quinta-feira, 30 de junho de 2016

Mimos e carinhos



Talvez porque não voltes onde foste feliz, não mais pisei o território sagrado da adolescência, muito presente na Escola Camilo Castelo Branco, o Liceu, desde que deixei o Secundário, já lá vão uns bons aninhos. Mas, evidentemente, as memórias e os afectos permaneceram, e não pude deixar de ser tocado pelo convite para (co) apresentar o livro daquela que foi minha professora de Geografia, durante dois anos, nesse tempo escrito em marfim. Que para lá dos papéis (mais, ou menos, momentâneos), as relações possam prolongar-se, numa trama que não ignora tantas horas passadas em conjunto, e nos torna rostos, e não peças que passaram por qualquer engrenagem de modo indistinto, parece-me perfeito. A ideia de juntar três gerações diferentes à mesa, muito boa, e não habitual no modo de fazer estas coisas. 
Embora o livro, no seu lançamento original - no Conservatório Regional de Música, creio - tenha já uns valentes meses, e só recentemente tenha podido aceder à Idade da Inocência (Chiado Editores), foi com toda a devoção da atenção que me dediquei à leitura, sublinhados e a um conjunto de comentários, para uma pequena comunicação que enviei, com toda a estima, à professora Isabel - para o evento de logo à noite. 
É esse pequeno "ensaio" (amador; por um dia crítico literário, também tinha que ser,lol) que agora vou disponibilizando, também por aqui - porque todos gostamos de regressar à infância.



Para a minha professora de Geografia, Isabel Machado

História universal (mas singular) da infância

                                                     Porque as crianças são minhas criaturas.
                                                                                   Mais que os homens.                     
                                                                                   Porque elas ainda não foram derrotadas pela vida.

                                                                                                  Charles Peguy    
                               

1.Conquanto a memória se revista de uma plasticidade magmática e de uma consabida selectividade, e ao cosmos de uma vívida (e vivida) infância não se aceda com a lâmina de um bisturi, o recurso a um registo ficcional permite frequentar os assomos oníricos, de ambiguidade e contradição, no fio da navalha entre Parménides (o ser uno, imutável, perene) e Heráclito (ninguém se banha duas vezes no mesmo rio) que, desde logo, a Idade da Inocência encerra como gestante.
Ademais, é a própria compreensão do real, na sua complexidade, que reclama a abertura a uma dimensão poética capaz de captar/estabelecer um mundo e de o presentear ao leitor[1] - e é tanto de uma queda no mundo, pessoal e (in)transmissível, quanto da história de um espaço (aliás, conjunto de espaços físicos e sociais - Vila Real, Agarez, Bragadas, Guimarães, Braga, Apúlia –, a que se juntará o amplo espaço psicológico de Natália) e de um tempo (maxime, a década de 60 do séc.XX) que se cura na obra de Isabel Sousa Costa.
E, não menos importante, à estratégia estética utilizada pela autora, na obra em apreço, não será alheia a vontade/necessidade de um certo recuo – certamente não facilitado pelo postulado de tipo positivista que o ensaio memorialista puro e duro poderia implicar -, para melhor compreender: seja, ab initio, (a busca de entender) a personagem central da narrativa, com a qual se estabelece uma relação simultaneamente distendida (de quem (a) observa/analisa/regista a partir de fora) e comprometida (a omnisciência do narrador quanto ao sentir/pensar/pulsar de Natália), seja no confronto/relação com os demais intervenientes (que sendo personagens [e não pessoas…tout court], oferecem ao narrador a possibilidade de os explicar, de os dizer na sua inteireza (e crueza), subtraindo-se a demandas de tipo afectivo, ou de índole social (que a pessoalização memorialista, reitere-se, por ventura conteria), não raro castradoras de uma afirmação toda das coisas como elas são, ou, pelo menos, das coisas como elas são para quem as experimentou…e agora experimenta/traduz [traduttore, traditore], em um diverso plano/ângulo por uma vez outra), seja, ainda, na dilucidação de uma terra, de uma mentalidade, de um tempo. Se a autora pretende inscrever-se no sério cortejo dos que buscam a verdade da infância, um território que nos faz e a que sempre regressamos, sem dúvida que a recusa da hagiografia – mesmo para com os mais próximos; diríamos, sobretudo com os mais próximos, porque o inteiro respeito por estes significará amá-los na sua mais completa idiossincrasia (ex: a mãe de Natália agia “com a displicência que lhe era natural” (p.135) -, ou de um programa, se contam entre os méritos maiores de A idade da inocência. Nos interstícios de uma melodia que nunca soa estridente – a candura, a paisagem vista desde baixo na partitura do diminutivo que acompanha toda a obra (“espetava uns pauzinhos em aboborinhas para que parecessem porquinhos; de ervinhas fazia pequenas gaitas (…) até se dava ao cuidado de arranjar umas palhinhas…”, p.26) -, não deixa de se anotar a hostilidade (de que, aliás, o diminutivo pode participar como suporte de (conhecidos) contrários: a simultânea presença de ingenuidade e de pequenas/grandes crueldades) do mundo (do mundo próprio – p.ex, o irmão era “saco de pancada” (p.70), no qual Natália descarregava as frustrações -, mas, sobretudo, de um entorno que não surge beatificado – “o que mais desgostava Natália era fazerem dela um ‘pau mandado’, cujo tempo podiam gerir a belo prazer, como se fosse desprovida de gostos e vontades” (p.113). Dir-se-ia que a autenticidade é santo e senha d’a idade da inocência, que fixa, pois, uma ecologia e não devaneia em moralismos de vão de escada. Agostinho da Silva reclamava: “nem ortodoxo, nem heterodoxo: paradoxo”. Será das contradições do real, e nunca de um panfleto, que dará conta A idade da inocência.
Dito isto, estamos, pois, em condições de nos abeirarmos de Natália, e dos desfiar das suas memórias, livro aberto, como de alguém mais (e com uma bagagem de lembranças com um plus não subsumível, necessariamente, às memórias pessoais) do que o alter ego de Isabel Sousa Costa – apesar das semelhanças que se podem começar a contar, a título de ilustração, a partir das coincidências entre a idade e a naturalidade da autora e as da personagem central da obra: a badana do livro informa-nos que a primeira nasceu em Novembro de 1961, no Porto, e, por sua vez, o narrador esclarece-nos que no dia da Revolução de Abril de 1974 Natália tinha 12 anos (ela que havia nascido em Santo Ildefonso, na Invicta). Se Javier Cercas tem razão quando afirma que a ficção é a mentira necessária para dizer a verdade, então o jogo de espelhos estabelecido entre Isabel Sousa Costa e Natália, nas suas aproximações e afastamentos, tem aqui pleno cabimento.

2.O mote de A idade da inocência, conforme o poema - que antecede a narrativa – dedicado, pela autora, aos (seus) filhos, parece ser o de corresponder ao topoi socrático, segundo o qual uma vida não examinada não merece ser vivida, o desejo de prestar contas, de reflectir sobre a experiência e, bem assim, um não menos agraciado (nerudiano) sublinhar de um fruir da vida: confesso que vivi.
E onde terá vivido mais, Natália, menina magricelas, nascida numa “família remediada” (p.ex., p.126), filha de um biólogo, professor, e de uma mãe funcionária dos CTT (p.105) naturais de Vila Real, com dois irmãos mais novos, uma avó rural e próxima, uma outra citadina, distante e autoritária, com uma tia educadora no primeiro ciclo (do ensino básico) com ascendente sobre a menina, e um par de tios muito afáveis, rapariga empertigada, “curiosa e amante de novas experiências” (p.96), de “agir primeiro e pensar depois” (p.84), “arisca”(p.21), resiliente, líder, “irrequieta” (p.101), com um “jeito ansioso e desenrascado” (p.90), “tagarelas” (p.95), que “não gostava de dar o braço a torcer” (p.86), autêntica, “trapalhona” (p.81), de “temperamento impulsivo” (p.84), inteligente, que “gostava de ter protagonismo” (p.111), sociável, que “detestava interrogatórios” (p.114), “sobrepunha a emoção à razão” (p.121), esperta, “adorava o mundo do espectáculo” (p.111) inconformada (p.128), “astuta” (p.130), observadora, “atenta aos pormenores” (p.130), caía num “permanente estado de melancolia” (p.95), recusava o hospital (p.84), fã do baloiço (p.115), não especialmente fadada para o tricô, o croché ou o bordado (p.112), “adorava ver televisão” (p.104) e “nunca perdia o Festival da Eurovisão” (p.112), saboreava com gosto “rissóis, croquetes, panadinhos, salada russa, bolo mármore” (p.144), “amante do fantástico”(p.112), dubitativa – com mudança de opinião ao longo da infância – quanto às vantagens de se inserir no mundo dos adultos, apreciadora da competição (p.142), leitora feliz (pp.124 e 147), com personalidade forte? Apostamos que viveu mais em Agarez. Aqui, mais, bem entendido, remete para uma dimensão qualitativa que as estatísticas não alcançam. A matemática nunca nos revelará o ser interior das coisas[2]. Aqui, mais significa o contacto com o primordial, a atenção demorada das coisas, a devoção aos pássaros, às rochas, aos riachos. Aqui, mais significa deter-se nos passos, perder-se no jogo, abdicar dos porquês e para quês, arredar a futilidade dos objectivos, ignorar metas, recusar a mediocridade do produtivismo; ser:
 “ali também ela se sentia feliz…ali nada, nem ninguém, conseguia perturbar aquele estado que a contagiava, a aconchegava e a protegia…ali nada, nem ninguém, a desassossegava…”(p.17). Agarez era um sítio “mágico e imutável por onde o tempo parecia não ter passado” (p.16), “era um mundo onde todas as regras pareciam ter sido ditadas pela natureza e às quais as regras dos homens se subjugavam naturalmente” (p.32). Lá, aprendeu a ser poeta: a cantar o canto dos pássaros, a distinguir a penugem, ou o ciciar de cada rola, a deleitar-se com os elementos e a fazer-se à vida, descalça, livre, por entre os tojos (ups, que doeu!,p.19). Os melros são personificados (“uns autênticos exibicionistas!”, “uns provocadores”, p.16), tal como o rouxinol (que é “tímido”, p.17), o azul das águas dos pequenos riachos enaltecido, o som da natura nunca esquecido (“folhas em decomposição que reviravam de forma barulhenta”). Laudato si.
Sendo Natália (descrita como) rebelde, irreverente, inconformada, arriscar-nos-íamos a utilizar o verbo reivindicar para sublinhar, desta sorte, algumas das dimensões contra-culturais – a nosso ver, tão urgentes - que assim vão impressas. Pois bem, em um mundo em constante devir, acelerado, assente em um permanente ruído, permeado por um delíquio tecnológico, de laços liquefeitos, citadino (mas pouco urbano), caótico, como aquele em que, não raro, nos situamos, a reivindicação contemplativa sugere a possibilidade de uma demora, de uma concentração, de um silêncio e de uma escuta, de um regresso ao contacto com a natureza, com a possibilidade/urgência do ócio, com uma ideia de acolhimento da vida como dom[3] susceptível de nos arrancar de um activismo tantas vezes sem sentido, da vacuidade de tanto chat (o), dos dias banais (porque banalizados).
De resto, a aguarela de Marco Martins, cenário idílico, que permeia capa e contracapa deste livro, coloca-nos, justamente, no dealbar deste universo feito de hospitalidade (que convoca confiança), locus amoenus, cravo cravado na pele em uma intensidade avassaladora, fronteira de assombro e estupor: a realidade com que, em Agarez, Natália se depara faz nela germinar imagens tão fortes que se lhe “toldavam os sentidos e a impediam de discernir a fantasia da realidade” (p.25). Note-se o concentrado eloquente que na projecção, que podemos entrever, da alma de Natália no gato farrusco se nos oferece uma das chave de leitura possíveis para interpretar uma (e muito em particular, aquela) infância:
“De seguida, [Natália] sentava-se na soleira do telheiro, onde permanecia horas esquecidas a observar e a guardar a sua galinha pedrês que esgravatava e picava imperturbável no terreiro defronte à casa. A galinha não era o único foco das suas atenções, entretinha-se também a ver o gato farrusco, cujo nome não fazia jus à sua cor, já que era de um preto azeviche que até reluzia quando lhe incidia o Sol e não de um preto sujo como o nome sugere, que brincava indiferente como se nada mais existisse para além dele e da sua bola de trapos” (p.21, sublinhado nosso; o gato “era”, no solilóquio do jogo, o gato “cumpria-se”; talvez a autora diga, com(o) Adília Lopes, que intencionalidade não houve em colocar o gato como espelho da alma; era mesmo só o gato farrusco a brincar com a sua bola de trapos, sorrirá frente ao/do intérprete. Mas aí arguiríamos com a prosaica noção de que o texto se emancipa do seu criador (da sua criadora) e, em não bastando tal precipitado, sempre sacaríamos do proveitoso provérbio italiano com que seguiríamos do lance – si non é vero é bene trovato).
Quando se apalpa terreno, quando tudo é novidade e tesouro a descobrir, a ode aos sentidos – o “amarelo vivo e luminoso da flor da mimosa” (p.25); “chapinhar na água dava-lhe imenso prazer” (p.28), a juntar à apurada audição de cada canto das aves, ou das folhas caídas das árvores – surge como uma segunda reivindicação. Em uma estação racionalista em que parecemos devir – pese, a Ocidente, as pulsões sentimentais/emocionais sempre reagirem aos excessos abstratizantes, e, portanto, múltiplas, em realidade, serem as estações, e com certeza, dificilmente estanques -, a consciencialização, a interiorização de que somos, também, um corpo e de que muitas das memórias mais profundas, incrustadas em nós, relevam do olfacto, do tacto, do ouvido, de uma imagem tornam mais fecunda a paleta de instrumentos com que intuímos a complexidade de cada rosto (nas suas dimensões racionais, emocionais, sentimentais, poéticas, simbólicas, lúdicas, etc.).

(continua)



[1] Quero dizer que não é por processos racionais, pela lógica, nem pela quantificação que se faz essa construção. Em primeiro lugar colecionam-se documentos, dados, materiais. Depois faz-se a História, a partir deles, e com rigoroso respeito pelo seu conteúdo. Assim, escrita, a História é uma representação, não é a realidade. Costumo dizer que não há a História de Portugal. Há a História do Mattoso, ou a História do Oliveira Marques, ou a História do Oliveira Martins...A um certo nível, a representação não é a representação do real, mas do imaginário do autor. Parece um bocado contraditório com o que dizia há pouco. Mas uma coisa são os materiais, outra o edifício. É aqui, no edifício, que entra o sentido poético […] A esse nível, é preciso recorrer à linguagem simbólica. Não sei como se faz. É preciso frequentar os poetas, os artistas, os contadores de histórias, os contemplativos, os filósofos, os pensadores...Sem metáforas, sem símbolos, não se consegue dar conta das contradições do real. A História não é uma coisa pragmática. É um modo de compreensão do mundo. Há como que uma iluminação (isto é tudo muito metafórico) do historiador e do leitor, ou seja, do público, a quem ele comunica essa visão do mundo, e aí descobre afinidades e duplos sentidos, interpretações e significados, justificações de uma ou muitas atitudes para com a realidade”, MATTOSO, José, Os políticos nunca conseguiram ou não quiseram unir o país, in História (Jornal de Notícias), nº3, Maio 2016, pp.46-63.
[2] MORDER, Maria Filomena, O vaso sagrado, p.124.
[3]Se existe um fundamento primordial de uma atitude religiosa frente à vida, não são as noções acerca de Deus ou dos deuses, mas uma consciência profundamente experimentada de que a vida é um dom (...) Não basta reconhecer teoricamente que a vida é um dom, há que experimentá-lo profundamente. Como é óbvio, essa «experiência profunda» não precisa de tomar a forma de um encontro místico excepcional; é mais uma questão de «misticismo quotidiano»: com cada ato e experiência da própria vida descobrimos essa realidade e sentimo-nos gratos por ela”, HALÍK, Tomás, Quero que tu sejas!, Paulinas, 2016, p.253.


Pressão


Pressão, por Pedro Laíns.


Sanções


Se Le Monde previa sanções aos países ibéricos, em função do défice de 2015, já ElPais faz capa esta quinta-feira com a notícia de que não devem ser aplicadas sanções aos países da Ibéria na próxima semana, de acordo com "altas fontes comunitárias".

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Fragmentos (II)


O pessimismo antropológico de G.Steiner é inequívoco: dizer 'o homem é o lobo do homem' é um insulto aos lobos, afirma em Fragmentos; o altruísmo e "santos leigos" existem, mas não parecem ter demasiada importância sócio-política. 

Praticamente, não há mulheres metafísicas, ou matemáticas, e que isso resulte de discriminações está longe de ser um enigma resolvido. Aqui, Steiner faz como que uma paráfrase de Presenças Reais mas resiste à intuição de então (a questão da criação artística relacionada com o dar à luz).

Por mais meios tecnológicos para a difusão do conhecimento, melhorias na saúde que haja, sempre um pequeno grupo de eleitos (genética/culturalmente) prestarão os relevantes serviços à humanidade (90% não contribuímos com nada e a posteridade não passará além das páginas da lista telefónica). Pelo sortilégio da história, nenhum caucasiano parece vingar na velocidade, enquanto "nenhum teorema algébrico saiu do Congo".

O mal continua a ser refutação suficiente, percebe-se, da divindade, para Steiner, ele que vê o humano submetido absolutamente ao lucro, mesmo na caixa de esmola que tem como escopo a troca dos favores no imanente pelo bem-estar no além mundo.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Homenagem ao Papa emérito Bento XVI

Falagueira, Quinta da


Se a primeira das reportagens, no último Sexta às nove, pode incomodar, a segunda das peças apresentadas, não será menos do que absolutamente incompreensível, um negócio ruinoso e escandaloso do estado português na Quinta da Falagueira. Precisávamos de bons exemplos, mas até o silêncio ensurdecedor nos quatro dias que se seguiram à emissão do programa, mostram como já tudo parece deixar-nos indiferentes.

domingo, 26 de junho de 2016

Da amizade


Conhecemos a valorização transcendental e o papel da amizade, a philia, na sensibilidade clássica. A amizade é a bonificação da existência humana, a sua recompensa imerecida (...) Nada suplanta "ser-se amigo de um amigo" (na expressão jubilosa de Schiller). A morte é quase um privilégio quando ela vem salvar um amigo. Por sua vez, a perda de um amigo é algo irreparável (podemos voltar a casar, adotar mais um filho). Três lamentos pelo desaparecimento do amigo determinam o idioma da desolação na literatura e no sentimento ocidental: Gilgamesh sofrendo por Enkidu, Aquiles gemendo de dor sobre o corpo de Pátroclo, David chorando por Jónatas.
O manancial do qual brota a amizade é insondável. Ela pode surgir do perigo momentâneo, apossando-se da nossa consciência como uma tempestade de vento ou uma melodia. "Porque era ele, porque era eu" (Montaigne) (...) Numa formulação demasiado famosa, E.M.Forster convida-nos a trair antes o país do que um amigo (...) O homem ou a mulher imune à amizade, desprovido de amigos seja por acidente ou por desígnio, é um exilado, um sonâmbulo (...) A amizade autoriza-nos a dizer "Eu sou porque tu és". Por seu turno, não existe dor mais duradoura, nenhuma cicatriz mais insarável do que a de uma amizade traída (...) Aqueles que foram torturados para que revelassem nomes falam das vozes mudas da amizade que se sobrepõem ao sofrimento. Aqueles que acabaram por ceder vivem o resto das suas vidas a meio-tempo (...) Amizades absorventes, da mais extrema intensidade, podem medrar durante a infância. Fidelidades inamovíveis são marca da adolescência. Trocam-se palavras-passe, inventam-se linguagens secretas, representam-se rituais de confiança. As intimidades contra mundum tornam-se mais vitais do que quaisquer rotinas familiares. A puberdade é o maio e junho da amizade. Para utilizar um jargão já gasto, o coração, a mente e a sexualidade nascente são "esmagados" pelo desejo mútuo, pelas lealdades recíprocas, pelas privacidades simbióticas de tal modo intensas que podem levar ao suicídio.
O caleidoscópio das amizades na idade adulta é variegado. Ele estende-se através de ideologias, barreiras étnicas, separações prolongadas. A philia, como Homero e Virgílio o sabiam, é indispensável à insensatez sacrificial da batalha, à solidariedade de homens armados que defrontam a morte (...) A amizade autêntica exulta pelos louros conquistados por um amigo. As amizades antigas têm o seu encanto peculiar. Elas comportam as recompensas da rememoração, as ironias que tornam suportáveis as enfermidades. Velhos amigos encontram-se nos bancos de jardim públicos, farejando o ar à procura do perfume da morte, partilhando as inquietantes pressões do vazio. Aquele que sobrevive fala consigo mesmo para que o diálogo possa perdurar. Pavilhões de geriatria, os nocturnos dos lares de idosos estão repletos do mesmo murmurejo que repercute nas 'últimas gravações' de Beckett. Até no seu ocaso, a amizade é o enigma da graça que ´permitida ao homem (caído) (...) Onde há amizade, há liberalidade electiva e ponderada. Entregamo-nos mesmo na ausência dos benefícios necessários ou das gratificações implícitas do erótico. Neste sentido, a amizade pode ser definida como o acto gratuito, mas profundamente provido de sentido, daqueles que estão "em liberdade" (...) A amizade, além disso, pode ser profícua de um modo bastante poderoso; pode produzir acção política, descobertas científicas, argumentos filosóficos. Há muito no progresso político, no debate intelectual, na inovação estética, que é de natureza cooperativa. tem origem, e delas retira a sua energia, nas nuvens estelares de talentos individuais colidindo, conspirando, rivalizando em amizade. As cartas de amor tendem a ser monótonas e, mesmo, pueris. As que são trocadas no contexto da amizade podem ser a verdadeira fonte e o laboratório do génio (Espinosa para Boxel, Goethe para Schiller, Coleridge para Wordsworth (...) A simetria na estima, a parceria na coragem, a diferenciação criativa ou a ascensão política são parte integrante da relação. Em suma - e isto é difícil de articular de modo claro - a amizade é aquilo que, no âmbito da razão, no âmbito da compreensão desinteressada, é apaixonado. Aquilo que torna inteligentes a generosidade do pensamento e o coração.

George Steiner, Fragmentos, Relógio D'Água, 2016, 15-21.

Fragmentos


Segundo George Steiner, em Fragmentos, faz falta, ainda não foi escrito, um grande romance capaz de documentar a passagem, no interior de uma relação, do amor (eros) à amizade (philia). A amizade assassina o amor, revelando a sua maturidade última e a sua superioridade.

Resumo do Portugal-Croácia

Em três segundos perfeitos, o Bayern conta o jogo desta noite.

sábado, 25 de junho de 2016

O dia depois de amanhã







Crianças (II)


A 27 de Abril de 2006, escrevi no Lamego Hoje:


Que relação com as crianças? Factos que explicam um Acórdão (II)  

Postulando, afincadamente, a busca da justa medida, as soluções negociadas e de compromisso, a razoabilidade, o equilíbrio e a prudência como virtudes cívicas/políticas, afastando-me de posições que vêem sempre a preto ou branco a realidade e desprezam a política como a arte do possível, entendo, em todo o caso, que tais premissas não nos devem paralisar na determinação que nos é exigida em questões essenciais, ou servir de desculpa para não tomarmos posição em matérias delicadas.
Quando dados científicos nos demonstram (como amplamente se deu conta no último texto aqui publicado) de modo inequívoco que práticas como a de dar murros e pontapés ou sovas de cinto, são, nos anos 2000, práticas ainda correntes no Portugal quotidiano, não me parece que possamos ter contemplações. Não se trata, já se vê, no caso presente, de defender qualquer espécie de engenharia social ou posição de vanguarda, utilizando o Direito como instrumento privilegiado na prossecução de tal objectivo; o que está em causa é, antes, a defesa, intransigente, daqueles que, não tendo voz, estão mais desprotegidos, vendo os seus direitos e integridade ser alienados vezes demasiadas.
Não ignoramos, por outro prisma, ser a negligência uma forma insidiosa de maus tratos (a negligência é, até, sublinhe-se e não se esqueça, a forma mais insidiosa/comum de maus tratos, como também provam os dados conhecidos, nomeadamente o do estudo de 2005, de Carla Machado, por nós citado na semana precedente) e, bem assim, constituírem os abusos emocionais marcas não reconhecíveis à epiderme, mas quantas vezes duradouras e omnipresentes no indivíduo, com consequências dificilmente percepcionáveis, mas bem reais. Poderá, aliás, questionar-se se faz sentido propugnar-se por uma alteração legislativa que consagre a abolição dos castigos físicos, autonomizando-a dos abusos emocionais, quando, porventura, estes últimos podem ter efeitos bem mais perenes e devastadores. Não há respostas fáceis. Mas também não deve haver desistência na sua procura.
Assim sendo, julgo como importante uma sinaléctica, pelo legislador, acompanhado e escorado numa significativa opinião pública e publicada que se mostrou contrária à defesa de tal metodologia educativa (embora, em abono da honestidade intelectual, tenhamos que voltar a ressalvar que muitas das críticas ao Acórdão do STJ se tenham centrado na não distinção entre uma educação dada a crianças com deficiências institucionalizadas e a crianças saudáveis educadas em casa) e tendo em conta, igualmente, os compromissos assinados pelo Estado português com vista à salvaguarda da integridade (física) das crianças, que se consagre, em definitivo, a proibição destes castigos corporais (note-se que, com a legislação já em vigor, também o recurso a murros e a pontapés, bem como dar coças com cinto seriam puníveis; o nosso ponto está que mantendo-se a ambiguidade quanto à tolerância aos castigos físicos o exacerbamento destes não seja denunciado e até socialmente e culturalmente tolerado, em especial em determinadas regiões do país, além dos seus fautores não se sentirem em transgressão, o que com uma proibição expressa bem poderia ser obviado).
Não se trata de uma sensibilidade demasiado susceptível ou impressionável com qualquer palmada, nem, tão-pouco, um idealismo utópico que veja numa alteração legislativa o remédio milagroso para pôr fim a todos os abusos. Nem sequer um voto de castidade absoluto, nesta matéria. Nunca digas nunca. Trata-se, ao invés, de assumir, precisamente, um cepticismo antropológico. Dizer basicamente, aos actuais e futuros pais, que há “casos, muito frequentes, em que o agente procura (consciente ou inconscientemente) projectar no educando os seus próprios problemas, encontrando neste elemento de descarga emocional” (como refere o Acórdão do STJ). E sendo a reacção bater ou insultar a mais fácil, ou, literalmente, mais à mão, exige-se dos educadores uma procura mais denodada de outras estratégias disciplinadoras. Sem negligenciadores educativos. Mas sem perverter esta expressão de molde a cobrir realidades que nela não devem esconder-se. E saber quando as “palmadas moderadas” deixam de o ser, para passarem a mau trato, talvez seja coisa que nem o intensímetro do dr.Pôncio consiga alcançar.
Numa sociedade em que se cavam fossos cada vez mais profundos que distinguem os cidadãos que dela fazem parte (a diferença entre os mais ricos e os mais pobres de Portugal assume particular preocupação, mas poderíamos também falar das diferenças entre os que vivem no interior e os que habitam o litoral, entre os info-integrados e os info-excluídos, etc), parecem coexistir dois tipos de estratégias educativas, por parte de diferentes famílias portuguesas, igualmente perniciosas: por um lado uma crescente permissividade, com ausência de balizas, regras ou limites que ajudem e possibilitem a estruturação da personalidade (e desta necessidade de disciplina e da necessidade da introdução de dificuldades bem cedo na educação do indivíduo, para que este saiba lidar com os momentos inevitáveis de frustração que se lhe depararão ao longo da sua existência, falava o especialista Daniel Sampaio, esta semana, em entrevista a Luis Osório, no Convidado do Clube, de 18/04/06, no RCP); por outro, a manutenção de uma metodologia assente em castigos corporais exacerbados, de todo em todo indesejáveis.
E para que se não continue a pactuar com estes, para que não continue a alimentar-se a dúvida sobre qual o nível de severidade física (legalmente) permitida -  reconhece-se, aliás, no Acórdão do STJ que o “poder-dever de correcção levanta, todavia, problemas delicadíssimos de fronteira” - para que suprimindo-se este tipo de castigos se centre a atenção noutras formas que possam ser eficazes e mais úteis a uma saudável formação do indivíduo, defendemos uma solução que tente cortar o mal pela raíz.
Se formos por tal caminho, o mais certo será deixarmos de nos escandalizar com acórdãos que, a este propósito, se povoem de referências genéricas, de índole cultural, com tiradas de um manifesto empirismo e subjectividade, sem qualquer referência de outro tipo que sustente um conjunto de afirmações: “...justifica-se uma correcção moderada que pode incluir alguns castigos corporais (...) Será utópico pensar o contrário e cremos bem que estão postas de parte, no plano científico, as teorias que defendem a abstenção total deste tipo de castigos...”; “a escola (...) tem que ser imposta com alguma veemência”; “perante uma ou duas recusas (de ir à escola) umas palmadas (sempre moderadas) no rabo fazem parte da educação”; “Uma bofetada a quente não se pode considerar excessiva”; “As crianças geralmente não gostam de salada...”.
Os doutos magistrados do STJ produziram este conjunto de afirmações sem julgarem necessária qualquer demonstração acerca das mesmas. Não se citou um estudo, um documento, uma doutrina que as validasse.
Mas, como vínhamos de dizer, caso a opção legislativa fosse no sentido aqui exposto deixaríamos de nos escandalizar com este tipo de acórdãos. É que estes deixariam de   poder existir.  


sexta-feira, 24 de junho de 2016

DESINTEGRAÇÃO


Vai longa a madrugada. 4h40: BBC, ITV e SKY não têm dúvidas que a escolha dos britânicos foi saírem da UE. Um jornalista do Finantial Times escreve que está perante o momento mais importante desde que existe, no Reino Unido, e provavelmente, desde a II Guerra. A libra cai para níveis de 1985. Na Ásia as bolsas caem, já, com estrondo e as previsões para a Europa não são melhores. O líder do UKIP já fala no dia da independência. O Labour pede a cabeça de Cameron. Escócia e Irlanda do Norte podem vir a ter novos referendos para a secessão. O neto de Churchill diz que o avô teria votado remain. Os gráficos dos estudos realizados junto do eleitorado mostram a imigração como o que mais motivou os adeptos do brexit a irem votar (da forma que o fizeram). O processo de implosão europeu - o gás para os extremismos em França, na Suécia, ou em Itália, mas, ainda, em regiões no interior dos países que é o que dá o discurso egoísta e egocêntrico - pode ter tido esta noite um momento histórico. Em Portugal na queda da Europa, Soromenho Marques advertira que sem elites capazes de protagonizarem o salto federal se redundaria num bem mais perigoso cada um por si e no todos contra todos.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Crianças



Continuo a percorrer a memória do que fui escrevendo e dizendo no espaço público, nestes 10 anos. Hoje, partilho o texto que assinei no Lamego Hoje, a 20 de Abril de 2006:

Que relação com as crianças? Factos que explicam um Acórdão (I)  


“Vivemos num mundo em que o sofrimento das crianças se tornou um assunto mediático de primeira página (...) Apesar dos importantes progressos que se verificaram na consagração jurídica dos seus direitos (...) permanece como sendo a geração mais afectada pela pobreza, pela violência e pela doença” (Prefácio, Manuel Sarmento, in Martins, P.C. (2002), Maus Tratos a crianças: o perfil de um problema; Braga, Universidade do Minho)      

Num primeiro momento, a discussão em torno do Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) sobre alguns castigos aplicados por uma responsável de um lar de crianças com deficiências mentais, em Setúbal, conhecido, através da imprensa (e disponível, na íntegra em www.dgsi.pt e em www.stj.pt) na semana transacta, transportou-nos para o universo do debate acerca da melhor forma de educar uma criança; da (i)licitude ou (i)legitimidade de determinadas estratégias educativas; da contemporaneidade legislativa neste domínio e da validade dos pressupostos/teorias de que partiram os magistrados para produzirem um conjunto de juízos manifestamente polémicos.
Se, no decorrer do debate público, se partiu para a destrinça, fundamental, entre crianças portadoras de deficiência e crianças absolutamente saudáveis, e entre crianças educadas em casa e crianças institucionalizadas, censurando-se ao julgador o igualitarismo no tratamento destes casos diferentes, faltando aquilo que em Direito se sublinha ser a equidade – tratar de forma idêntica o que é igual, mas não tratar da mesma forma o que é desigual - importará dizer, contudo, que sem prejuízo de tais críticas se nos afigurarem certeiras em função do resultado universal a que parece pretender chegar-se no referido acórdão, através das máximas elaboradas sobre o dever-ser de uma educação sã, convém registar uma importante ressalva feita pelos juízes do STJ, a dado passo do acórdão: “Sempre com a consciencialização de que estamos numa situação extremamente vulnerável e perigosa quanto a abusos, mais ainda por se tratar de menores internados em instituição e com deficiências psíquicas”. Saber se houve por parte dos magistrados a consciencialização que reclamam, na apreciação dos factos submetidos a julgamento, é já uma outra questão...Ora, o que pretendemos é, no entanto, fixarmo-nos no primeiro momento da reflexão encetada. É que a indignação suscitada a propósito das palmadas, da bofetada ou da obrigatoriedade de ida para o quarto de crianças que, respectivamente, se recusaram a ir para a escola, atiraram uma faca à sua educadora ou não quiseram comer uma salada, colocaram-me perante um país diverso daquele que julgava (re)conhecer. Num Portugal que se quer à la Finlândia em tantos domínios (como no da tentativa de nos tornarmos craques na net, quando dois terços dos portugueses nunca a utilizaram...), vi no tom irado de quase todos quantos reagiram ao acórdão uma boa oportunidade de nos aproximarmos do modelo nórdico: desenharmos uma legislação que pura e simplesmente não permita os castigos físicos. Ao longo destes dias, a crer nas diversas reacções ouvidas sobre o tema, parecemos maduros para tal tarefa. Países como a Suécia, a Finlândia, a Noruega ou a Dinamarca há muito que aboliram os castigos físicos. Ora, do nosso primeiro-ministro, de felina têmpera nórdica, não é de esperar outra coisa que não seja uma rápida iniciativa legislativa neste sentido. A quem gosta de bater (em Rosseau) a propósito de tudo, duas objecções, neste âmbito muito concreto (já que também gosto de bater em Rosseau, de vez em quando): será que nos países em que se aboliram os castigos físicos a delinquência juvenil aumentou, passando a flagelo nacional? Será que nos países citados, não nos habituamos a ver povos civilizados e sociedades por norma mais cultivadas que a nossa? Ou será que o nosso código genético, torpedeado pelo rumor de décadas dos brandos costumes nacionais, não dispensa a correcção da praxe? Será de tal forma a nossa natureza específica que não permite a adopção de legislação tão avançada?
Ao contrário do que vi escrito, não é tanto o acórdão que envergonha o país. Na verdade, em minha opinião, o que envergonha o país é a realidade que nele se recobre e revê e esconde; é o caldo de cultura que permite que supremos magistrados da nação assinem tais sentenças. Vamos a factos. Num estudo organizado por Carla Machado, especialista em Psicologia da Justiça, docente no Centro de Estudos Judiciários (o CEJ é o local onde se formam magistrados...), datado de 2005, efectuado na zona Norte do país, em que todos os estratos sociais estão representados, com 2391 famílias constituídas por pai e mãe, e uma ou mais crianças com mais de 18 anos (ou seja, uma amostra composta pela chamada família intacta, não monoparental, portanto), constatam-se os seguintes dados: numa amostra com 691 pais, 25,9% admitiu ter praticado, no último ano, pelo menos um acto de mau trato físico ou emocional contra os seus próprios filhos. E em que consistiram tais maus tratos? Pois bem, no seio destes quase 26% de progenitores que admitiram maus tratos aos seus filhos, encontram-se abusos físicos de índole variada: bater deixando marcas (4,7%); dar murros e pontapés (4%); bater com o cinto (3,7%); bater com outros objectos (2,8%); atirar objectos (2,8%): abanar ou sacudir crianças com menos de 2 anos de idade (2,8%); bater causando ferimentos (0,3%). Quanto aos maus tratos emocionais: insultar a criança (14,91%); dizer que não se gosta da criança (8%); dizer à criança que nunca devia ter nascido (3,6%); fechá-la num quarto à chave (2%); fechar a criança num quarto escuro (0,7%). Todavia, o estudo diz que se verificaram “níveis relativamente baixos de tolerância face à punição física como estratégia educativa”. Pois...  
Se descentralizássemos o nosso olhar de um nível regional para uma escala local, observaríamos que num estudo com duas décadas, mas ainda hoje de referência a nível nacional (estudo encomendado pela Assembleia da República ao CEJ, coordenado por Fausto Amaro, realizado, no terreno, no ano de 1985, com os resultados a serem conhecidos em 1986 e em 1988; estudo que além dos contactos telefónicos estabelecidos com as pessoas, utilizou, igualmente, referentes, informantes-chave como os párocos ou os presidentes de Junta, o que o credibilizou de sobremaneira no plano científico), registava-se que atingindo o abuso físico maior incidência no Norte do país, era Vila Real o distrito português em que tal abuso se dava com maior frequência (!) (43,2 por cada 10000 famílias); no pólo oposto, estava Santarém (0,8 por cada 10000 famílias); (Amaro, Gersão e Leandro, 1988; Amaro, 1989). Quanto às opiniões que a população em geral fazia do recurso à punição física como forma de disciplina, obtiveram-se como respostas: os pais têm o direito de bater nos filhos desde que não exagerem (31,4%); os pais exageram a bater nos filhos (24%); os que pensavam, então, que a opinião maioritária, nas respectivas freguesias, era a de que as pessoas não achavam bem ou ficavam mesmo revoltadas quando sabiam que os filhos eram batidos pelos pais cifravam-se em 16,7% (Amaro, 1986, p.15). Por outro lado, Vila Real era o distrito com maiores taxas de aceitação do castigo corporal enquanto estratégia disciplinar (37%). O que, valha a verdade, só demonstrava coerência: defendíamos teoricamente aquilo que praticávamos ou, ao invés, se preferirmos, praticávamos aquilo que defendíamos.(continua)

P.S.: Agradeço à Vera Gonçalves, a concluir, brilhantemente, o curso de Psicologia na Universidade do Minho o contributo decisivo, na documentação e na reflexão que me proporcionou, para a elaboração deste artigo.


Memória olímpica


No próximo dia 1 de Agosto, assinalar-se-ão os 80 anos dos Jogos Olímpicos de Berlim. Nesse Verão de 1936, Hitler assiste a um desempenho alemão que arrebata o maior número de medalhas (101), sendo que os alemães são, também, aqueles que possuem o maior contingente de atletas em competição. Durante esses 15 dias, é certo, Jesse Owens desfeiteará as teorias da superioridade racial, inflingindo rude golpe ao führer, mas a promoção e a propaganda relativamente a um líder que levanta a Alemanha das cinzas é inequívoca. Países amigos, como Portugal, colocam os seus atletas em saudações ambíguas - olímpicas ou nacional-socialistas? - ao anfitrião na tribuna. Pela primeira vez, Hitler assiste a um jogo de futebol: a Alemanha será derrotada, 0-2, pela Noruega, nos 1/4 de finais das Olimpíadas. Para a posteridade, uma tradição fica e que tem nestas olimpíadas a sua origem: a passagem da tocha olímpica - o facho olímpico - desde a Grécia até à sede dos Jogos. Hitler, pretendendo estabelecer um laço entre a antiguidade greco-romana e a sua Alemanha, na sua grandeza e imponência, vê esta corrida de estafetas com manifesta simpatia. Ele que era o deus dos deuses no panteão que o nazismo erguera pela Alemanha: "a exaltação de Hitler como o 'Escolhido' para salvar o povo alemão foi um dos pilares da propaganda e da ideologia nazi que serviu para elevar o líder à categoria de culto, com pequenos altares espalhados por locais públicos e residências privadas alemãs, num movimento que contava com uma liturgia e datas comemorativas próprias, como o Dia de Hitler, a 20 de Abril, o Dia da Mãe Alemã, no aniversário da mãe de Hitler, o 30 de Janeiro para celebrar a chegada ao poder em 1933, etc. A elevação do Fuhrer ao patamar dos deuses era já um facto em 1936. "Exprimimos ao Chanceler a nossa preocupação ao ver que o honram duma forma que pertence somente a Deus", criticam os chefes da Igreja protestante, num texto contra a descristianização do III Reich, pouco antes dos JO." (Filipe Paiva Cardoso, in História (Jornal de Notícias), nº3, Maio 2016, O baile de máscaras que deu ao mundo a 'nova Alemanha', pp.70-83)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Compreender a totalidade do real


História (Jornal de Notícias): Escreveu também que a totalidade do real só pode ser apreendida e transmitida por processos como a elaboração poética. Uma História estritamente científica acaba por ser lacunar?

José Mattoso: Não. Quero dizer que não é por processos racionais, pela lógica, nem pela quantificação que se faz essa construção. Em primeiro lugar colecionam-se documentos, dados, materiais. Depois faz-se a História, a partir deles, e com rigoroso respeito pelo seu conteúdo. Assim, escrita, a História é uma representação, não é a realidade. Costumo dizer que não há a História de Portugal. Há a História do Mattoso, ou a História do Oliveira Marques, ou a História do Oliveira Martins...A um certo nível, a representação não é a representação do real, mas do imaginário do autor. Parece um bocado contraditório com o que dizia há pouco. Mas uma coisa são os materiais, outra o edifício. É aqui, no edifício, que entra o sentido poético.


História (Jornal de Notícias): Ou seja, deve o historiador ter uma certa capacidade de assombramento para ter sucesso na busca da "espantosa realidade das coisas"?

José Mattoso: Sim, claro! A esse nível, é preciso recorrer à linguagem simbólica. Não sei como se faz. É preciso frequentar os poetas, os artistas, os contadores de histórias, os contemplativos, os filósofos, os pensadores...Sem metáforas, sem símbolos, não se consegue dar conta das contradições do real.


História (Jornal de Notícias): Volto a citá-lo: "Só me interessa o presente e a maneira de me movimentar no espaço e no tempo em que vivo". É essa a resposta à sempiterna questão "para que serve a História?": criar uma chave de leitura do presente?

José Mattoso: É, mas não diretamente. A História não é uma coisa pragmática. É um modo de compreensão do mundo. Há como que uma iluminação (isto é tudo muito metafórico) do historiador e do leitor, ou seja, do público, a quem ele comunica essa visão do mundo, e aí descobre afinidades e duplos sentidos, interpretações e significados, justificações de uma ou muitas atitudes para com a realidade. Mesmo de coisas simples, como, por exemplo, aquela lenda do arquiteto da Batalha. Afonso Domingues, que diz, já moribundo, "a abóbada não caiu...a abóbada não cairá". A maneira como Herculano conta a lenda é muito mais eficaz do que uma descrição qualquer. Há uma carga emotiva naquilo: a generosidade de um homem que se sacrifica. Há um homem que acredita naquilo que fez, e isso é mais importante para o público do que uma informação acerca do nome e da data. 

(...)

Quando eu falo no sentido poético da construção histórica, estou também a referir-me a uma visão global da realidade, na qual Deus está presente, que Jesus Cristo nos propõe como imitação do Pai.


excerto da entrevista Os políticos nunca conseguiram ou não quiseram unir o país, realizada por Pedro Olavo Simões e Luis Miguel Duarte, pelo suplemento História, nº3, Maio 2016, do Jornal de Notícias, concedida por José Mattoso, pp.46-63.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Sem tibiezas


Creio que é da maior importância, e de coragem, esta tomada de posição dos Bispos católicos da União Europeia e EUA sobre o Tratado Transatlântico: http://rr.sapo.pt/noticia/56766/ttip_bispos_americanos_e_europeus_alertam_para_riscos_de_acordo_transatlantico

Anotações à margem


Quer O espírito das Leis, quer As cartas persas, de Montesquieu, foram, originalmente, publicadas sob anonimato. Na segunda destas obras (ainda há pouco publicadas pela Tinta da China), vê-se como a questão do tratamento dado às mulheres, no mundo persa, suscitava, já, em pleno século XVIII, um olhar de estranheza aos mais agudos espíritos da época.

Identidades (III)



A 30-03-2006 completava assim este conjunto de três textos no Lamego Hoje:


Ocidentes (III)  

Fui esta semana à Faculdade de Jornalismo e Ciências da Comunicação, da Universidade do Porto, assistir a uma conferência de Àlvaro Vasconcelos, do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais (IEEI), numa altura em que passam três anos sobre a invasão do Iraque, em que a crise dos cartunes voltou a incendiar os ânimos e em que o tema da dissertação em apreço prometia: “Da guerra do Iraque à crise dos cartunes: o choque das ignorâncias”.
Fi-lo porque me pareceu que a abordagem informativa, jornalística, a percepção do mundo a partir de uma sala de aula de jornalismo era particularmente curiosa no tempo presente.
Confirmei, desde logo, o que havia suspeitado do título proposto para a conferência-debate: continha uma não muito suave ironia, uma glosa, ao livro de Huntington (O Choque de Civilizações). Mais do que ao livro, a crítica de Álvaro Vasconcelos dirigia-se à popularidade, à facilidade com que tanta gente utiliza as teses nele inscritas para explicar os actuais conflitos. A lógica bipolar que perpassa a obra, no pós guerra-fria, substituindo o antagonismo entre potências de ocidente e de leste por um conflito cultural/civilizacional (ocidente/islão), por ser um paradigma de fácil explicação, atraiu muitos seguidores. Queremos certezas.  
E mesmo aqueles que se propuseram construir uma Aliança das Civilizações, desconstrói Vasconcelos, não mais fizeram do que aderir à teoria da obra citada, através do seu reverso, inscrevendo-se, afinal, naquilo a que chamou de anti-Huntigtonismo.
Acontece o pormenor de a maior parte dos conflitos se dar no interior das civilizações e, a esse respeito, o séc.XX, não permitir interpretações dúbias. Mais: as maiores vítimas do terrorismo dito islâmico são precisamente as sociedades islâmicas. Escrevo terrorismo dito islâmico porque a política com fachada religiosa é do que há mais por aí; por outro lado, escrever terrorismo islâmico tout court faria supor um islão unívoco, sem correntes, doutrinas ou interpretações diversas, bem ao contrário, como sabemos, daquilo que sucede (do Islão de Teerão ao movimento islâmico turco que procura a democratização e a entrada do seu país na U.E vai toda uma distância); falar de países islâmicos tal como de ocidente como se tratasse  de realidades uniformes, sem matizes, divergência, tonalidades várias é ignorar uma panóplia de pluralidades existentes. Preferi, à partida, a expressão Ocidentes, precisamente por poder reflectir melhor a diferença, a pluralidade, o debate no interior de uma civilização que partilha um conjunto de valores histórica-culturalmente adquiridos, mas que continua criticamente a interpelá-los e a perceber a dimensão operativa destes face ao entorno histórico contemporâneo. E aí diverge com frequência. Uma história e uma cultura que, registe-se, durante longos séculos foi partilhada com o mundo islâmico. Não se nega que haja civilização, nem que haja, neste sentido, o outro. 
Pois bem, o que pode fazer a comunicação social, o jornalismo, o jornalista, pelo outro? Pela compreensão do outro? Por nós, afinal. Ou melhor, o que se lhe exige que faça? Desde logo, não contribuir para a confusão/nebulosa em parecemos envolvidos no pós-11 de Setembro e na reacção efeito espelho (Derrida/Habermas) de dimensão apocalíptica em que consistiu a reacção norte-americana.
Álvaro Vasconcelos ilustrou com imagens outras o derrube da estátua de Saddam, símbolo máximo da vitória da democracia sobre a ditadura (com Vasconcelos a deixar escapar um sorriso sarcástico, enquanto lia um texto, com três anos, de um editorialista nacional, comparando a queda da estátua de Saddam ao 25 de Abril português, cantando os mesmos amanhãs felizes que Rumesfeld prometera, a quando da libertação, e que hoje estão à vista), como nem mesmo em países e em órgãos de comunicação social hostis à guerra se resistiu à mesma imagem ululante e heróica, ignorando outras disponíveis (que mostravam, nomeadamente, uma praça enorme, com escassas dezenas de pessoas, a maioria das quais soldados norte-americanos). Ficámo-nos sempre pelo mesmo plano (televisivo) apertado, onde a multidão democrática parecia irromper afanosamente.
Distinguir informação, de propaganda; não ir atrás da imagem-audiência; ser crítico; não passar, necessariamente, o que todos passaram; ser exigente, rigoroso e detalhista. Eis a lição que ali ficava dada.
Com a invasão do Iraque ficamos a conhecer a Al Jazira (que existe há dez anos e é formada por jornalistas com cultura ocidental, que estavam na gaveta noutros meios de comunicação do médio-oriente) e, embora menos mediática, a Al-Arabya. Um bom exemplo e factor de democratização da informação no entender de Álvaro Vasconcelos, já que passamos a ter um outro olhar sobre a realidade, e um outro olhar global, ainda para mais quando as suas emissões em inglês estão aí à porta. Contrapôs um dos professores de jornalismo presentes que quando apenas 20% da população mundial sabe inglês; 50% não sabe ler ou escrever e o acesso à internet é ainda muito restrito, jamais se poderá falar de democratização da informação.
Talvez que mesmo aqueles que tenham acesso às novas Al Jaziras que aí se adivinham se confrontem, ainda com maior acuidade, com o peso (além da desinformação e da propaganda) da sobreinformação (afinal, uma das grandes questões do nosso tempo, como sublinhou Edgar Morin). Um terreno que pisamos cada dia e em relação ao qual a perícia da arte do distinguo se afigura fundamental (perceber o essencial e o acessório; encontrar uma narrativa envolta em novelos soltos e dispersos, a exigir interpretação permanente). Uma tarefa árdua, para a qual gostaríamos de contar com mediadores em que confiássemos. Que conseguissem, por vezes, travar o ruído e fizessem acontecer o silêncio para o qual vamos deixando de ter tempo. Talvez por isso, como registou Pacheco Pereira, tenhamos cada vez menos espaço para o livro: este exige tempo, concentração, silêncio. Na época dos sound-bites, do sms, da net, da informação em tempo real, dos rodapés de telejornal, da notícia que se esgota no dia seguinte, parece já não haver tempo para o silêncio. E para um silêncio que nos levasse ao outro e não apenas ao outro historicamente compreendido, mas ao outro-hoje. Que a nova geração de jornalistas compreenda a necessidade de conter o barulho, de distinguir, desconstruir e interpretar, bem como de convocar o silêncio eis uma esperança que urge ter.


quarta-feira, 15 de junho de 2016

Identidades (II)



A 23-03-2006 escrevia no Lamego Hoje o seguinte:

OCIDENTES (II)                     

A dialéctica segurança/liberdade é um outro topoi deveras debatido no seio das sociedades hodiernas ocidentais.  
Num jogo de equilíbrio instável e geometrias variáveis, segurança e liberdade parecem condenadas a desencontrarem-se, a combaterem-se, incessante e eternamente, com vista a ganharem um espaço crescente nas nossas vidas.
Mas deve ser este o modo de olhar segurança e liberdade? Devemos percepcioná-las como incompatíveis, como duas faces inimigas da mesma moeda?
Não julgamos de difícil resposta as questões vindas de enunciar. A segurança é condição de liberdade, e só com liberdade nos sentiremos seguros. Não há um abdicar de um dos lados da moeda, in limine, a favor do outro. Significará isto, todavia, uma consideração igualitária dos valores segurança e liberdade? Aqui, sim, ao invés das perguntas iniciais (susceptíveis, ao que creio, de gerarem consenso alargado na formulação das suas respostas), há todo um domínio em que podemos divergir. É a política. A Constituição da República Portuguesa plasma o direito à liberdade e à segurança (nº1, artº27º,CRP), do qual todos somos titulares. Se optamos pela metáfora da moeda foi para que, num primeiro momento, o do dever-ser, contemplarmos como indissociáveis estes dois elementos. E para, do mesmo passo, recusarmos tendências extremas, sejam elas libertárias (finais dos anos 60, início dos anos 70), sejam elas securitárias (como aquelas a que vimos assistindo no pós-11 de Setembro, em especial as que têm emanado do legislador norte-americano).
Acontece que nem sempre a realidade permite a linearidade do raciocínio e do discurso académico. É nessas situações que se torna necessário romper com aquilo que o Prof. Faria Costa designou, esta semana, de politicamente correcto. Numa conferência acerca do binómio segurança/liberdade no Direito Penal actual, reunindo o juiz Bacigalupo do Tribunal Supremo de Espanha, os Profs. Jorge Figueiredo Dias (moderador) e Faria Costa (Presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Direito da Universidade Coimbra) realizada no passado dia 13, na Faculdade de Direito da Universidade do Porto (que está a comemorar o seu décimo aniversário), Faria Costa assumiu que em última instância, a boa moeda será aquela que num eixo plano, a desequilibrar-se, o faça em favor da liberdade. É uma opção preferencial subjectiva que partilho inteiramente.
Não basta, contudo, dizer isto. Atento, entre a plateia, Almeida Costa (professor de Direito Penal, na FDUP), decidiu provocar: esta conversa é balofa, é paleio, porque desde logo considerações acerca do direito penal do inimigo (uma construção célebre de um professor de Direito, Jakobs) causam repulsa no cidadão comum e, portanto, uma edificação normativa sustentada em tais teses seria, no imediato, afastada; o mal real, o perigo efectivo é o dos nossos códigos penais serem hiper-garantistas.
 Se é possível contestar (Patriot Act, Guantanamo, Abu Graihb...) a afirmação de uma mera referência teórica, sem adesão à realidade do perigo de securitarismo impresso nas nossas sociedades, só por autismo poderemos ignorar as queixas do cidadão comum na demora dos processos, nos recursos sem fim, nas garantias que muitos entendem excessivas dadas ao criminoso (ou presumível criminoso) e que desembocam em verdadeiro prejuízo para as vítimas.
Mais uma vez, porém, acompanhamos o pensamento de Faria Costa. Para ele, o entendimento de uma rejeição das teses que vêem o outro como hostes parte de uma posição escatológica infirmada pela história do séc.XX, e concretizada na ordem jurídica do III Reich ou nos gulags soviéticos. Também aí tal era impensável, mas...
Não deixa, aliás, de ser curioso notar que quem invoca, em permanência, o factor Chambarlain e a sua tentativa de apaziguamento, para nos nossos dias justificar a necessidade de todo o tipo de guerras, esqueça, no momento seguinte, a lição histórica nazi ou soviética, que implica um cepticismo antropológico e uma cautela jurídica muito determinada.        
Já quanto à segunda observação, a do hiper-garantismo, partindo nós de uma concepção que implica que todas as garantias de defesa sejam dadas àquele sobre quem recai uma dada acusação, cremos, no entanto, que tal é compaginável com uma tentativa de agilização de processos, de percepcionar se todos os prazos de defesa são razoáveis, se todos os expedientes de dilatação de um julgamento se justificam, se os recursos hoje existentes são os mais adequados. Um esforço a ser feito pela comunidade jurídica (e por toda a comunidade, afinal), sempre partindo do princípio, como referiu o juiz Bacigalupo, de que continuamos a preferir que saia em liberdade um criminoso do que seja encarcerado um inocente.
Ou seja, manter bem vivo o princípio in dubio pro reo, num tempo em que alguns sinais parecem demonstrar pretender inverter-se esta máxima clássica.
É, pois, este um momento de particular importância na definição das nossas leis penais, das nossas escolhas, quando somos atravessados por um contexto internacional em constante devir, em que o Direito Internacional e seus instrumentos vem sendo reequacionados (vide várias propostas para a reforma da ONU), em que conceitos que até Setembro de 2001 recolhiam unanimidade, como o de legítima defesa ou o estatuto dos prisioneiros de guerra, são, desde então, postos em causa, e em que no plano interno as queixas da morosidade da justiça e do prejuízo não devida e atempadamente reparado às vítimas se fazem escutar, tal como o combate a fenómenos de criminalidade financeira altamente organizada e sofisticada se impõem como decisivos. Se a isto juntarmos uma evolução do mundo laboral em que a maximização da produtividade de cada trabalhador tende a ser supervisionada em apertados esquemas de vigilância pela entidade patronal, bem como a busca de eficiência pelo nosso Estado tende a concentrar um conjunto de informações e dados confidenciais num único cartão desafiando, porventura, qualquer um destes factos o nosso mundo penal (ainda que quanto ao cartão do cidadão, o Prof. Vital Moreira tenha vindo, muito recentemente, procurar desdramatizar os seus perigos eventuais) mostra bem a complexidade dos tempos em que vivemos.
Um tempo em que ao contrário do que tanto hoje se faz crer não é o primado técnico ou tecnocrata (de soluções por todos partilhadas, com respostas únicas possíveis), mas político (o confronto de opções, valores e escolhas na definição do melhor caminho para objectivos comuns) aquele que hoje se impõe.

Democracia, estado da


Dados recolhidos na XXI - ter opinião (nº7)

- 20 países, apenas, têm democracia plena, segundo os indicadores da Economist
- só 11% dos portugueses confiam nos partidos políticos
- 41 países têm regimes considerados como autoritários pela Economist
- 40%, apenas, da população mundial vive em países livres, de acordo com os indicadores da Freedom House
- 88% da população da África subsahariana vive em países considerados pouco ou nada livres pela Freedom House

terça-feira, 14 de junho de 2016

Identidades

Wook.pt - A Morte de Colombo

Um outro texto, de há dez anos, que aqui partilho (e que publiquei originalmente no Lamego Hoje)


OCIDENTES  

Em contexto de globalização, o redesenhar de sociedades crescentemente heterogéneas, suscitando acessos debates em torno de temas como o multiculturalismo, imigração ou políticas demográficas, e, bem assim, a emergência de problemáticas como a do confronto civilizacional (sempre Huntington a modelar as discussões), em que o religioso (e, sobretudo, a relação de César com Deus) assumiu, no séc.XXI, insuspeito protagonismo, colocaram o cultural na agenda dos debates e das preocupações da cidade (como que substituindo o habitual é a economia, por um renovado é a cultura, stupid!). 
As perguntas quem somos(?) e o que somos(?) pareceram juntar areópagos universitários, forúns de filosofia, arrazoados intelectuais a conversas de leigos, cidadãos comuns a indagarem, também, o seu lugar no mundo e a procurarem os seus laços de pertença.
Com este pano de fundo, o mais recente livro de Eduardo Lourenço – A Morte de Colombo –Metamorfose e Fim do Ocidente como Mito – é um interessante contributo para essa redescoberta de nós. Através de um conjunto de textos maioritariamente escritos a quando dos 500 anos da Descoberta da América (mas que até agora não estavam acessíveis em português), Eduardo Lourenço traçará um paralelismo entre as Descobertas portuguesa e espanhola. Afinal, serão estas que darão novos mundos ao mundo e fundarão as relações (e o imaginário) da Europa com muitos outros povos.
Que diferenças, substantivas, e seu significado, entre as empresas portuguesa e a espanhola, afinal?
Segundo Eduardo Lourenço, o mito português, por excelência, é o do povo descobridor. Não temos outro. E mito enquanto logos que diz a realidade e dizendo-a, a funda. E porque se tornaram as Descobertas, para nós, num mito? Na verdade, não serão, ab initio, considerações de novidade, extensão do descoberto, ou dos efeitos económicos sem precedentes que, aqui, relevarão. Acontece que sendo mítica a descoberta de Colombo, ela dá-se quando o Renascimento é já um espaço cultural de nova espécie. Entre as componentes da viagem de Colombo contam-se já notícias, novidades, informações das nossas navegações, mas sobretudo uma componente mediática que Colombo aproveitará e que não existia no tempo de Gil Eanes. Mas talvez o decisivo seja o que se segue: a mitologia colombina é modernista, o seu suporte é um indivíduo. Por oposição à Descoberta de Colombo, as nossas Descobertas estão numa ordem impessoal, do Rei, do Reino, da sua finalidade transindividual. Ora, estando a Descoberta de Colombo no plano individual não tem um sentido que possa ser inscrito, posto na conta histórica de um Povo. Camões mitificou as Descobertas portuguesas ao tornar seu sujeito “o peito ilustre Lusitano”.
Lourenço dirá, depois, que o relato de Pêro Vaz de Caminha, sobre o Brasil, é mais espantoso e espantado que o de Colombo em relação às Antilhas. Se os portugueses, quando chegaram ao Brasil, tinham esgotado a sua reserva de sonhos, se estavam estes habituados já à ausência de espanto, porque é descoberta o seu olhar e não o é o de Colombo? Tal sucede, diz-nos o ensaísta português, porque Colombo quis o novo mundo, quis um tesouro e encontrou-o; os portugueses, aparentemente, não o procuravam e encontraram-no. O que Eduardo Lourenço nos lança, aqui, igualmente, é um repto, para sugerir uma questão ideológica que marcará, já (desde?) então um Portugal e uma Espanha bem distintos: a empresa marítima portuguesa não é privada, mas comanditada pelo Estado; Pedro Álvares Cabral não navega acicatado por qualquer sonho ou lucro pessoal, ao contrário de Colombo. Até que ponto, pois, o Estado, em múltiplas situações, quebra o sonho, mata a individualidade?
Onde parecem convergir os olhares de portugueses e espanhóis é para os índios. De uma primeira visão paradisíaca, até ao entendimento dos índios como seres inferiores, vai um pequeno passo. A perplexidade será mútua. Descobridores e índios estranham-se. Não era fácil para os Ocidentais integrar homens desprovidos do sentimento de hierarquia e nos quais estava ausente a religião. No final, porém, a primeira visão, a do índio-paraíso, vencerá a segunda, do índio-bárbaro (mesmo se pelo meio numa nação que se via essencialmente como cristã, sendo esse o seu máximo denominador comum, tivesse ficado célebre uma discussão entre Las Casas e Sepúlveda, acerca da natureza dos índios: homens livres, ou, trazendo-se Aristóteles à colação, escravos naturais?).
Não se confina, já se vê, a uma abordagem peninsular a obra de Eduardo Lourenço. É que a singularidade da Europa na História do mundo deveu-se ao seu papel de Descobridor, comerciante, colonizador. Nos séc.XV e XVI, Portugueses e Espanhóis constituirão a guarda avançada desta Europa, que terá na colonização irreversível um pecado original que jamais lhes será perdoado.
Em tempo de discussão de um verdadeiro projecto político para a Europa, de uma Constituição Europeia, não nos será permitido esquecer que contrariamente à antiga Roma, nunca a Europa foi protagonista da sua história, nem da história do mundo. Só o foi enquanto europas, com a alternância nesse papel a pertencer à Espanha, França, Holanda, Inglaterra, etc.
Não deixaremos, igualmente, de entender como fundamental (quando as relações Europa-Estados Unidos da América merecem uma interpelação renovada) uma observação inicial de A Morte de Colombo: o continente americano é um dos desenvolvimentos da Europa, da sua cultura, das suas virtudes e defeitos, quer europeus e americanos o aceitem de bom grado, quer psicanaliticamente, o rejeitem (naquilo a que da perspectiva americana, e remetendo para Steiner, poderíamos designar de amnésia criativa) recorrendo a subterfúgios diversos (JL, Edição de 15-28 de Fevereiro).
Claro que (e é altura do paradoxo), na invenção do novo mundo uma nova criação se dá, e a Europa não se prolonga pelo mundo descoberto, mas com ele transfigura-se e, de certo modo, nega-se, pelo encontro de uma natureza nova de mais demorada humanização que a europeia e também pelo encontro com outra humanidade, isenta de pecado original.
Era a busca do Paraíso. De que nunca desistimos, aliás. Nós Homens. E é aí que o paradoxo se humaniza para nos atingir com estrondo, numa lição histórica inelutável: A busca do paraíso, a utopia das utopias, o sonho do Absoluto, fonte de horror é, porém, paradoxalmente, o único que sem cessar extrai os homens da sua original inumanidade.                  
Nesta partida a caminho do “outro”, uma referência especial aos jesuítas em jeito de homenagem ao Pe. Manuel Antunes. Se não foram os únicos a esforçarem-se para compreender o outro, de modo a melhor o evangelizar, dos jesuítas poderá, todavia, dizer-se que ninguém como eles se extraiu da matriz europeia e se fez outro para que «Deus fosse tudo em todos». E como que exortando-nos, deram asas e grandiosidade ao ecumenismo que os portugueses, como outros europeus, podiam fazer germinar. E fizeram-no mesmo correndo os riscos de uma osmose cultural, onde a mensagem cristã parecia dissolver-se.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Apontamentos políticos


Leio a sempre sumarenta entrevista política de Morais Sarmento ao DN de Sábado e retenho a afirmação de que o que mais preencheu o ex-ministro, em funções executivas, foi a defesa (concretizada) do reagrupamento familiar (dos imigrantes). "Contra o CDS", fez questão de acrescentar (no que tem, por certo, de carácter genuíno histórico e como factor de demarcação com alguma ressonância para a frente). Isto, na mesma semana em que uma reportagem de Anabela Neves com Paulo Portas apresentava o testemunho do ex-líder do PP no qual este justificava certas posições (políticas) por si assumidas como modo de defesa da sobrevivência do partido a que pertencia. Parece que em nome da sobrevivência (política), portanto, valia defender qualquer coisa, como se um partido político não estivesse (esteja) ao serviço de determinados valores (políticos). Como se defender seja o que for valha, desde que permita a sobrevivência política (que, como se percebe, é mais dos próprios do que do partido, na medida em que estão dispostos a ceder um ideário). Neste sentido, Portas como que vindica a asserção de uma certa amoralidade na gestão política. Em todo o caso, menos certo é o apontamento de que não deixa um marco: para a minha geração, o fim do serviço militar obrigatório - conheço o argumentário e o contraditório da decisão - foi uma decisão política de real alcance, que pessoalmente saúdo. Nunca partilhando as concepções mais ancestrais da necessidade da tropa para forjar qualquer rapaz de barba rija, sou, todavia, claramente favorável à introdução nos currículos de formas de participação comunitária (para mais, num tempo de traços liquefeitos; experiências desta jaez, em diferentes países, proporcionaram indícios de excelentes resultados e creio que a ideia de dar algo, ou dar-se à comunidade de que se faz parte tem todo o sentido).
Morais Sarmento diz presente quanto a um futuro no PSD se houver um tempo normal. Em tempos de urgência, deixa a batata quente para personalidades como Passos Coelho e Rui Rio. E acha que a grande questão a que o congresso do PS não respondeu foi se a viragem à esquerda é estrutural, ou conjuntural - dando por adquirida tal viragem (note-se que no congresso houve quem afirmasse que se a actual coligação entre executivo ps e forças parlamentares do PCP e Be for bem sucedida pode adquirir esse traço de permanência). Na Europa, António Barreto vê já uma aliança (implícita) entre países do Sul e socialistas para as questões do défice, da dívida, da disciplina orçamental. 

domingo, 12 de junho de 2016

"Os pássaros", ou os grandes filmes




Publiquei a 23-02-2006 no Lamego Hoje:

A ORIGEM DO MAL     

O que leva Os Pássaros, de Hitchcock, a atacarem?
Inquieto-me no sofá com a singularidade de um ataque sem motivação aparente, sem justificação alguma, a irromper através das ditas aves, dos desenhos ou transparências arquitectados pelo mestre-realizador e que tornam a sala num lugar de medo. Sombrio.
Pergunto, depois, a quem viu o filme, o que me escapara, afinal. Esclareçam-me lá: qual a origem do mal? Não, não me digam que a culpa é de Melanie, explicação aventada, sugestão frágil, a meio do filme, com claro intuito de bode expiatório. Não satisfazia.
E ninguém me soube explicar. Ou porque já não se lembravam da película, ou porque era assim e pronto, ou porque ficaram como eu...
Estava nesta angústia da incerteza, do indecifrável, quando me fizeram chegar in Alfred Hitchcock´s, uma obra editada pela Cinemateca, em finais de 1999.
Percebi, então, que a minha abordagem à questão que subjazia, como pano de fundo, a este filme – a origem do mal, a questão da culpa – estava inquinada por uma formatação, por uma forma mentis, por um preconceito, se quisermos, que me levava a olhar para o mal e a exigir-lhe justificação. Que me apresentasse a sua causa.
Pois bem, que aconteceria se não houvesse ninguém que se pudesse culpar? Se o mal acontecesse sem poder ser pessoalizado? Se não houvesse explicação para esse mal? Se o causador do mal não fosse ninguém?   
Retomo a questão com que iniciei esta reflexão – porque atacam os pássaros? – e descubro, pois, que não há resposta. É o mal no seu estado absoluto, o mal sem causa, o mal sem culpado. Terrível é o nosso encontro com esse mal, terrível é a descoberta que toda a culpa é desculpa nossa.(...) Diz-se que a física moderna pôs em questão o conceito de causa, como algo de indeterminado e indefenível. Esse conceito tem o seu equivalente, no terreno ético, no conceito de culpa. Em Os Pássaros, Hitch chegou ao ponto de pôr igualmente em questão esse conceito, interrogando-se não sobre a sua aplicabilidade (o seu poder explicativo) mas sobre a sua origem. Fundamentalmente, é um filme sobre o mistério do mal, ultrapassando a instância ética (as noções de justiça, de bem e de mal) para nos deixar sem conceitos, no reino do indizível e do inominável.
Atormentado com igual indagação estava já, no sec.IV, Santo Agostinho. Ao longo das suas Confissões, aquele que foi “o maior santo entre os doutores e o maior Doutor entre os Santos” (na conhecida expressão de Vieira), ocupa-se, não raramente, com a problemática da origem do mal. Desde logo, oferece uma pista quanto à conclusão a que virá a chegar: é a aparência de bem (que há no mal), a atracção psicológica que este exerce, que leva o Homem ao mal. Coloca a hipótese de ser Deus o autor do mal, para logo refutar tal ideia, já que Deus fez todas as coisas boas. Daí que avance para o passo seguinte, em relação ao mal: Qual é a sua raíz e a sua semente? Porventura não existe nenhuma?
Está lançado o mote para a meta a que chega Agostinho: Em absoluto, o mal não existe. Na realidade, todas as coisas que se corrompem são boas. A corrupção, o mal, é, pois, a privação de algum bem. Se em vez de algum fossem privadas de todo o bem, as coisas, pura e simplesmente, deixariam de existir. Resulta daqui que todo o mal é ausência de algum bem; só o bem existe, todas as coisas são boas, mesmo as que se corrompem; o significado de que o mal, em absoluto, não existe é, assim, que ele não tem raíz ou semente: o mal (radical) não existe. Dito doutro modo, o mal não é substância alguma.  
Inevitável aqui fixar Hannah Arendt, uma das grandes pensadoras políticas do sec.XX, autora de reflexões sobre o estertor nazi que se afigu(ra)ram fundamentais. Se em as Origens do Totalitarismo, Arendt concebera um mal radical como capaz de explicar um sistema em que todos os homens se tornaram igualmente supérfluos, e no qual os manipuladores deste sistema acreditam na sua própria superfluidade, já em Eichmann em Jerusalémuma reportagem sobre a banalidade do mal, uma obra que resulta do acompanhamento de algumas sessões do julgamento de um dos elementos da máquina nazi (Adolf Eichmann), em Israel, a autora parece fazer uma inflexão no seu pensamento, para (como disse numa carta a Gershom Scholem, citada na edição da Tenacitas, de Eichmann em Jerusalém), a opinião de que o mal nunca é radical, ele é apenas extremo e não possui profundidade, nem qualquer dimensão demoníaca (...)Ele desafia o pensamento, porque o pensamento tenta alcançar a profundidade, ir à raiz das coisas, e no momento em que se ocupa do mal sai frustrado porque nada encontra. Nisto consiste a sua banalidade. Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical.  
Nada mais próximo de Agostinho, como se percebe, apesar da expressão banalidade do mal ter sido cunhada por Arendt dezasseis séculos depois do santo de Tagaste e com ela ter procurado explicar o porquê de muitos (indivíduos) inseridos na sociedade totalitária terem perdido a sua capacidade de pensar e julgar aquilo que é mau de acordo com as suas consciências (e de Eichmann, como os relatos que Arendt nos dará, ser um exemplo paradigmático, a esse propósito). 
Parece residir aqui, de facto, um dos maiores perigos da ausência de radicalidade do mal: na paralisia de reflexão e julgamento que parece poder causar. Em todo o caso, não deixamos de ficar com um sinal de esperança, visitando a obra de Hannah Arendt: acontece que em condições de terror a maior parte das pessoas sujeitar-se-á, mas algumas não o farão, tal como a lição dos países aos quais a Solução Final foi proposta é a de que pode acontecer em quase todos os lugares, mas não acontecerá em todos. Humanamente falando, nada mais é exigido, e nada mais pode ser razoavelmente pedido, para que este planeta permaneça um lugar adequado para a habitação humana.
A pouco tempo de Hollywood escolher os melhores filmes do ano, dou por mim a escolher Os Pássaros (1963), como o melhor filme que vi em 2005. Um filme que questiona, que angustia, que nos causa uma espécie de comichão e espantamento, e nos faz partir em busca de respostas (e sobretudo, felizmente, mais perguntas, mais dúvidas) e nos leva por caminhos percorridos por gigantes como Agostinho ou Arendt (com quem podemos, deste modo, procurar aprender mais um pouco) só pode ser um grande filme.
Como derradeira, mas prosaica questão deste artigo, que de imediato partilho com o leitor, fica-me a interrogação acerca do sentido que terá o título que o precede (ou integra), após a exposição que se lhe seguiu. Num tempo de interactividade, em que o sms, o e-mail e a chamada de valor acrescentado tudo decidem, o leitor escolherá. 


P.S.: Menções honrosas para Colisão, de Paul Hagis e O Fiel Jardineiro, de Fernando Meireles como (meus) filmes de eleição, de entre aqueles que se estrearam em 2005.