sábado, 30 de abril de 2016

Foi em 1999, não foi?



Paulo Catarro terminava a narração do resumo da seguinte forma: "se o futuro da arbitragem é este...". E foi. E é. A conversa da treta sobre os últimos 30 anos pretende escamotear coisas como esta: há 17 anos que quem arbitrou naquela noite em Campo Maior continua na mesma forma.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Ouvir os...ensaístas


Nesta entrevista a Fátima Campos Ferreira, na RTPEduardo Lourenço diz que falta à Europa um ideal transcendente em torno do qual se una; que Putin faz parte de uma longa lista de autocratas russos, mas "sem a Rússia a Europa não vai a lado nenhum"; que a Rússia, desde logo, é habitada por uma literatura que não se enquadra na ocidental sublimação estética e permanece consumida por um forte habitat ético; a morte dos outros (que amamos) como a nossa (verdadeira) morte; que foi ensinado na religião cristã e faz os possíveis por não esquecer os seus ensinamentos.

Como quem chama por mim



Segundo o Expresso, foram 12,6 mil milhões de euros injectados, pelo Estado, no sistema bancário (nacional), entre 2010 e 2015. Nas contas do PCP, que remontam a 2008, tal soma ultrapassa já os 15 mil milhões.

Ao contrário


Sócrates atira-se a Costa, em entrevista à antena1, conduzida por Maria Flor Pedroso. Ora, um dos papões agitados durante as últimas eleições legislativas era o do controlo da Justiça - como se esta fosse, portanto, susceptível de colonizar politica e partidariamente, e não houvesse, pois, separação de poderes - por parte do PS, em vencendo as eleições (versão espelhar dos que acharam, ou acham, que houve motivação política por detrás da detenção do ex-PM, promovendo, inclusive, abstrusas manifestações de desagravo), ficando José Sócrates livre de problemas (como se isto tivesse algum grau de verosimilhança). Assim, ao criticar a direcção do PS, de António Costa, por não se pronunciar acerca da sua situação com a Justiça, e, na continuação deste posicionamento, ao dizer que não aceitaria ser PM nas condições de Costa, Sócrates, evidenciando um enorme afastamento entre si e Costa, desvinculou o actual PM de quaisquer manobras (imaginárias) tendentes a interferir com o seu processo judicial. Se Sócrates pretendia atacar Costa, melhor fora elogiá-lo.

Emigração (V)


No que levamos de século XXI, Espanha assumiu-se como importante destino para os emigrantes portugueses, entre os anos 2003 e 2007.

Emigração (IV)


Entre 2010 e 2013, o número de posted workers portugueses - trabalhadores destacados pelas suas empresas para prestação de trabalho temporário, no âmbito da UE - situou-se entre os 54 mil e os 82 mil/ano.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Emigração (III)


Dos emigrantes portugueses que vão para a Europa, entre 2000 e 2011, cerca de 50% dirigem-se para a Suiça e a França.

Emigração (II)



Dos invisíveis das migrações portuguesas

Entre 2001 e 2011, mais de 230 mil portugueses regressaram ao país, depois de terem vivido mais de um ano no estrangeiro.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Zeitgeist




Sobre prisões

Não quero falar sobre religião. Quero falar sobre a solidão de não haver mais nada para além de nós e deste egoísmo escondido que anda a atirar tanta gente para um buraco, buraco esse que visto de fora não deveria ser tão fundo como nos relatam os que lá estão dentro. Há este vazio nas pessoas, esta pergunta esquecida num sítio profundo demais para se poder ver. Há esta era em que não existe tempo para aprofundar seja o que for. Se olharmos, os sinais estão em todo o lado a apontar para a forma como não nos comprometemos e não nos aprofundamos: na casa que não se compra, no trabalho onde nunca estamos contentes, nos divórcios, na cultura “mainstream” oca, nas depressões, na busca tardia por uma espiritualidade imediata…Vive-se uma grande fatia da vida centrada em tudo o que é apenas humano: os estudos, o trabalho, a carreira, a casa, um “parceiro” para morar…até ao dia em que se tem tudo isso. Depois chega o fim de semana, do mês, do ano, e o vazio, que era tão pequenino que nem sequer se reparava, está de repente do tamanho de todo o tempo que se esteve sem olhar para ele. Depois choram, choram nos cantos sem saber porquê. Choram por falta de direcção, falta de sentido. São pessoas com emprego, com estabilidade, com condições para serem felizes. Ouço estas histórias e não consigo deixar de pensar no outro lado deste manto negro que veste em segredo as camadas mais confortáveis da sociedade. Parece que na ausência de problemas de maior importância, na ausência de preocupações que os mantenham acordados à noite, surge este sítio parado no tempo, este sítio sozinho em que perguntam “e agora?”. Imagino o silêncio avassalador. Um silêncio humano, limitado, terreno.
Lembro-me que eu era mais forte, quando tinha mais fé. A questão é que me lembro de ter mais certezas, de haver uma resposta às perguntas, de não haver silêncio. Só o facto de saber que existia uma qualquer força superior à minha pequenez, à minha ignorância, fazia com que todo o meu ser se sentisse menos pesado, como se constantemente estivesse a andar lado a lado com a própria razão desse andar, e tudo fluía, os problemas eram abraçados em vez de lamentados até à exaustão, porque eram parte do caminho, como se houvesse um plano. Era tudo mais simples, e eu era mais livre. Sinto que esta ideia, que se espalhou pelo mundo intelectual de que a espiritualidade é uma prisão castradora dos nossos instintos, não faz mais do que criar outro tipo de prisão, invisível, silenciosa, ignorante, desorientada. E de repente temos todo um mundo de fugas, feita de alucinogénios, de cocaína, de retiros que nos oferecem um pacote espiritual de fim de semana, como injecção que vai durar tanto tempo quanto esses dois dias de emoção extrema “instagramada” ao minuto. Há este buraco fundo, há esta ausência de profundidade para o entender e a ausência de armas e tempo para o desvendar. Não sei o que é suposto dizer esta crónica para além de apontar este vazio, porque à medida que os anos passam ouço mais histórias de gente a chorar sem razão.
Sei que ler um bom livro é melhor do que passar os olhos por um artigo de net sobre nada, que ouvir um bom disco é melhor que um “shuffle” pelos “hits” da semana, que ver um bom filme é melhor que o “diário da casa dos segredos”; que ir a uma boa exposição é melhor que um dia no “shopping”, e que ter tempo para perceber a partir do nosso interior o que existe para lá de nós é melhor que chegarmos ao fim do dia perdidos e acharmos que estamos sozinhos.


Tiago Bettencourt, compositor, Visão nº1207, de 21/04/2016 a 27/04/2016, p.102.

Ecologia integral



Com José Joaquim Gomes Canotilho (que lembra a ideia de "casa comum" e de bem comum em Aristóteles, recuperada por Tomás de Aquino e muito viva no pensamento social católico), Helena Freitas (que recupera o momento pré-cimeira sobre o Clima, em Paris, e o empurrão determinante do Papa Francisco), José Carlos Seabra Pereira, João Filipe Queiró, João Carlos Sosa Marqus e António Xavier Pereira Coutinho, a discussão, que passou também pela nova síntese a surgir, em ecumenismo, e onde, com a crise do trabalho, novas formas de reconhecimento do humano, porventura não materiais terão de surgir, com o Cardeal Patriarca D.Manuel Clemente da encíclica Laudato Si, na Biblioteca Joanina, em Coimbra. Para ouvir, ainda, o Cântico das Criaturas , de Francisco de Assis, dito por Fernando Alves. O trabalho de Manuel Villas Boas, na TSF

Ninguém quer os filósofos (II)


Leon Wieseltier, este Domingo, no ElPais, entrevistado por Marc Bassets:

La influencia más poderosa, no sólo en la gestión de la política contemporánea, sino en la cultura contemporánea son los datos. Debido a las cantidades inimaginablemente altas de datos que generan las nuevas tecnologías, poseemos más números que nunca. Y esto suscita una cuestión básica: qué relación debe haber entre cuantificación y cultura, qué puede captar un número y qué no. Se les pide a los números que capten fenómenos humanos que no pueden captar. Se inventan medidas para dimensiones de la experiencia humana para las que no existen medidas: sólo palabras y descripciones, descripciones son matizadas, sutiles. (...)  El humanismo es una ética: la creencia en la solidaridad universal que los humanos deberían tener. También es la creencia en que algunos ámbitos de la vida humana no pueden entenderse de la manera que la ciencia entiende las cosas. No es que el humanismo sea el enemigo de la ciencia: es el enemigo de la ciencia imperialista. Vivimos en una edad dorada del imperialismo científico y económico. En la sociedad americana, por ejemplo, las máximas autoridades en materia de felicidad son los economistas, lo cual es grotesco. (...) Es cierto que en el siglo XIX hubo pensadores alemanes que concluyeron que la vida humana interior, la subjetividad, no podía entenderse con los mismos métodos que las ciencias naturales. Y tenían razón. Aunque el 99,9% de una persona pueda explicarse con los métodos de las ciencias naturales, el 0,1% que queda es a lo que me refiero cuando hablo de la persona humana. La diferencia humana escapa a la explicación científica. Es posible que las humanidades y las ciencias estudien lo mismo, la vida humana, pero la estudian de manera distinta. La comprensión de la poesía por medio de la genética tiene tan poco sentido como la comprensión de la genética por medio de la poesía. Sabemos que las humanidades y las ciencias pueden florecer al mismo tiempo, excepto cuando la ciencia y la tecnología se vuelven arrogantes sobre su lugar en la vida humana. La cuestión sobre el lugar que ocupa la ciencia en la vida humana no es una cuestión científica. Es una cuestión filosófica. La ciencia no puede decirnos qué lugar debe ocupar la ciencia. Cuando las ciencias imponen su autoridad más allá de los límites de su propio ámbito, la ciencia se transforma en cientismo, que es algo distinto. La ciencia es la ciencia y nadie en sus cabales no la apoyaría y estaría agradecido por lo que hace, pero el cientismo es una ideología sobre cómo entender la vida humana. Es una versión del materialismo (...) Siempre hubo una tensión entre las humanidades y las ciencias naturales. Siempre hubo también una armonía. Pero hubo un tiempo en que las humanidades tuvieron un prestigio mucho mayor en las sociedades occidentales. El prestigio de las humanidades en la sociedad americana nunca ha sido más bajo. La sociedad americana todavía se ha vuelto más utilitaria de lo que ya era. El pragmatismo es el culto de la practicalidad, de la utilidad, de los resultados. Todos es una transacción. Todas las complejidades, ambigüedades, ambivalencias, oscuridades que las humanidades nos enseñan a reconocer han sido borradas. Todo se trata de un modo utilitario. (...) Si mira cómo se justifican las humanidades en Estados Unidos, se hace sobre bases utilitarias. Los teatros son importantes, ¿por qué? Porque revitalizan barrios. Los licenciados en inglés son útiles, ¿por qué? Porque muchos consiguen trabajo en McKinsey. Ya no es legítimo defender las humanidades intrínsecamente, por su mismo valor. Si quieres defenderlas, debe ser por sus resultados sociales y económicos, mientras que la verdadera línea de defensa de las humanidades tiene que ver con el cultivo de la personalidad y la educación del individuo: la idea es que un individuo expuesto a las humanidades, que ha tenido su mente, corazón y espíritu educado por las artes, será un mejor amigo, un mejor padre, un mejor marido o mujer, una mejor madre un mejor ciudadano, un mejor vecino. Este es el beneficio: no llevará a resultados económicos, y no hay manera de medirlo (...) Ha elevado la tecnología a una centralidad en las vidas individuales como nunca antes. Ha alentado ciertos hábitos mentales y desalentado otros que tiene un impacto en lo preparados estamos ante las humanidades. Internet es el mayor asalto a la atención humana que jamás se haya diseñado. Es una guerra contra la atención, contra el tiempo: todo tiene que ver con la rapidez. (...) Hay que resistir. El acto más revolucionario que uno pueda hacer, fuera de la política, es ralentelizar: la desaceleración. Hay una cosa con la que Internet nunca acabará, y me da igual lo que diga Google, o lo que planee: es la realidad física. El cuerpo, el árbol allí fuera, el edificio de enfrente, el cuerpo de tu novia. La experiencia física, la experiencia de los sentidos. Esto ofrece alguna resistencia a todo esto. Y algunas artes. No puedes acelerar la música. Si no te gusta una sinfonía de Mahler, te marchas del concierto, no puedes hacer que la toquen más rápido

Na íntegra, aqui.

E ler ainda este texto de Óscar Martinez.

Ninguém quer os filósofos


Este Domingo, em ElPais, não apenas o já recorrente lamento pela perda das Humanidades, na Universidade, mas, mais do que isso, uma dimensão propositiva para remar contra a maré. Quem lida com a rapaziada antes mesmo de esta entrar em diálogo crítico com o que a sociedade lhe transmite, e portanto ouve despejar o mais estreito, dogmático e ingénuo positivismo, tem bem a noção de quão grande é tarefa e poucos os braços:



Nadie quiere los filósofos

La crisis por la que atraviesan los estudios de humanidades no solo en España, sino en el mundo entero, era perfectamente previsible desde los albores de la revolución industrial. Lo que se fundó en la Grecia clásica —el amor por el saber— y se mantuvo en Roma —la alabanza del ocio y el menosprecio del negocio—; aquello que las órdenes monásticas conservaron durante la Edad Media; aquello que resurgió con una insólita pujanza durante el Renacimiento europeo, luego durante la Ilustración y en buena medida en las universidades del siglo XIX siguiendo el ejemplo de la reforma universitaria de Humboldt en Berlín, todo eso empezó a librar ya a mediados de ese mismo siglo una batalla muy dura contra un enemigo de potencia no solo no prevista, sino también incalculable. El hombre de estudio, la mujer de artes o letras, vieron, a lo largo del gran siglo de la burguesía y de todo el siglo XX cómo la legitimidad de su quehacer quedaba mermada y amenazada a causa del desarrollo de la ciencia, la industria, el comercio y la técnica.
En 1872, Flaubert lamentaba el desequilibrio que un nuevo plan de estudios para el bachillerato en Francia exhibía entre algo tan elemental como el deporte —que ya no tenía en Europa el destino agónico que había tenido en Grecia o Roma— y la enseñanza de la literatura, de la que apenas se hablaba. Con mayor énfasis, escribió lo siguiente sobre el mismo asunto: "Estoy asustado, aterrorizado, escandalizado por las gilipolleces cardinales que gobiernan a los seres humanos. Eso es algo nuevo; por lo menos en el grado en que se produce. Las ganas de alcanzar el éxito, la necesidad de triunfar a toda costa —debido al provecho económico que se obtiene— le ha minado a la literatura la moral hasta tal punto que la gente se está volviendo idiota".
Él, como tantos otros autores que empezaron entonces a reflexionar sobre el descrédito progresivo de las humanidades, no poseía distancia suficiente respecto a las causas de tal descalabro. Hoy sí la tenemos. Al auge del comercio, las ciencias, la industria y la técnica, hay que sumarle, en los últimos 30 años por lo menos, un nuevo factor, imprevisible hace un siglo y medio: el auge de las nuevas tecnologías. Los filósofos que heredaron la preocupación por este asunto a la sombra de Heidegger o de Jaspers no parecieron alarmarse cuando el fenómeno de esas brillantes tecnologías y los ingenios digitales irrumpieron progresivamente en la vida cotidiana de todo el orbe. La inocencia con la que se recibió ese alarde del progreso técnico-científico se ha transformado, ya en nuestros días, en una preocupación —solo para algunos, este es el problema—, sin que se atisbe la posibilidad de alcanzar alguna solución. Estamos ya, propiamente, en lo que ha venido en denominarse la era poshumana, en el bien entendido que nos hallamos en la era en la que el ente, el ser, no es más que un flatus vocis: una nadería nostálgica, un recuerdo de tiempos pasados en los que filosofía, religión, moral y estética otorgaban a esa palabra un valor casi tan alto como el que se otorgaba a Dios o a la muerte.
Esto nos lleva a analizar otros factores, no menudos, del descrédito de las humanidades en las universidades de España y de casi todo el mundo: la religión ha perdido adeptos en todas partes, y con ella han desaparecido los referentes trascendentales que actuaban, con sordina pero con eficacia, en todas las sociedades y sus cultos; los nuevos estilos musicales, de los que los jóvenes no pueden prescindir en sus momentos de ocio, han venido a suplantar el carácter órfico —y por ello, sagrado— de la mal denominada música clásica; el uso universal de los teléfonos llamados inteligentes rebajan sin pausa la inteligencia de aquellos que podrían dedicar su ocio a cualquier otro tipo de actividad y destierran la conversación, además de haber provocado la desaparición de las áreas de privacidad que tanto convienen al ser que piensa y actúa mediatamente; el subsiguiente descrédito de la lectura anula la posibilidad de que exista algo así como un imaginario subjetivo, en beneficio del llamado imaginario colectivo, que viene a ser lo mismo que la aceptación sumisa de la opinión común —todo lo contrario de la operación de discurrir en primera persona—, asumida esta sin el menor atisbo de crítica; el mercado laboral lo es de profesiones consideradas productivas y necesarias, y apenas de las profesiones en las que el saber humanístico podría multiplicarse y difundirse, como es el caso de la educación —hoy vencida y desarmada en España— a todos sus niveles.
No podemos tener la certeza de que tal estado de cosas vaya a cambiar en favor de un lugar honroso para las humanidades. Seguirá habiendo filólogos, artistas, historiadores y filósofos; seguirá habiendo escritores y lectores; algunos centros urbanos de difusión cultural seguirán abiertos y más o menos activos, pero todo lo que se relacione con el ser y sus problemas fundamentales parecerá superfluo, en estado de letargia y, en el mejor de los casos, será escenario de heroísmo para renitentes.
A esta cuestión queríamos llegar. Los planes de estudio de las facultades universitarias de humanidades irán a peor, en favor de las banalidades que ha generado la era de lo llamado políticamente correcto: una alquimia en la que se funden los feminismos y homosexualismos más insolventes con los estudios coloniales más improductivos y las ridiculeces más espantosas como métodos de análisis y crítica del saber humanístico heredado. Pero toda persona vinculada a la enseñanza de las humanidades puede, si no modificar esas tendencias disolventes de las litterae humaniores, sí otorgar a sus actividades un trasfondo y un alcance que minen hasta los cimientos esos falsos edificios del saber. A nuestro juicio, no hay más solución para las facultades humanísticas que implicarlas en la vida cotidiana de la polis, o sea, convertir las humanidades en la punta de lanza de una restauración de la políticaque es como actuar en beneficio de la ciudadanía en aquello en lo que ni las ciencias ni las técnicas pueden hacer mucho—; transformar todas las escenas del saber humanístico en el gran aliado del progreso espiritual de una nación y de sus ciudadanos. Por ejemplo, enviar a los estudiantes de los últimos cursos a comentar las grandes o menos grandes obras de la literatura universal en las bibliotecas públicas; no obligar a los profesores a hacer gestión académica, algo que los convierte en burócratas, sino agitación cultural más allá de sus muros; convertir a profesores y alumnos avanzados en asesores de centros de creación y difusión de la cultura; mandar a todos ellos a los diarios del país para favorecer un periodismo de mayor alcance cultural; invitar a cualquier empresario del mundo de la técnica, la informática, los negocios, y lo que sea, a contratar antes a un graduado que, siéndolo en la profesión adecuada y pertinente, lo sea también en cualquier rama de las humanidades, como ya sucede en Estados Unidos, para satisfacción incluso del rendimiento de sus empresas. Porque no es factible suponer que unos buenos estudios de humanidades (como todavía pueden cursarse en escasos centros universitarios del mundo entero, pues casi todos han quedado arruinados por el efecto de metodologías "seculares") resulten suficientes para obtener legitimidad en las sociedades actuales si no salen de las cuatro paredes de los centros universitarios.
Su papel tendrá que ser, en el futuro, el de una rigurosa resistencia, el de un profundo conocimiento del pasado, el de la transmisión eficaz de ese saber antiguo en provecho del futuro antes de que todo el mundo caiga en la "amnesia institucionalizada" de que ha hablado George Steiner. Pero, sobre todo, si los profesionales de las humanidades quieren por una vez actuar con sentido común y eficacia, su papel habrá de ser el de garantes de la permeabilidad entre las instituciones sabias a las que pertenecen y el progreso de la sabiduría, la democracia y la dignidad del ser entre los ciudadanos de un país entero.

Jordi Llovet es catedrático de Literatura Comparada de la Universidad de Barcelona, ElPais, 24/04/2016.

Outros factos


96 mil crianças pediram asilo à Europa, em 2015. Ou seja, quase 100 mil crianças chegaram sozinhas à Europa, em fuga de guerras.

domingo, 24 de abril de 2016

Escola e diversidade cultural


A escola portuguesa na qual convivem um maior número de nacionalidades é a Escola Dr.Azevedo Neves, na Damaia: aí partilham estudos alunos de 23 nacionalidades diferentes.

sábado, 23 de abril de 2016

Deus


Se eu tivesse de apresentar uma sucinta «definição de Deus», diria: Deus é a profundidade em que entramos quando nos transcendemos, amando.

Tomás Halík, Quero que tu sejas!, p.140.

Amor


Se eu tivesse de apresentar alguma definição sucinta de amor, seria esta provavelmente: Nós amamos realmente aquilo a que somos capazes de dar prioridade sobre o eu.

T.Halík, Quero que tu sejas!, p.140.

Emigração


Porque discrepam tão substantivamente os dados do Observatório da Emigração para as estatísticas do INE, relativamente à emigração portuguesa nos últimos (quinze) anos?

a) metodologia do Observatório da Emigração: tem como base informação obtida nos países de destino. Indivíduos portugueses considerados imigrantes de acordo com os critérios adoptados pelos países de destino. Mas estes critérios variam de país para país.

b) metodologia do INE: baseia-se em informação recolhida em território nacional, junto das famílias, para perceber se os indivíduos, de nacionalidade portuguesa ou estrangeira, que abandonaram o país, tentando perceber se o fizeram com intenção de permanecer no estrangeiro por mais, ou menos, de um ano.

Segundo o Observatório da Emigração, entre 2011-2014 houve 395 mil emigrantes
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, no mesmo período, emigraram 485128 pessoas de Portugal.

Para o período 2001-2010, a diferença é ainda mais significativa: 695 mil face a 144121 emigrantes, respectivamente, em função da instituição que produziu tal estatística.


sexta-feira, 22 de abril de 2016

Deus Caritas Est (III)


(Estou grato ao Papa Bento [Deus Caritas Est, nº7] por sublinhar que o amor cristão não é apenas ágape espiritual, que ele nunca pode abandonar o eros. O eros sem o ágape degenera, caindo em qualquer coisa meramente instintiva, ao passo que o ágape sem o eros transforma-se numa enfadonha abstracção idealista).

Tomás Halík, Que que tu sejas!, 2016, p.59.

Deus Caritas Est (II)


A primeira encíclica do Papa Bento XVI surpreendeu muita gente com o seu eloquente hino ao amor (assim a descreveu o Times, de Londres).

Michael Paul Gallagher, Mapas de fé. Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger, Frente e Verso, 2015, p.211.

O regresso



Por vezes, o regresso à infância é uma canção, uma voz. A cantar Rui Veloso desde 1990. Depois de um interregno, lançando desafios com necessária acutilância - como é possível grandes da música como jurados, em vez de um grande programa musical com os verdadeiros em palco, aos Domingos à noite na televisão? -, num país que olhou com tristeza, ei-lo de novo (para quando, no entanto, um novo álbum, que já tarda?) na estrada. Hoje, depois da meia-noite, vou escutá-lo e cantá-lo por Vila Real.



P.S.: o concerto terminou, eram 3h25 da madrugada, com Rui Veloso a cantar Purple Rain, em homenagem a Prince. Nenhuma canção do último álbum teve direito a presença no espectáculo (talvez porque integrando canções mais próprias de um espaço mais intimista). A malta dos 20, em "suspensão da descrença", ainda canta a plenos pulmões o Não há estrelas no Céu que fez parte da minha participação, com colegas, na festa de despedida da...4ª classe.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Deus Caritas Est


Para Halík, a Deus Caritas Est é "possivelmente a mais bela encíclica papal jamais publicada" (p.142, Quero que tu sejas!, 2016).

De onde vem o bem?


Muitas vezes me tenho interrogado, mas sem encontrar resposta,
sobre de onde provém a doçura e a bondade.
Ainda hoje não o sei, e agora tenho de partir.

Gottfried Benn



[citado por Tomás Halík, em Quero que tu sejas!,p.13. Halík pretende manter a interrogação que o poema convoca; há perguntas que de tão boas não devem sair desse estádio, assinala. E, se em outro tempo, o mal - extremo - levou a que a maior pergunta fosse como é possível o mal se há Deus, hoje com o mal banalizado a pergunta mais pertinente pode ser de onde vem o bem]

Lei


Quando ouço, sucessivamente, dizer que a lei é a ética (republicana) fico a pensar que apesar de todas as recepções apaixonadas de Antígona, bem pôde Steiner fazer uma bela monografia, é apenas a voz de Creonte que parece ter sido escutada. Como se não houvesse razão outra que a da cidade, como se esta devesse ser deificada, como se não tivéssemos recursos para a criticar, como se a utopia da lei perfeita própria, a imanência auto-suficiente nos tivesse trazido grandes glórias.

Do estado do mundo (II)


Para uma segunda crónica radiofónica, na ufm, partindo do livro de Loretta Napoleoni:


É curioso notar, hoje, como o salafismo surge, na segunda metade do século XIX, como um movimento de reforma no Islão inspirado pela admiração pelo avanço e modernidade Ocidentais, face à estagnação e declínio do mundo muçulmano, assacadas ao então Império Otomano. Todavia, com a colonização ocidental a estender-se ao Médio Oriente, as culpas pelo estado de coisas passam a ter como alvo o Ocidente. Muito especialmente, a divulgação do acordo secreto Sykes-Picot, de 1916, prevendo, no final da I Guerra Mundial, a divisão de Síria e Iraque entre franceses e britânicos, depois das promessas feitas aos árabes de uma nação árabe independente, em troca de ajuda aos Aliados, fez explodir os ânimos. Em realidade, e em particular no pós-1950 onde as ideias de fazer renascer o Califado se fazem sentir, o foco maior de movimentos políticos e militares, ditos ancorados no Islão, radicados no Médio-Oriente, vem a ser a remoção de oligarquias corruptas regionais unidas a potências do Ocidente. Neste sentido, e por muito surpreendente que isto nos soe, em muitos meios do islamismo foi mal compreendida a acção do 11 de Setembro de 2001, na medida em que a recomposição do xadrez político pretendia-se no Médio Oriente e não num longínquo EUA. Do mesmo modo, diferentemente do muitas vezes escutado, Saddam Hussein dirigiu, no Iraque, um país crescentemente moldado por regras que habilmente se colavam ao religioso: por exemplo, ao proibir as mulheres de trabalharem em instituições públicas, Saddam reduziu o desemprego a metade; a religião servia de véu que ocultava os erros do seu governo.
Tal como no passado do Ocidente, os cismas religiosos têm gerado, desde antanho, formas de vida violenta no Islão: a primeira guerra civil entre muçulmanos data, aliás, de 655. Hoje, são os xiitas os perseguidos, num genocídio que visa tanto evitar qualquer rebelião no interior do califado (a estabelecer) quanto a secularização. A violência extrema que chega aos nossos diferentes ecrãs, das redes sociais aos telejornais, não difere, contudo, do que sucedeu no Kosovo, em meados dos anos 90. Mas a combinação desta repressão (extremamente mediatizada e, portanto, eficaz como nunca) que instala o medo, com o fornecimento (pela mesma organização, mas através de diferentes membros; podemos ter, em simultâneo, combatentes do Estado Islâmico a saquear, e adeptos do Estado Islâmico a distribuir) de vacinas contra a polieomielite, a gestão de panificadoras, o providenciar de frutas e legumes, a sopa dos pobres, o fornecimento de electricidade, a reparação de cabos eléctricos, o conserto de buracos na estrada, o transporte de pessoas de autocarro, a construção de mercados públicos mostra um sentido estratégico e possibilidades de consenso social extremamente desafiadores e perigosos.
Com a guerra por procuração, com a privatização do terrorismo, com financiadores múltiplos (por vezes, com ideias divergentes), o Estado Islâmico como que pode ir ao mercado financiar-se. Hoje, estima-se que a sua riqueza ronde os 2 mil milhões de dólares – pese o decréscimo de proveitos, anunciado na última semana, relativos ao ano de 2015 e pese, ainda, o facto de este indicador estar muito longe dos 8 a 14 mil milhões de dólares com que era estimada a riqueza da OLP, de Arafat, a meio da década de 90. A anexação de recursos produtivos, como poços petróleos e redes elétricas na Síria, as taxas sobre empresas e bens de consumo, ou venda de armas completam um extenso rol de fontes de financiamento desta organização que apresenta uma espécie de relatório e contas anual, com técnicas sofisticadas de contabilidade à maneira de uma grande multinacional, onde chega a ser descrito o custo detalhado de cada missão suicida. Ademais, a manipulação e apelo da História, o Iraque invadido a recordar a invasão mongol do século XIII, e a manipulação do religioso (note-se que um soldado raso auferirá cerca de 41 dólares/mês, no Estado Islâmico, segundo dados do Departamento de Defesa dos EUA, o que sugere um espírito de missão) constituem um caldo de cultura que remete para a urgência de travar, nos mais diversos tabuleiros (nomeadamente, elaborando, também, a guerra pelos corações), um movimento que em alcançando um Estado-nação, um califado que ultrapasse, claramente, as áreas Síria e Iraquiana, poderá criar uma situação de facto muito complicada a todo o mundo. Loretta Napoleoni deixa-nos em A Fénix Islâmica um conjunto de questões muito significativas, das quais destacaria duas. Uma é se “poderão o Ocidente e o mundo permitir a existência de um Estado fora-da-lei às portas da Europa e mais perto ainda de Israel”. A segunda, que de modo eloquente expõe os termos dos jogos de xadrez e de uma realpolitik com um sangue-frio arrepiante, é a seguinte: se, alguma vez, o Estado Islâmico, hoje com a capital em Raqqa (Síria), adquirir o consenso e legitimidade junto das populações, chegando a um (embrionário) estado-nação, “não seria [nesse caso] melhor integrar esse Estado na comunidade internacional, forçando-o assim a respeitar leis internacionais, antes que ele redesenhe completamente o mapa do Médio-Oriente em nossa desvantagem?” (p.63)

Boa semana.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

"Estado Islâmico"?


A Casa Branca e Downing Street usam ISIL, ao passo que os media dos EUA preferem ISIS. A PBS, contudo, favorece Islamic State, e alguns media australianos adoptaram o termo Islamic State Group, para evitar a impressão de que se trata de um Estado em vez de uma organização armada. De um modo geral, em inglês, os acrónimos ISIS e ISIL soam melhor do que IS, donde a sua popularidade. A relutância dos políticos em recorrer à palavra «Estado» advém do medo de aceitar, mesmo que apenas com uma palavra, a reivindicação do Estado Islâmico de que não são uma organização terrorista mas sim um Estado tornado legítimo por uma guerra de conquista e pelo consenso interno (...) Na minha opinião, o termo «Estado Islâmico» transmite ao mundo uma mensagem mais realista do que EIIS ou EIIL (em inglês, ISIS ou ISIL). Esta mensagem tem que ver com a determinação do grupo em construir uma versão bem-sucedida do califado no século XXI.

Loretta Napoleoni, A Fénix Islâmica, pp.10-11.

domingo, 17 de abril de 2016

Do estado do mundo



Crónica semanal na universidadefm


A degeneração/desagregação de muitos Estados, em particular na última década, em África e no Médio-Oriente, constitui o pano de fundo de um sem número de conflitos larvar que, longe de revestirem a fisionomia dos belicismos mundiais do século XX, retomam a feição de guerras pré-modernas, por procuração, com mercenários, milícias, lutas tribais a integrarem/constituírem tais confrontos pelo controlo de um território e a posse dos recursos deste. Em África, as consequências das mudanças climáticas, juntamente com a depredação dos recursos naturais, e, bem assim, no Iraque as sanções económicas durante uma década levaram a que o estádio de pobreza das populações, hoje exposto pela globalização (as pessoas dão-se conta das condições em que se encontram e produzem comparações com a realidade envolvente; nos últimos anos, em tirando milhões da pobreza em países como China, ou Índia, passando pelo Brasil, a globalização produziu crescentes desigualdades no interior dos países e, ainda na competição entre estes, não gerou, apenas, vencedores), se tornasse um detonador explosivo (atente-se em como, após uma década de sanções económicas, "a nação com o mais elevado nível de educação no mundo árabe [o Iraque] passasse a não conceder às mulheres o direito de trabalhar", Loretta Napoleoni, A Fénix Islâmica, 2015, p.104).
Ora, no meio desta tormenta, num mundo multipolar no qual as decisões globais parecem permanentemente vetadas por alguma grande potência (ainda que por motivos diversos), emerge uma organização como o chamado Estado Islâmico [para Nuno Rogeiro, Dito Estado Dito Islâmico] que, dominando alguns enclaves na Síria, pretende erigir um Estado-nação de vinculação étnico-religiosa. Um Estado, de resto, com o objectivo de reunir as clássicas características de territorialidade, soberania, legitimidade e burocracia
Por agora, é certo, apenas a dimensão territorial, com a referida implantação em algumas zonas muito delimitadas, estará satisfeita, mas o facto de esta estrutura aproveitar rendimentos de poços de petróleo, ou de barragens para os transformar em infra-estruturas de cariz social, ou, ainda, de propiciar a segurança de algumas populações indica, já, como o vector da legitimidade é tão procurado.
Na conquista da legitimidade, observamos como uma elite altamente profissional - esta elite profissionalizada pode ter feito a diferença, em termos de eficácia, relativamente aos núcleos menos sofisticados na vanguarda das primaveras Árabes, rumo a uma democratização tão pretendida quanto mal sucedida -, com concurso de gente qualificada (também) do Ocidente, consegue seduzir muitos adeptos/seguidores (alegadamente, existirão no dito Estado islâmico, 12 mil combatentes estrangeiros, 2200 dos quais de origem europeia) nas redes sociais - aspecto este que, por exemplo, os talibãs descuravam, tal como repudiavam a música ou a tv.
Um aspecto curioso a assinalar, neste âmbito, passou pela utilização de hashtags como Brasil2014 durante o último Mundial de futebol, procurando que, indo ao engano, o utilizador do twitter fosse seduzido por vídeos daquela organização terrorista.
Mas mais radicalmente: até que ponto o idealismo inerente à formulação e formação/concretização de um Estado Islâmico puro, construído de raíz, baseado numa versão fundamentalista do Islão, um projecto a ser concebido inteiramente a partir do zero não é ambição que seduz muitos jovens? Loretta Napoleoni, em A fénix Islâmica, uma obra de referência neste domínio, faz uma tangente à História: em 1940 a ideia de criação de um Estado sionista não parecia (também) uma utopia, mas, igualmente, não era susceptível, então, de apaixonar gerações de judeus? (como hoje algumas gerações de muçulmanos, mesmo na diáspora, poderão ser seduzidos por este projecto). 
Muitos outros jovens, porém, que ingressam nestas fileiras parecem não ter nenhum outro sonho senão o do nihilismo: umas férias de destruição, uma aventura guerreira inclemente (os estrangeiros, na Síria, parecem ser os menos piedosos dos combatentes).
Entre miasmas múltiplos de conflitos infindáveis e o sonho totalitário de uma unidade sem direito à diferença no Médio-Oriente, assim vai o mundo que continuaremos a perscrutar na próxima semana.

Até lá, fique bem.

Do sheol resgatado


Ratzinger, no seu livro sobre a escatologia, citado por T.Halík, na nota de rodapé 16 do seu novo livro, Quero que tu sejas!

«Com a descida de Jesus, o próprio Deus desceu ao Sheol; por conseguinte, a morte deixa de ser uma terra tenebrosa e esquecida e um lugar de alienação implacável em relação a Deus. Em Cristo, o próprio Deus desceu à terra da morte e transformou-a de lugar sem comunicação em espaço da sua presença»

Da importância da CRP (IV)


[Sobre a eventual subjectividade na interpretação constitucional]

A interpretação jurídica nunca é matemática. No campo do direito constitucional muito menos, porque está muito envolvido por condicionantes de ordem política e de concepção jurídica. É natural que os juízes tenham pré-compreensões e entendimentos diferentes. Mas isso também acontece no Supremo Tribunal de Justiça.

Jorge Miranda, Idem.

sábado, 16 de abril de 2016

Tripalium


A palavra trabalho deriva, etimologicamente, do latim tripalium, instrumento de tortura usado para punir os escravos, na Antiga Roma. Evoco, sempre, esta etimologia, quando me são marcadas reuniões com objecto impreciso, desnecessário, contraproducente, susceptível de criar um caldo de cultura para um desabafo colectivo que prolonga a jornada muito para lá do razoável. E nesse período desconfortável, as conversas paralelas, a tensão pelo estar(-se) contrariado, as palavras mal interpretadas geram um ruído perfeitamente dispensável. O acometimento burocrático que se apodera de cada pedaço institucional transforma muita realidade em artificial, estimula a desconfiança, aduz sombra ao que era claro, transmuta em farsa o que é mais nobre.

Da importância da CRP (III)


[Repercussões da CRP em outras experiências constitucionais]

Não deixa de ser significativo que [a CRP] tenha tido grande influência nas construções das constituições Espanhola, Brasileira, dos PALOP e de Timor Leste. Sobretudo nos direitos fundamentais a CRP foi o modelo seguido.

Jorge Miranda, Idem.

Da importância da CRP (II)


[Quais as principais referências da CRP?]

Principalmente, a Constituição Italiana de 1957 e a Alemã de 1949, ambas de países saídos de ditaduras, que consagravam o estado social de direito (...) Também entraram elementos vindos de constituições de países marxistas-leninistas, alguns ingredientes de utopia trazidos também por deputados do PS e do PSD. Nenhum partido tinha maioria absoluta, por isso teve de se chegar a um compromisso. As comissões foram importantíssimas.

Jorge Miranda, Idem.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Da importância da CRP


Em países socialmente muito adiantados como os estados nórdicos, as constituições quase não têm direitos sociais. Mas não têm porque a realidade já os concretizou. No caso português, em que houve uma paragem no tempo de muitas décadas, se não fosse a CRP não haveria Serviço Nacional de Saúde, nem o progresso na Educação ou na Segurança Social. A CRP abriu este caminho.

Jorge Miranda, Um baluarte da democracia, entrevista concedida a Manuel Halpern, Jornal de Letras, ano XXXV, nº1187, de 30 de Março a 12 de Abril, p.7

Para a lenda



O jogo do ano. Com a atmosfera merecida. Para a lenda do futebol europeu.


Noite


Lendo o último Tomás Halík, partindo de João da Cruz:

A sede é a única luz na noite.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Agora escolha

       capa jornal record

Do comentariado futebolístico de cá



1.No final do Bayern-slb, da primeira mão dos 1/4 final da Champions, fomos brindados com um comentador da RTP que, com a isenção característica, nos disse que "a UEFA quer o Bayern e o Barcelona nas meias-finais".
2.A ser assim, temos que concluir que há instituições que superintendem o futebol que têm preferências quanto aos vencedores das suas competições (ou, pelo menos, têm preferência por quem chega ao último estádio das suas competições).
3.Se a Uefa tinha preferência pela ida do Barcelona às meias-finais, dado objectivo é afirmar que não conseguiu os seus intentos.
4.Se essa pretensão da Uefa se manifestava pela manipulação das arbitragens, como o comentário insinuava, não deixa de ser extraordinário que o maior erro de arbitragem da segunda-mão (nunca tão bem dito) dos 1/4 de final da Liga dos Campeões tenha sido a transformação de um claro penalty a favor do Barcelona - que, potencialmente, daria o 2-1 e a ida a prolongamento - num livre fora da área e a eliminação dos catalães.
5.Ademais, não deixa, igualmente, de ser interessante notar que só a nível internacional instituições que tutelam o futebol exibem favoritismos clubistas. Ou alguém acredita que se, a título de exemplo, a FPF, pelos mesmos meios daqueles atribuídos pelo comentador da RTP à Uefa, manifestasse algum tipo de preferência por um dado clube, nos últimos 3 anos, o comentador deixaria de se insurgir e denunciar?
6.Fazer acompanhar o discurso pretensamente científico e acima dos mortais para logo a seguir o misturar com os slogans batidos do café mais faccioso combina mal.
7.Em Portugal, ui, falar de árbitros "prejudica a indústria" e antigamente é que estes eram maus e havia marosca - agora, tudo nos conformes; lá fora, já a Uefa escolhe a dedo quem chega às meias finais da sua principal competição. Mesmo que os escolhidos sejam afastados, por erros graves, das ditas cujas.
8.Mas compreende-se: quando se lêem extractos de acórdãos de órgãos disciplinares do futebol português a garantir que não existe uma agressão que o país desportivo inteiro viu sem margem a dúvidas; quando se transforma uma cotovelada violenta numa disputa pela bola (!); quando se postula que uma agressão daquelas "normalmente não é punida com cartão vermelho"(!), quando se diz que o árbitro viu o lance e que entendeu prosseguir o jogo sem mais, quando se demoram 4 meses para conseguir tais pérolas não se pode atribuir o menor crédito à competição. De facto, que diferença há entre este acórdão e as palhaçadas habituais do sr.Jorge Ferreira, do sr.Nuno Almeida ou do sr.Bruno Paixão? Deve ser por isso que o comentador da RTP não lhes liga.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Do poder/influência


Sigo um pedaço da "oral", in english, de António Guterres, em mais uma etapa que visa a secretaria-geral da ONU. A sic notícias transmite e, nos entretantos de perguntas e moderação, especialistas escalpelizam em estúdio o que é dito. O pivot da estação está entre o emocionado e o eufórico, não poupando os adjectivos à emissão. Guterres acabara de demonstrar uma "assertividade incrível" e um "conhecimento dos dossiers arrasador" (sic). Com efeito, relativamente ao ex-PM, passámos de uma época em que a associação à sua imagem era o de alguém indeciso, não especialmente competente na chefia do Governo, etc. para uma outra em que tudo o que faça ou diga merece um olhar embevecido (e/ou acrítico). É interessante, aqui, convocar, sem excessiva necessidade de efabulação, o contrafactual: Guterres, como candidato à Presidência da República, em Janeiro último, teria, certamente, ouvido que foi com ele que o país iniciou a trajectória descendente, que "fugiu" do país, que era incapaz de dizer não a quem quer que fosse, que privatizou mais do que ninguém, que divagou pela terceira via, que não flexibilizou o mercado de trabalho quando havia pleno emprego, etc.etc. E, em realidade, mesmo nesta hora, diria especialmente nesta hora unanimista (outro unanimismo quase tinha havido, mas de sinal contrário e, então, era necessário sublinhar as virtudes e algumas das políticas corajosas que foram prosseguidas durante o seu consulado), não deve ignorar-se, por exemplo, como entre 1995-2001 (em cada um dos anos deste período) só tivemos políticas pró-cíclicas (como mostra, com crítica, o livro Sem crescimento não há consolidação orçamental, de um correlegionário de Guterres, Emanuel dos Santos), o contrário do que se tem consensualizado como boa governação. Dito isto, importa notar que Guterres ouviu do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa que se trata "da maior figura" da sua geração (a que Marcelo pertence); foi condecorado pelo Presidente da República Cavaco Silva (antigo adversário político maior); passou a integrar o Conselho de Estado; ligado à Gulbenkian, foi convidado em fóruns como o de Serralves, esteve nos programas de debate (dito de referência) na TV; participou nas jornadas parlamentares do PSD; viu a sua candidatura a secretário-geral da ONU congregar toda a diplomacia portuguesa e ser encarada como verdadeiro desígnio nacional. Nunca António Guterres gozou do prestígio/estatuto, e do consequente poder e influência, de que hoje goza - e, o ponto, para mim, também é este, prestígio e poder de que nem gozaria se se tivesse candidatado a PR, ou envolvido, de qualquer outro modo, na política interna. Há muitos motivos pelos quais as pessoas não se envolvem na política (partidária, ou quejanda). O caso de Guterres - 10 anos sem dar uma entrevista, tão fustigado saiu do Governo -, hoje, com muito mérito mas "beneficiando" da lógica tremendista/maniqueísta do nosso espaço público, quase 'idolatrado' ajuda a explicar porquê (sendo um militante socialista é quando se encontra num espaço sideral, (quase) assexuado politicamente (ou em termos partidários), que merece a vénia comum).

P.S.Vejo nos espaços noticiosos que além do inglês, Guterres voltou a mostrar a sua fluência no francês e espanhol. Notei que começou por onde sempre o fez: "Deus deu-me muitas oportunidades e a única forma de retribuir é no serviço público". E que os "bairros de lata de Lisboa" o impeliram para a arena política. Desde sempre, a parábola dos talentos (na sua interpretação mais convencional). Colocá-los a render como obrigação (ou, dito em termos seculares e rawlsianos, o mérito reside no treino dos talentos com que, sem concorrer com mérito algum, a natureza nos dotou). Rui Tavares, na RTP3, disse que "Guterres foi absolutamente brilhante" na ONU, ontem, e Ricardo Costa, no Expresso, afirma que mesmo conhecendo todas as qualidades do ex-ACNUR, ainda assim foi surpreendido pela positiva.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

Napoleões



Depois de muito se arremeter/brincar com um suposto carácter político napoleónico de António Costa, é afinal João Soares que parece estar numa fase difícil de relacionamento com a democracia.

Visões e imagens contemporâneas de Cristo (XI)




Robert Stadler, Instalação, na Igreja de São Paulo, em Paris, pela 6ª edição da Nuit Blanche, a 6 de Outubro de 2007.

Em Paris, em Outubro, temos uma noite destinada à criação, noite, por exemplo, de museus abertos. As Igrejas também ousam: elas abrem-se e dão carta branca ao artista. Em outras ocasiões, encontramos programas mais oficiais. Fazem-se filas. Os peregrinos (artistas) são muitos.
Na instalação de Robert Stadler, temos anamorfose. Olhada do fundo da Igreja, relativamente à nave central, um ponto de interrogação parece nitidamente delineado no horizonte. Um ponto de interrogação "por cima" da celebração eucarística, por cima do altar. E, todavia, consoante nos movemos, no interior da Igreja, assistimos a uma mutação das formas. Mas aquele ponto de interrogação, em realidade, foi capaz de captar muito do sentir dos nossos contemporâneos: Cristo mais como questão (do que resposta). Uma interrogação, ainda assim, aberta. E que na transformação das formas, na Igreja, pode evoluir para resposta. À medida que avançamos para a nave central, a interrogação vai-se desfazendo. Assentimento.
Na conceptualização desta instalação, o artista pensou na ilusão de óptica. Podemos mostrar escondendo - dimensão simbólica da arte. Podemos/devemos passar, pois, a uma interpretação espiritual do que nos é oferecido, mas sempre é fundamental parar na materialidade dos elementos (materialidade das coisas e nossa corporeidade).

Visões e imagens contemporâneas de Cristo (X)




Leonárd Foujita, Christ, 1967

Neste desenho do pintor nipónico-gaulês, temos um Cristo de cariz japonês. Foi a representação de Cristo levada a cabo por este autor que decorou a capela de Reims. Durante o seu percurso artístico, descobriu a arte ocidental, mas manteve-se sempre fiel a uma arte de representação oriental: todas as cenas da capela não correspondem ao cânone estético da nossa arte.

(cont.)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Visões e imagens contemporâneas de Cristo (IX)




Germaine Richier, Cruxifix, 1950

As representações de Jesus Cristo podem ser/foram, por vezes, lugar de conflito, no interior da própria Igreja. Atente-se, devidamente, no Crucifixo, criado por Germaine Richier, destinado a um local de acolhimento de doentes com dificuldades respiratórias. Um crucifixo concebido poucos anos após o final da II Guerra Mundial. Trabalhar com os melhores artistas de hoje. Deus precisa da melhor arte, pensava Alain-Marie Couturier. De aí a chamada a Richier. No Crucificado, na imagem, temos um Cristo sem rosto. Descarnado. O artista fora inspirado pelas pessoas saídas dos campos de concentração. E deixou-se impressionar pelo texto do servo sofredor, de Isaías, que remete para "alguém sem beleza". Foi encontrar os doentes da capela sanatória. A miséria das pessoas votadas ao isolamento. Uma obra duplamente inculturada na sua leitura da Bíblia, e na representação dos doentes. Infelizmente, este Cristo foi denunciado por teólogos da Faculdade de Teologia de Angers e foi retirado da capela. Seria substituído por um Cristo sem estilo, mas que espelhava a sensibilidade dominante. Mas seria o artista a ver a sua razão/o seu olhar prevalecer. Aquele crucifixo esteve 17 anos confiscado, escondido; todavia, mais de década e meia depois, seriam os paroquianos, os doentes a exigir "o nosso Cristo". Este seria, pois, reintegrado naquele local de culto. Conclusão de Cottin: "a própria verdade teológica está, muitas vezes, do lado dos artistas"

(cont.)

Visões e imagens contemporâneas de Cristo (VIII)

  

Alexander Kosolapov, Exposição Medium Religion, 2008.

Prosseguindo com a lição de Jerome Cottin (e confessando, primeiro, a dimensão agressiva, de uma certa repulsa que as imagens e a utilização das palavras em apreço, numa campanha publicitária, principiaram por me causar). Percebendo, num momento segundo, com o Professor de Estrasburgo, que estas imagens, de Alexander Kosolapov, podem ser lidas em dois sentidos opostos: num sentido não cristão, a sugestão de que o lugar da comunhão, hoje em dia, é o fast-food, os MacDonald's, as Coca-Colas (já não, numa sociedade secularizada, a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo); em sentido cristão, porém, estas imagens constituem-se como apelo/denúncia: há uma outra dimensão para perscrutar - para lá de todos os fast-food; há uma outra refeição à nossa espera. Já não estamos no domínio do mau alimento, mas do verdadeiro, profundo, único alimento de vida: Jesus Cristo

(cont.)

Do amoral ao imoral


Nesta terça-feira, de manhã, na TSF, escutava o Professor Luis Sousa, reputado especialista em corrupção, referir-se ao caso Panama Papers como uma não surpresa e apenas o corolário lógico "da ordem neoliberal dos últimos trinta anos, que é amoral". Exemplificando, Luís de Sousa expunha o paradigma dos vistos gold.  As declarações sobre Angola, que variam entre o desplante do pedido do ex-vice PM, Paulo Portas, para que não haja "judicialização" das nossas relações com Luanda [isto, na semana em que era noticiada a investigação a Manuel Vicente], os votos contra, na Assembleia da República, por parte de PCP,PSD e CDS, de uma declaração de condenação, pelo hemiciclo português, acerca do processo que envolve Luaty Beirão e outros legítimos contestatários do regime angolano, até à forma displicente como Jorge Coelho, ex-Mota Engil, afirma, a propósito, ou no seguimento de diálogo televisivo acerca do mesmo processo judicial, "que em Portugal ainda há quem veja Angola como uma colónia".
Mas mais do que isto convenhamos, se quisermos referirmo-nos a negócios da China. 

E, mais importante, aqui, releve-se a dimensão sistémica. Luis de Sousa não se referiu a uns quantos actos pessoais, de gente com maior ou menor escrúpulo, cidadãos de esquerda e de direita que estão envolvidos. A virtude pessoal não se distingue pela filiação ideológica, sabe qualquer pessoa que não seja fanática. Enveredar por uma análise pessoalizada é a forma mais fácil de empurrar a questão com a barriga. O investigador referiu-se, em realidade, repita-se, a uma dimensão sistémica, por detrás deste problema gigantesco que rouba milhões aos Estados e, em particular, a quem mais precisa e às classes médias. Reduzir tudo a comportamentos desviantes é pretender que tudo fique na mesma

Não deixa de ser irónico que este caso conheça a ribalta justamente quando em Portugal os mais ortodoxos, nos sites do costume, na análise do último Congresso do PSD, saudaram vivamente o rasgar da social-democracia, aconselhando mais liberalismo, disso é que o Partido Social Democrata precisa, disseram-nos. 
Neste instante, estes patuscos deixaram no congelador a teoria de que, em Portugal, só há partidos socialistas - muito embora, mal algumas coisas corram mal, em voltando (eu diria, mesmo não voltando) Passos ao poder, como aliás muito correu na legislatura anterior, logo o rótulo salte (Passos chegou a ser, não se ria, um perigoso socialista quando aumentou impostos; a discussão ideológica, que nesta altura, leia-se último fim de semana, parece que não tem interesse nenhum para muita gente, nesse tempo já interessava). 
E não, Passos não foi rigoroso quando afirmou, no primeiro discurso do congresso, que os comentadores lhe pediam para mudar e ele não muda. Sejamos claros: os comentadores que Passos lê, os ideólogos de Passos, o que lhe criticaram foi, precisamente, ter mudado quando inventou um slogan que era uma confissão de falhanço. E a ideólogos não interessa a realidade: havia que manter a ideologia. Passos gostou e sentiu-se confortável com as críticas; estas eram, mesmo, tinham como missão serem críticas de conforto. Mudou-se o slogan para o congresso - agora "compromisso reformista" embora pudesse ser "compromisso Portugal" -, mas bem mais: passou-se do "realizámos uma série de políticas que não queríamos, teve que ser, mas agora é que ia ser leite e mel" para um "tínhamos razão nas políticas que adoptámos e agora tínhamos uma segunda geração preparada", certamente com o ADN, celebrado no(s) forum certo, da primeira geração. A "linha justa" prossegue.
Passos, num Congresso no qual Pedro Duarte fez um discurso de um vazio confrangedor depois de muita empáfia ("vou falar do que o país deve ser a 10/15 anos"; e que país será esse? um "país que aposta na Matemática, nas Ciências, na Engenharia e nas Tecnologias; que aplica a investigação das universidades" Ena!), mostrando que não tem fibra - agora, ou daqui a dois anos - para estas andanças; em que José Eduardo Martins deixou em acta a "deriva ideológica do partido", o esquecimento a que votou os idosos, "a submissão" na Europa, o desprezo pelo "social" e no qual Paulo Rangel retomou - não vi isto notado por ninguém - o mesmo discurso do momento em que se candidatou à liderança do PSD frente a Passos Coelho - também aí o móbil, que faz todo o sentido, da "mobilidade social", a prioridade da educação (para Rangel, uma educação com outra agenda que não a do Governo; algo que, de resto, seria proveitoso discutir-se e que, quando escutei Pedro Duarte falar na educação e pedagogia ainda obsoleta e no século XIX, julguei que teríamos alguém capaz de trazer para destaque o contributo, muito interessante e pertinente, do Prof.Joaquim Azevedo, talvez a pessoa no país que mais sabe disto, estudioso do modelo jesuíta na Catalunha - e talvez do lead do DN onde um director desse colégio catalão dizia, precisamente, que temos uma escola que "ainda está no século XIX" - sobre a reforma da educação [já agora, pense-se nos modelos dos congressos: poderia Joaquim Azevedo, um quadro de relevância, e na área do PSD, ter 15 minutos de uma intervenção substantiva, em um conclave do género? A resposta, claro, é não]), o ganho com a aprendizagem com quem traz conhecimentos de sociedades para as quais migrou, ou até o simbólico - mas para mim, não ridículo - das denominações doutorais, fez daquele discurso, afora as hiperbólicas e gongóricas referências iniciais, muito de estilo comicieiro e para consumo interno exclusivamente, o melhor de entre os chamados "notáveis", que segui pela tv.
Já tristíssima foi a figura de Santana Lopes, destinado a assumir-se como o novo pai da pátria laranja - mas ser Marcelo não é para qualquer um e compare-se o entusiasmo com Marcelo Rebelo de Sousa, há dois anos, e o modo como foi recebido Santana Lopes -, encenando uma caricata corrida à jogador de futebol a caminho do púlpito (deu, pelo menos, para os apanhados dos telejornais), passando os habituais certificados de Sá Carneirização e, como um mestre-escola, admoestando os meninos que faltaram às aulas, mais ainda os que até estiveram noutras escolas e naquela não apareceram - que diferença para a categoria com que Marcelo falou, há dois anos, do modo como todos, ali, já tinham criticado todos, e como o PSD era um partido livre e aberto onde todos tinham espaço, e dificilmente alguém podia dar lições de moral -,  sempre sendo mais papista do que o Papa, num infantilismo - o Santana Lopes que na década de 90 marcava os congressos não o fazia pela reverência (velha), mas pela irreverência! - que naturalmente comoveu as hostes mais integristas (como se pôde ler nos sites do costume), mas não cativou uma alma fora dessa bolha.

sábado, 2 de abril de 2016

Uma obsessão com a Presidência


Pelo segundo Congresso consecutivo do PSD, Pedro Passos Coelho decide elaborar o perfil ideal do Presidente da República. Que é como quem diz, vencido mas não convencido. De forma insólita, e mesmo após a realização das Presidenciais, Passos não se exime de dar o seu contributo para um apuro conceptual das funções e modo de as exercer de um inquilino de Belém. Para quem negou, reiteradamente, que a expressão "catavento" fosse dirigida a Marcelo Rebelo de Sousa, estabelecer, hoje por hoje, que "o Presidente tem de tomar posição" - em particular, depois de Marcelo colocar todos os cenários possíveis acerca da exequibilidade do Orçamento de Estado 2016, sem se vincular a nenhum deles -, aparece como um modo mais polido de dizer o mesmo (que há dois anos), dirigido, de resto, à mesma personalidade. Por outro lado, no perfil já então desenhado pelo presidente do PSD, convinha à Presidência da República um fato bastante apertado, pouco interventivo - um fato que, então, Marcelo disse não lhe caber, isto é, não ser o fato que para si pretendia caso fosse candidato (embora, posteriormente, é certo, nos debates para as presidenciais tivesse baixado o perfil; todavia, como as primeiras semanas de Presidência têm mostrado, o perfil que vem sendo o escolhido é, mesmo, o de um Presidente interventivo). Nesse aspecto, Passos parece um pouco mudado: o Presidente tem que tomar posição e, mais do que isso, esta (posição) tem que estar conforme à "sua identidade política". É certo que Passos não disse (identidade) "partidária", mas "política". Sucede que falta saber se a interpretação do que essa "identidade" significa é unívoca: para Ferreira Leite, por exemplo, "o modelo inspirador" do Orçamento há pouco aprovado remete para a "incerteza", mas o "paradigma anterior", nas palavras da ex-líder do PSD, já continha uma certeza: "dar maus resultados". Quando Passos, já na manhã de Sábado, diz que o Presidente não deve ser "instrumentalizado" o que faz, na sequência do discurso da noite passada, é a tentativa de o influenciar (para o seu lado). O que, aliás, faz perfeitamente parte do jogo político. O que tudo visto e somado se constata é o actual momento de estado de graça do Presidente Marcelo - Passos deve ser a única pessoa no país que se lhe dirige como Rebelo de Sousa - e, mais do que isso, o papel (institucional) charneira que a Presidência pode (está a?) ter nesta legislatura. 


Visões e imagens contemporâneas de Cristo (VII)




Karl Schmidt-Rottluff, Cabeça de Cristo

Karl Schmidt Rottluff enquadra-se no conjunto de artistas que representam Cristo em âmbito de Inculturação, ou seja, "inserem" Cristo na época que retratam. Quem é/o que é Cristo "neste" tempo? Para falarem da sua época/cultura, diferentes artistas recorrem à figura de Cristo. Portanto, passamos do paradigma da apropriação individual de Cristo, para uma dimensão de inculturação. A representação que acima podemos observar, em se realizando após a Primeira Guerra Mundial, apresenta-nos um Cristo desfigurado, à imagem dos soldados desfigurados, com próteses, que regressavam da guerra. Há, aqui, pois, essa identificação.

Karl Schmidt-Rottluff, Kristus

Nesta representação, de modo muito focado, encontramos na testa do Cristo a data do final da I Guerra Mundial, 1918. Jerome Cottin propõe, mesmo, que se possa pensar, olhando para a data, em uma bala na testa dos soldados que estiveram nesse grande conflito bélico como uma homenagem a estes. Por outro prisma, o quadro permite questionar o que fizeram as Igrejas para impedir este massacre. E indicar que Cristo, vivo, estaria ao lado das vítimas. Devemos notar, na inscrição em alemão, a pergunta presente nesta representação: Cristo não vos apareceu? E registe-se, igualmente, que Cristo é grafado com K. Como se o Cristo dos soldados fosse diferente do das Igrejas - nas quais se reza para vencer os outros; aqui, Cristo está sempre ao lado de todas as vítimas.

(cont.)