quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Historiografia


As referências historiográficas que marcaram Fernando Rosas foram: Eric Hobsbawm, A.J.P. Taylor, E.P.Thompson - ao nível anglo-saxónico - e Vitorino Magalhães Godinho, Manuel Villaverde Cabral (parte final do séc.XIX, início séc.XXI), Manuel de Lucena (pioneiro e fundador dos estudos sobre o salazarismo), Vasco Pulido Valente (O poder e o povo) e Miriam Halpern Pereira. No perfil traçado pelo nº4 do História (JN), Fernando Rosas é descrito, como aliás José Pacheco Pereira, por exemplo, já o havia feito, como "a maior referência nacional da historiografia dedicada ao Estado Novo" (p.80). Na entrevista à referida publicação, Rosas apresenta uma curiosa versão do 25 de Novembro: "O 25 de Novembro é a contenção programada do processo revolucionário. O que é que eu quero dizer com isso? Negociada entre o Partido Comunista e o Grupo dos Nove. O Álvaro Cunhal reconhece que isto é assim, escreve que isto é assim...O que ele diz é "ah, mas eu não participei". Por acaso, participou. Hoje sabe-se que ele participou. Participou ele e participou o Melo Antunes. Não só através de negociação pessoal e directa como através da célebre intervenção do Melo Antunes, a seguir, a dizer "contamos com o Partido Comunista". Agora, repare: há essa contenção programada, o PCP fica no governo, atenção, a seguir ao 25 de Novembro o PCP fica no Governo!, a Constituição continua, depois, a consagrar tudo. O controlo operário, a reforma agrária, tudo isso fica na Constituição. O esvaziamento dessas conquistas revolucionárias mais avançadas - estou a falar de controlo operário, reforma agrária, poder popular - isso, essa contra-revolução é pacífica e legislativa. Ou seja, quem ganha as eleições é o Partido Socialista, e é o Partido Socialista que vai fazer essa desmontagem (...) Agora, as principais conquistas são constitucionalizadas, o que significa que o 25 de Novembro não é em rigor uma contra-revolução, com o seu rasto de repressão (também tem alguma repressão, sobretudo militar, pois a mudança da correlação de forças nos militares leva a que, sobretudo, os militares mais envolvidos com o novembrismo sejam saneados e presos). Há também uma correlação de forças importante nos órgãos de informação, que em grande parte, jornais e rádio e televisão, estavam, digamos assim, nas mãos do sector gonçalvista do processo e passam para as mãos de gente próxima do PS. Mas não há perseguição de partidos, não há encerramento de sindicatos, não há prisões em massa" (pp.69/70).
Segundo o historiador, os manuais do 1º e 2º ciclos, no que à História concerne, ainda veiculam uma visão lusotropicalista, que considera errada, bem como não concedem espaço a teorias da necessidade económica e social da expansão portuguesa. O que mostra sempre a importância de bons livros de História por perto, para a maior gama interpretativa (e de liberdade - de discernimento) se encontrarem à disposição dos alunos/cidadãos. Criticando o "presentismo" - o viver num presente contínuo -, diz que ele serve os interesses dos que beneficiam pelo facto de o operário de hoje não saber que o seu antecessor de séculos passados ter derramado sangue, quando labutava 10 a 12 horas por dia, e assim aceita hoje laborar essas mesmas horas. E assinala como o interesse do público pela História é bem maior em Portugal - país com uma já muito respeitável idade - do que noutros países, onde os historiadores escrevem uns para os outros (apenas). Rosa foi militante, do PCP, do MRPP, esteve 20 anos sem militar em termos partidários, e é hoje um dos rostos mais conhecidos do BE.
Quanto à escrita da História, a publicação sustenta que "torna-se muito claro que, atendendo a que o destinatário é sempre um público e não, exclusivamente, o umbigo do historiador, a escrita da História é tanto melhor quanto maior for a capacidade de quem a produz, a par da inovação e do rigor, se aproximar da literatura. Ou seja, com a óbvia ressalva de que literário não pode, aqui, ser confundido com o ficcional, o historiador só tem razão de ser enquanto comunicador, e essa faceta pode torná-lo mais ou menos competente" (p.96).

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Assim é impossível



Caracas

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Caracas é a segunda capital mais perigosa do mundo. Na Venezuela, há cerca de 70 homicídios, diariamente. Na Venezuela, morrem 100 polícias, todos os anos. Estes, são mal pagos e, por vezes, corruptos. Mais de metade da população de Caracas vive em favelas. A cidade, de seis milhões de habitantes, chegou a ter a favela mais alta do mundo, na Torre de David, entretanto encerrada, com os habitantes a serem deslocados para apartamentos (sociais). O narcotráfico é uma ameaça constante. O clima é de medo. A mais perigosa das favelas de Caracas, a favela Petare, é um dos locais mais temidos em toda a América Latina.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Infância

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Walt Disney nasce em 1901, em Chicago, no seio de uma família modesta. O pai é biscateiro, Disney é educado pelo avô num chalé, no qual faz esculturas de madeira, um universo que passa também por um frequente lidar com animais na quinta que muito marcará o seu imaginário, bem como dos seus filmes (de animação). Esta pertença primeira fará com que as limitações de background o levem a procurar os melhores artistas (que compensem essa insuficiência) para com ele trabalharem e, bem assim, a rejeitar, sempre, a temer mesmo, o rótulo de intelectual. Combinará cultura popular com cultura erudita, "alta-cultura", mas sentenciará que o seu pesadelo recorrente é ver um filme seu estrear num centro cultural. As histórias que a mãe lhe conta ao adormecer poderão ter sido influência primeira, mas as viagens pela velha Europa (sobretudo, do Norte), os seus contos clássicos, lendários, tal como as ilustrações de artistas (europeus) do século XIX - para as fábulas de Esopo, por exemplo - constituirão uma argamasse claramente reconhecível nas suas animações. Se o Rato Mickey é a primeira grande criação (e sucesso para internacionalizar), com Branca de Neve e os Sete Anões surge a primeira longa-metragem de animação e uma obra-prima de suspense (com uma marcante figura da Bruxa Má), que releva das referências cinematográficas mais avançadas à época a este respeito (muito detectáveis no filme; vide King Kong). Neste filme, não bastam as caricaturas, é necessário um desenho e registo coerente para uma personagem realista. Ainda que podendo partir deste realismo, é sempre um imaginário muito próprio, um mundo seu, que Disney trará aos seus filmes, de animais antropomorfizados, algo que desde a aurora do mundo pode ter sido utopia de harmonia imaginada pelo humano - e de aí o êxito destas formas (que as fábulas de La Fontaine ilustram). Os caricaturistas, desenhistas, pintores que compõem os estúdios Disney são convidados a ver todos os filmes, ir a todas as exposições, mapeando os sinais do tempo de um universo de vanguarda. Em alguns filmes da Disney, o mosaico de influências, a manta de retalhos, os fragmentos roubados de mil lados e ângulos inscreve-se como paisagem peculiar. Nestas películas, passando o humano por uma série de provações, sempre desaguará em harmonia como o seu ambiente circundante. Sergei Eisenstein verá em Disney um primitivo, um Fra Angelico, e está enamorado da sua arte; Salvador Dali escreve a André Breton para considerar Disney um dos três autores surrealistas da América. A colaboração entre Dali e Disney chega a ocorrer, ainda que o filme não chegue a ir para a tela. Em suma, um dos nomes maiores do século XX, num magnífico documentário que disseca toda a genealogia de uma obra, em Era uma vez Walt Disney, de Samuel Doux (no qual talvez só tenha faltado alguma atenção ao registo musical, ao universo sonoro de Disney).

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

"O PENSAMENTO LIBERAL NÃO É O NOSSO"


O pensamento liberal, que retira o homem do centro e ali coloca o dinheiro, não é o nosso, diz o Papa Francisco, sobre a doutrina social católica, que pede a intervenção das universidades, em particular a dos jesuítas, com vista ao discernimento dos mais jovens, desde logo, num mundo que é quase sempre mais cinza que a preto e branco. E não quer ideias vagas, abstractas, na formação dos sacerdotes.

P.S.: ver aqui.

Mundo


Na mais recente edição de GPS, de Fareed Zakaria, o comentário inicial do autor do programa (que assina coluna semanal no Washington Post) exemplifica como a partir de uma perspectiva de direita o Partido Republicano poderia oferecer alternativa: em vez da eliminação do Obamacare (que anunciam), a possibilidade de envolverem, antes, mecanismos de mercado, concorrenciais, neste domínio, para facilitar a vida às classes média e baixa. Capazes de verificarem uma maior transparência nos preços. Na Rússia, Trump é popular, porque Obama é impopular: quem ataca este último tem os favores do público russo. A América é, de novo, naquele país o inimigo geopolítico nº1, o grande SatanásFarage foi à Convenção Republicana e assinalou que por uma vez a esquerda estava certa na atenção às palhaçadas do trumpismo. De Israel, o olhar de quem percepcionou na frase de Donald Trump que incentivou os defensores da posse de armas a agir relativamente a Hillary Clinton o mesmo ambiente que precedeu a morte de Isaac Rabin. Hoje, pela Europa, algum receio de que os EUA estejam a recuar no seu compromisso para com o mundo. Pela Turquia, a ideia de alguns analistas de que Erdogan acabe convocando, brevemente, eleições para concentrar mais poderes na Presidência, sendo que nenhuma forma de sharia foi prescrita, estando, mais, em causa, o poder do que a religião. E um poder sob uma forma em especial: o putinismo (uma dada forma de autocracia). Mas o mais interessante, provavelmente, desta emissão do programa da CNN, a referência a um livro de J.D.Vance, Hillbilly Elegy, que procura explicar a mentalidade do operário branco, nos EUA, face aos dias de hoje e, bem assim, a popularidade que Trump (ainda) tem apesar de todos os disparates e frases tresloucadas: Vance é licenciado em Direito por Yale, nascido no Ohio, lá onde as pessoas sentem que ficaram para trás na moderna economia norte-americana, no moderno modo de vida norte-americano. Muitos empregos deslocalizados, ou encerrados, pura e simplesmente. Trabalhos nas minas de carvão mais difíceis de encontrar. E uma crise cultural pelo meio (não só a economia, portanto), com o aumento do consumo de opioides, taxas de desagregação familiar a aumentarem, pessoas deslaçadas entre si (sem pertença/anomia social). Vance fala de uma tradição familiar de pobreza com 100, ou 200 anos que agora dava ideia de regressar. Portanto, podia ser um símbolo da classe operária branca anglo-saxónica protestante que tinha trabalhado na economia esclavagista do Sul, em fábricas de aço, em minas de carvão. Trabalhos estáveis, mas não muito recompensadores em termos de mobilidade social. Quase todos vindos da tradição escocesa e irlandesa. Esta é uma classe homogénea (em termos culturais), na diversa geografia norte-americana. Os mesmos trabalhos, a mesma visão ambígua, ou mesmo confrontacional, dos mais ricos e elites. Suspeitam das pessoas das elites cosmopolitas das cidades, com muita instrução. Assim, ao ouvirem pessoas como Clinton, ou Obama, pessoas educadas, que usam um vocabulário mais sofisticado, com números, provas, evidências é menos atractivo que o discurso visceral de Trump. As pessoas falam de política, à mesa de jantar ou na Igreja, de modo muito diverso do que fazem os seus líderes políticos. Desta sorte, o desafio a estes é que, sem perderem a capacidade de um discurso bastante articulado e fundamentado, não deixem de se envolver emocionalmente naquilo que articulam. E aqui aparecem pechas nos actuais políticos: por um lado, muito filtrados (tom artificial), por outro, mesmo desligados, desconectados, sem empatia com o eleitorado para o qual estão a falar. Existe uma (actual) grande segregação residencial por classe, nos EUA. Políticos que não conhecem pessoas com grandes dificuldades neste início de séc.XXI (como estarão aptas a captar e compreender essas mesmas dificuldades?). E estas comunidades de tradição escocesa e irlandesa têm, ainda, uma tradição de violência, como que de justiça do vigilante, de quem não vai à polícia e resolve as coisas pelas próprias mãos. O livro de Vance visa, em suma, compreender uma comunidade e mostrar o que o governo pode fazer, mas, igualmente, o que está nas disponibilidade da própria comunidade alterar.

O valor fraternidade


No tríptico da Revolução Francesa, os debates políticos não têm de encerrar-se nas múltiplas combinações possíveis entre os ideais de liberdade e igualdade, que, quase sempre, tendem a negligenciar o valor fraternidade:


Num texto magistral, Jacques Le Goff aponta três funções fundamentais à ideia de fraternidade: a de correcção das insuficiências da igualdade e liberdade, a de produtora de direitos e a de indutora da solidariedade. A fraternidade acarreta consigo a ideia de correcção das desigualdades por via de solidariedade pública ou privada mas, sobretudo, o reconhecimento do outro como um ser a quem é devido respeito «atenção, empatia e solicitude, características da disposição fraterna»

Eduardo Paz Ferreira, Por uma sociedade decente, p.195

Desigualdade social (causas)


Possíveis causas para a desigualdade social:

a) alterações nos mercados de trabalho
b) quebra do poder sindical
c) efeitos da automatização (substituição de trabalhadores por máquinas)
d) evasão fiscal (possibilidades de)
e) concorrência tributária (erodindo a base dos impostos)
f) progressividade em regressão
g) existência de uma plutocracia (inimiga da mobilidade social)
h) especial qualificação de alguns trabalhadores (compensados, assim, pelas suas outstanding capacities)
i) persistência de factores de discriminação ligados ao género, ou raça
j) sabedoria económica convencional assente na ideia de as políticas públicas deverem promover o aumento do PIB per capita e de isso ser feito através da desregulação e liberalização dos mercados, sendo a desigualdade justificada por mercados eficientes; a ideia de que os pobres são responsáveis pelo seu estado de pobreza

Fonte: Por uma sociedade decente, Eduardo Paz Ferreira, Marcador, 2016, pp.192-193

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Europa



O director do comité internacional da Cruz Vermelha diz que a ajuda alimentar, na Europa, está, hoje, ao nível de 1946. Um relatório, realizado pelo BCE e pelos bancos centrais, a partir de 2006, que estuda o património (não o rendimento, mas o património), mostra que, na Alemanha, desde o primeiro governo Schroeder, tem havido uma concentração da riqueza. 50% da população alemã tem apenas acesso a 1% do património ilíquido do país. Mas o banco central alemão preferiu destacar o facto de 'apenas' 40% dos alemães terem casa própria - contra 85% dos franceses, ou mais de 70% dos portugueses -, para sugerir que não fazia sentido estarem a financiar povos 'mais ricos' que o alemão, ignorando que parte desse património imobiliário (exterior) pertence aos bancos, e está assente em dívida.

Admirável mundo novo


Foi uma excitação quando surgiram, e não surgiram há muito (finais de 2011...) - os cursos on line, grátis, aulas disponibilizadas em vídeos, com Professores de algumas da mais prestigiadas universidades norte-americanas. Assistimos a aulas, explorámos e revisitámos matérias de que gostamos, arriscámos domínios menos acessíveis.

Prometida fora, então, a acessibilidade universal, que, em boa medida, beneficiaria quem não poderia frequentar, nomeadamente por faltam de recursos que cobrissem propinas, as melhores faculdades, não existindo, aliás, entraves geográficos aqui. Um surto de inscrições, um pouco por todo o mundo, se deu, de facto.

Todavia, sem precludir as hipóteses de se virem a concretizar as previsões mais optimistas, o que se verificou, desde a disponibilização destas aulas até ao momento presente, foi um arrefecimento do entusiasmo, porque:

a) a Coursera é resultado de uma parceria das universidades de Stanford, Michigan, Pensilvânia, Princeton, John Hopkins, California Institute of Tecnology para disponibilizar cursos abertos em massa online [MOOC: massive open online courses]. Ora, um estudo da universidade da Pensilvânia que analisou o milhão de pessoas que se tinham inscrito nas aulas oferecidas pela Coursera descobriu que os MOOC "tinham relativamente poucos utilizadores activos, que o empenhamento do utilizador caía drasticamente - especialmente após as primeiras, uma a duas, semanas do curso - e que poucos utilizadores persistiam até ao fim do curso" (p.174). Só cerca de metade das pessoas inscritas nas aulas chegavam a assistir a uma única lição. As taxas de conclusão do curso variavam entre 2 a 14%, com uma média de cerca de 4%

b) "os MOOC também não conseguiam atrair os estudantes pobres e com formação deficiente ou inferior, que se pensava virem a ser os maiores beneficiários; cerca de 80% das pessoas que se inscreveram nos cursos já tinham algum grau académico" (p.174).

c) "quando os primeiros grupos de estudantes completaram os cursos [resultantes de uma parceria entre a Udacity e a Universidade de San José], que custavam apenas 150 dólares e ofereciam mentores em linha para prestarem assistência individual, os resultados foram desanimadores. Três quartos dos estudantes que seguiam as aulas de álgebra - e quase 90% provinham directamente do ensino secundário - não concluíram o curso. De um modo geral, os estudantes dos MOOC registaram um aproveitamento bastante pior do que o dos estudantes inscritos en aulas tradicionais na Universidade de San Jose" (p.175)

d) Embora se esperem melhorias e aperfeiçoamentos, a curto prazo verifica-se que os MOOC atraem os estudantes que já estão altamente motivados para procurar mais formação académica. Ou seja, "os MOOC estão preparados para competir pelas mesmas pessoas que de outro modo se matriculariam em aulas mais tradicionais" (p.176).

e) "assegurar que o crédito é conferido à própria pessoa que na realidade completa o curso e faz o exame é um dos desafios mais significativos associados à oferta de créditos académicos ou diplomas oficiais para os MOOC. Sem um robusto processo de identificação, em breve surgiria uma indústria vibrante em torno da conclusão fraudulenta de cursos e exames. Na verdade, numerosos sítios web parecem já estar a oferecer a frequência de cursos em linha por outras pessoas a troco de um pagamento" (p.177) "Em 2013, o edX - o consórcio dos MOOC fundado pela Universidade de Harvard e pelo MIT - começou a oferecer certificados de identidade aos estudantes que pagassem um custo adicional e aceitassem participar nas aulas sob o olhar vigilante de uma webcam" (p.178/179)

f) "um estudo anual de quadros de topo em cerca de 3000  institutos e universidades americanos revelou que as expectativas quanto às promessas futuras dos MOOC diminuíram significativamente durante 2013. Quase 40% dos inquiridos respondeu que cursos online em massa não eram um método de instrução sustentável; no estudo do ano anterior, apenas um quarto dos administradores universitários expressara essa perspectiva" (p.180)

g) Contudo, com os avanços futuros, "se o sector do ensino superior acabar por sucumbir à chacina digital, a transformação muito provavelmente será uma espada de dois gumes. Um diploma universitário pode ficar muito menos dispendioso e mais acessível a muitos estudantes, mas, ao mesmo tempo, a tecnologia pode devastar uma actividade que é, ela própria, um importante foco de emprego para trabalhadores altamente qualificados" (p.186) e "à medida que os empregadores se acostumarem a contratar trabalhadores formados por via deste novo paradigma, também podem ficar inclinados a assumir uma abordagem progressivamente mais global relativamente ao recrutamento" (p.187)

P.S.: por outro lado, ainda, paira a ameaça de correctores de exames automatizados - e não apenas para exames de escolha em linha -, com vista à diminuição de custos...com protestos desde 2003, de académicos norte-americanos, entre os quais Noam Chomsky.

Fonte: Robôs. A ameaça de um futuro sem emprego, Martin Ford, Bertrand, 2016

Timor e a Igreja

Zarpar



Manuel Carlos George Nascimento, um açoriano do Corvo, foi o primeiro editor de Pablo Neruda. Nasceu, em 1885, numa família de baleeiros (filho e neto de baleeiros), numa prole de 11 irmãos. Na imaginação furibunda do castigo terrífico do grande Leviatã marinho, em sermões de estremecer o chão da calçada; no fito do infinito do horizonte, lembrando mares por navegar, muito por descobrir; na solidariedade fraterna entre homens do mesmo ofício que cantavam o adeus às moças no mergulho no longínquo; nos sete mares que desbravar, aos 20 anos Manuel Carlos parte, na baleeira, para New Bedford, onde encontra o irmão, capelão dos homens do mar, e durante meses trabalha num hotel; no vapor, o anjo cinzento de Withman, atravessa a América, vai do Atlântico ao Pacífico, e suspende na Califórnia, São Francisco, onde se encontra, de novo, em família, e descobre o cosmopolitismo tão distante do pequeno Corvo, do Portugal ainda monárquico, que deixara; o cinematógrafo é a grande novidade daqueles dias e o jovem aventureiro vê, então, o primeiro filme da sua vida. Mas é em Santiago do Chile, onde, há muito, um tio está radicado e com livraria, para a qual parece fadado, que migrará em definitivo, recebendo por herança esse mister de prosseguir os sonhos dos capitães Ahab por contar. Manuel Carlos, um ilustre açoriano, contado por José Medeiros, em O livreiro de Santiago.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Direito do trabalho


O Direito do Trabalho surge como uma reacção tardia às consequências da Revolução Industrial sobre a situação dos trabalhadores que, vítimas de liberdade contratual, não tinham qualquer possibilidade de escapar a um tratamento desumano por parte dos empregadores.
Assim, só praticamente um século depois da Revolução Industrial, e em consequência de pressões de vários sectores, como os teóricos marxistas, a doutrina social da Igreja Católica e o crescente poder do proletariado, se veio a lesgislar nesta matéria.
A legislação que vai, então, ser promulgada na generalidade dos países europeus é, todavia, muito fragmentária e incompleta, e assim vai perdurar por largos anos.
No período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, assiste-se a um fenómeno de publicização do Direito do Trabalho nas ditaduras, que teve como consequência a integração das estruturas sindicais no aparelho de Estado, com a ilegalização da greve e a proibição da livre constituição de sindicatos. 
Na sequência da guerra, é aprovada a Declaração de Filadélfia e constituída a Organização Mundial do Trabalho (...) No domínio dos contratos de trabalho pode-se dizer que o aspecto essencial teve a ver com a estabilidade e previsibilidade do trabalhador, que deixa de estar na total discricionaridade do empregador. A convenção nº158 da Organização Mundial do Trabalho expressamente determina que ninguém pode ser despedido sem motivo legítimo, ao mesmo tempo que exige que seja dada ao trabalhador a possibilidade de defesa.
Por outro lado, foi geralmente garantido um salário mínimo nacional, fixado um número máximo de horas que um assalariado poderia trabalhar, proibida a discriminação entre trabalhadores, designadamente em função do género, bem como asseguradas condições higiénicas e sanitárias nos locais em que se desenrola o trabalho. (...)
Este é, pois, um acervo claramente preocupado com a defesa dos trabalhadores, dentro da percepção da sua fragilidade em face dos empregadores. Como muitos outros aspectos do Estado Social, viria a ser crescentemente posto em causa a partir dos anos 70, passando a falar-se de uma crise do Direito do Trabalho.

Eduardo Paz Ferreira, Por uma sociedade decente, pp.154-155

Fireside chats



Descobri no livro de Eduardo Paz Ferreira que as Conversas em família, de Marcelo Caetano, terão sido inspiradas em Fireside chats, as conversas à lareira, que via rádio, Franklin Delano Roosevelt tinha com o público norte-americano. Até aos comentários dominicais de Marcelo Rebelo de Sousa, eis, pois, toda uma possível árvore genealógica

Linhagem


O peso de um passado familiar, numa reportagem que vale a pena ler no Expresso.


Um futebolzinho


1.FCP-Roma: Tal como no jogo de apresentação, no Dragão, com o Villarreal, na primeira-mão do play-off da Champions, o FCP actuou com um bloco muito baixo. A ideia (de jogo) parecia (parece) ser beneficiar de uma perda de bola do adversário e correr (loucamente) rumo à baliza adversária. Simples, talvez demasiado. Com um bloco tão baixo, cada vez com bola, faltam 70 metros pela frente aos jogadores do FCP. Creio que isto coloca problemas de vária ordem (ao FCP): a) obriga os jogadores a constantes piscinas, acelerando muito o seu desgaste (físico e mental); b) quando em posse (o que sucederá muitas vezes na liga portuguesa), a equipa parece não ter combinações/dinâmicas preparadas/mecanizadas para irromper pelas defesas contrárias (assim, na segunda parte com a Roma, assim frente ao Estoril); c) os jogadores, cansados, perdem discernimento na hora da finalização (como bem sublinhou Rudolfo Reis, André Silva não pode, continuamente, fazer piques atrás dos laterais adversários e depois encontrar-se em pleno na zona onde mais necessário é; mas o mesmo se diga de um criativo como Octávio, arrasado a meio do jogo com o Estoril, à segunda jornada do campeonato). Ao Porto faltam, aliás, jogadores – como outrora Guarín, ou Hulk – para poderem interpretar este modelo de jogo favorito de Nuno Espírito Santo. Não os tendo, ainda mais penoso é jogar dessa forma. Mais radicalmente, a pergunta que faz sentido é se na direcção desportiva do clube não se ponderou que face a hábitos de posse de bola, mais lógica não teria contratar um técnico que pudesse fazer o modelo de jogo evoluir (Marco Silva), em vez de uma rutura radical, como aquela a que se assiste. Ou ainda, de que modo Oliver, um belo jogador, é um jogador para transições rápidas (como não foi para Simeone).
Por outro lado, ainda, a escolha de Nuno, e as suas afirmações, assumindo (como escudo da SAD) a contratação de Depoitre, ou, mais ainda, a não utilização de Brahimi e Aboubakar – que me parecem decisões muito mais do foro da Administração da SAD – evidenciam bem como se trata de um técnico de baixo perfil, porventura bom para a Direcção, discutivelmente para o clube. Nas conferências de imprensa, marcadas, na primeira década e meia de 2000, pela política e motivação de Mourinho, e as lições de futebol de Jesualdo, NES vai debitando (e desperdiçando) frases vazias, banalidades a rodos, como se as conferências de imprensa não devessem ser momento relevante para mobilizar resultados.
Sendo, para mim, mais relevante o modelo de jogo, ao nível do sistema de jogo este início de época oficial é atravessado por algo que já sublinháramos aqui na pré-época e que este fim-de-semana Vítor Pinto no Record e João Alves na sic notícias corroboraram: com uma equipa a precisar de consolidar dinâmicas de jogo, é extraordinário (e um tanto insólito) que se parta para cada desafio com um esquema táctico diferente.
No Dragão moram adeptos conhecedores do jogo: apenas 36 mil pessoas compareceram no primeiro jogo do campeonato em casa. De resto, alguns haviam estado, como eu estive, no Porto-Roma assistindo, in loco, ao mais impressionante “massacre” futebolístico que o Porto sofreu em casa, desde a inauguração do (novo) estádio: parecia uma equipa amadora (e de facto a pré-época assim foi) frente a um clube Champions (e, com efeito, a Roma promete: grande qualidade técnica, aliada a poderio físico inquestionável; impressionou de sobremaneira; note-se como Spalletti considerou que, mesmo com 10, a sua equipa devia ter feito muito mais, o que dá nota do que pensou do equilíbrio de forças em presença no Porto). Em realidade, a Roma terá gasto cerca de 100 milhões de euros para reforçar a equipa, enquanto o FCP se terá ficado pelos 18 (e durante meia-hora, a Roma foi 5 vezes melhor). Com o disparo dos valores televisivos, com o calcio de novo a aparentar ter mais saúde financeira (por vezes, resultante da venda de clubes a chineses, é certo), os clubes portugueses, e o Porto em particular, tenderão a sofrer uma concorrência muito desnivelada.

2.Vestais. Lembram-se de um senhor, num número repetido, de cabeça perdida, aparecer na RTP, no final do Bayern-slb, para a Champions (2015/2016), com uma bola que, na área bávara, bate em Philippe Lahm, que o jornalista considerou penalty (por assinalar), muito embora diferentes especialistas (p.ex., Pedro Henriques) tenham considerado que não era caso para falta? Pois bem, agora que unanimidade houve em torno do penalty que Juan Jesus cometeu (mão descarada) e ficou por assinalar a favor do FCP, no último minuto da 1ª parte do Dragão, frente à Roma, felizmente nenhum estouvado veio para a televisão anunciar o apocalipse, nem os jornais (da especialidade) fizeram disso primeiras páginas (comparem, ainda, com as manchetes que a seguir ao Barcelona de Ronaldinho ter criado umas 10 ou 11 ocasiões de golo na Luz se fizeram por uma mão de Pujol, na própria área, ao tempo de Koeman treinador). Ainda bem, porque, de facto, editorialmente o que havia a destacar era a superioridade esmagadora da Roma (facto mais importante) e um Porto por cima (mas sem grandes soluções) contra 10. Mas o duplo standard, uma vez mais, ficou bem evidente.
Pior, só a arrogância com pretendem fazer de nós burros: depois de um campeonato ganho ao Porto com sucessivos e ininterruptos escândalos de arbitragens, ainda há duas épocas, as vestais, que juraram, também na última época, nunca criticar um árbitro (e muito menos “pôr em causa a indústria”, o maior dos pecados hodiernos, independentemente da indústria em causa) afadigaram-se sem o menor pudor, perante ausência de registos pelos quais se pudessem queixar (diga lá um lance, diga lá um lance pediam os jornalistas na luz, como se estivéssemos num filme de Nanni Moretti), em, à segunda jornada, virem atirar-se a um árbitro, procurando condicionar este e futuros colegiados. Os jornais da propaganda lá fazem as primeiras páginas passar a mensagem, mostrando o nível de indigência do verdadeiro sistema em que vive o futebol português. Eles não querem arbitragens que não tenham influência no resultado (como foi a de ontem; nem os apaniguados, nos programas televisivos, esconderam o embaraço); eles querem arbitragens que ganhem campeonatos.

P.S.: Devo esta ao Paulo: o árbitro de ontem na Luz vai ser nomeado para a final da taça e, a seguir, despromovido.

sábado, 20 de agosto de 2016

Olimpíadas de Berlim


Hitler está renitente em aceitar a realização dos Jogos Olímpicos, em Berlim, em 1936, evento que herdara, mas que 4 milhões de desempregados, e os milhões de marcos a gastar com as Olimpíadas, tornam aparentemente pouco razoáveis. Todavia, o presidente do comité olímpico alemão, convence o regime das vantagens (para o reich) da pompa dos Jogos. O Estádio Olímpico é erguido, deliberadamente recorrendo a uma mão de obra intensiva, recusa "quase anti-económica" da maquinaria, ocupação, muito mal paga (ou no limite da escravatura), para uma imensidão, a antiguidade clássica e seu esplendor como modelos. Das ruas de Berlim desaparecem cartazes e ordens anti-semitas, jornais internacionais são reintroduzidos na cidade, os jornais mais caceteiros com os judeus convenientemente desviados dos escaparates. Todos os recursos - alimentares, também - são mobilizados para aquela cidade alemã, onde muitos são os restaurantes e cafés. As ruas, com altifalantes, transmitem os sons do estádio, reproduzem a sua atmosfera e vibração. No Olímpico, muitos não têm lugar: os preços não são acessíveis a todas as carteiras. Mas as imagens legadas à posterioridade por Leni Riefenstahl, com Deuses do estádio, tornarão os corpos e movimentos dos atletas presentes no imaginário de milhões, por todo o mundo. A realizadora é "a deusa dos Jogos", quer estar em todo o lado e observar de todos os ângulos, manda repetir exercícios aos atletas, mesmo com as bancadas desertas, inova na câmara lenta, por exemplo, dos prismas de onde decide colocar as câmaras, num filme que custará o quádruplo do habitual à época, com o regime nacional-socialista a não se poupar (nos gastos) na exaltação que dali pode advir (nunca se mostrando Hitler para tentar elidir vinculações imediatas). A URSS faltará aos Jogos. Movimentos anti-nacional socialistas, em todo o mundo, procuram boicotar as olimpíadas germânicas. Um dinamismo para erguer, em Barcelona, uns Jogos alternativos é colocado em marcha. De resto, Espanha não marcará presença em Berlim. O governo republicano vê-se a contas com golpe de apoiantes de Franco. No estádio, que acabou por custar 36 milhões de marcos, 100 mil pessoas assistem à abertura das Olimpíadas, com o cortejo que Hitler encima. A saudação nazi é feita por muitos, e os que a não realizam consta que são chamados pela polícia à saída do monumental estádio. Para evitarem um incidente diplomático com a Alemanha, apesar das fortes críticas internas, são diversos os países que acorrem. As únicas palavras que o protocolo permite que Hitler diga são "declaro aberta as 11ª Olimpíadas". Ele assiste, com uma tripla máscara de riso cínico, fanatismo apaixonado e violência, e com um facies camponês e rústico - na descrição do diplomata francês que com ele convive na tribuna - às provas nas quais participam os atletas treinados pelo estado, não pelos clubes, corpos destinados a sacrificarem-se pela nação. Há idiotas úteis, relatos cândidos a partir de Berlim, embora não poucos, como Heinrich Mann (o romancista, irmão de Thomas Mann) tivessem denunciado a farsa e a propaganda em grande escala em que os Jogos consistiam para os nacional-socialistas. Não tardou a perceber-se trágica a entrevista do presidente do comité olímpico americano ao The New York Times quando afirmava que os judeus não estavam presentes na comitiva alemã apenas porque fisicamente eram menos dotados (para a competição; não tinham alcançado as mesmas marcas que os alemães). A expansão vital era uma questão de meses.

[a partir de Jérome Prieur, Hitler's Games, Berlin 1936, 2016, que a RTP2 passou esta semana]

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Esta noite, na Sé



Sempre que se evoca a Sonata "Patética" de Beethoven, invariavelmente à memória me vem o episódio de "Os Maias", no qual a marquesa do Soutal, na corrosiva imagem de Eça, irrompe em cena catalogando de "pateta" a sonata, assim evidenciando os modos ignorantes e brutos da burguesia lisboeta (da época). Crugges ao piano, plateia enfastiada, bem diversamente da reacção às banalidades de Rufino e à poesia de Alencar, que concitam entusiasmos. Uma das sequências narrativas, a do Sarau de beneficência, no Teatro Trindade, que João Botelho decidiu, também, incluir na sua versão cinematográfica e que dá, de facto, uma bela gargalhada. 

Esta noite, com motivos mais elevados, a Sonata de Beethoven no órgão sinfónico, integra o programa de Giampaolo di Rosa, nos concertos mensais que vêem ocorrendo na Sé de Vila Real.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Orson Welles



Na noite de ontem, a RTP2 exibiu This is Orson Welles, filme, de 2015, de Clara Kuperberg e Julia Kuperberg centrado na vida e obra dessa figura maior da cultura, no século XX.

Actor, obcecado por magia, interpreta, na rádio, “A guerra dos mundos” que leva o país a suster a respiração: um conjunto de marcianos invadira os EUA, e o país estava, assim, em guerra. Uma mulher chega a dirigir-se a uma esquadra de polícia, garantindo estar esfarrapada por um ataque (de um) marciano. Welles pretendera, com a história, provar que nem tudo o que se diz(ia) na rádio é (era) verdade: ao incarnar o absurdo num (real) noticiário – como se fosse a principal peça do mesmo – mostrou até que ponto as pessoas podiam ser crédulas (acríticas com um dado media). Se bem que a crise Munique, à época, justificasse todos os receios beligerantes. No dia seguinte, ainda que se sem convicção, dá uma conferência de imprensa, onde se diz arrependido, procurando, sobretudo, evadir-se a qualquer responsabilidade legal, neste domínio. Noutros países, intérpretes que mimetizaram Welles, e a sua guerra dos mundos, acabaram no cárcere. As regras sobre rádio, nos EUA, mudam, interditando-se a noticiários invenção de enredos (ficcionais).
Aos 21/22 anos, com “A guerra dos mundos”, Welles é conhecido um pouco por todo o mundo, e aos 23 é capa da TIME, máximo prestígio. Alugava, lugar de extravagância, ambulância para ir da CBS à NBC…porque ainda não ficara escrito que só podia chamar-se ambulâncias devido a problemas de saúde…Todavia, a aclamação com que fora mimado, aos 24/25 anos, não iria perdurar para sempre ao longo da sua existência. “O meu erro foi continuar ligado ao cinema, mas é um erro de que não me arrependo”, responde Welles.

De acordo com a filha Christopher (nome dado à rapariga, por ser raro, dado Welles não gostar de repetir; filha que o realizador sempre procurou evitar que fosse actriz), do mesmo modo que o Rei Midas transformava em ouro tudo o que tocava, Welles transformava em arte, e em particular, “arte gótica” aquilo que fazia. Incompreendido pelos norte-americanos, venerado pelos europeus, não percebia como O mundo a seus pés era considerado o melhor filme de sempre.

Para nós, Welles era um farol, uma luz do indivíduo, da individualidade, de comprometimento connosco mesmos e com a nossa arte, acima de tudo. Acima de tudo”, sublinha Martin Scorsese.
Personagem shakespeariano, com grandes participações em Macbeth, Otelo, Falstaff. Actor-rei: pode não ser o melhor, mas tem que ser o rei, na Comédie Française – assim Welles também. Não chegou a concluir O mercador de Veneza.

Se quisesse entrar para o Céu com um filme, era Falstaff que eu próprio proporia”, diz Orson Welles, considerando ser o filme que tem menos defeitos (a partir de um dado ponto de vista – o seu). Para não raros críticos, trata-se, em realidade, do melhor filme tendo por base uma obra de Shakespeare, jamais realizado; uma obra-prima, da qual ninguém fala na América.

Apenas “O estrangeiro” teve sucesso comercial, nos EUA. Com ele, Welles quis deixar registado que também sabia fabricar êxitos de bilheteira, se necessário fosse. Mudaram-lhe “O quarto mandamento”, após uma hora realizada por si, enquanto estava a filmar o Carnaval do Rio de Janeiro, para onde aceitara deslocar-se, em tal trabalho, com a missão de apaziguar as relações EUA-América do Sul

Podia ser auto-destrutivo. Fugiu, sendo assim pioneiro, do sistema de estúdios de Hollywood, investindo dinheiro próprio para realizar. Com vista a tal financiamento, realizou, também, filmes comerciais (“As baladas da meia noite”, “Relatório Confidencial”). “Dois por cento a fazer filmes, e 98% a dar empurrões”, na versão de Orson Welles. Morreu com uma máquina de escrever sobre a barriga, a redigir um guião. Quis fazer filmes até ao fim, sua vocação. “Depois de morto, vão adorar-me”, terá pressentido o realizador, percebendo-se genial, e assim se reconfortando. Considerava ter três grandes mestres, no cinema: “John Ford, John Ford, John Ford”.

Interpretaram que The Lady from Shangay sería, no colocar da ex-mulher e actriz Rita no papel de vilã, um modo de vingança face a esta, no que o realizador negou veementemente, exibindo o romance que lhe esteve na origem, bem como a aceitação plena de Rita, que conhecia muito bem a personagem a interpretar, dado o livro.

Preocupado com o neonazismo, produziu textos de teor antifascista.

domingo, 14 de agosto de 2016

Já rola


Fábio Veríssimo tem tudo para ser, com Soares Dias, do melhor que a arbitragem portuguesa tem na actualidade. Que grande arbitragem em Vila do Conde, na noite de ontem: três decisões difíceis, três decisões acertadíssimas. Já na ponta final da época passada se exibira a grande nível. Evidencia grande segurança e estabilidade emocional, acompanha os lances de perto e dá uma ideia de isenção e de procurar a verdade (uma sensação que nem sempre temos no nosso campeonato). Foi bem nomeado - porque Soares Dias não pode ser pau para toda a colher, e o jogo de ontem, ainda assim, tinha um grau de dificuldade elevado: a nomeação de Veríssimo conseguia esse desiderato -, e correspondeu (por vezes, há boas nomeações que se traduzem em boas arbitragens; mas são dois momentos diferentes, e faz sentido avaliar cada um deles (em separado): no caso concreto, bem em ambas as dimensões os protagonistas). Formaria um bom naipe de árbitros com Marco Ferreira - inacreditavelmente arredado da arbitragem onde pontuam Jorge Ferreira, Nuno Almeida ou Manuel Mota - e o regresso de longa paragem por lesão de Jorge Sousa.

Desde o jogo do Villareal, com prolongamento em Vila do Conde, que ficou claro o modelo de jogo de Nuno Espírito Santo (agora para o Porto, antes para o Valência): bloco baixo, quase todos os jogadores atrás da linha da bola, transições rápidas. E afora Herrera, não vislumbro muito mais quem possa emprestar essa velocidade a queimar linhas (e ainda assim, quase sempre sem discernimento na hora da definição, por muito que frente ao Rio Ave se tenha visto uma excepção). O Porto defende em duplo pivot, mantém Corona - que é intermitente, e tantas vezes inconsequente/infantil - numa ala, puxa de Octávio - bom jogador, mas não extremo - para a esquerda e há muito wishful thinking com André Silva (e oxalá que os desejos se transformem em realidade, mas tenho as minhas dúvidas). Não dá para grandes optimismos, para mais com Filipe, com excepção do jogo de apresentação, a falhar em todos os jogos.

O futebol em chamas, por John Carlin

RBI: controvérias


Parte-se do princípio [na defesa do rendimento básico universal] de que os robôs e as aplicações vão acabar por nos tirar o emprego. Logo, a única forma de evitar uma grave crise social será instaurar um rendimento universal. Este argumento não vem de utopistas, mas das elites das novas tecnologias. (...) O argumento central é que num futuro próximo, os progressos da robótica e da inteligência artificial vão conduzir à automatização da indústria e dos serviços, com o consequente desaparecimento de várias profissões. Milhões de pessoas não vão conseguir trabalho e o fosso entre ricos e pobres aprofundar-se-à. O rendimento mínimo asseguraria as necessidades básicas dos excluídos de uma economia cada vez menos dependente da força de trabalho. (...)
A tecnologia transforma os meios de produção, mas são as políticas e os grupos de pressão que decidem como os dividendos são redistribuídos. É por essa razão que a perda de influência da classe operária explica bastante melhor o aumento das desigualdades do que o progresso tecnológico. Como observou o historiador Colin Gordon, a fatia dos lucros que ia para os salários "caiu muito mais rapidamente nos sectores onde os sindicatos perderam terreno, do que naqueles em que os computadores substituíram os trabalhadores". 
Mesmo que não tenha base, a teoria de que é a tecnologia que causa as desigualdades cumpre uma função: exonerar as elites de toda e qualquer responsabilidade. Esta teoria faz com que o capitalismo passe por um sistema de meritocracia: a tecnologia recompensa uma mão-cheia de indivíduos suficientemente brilhantes para concretizar tarefas demasiado complexas para serem automatizadas, ao mesmo tempo que empobrece os outros.
Porém, há uma questão que não se coloca com frequência: queremos verdadeiramente viver nesse admirável mundo novo? Penso que, para a maior parte de nós, a resposta é não. Mesmo que a automatização abolisse toda e qualquer forma de trabalho, mesmo que os robôs se encarregassem de educar os nossos filhos, de cultivar os campos e de nos lavar os dentes, seria sempre necessário tomar decisões políticas e fazer escolhas quanto ao modelo de sociedade que desejamos.
No mundo imaginado pelas elites tecnófilas, favoráveis ao rendimento universal, estas decisões seriam forçosamente tomadas pelos proprietários das máquinas, ou seja, pelas próprias elites. Na melhor das hipóteses, viveríamos então numa espécie de ditadura benevolente, na qual uma pequena classe de criadores de riqueza fabricaria e manteria as máquinas, permitindo que o resto da Humanidade vivesse sem trabalhar. Dar-nos-ia uma pequena parte para garantir as nossas necessidades e ficariam com o resto para elas.
Se considerarmos a riqueza como um bem essencialmente privado, produzido por indivíduos, tal tese poderia parecer justa. Contudo, numa economia moderna, a riqueza é produzida pela sociedade no seu todo. O sector das novas tecnologias é disso o melhor exemplo. Desde a sua criação após a II Guerra Mundial pelas chefias militares, Silicon Valley não tem parado de devorar recursos públicos. E isto através de programas de investigação governamentais donde resultam, quer invenções comerciais rentáveis quer os conteúdos que vemos no Gmail ou no mural do facebook, de resto explorados para fins publicitários. O que conta é que estes recursos são gratuitos. Se o são, é porque todos contribuímos para tal. Se os robôs algum dia nos substituírem, será graças aos nossos impostos e aos nossos dados pessoais na internet.
Neste contexto, o rendimento mínimo seria como as migalhas deixadas pelo patife que nos roubou a sanduíche. Para isso, mais vale guardá-la. Ou seja, é melhor tornar os robôs propriedade colectiva e distribuir os lucros de forma democrática, em vez de deixar que uma mão-cheia de privilegiados fique com  toda a riqueza.

Ben Tarnoff, The Guardian, 16-05-2016 [publicado na edição de Julho do Courrier Internacional, com tradução de Mariana Passos e Sousa

P.S.: este texto ilustra bem como também para a questão do rendimento básico universal [ou das suas diferentes variantes] o par esquerda-direita não se apresenta com uma posição homogénea. No texto vindo de apreciar, como é bom de ver, o RBI é sujeito a um forte escrutínio crítico vindo da ala esquerda.

sábado, 13 de agosto de 2016

Eurobarómetro


De acordo com o Eurobarómetro de Julho, 69% dos portugueses mostram-se favoráveis à União monetária; 56% confiam no futuro da União; 61% considera que a sua voz não conta na União Europeia; 62% tem como preocupação fundamental o desemprego.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

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Representação



Sobre o modo como os deputados portugueses decidiram interpretar os resultados das últimas legislativas, escreveu Pedro Norton um interessante ensaio na XXI - Ter opinião (nº7), no qual evidenciava o modo diverso como o mandato parlamentar pode/foi sendo ao longo dos tempos interpretado: i) "o primeiro é o modelo trustee ou do fiduciário. Neste modelo, o eleito, enquanto fiduciário, é investido com a responsabilidade formal de zelar pelos interesses do eleitor. Tem nesse sentido um enorme grau de autonomia e pode, no dizer de Norberto Bobbio, agir por conta dos seus representados, interpretando, segundo o seu critério, os interesses deles. Representa-os sem qualquer vínculo de mandato imperativo. A este tipo de formulação da representação subjaz, não é possível negá-lo, uma concepção elitista ou 'burguesa' da democracia. No limite, dirão os críticos, não estamos aqui muito longe de uma concepção platónica da democracia, com os seus magistrados e reis filósofos a decidir o que as massas ignaras não podem decidir por elas (dando de barato que existe um nexo causal entre educação e capacidade de discernimento do interesse próprio) (...) Estes eleitos, autónomos e sem nenhum mandato imperativo, devem representar os interesses gerais e não os interesses particulares (ou corporativos) dos seus representados (...) A autonomia não poderia rimar com a defesa de interesses demasiado específicos" (p.30); ii) "o segundo modelo de representação é o modelo do delegado. Um delegado é alguém que é escolhido para agir em nome de outrem com base num mandato muito preciso e muito claro. O eleito tem de ser uma 'extensão' do eleitor. Pensa pela cabeça deste e não tanto pela sua (...) A expectativa subjacente é que se comporte de acordo com as instruções do eleitor e que actue, como um embaixador, em seu nome e de acordo com as suas instruções. Volto a Bobbio. O eleito "será pura e simplesmente um porta-voz, um mensageiro, um legado, um enviado dos seus representados, e o seu mandato será assim extremamente limitado e revogável ad nutum. A este tipo de formulação do mandato costuma estar associada uma representação de interesses particulares ou corporativos dos eleitores" (pp.30-31). Ora, se Edmund Burke pode ser associado à primeira das concepções de representação, já Thomas Paine e Jean Jacques Rousseau podem ser vinculados à segunda. Neste sentido, nas reacções aos resultados das últimas legislativas, e no que isto significou de interpretação do mandato parlamentar, esquerda e direita portuguesas teriam invertido os papéis histórica e ideologicamente mais próximos dos seus (com a esquerda a assumir o modelo trustee e a direita a postular uma concepção de delegado).
Se, contudo, deixarmos o caso português, e pensarmos no Reino Unido dividido quanto à questão do Brexit, e se, como explicava Gonçalo Almeida Ribeiro num recente Prós e Contras (04-07-2016), cabe ao Parlamento (numa democracia com constituição não escrita e supremacia parlamentar, como é a do U.K.) a solicitação para as negociações, com a UE, com vista à saída do Reino Unido da União Europeia, podemos aquilatar como, de novo, a equação do papel do representante é determinante: não propriamente porque o resultado do referendo não seja juridicamente vinculativo, mas muito mais porque a quando de uma negociação com a UE os representantes terão de interpretar se aquele concreto acordo que se venha a formular respeita o resultado do Brexit (talvez, aqui, delegação), mas, ainda, e sem precludir, se  o acordo beneficia o interesse geral, o bem comum do Reino Unido (uma formulação que pode ser tida como elitista, mas que creio não poder ser descartada por esses mesmos representantes).

Impunidade e ficção


Só nestas férias vi O lobo de Wall Street, de Martin Scorsese. Ficção pode ser a palavra que atravessa não apenas uma economia que vive de incrementos puramente virtuais - o vertiginoso e surreal dos preços de acções, nas lenga-lengas intrusivas/coercitivas dos correctores de bolsa -, mas que assenta em toda uma sociedade que se torna crédula para tocar virtualmente - mas apenas virtualmente - o sonho (como o imaginário é saturado, exclusivo, e indigente, dificilmente se lhe chamará sonho com propriedade) de ter muito, muito, muito dinheiro. Claro que a credulidade, para ser preenchida, difere consoante a instrução, os conhecimentos que se possuem, sendo necessário contar histórias diferentes a diferentes pessoas às quais se liga para investir em papéis (e quase sempre são os menos qualificados e com pequenas poupanças que ficam a olhar as quimeras prometidas, por quem se desfez de qualquer outra baliza que não a de um enriquecimento sem freio). Mas ficção, ainda, o modo como se vive, repleto de comportamentos desviantes e bizarros, à medida que se aproveita a puerilidade de quem cai na teia: todavia, o lobo que caça, e que precisa de uma ambição sem limites, uma ganância exaltada, para se fazer a um jogo perverso e nos limites do vício (de todos os vícios, aliás), é caçado da mesma forma ingénua num outro estádio, onde além do dinheiro, o caçador se presume insusceptível de ser caçado, quer manter a adrenalina, o poder, a multiplicação de números, aqui prestidigitadores, fábulas em si mesmas, tesouros que se transformam em aparente realidade, porque no interior de um universo completamente fantasioso é a mais inebriante das irrealidades que se julga verdadeira. Sentimento de impunidade, economia de casino, dificuldades de regulação da finança, predadores que como correctores vendem e inflacionam acções de empresas que os próprios possuem, droga, prostituição, vidas dos outros como jogos, ausência de qualquer moralidade, numa interpretação em grande de Leonardo Di Caprio.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Hungria



Em 2008, a Hungria só não entrou em bancarrota, porque contou com 14 mil milhões de euros de empréstimos, vindos do FMI e UE. O país pagou a última tranche deste envelope financeiro este ano. Por vezes, ignoramos este dado quando assistimos ao que se seguiu neste país, desde há 8 anos. Segundo Zoltán Kizzelly, em artigo no jornal austríaco Die Presse, em finais de Abril, a vitória de Órban e seus índices de popularidade muito se devem, também, aos sectores de esquerda que nele votaram, e que o "obrigaram" a não seguir o pacote neoliberal recomendado pelas instituições que forneceram o empréstimo, pelo que "deu origem a uma política económica julgada desde então pouco ortodoxa e que consistiu em transferir o essencial do fardo da dívida para os especuladores estrangeiros, os investidores, as cadeias comerciais e os bancos, e não unicamente para a população (como sucedia até aí). A indústria, pelo contrário, foi logicamente poupada (...) Actualmente, a Polónia recorre a medidas da mesma ordem para tentar repartir mais equitativamente os frutos de uma economia próspera". Houve limitação de apoios sociais, mas aumento do emprego no sector público, na Hungria, tal como a introdução da formação profissional por alternância. Entre os motivos pelos quais a imigração foi colocada em causa, conta-se o facto de "Budapeste não quer concorrência nos mercados de trabalho e do alojamento, nem o nivelamento por baixo dos salários que resultaria de uma imigração em massa". O que mostra que múltiplas são as correntes ideológicas e as razões travadas na abordagem à complexa realidade da imigração (que é diversa e não subsumível à questão premente de ajuda aos refugiados).

Hillary



O problema de Hillary Clinton é não ter um grande desígnio susceptível de mobilizar os eleitores, que estão especialmente descontentes este ano (...) Alguns temas centrais [do programa de Hillary] parecem evidentes: defesa do legado de Obama (e do seu marido), em especial na Saúde; prossecução da política democrata em matéria de imigração [designadamente, regularização dos clandestinos]; apoio aos programas para a primeira infância, ao sistema de creches mais baratas e a um sistema de ensino universitário que não obrigue os alunos a endividarem-se. Nas questões de política externa, atitude firme mas pragmática (...) O fundo da questão é a dificuldade persistente de Hillary em conseguir explicar, de forma simples e clara, o que quer realmente fazer quando for Presidente.

Todd S.Purdum, em The Politico, 01-05-2016, publicado pelo Courreier Internacional [tradução de Isabel Fernandes], nº245, Julho 2016, pp.45-46

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Ética e Ciência (II)




Genealogia da Bioética:

a) Código de Nuremberga, de 1947
b) Comissão hospitalar, de 1962, composta por membros da sociedade civil, para avaliar quem seriam as pessoas a quem os escassas vagas da hemodiálise seriam acometidos ("God's Committee", pois a comissão como que decidia quem vivia e quem morria)

Como se percebe em b), a bioética surge, também, em função dos avanços biotecnológicos - antes da hemodiálise aquele dilema ético, acima assinalado, não se colocava. 
Em 1900, surgira, já, um documento legal, de um ministro do governo da Prússia, para regular a experimentação humana; do mesmo modo, em 1931, o governo alemão alertava para a necessidade de experimentação humana para o desenvolvimento da ciência e o florescimento humano, mas com as devidas precauções éticas. Estas, por sua vez, foram completamente tolhidas não apenas pelos médicos ao serviço do nazismo, como por membros do exército japonês na invasão à China, no decurso da II Guerra Mundial.
"Hoje, como ontem, a experimentação humana é reconhecida como indispensável para o progresso das ciências biomédicas" (p.35). De aí que obrigatória se tornasse a elaboração de normas para acautelar aqueles que participariam em tais experimentos e identificação de populações especialmente vulneráveis. Normas apertadas a Ocidente, levaram a deslocalização de experimentação para outras paragens. Mas na década de 90 do séc.XX, a situação alterou-se: o homem branco de 30 anos, retirava conclusões - das experiências em que participara - que não eram extensíveis para mulheres, crianças ou pessoas de outras etnias. Estas vão querer ser incluídas.

Fundamental, vai ser a questão do consentimento informado para quem é sujeito de experimentação:
a) que informação foi transmitida ao participante?
b) que processo esteve na base do seu consentimento?

Entre as questões éticas que se colocam aos participantes em processos de experimentação médica contam-se a pressão que exercem os escolhidos, quando há excesso de candidatos; responsabilidade de se ser voluntário, mesmo sem compensação; compensação atribuída aos recrutados...

Ainda hoje se discute quer a quantidade, quer a qualidade de informação a passar para qualquer procedimento invasivo, nomeadamente, por exemplo, a questão do exacerbar de riscos residuais na economia de dados a transmitir, no caldeamento, ainda, dos benefícios a retirar para o próprio. "Simultaneamente, a exigência de consentimento informado conduziu também à comunicação abrupta de informações por vezes muito graves acerca da situação clínica do doente, num acto de violência psicológica que se repete quotidianamente. Importa investir em técnicas de comunicação para, sem nunca mentir, saber ir transmitindo as notícias devidas à medida da capacidade de assimilação da pessoa em causa. A inexistência da prática de confirmação da correcta compreensão da informação prestada ameaça também a qualidade do consentimento informado, pelo que deve ser adequadamente exercida" (p.39).


[a partir de O admirável horizonte da bioética, de Maria do Céu Patrão Neves, edição Flad]

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Ética e Ciência


Modalidades de que pode revestir-se a relação da Ética com a Ciência:

a) imposição de limites - função repressiva
b) fixação normativa - se acompanhada de consenso ético prévio, possivelmente função positiva; se não, permanece em zona autoritária
c) formação de consciências - de cidadãos e cientistas

O cientista não pode ser ingénuo, depois de Nagasaki e Hiroshima: está obrigado a prever as consequências/implicações do que está/vai fazer/construir/colocar à disposição ("tornou-se evidente que a ciência não constitui um valor em si mesma, um valor absoluto, o que justificaria os meios implementados para a obtenção do conhecimento, mas deve antes manter-se como um instrumento de realização das finalidades humanas. Tornou-se evidente que todo o conhecimento tem uma aplicação prática, tendo-se esvaziado a ideia de um conhecimento teórico puro, pelo que o cientista deve assumir a responsabilidade de prever as consequências possíveis do saber que constrói e de prevenir as suas utilizações nefastas", p.18). A ciência não é amoral (e quando o é, como diz J.Lobo Antunes, torna-se imoral). Mas, por outro lado, o terreno da ética não é o da tentação do poder (com uma pretensa função de fiscal); bem mais, proporciona quadros de formação de uma consciência que o cientista, despido da arrogância do cientismo, convocou como parceiro de indiscutível valia e complementaridade.

[a partir de O admirável horizonte da bioética, de Maria do Céu Patrão Neves, edição Flad]

Saber


Sobre a sociedade do conhecimento, a cultura da ignorância que produz, a confiança nos outros para a civilização prosseguir, a escolha dos meios certos para aceder à informação (desejavelmente, menos informação), da falta de orientação e sentido que há em tal sociedade, o saber como fim em si mesmo e não adestramento, as grandes perguntas, as perguntas por fazer como desiderato, as sínteses que faltam e um relato englobante, a educação para lá das competências, num ensaio a ler com atenção de Daniel Innerarity

domingo, 7 de agosto de 2016

Que gramática vivente?


Para a maioria de nós, as forças da conformidade que nos rodeiam e seduzem - políticas, religiosas, patrióticas e populares - são abrigos necessários contra a tempestade da possibilidade infinita. Uma ética da escolha perfeitamente consistente acabaria, no limite, por eliminar qualquer distinção significativa entre bem e mal, compaixão e crueldade, amor e ódio, reverência e transgressão, e poucos de nós poderiam suportar habitar o mundo nesses termos. Podemos acreditar, de modo mais ou menos irreflectido, que a vontade se torna progressivamente mais livre quanto mais se libertar de qualquer constrangimentos que possa sofrer. Isto pode significar que, à medida que o tempo passa, podemos vir a considerar que até mesmo as tradições morais que muito se prezam são graves inconvenientes que colidem com os nossos direitos; mas poucos de nós são tão dementes, diabólicos ou incorrigivelmente adolescentes ao ponto de decidir viver sem limites visíveis. Mesmo quando nos livrámos dos preceitos morais e religiosos dos nossos antepassados, a maioria de nós procura ser ético e até, em muitos casos, «espiritual». É raro, contudo, que sejamos capazes de impor algo do género de um padrão coerente à colecção, de algum modo acidental, de princípios e práticas pelas quais o fazemos. A nossa ética, de um modo especial, tende a ser uma espécie de contínua improvisação ou bricolagem: reunimos fragmentos de tradições de que apenas nos recordamos, juntamos máximas éticas quase ao acaso da cultura que nos circunda, procuramos encontrar um equilíbrio interior entre a tolerância e a convicção, e assim por diante, até termos tricotado algo como um código, que se preste às nossas necessidades, temperamentos, capacidades e imaginações. Seleccionamos os critérios e os valores que nos são atractivos de um mercado mais vasto de opções morais e depois procuramos ordená-los em alguma forma de harmonia saborosa
Quanto à nossa religião, pode dizer-se quase o mesmo: poucos de nós realmente sentem que os credos que abraçamos são mais importantes para modelar as nossas predisposições éticas do que os nossos próprios juízos. É verdade, em qualquer caso, que nós não nos aproximamos do «mistério de Deus» com algo de parecido ao receio ou temor dos nossos antepassados, e quando nos cansamos das nossas devoções e nos afastamos, não contamos vir a ser perseguidos pelas Fúrias ou assediados pela consciência.

David Bentley Hart, Ilusões dos ateus. A revolução cristã e os seus adversários da moda, pp.44-45

Lebenswelt


Por vezes, é uma questão de formulação. O modo como se diz ajuda a entender melhor. Assim, bastante feliz a explicitação de David Bentley Hart acerca do significado de mundo da vida:

Sendo nós pessoas modernas de inclinação secularista, que acreditam que as raízes da sua solicitude pela igualdade humana não chegam a um nível mais profundo do terreno da história do que a assim chamada Idade do Iluminismo, tendemos com frequência a imaginar que os nossos valores nada mais são do que impulsos racionais de qualquer consciência sã livre de preconceitos. Mas isso é absurdo. Não existe algo como uma moralidade «iluminada», se por tal se quiser dizer uma ética escrita no tecido da nossa natureza, que qualquer pessoa pode descobrir simplesmente pela luz da razão desinteressada. Há, antes, tradições morais, modeladas por eventos, ideias, inspirações e experiências; e nenhuma moralidade está privada das contingências de histórias culturais particulares. Seja o que for que julguemos querer dizer por «igualdade» humana, só somos capazes de presumir o peso moral de uma tal noção porque, a um nível muito mais profundo dos estratos históricos da nossa comum consciência ocidental, retemos a memória de um momento inesperado de despertar espiritual, uma resposta encantada e maravilhada a um único evento histórico: a proclamação da Páscoa.

Ilusões dos Ateus. A revolução cristã e os seus críticos da moda, p.256

[por contraponto, leia-se o diálogo de Ratzinger com Paolo Flores D'Arcais, em Existe Deus?; repense-se a questão do "relativismo dos valores"; este passo, fez-me recordar muito a questão tantas vezes formulada, de imensos modos, e a resposta, muito neste sentido, do Prof. J.Duque, em aulas excelentes]

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O momento olímpico



O momento olímpico português que mais me emocionou até hoje, numa madrugada de há 20 anos. Fenomenal corrida, com os 100 metros finais (ver o vídeo sobretudo a partir dos 28.30mn) verdadeiramente empolgantes. Grande Fernanda Ribeiro!

O estado do Estado: arbitragem (III)


Esta cláusula foi pensada inicialmente como forma de apoio ao desenvolvimento em países menos desenvolvidos, uma vez que asseguraria a garantia do investimento contra possíveis nacionalizações e turbulências políticas. O seu sentido é hoje, no entanto, profundamente diferente e os moldes em que se encontra redigida constitui um dos maiores desafios com que se confronta a soberania dos Estados.
De harmonia com esta cláusula, é atribuído a um investidor estrangeiro o direito de questionar uma lei, regulamento ou decisão administrativa, o que na prática significa admitir um poder de veto sobre decisões políticas, que poderão ser apreciadas por um tribunal composto por peritos sem legitimidade democrática ou sem as necessárias garantias de independência.
Tem-se afirmado em defesa desta solução que ela não determina a anulação de legislação, mas tão-só a possibilidade de obter uma compensação, o que não altera o essencial da questão, na medida em que implica um constrangimento muito perigoso sobre o direito dos Estados a definirem as suas políticas. No limite poder-se-á entender, por exemplo, que uma medida de alteração dos valores dos salários mínimos é susceptível de dar origem a um processo em tribunal arbitral por reduzir as expectativas de rendibilidade do investimento.
A Alemanha, que foi o primeiro Estado desenvolvido a incluir uma cláusula deste tipo num acordo bilateral com o Paquistão, conheceu bem o seu lado amargo, quando uma empresa sueca a processou pela suspensão do programa nuclear, o que levou o governo alemão, aliás, a encontrar-se hoje na fila da frente dos críticos da dita cláusula.
Mas são normalmente os países com pouco poder económico as principais vítimas deste tipo de cláusula. Assim, o México foi condenado a pagar uma indemnização a uma empresa por ter adoptado medidas contra a utilização de produtos tóxicos, ou, mais recentemente, assistimos à queixa da Philip Morris contra o Uruguai, que atingiu os foros de um escândalo que questiona toda a ordem estabelecida em torno das Nações Unidas, uma vez que a empresa pretende ser indemnizada pelo facto de o governo daquele país ter adoptado legislação contra o fumo na linha das recomendações da Organização Mundial de Saúde. A queixa veio, de resto, demonstrar a iniquidade total do sistema, uma vez que o Uruguai nem sequer dispunha de meios para se defender e só pôde fazê-lo graças ao fundo criado por Bloomberg e Gates para auxiliar Estados frágeis neste tipo de queixas.
Com toda a razão, Alfred de Zayas comentou, a este propósito: «(…) mas agora, mais do que nunca, um único mecanismo – o pouco conhecido sistema de resolução de litígios Investidor/Estado – ameaça o sistema actual de justiça, o conceito de freios e contrapesos e o próprio coração do Estado de Direito. As suas implicações para o respeito pelos direitos humanos em todo o mundo são devastadoras. Se se permitir que continue a existir, ele sequestrará os sonhos de uma ordem internacional justa nascidos da Segunda Guerra Mundial».
Certo é que começou a gerar-se um movimento de contestação desta cláusula que os Estados Unidos insistem em inserir em todos os tratados de comércio livre e que vários Estados já anunciaram que não voltariam a aceitar. As atenções para a cláusula foram também despertas pela circunstância de os Estados Unidos, à semelhança do que fizeram já nos Acordos NAFTA e com a Ásia, pretenderem inserir uma norma desse tipo no TIIP. (…)
No entanto, a anterior Comissão Europeia defendeu vivamente a cláusula, sustentando que ela garantiria uma forte estabilidade do investimento na Europa. As reticências resultantes da acção conjunta da França e da Alemanha e da intervenção do Parlamento Europeu [foram claras] (…) A insistência neste tipo de cláusula por parte da Administração Obama ficará como um dos aspectos controversos do seu mandato, pelo que representa de sujeição aos interesses económicos e desvalorização dos direitos humanos.


Eduardo Paz Ferreira, Por uma sociedade decente, pp.122-124

O estado do Estado: arbitragem (II)


O Decreto-Lei nº10/2011, de 20 de Janeiro, que aprova o Regime Jurídico da Arbitragem Tributária inclui, no seu preâmbulo, uma verdadeira confissão da impotência do Estado, afirmando que «a introdução no ordenamento jurídico português da arbitragem em matéria tributária, como forma alternativa de resolução jurisdicional de conflitos no domínio fiscal, visa três objectivos principais: por um lado, reforçar a tutela eficaz dos direitos e interesses legalmente protegidos dos sujeitos passivos, por outro lado, imprimir uma maior celeridade na resolução de litígios que opõem a administração tributária ao sujeito passivo e, finalmente, reduzir a pendência de processos nos tribunais administrativos e fiscais». (…)
A questão da responsabilidade dos árbitros também tem sido objecto de debate aceso. A actual Lei de Arbitragem Voluntária atribui-lhes um regime de responsabilidade semelhante ao dos magistrados (Artigo 9º, nº4), mas exclui a responsabilidade perante terceiros, explicitando no número 5 do mesmo artigo que os árbitros só respondem perante as partes e não perante terceiros. (…)
Torna-se clara a concepção privatística geral sobre a Justiça que ilumina o instituto. Com razão, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, na abertura do ano judiciário de 2015, denunciou «um caminho para a privatização da justiça, que quer realizar a utopia neoliberal de dispensar o juíz, ficando os tribunais da República numa função residual».

Eduardo Paz Ferreira, Por uma sociedade decente, pp.119-120

O estado do Estado: arbitragem


Não se pode pensar que o recurso à arbitragem seja uma realidade que só recentemente nasceu. Muito pelo contrário, a História mostra que a tentativa de resolver litígios por forma privada corresponde à mais antiga forma de jurisdição. Quer os senhores feudais, quer os monarcas, organizaram máquinas judiciárias que coexistiram no entanto com outras formas de justiça.
Com o surgimento do Estado Moderno, este passa a reservar para si o monopólio da justiça, ignorando outras formas que colidiam com o confisco pelo Estado de todos os meios que recorressem ao poder de execução coactiva. É certo que a Revolução Francesa constituiu um momento efémero de reabilitação dos tribunais arbitrais, em face da desconfiança existente em relação aos magistrados do Antigo Regime, mas a ordem napoleónica viria a impor rapidamente um sistema de justiça pública. Ainda assim, ao longo do século XIX, mesmo em França, é possível encontrar em diversas disposições remissões para a possibilidade da arbitragem.
O instituto da arbitragem vai, por outro lado, desenvolver-se de uma forma própria no comércio internacional, com as partes a desconfiarem da isenção dos tribunais dos Estados de outros contratantes e a preferirem recorrer a formas de arbitragem que levariam, aliás, ao surgimento de instituições que assumiram a organização destes julgamentos. (…)
A revisão constitucional de 1982 [em Portugal] viera expressamente consagrar a existência de tribunais arbitrais. Durante algum tempo, os tribunais arbitrais diziam apenas respeito a conflitos entre privados, mas foram-se progressivamente estendendo para a área dos conflitos entre público e privado. (…)
Depois de um período de hesitações quanto à extensão em que a arbitragem seria aceite na área pública, o Código de Processo nos Tribunais Administrativos de 2002, veio a admiti-lo com maior amplitude.


Eduardo Paz Ferreira, Por uma sociedade decente, pp.115-118

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Privatizações (balanços) (III)


Venderam-se as jóias da coroa sem que possamos estabelecer qualquer balanço positivo global. O descalabro do sistema financeiro, a entrada de actores externos em áreas estratégicas como da energia, bem como a dependência que daqui resultou para a economia portuguesa em relação a economias estrangeiras que conhecem especiais dificuldades e o facto de estas vendas não terem permitido qualquer diminuição da dívida pública – que, pelo contrário, aumentou – não deixam margem para optimismo.
Naturalmente, um aspecto particularmente controverso foi a circunstância de, em regra, os gestores públicos se terem mantido à frente das empresas privatizadas, bem como o facto de, muitas vezes, estas terem passado de uma situação de acumulação de prejuízos para resultados francamente positivos. Impressiona, também, o facto de algumas destas empresas, quando públicas, terem sido impedidas de levar por diante projectos inovadores, que foram depois imediatamente viabilizados quando privatizadas, como sucede por exemplo com o Banco dos CTT.
As inúmeras dúvidas e suspeitas lançadas em torno de várias operações de venda ajudam a completar um quadro, do qual apenas se pode concluir que Portugal saiu fragilizado e mais pobre.

Eduardo Paz Ferreira, Por uma sociedade decente, p.114/115