aprofundar o fundamento incondicional e definitivo da moral (...) veja-se este texto de Sigmund Freud, numa carta a um amigo: «Pergunto-me a mim mesmo porque aspirei sempre a comportar-me com honra, a mostrar consideração e afecto para com os outros, sempre que as circunstâncias o permitiram. Perguntei-me permanentemente o porquê disto, mesmo depois de dar-me conta de que me prejudicava a mim mesmo e de que choviam os golpes sobre mim, porque as pessoas são brutais e traiçoeiras, e não fui capaz de dar uma resposta a mim mesmo, o que está longe de ser razoável». A Escola Crítica de Frankfurt é particularmente sensível neste domínio. Assim, Max Horkheimer disse: «Visto sob o aspecto meramente científico, o ódio não é pior do que o amor, apesar de todas as diferenças sociofuncionais. Não existe nenhuma argumentação lógica concludente pela qual não deva odiar, se, desse modo, não me causo nenhuma desvantagem na vida social. Como pode fundamentar-se com exactidão que não devo odiar, se isso me causa prazer? O positivismo não encontra nenhuma instância transcendente aos homens que distinga entre disponibilidade e afã de proveito, entre bondade e crueldade, avareza e entrega de si mesmo. Também a lógica emudece: não reconhece primado algum à dimensão moral. Todo o intento de fundamentar a moral em prudência terrena, em vez de fazê-lo a partir do ponto de vista do Além - nem mesmo Kant resistiu sempre a esta tendência -, se baseia em ilusões harmonizadoras. Tudo o que tem relação com a moral baseia-se, em última análise, na teologia».
Jurgen Habermas, que vê na religião uma capacidade especial de mobilização moral, escreveu: «Certamente, a filosofia pode continuar a explicar ainda hoje o ponto de vista moral a partir do qual imparcialmente julgamos algo como justo ou injusto; portanto, a razão comunicativa não está de maneira nenhuma à mesma distância da moralidade e da imoralidade. Mas coisa distinta é encontrar a resposta motivante à questão de porque é que temos de ater-nos às nossas convicções morais, de porque é que temos de ser morais. Neste aspecto, poderia talvez dizer-se que é vão querer salvar um sentido incondicionado sem Deus". 
Vínculo inevitável entre moral e religião dá-se pela esperança, sobretudo quando se pensa nas vítimas inocentes. Aliás, Kant, teorizando sobre a autonomia da moral, postulou Deus pela exigência da esperança. Nessa linha, Paul Ricoeur falou «da carga da ética e da consolação da religião». Por isso, segundo Walter Benjamim, não é possível pensar a história sem teologia. E, neste contexto, Jurgen Habermas, referindo-se às vítimas inocentes e à dívida da história para com elas, cita Jens Glebe-Moller: «Se desejarmos manter a solidariedade com todos os outros, incluindo os mortos, então temos de reclamar uma realidade que esteja para lá do que aqui e do agora e que possa vincular-nos também para lá da nossa morte com aqueles que, apesar da sua inocência, foram destruídos antes de nós. E a esta realidade a tradição cristã chama Deus.».

Anselmo Borges, Deus religiões (in) felicidade, Gradiva, 2016, pp.27-29.


Do amadurecimento da arte da guerra



Das armas de destruição maciça, às armas de paralisação total (funcionamos com tudo em rede, nomeadamente as economias, pelo que sem disparar um tiro consegue-se grandes resultados, um grande avanço na arte da guerra); dos explosivos químicos e nucleares (fautores de grandes danos colaterais) às armas de energia dirigida (rapidez enorme; supõe a electrificação global da guerra); passamos à robotização da guerra. Tudo isto traduz um grande amadurecimento da humanidade em pensar a guerra.

Nuno Lopes


A interessante e inteligente entrevista, de Nuno Lopes, à Rádio Renascença.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Roma e Cartago


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Aprendendo História, às segundas à noite, no Canal História: no séc. III a.C., Cartago é a grande potência do Mediterrâneo Ocidental. Roma está em ascensão e defronta Cartago, na Sicília. Saindo vitoriosa, Roma impõe um preço humilhante a Cartago: desarmamento (quase) total (em particular, da marinha) e muito pesadas indemnizações [onde já vimos isto, no séc.XX?]. O comandante em chefe cartaginês é Amílcar Barca que faz o seu filho, Aníbal, jurar a desforra. Este, quando faz tal promessa ao pai, é, ainda, uma criança e necessárias serão mais de duas décadas, até que se forje um dos maiores soldados da história, disposto a resgatar o esplendor paterno-cartaginês. Mobiliza, o que era muito difícil, imensas tribos - mostrando-lhes que caso Roma as tomasse seriam feitos escravos, caso se mobilizassem contra Roma e a desfeiteassem teriam a sua carta de alforria garantida - até garantir 30 mil soldados, esperando, então, pelo contributo decisivo dos Lusitanos, cuja flexibilidade jogava bem com o que Aníbal iria pretender. É que Aníbal revelar-se-ia um grande estratega e táctico, antecipando jogadas, como numa partida de xadrez, sendo que, e finalmente, aí para seu prejuízo, tornar-se-à, no fundo, o professor militar dos Romanos, que sempre aprendem rápido com os seus opositores. Quando podia esperar os Romanos a milhares de quilómetros, Aníbal decide o inaudito, o nunca experimentado: ir até Roma para bater os romanos em sua casa. Do lado contrário, a liderança é de Cipião, que fica espantado com a fuga pelos Alpes, pela legião de Aníbal. Esta, num só mês, tem 25 mil baixas, a neve, o frio, a fome trucidam grande parte da campanha. Apenas 4 de 36 elefantes de guerra chegam a Itália. Aníbal pode ter duvidado, mas deve ter mantido a esperança em aberto, como os grandes líderes fazem, para que ainda houvesse forças para travar sucessivas batalhas. Que, com efeito, vieram a suceder. Umas atrás das outras, com os bárbaros - os que não pertencem à civilização grega, ou romana, por definição - a estarem cada vez mais perto de Roma. Até Canas, ponto estratégico em termos cerealíferos, onde, numa batalha tremenda e decisiva, mesmo com menos homens, fazendo avançar o xadrez central para atrair os romanos, depois nas laterais, e surpreendentemente pela retaguarda, os liderados por Aníbal infligem uma estrondosa derrota aos romanos, com mais de 70 mil baixas deste lado - mais de 80% do exército romano - e "apenas" 6 mil baixas cartaginesas. Terá sido uma batalha mortífera como nenhuma outra. O Senado romano propõe um tratado de paz a Aníbal. Cipião não se conforma e recusa, querendo continuar a luta. As batalhas prolongam-se por 15 anos, em solo italiano, entrando-se em um impasse. Mas Cipião aprendera a lição, segue para Cartago directamente, obriga Aníbal a recuar milhares de quilómetros para defender a sua terra. Cartago com as tribos conseguiram ganhar inúmeras batalhas, mas perderão a guerra. Aníbal retira-se e oferece-se para o exílio. Terá sido o militar que mais perto esteve de impedir a ascensão de Roma. Esta, contudo, recupera e trata de punir, com requintes de malvadez e crueldade, como forma de prevenção, os que estiveram ao lado de Cartago.

Morte e maêutica (II)


Não tem sentido dizer que os levamos [os nossos familiares] à última morada, que os cremamos ou enterramos. Quem se atreveria a enterrar, a cremar o pai ou a mãe, o amigo, a amiga, o filho? E, quando vamos ao cemitério, que jogo de linguagem é esse que nos leva ao atrevimento de dizer que os vamos visitar? De facto, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém - o Evangelho é cru: ali, só há «ossos e podridão». (...) O que lá há é uma interrogação «in-finita», para a qual não há resposta adequada: o que é o Homem? O que é o ser humano? (...) [A nossa] é a primeira [sociedade] na história a colocar o seu fundamento sobre o tabu da morte: disso não se fala e vive-se como se ela não existisse. (...) A razão instrumental ou racionalidade técnica substituiu a razão prática enquanto racionalidade moral. Assim, como escreve o filósofo Luc Ferry, o nosso mundo é completamente dominado pela concorrência total, «o benchmarking, competição das empresas entre si, mas também dos países, das culturas, das universidades, dos laboratórios, etc. A história já não avança animada pela representação de uma finalidade, pelo projecto de construir um mundo melhor, animada por objectivos como a liberdade, a felicidade e o progresso. Já não avançamos referidos à representação de uma finalidade, mas apenas impelidos pela obrigação absoluta de fazer crescer os meios de que dispomos. Daí, a liquidação progressiva do sentido que caracteriza a vida política moderna». É preciso produzir, competir, inovar sempre, cada vez mais, mas, agora, «sem saber porquê nem para quê, em virtude de que finalidade», de tal modo que o homem moderno se tornou «o funcionário da técnica», como já tinha reflectido M. Heidegger. Compreende-se que nesta sociedade, no quadro da objectivação total e humanamente «des-finalizada», a morte não tenha lugar (...) Este pensamento [acerca da morte] não impede de viver. Pelo contrário, pela consciência do limite, leva a viver intensamente o milagre do existir, a cada instante, é ele também que remete para a ética, distinguindo entre bem e mal, justo e injusto, o que verdadeiramente vale e o que não vale, e ensina a fraternidade: somos mortais, logo somos irmãos. E abre à Transcendência, pelo menos enquanto questão.

Anselmo Borges, Deus religiões (in) felicidade, Gradiva, 2016, pp.25-26
 

Morte e maêutica


Trabalho, domínio e lucro: para Max Scheler, os domínios que suplantaram a contemplação de Deus, ou a fruição da natureza, esta a tratar de explorar, potenciar ao máximo (no que sempre significa de não a ter em conta senão como meio). Assim, se afastou a morte, de um quotidiano permanentemente sufocado de tarefas, e/ou, ainda, de divertissement. E, com esse afastamento, perdeu-se o carácter maiêutico que ela (a consciência dela) oferecia, como parteira das perguntas definitivas, da queda no nada, ou na continuação da vida, do eterno, da presença do que tudo sustenta. E, dessa forma, também, porque não perguntámos até ao fim, não respondemos à grande pergunta, tornando-nos errantes, a vaguear sem destino, nem sentido. Uma resposta (que é) existencial. Que fica por dar. Refugiamo-nos no provisório, no dia seguinte, na tarefa, ou no divertissement, para a semana. De aí, outrossim, que haja lógica na exortação que alguns autores reclamam nas conversas com jovens: apesar de um certo direito à imortalidade dos que estão na adolescência, ou início da juventude - tenho todo o tempo do mundo, não há pressas -, a remissão para a consciência trágica implica percepcionar e compreender, projectar o que pretendemos, o que nos se oferece digno de inscrição na brevidade de uma estadia, na realidade inevitavelmente curta. No fundo, o que vale a pena? O que devo fazer? [E, se quisermos, de que recursos careço, ou a que posso deitar mão, para responder a tais perguntas?]

África



A importância de Israel, na capacidade de ensinar no aproveitamento agrícola dos solos, ou, ainda, na Mossad como determinante na segurança de líderes africanos.

A economia e finanças (modelos de governança)

domingo, 18 de setembro de 2016

O Nobel dos mexericos


Uma síntese insuperável:

"O arquitecto Saraiva até pode vir a ser processado, mas com os artigos do Sol qualquer advogado o safa por inimputabilidade", Pedro Magalhães, no twitter.

Deus existe?


O próprio perguntar é enigmático. Se perguntamos, é porque não sabemos, mas sobre aquilo de que nada sabemos não perguntamos. Então, o que é que sabemos quando perguntamos? Sabemos sempre de modo imediato e atemático sobre o ser. É sempre no ser que estamos, numa experiência originária.

Anselmo Borges, Deus, religiões, (in) felicidade, Gradiva, 2016, p.19.

sábado, 17 de setembro de 2016

A(s) guerra(s), hoje



Deixámos de ter uma guerra, numa determinada época, numa zona delimitada, entre exércitos, mas diferentes conflitos, ao mesmo tempo, em múltiplas regiões, uma nova forma de guerra. Três são os factores, para Nuno Lemos Pires, a levar ao acelerar de potenciais conflitos: a) a questão ambiental (e já temos guerras desta índole, a começar pelo Darfur, e notando que a Síria teve 4 anos consecutivos de seca, com a morte massiva de gado); b) a pressão demográfica (a questão da alimentação, da existência de água doce, em certas zonas do globo a colocar-se com grande acuidade) e c) os conflitos de valores entre diferentes espaços culturais, que, em particular, as migrações - também em razão dos constrangimentos identificados em a) e b) - são susceptíveis de gerar.

Da política (XV)


Da relação elites/povo, representantes/representados:

As sondagens permitem-nos saber, agora, aquilo que as pessoas querem, mas a liderança política pode cingir-se a critérios menos populares; há coisas que devem consultar-se e outras sobre as quais é proibido consultar (...) Não foi o distanciamento das elites em relação ao povo que empobreceu as nossas democracias mas sim, para dizê-lo de alguma maneira, a sua excessiva proximidade, a debilidade da política vulnerável às pressões de cada momento e atenta unicamente aos vaivéns do curto prazo (...) Numa sociedade democrática, a política está ao serviço da vontade popular, certamente que sim, mas essa vontade é tão complexa, tão necessitada de interpretação, como complexa é a realidade do «povo» a que constantemente nos referimos. (...) O povo é o que as sondagens e os inquéritos reflectem, o representado pelos representantes, uma realidade atravessada pela globalização ou a unidade autárquica desprovida de toda a interferência? Pois provavelmente todas essas coisas (...) O povo, para começar, é uma realidade opaca, algo que é preciso fabricar; é para isso que serve todo o trabalho de representação, a discussão pública e os procedimentos institucionais que fixam os seus contornos ou os modificam e traduzem em decisões democráticas. As instituições protegem-nos contra o apelo demagógico para o povo, representam-no e, nessa mesma medida, congregam a sua pluralidade constitutiva e a complexidade da sua vontade. Graças à representação política, a vontade popular é operativa e consegue congregar os momentos que a constituem. Convém lembrar estas coisas, sobretudo quando os lugares comuns vão noutra direcção e quando se verifica um verdadeiro fascínio pela «espontaneidade» popular (...) é romper um tabu porque grande parte da nossa classe política, bem como aqueles que escrevem sobre política costumam praticar uma adulação do povo, sem nunca o situarem em nenhum horizonte de responsabilidade (...) Philip Petit (2001, 746), ao clarificar o que entende por republicanismo: «a democracia é demasiado importante para ser deixada nas mãos dos políticos ou inclusive de um povo que vote em referendos»; Fareed Zakaria (2003, 248) afirmando que «aquilo de que precisamos hoje em política não é de mais mas sim de menos democracia»; ou Bryan Caplan (2008, 3), ao sentenciar que «a democracia falha porque faz aquilo que os votantes querem». Outros teóricos propõem classificar a democracia contemporânea - na linha do republicanismo clássico - como um governo misto, como uma espécie de mecanismo que combina componentes democráticos e componentes não democráticos (Manin, 1997, 237). A democracia não é a presença dos cidadãos nos lugares onde se tomam decisões, mas antes e sobretudo o facto de as instituições electivas e os eleitos poderem ser julgados pela cidadania.

Daniel Innerarity, A política em tempos de indignação, pp.212, 213 e 14, e pp.246-247.

Local


Cartas da Guerra, o filme de Ivo M.Ferreira, esteve duas semanas, e na pior sala, do shoping local, em exibição, findas as quais de imediato desapareceu de cena. É pena: no momento em que na programação cinematográfica do Teatro temos ciclos de autor (e temáticos), com antologias que se afastam, e bem, da espuma dos dias (algum infortúnio, digamos assim, em a RTP2 ter programado o ciclo dedicado a Tarkovsky também para esta altura), assumindo o que podia chamar-se de função cinemateca - uma iniciativa louvável, sobre a qual escrevi e defendi há mais de 10 anos -, o shoping local podia reservar uma sala, semanalmente, mesmo a pior, para cinema de qualidade "acabado de estrear". Manteria as suas apostas comerciais; possibilitaria uma maior diversidade de registos a quem se interessa por cinema, em Vila Real (os clássicos, cinema de autor, ciclos temáticos, filmes de qualidade acabados de sair, blockbusters). Claro que com novos espaços culturais a emergirem, nos anos mais recentes, na cidade, em particular o Zona Livre, a questão pode ser equacionada de modo diverso do de 2006, faltando saber-se se tais equipamentos e aqueles que os pensam/enquadram estão interessados em articular essa estratégia. E se o público mais fiel nos filmes de qualidade temporalmente mais próximos, estão dispostos a migrar para outras zonas da cidade para aceder aos mesmos (o que na projecção de clássicos pelo Zona Livre esteve, aliás, longe de se verificar).

Memorandos


Há uma semana, Richard Clarke, que foi coordenador anti-terrorismo nos EUA, nas administrações de Bill Clinton e George W.Bush, e foi Conselheiro de Obama, em entrevista ao Expresso, afirmou que três tendências, três grupos, no interior da Administração Bush Jr., foram determinantes para que a Guerra do Iraque tivesse ocorrido: a facção que queria concluir a Guerra inacabada por Bush Pai; os que pretendiam redesenhar o Médio-Oriente, entendendo que a exportação da democracia era uma possibilidade; e aqueles que lutavam pelos interesses petrolíferos, para empresas americanas, numa invasão ao Iraque. Assim, os termos antinómicos em que decorreram muitos debates durante e logo após tal intervenção - as causas exclusivas da democratização do Médio Oriente, ou a ganância petrolífera - são aqui retratadas, com grande verosimilhança, e por quem esteve dentro do processo, como concorrentes (e não como causas únicas e excludentes). De resto, também quando fala nos excessos do proselitismo democrático no Iraque, como a face da mesma moeda de um excesso de absentismo internacional (maxime, na Síria), por parte das lideranças norte-americanas, Clarke pareceu-me dar sinais de sensatez e lucidez de análise (sem nunca esquecer que não é indiferente, para as dificuldades de actuação no segundo dos casos, o descalabro político e económico-financeiro da primeira das decisões).

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A luta pela hierarquia de poder no mundo



"Estão sempre a dizer mal da Humanidade, o que é uma coisa terrível", mas esta soube aprender a grande lição da guerra fria: não há guerra entre potências nucleares sem que, em se puxando o gatilho, se acabe sem o colapso de uma delas (tivesse sido disparado um tiro, durante o período da guerra fria, e uma parte da URSS, ou uma parte dos EUA, teriam desaparecido). Neste sentido, os 70 anos sem guerra entre as grandes potências provaram que "a paz não é uma utopia". A humanidade aprende, e por isso, vale a pena revisitar este período, e o pós-queda da URSS, para se aquilatar da valia do poder, da desigualdade constitutiva deste, de quem o exerce - a grande questão das sociedades humanas. Actualmente, a emergência da China já não é a de uma grande potência marítima (EUA), ou continental (Rússia), mas a de um ser "anfíbio" que poderá, curiosamente, levar a que potência marítima e continental, EUA e Rússia, se unam para a conter. O interessante não é apenas a competição no topo da pirâmide, mas a gestão que se conseguirá fazer na base, onde, por exemplo, há grandes economias (Nigéria) que não influenciam o sistema.