domingo, 29 de maio de 2016

Centralismo


Desta vez, é um governante ao mais alto nível a reconhecer a evidência: temos um país (excessivamente) centralista. O ministro adjunto do PM, Eduardo Cabrita, refere, nesta entrevista, que depois de ter estudado o assunto na OCDE, verificou que apenas Grécia e Turquia são mais centralistas do que Portugal, de entre os países que compõem aquela organização. E promete para o quadriénio 2017-2021 (sabe Deus quem lá chegará...) a passagem de 16 para 24% da despesa pública a ser realizada nos níveis regional/local.

sábado, 28 de maio de 2016

Graça



Se tudo depende de mim, se posso manipular/conformar a realidade por completo (de modo a obter os resultados que pretendo), se estiver convencido de que, em querendo/esforçando-me/empenhando-me, chego sempre ao que ambiciono; se toco, portanto, o ilimitado, se posso alcançar a perfeição - e quantas vezes o mundo nos diz isto, nas suas mais diversas faces, as mais das vezes muito amáveis e bem-intencionadas -, então não estou aberto às minhas debilidades, fragilidades, feridas (não estou aberto, sequer, a olhar para elas, a reconhecê-las; ajo, pois, como se não existissem), a sentir-me carente/carecido de algo/Alguém, de um plus. O fechamento de todas as possibilidades que não as minhas, pode ensinar uma moral transbordante (nos termos de Tagore, "Ele, que está demasiado ocupado em fazer o bem, não tem tempo para ser bom"), mas não se abeira do precipício da fé. Da gratuitidade, do dom, da graça. Não queiras ser perfeito, diz a Guida, ainda durante a infância, e a frase trespassa, corta e ilumina de um modo absolutamente intenso, muitos anos depois, a verdade maior da nossa condição. O perfeccionismo como erro. As ansiedades como contendo, em momentos diversos, raízes que podem ser de natureza genética, psicológica, mas espiritual, também (como contava ao António: não fiques prisioneiro de um 18, ou de um 19, que é isso na vida?). Uma boa educação: inculcar/transmitir capacidade de diferir a recompensa (sim, sem dúvida); inculcar/transmitir a capacidade de escutar até ao fim e de agraciar as minhas debilidades (não menos essencial). De outro modo, deifico-me e, certamente, me perco, me infernizo. Perdoarmo-nos/aceitarmo-nos, eis uma divisa raramente escutada. Um trabalho, precário, em progresso. Nunca concluído, suponho. Mesmo antes de ler Paolo Scquizzato e o seu O elogio da imperfeição - precioso desenvolvimento espiritual em torno desta noção, bela maneira de iniciar uma nova colecção, Grão de Mostarda - esta apresentava-se-me como uma das mais importantes descobertas destes trinta e tais. 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Uma militância de afectos


Para Manuel Pinto Lopes:

Numa daquelas coincidências cósmicas, desapareceu anteontem, num Domingo de final de Taça, um daqueles amigos que me fez/com quem me fiz crescentemente portista. Das memórias militantemente fraternas, da hospitalidade que nos diz tu és e nos faz felizes, nos construímos e permaneceremos eternamente.

Deixo, hoje, in memoriam, o texto que publiquei no jornal Lamego Hoje, a 18 de Maio de 2006:


Porto, Porto, Porto!

Quando vi jorrar dentro de campo, ainda antes dos 90', a euforia incontida que abalava a multidão, no 25 de Abril que sendo em Penafiel, é, sem margem para dúvidas ou necessidade de metáforas, futebolisticamente, do FCPorto, não pensei, como João Bonzinho (jornalista de ABola), num qualquer jogo do Benfica em que tal ocorrera também. É natural: ele é do Benfica, eu, adepto do FCPorto.
Do que me recordei, nesse instante televisionado, foi da minha primeira ida às Antas. A manhã começara com a confirmação em formato de entrevista radiofónica, da promessa familiar do tio Zé, em nos levar ao estádio mais vitorioso do país. O dia, naquele início da década de 90, estava escaldante. Era Junho de consagração. A chegada à Fernão de Magalhães não foi menos que apoteótica e inesquecível. A romaria azul-e-branca, as bancas de cachecóis e bandeiras, os apitos e as andas, nada faltava. E tudo, sendo velho, era novo. Admiravelmente novo. Para mim. O meu tio, dizendo-se amigo de Pinto da Costa, fez-nos saltar - ao Nuno, à Raquel e a mim -, sem bilhete, por cima de uma espécie de torniquetes pré-históricos, cujo metralhado tac-tac-tac de rajada nos inseria no mais apetecível dos locais. Tudo, perante um porteiro bem-disposto e compreensivo, como deviam ser todos os porteiros pelo menos com as crianças que querem ver futebol ao vivo, fato apertado e boina a oscilar entre o marinheiro e o maquinista de comboio, azul forte, que consentiu na jogada.
Duas horas antes do FCPorto-V.Guimarães se iniciar, o estádio estava cheio. À entrada, foram distribuídas cartolinas, que montadas como um puzzle, cobriam a zona capilar, plagiando objecto idêntico usado pelos padeiros. Um primeiro desafio impedia qualquer esboço de tédio nas bancadas: diferentes camadas jovens dos dois clubes foram, como se diz na gíria do ramo, evoluindo no tapete verde. E que bem evoluíram. O sol continuava inclemente. Suávamos. Alguém trazia sucessivas garrafas de água. A Superior Norte, onde estávamos, comprimia-se, com tanto povo portista. A hora chegava, finalmente. Junto ao túnel, os jogadores do Vitória, indianamente perfilavam-se para saudar, com cumprimento personalizado, os campeões. Ei-los. Que festa! A baliza ali tão perto, os jogadores quase os podia tocar, tudo me era próximo. O Guimarães começou por atacar para a baliza atrás da qual estávamos. Fê-lo com insistência e dominou. N'Dinga, o africano com futebol de qualidade e polémica q.b. na sua passagem por Portugal, e Ziad, um ponta-de-lança tunisino, eram as minhas maiores preocupações. O jogo não era demasiado aberto ou bonito. O Porto não jogava bem. O golo não nos visitava. Até que numa daquelas arrancadas pela direita em que a aselhice toma, momentaneamente, conta do lateral e a bola não vai ter, como devia e se pretendia, com o ponta-de-lança para este lhe dizer simplesmente sim, o eterno capitão, João Pinto, bateu no esférico de tal modo que este sobrevoou o guarda-redes vitoriano, surpreendendo-o, e contando ainda com a colaboração do poste, mexeu com as redes. GOLO!, anunciava em letras garrafais o placard electrónico do Estádio das Antas que se limitara, até então, a cumprir a tarefa rotineira de anunciar reclamos, como na altura se dizia. Com a ajuda de homens como José Nicolau de Melo, dir-se-ia que foi um excelente centro-remate. Mas vão por mim: não foi. Foi aselhice. Acontece. Até a jogadores do Porto.
O jogo decorria com os (à época) dois pontos no bolso, mas ainda faltavam 10 minutos para o final, quando centenas, talvez milhares abandonaram a Superior Sul, lá do outro lado do campo, e bateram os 100m obstáculos (PSP). Conseguiram, como sempre, calções e camisolas. O jogo recomeçou. Como ali se tratasse de uma falsa partida, aos 40 minutos da segunda parte, 5 minutos após o incidente, portanto, era caso para dizer aos seus lugares...partir! E eles partiram de novo. E correram, novamente, como desalmados. O jogo esteve interrompido, pela segunda vez, que tempos (!) e desta, claro, a Raquel também queria entrar. A pedagogia paternal acalmou os ânimos. O automóvel, estrategicamente colocado, por generosas condutoras, à beirinha do estádio, pôs-nos de imediato na auto-estrada de regresso, não sem que antes recebêssemos os autocolantes que celebravam a recém-inaugurada casa de Lisboa do FCP. A tarde fora perfeita. O FCPorto, ao contrário do que pretendia Bonzinho, ali como em Penafiel, apesar da invasão, não perdeu qualquer ponto e eu, felizinho, fiquei, em definitivo, com a única doença medicamente aconselhada: ser portista.
Claro que para que o vírus se tornasse resistente e se robustecesse mais ainda, muitas outras visitas àquele lugar mágico se sucederam. Com o sr.Pinto Lopes, um amigo, um cavalheiro e um portista de culto, fui guardando revistas Dragões que ele comprava aos ardinas de serviço na bancada central das Antas para me oferecer; fui coleccionando cromos de jogadores com que me deleitava e com que cresci; fui guardando (e ainda guardo) os apitos e autocolantes que mais ninguém, com a honrosa excepção do sr.Lopes, adquiria àquelas vendedoras que estão à porta do estádio e que, verdade se diga, são uma praga. E ensinou-me a guardar cada bilhete de cada jogo e a singularizá-lo: passei, pois, a escrever no verso de cada ingresso o resultado, o nome dos homens-golo, o número de espectadores. E enviou-me o vídeo do calcanhar vagabundo (na feliz expressão de Carlos Tê) de Rabat Madjer., na valsa que viu ao vivo e que eu, assim, vi a cores (a cores, amigos benfiquistas, a cores).
Quando tiver um filho hei-de ensiná-lo, assim, a ser portista. Contar-lhe-ei igualmente alguns jogos que vi no camarote do e com o sr.António Rodrigues, outro homem bom e elegante, sofredor portista inveterado, ao lado do qual assisti ao último golo da carreira e da vida de Rui Filipe. Era a primeira jornada do penta. O primeiro desses cinco anos dourados. O futebol, além de drama, é também tragédia. É, também, derrota. É aí que não esqueço a viagem totalmente silenciosa que fizemos entre o Porto e Vila Real depois de um doloroso desaire por penalties frente à Sampdória, nos 1/4 de final da Taça das Taças.
Mas foram mais, muitos mais, quantos mais (?!) os dias de alegria e glória nas Antas. O último grande momento, talvez, quando horas depois de Derlei, mesmo a pastar, fintar dois calmeirões britânicos e fuzilar-nos de emoção, com o mítico pontapé no esgotante e inebriante bailado de Sevilha, eram 4h24 da madrugada, recebemos Mourinho e companhia, e enchemo-nos de júbilo. Era-mos 30 mil! Inolvidável! A foto que agora com o colega e amigo da faculdade André tirava era corolário (este é o substantivo preferido do futebolês, como diria o Luis Djalma) de uma noite que os Aliados conservarão na memória, porque sabem de um saber de experiências feito o que é o poder/excesso de identidade (João Nuno Coelho, o sociólogo portuense e portista que tem estudado e escrito sobre estas matérias identitárias de osmose entre o Porto-cidade e o Porto-clube explicaria a Rio o que isto significa...caso este estivesse interessado em aprender que...o teu brasão/abençoado/tem no teu Porto mais um arco triunfal). Nos Aliados, tudo sempre foi genuíno: nem demagogia em aproveitamento e colagem abusiva aos sucessos do FCP, nem um extremo que toca este, com igual dose de demagogia, de escárnio de tudo o que seja bola, como se só assim se estivesse livre do pecado e de toda a perturbação, e se mantivesse a virgindade que a imprensa do costume aplaude e mesmo o zé portista ratifica já que ele, zezinho, gosta muito do FCP, mas não confunde futebol com política, é inteligente, é esperto, não vai cá em emoções nem em futebóis...abençoado marketing, abençoada imprensa, abençoado zezinho...
Logo, chegou o Dragão, Deco, a Champions. Estreei-me com o Lyon. 2-0. Veio o Corunha, com Marcus Merk, a seguir. Comecei por me lembrar de Carlos Valente (embora, obviamente, conheça Inocêncio Calabote ou Inácio de Almeida). Depois, surgiram-me Bruno Paixão, Lucílio Baptista, Hugh Dallas e tantos outros. Deco, com talento e a ciência (de Mourinho), calou-os. E mandou-me cantar We are the Champions, my friend com o Dani e Porto, Porto, Porto com Maria Amélia Canossa.
Abracei o tio Zé, contudo, noutro contexto portista. Trinta anos passados sobre a última conquista, segurámos a lágrima que Pinto da Costa não travou com o título de andebol. Que melhor dádiva oa clube que a do amor? Que melhor discurso que o de (se) lembrar dos mais desprotegidos que apenas têm momentos de felicidade quando o clube ganha? Que portista maior que aquele que rompeu o medo, o politicamente correcto, os afagos centralistas que pretendiam manter-nos do lado de cá da Ponte?
No espaço público, o estilo imbativelmente aguerrido e apaixonado de Pôncio Monteiro (lembram-se da dignidade da prestação, a quando do caso Paula, no inenarrável Donos da Bola, na Sic?), a independência e acutilância de Miguel Sousa Tavares (lembram-se de A revolta dos medíocres, há uns anos no Público?), o estilo liberal/aristocrático, very british, de Rui Moreira, as crónicas de culto, quase diárias, de José Manuel Ribeiro n'OJogo foram exemplos que fomos juntando e coleccionando ao lado dos verdadeiros craques: Baía e Jorge Costa, Jardel e Deco, Costinha e Ricardo Carvalho, Tó Neves e Carlos Resende, Jared Miller e Kostadinov, Filipe e Paulinho Santos, Nuno Delgado e Vítor Hugo, Vítor Bruno e Aurora Cunha, Fernanda Ribeiro...
Filhos de um Dragão maior, com fogo eterno. E sede suficiente para continuarmos a ganhar.

domingo, 22 de maio de 2016

O excesso do dom


"Se existe um fundamento primordial de uma atitude religiosa frente à vida, não são as noções acerca de Deus ou dos deuses, mas uma consciência profundamente experimentada de que a vida é um dom (...) Não basta reconhecer teoricamente que a vida é um dom, há que experimentá-lo profundamente. Como é óbvio, essa «experiência profunda» não precisa de tomar a forma de um encontro místico excepcional; é mais uma questão de «misticismo quotidiano»: com cada ato e experiência da própria vida descobrimos essa realidade e sentimo-nos gratos por ela. Se alguém tem essa experiência e sente relutância em conversar acerca de Deus em relação a ela - preferindo falar acerca da gratidão para com a própria vida ou para com a natureza -, de um modo geral isso significa, pura e simplesmente, que o seu conceito pessoal de Deus é demasiado estrito para abranger essa experiência, e essa pessoa está a utilizar conceitos, tais como a vida e a natureza, como «pseudónimos de Deus». Contudo, porque havemos de deificar a vida e a natureza de forma mitológica, quando há uma palavra que caracteriza, precisamente, aquilo que inclui a natureza e a vida, mas que também as transcende de modo infinito? Porque havemos de deificar algo que não é Deus? Porque havemos de apresentar o condicional como incondicional? Porque havemos de absolutizar os fenómenos da vida quando temos uma palavra que indica o próprio Absoluto, o Absoluto que permite que tudo o que não é absoluto seja prática e realisticamente relativizado? Costumo usar pouco a palavra «Deus»; com ela refiro-me apenas a esse mistério supremo, ao Desconhecido que brilha através da vida tal como nós a conhecemos" (Quero que tu sejas!, pp.253-254, 2016)

T.Halík

terça-feira, 17 de maio de 2016

Não


Se, como qualquer outro cidadão (que entendesse dever candidatar-se e merecesse o voto dos seus concidadãos), estivesse na Assembleia da República, não encontrando nenhum debate  (nacional alargado), garantias nem explicações bastantes (em matéria de regulamentação) sobre matérias que exigiriam um cuidado extremo, teria votado contra as alterações às leis relativas às chamadas "barrigas de aluguer" e da PMA. Os argumentos, agora compilados, de um grupo de jovens estudantes e trabalhadores do Porto, numa iniciativa que queria aplaudir, são mais do que ponderosos, substantivos e suficientes para me levarem a rejeitar as mudanças verificadas. Às vezes, é preciso dizer claramente NÃO.

Eros



152. Assim, não podemos, de maneira alguma, entender a dimensão erótica do amor como um mal permitido ou como um peso tolerável para o bem da família, mas como dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos. Tratando-se de uma paixão sublimada pelo amor que admira a dignidade do outro, torna-se uma «afirmação amorosa plena e cristalina», mostrando-nos de que maravilhas é capaz o coração humano, e assim, por um momento, «sente-se que a existência humana foi um sucesso».

Papa Francisco, no nº152 da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, publicada a 19 de Março de 2016.
 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O gosto pelo estudo



Crónica semanal na ufm, completando os sublinhados acerca da emigração portuguesa mais recente.

Emigração portuguesa – séc.XXI (II)

Mesmo em democracia, nunca deixámos de emigrar. Apesar de terem sido escritas obras, a meio da década de 80 do século passado, anunciando o fim da emigração (portuguesa), e mau grado esta ser vista, em muitos meios, como sinal de subdesenvolvimento, ela aparece, com efeito, como uma “constante estrutural” da vida portuguesa, certificando o anotado por Vitorino Magalhães Godinho. Apenas nos anos 90 a desaceleração de emigrações se observaria - julgando-se, à época, estarmos, por fim, destinados a ser um país de imigração -, tendo aquela, no entanto, de imediato, desde o início do novo século, conhecido um impulso imenso.
Prosseguindo a caracterização da emigração portuguesa no século XXI, que iniciáramos há uma semana, sublinhemos o que mudou, mais significativamente, nas condições globais de migração  (face a décadas precedentes):
a) Dimensão tecnológica  (há hoje maior facilidade de transporte e comunicação)
b) A componente Económica (assistimos, crescentemente, à desregulação dos mercados de trabalho
)
c) A vertente Política (nos nossos dias muito maior facilidade de circulação na UE)
A mais recente emigração portuguesa assume uma dominante clássica europeia, a que se juntam novos destinos (como os Emirados Árabes Unidos) e a recuperação de destinos antigos (América do Sul e África lusófona)As redes sociais (de familiares e/ou amigos) já enraizadas nos destinos para os quais se viaja são, ainda, relevantes, sobretudo nos casos de trabalhadores não qualificados. Quem vai para o Luxemburgo são aqueles, de entre os que emigram, que se encontram em situação mais vulnerável, à partida. Desde 2008, a este micro-estado chegam, anualmente, 4000 portugueses que se constituem como a maior comunidade estrangeira ali implantada (17% do total de residentes naquele território). Em Moçambique, por sua vez, estão aqueles que registam experimentar maiores dificuldades no terreno (à chegada): elevado custo de vida; problemas burocráticos; pior qualidade de serviços e equipamentos. No Brasil, finalmente, está o emigrante-tipo português mais cosmopolita.
As estatísticas oficiais evidenciam que a maioria dos emigrantes tem um nível de escolaridade médio, ou baixo; porém, o estudo de caso (a que aqui já nos referimos, publicado pela Gradiva) mostra uma presença crescente de emigrantes com qualificações de nível superior, com tendencial fuga de cérebros do nosso país.
Uma das grandes equações a considerar, neste contexto, passa, evidentemente, pela relação que os emigrantes portugueses pós-crise de 2008 estabelecem com Portugal. Neste sentido, o aquilatar de expectativas de regresso, ou o abandono definitivo da sua terra de origem é uma questão nevrálgica. Os resultados quanto aos indicadores dos planos para futuro dos emigrantes portugueses são os seguintes: a migração definitiva surge como a resposta mais frequente, de entre aqueles que emigraram para países europeus (ainda que seja uma resposta que não foi dada por 50% dos inquiridos). Inversamente, todavia, nos países não europeus, a intenção de retorno é a mais frequente. E, não sem importância, quase 1/3 dos emigrantes estão indecisos face ao seu futuro. Veremos, pois, de que modo o crescimento da economia (portuguesa), um projecto para o país (minimamente consensualizado), políticas dirigidas especificamente ao regresso de nossos compatriotas (políticas essas que em países como Taiwan, ou Coreia do Sul foram muito bem sucedidos), ou até em virtude de constrangimentos como novos limites à circulação de pessoas podem fazer com que os resultados sejam outros daqui a alguns anos.

Sempre atentos ao Portugal que se estende de Pequim a Lima, passando por Oslo – três destinos onde neste momento temos vilarealenses a trabalharem -, assim o abraço do tamanho do mundo para quem nestas duas semanas quisemos conhecer mais de perto.

Outras viagens, na próxima segunda-feira. Até lá, fique bem.

domingo, 15 de maio de 2016

História


Olhos os manuais de História, do 9º ano, da escola. Um dado, desde logo, me salta à vista e surpreende: os conteúdos programáticos contendem com acontecimentos históricos que vão até ao ano de 2008. E, não obstante, parece-me claramente, encontram-se, já, desatualizados. Por exemplo, quando, no manual, se refere "o unilateralismo americano". Isto, num tempo, como o nosso de 2016, em que a queixa de diferentes actores na cena internacional (vide, António Guterres, ou Durão Barroso, por exemplo) recai sobre a ausência de quem (país)  tenha uma palavra absolutamente decisiva – e mesmo que haja nações indispensáveis. Se a ideia é dar uma imagem do que o mundo é – em vez do que o mundo foi -, então sempre serão necessários novos manuais (a um ritmo talvez anual).
Em outros tempos, achava-se que tinha que haver algum recuo temporal mais substantivo (do que 8 anos, como neste caso, no qual se avalia, por exemplo, as intervenções americanas no Iraque e Afeganistão) para se abordar determinado fenómeno ou acontecimento. Ouvi queixas, da geração anterior à minha, quanto a uma História que se ficava pela crise de 1383-85. Entre esse abismo temporal e uma proximidade que me parece excessiva, hão-de existir soluções que serão mais razoáveis, creio.
Por outro lado, as matérias leccionadas têm uma natureza, em muitos dos casos, que implicam uma interpretação em que a dimensão ideológica está muito presente: globalização, guerra do Iraque e Afeganistão, o “neoliberalismo” [termo dado por assente, no manual que manuseio, sendo que vemos, não raro, no nosso espaço público, tal conceito ser muito disputado, etc]. Evidentemente, sempre a escrita da História, a leitura dos factos não será asséptica/neutra. Mas aqui convoca-se o problema da escolha, de saber quais os historiadores, ou intérpretes, convocados pelos autores dos manuais. E encontrar a justa medida, o pluralismo nem sempre se revela fácil. E isto quando a escola até tem a cadeira de cidadania (sendo que se pode, e deve, discutir os termos em que assenta, o modo como e por quem é leccionada). Seja como for, perante o actual contexto não me pareceria mal um sério escrutínio – do ângulo que o manual adoptou, do historiador que foi escolhido, do assegurar da pluralidade – por parte do encarregado de educação daquilo que está disposto, e é proposto, ao educando como leitura do mundo que passa. Nem sempre, porém, também, é possível aos pais – desde logo, as próprias barreiras dos níveis de escolaridade – proceder a esse escrutínio. O que deveria implicar um especial cuidado neste repensar da História. 

Fé e ciências


Se há alguma coisa que possa ser descrita como a experiência religiosa do homem da idade moderna tardia, será a experiência do ocultamento de Deus, do facto de que Deus não é uma realidade evidente. A teologia (inicialmente contra a sua vontade) teve de abandonar as noções de um Deus que era demasiado próximo, habitando mesmo por detrás dos cenários da natureza e da história. A biologia evolutiva desacreditou a ideia de Deus como causa mecânica imediata da história, a que nós chamamos mundo e vida. Os estudos religiosos, a historiografia e a teoria da literatura refutaram a imagem de Deus a ditar diretamente [a sua Palavra] à pena dos autores sagrados. A experiência das tragédias da história recente abalou a confiança num Deus Maestro a dirigir constante e diretamente a orquestra da sociedade humana, expulsando de imediato qualquer músico que estivesse a minar a harmonia da história. A psicologia e a neurologia revelaram um mundo de influências desconhecidas e também previamente por investigar sobre a consciência humana (e daí, também, sobre as noções religiosas), e, como resultado disso, a ideia de Deus a atuar diretamente «dentro da alma humana» tornou-se insignificante. A sociologia do conhecimento mostrou que todas as nossas noções, incluindo as noções religiosas, não são diretamente derramadas na nossa consciência a partir de um ponto situado algures no céu, mas refletem, entre outras coisas, muitas caraterísticas da sociedade e do momento histórico que vivemos. A filosofia analítica recorda que o sentido de qualquer palavra pronunciada, incluindo as afirmações religiosas, não pode ser imediatamente entendido, isto é, sem conhecimento do contexto do «jogo linguístico» do qual essa palavra pronunciada faz parte, nem da «forma de vida» da qual ela emerge.
Se Deus existe, está situado a um nível muito mais profundo do que as gerações passadas pensavam; se Ele é a «causa primeira», então devemos afirmar que não é tão detetável nem tão «demonstrável» como parecia àqueles que ainda não conheciam suficientemente a selva complexa de «causas secundárias» que impelem a natureza, os seres humanos e a história. Devemos procurar Deus mais profunda e exaustivamente agora que sabemos que não o encontraremos na caixa de diálogo, no gabinete de fácil acesso do diretor do teatro conhecido por «mundo». O conhecimento adquirido ao longo do século passado abalou naturalmente os sistemas fixos de noções religiosas (e a maioria de todos os outros sistemas fixos existentes). Contudo, estou profundamente convencido de que esta situação constitui uma benção e um momento oportuno (kairós), para a fé, porque a fé, mais uma vez, se transforma mais num ato livre, num ato que não se pode forçar - ou seja, numa corajosa escolha pessoal.
Além disso, as convulsões e a necessidade de escolha não são novas na história cristã, e muito provavelmente ocorreram de cada vez que a fé ultrapassou o limiar de um novo contexto cultural. Porventura, não declarou Pascal, no momento em que a modernidade começava a triunfar sobre o mundo ordenado das catedrais góticos, que a fé é uma escolha, uma «aposta», porque «há luz suficiente para aqueles que apenas desejam ver, e escuridão suficiente para aqueles que têm uma disposição contrária»?

Tomás Halík, Quero que tu sejas!, pp.66-68.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Uma identidade




Jornal de Negócios: Que mundo vê da sua janela?

Eduardo Lourenço: A minha relação com o real é muito anómala. Vejo sempre em segundo grau. Tenho uma grande inaptidão para captar o real na sua simplicidade. É um vício maléfico, porque não me deixa ver. Estou sempre à procura do sentido, de ver o que lá não está. É um vício. Não sei como lhe chamar.

(...)

JdN: Olhando para trás, que fez de melhor?


EL: Eu sou do país profundo. Para mim e para os meus, a coisa melhor é que nascemos aqui neste Ocidente quando era ainda a expressão da maior revolução do mundo que é cristã. A raíz grega, a raíz romana e, depois, a raíz cristã, que não é só europeia, é universal na sua essência, nas suas preposições, na sua visão das coisas.

JdN: Considera-se um cristão, um católico, mais propriamente?

EL: Sou um deficientíssimo cristão.


JdN: O que é que incorporou de mais importante?

EL: A essência do cristianismo é a aceitação, a crença de que nós somos filhos de um Deus que nos torna a todos iguais uns aos outros.


JdN: O que é que foi mais forte para si, a dúvida ou a crença?

EL: As duas misturadas e que nunca se separarão. Uma está ligada à outra.


JdN: Essa procura é o seu motor? Ainda continua, essa procura?

EL: Enquanto eu estiver vivo e souber que o estou, seria uma boa maneira de terminar sem terminar.

(...)

JdN: E a maior referência intelectual?

EL: Nunca pensei muito nisso porque fui sempre muito plural nas minhas referências, mas creio que uma das mais importantes foi Kierkgaard. Porque, de todos os grandes pensadores, foi o que mais problematizou a sua relação com aquilo a que chamamos a transcendência.

JdN: E em Portugal?

EL: Em Portugal, Antero de Quental, porque foi o primeiro português que teve uma consciência trágica do destino humano. Já tinha acontecido lá fora, mas ele foi o primeiro para quem a morte de Deus foi sentida como a maior das tragédias que a Humanidade pode conhecer. Ele tomou isso à letra e acabou como sabemos.

JdN: Como é que se define? Qual é o seu traço identitário mais forte?

EL: A curiosidade sem fim do enigma que nós somos no mundo e que é o enigma supremo.

(...)

JdN: Que lhe dá mais prazer?

EL: Ler, que é uma maneira de me distrair do que a vida tem de mais insuportável e que é a própria vida.


JdN: Fala-se muito da crise do racionalismo. A razão deixou de ser suficiente? Alguma vez foi suficiente?

EL: A razão é uma leitura nossa. Quem é que nos diz que nós podemos nomear aquilo que seja a razão? Ela autonomeia-se em nós e nessa autonomeação temos que suportar o que há de misterioso e tremendo.

JdN: E se falar das razões?

EL: Razões, já relativiza. A razão é um ídolo. É uma leitura que nós fazemos das mensagens, que aquilo que nos cerca nos transmite. Nós criamos os alfabetos com que interpretamos o mundo, mas ninguém nos ensinou, foi o próprio mundo que nos ensinou. Nietzsche dizia que o mundo estava escrito na Bíblia. Os seres e a terra narram as glórias de Deus e o sentido foi formado por aquilo que nos cerca. Será. Agora, nós não somos os criadores desse sentido, há um misto, uma troca entre nós e aquilo que nos cerca.

(...)

O que nós inventámos para fingir que vencemos a morte é o conjunto do que chamamos arte, poesia, música, tudo o que nos faça esquecer aquilo que não pode ser esquecido (...) Só a fé [nos restitui o irmão que perdemos, aquele que amamos]. E a minha é das mais fracas.

entrevista de Eduardo Lourenço, concedida a António José Teixeira, Jornal de Negócios, 13/05/2016, 4-9. [este excerto é referente às páginas 7 e 9 dessa entrevista, que o jornal intitulou "Sou um deficientíssimo cristão]

Sabedoria


A escuridão caminha até à luz; a ignorância, até à morte.

Rabindranath Tagore, A asa e a luz, 66.
                                                                                                                                                                            

Modelos económicos


Com um acréscimo de rendimento, as famílias vão consumir mais. Não se sabe quanto, mas há uma parcela do que vêm acrescido ao rendimento mensal que vai para consumo. Todavia, há épocas em que as pessoas preferem poupar, sobretudo. Tal tem muito que ver com o futuro (pessoal) que cada um imagina para si. Com um posicionamento mais, ou menos, defensivo (conservador) face a este. Se a pessoa tem filhos. Se o vínculo laboral tem alguma estabilidade. Se os descendentes estão na faculdade. Na verdade, apesar dos vários estudos acerca dos comportamentos das pessoas, a este respeito, falta sabermos muito, assinala o Prémio Nobel da Economia, Angus Deaton, nesta interessante entrevista à Visão. Que é, assim, também, já se vê, acerca dos modelos económicos que discutimos nas últimas legislativas.
 
 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Inflação


Em 2015, a inflação na Venezuela atingiu os 600%. Prevê-se que em 2016 chegue aos 720%.

Aceitar, de tudo fazer caminho


Transporto no meu mundo florido os mundos que falharam.

Rabindranath Tagore, A asa e a luz, Assírio e Alvim, 2016, 49 [tradução, a partir do inglês, de Joaquim M.Palma]
 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Uma procura constante


Carlos FIOLHAIS, O Deus do padre Halík, Público, 11. 05. 2016, 45.

Halík busca consequências da sua tese para o enevoado futuro da Europa

Esteve recentemente entre nós para lançar o seu novo livro o padre checo Tomás Halík, professor na Universidade Charles, em Praga, que se tem revelado um dos teólogos contemporâneos mais originais. Ele fala para o mundo contemporâneo, dirigindo-se tanto a crentes como a não-crentes. Nasceu numa família não-crente, tendo-se convertido ao catolicismo com 18 anos por influência de leituras de G. K. Chesterton e Graham Greene (os dois também convertidos ao catolicismo). Foi ordenado padre clandestinamente, tendo pertencido à “Igreja subterrânea” do Leste e sido conselheiro de Václav Havel. Hoje é autor de livros de larga circulação internacional como Paciência com Deus, A Noite do Confessor, O Meu Deus É Um Deus ferido e, acabado de sair entre nós, Quero Que Tu sejas! (todos eles nas Paulinas).
Tornei-me admirador do padre Halík através dos seus livros e foi com pena que não o pude ouvir ao vivo. Acho deliciosa, em particular, uma história n’A Noite do Confessor (2014) sobre ciência e religião. Um amigo do autor, que reunia três atributos — físico, católico e boa pessoa —, costumava ser convidado para retiros do clero para palestrar sobre os avanços da física contemporânea. E ele lá transmitia as últimas sobre o Universo: o Big Bang, a unificação das forças, o bosão de Higgs (impropriamente chamada “partícula de Deus”), etc. No final de um desses encontros, os padres pediram-lhe que lhes desse, como “cientista crente”, uma prova científica, ainda que minúscula, da existência de Deus, para eles poderem usar nas suas homilias. O físico ficou muito consternado por não conseguir corresponder ao pedido. Quem estava equivocado, diz Halík, eram os seus colegas padres: eles nunca poderiam,  numa conferência de um físico, mesmo católico e boa pessoa, aprender algo que pudesse melhorar a sua crença em Deus ou, por extensão, dos seus fiéis. Reitera esta ideia de um modo muito claro: “O pedido feito pelos sacerdotes de uma prova minúscula não indica apenas uma incompetência possivelmente desculpável, mas também, de forma mais deprimente, uma incompetência teológica bastante menos desculpável e, em particular, uma fé fraca e doentia.” Os padres eram afinal homens de pouca fé... De facto, a teoria do Big Bang não constitui uma prova científica da existência de Deus. A criação da ciência e a criação do Génesis são bastante diferentes. Quem pensa que são aparentadas está eivado do erro teológico dos inquisidores que condenaram Galileu. A existência de Deus não é uma questão do domínio da ciência. Halík cita Santo Agostinho: “Se compreendeis, não é Deus.” E comenta: “Se consegues entender (e até ‘provar’!), podes ter a certeza absoluta de que não é Deus.” Deus é, para o teólogo checo, um mistério, não uma resposta, mas sim uma pergunta difícil, que é como quem diz uma procura permanente.
Em Quero Que Tu sejas!, de subtítulo Podemos acreditar no Deus do Amor?, Halík procura responder a um desafio que um jovem lhe colocou, ao perguntar- lhe quando iria escrever um livro sobre o amor, já que tinha escrito sobre a fé e a esperança. A resposta na altura foi que “não estava preparado para isso”. O padre Tolentino de Mendonça, num prefácio que abre o apetite para o livro, sublinha esta confissão de ignorância de um eminente teólogo a respeito de uma experiência que todos partilhamos (“do amor”, sublinha Tolentino ironicamente, “e não do bosão de Higgs”). O que é o amor? Não é fácil de definir. Poder-se-á dizer, parafraseando o filósofo de Hipona: “Se compreendeis, não é amor.” Isso mesmo: Halík liga os conceitos de Deus e de amor, partindo da passagem de S. Marcos onde um escriba pergunta a Jesus qual é o maior mandamento. A resposta é bem conhecida: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” O título do novo livro de Halík vem de uma frase atribuída a Santo Agostinho: “Amo-Te: quero que Tu sejas!” Segundo o teólogo checo, pode aplicar-se esta frase tanto ao amor a Deus como ao amor a um ser humano. E as duas formas de amor não passariam de uma só, tão inextrincáveis elas são. Não é física, mas há aqui uma unificação.
O autor de Quero Que Tu sejas! busca consequências da sua tese para o enevoado futuro da Europa. Vê a necessidade, na construção do futuro, de um diálogo entre o humanismo cristão e o humanismo secular. É mais do que uma coincidência que o filósofo Luc Ferry, ex-ministro da Educação francês e representante do humanismo secular, tenha vindo a defender a centralidade do amor no que ele chama “espiritualidade laica”. Escreveu em A Revolução do Amor (Temas e Debates, 2011): “É o amor que dá todo o sentido às nossas existências. É ele que nos obriga, nem que seja pelos nossos filhos, a não ceder ao pessimismo, a nos interessarmos, apesar de tudo, pelo futuro...”

Professor universitário. tcarlos@uc.pt Escreve mensalmente à quarta-feira.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Silêncio


A pequena verdade tem palavras claras,
a grande verdade tem silêncio grande.

Rabindranath Tagore, A asa e a luz [tradução de Joaquim M.Palma], p.63

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Trump - um retrato



Ontem, o canal Odisseia apresentou um documentário sobre Donald Trump, da responsabilidade do jornalista Matt Frei. Do ponto de vista biográfico, Trump é descrito como um filho de empreiteiro rico de Nova Iorque, educado para uma competição sem limites - "és um assassino, és um rei", deves possuir o mundo, repetia-lhe o pai, segundo o biógrafo -, um adolescente que gosta de agressividade - "magoou professores e colegas" - e é enviado aos 12 anos para o colégio militar (abrupto fim de adolescência, que no embalo psicologista de que o documentário também se reveste, do qual nunca recuperaria; ainda hoje, Trump seria esse adolescente). Assim, uma agressividade incontrolada juntar-se-ia a um "menino da mamã": segundo um ex-PM da Escócia que lidou com Trump empresário, "Donald nunca ouviu um 'não' na vida", o que propiciaria a pulsão de tipo narcísico. 
Do ponto de vista político, dois serão os principais trunfos de Trump (à luz deste documentário, mas corroborando, em larga medida, muita opinião publicada): a) a sua riqueza excêntrica que significa não apenas o triunfo e sucesso na vida tão ao jeito norte-americano, quanto uma independência face aos grandes interesses e lobbies (nas palavras de apoiantes, "face aos grandes bancos, empresas, Wall Street"); b) o sucesso como empresário significa, para o eleitorado que nele vota, que sabe como criar emprego e o seu discurso anti-imigração cria uma bolha proteccionista que os deserdados da globalização acolhem com agrado. O eleitor médio de Trump é homem, branco, sem terminar o Liceu. Crê-se discriminado e vê no político em causa o seu representante. Seu e da sua raiva - Trump polariza com o seu radicalismo discursivo. É, pois, curioso verificar como numa Carolina do Sul, pobre, muito pobre, o eleitor, ainda assim, pode rever-se em quem gostava de ser, em quem o defende dos inimigos (inventados), em quem lhe garante o emprego. Num talk-show em que Trump participa, David Letterman expõe a contradição: a retórica é marcadamente proteccionista, mas o fato, a camisa, a gravata de Trump vêm do Bangladesh, da China, da Índia...Trump deixa um sorriso amarelo. Mas eis como aqui se joga uma dimensão económico-social crucial que tem alterado as balizas ideológicas mais convencionais (como se vê, de resto, com a sociologia da Frente Nacional, em França, ou como parece suceder na Áustria). Ontem, note-se, Trump prometeu aumentar impostos para os mais ricos, bem como o salário mínimo nacional. Parece haver um deslocamento da centralidade que muitas vezes as questões culturais, de costumes, religiosas adquiriam no discurso Republicano.
E o que é genuíno em Trump? O discurso anti (muçulmanos, hispânicos, etc.) parece que não - o documentário mostra um vídeo de 1999, com Trump a criticar o candidato de direita Pat Buchanan por ser anti tudo ("ele é anti-negros, anti-gay, é anti-tudo", dizia então). Na questão do salário mínimo, há meses mostrava-se desfavorável ao aumento deste. Mas no que concerne a comentários acerca do sexo feminino parece que a biografia mostra uma certa coerência. Nos maus-tratos a uma das suas mulheres - Trump teve 3, o que lhe complica a vida entre os evangélicos -, quando se rompe um casamento, em 1989, esta fala em "violação" pelo (ex) marido, em sessão do tribunal (embora, mais tarde, escreva que tal alegação não deve ser lida de modo literal).
Hoje, Trump tem uma fortuna avaliada, pela revista Forbes (que passa com ele dias inteiros e que o escrutina como a quase nenhum outro personagem) em 4,5 mil milhões de dólares (ainda que o próprio considere que devia ser considerado mais do dobro deste número). Mas, durante os anos 80, ao apostar na indústria dos casinos, esteve à beira da ruína, esgotando o muito que herdara e endividando-se em larga escala ("Trump era demasiado grande para falhar"). Quem arcou com o falhanço foram os investidores, fundos que investiram poupanças de reformados e classe média.
Trump começou a trabalhar na Nova Iorque dos anos 70, seguindo para a empresa do pai, empreiteiro com muito trabalho, depois da formação em Gestão. Nessa altura, a máfia dominava muito do sector da construção. Num depoimento anos depois, que o documentário de Frei mostra, Trump afirma-se um hobbesiano puro: "muitas vezes as pessoas são cruéis e ou tens um dado tipo de personalidade ou és comido".
Os comícios de Trump são, na reportagem do Odisseia, enquadrados pela música que acompanha as palhaçadas de Wrestling, aparecendo, incessantemente, o Tarzan Taborda de cabelo pintado para "90 minutos de non sequitur: uma série de ideias sem nenhum fundamento, nem continuidade entre si, mas que parecem agradar ao público" (Matt Frei). "Vamos voltar a ser grandiosos!" vocifera o tribuno. Nas primárias de 2008 o slogan mais ouvido era "Sim, nós podemos!", agora passou para "Vamos construir o muro!" (acompanhado da referência aos "mexicanos violadores" e com um não menos surreal "e quem vai pagá-lo [o muro]? O México!"). 
Se algum espanto causa o facto de os Republicanos elegerem tal excêntrico parece que tal admiração deixa de fora a hipocrisia sentida por muitas das bases (republicanas) entre a cúpula (que acreditam muitas vezes defender mais os interesses dos grandes lobbies) e a base (que finalmente têm alguém que os defenda...por ser demasiado rico). Isso e, no entender de outros tantos, a excessiva radicalização do Partido Republicano que se confrontará agora com a caricatura de poder ter alguns membros do tea party como moderados. Entretanto, num dos comícios, um muçulmano é expulso pelos serviços secretos para gáudio do pavilhão - um homem destes à frente dos EUA poderá polarizar uma sociedade enraivecida. Há raiva, mas não há esperança, comenta alguém. Sarah Palin ainda chega, para tentar tranquilizar uma comunidade evangélica, fala "nas nossas armas" e no "nosso Deus" na mesma frase. Os reallity shows, o jornalismo tablóide, um modus vivendi com pouco espaço para grandes leituras também contribuirão para que as frases sensacionalistas e boçais de Trump tenham acolhimento. Bom, mas nesse mais específico elemento de fenómeno mais complexo, digamos que não poderemos gabar-nos demasiado. 

Por quem os sinos dobram




A nebelina é como se fosse o desejo da terra.
Ela esconde o sol, por quem a terra chora.

Rabindranat Tagore, A asa e a luz, Assírio e Alvim, 2016, p.42 [inédito em português]


Tagore


Os hinos nacionais da Índia e do Bangladesh servem-se de poemas de Rabindranath Tagore.

Trabalho infantil


Há menos de um ano, a 2 de Julho de 2015, a Bolívia, de Evo Morales, aprovou, através do seu Parlamento, um novo Código da Infância e Adolescência que autoriza o trabalho a partir dos 10 anos. Ainda que apresentado como excepção face à idade limite dos 14 anos, acaba por ser situação maioritária, legitimada na medida em que, não raramente, é conciliável com os estudos. Assim, a criança está «autorizada» a trabalhar a partir dos 10, desde que seja trabalho independente (vendedores ambulantes, engraxadores) e 12 para trabalhadores «dependentes» (empregados em estabelecimento comercial). A Bolívia e o Peru apresentam as mais elevadas taxas de trabalho das crianças entre os 6 e os 17 anos, na América Latina: 27,9% no primeiro caso e 29,8% no segundo (sendo que na Bolívia esta percentagem, em meio rural chega aos 65%). As Convenções Internacionais proíbem o trabalho antes dos 14 anos. O Movimento dos Trabalhadores adolescentes e Crianças, Filho de Operários Cristãos (Manthoc), do Peru, foi o primeiro sindicato de crianças no mundo, tendo sido fundado em 1976.

À esquina da uma


O texto semanal de cidadania, na ufm (sobre a emigração, com muitos dos dados postados aqui nos últimos 8 dias).
A emigração portuguesa – séc.XXI
Procurar conhecer bem o Portugal dos nossos dias implica um sério esforço de compreensão da realidade humana que excede claramente as nossas fronteiras territoriais. Em assim sendo, torna-se urgente perceber o quadro emigratório nacional desde o início do século, mas, de um modo mais detalhado, porventura, desde a crise de 2008.
As estimativas mais conservadoras apontam para uma saída de, pelo menos, 350 mil portugueses para o estrangeiro na primeira década de 2000 e, entre 2011 e 2014, uma emigração entre as 395 mil (segundo os dados do Observatório da Emigração, obtidos, estes, nos países de destino) e as 485 mil pessoas (de acordo com o INE, com dados colhidos junto das famílias dos que emigraram, em Portugal).
Na medida em que os dados oficiais da emigração portuguesa, desde o ano 2000, são incompletos e contraditórios, importa lançar um olhar atento ao muito oportuno e interessante estudo de caso, Inquérito aos Portugueses no Estrangeiro - Projecto REMIGR, agora publicado pela Gradiva, organizado por João Peixoto juntamente com um vasto conjunto de investigadores, na obra Regresso ao futuro. A nova emigração e a sociedade portuguesa. Com a realização de 6080 inquéritos (válidos), dos quais 1658 em papel e 4428 online, este estudo oferece-nos, pois, uma amostra muito significativa da emigração portuguesa, concentrada em países como Reino Unido, França, Brasil, Angola e Moçambique (embora os dados não se restrinjam a estes países e incluam mais de 100 respostas de emigrantes portugueses na Alemanha, Luxemburgo, Irlanda, EUA, Holanda, Espanha, Noruega, Suiça).
Principiaria, assim, por destacar dois dados que, creio, não deixarão de surpreender muitos ouvintes: entre 2001 e 2011, mais de 230 mil portugueses regressaram ao país, depois de terem vivido mais de um ano no estrangeiro. Estes portugueses, muitas vezes invisíveis (mediaticamente) são tanto jovens como velhos, com muitas e com poucas qualificações, há muitos anos na emigração, nuns casos, há relativamente pouco tempo no estrangeiro, em outros. No estudo de caso, quem partiu de Portugal tinha como situação mais comum, em termos profissionais, um contrato por conta de outrem, num vínculo sem termo, ou seja, não se trata, maioritariamente, neste estudo, de população com vínculo de trabalho precário. Como se escreve nesta obra colectiva, "reforça-se assim a ideia de que, existindo sempre custos na migração, são os que estão em melhor posição para mobilizar recursos necessários que saem" (p.57). Nada disto, evidentemente, pode ou pretende, escamotear os quantos desempregados, estudantes, licenciados acabados de sair das faculdades se viram, de modo sofrido, na necessidade de sair de Portugal. Do mesmo modo que em nenhum momento, em nome de qualquer politicamente correcto, se há-de esconder, também, estes dados que a investigação desnudou relativamente aos vínculos laborais dos emigrados. Em todo o caso, com a ida para a emigração, verifica-se, no conjunto, que o vínculo laboral, para os emigrados, se torna mais estável.
Há uma forte tendência para os inquiridos (emigrantes, no estudo publicado pela Gradiva) se manterem no mesmo grupo profissional em que se encontravam em Portugal. Em Angola e Moçambique, os processos ascendentes podem observar-se frequentemente. O único país em que predominam os processos descendentes é o Luxemburgo.
A emigração significa um incremento no rendimento mensal (para o emigrante), segundo o estudo vindo de mencionar, nunca inferior a 1000€ mensais. Em Angola, o aumento médio é de 2259€. Neste estudo, verifica-se que quem partiu para Angola, Moçambique e Brasil auferia, em média, entre 1497€ e 1837€. Claro está que nalguns países o número de salários anuais é 12, enquanto noutros é 14.
Entre 2010 e 2013, o número de posted workers portugueses - trabalhadores destacados pelas suas empresas para prestação de trabalho temporário, no âmbito da UE - situou-se entre os 54 mil e os 82 mil/ano.
Mas, afinal, porque partiram estes portugueses? Falta de perspectivas de carreira, realização de novas experiências e falta de futuro em Portugal foram, respectivamente, as três principais razões invocadas por quem teve e/ou decidiu partir.

(continua)

domingo, 8 de maio de 2016

Uma só pergunta


Na verdade, diz Halík, as perguntas Deus existe? e Acreditas no amor? não são duas, mas uma só.

Luva branca


Em entrevista a Ricardo Costa que a Sic e o Expresso passaram, Durão Barroso disse que só avançou para a Cimeira das Lajes depois de ouvir a opinião de Jorge Sampaio. Este, por sua vez, não demorou 24 horas a responder-lhe e este Domingo o texto que publica é tudo menos meigo:


sábado, 7 de maio de 2016

Raúl da Costa



Por motivos familiares, desde há vários anos que ouço falar, com deslumbre, do prodígio ao piano, de Raúl Costa. A cada passo, fico a escutá-lo. E vou tomando nota, também, do seu reconhecimento internacional, como, uma vez mais, esta semana sucedeu (Prémio ZF Foundation). Da Póvoa para a Alemanha (desde há vários anos), para o mundo. Vamos ouvir falar dele muitas vezes.

Tratado Transatlântico



Embora com uma formulação suficientemente flexível, ambígua ou politicamente habilidosa ("participação activa e construtiva na negociação"), um dos aspectos mais salientes (tido como especialmente surpreendente, na especificação para dar posse a um novo Executivo) no caderno de encargos que o então Presidente da República, Cavaco Silva, acometeu ao então governo em formação, em finais de Outubro de 2015 foi o empenho no Tratado Transatlântico em negociações entre UE e EUA. Ora, esta semana, pela Greenpeace (Holanda), ficámos a saber de um conjunto de elementos que compõem estas negociações, e o cenário não foi brilhante: dos textos depreende-se que os EUA estão a pressionar para que os padrões de regulação, em matéria de saúde, ambiente, agricultura, alimentação, protecção de consumidores sejam nivelados por baixo. "Se está preocupado com o ambiente, os direitos laborais, ou a privacidade na internet, deve estar preocupado com o que estes documentos revelam", escreve a Greenpeace. Em causa, curiosamente, e de modo determinante, o proteccionismo em matéria de concursos públicos pelos norte-americanos, não permitindo o acesso, em igualdade de condições, pelos europeus (e suas empresas), mas, ainda, os transgénicos, ou as regras sobre os cosméticos (aqui). Se objectivos como os de aumentar a criação de emprego quando a economia mundial não dá sinais de grande fôlego ("por exemplo, no caso português, os têxteis e o calçado perfilam-se como ganhadores devido às elevadas tarifas ainda existentes em certas categorias pautais desses produtos. O reverso deverá acontecer, no sector agrícola, aos produtores de tomate e de laranja. A questão em aberto é a de saber se o seu impacto global, na economia, na sociedade e no ambiente, com previsíveis importantes facetas negativas, compensará os ganhos ", escreve José Pedro Teixeira Fernandes, no Público) ou evitar tensões políticas com aumento do proteccionismo, já o deixar indefesos milhões de cidadãos em àreas decisivas como a saúde, direitos laborais, meio-ambiente, direitos do consumidor, tudo envolto num grande jogo de lobbies, numa opacidade inquietante, só me parece acentuar movimentos hard defensivos (em termos políticos), que quedas nos piores populismos extremistas, da Áustria aos EUA de Trump, sem esquecer o grande caso francês, parecem demonstrar à saciedade. Quer na Alemanha, quer na França (Hollande já veio afirmar que no ponto em que as negociações estão não haveria possibilidade de ratificação do acordo), os movimentos anti-Tratado Transatlântico parecem com grande força (e vêm de vários lados, muitas vezes não da esquerda, contrariando o que semanalmente Francisco Assis tem escrito no Público, como se a oposição a um Tratado cujos contornos são agora mais conhecidos ficasse adstrito a uma área ideológica em particular). De resto, e ao contrário, talvez, da divulgação dos papéis do Panamá, desta feita a divulgação destes documentos até agora secretos pode ter um efeito muito importante no travar de eventuais avanços ainda na era Obama. 

Ainda sobre a vantagem negocial norte-americana, a importância do Pacífico, a reemergência dos grupos anti-globalização como grande feito destas negociações, leia-se na íntegra o texto de J.P.Teixeira Fernandes: aqui.

Emigração (XV)


A mais recente emigração portuguesa assume uma dominante clássica europeia + novos destinos (Emirados Árabes Unidos) + destinos antigos (América do Sul + África lusófona). 

As estatísticas oficiais evidenciam que a maioria dos emigrantes têm um nível de escolaridade médio, ou baixo; porém, o estudo de caso (Gradiva) mostra uma presença crescente de emigrantes com qualificações de nível superior, com tendencial brain drain.

Emigração (XIV)



Planos para futuro dos emigrantes portugueses (inquiridos no estudo publicado pela Gradiva): a migração definitiva surge como a resposta mais frequente, de entre aqueles que emigraram para países europeus (ainda que seja uma resposta que não foi dada por sequer 50% dos inquiridos).
Nos países não europeus, a intenção de retorno é a mais frequente.
Quase 1/3 dos emigrantes estão indecisos face ao seu futuro.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Um abraço para Braga


A propósito das jornadas teológicas desta semana:

Penso que Halík vai ao ponto quando diz que a - o sentimento da - ausência de Deus tem a grande virtude de nos posicionar com maior densidade crítica face às ideias/imagens que Dele nos chegaram/forjámos. Que sessões como as destas jornadas em Braga permitam essa transição (o senhor com Barbas por de trás da realidade, como escreve Halík, ou o deus que manda os furacões Katrinas para castigar a devassidão humana) para um Deus-amor (agápico e sem forma e fórmula delimitada de modo idolátrico), eis um contributo extraordinário para que, com tempo e paciência, se possa colmatar a brecha entre uma visão muito tradicional (milagres-magia e derivados) que colhe, parece-me, essencialmente, numa faixa etária já mais avançada, enquanto a experiência de busca dos mais jovens (quando busca há) necessita, pois, de recorrer a estas reflexões acerca do combate espiritual, do habitar a ferida (que magnífica alocução de Tolentino de Mendonça, na última quarta-feira!), do resgatar da noite, da presença na ausência que estes dias retomaram (de uma longa tradição, claro). E Halík talvez vá ainda mais do que ao ponto quando no seu último livro chega a perguntar o que teremos de abandonar no interior das elaborações e formas na nossa tradição. Uma pergunta porventura ainda mais arrojada.E, acerca da ressurreição, Halík elabora, igualmente, com muita pertinência e agudeza de espírito: esta não é mera revivescência (regresso à corporeidade anterior e às dimensões espaço/tempo), nem pode ser vista como mera metáfora (uma permanência na medida em que o recordado é ressuscitado). Haverá, ainda, pois, que investir mais, do ponto de vista teológico, nesta aproximação a esta realidade fundamental (uma fé sem crucificação seria anestesia, mas ficar na sexta-feira santa é igualmente incapacidade de ouvir uma "segunda palavra"; a tal falta de paciência de que fala Halík na leitura e escuta da mais profunda realidade, da realidade da realidade; escuridão, mas com luz ao fundo do túnel).
Finalmente, uma nota para colocar em diálogo Halík com Torres Queiruga: se este último antolha a ausência como uma incapacidade humana, um estádio civilizacional/cultural que nos impede de aceder à realidade última, o ângulo teológico de Halík é o que caracteriza um Deus que se oferece como possibilidade, que, num certo sentido se esconde (em Queiruga temos a "máxima revelação possível", um Deus que se manifesta e para o qual - para a recepção do qual - se entrou num estado de surdez, ou cegueira). 

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Emigração (XIII)


A emigração significa um incremento no rendimento mensal (para o emigrante), segundo o estudo vindo de mencionar, nunca inferior a 1000€. Em Angola, o aumento médio é de 2259€. Neste estudo, verifica-se que quem partiu para Angola, Moçambique e Brasil auferia, em média, entre 1497€ e 1837€. Claro está que nalguns países o número de salários é 12, enquanto noutros é 14.

Emigração (XII)


Há uma forte tendência para os inquiridos (emigrantes, no estudo publicado pela Gradiva) se manterem no mesmo grupo profissional. Em Angola e Moçambique, os processos ascendentes podem observar-se frequentemente. O único país em que predominam os processos descendentes é o Luxemburgo.

"No coração de cada ateu há um crente escondido"

Emigração (XI)


No estudo de caso (Gradiva), quem partiu de Portugal tinha como situação mais comum, em termos profissionais, um contrato por conta de outrem, num vínculo sem termo, ou seja, não se trata, maioritariamente, neste estudo, de população com vínculo de trabalho precário.

"Reforça-se assim a ideia de que, existindo sempre custos na migração, são os que estão em melhor posição para mobilizar recursos necessários que saem" (pág.57)

Em todo o caso, com a ida para a emigração, verifica-se, no conjunto, que o vínculo laboral, para os emigrados, se torna mais estável.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Emigração (X)


De acordo com o estudo de caso (Gradiva), o perfil do emigrante português é mais jovem nos países europeus. Para os países fora da Europa, a chegada dos emigrantes portugueses foi mais tardia.

Da cidade contemporânea e seus desafios



Interessante a conferência e os desafios lançados pelo prof. João Serrão acerca da cidade contemporânea e da convivência da pluralidade no seu seio

O que é que significa estar próximo, ser próximo e quem são os próximos? A resposta a estas questões tem variado ao longo dos tempos. Associamos proximidade a geografia. Mas estou próximo das pessoas que gosto e que têm gostos semelhantes. Com as TIC a proximidade muda. Há proximidades que podemos construir. O excesso de proximidade pode afastar e o afastamento pode aproximar.

Os centros da cidade perderam muita população e as periferias cresceram. Temos cidades Donut. Os centros de Lisboa e Porto, nas últimas 4 décadas, perderam mais gente do que o InteriorSuburbanização das famílias é mais rápida que a suburbanização dos empregos. O centro não está vazio, mas tem características muito diferentes. 1 em cada 5 residentes em Lisboa é imigrante, de acordo com os Censos de 2011. Se pensarmos que há imigrantes ilegais, a percentagem até é maior que a proporção indicada. O centro não está vazio, mas tem muitos invisíveis.

Isto choca com o modo como a Igreja se organizou territorialmente (tal como a organização administrativa das freguesias, p.ex.). Há um grande desfasamento face à realidade sócio-demográfica.
Mobilidade: um agregado familiar típico da grande Lisboa. Pai, mãe, filhos. Pai e mãe trabalham no sítio extremo da cidade. Os avós vão buscar as crianças à escola. Vivência da multipresença. Padrão em que as pessoas andavam por 1 km ou 2, de modo sistemático, no dia a dia, está completamente alterado. Cidade multipolar. E multipresença: pertenço ao bairro onde vivi a minha juventude, ao lugar onde trabalho, ao lugar de lazer, em casa…? Eu não posso deduzir com que espaço, território, comunidade com que me identifico mais. Posso escolher que hospital quero, que Igreja pretendo frequentar, escola favorita…A lógica da proximidade está mais enfraquecida, ainda que co-exista com a lógica anterior de pertença. Saltitar de um lado para o
outro, sem ganhar raízes em nenhum dos lados
.

Segregação: na Idade Média, as casas dos ricos e as dos pobres conviviam lado a lado. Com a lógica do zonamento, as indústrias aqui, os ricos ali, os pobres além, no advento da modernidade, isto alterou-se profundamente. Em vez do conceito de mistura, passou a existir separação e, daqui, passou-se para a lógica de segregação.

Neste contexto, o que significa estar e ser próximo? Não entro em condomínios fechados, a não ser que tenha lá já conhecidos. As pessoas que vêm para as nossas cidades, por outro lado, têm referentes, religiões, culturas diferentes das nossas e a a convivência não é fácil. Quando estava calor, Cabo-verdianos andavam de tronco nu, o que era absolutamente inaceitável para a comunidade cigana, considerando tal comportamento ofensivo das mulheresComunidades com códigos diferentes: sem mediação, podem viver no mesmo bairro, mas não são próximos.

Cidades cheias de buracos (como um queijo…não partilhado, e percepcionado de modo muito
diverso)
. Não há soluções miraculosas, havendo casos de sucesso e insucesso nos diferentes modelos: interculturalidade, multiculturalidade, etc.

O custo da inacção é enorme, mesmo que a inacção motivada por não sabermos o que fazer. Cada cidadão pretenderá, em suma, ser informado, poder participar, poder falar, poder influenciar.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Emigração (IX)


O que mudou nas condições de migração (face a décadas precedentes):

*Dimensão tecnológica (maior facilidade de transporte e comunicação)

*Económica (desregulação dos mercados de trabalho)

*Política (maior facilidade de circulação na UE)