quinta-feira, 31 de março de 2016

Quixote



Aprendendo com Javier Cercas (na mesa-redonda com Fernando Savater e Carmen Reinares, na celebração do 80º aniversário de Mário Vargas Llosa, ontem, em Madrid)

Nem Cervantes receberia o prémio Cervantes. Quando D.Quixote é publicado, o livro é, com efeito, muito popular, mas recebe o desprezo das elites. Enquanto a obra é lida em voz alta, e até os analfabetos memorizam passagens, personagens, episódios, uma nota de uma carta de Lope de Vega dá conta da recepção pelos eruditos: "ninguém é tonto ao ponto de elogiar Cervantes". Um século e meio depois, apenas, e, sobretudo, em Inglaterra a obra é reivindicada: "ficai com Gibraltar, e devolvei-nos a novela", ironiza, em Oxford, Cercas, a propósito daqueles que mais contribuíram para a divulgação (elogiosa) do romance de Cervantes - em França, Diderot, com Jacques, o Fatalista, dá, igualmente, o seu contributo (líquido) para a causa.
Porquê a recepção (ainda que um século e meio depois) em Inglaterra, e não na terra natal de Cervantes? Segundo Cercas, porque há uma ambiguidade fundamental na novela, em qualquer boa ficção, que se furta ao dogmatismo, à fácil separação e acomodação de etiquetas, bons contra maus, porque há bons que cometem, aqui e ali, atos terríficos, e maus que podem ter momentos de santificação antes de regressarem, de novo, ou aparentemente sem mudarem, à sua pele. Uma Espanha dogmatizada, ao contrário de uma Inglaterra democrática, impedirá este acesso às contaminações - de episódios e pessoas - entre bem e mal, ou de outras antíteses: Quixote como o exemplo do homem mais louco, e, simultaneamente, o mais lúcido dos cidadãos.
Enquanto ouço a explicação, pergunto-me fundamentalmente: esta solução para o enigma não responde ao facto de, afinal, a sociedade (popular) espanhola ter acolhido tão bem o livro (afinal, ela imune ao dogmatismo?). O certo é que ninguém imita o estilo cervantino tempos a fio, no país vizinho.

Javier Cercas conta como escutando o drama de um seu amigo, bom escritor, acerca do fim do matrimónio deste, decide responder-lhe/confortá-lo afiançando que se há pessoa melhor preparada para lidar com o problema em causa é precisamente ele, o amigo escritor, na medida em que nas suas obras tratou esses dramas, esses mesmos temas, como que antecipando-os, dando-lhes densidade psicológica, perscrutando seu núcleo íntimo, as suas desventuras, pesares, lutos.
Assim, a melhor ficção preparar-nos-ia para os mais difíceis acontecimentos, dar-nos-ia músculo, tornar-nos-ia insubmissos. E daí o medo que o poder teria/tem da boa literatura. 

Pois que foi Platão que baniu os poetas, a ficção - lembra Fernando Savater. É bom lermos nas cidades imperfeitas que habitamos. Ler, ir para outras paisagens, querer habitar outros lugares é impugnar a quotidiana realidade. É dizer: esta realidade não basta. Ora, a República (platónica) é a cidade ideal. Aí não há motivo para ler (ficção). É preciso que as pessoas estejam felizes. Não devem procurar outra felicidade, porque estarão saciadas na utopia posta em prática, na cidade perfeita.

Savater que lembrou, ainda, durante a sessão a proposta de um seu amigo, há uns anos, de um Serviço de Leitura Obrigatória - em vez do Serviço Militar Obrigatório - no qual os adolescentes/jovens fossem obrigados, durante um ano e pico/dois anos a ler um conjunto de obras literárias decisivas. Falava, assim, com um sorriso - "a literatura não se presta a obrigatoriedades; a literatura ou é um prazer, ou não é" -, em resposta à denúncia de Carmen Reinares de que chegam hoje às salas de aula de cursos de literatura estudantes que não leram nada (de literatura mesmo). Começo o ano com um exercício: faça um resumo do último livro que leu. E uma aluna: o último livro que li foi "A importância das fibras na alimentação" (ou coisa parecida). Claro, diz Carmen, a culpa é minha, a pergunta devia ser qual a última obra literária, mas estava à espera que me falasse de um livro do Mário (Vargas Llosa) ou do Javier (Cercas) e a resposta foi aquela. Então e nós, questiona Savater? No âmbito do ensaio não temos hipóteses nenhumas. Vemos o número um do top e é: "Guia dos melhores restaurantes do país" (ou coisa parecida). Como vamos nós poder lutar contra isso? (risos)

Visões e imagens contemporâneas de Cristo (III)



Georg Baselitz, Tamz ums Kreuz, 1983

O autor representa personagens de cabeça para baixo, Assim, Cristo também.

Georg Baselitz tem sido sempre um bom desafio/uma boa provocação: "Esta é apenas uma imagem que não é Cristo. " E ninguém deve cometer o erro de manter uma imagem da própria coisa. Baselitz, em "dançar ao redor da cruz", mostra Jesus crucificado; o artista pendura-O de cabeça para baixo. Isto torna-se o motivo de fundo. Parece quase como se o Crucificado mesmo nenhuma importância tivesse, uma vez que serve apenas como um elemento estruturante para dividir as quatro áreas coloridas. É isso mesmo? Será que Jesus Cristo perdeu o seu significado mais profundo? A religião é apenas uma casca, para fazer para espremer a vida em fórmulas sem sentido?


Por Michael Richmann, aqui: http://www.katholisch.de/aktuelles/aktuelle-artikel/kopfuber-in-den-glauben

(cont.)

Visões e imagens contemporâneas de Cristo (II)




Arnulf Rainer, The Overpainting of Christ (Christusubermalung), 1984.

Arnulf Rainer será, hoje por hoje, o artista austríaco mais conhecido - com direito a museu em Nova Iorque. A sua técnica é a da sobrepintura. Repinta, pois, os temas, às vezes completamente, outras tantas, em partes. Ao repintar, entra numa dialéctica do colorir e desvelar, dando um novo rosto a Cristo. Por vezes, descobrir Cristo, passa pela rejeição, ou pelo esconder. Pode, nem sempre, nem a todos, ser fácil de acomodar tal representação. Mas A.Rainer encontrou(-se com) o Arcebispo de Viena, que exprimia um forte desejo de Cristo e de uma nova imagem que saísse dos cânones. Foi assim que Rainer quase se tornou em autor oficial do catolicismo, recebendo, inclusive, o doutoramento honoris causa pela Faculdade de Teologia de Munique. O que foi rejeitado num meio cristão mais fechado - quadro para uma capela de jovens, que o acharam agressivo -, foi, inversamente, acolhido com entusiasmo em outra latitude.

(cont.)

Razões para a tristeza do pensamento (VI)


A partir de Dez razões (possíveis) para a tristeza do pensamento, de George Steiner

A distância, o abismo, a ausência de correlação entre pensamento e consequência, entre o pensado e o alcançado (traduzido). Não consigo dizer por palavras - diz o amante, o poeta, mas também o filósofo. A obra de arte, a música planeada nunca chega à tradução literal da imagem interior, da convulsão de sentimentos e ideias abstractas. A perfeição não existe no humano. A esperança é, assim, absolutamente necessária. 

Visões e imagens contemporâneas de Cristo



Quadro de Pablo Picasso, Crucificação, 1930

Jerome Cottin – Professor na Faculdade de Teologia Protestante, de Estrasburgo, calvinista, autor de obras como “La mystic de la arte”

Debate cultural e eclesial em torno de Jesus Cristo/ Aula aberta de Cristologia UCP-Braga

Braga, 03-03-2016        18h-22h        Auditório Vitta                                              

Interpretação estética e teológica: que(m) é Jesus para mim, em imagens – isso parte da minha representação. Os Evangelhos não dizem exactamente o mesmo sobre Jesus. Não há uma maneira única de falar de Jesus. Não há uma imagem de Jesus.

Na teologia do apóstolo Paulo – o mais antigo testemunho -, temos a primeira palavra sobre Jesus como imagem (eikon) de Deus. Mas trata-se de uma imagem transportada pela Palavra anunciada, no kerigma. A imagem de Cristo imprime-se no humano realizado pela fé; ele torna-se imagem verdadeira do Cristo. Em Cristo, o humano torna-se imagem de Deus. A palavra imagem tem, aqui, grande importância. Vejamos: no início, não havia uma imagem normativa de Cristo. Não havia uma imagem de Cristo jovem, como conhecemos, cabelo curto, etc., nem, depois, um Cristo mais semita com barba, mais maduro, cabelos longos. Não há no Novo Testamento uma descrição do aspecto físico de Jesus. Esta questão não interessou a nenhum autor bíblico. Não há narrativa de um rosto de Jesus que se imprime sobre uma linha (o véu de Verónica) como o sugerem as via crucis.
Escreveu Dietrich Bonhoeffer, no seu curso de cristologia em 1933: "Cristo é Cristo não como um Cristo em si, mas na sua determinação a meu respeito. O seu ser-Cristo equivale ao ser ser-para-mim (...) Não podemos pensar o Cristo no seu ser em si, mas somente na sua determinação relativa a mim. Isto implica igualmente que não se poderia pensar o Cristo senão na sua relação existencial, dito doutro modo, senão na comunidade".

O que aqueles que representavam Jesus procuravam era traduzir em imagens as ideias que tinham do nazareno, fosse o homem na sua debilidade (adolescência), seja o Cristo no seu poder e glória – em adulto.

Ora, no Ocidente, justamente, deu-se liberdade de representação aos artistas. Mesmo no século XX, quando os historiadores pensa(va)m que não há arte cristã, temos artistas de vanguarda que continuam a representar Jesus de Nazaré. E isto, insista-se, ainda que estejamos perante artistas oriundos de um ambiente que não o do cristianismo.

Tais representações colocam-nos perante a grande questão: quem é Cristo para quem o pinta/desenha (e, bem assim, quem é Cristo para nós)? Nas representações em causa, temos diversidade de materiais utilizados, observamos que, em alguns casos, retomam elementos tradicionais de Cristo, mas todos eles têm um sentido. Sentido este, sublinhe-se, que não consiste em conduzir à fé, mas propõem um enigma – e a resolução desse enigma.

Podemos, pois, ler tais manifestações artísticas a partir de duas chaves interpretativas:

a)      Apropriação pessoal (da figura de Jesus Cristo) pelo artista
b)     Inculturação (Cristo, hoje, numa dada cultura, que significação?)

Observando as representações em causa, partindo de a), somos convidados a uma hermenêutica que, contemplando uma dada obra, nela indague a procura de resposta a quem é Cristo para o autor e quem é o autor para Cristo (questões colocadas/espelhadas na obra pelo autor).

Olhemos para a “Crucificação”, de Pablo Picasso, obra de 1930. Em vida (de Picasso), não se sabia da sua existência. O artista guardou o quadro em segredo, não o mostrou a ninguém, nem o queria vender. Isto parece demonstrar a existência de uma relação íntima que o pintor estabelece com a figura de Cristo. Ele que era ateu e, mais curiosamente, havia criticado Matisse por este ter decorado uma capela. Além do quadro, conhecem-se outros esboços do desenho.

Há análises de tipo psicanalítico sobre este quadro – repleto de fantasmas de Picasso, até de índole sexual. Neste período da sua existência, o pintor encontrava-se a braços com uma complexa crise conjugal. No quadro, poderemos ter uma maneira de Picasso retomar o vigor da vida – com projecção da experiência de Picasso representado.

(cont.)

terça-feira, 29 de março de 2016

Do insucesso da extrema-direita em Portugal


Para uma crónica de rádio.


Extrema-direita em Portugal

Muitas vezes se tem questionado as causas da grande perenidade (quase imutabilidade) do sistema partidário português, em contraste com congéneres europeus, em particular, a ausência de emergência de novas forças partidárias, em anos mais recentes, com o país muito fustigado pela crise económica e social, e, muito especialmente, da fragilidade da extrema-direita portuguesa quando comparada com forças europeias da mesma natureza.
Ora, neste último ponto, a literatura da especialidade tem oferecido três razões essenciais, muito vinculadas à nossa história recente. Assim, a marginalidade da extrema-direita, em Portugal, à semelhança, de resto, do sucedido em Espanha, radicaria a) numa grande longevidade de um regime autoritário de direita, no século XX; b) na instauração recente do sistema democrático e, c) dada a idade (ainda) jovem do nosso regime democrático, na escassa propensão do eleitorado para propostas de saudosistas de tempos políticos anteriores.
Durante a experiência democrática que levamos, foi mesmo no final dos anos 70 do século XX, mais concretamente, em Dezembro de 1979, que a extrema-direita alcança o seu melhor resultado, com 1,2% dos votos, percentagem, ainda assim, insuficiente para aceder a um mandato parlamentar (que, por comparação, a extrema-direita espanhola, por uma vez, chegou a obter). Neste período, importa notar com Riccardo Marchi, a extrema-direita portuguesa consegue incluir nas suas fileiras alguns expoentes de profissões liberais e militares, e potencia, muito provavelmente, o seu resultado, com a migração da franja mais à direita do CDS, em virtude do descontentamento com a coligação então realizada com o PS (em Espanha, idêntico fenómeno ocorrendo), mas nunca desata um nó determinante: a fraca competitividade programática face aos restantes partidos de direita (assim não denominados e com outra legitimação no afastamento face ao Estado Novo, praticamente desde a primeira hora democrática no terreno e logo ali fixando eleitorado que, como vimos, se mostra fiel ao longo de décadas). Esta fraca competitividade traduz-se, por um lado, em não se diferenciar muito na proposta apresentada por partidos da mesma área política; ou, quando tal sucede, a diferenciação não se configurar sedutora aos olhos dos eleitores. Depois da travessia no deserto nos anos 90, durante os anos 2000, as causas com que a extrema-direita, representada pelo PNR se distingue dos restantes partidos de direita (uma direita moderada) seriam a não valorização suficiente da democracia; o posicionamento anti-globalização e anti-liberalismo económico, curiosamente já visível e capitalizado à esquerda; um racismo e xenofobia que afastam qualquer eleitor moderado; um anti-europeísmo, durante alguns anos mais polarizado e capitalizado pelo CDS, hoje mais visível e captado pelas forças à esquerda do Partido Socialista.

Boa semana.


P.S.: A partir de À direita da direita: o desafio da extrema-direita à democracia portuguesa, de Riccardo Marchi, in As direitas na democracia portuguesa (coord.R.Marchi).

Agendas


No mais recente número do Expresso, Carlos Carreiras, a menos de uma semana do conclave social-democrata, enuncia um conjunto de pontos de renovação programática para o PSD. E é muito curioso o ponto inicial que delimita: o PSD não é um partido materialista, começa por recordar, e, nesse sentido, é muito importante que as principais discussões políticas retomem uma agenda que pergunte pelo certo e o errado, o justo e o injusto - antes do económico, antes do técnico. Para que as pessoas tenham assento à mesa (na discussão). Para que haja renovação democrática. Ora, este era/é um ponto muito enfatizado por Tony Judt e Michael Sandelcomo demonstrámos aqui. Isto mostra que ainda há gente nos partidos interessada no ensaio/filosofia política, e, mais ainda, ainda há quem no PSD leia autores sociais-democratas. A social-democracia não pode ser só um slogan. O texto de Carreiras - não me importa, aqui, especialmente, a personalidade em causa - está destinado ao esquecimento (no seu conjunto, não será a última coca-cola do deserto, mas não fica pelo registo do nome A ou B, como figuras de uma liderança a suceder, que pouco ou nenhum interesse, em si mesmo, as mais das vezes, comportam), não vi que se prolongasse, em qualquer diálogo, pela imprensa, mas fica como um "resto" de preocupação "livresca" e programática no meio do activismo sem causas que não as pessoais - o que mais medra por aí. Com maior robustez, Alberto João Jardim - mais uma vez, não é aqui a personalidade em causa que me importa sobretudo - propusera uma alternativa (teórica) a um caminho liberal, no interessante texto com que iniciou o seu último mandato como Presidente do Governo Regional da Madeira, por onde passavam Santo Agostinho e Paul Krugman. Bem sei que o interesse colocado pelos media no acompanhamento do congresso do próximo fim-de-semana estará centrado nas intervenções de José Eduardo Martins, Pedro Duarte, Morais Sarmento - para além da ausência de Rui Rio. Mas reparem como, ainda há dias, Maria Luís Albuquerque era a preferida dos media que insuflaram até mais não tal personalidade como futura líder do PSD. Não me recordo de um movimento liderado por José Eduardo Martins, uma opinião forte nestes quatro anos, algo de especialmente meritório; Pedro Duarte surgiu como director de campanha de Marcelo nas Presidenciais, será, como certeza, um bom quadro, mas não demos por ele, na nossa vida pública, durante anos. De onde vêm estes candidatos, as "evidências" das suas candidaturas (a breve/médio trecho)? 

Não te esqueças de viver




Escutar - Maria Filomena Molder, na Culturgest. Aqui.

Poesia de Sá de Miranda.

Mal de vivre (poesia do séc.XIX)

Antes dos modernos, os homens não sentiam isto e aquilo? Errado. Temos consciência histórica doentia, que os medievais não tinham e os renascentistas começaram a ter, mas sobretudo nos finais do séc.XVIII/início do séc.XIX com a emergência da História como disciplina histórica.

Então e o taedium vitae, o tédio de viver? (terá sido cunhada a expressão por Séneca)
O tédio é traduzível por desprezo, melancolia, desconfiança, cansaço. A melancolia é mais antiga, vem dos gregos – expressão existencial de um acontecimento fisiológico, a “bílis negra”.
A acédia medieval é parente destas experiências: ela representa a tristeza que se nega a qualquer experiência compassiva com o que quer que seja. Atacava os monges medievais dado o seu isolamento, em particular os que não tinham tarefas para realizar. Exercícios espirituais criados, também, para evitar que os monges caíssem nesta grave perturbação, perversão da disposição anímica, como que negação da bondade da criação.

Com Baudelaire, o spleen (vem dos gregos). Nomeadamente em “As flores do mal”. Spleen: baço, cansaço de viver, indiferença, tristeza como arma de negação da confiança. Spleen ideal: expressão que junta uma aspiração antiga, a uma ameaça moderna. Os blues americanos. Mais próximo de nós, a depressão. Tudo isto está ligado com a temporalidade e a relação com a morte. Nalguns casos, dar vazão a esta sensação do mal de viver pode levar ao suicídio.

Jean Amery, que se suicidou, escreveu, dois anos antes do suicídio, Atentar contra si. A morte não é o pior mal. O pior mal é uma vida má. Dar morte a si próprio um traço característico dos humanos. Isto está acompanhado de uma grande dor. Amery foi preso em Auschwitz. Fugiu. Foi apanhado. Torturado. Nunca voltou a conseguir entender-se com o mundo.
Não há sinais de antecipação do suicídio em Sá de Miranda. Mas está desajustado com ele próprio, está mal com o mundo, e até numa relação difícil com a língua portuguesa. Sá de Miranda que atravessa muito, e por vezes até de forma bem explícita, A faca não corta o fogo, de Herberto Hélder.

O que é a sabedoria? A sabedoria é “uma intuição intelectual”, diz Fernando Gil. Intuição intelectual remete para a filosofia alemã, desde logo para Kant. Os seres humanos não podem ter intuições intelectuais, só intuições sensíveis. As intuições fundantes, as intuições puras chamam-se espaço e tempo. Isto é muito original; nunca ninguém o tinha pensado no Ocidente. No Oriente, no pensamento védico parece que há equivalentes. O espaço e tempo concebidos como elementos da nossa sensibilidade, elementos criativos da nossa afecção; que têm a ver com a nossa subjectividade; elementos que não existem senão na nossa subjectividade; não com a relatividade, mas com a nossa subjectividade – a única estrutura que produz espaço e tempo, o ser humano.

O ser humano é um “entre”: nasce e morre – aí não somos originais -, mas sabe que vai morrer. Esse entre é expresso pelo desejo e preenchimento dele, que conhece todas as cores e variações possíveis.
Lobo e cão são duas constelações. Da nossa escuridão. Luz crepuscular: já não é dia, mas ainda não é noite. Sá de Miranda diz que há alturas que não sabe se é dia, se é noite. A luz que lhe convém é a luz dos dois crepúsculos. Dois títulos de livros de Baudelaire assim evocados também.

O rosto não é parte do corpo: é a nossa presença. É nossa manifestação, a nossa aparição. A imagem do rosto aparece poeticamente, religiosamente, filosoficamente associada à presença de alguém, ao medo respeitoso de alguém. De costas, não aparecemos. O filósofo contemporâneo que mais se preocupou com o rosto foi Wittgenstein. Para Wittgenstein não há nada que não tenha rosto, incluindo a fisionomia das frases da língua materna. Que não se veja o rosto a nada significa que se perdeu a relação com a expressividade da vida, em particular com os seres humanos. Homens petrificados, imobilizados. Que não veja o rosto a ninguém é um grito de desespero. Em certas ocasiões de alma, uma gripe ou alguma fome ligeira até, reduzimos a riqueza das particularidades do outro. As horas não têm nada que as diferencie (“entre lobo e cão”).

Em As razões de ser, Fernando Gil diz que viver não é um facto, é um bem. Viver não é um facto empírico – eis o que a frase quer dizer. Mesmo os elementos da respiração (“ganhar o fôlego”, “perder o fôlego”), os elementos fisiológicos não são apenas elementos fisiológicos, são elementos da nossa vida. Ao serem elementos da nossa vida entram numa relação entre a confiança e adesão ao facto de termos nascidos. Mas mesmo antes de termos nascido nós não somos um facto: “nós fomos esperados na Terra” (Walter Benjamim). A próxima criança a nascer não é um facto; é um bem. Isto tem a ver com a experiência de aceitar viver. E o aceitar viver remete para o antes de qualquer experiência: a do recém-nascido. Ele come. Ele olha, toca. Pré-experiência: a criança agarra-se à vida (“nós agarramo-nos à vida”; e Sá de Miranda agarra-se à vida: “aquela esperança…”; ele já bebeu a dor inteira desta ruína). Confiança originária. Será terrível colocar em causa essa confiança, esse princípio da existência. Mas depois é necessário um esforço de despertar para a vida. Esse esforço é um exercício espiritual: não no sentido religioso, mas numa disposição para a vida. Lembra-te de viver, de Goethe, é o mote (um leit-motiv na obra de Goethe). Tradição estóica e epicurista dos exercícios espirituais. No poema de Sá de miranda, mesmo aquele que passou por torturas, que foi náufrago, mas acabou por chegar a terra, quer voltar ao mar alto.

Fernando Gil fala de 3 razões de ser da vida (que são três momentos de desenvolvimento e transmutação do agarrar-se à vida): a) descobrir que a vida é um bem (para F.Gil, trata-se de uma tautologia); b) aspirar a alguma coisa e sentir-se obrigado a outra coisa qualquer (conjunto de aspirações e obrigações que dão forma à vida); c) os direitos. A segunda e a terceira são o desenvolvimento da primeira, que é a mais forte. Aqui é preciso falar da felicidade e da alegria. Há em todo o desenvolvimento e aspiração, a reivindicação de um direito a procura da felicidade. E o que é a felicidade? Vejam o filme “Vidros partidos”, de Victor Erice (“Testes para um filme em Portugal) sobre trabalhadores de fábrica desactivada que chegou a ser uma das fábricas de fiação mais importante da Europa. Indistinção entre ficção e documentário, com um poder incomparável. Estes trabalhadores falam um português de uma precisão, fundura e beleza a que não estamos habituados, um português próximo do de Sá de Miranda.

Intuição intelectual: acto de criatividade suprema de um ser que não conhece afecções. Ente racional por excelência. Deus. Aquela sabedoria que não pode ser senão conhecida pelas palavras que os poetas escrevem. Marina Tsvetaeva: poemas que estão antes dos grandes poetas. Nenhuma eufonia nem nenhuma lógica sintáctica fácil. Poema que não chegou a cair na linguagem. Sem nenhuma retórica. Às vezes até temos medo do que lemos na poesia. Nos exercícios espirituais não temos medo nenhum. A poesia não almeja à felicidade. É um elemento patológico elevado a mitológico, de certa forma. Na poesia não há argumentação: essa é a sabedoria.
A melhor forma de aceitação da vida, na leitura de F.Gil, é a saudade do perecível, saudade do que passa. Isto nenhum grego poderia pensar, muito menos Platão – amores, desamores, casa que habitamos, os nossos amigos, nós próprios.

Serão os poemas exercícios espirituais? Estou a pensar que não – diz M.F.Molder.
Exercício espiritual:
1)      Atenção ao presente – única maneira de afastar peso do passado e do terror do futuro, é amar o dia. Atenção ao que está diante de nós é o mais difícil.
2)      Distanciar-se. É só levantar-se um pouco, subir a uma colina, ir ao andar de cima. Destacar-se um pouco da torrente. Entre mim e uma preocupação que eu tenho, p.ex. Libertação da parcialidade. De estarmos agarrados aos nossos pontos de vistas, crenças, preconceitos.
3)      Ousar esperar/Imaginação: aspecto des-realizante. Afastar todos os finalismos. Fazermos coisas sem porquê. Tentativa de fazer as coisas sem porquê. Audácia de imaginar a leveza. Chama-se esperança a isso. A esperança tem a ver com expectativa que precisa de ser preenchida; sentimos satisfação sem fim.
4)      Amor fati (Nietzsche): aceitação da vida. O perecível como o mais nobre. Sem qualquer reserva.

Platão, passando por Leibniz até Heidegger: porquê o ser e não o nada? não é à medida humana. Tem a ver com o fundamento. Fiquemos com o que nasce e o que morre.

[Da plateia, uma pergunta que também nos havia surgido ao escutar a conferência: porquê Wittegenstein, e não Levinas como “o grande filósofo sobre o rosto”?]
Maria Filomena Molder concede: “tradicionalmente, Levinas é o grande filósofo do rosto”. Mas o que a impressiona mais em Wittegenstein, que, aliás, também era religioso (embora como motivação mais escondida)? É mais simples, menos metafísico que Levinas: quando alguma coisa é olhada com muita atenção, tem rosto; então tudo pode ser um rosto. Mais modesto, mais próximo da nossa vida. Tenho esta parcialidade; temos preferências, amores e não podemos evitar. Às vezes, exageramos.

Esta poesia que está antes dos grandes poetas não conhece uma tradição, não sabe uma tradição; os grandes poetas estão já dentro da poesia. Esta ingenuidade e leveza podem fazer com que estes poemas possam até ser mais importantes do que muitos que achamos decisivos na [história da “grande”] poesia. Os poetas não são ingénuos; há é inocência.

A linguagem é uma infecção. Para tudo arranjamos um nome. No poeta, não há nada de espontâneo. Não é tudo estudado, embora muito seja estudado.


segunda-feira, 28 de março de 2016

Primárias norte-americanas


Nos EUA, um órgão apartidário, o Centro de Políticas Fiscais, analisando os Planos fiscais de cada candidato nas primárias para a Presidência norte-americana calculou em défices colossais as propostas, neste âmbito (económico-financeiro) dos vários candidatos republicanos (Marcos Rubio, Ted Cruz e Donald Trump). Se nos ativermos ao candidato, tudo o indica, vencedor (nas primárias republicanas) os dados são os seguintes: 11,2 biliões de dólares de défice e aumento em 80% da dívida pública nos próximos 20 anos, caso Trump levasse à prática as suas propostas. No caso democrata, Bernie Sanders prevê feitos para a economia norte-americana - susceptíveis de respaldar as suas propostas como uma universidade totalmente gratuita para todos, p.ex. - que não se verificaram nas décadas precedentes e que são considerados completamente inverosímeis pelos analistas económicos: crescimento de 4,5% ao ano acompanhado de crescimento da produtividade de 3,18%. O plano de Sanders acrescentaria 30 biliões à despesa do governo norte-americano. Estou, até, em crer que os que mais se entusiasmam, deste lado do Atlântico, com a candidatura social-democrata de Sanders talvez não ponderem devidamente a possibilidade que Trump encontrará, neste expansionismo orçamental, de construir um "perigoso comunista" no seu opositor democrata (caso Sanders vencesse as primárias no seu partido, o que parece muito improvável). E de aí poder elevar as suas possibilidades de disputar completamente a vitória presidencial. Para esses "eleitores" de Sanders, digamos que se aplicaria o adágio o bom é inimigo do óptimo. Se bem que não deixo de anotar a ideia que alguns veiculam de que, em sentido inverso, só Sanders teria o punch, "a raiva" necessária para enfrentar, no mesmo tom anti-elites (ainda que com significados bem diversos), Trump.

Marcelo e o OE



O PR, Marcelo Rebelo de Sousa, não compromete nem se compromete com o Orçamento de Estado. Dá nota positiva, percebe-se, ao documento na preocupação social que este revela. Um Orçamento no qual não encontra qualquer indício de inconstitucionalidade. Por outro lado, "insta" o Governo a uma execução orçamental rigorosa. Já chega de campanhas eleitorais, o tempo é de estabilidade, assinala. No mais, expõe as nuances, as incertezas internacionais, as condicionantes que qualquer orçamento, de qualquer país, passa (sempre, e particularmente nestes dias). Fá-lo às 5h da tarde, não quer entrar no início dos telejornais, sem ler qualquer discurso, quase no tom de comentário que assumia aos Domingos à noite, explicativo e pedagógico assume a necessidade de expor aos seus interlocutores o significado de "semestre europeu". Ganha em "horizontalidade" e "proximidade" o que perde em "gravitas" e "solenidade". Se nesta postura tem sido visto como "o anti-Cavaco", na clareza de algumas intervenções recentes, como naquela em que se referiu ao sistema financeiro português, foi, sobretudo, um anti-Sampaio (um ex-PR muito dado a discursos que esperavam exegetas eruditos). Depois de ter ido ao bairro do Cerco, ontem a visita à prisão continuando a indicação de um Presidente que socialmente não será neutro - atento às periferias. Se durante anos, a crítica de que as autoridades portuguesas só lidavam com funcionários das principais instituições europeias e internacionais (Adriano Moreira, por exemplo, várias vezes enunciou essa pecha), Marcelo chama, agora, ao Conselho de Estado Mário Draghi para ser ouvido, mas também para ouvir. Um início de mandato realmente auspicioso.

O orçamento dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro



Mais de 9 mil milhões de euros, eis o orçamento dos Jogos Olímpicos, do Rio de Janeiro. Os atrasos nas obras são, já, muitos, Baku e Londres vão sendo atirados como alternativas caso tudo não esteja nos conformes atempadamente, o chefe de Missão portuguesa diz que com Atenas a situação era pior e os Jogos realizaram-se na mesma, na altura e na cidade previstas. Número de voluntários inferior, em 20 mil, ao número inicialmente prescrito; ausência de bancadas fixas em uma das provas de remo, como inicialmente reclamado; o Maracanã já com carcaças de animais pelas bancadas (e, pelos vistos, com ninguém a querer assumir a tutela do espaço); drenagens por realizar; o metro não completo e ainda longe do centro olímpico, eis algumas das notas que acabam por sublinhar o actual momento conturbado que se vive em Brasília, e o anterior momento eufórico que por ali se viveu. O Brasil teve uma queda de cerca de 4% ao nível do crescimento económico e uma inflação na casa dos 10%. Não está fácil.

domingo, 27 de março de 2016

Que "altruísmo eficaz"?


A GiveWell é uma organização empenhada - e com forte reputação quanto ao nível de sofisticação que alcançou - na avaliação das instituições de beneficência a nível global. A transparência na alocação dos recursos recolhidos, a eficácia das instituições na luta contra a pobreza, a malária, etc., é, pois, medida/avaliada rigorosamente e, no site desta organização, doadores interessados nas consequências dos seus actos (de doação material) podem aferir em quem conseguirá potenciar, ao serviço de outros, o dinheiro que estiveram dispostos a contribuir. Segundo Peter Singer, na sua mais recente obra, O maior bem que podemos fazer (Edições 70, 2016), há um forte movimento social, nomeadamente preconizado e mobilizado, muito especialmente, pela geração dos millenials, de altruísmo eficaz. Este movimento, cuja paternidade e inspiração Singer também reclama a partir de artigos célebres por si escritos na década de 70 do século passado, é formado por pessoas que estão já a doar percentagens muito significativas do que ganham anualmente para ajudar a salvar vidas, a combater a pobreza extrema, etc.; mais: ele é corporizado por quem formula a questão do emprego melhor remunerado a escolher para ajudar mais gente; traduz a ideia de muitos de que embora a atenção devida, por exemplo, aos filhos deva ser muito particular, não faz sentido deixar colossais ou demasiado robustas poupanças/heranças em se podendo, com boa parte dessa soma, auxiliar muito mais pessoas; parte do pressuposto de que o altruísmo existe mesmo, contra os cínicos que pensam o "altruísmo como um egoísmo" - uma posição que, aliás, na minha experiência pessoal, vi sempre sustentada por quem nunca queria mexer uma palha pelos outros, e se julga(va) subtil -, isto, sem descurar que, evidentemente, o pensar e ajudar os outros pode ser fonte de sentido para mim (mas penso nos outros!, o altruísmo existe); e querendo-se de uma perspectiva utilitarista, expressa desde logo no título da obra de Singer, capazes, em todo o caso, como assinala Pedro Galvão no Prefácio do livro, quem parta de outra perspectiva filosófica. Por exemplo, este tipo de posicionamento que problematiza uma dada organização social, um modo de fazermos as coisas e nos relacionarmos com os outros - dos mais próximos aos mais longínquos -, o modo como lidamos com o rendimento que obtemos lança desafios muito interessantes para serem pensados em âmbito de muito pragmáticas aplicações do princípio do destino universal dos bens, em âmbito da DSI. De resto, para quem não acredita, como nós (não acreditamos), numa razão desvinculada culturalmente, absolutamente neutra, então não deixa de ser de sublinhar a área cultural em que surge o movimento. Em todo o caso, ainda, é certo, remetendo para instituições de beneficência - absolutamente cruciais sem dúvida -, eles deixam todo o espaço para a reflexão da necessidade da justiça, que não pode ser substituída - a política como a grande forma de macrocaridade, afinal - no integral cumprimento do respeito e na procura de auxílio pelo outro. Continuo a pensar a indispensabilidade destas organizações de beneficência tanto quanto vejo verdadeira ética prática - para me, cum grano salis de humor, referir à disciplina de Singer - na dedicação à polis na reelaboração das relações justas.

sábado, 26 de março de 2016

REVELAÇÃO (II)


A ideia corrente de revelação é a de uma intervenção extraordinária e milagrosa de Deus em algum intermediário, para dar-lhe a conhecer algo, ou então mediante um «ditado» interior, como a audição de palavras, ou então por meio de «aparições» ou prodígios que mostram a sua vontade. Desse modo revelam-se-lhe verdades inacessíveis à razão humana, que os outros têm de crer, porque o inspirado «diz que Deus lhe disse». Como consequência, os outros não têm nenhum acesso directo à sua verdade nem dispõem de possibilidade alguma de verificá-la por si mesmos. Trata-se, como se vê, de uma concepção extrinsecista, pois desse modo a revelação chega totalmente de fora, e autoritária, já que se deve crer nela, confiando unicamente no revelador.
Mas uma consideração medianamente crítica da revelação bíblica adverte imediatamente que as coisas não foram nem puderam ser assim. Não só porque então teria que atribuir-se directamente a Deus o ter «ditado» ordens tão monstruosas como a de exterminar mediante o herem ou anátema de populações inteiras ou vê-lo ditar os numerosos «erros» de tipo histórico, astronómico ou inclusive moral de que no seu processo está povoado o caminho bíblico; mas também porque a Bíblia mesma mostra e demonstra o contrário. Tudo nela faz ver que, do mesmo modo que Deus actua no mundo através das leis físicas, também o faz na revelação através das leis do psiquismo humano.
Não é que num momento dado Deus «entre» no mundo para revelar algo mediante uma intervenção extraordinária. Ele está sempre presente e activo no mundo, na história e na vida individual, procurando dar a conhecer a sua presença e ajudando para que consigamos interpretá-la correctamente. Por mais que uma certa retórica teológica o repita, não é Ele quem se «cala» ou se «oculta»; somos nós que, devido ao nosso estádio cultural, a nossa cegueira ou inclusive a nossa culpa, não conseguimos descobri-lo ou interpretamos mal o sentido da sua presença. O sol está aí brilhando sempre, mas as janelas podem estar sujas ou opacas: para que entre a luz, o que falta não é que o sol comece a brilhar, mas que as janelas sejam abertas ou limpas: «O Senhor estava aqui, e eu não o sabia!» (Gn 28,16).
Para que essa abertura aconteça, requerem-se duas condições. Primeira: que na história, individual ou colectiva, se produza uma situação que desperte a atenção e abra os olhos: que, nas palavras de Iam T.Ramsey, se produza uma «experiência de desvelamento» (disclosure experience), fazendo com que «o gelo quebre» ou «se acenda uma luz». A segunda: que alguém seja capaz de captar e interpretar o divino que aí se está a manifestar: esse é justamente o papel do profeta, do revelador. A sua genialidade ou «inspiração» consiste em ser o primeiro a cair na conta do que Deus procura manifestar a todos (...) A gravidade existia desde sempre, fazendo cair as maçãs, mas Newton foi o primeiro a conseguir descobri-la. Do mesmo modo, Deus compadecia-se de todos e queria a sua libertação da escravatura egípcia, mas foi Moisés quem caiu na conta; Deus era único desde a eternidade e não tinha abandonado Israel no deserto, mas só Ezequiel e o Deutero-Isaías conseguiram formular o monoteísmo e assegurar a esperança na sua ajuda.(...)
Não se trata - repito - de que Deus se esteja a esconder ou calando e que, apesar de tudo, ele, o profeta ou hagiógrafo, o descubram. É exactamente o contrário: é Deus quem converte a realidade em expressão da sua presença, quem dá ao revelador a capacidade de descobri-la e interpretá-la, e quem, na sua liberdade e no seu amor, não procura outra coisa senão revelar-se na maior medida possível, sem outro limite que não seja a limitação ou a culpa humana.(...)
Em si mesmo, Deus era amor e perdão, era Abbá, desde o princípio, mas a nossa vida e a nossa história mudam radicalmente, quando, graças à revelação de Jesus de Nazaré, se parte o ídolo de um deus justiceiro e vingativo e conseguimos reconhecer-nos como filhos e filhas.
Basta olhar para a história bíblica, ou talvez ir à experiência própria, para compreender que não é mera metáfora falar então de «novo nascimento» ou de «nova criação»

André Torres Queiruga, A ressurreição. Que quer dizer: «ressuscitar dos mortos»?, in Anselmo Borges (coord.), Quem foi quem é Jesus Cristo?, Gradiva, 2012, pp.277-279.

O julgamento de Jesus



De Joseph Weiler, dois depoimentos muito interessantes sobre o julgamento de Jesus de Nazaré, ao Observador e ao Público. 

Neste fim de semana, Frederico Lourenço escreveu, no Expresso, um texto muito judicioso, par e passu, acerca das diferentes nuances e/ou discrepâncias/contradições que os quatro Evangelhos nos oferecem, no que ao relato da Paixão de Cristo diz respeito. Mas termina com uma antinomia que creio não necessária: ou o sepulcro estava vazio porque alguém roubara o corpo de Jesus - perspectiva a que adeririam os chamados não crentes, e boato de que logo dá conta Mateus -, ou o sepulcro estava vazio, porque Jesus ressuscitou - posição em que se filiariam os ditos crentes. Ora, isto parece pressupor que para se acreditar na ressurreição de Jesus, a existência do túmulo vazio é fundamental. É um elemento determinante. Ora, não é assim, hoje, para um grande número de teólogos. Uma coisa é acreditar-se que o túmulo está vazio; outra, fazer depender a crença na ressurreição desse facto.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Muçulmanos na Europa (II)


Não chegam como acto de cortesia, como favor de diferentes países europeus: os muçulmanos que começam por afluir à França fazem-no, por via de recrutamento militar, face aos acontecimentos da I Guerra Mundial, cerca de 300 mil entre argelinos, tunisinos e marroquinos. E, para substituir, no mercado de trabalho, milhares de incorporados na(s) linha(s) da frente, nova chamada de população muçulmana (aqui, em sentido sociológico, não curando de observar crenças ou práticas religiosas). Em períodos de desemprego, tentativas houve de travar/controlar/mitigar a migração árabe muçulmana para França. Todavia, ab initio, não se tratou de generosidade (de nenhum Estado Social). Tratou-se de necessidades militares e de mercado de trabalho por parte da França, talvez o país da Europa Ocidental mais multicultural (expressão aqui utilizada em sentido descritivo, não normativo).
Na Alemanha, do mesmo modo, a necessidade de reconstrução do país, no pós-II Guerra Mundial implicou acordos do Estado alemão com outros países, incluindo os do Sul da Europa, como Portugal, mas muito particularmente a Turquia, para que trabalhadores-convidados se dirigissem a terras germânicas para voltar a erguer o país. Com o critério do ius sanguini a ser determinante na Alemanha (até 1999), julgariam, eventualmente, os alemães que reconstruídas as infra-estruturas os imigrantes abandonariam o seu país (dado o seu estatuto diminuído, se assim se poderá dizer). Puro engano. Os turcos-alemães representariam, aliás, no futuro, e nomeadamente, no final dos anos 90 do século passado uma massa eleitoral nada negligenciável, que terá sido determinante na reeleição de Schoreder - uma esmagadora maioria desta população tendeu a votar nos sociais-democratas do SPD, ao longo dos anos e em 1999 terão sido 90% aqueles que, de entre aquela comunidade, terão votado na coligação SPD/Verdes.

Verdade


Relembro, hoje, uma das máximas de Ratzinger: a verdade é mais do que o conhecimento.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Muçulmanos na Europa


Há países, como a França, nos quais as estatísticas confessionais não são permitidas - de aí facilmente se compreende como difícil se torna traçar um quadro absolutamente fidedigno do número de muçulmanos na Europa. Depois, se há alguma literatura que coloca a preponderância na uniformidade muçulmana em solo europeu, a realidade parece mostrar é a sua diversidade - do ponto de vista da nacionalidade, étnica, de prática religiosa, de adesão sociológica apenas ao Islão, aos costumes e hábitos que a torna insusceptível de ser apreendida em uma única categoria/identidade. Uma outra questão interessante se prende com as escolas e a autonomia (das mesmas e/ou das comunidades locais face a ela): a experiência do Reino Unido mostra que em zonas onde existiam comunidades islâmicas - para as quais a identidade islâmica primava, em absoluto, sobre qualquer outra identidade possível...como a britânica - verificou-se que a autonomia dada se traduziu em separação entre rapazes e raparigas nas aulas de ginástica ou natação, para dar apenas um exemplo dos muitos que foram multiplicados, conduzindo, portanto, essa autonomia a uma guetização comunitária. Mesmo ideias com as quais concordamos - como as do reforço das autonomias locais e escolares -, podem ter, sob certos contextos, resultados que nunca desejaríamos e/ou que não fomos capazes de prever.

Realidade


A de 2 de Janeiro (último), The Economist publicava um artigo intitulado Be serious, no qual considerava "irresponsável" a afirmação de que a redução de impostos gerava um crescimento que a tornava auto-financiada. Dito de outra forma, a Economist reconhecia que a perda de receita, com a redução de impostos, era superior ao alcançado com o crescimento que de aí pudesse advir. No que concerne à redução de um imposto como o IRC, já por exemplo Joseph Stiglitz tinha dito na Gulbenkian, e antes disso, havia escrito em O preço da desigualdade que não existiam provas da relação entre essa baixa e um crescimento económico significativo. No entanto, por cá - e não só, diga-se -, de congresso em congresso, de excitação parlamentar em exaltação de debate, continua-se num tom triunfal a anunciar a fórmula mágica para o crescimento. E, todavia, "a realidade é [devia ser] mais importante do que a ideia".

terça-feira, 22 de março de 2016

Entretanto, na escola (II)


A Professora de Linguagem Gestual explica como em disciplinas onde a dimensão conceptual é mais acentuada o João, com problemas de surdez, tem mais dificuldades: não há gestos para todos os conceitos! Há muitos conceitos para os quais não há gestos. Nunca tinha pensado que assim seria; quer dizer, mesmo sem pensar no assunto, dava por adquirido existirem gestos para todos os conceitos. Afinal, não. Discriminação suplementar.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Entretanto, na escola


O Professor de Matemática, do Secundário, atribui ao programa este ano em vigor, pela primeira vez, na sua disciplina, uma centralidade inquestionável na percentagem de resultados menos favoráveis verificada naquela cadeira: este ano, no 10º ano, estamos a dar a matéria que se dava no 11º ano, mas mais aprofundada. Os alunos, em muitos dos casos, não têm maturidade para tal abordagem, assegura. Aqui, maturidade remeterá para uma maior capacidade de "abstracção", quando, em realidade, os alunos "ainda estão muito voltados para o concreto".

domingo, 20 de março de 2016

Um país sui generis


1/3 dos membros que compõem a comissão que analisa o impeachment de Dilma Rouseff está indiciado pela justiça, sendo que muitos destes (deputados) por corrupção.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Acção de Deus no mundo


O significado preciso da acção de Deus num mundo que a nova consciência secular descobriu, de modo irreversível, como regido por leis autónomas constitui um dos problemas mais urgentes da teologia actual. Por um lado, essa acção já não pode ser concebida como um «intervencionismo» que a situe ao nível do funcionamento mundano, perturbando a autonomia da criatura e negando, ao mesmo tempo, a transcendência do Criador. Por outro lado, não pode ser reduzida a um «como se», a uma simples metáfora que anule a sua realidade. Nem um mundo «mítico» atravessado continuamente por influxos extra-mundanos, quer de um deus que manda a chuva ou castiga com a peste, quer de demónios que causam doenças ou de anjos que curam cegueiras. Nem um deus «deísta», que, uma vez criado o mundo, o abandona a si mesmo, ficando longínquo e passivo no céu.
Também não vale uma mera acomodação intermédia - por desgraça a mais espalhada, devido à sua facilidade imaginativa - que consiste numa espécie de deísmo intervencionista. Isto é, uma concepção «deísta», no sentido de que, por osmose cultural, vive a evidência inegável da consistência e regularidade das leis físicas, mas «intervencionista», porque, com justa intuição religiosa, quer manter a presença viva de Deus, mas que se vê obrigada a reduzir a intervenções pontuais e concretas, muitas vezes de carácter empírico. Vive-se então da imagem de um «deus» que, respeitando a autonomia do mundo, está no céu, mas que dali intervém de maneira intermitente e selectiva; daí, as invocações para que «ajude» em ocasiões concretas ou os esforços por «pôr-se em contacto» com ele.
Felizmente, hoje a teologia conta com a experiência e a conceptualidade suficientes para acabar com o dilema. Sobretudo, graças à ideia de criação. Da criação por amor. Bem pensada, esta ideia, tão profundamente bíblica, abre a saída correcta, graças a um investimento radical do problema. Porque então compreende-se que não é preciso nem acabar com a legítima autonomia da criatura nem deixá-la encerrada nela mesma sob o olhar de um «deus» distante e desinteressado. O Criador não tem que «vir» ao mundo, pois está já sempre dentro dele, na sua raíz mais funda e originária. E não tem que recorrer a intervenções pontuais, pois a sua acção, longe de ser intermitente à base de interferências, é a que desde sempre e sem descanso o está sustentando, dinamizando e promovendo tudo:
O Pai está «desde sempre a trabalhar» (Jo 5,17) na sua criação.


André Torres Queiruga, A ressurreição. Que quer dizer «ressuscitar dos mortos?», in Anselmo Borges (coord.), Quem foi, quem é Jesus Cristo, Gradiva, 2012, pp.275-276.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Na história


Contra os seus detractores, devemos recordar que o cristianismo eclesiástico (a Grande Igreja), opondo-se às tendências gnósticas dos séculos II-III, optou pela decisão mais «arriscada» e difícil, mantendo sempre o valor da história de Jesus.
Para os gnósticos (mais espiritualistas), a história de Jesus acabava no fundo por ser desnecessária, pois eles tendiam a convertê-lo num puro símbolo da interioridade ou da «história trágica» e da «redenção» da alma, na linha de algumas formas de hinduísmo, sem necessidade de história real. Contra isso, o cristianismo eclesiástico defendeu e continua a defender a identidade de base entre o Cristo da sua fé e o Jesus da história, tendo, portanto, que estudar o sentido e o alcance dessa história (...) Os cristãos afirmam que através deles continua a agir o mesmo Jesus da história, que ressuscitou e se manifesta por meio deles. Nessa linha, a experiência pascal dos cristãos não implica uma fuga da história (negar a história, para ficarmos com o Cristo eterno da fé), mas uma descoberta do valor «transcendente» (definitivo, messiânico) da história de Jesus, num plano humano completo e pessoal (...) A Grande Igreja, com os seus possíveis riscos, continuou a manter a necessidade de um estudo crítico da história de Jesus, pois só conhecendo de um modo fundamental aquilo que ele foi, o que disse e procurou, a forma como morreu, ela pode afirmar que esse Jesus concreto é o Cristo (isto é, está vivo e actua no mundo através dos cristãos). Nessa linha, podemos acrescentar que o estudo da figura histórica de Jesus é muito importante para a ciência, que procura entender todas as coisas observáveis do mundo, mas é ainda mais importante para a fé de uma Igreja que continua a afirmar que Jesus é o Cristo (...)
Penso, por isso, que a teologia cristã (e a vida da Igreja) é impossível sem um reconhecimento da história de Jesus. Evidentemente, é importante o Cristo da fé, mas, separado do Jesus da história, transforma-se rapidamente em mito.

Xabier Pikaza, Uma biografia «impossível» de Jesus, in Anselmo Borges (coord.), Quem foi, quem é Jesus Cristo?, Gradiva, 2012, pp.45-47.

Fuga para a frente


A aceitação de um cargo ministerial, por parte de Lula da Silva, no governo de Dilma Roussef, constitui uma espécie de confissão de culpa antecipada, fomenta a ideia de que vale tudo (para procurar evitar a justiça), leva a um descrédito completo a já de si famigerada aura da política - depois de anos em que Lula teve um reconhecimento internacional pelas políticas de combate à pobreza, mesmo se embalado e/ou prosseguindo - aspectos estes controvertidos e sujeitos a interpretações diversas - políticas do seu antecessor, Henrique Cardoso.


P.S.: a noção de decadência, também passa por isto: estas últimas escutas vindas a público, no Brasil, pelo que li nos jornais brasileiros (on line), implicam, por corrupção também, além de mais membros do PT, o líder do PSDB que concorreu às últimas eleições, Aécio Neves. Isto, depois de Fernando Henrique Cardoso, que teve anos a fio uma amante, ter sido acusado, há poucas semanas, por esta, de lhe ter pago a partir do erário público. Ele já tinha reconhecido a relação há muito, concedeu que entregava dinheiro à senhora, mas não do erário público.


Contemporâneos

terça-feira, 15 de março de 2016

Cruz



No dia em que Joseph Weiler esteve na Gulbenkian, em conferência, a convite da UCP, sobre "O Julgamento de Jesus" [bem gostaria de ter assistido, mas não teve transmissão online], recupero um vídeo que me parece muito interessante, do Professor de Direito, quando este interveio, decisivamente, no caso da presença da cruz nas salas de aula italianas, a quando do célebre caso Lautsi vs Itália (que estudei um bocadinho para a tese). Num inglês acessível, a sua alegação no Tribunal Europeu - lá onde pergunta se é razoável que um cristão, um judeu ou muçulmano, em encontrando, numa sala de aula, uma fotografia da rainha, reivindique que tal viola o princípio da laicidade, na medida em que a rainha é, simultâneamente, política e líder da Igreja Anglicana; ou se passa pela cabeça de alguém retirar, do Preâmbulo da Constituição Alemã, a referência a Deus; ou o mesmo se diga, quanto a Jesus Cristo, na Constituição Irlandesa; mais: milhares e milhares dos que cantam "God save the Queen" não acreditam em Deus - e todavia, em todos estes casos, mesmo não crentes consideram o hino, a rainha, a constituição, outros símbolos provenientes de tradições religiosas - e a História da Europa é a que é - nacionais. Têm ressonância religiosa tais símbolos? Sim, têm; mas são entendidos como símbolos nacionais. E, em realidade, se na tradição da Revolução Francesa, a religião deve ser remetida para o espaço privado, países como Grécia ou Malta não são estados laicos. A tradição de relação com a laicidade, em diferentes povos e estados, não deve ter uma interpretação unívoca; deve respeitar-se a diversidade de tradições e interpretações a este respeito, pelo que o tribunal europeu não deve impôr uma interpretação (uniforme). Uma posição que acabou por lograr vencimento.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Cristologia


Karl Rahner falou da Cristologia como plena realização da antropologia. Leonardo Boff expressou-o de modo lapidar: «Humano assim só pode ser Deus mesmo".

André Torres Queiruga, A Ressurreição. Que quer dizer: «ressuscitar dos mortos?», in Anselmo Borges (coord.), Quem foi, quem é Jesus Cristo?, p.280.

quarta-feira, 9 de março de 2016

"Social-democracia sempre"


O slogan "social-democracia sempre", utilizado por Passos Coelho, durante a campanha interna para a liderança do PSD, foi recebido com alguma indignação, é certo, por quem não desconhecia a história e as referências do movimento social-democrata e comparava a acção governativa de Passos - e, bem antes desta, os think tank a que pertencera e/ou estimulara; as revisões constitucionais que propusera, o livro e as propostas nele contidas que subscrevera - com essa mesma inspiração, mas, sobretudo, até, com um sorriso: as políticas seguidas haviam sido impostas pela troika, nada havia a fazer, mas no fundo não eram as políticas pretendidas. Como não se imagina que a maior das qualidades habituais em políticos seja a do altruísmo - se as políticas eram boas e davam grandes resultados, porquê atribui-las à troika? -, a mensagem de Passos foi vista como uma confissão de derrota, um reconhecimento de que as políticas e a orientação ideológica que as inspirava estavam erradas. A posição de quem havia sustentado como ia bem o reino da Dinamarca, não se fez esperar: João Miguel Tavares - com outros seguidores - propôs-se fundar um (enésimo) partido liberal; Vasco Pulido Valente considerou inadmissível a confissão implícita no "social-democracia sempre". Afinal, o recuo perante os maiores dos críticos internos tinha a chancela do próprio líder (liberal). De um outro prisma, Clara Ferreira Alves, na última edição do Expresso, chamou-lhe "ingénuo". Mais: cedendo a Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira que queriam o partido de que são militantes no campo social-democrata - embora, na realidade, no simbolismo de um slogan; não digo "só" no simbolismo, porque esta dimensão simbólica, como se acaba de descrever não é coisa pouca -, Passos cedeu, ainda, neste rebuscado argumento eleitoral - não tenhamos ilusões: é só disso que se trata -, num literal mea culpa a uma fórmula marcelista: talvez eu tenha exagerado um pouco na imagem de cumprimento e determinação, mas fiz o melhor. À maneira do comentador Marcelo Rebelo de Sousa, seria a forma a avançar para, em rigor, se criticar um conteúdo, uma política, sem contudo, tal ser expressamente afirmado: o problema seria da imagem inflexível e não das políticas. Aparentemente.
É bastante curioso como a questão do slogan "social-democracia sempre" faz lembrar, muito, a revisão programática do PSD, coordenada, inicialmente, por José Pedro Aguiar-Branco, há cerca de 5 anos, com este destacado militante a preparar-se, face já às críticas de neoliberalismo emergente no partido, para incluir a adesão a Emanuel Mounier. Também aí - dessa vez, dentro de um certo ponto de vista, "a tempo" -, Vasco Pulido Valente escreveu, no Público, um artigo violentíssimo, obrigando, dada a sua figura tutelar no "hemisfério direito" português, à remoção da referência bibliográfica e, até, da coordenação da revisão programática.
Com um discurso social-democrata e com a doutrina social da Igreja em pano de fundo, Marcelo torna mais difícil o posicionamento de Passos. Pior, quando apela a consensos: Passos não quis comentar o discurso de Marcelo, e Luis Montenegro não escondeu o incómodo: "não esquecemos o governo ilegítimo". Termos que se têm tornado uma cassete à beira da exaustão. Passos, entre os contados convidados para o repasto de Belém, prefere ir a Londres falar com "futuros políticos". Em política, o que parece é. E parece que o slogan escolhido hoje já não o seria, por parte de Passos, porque a agressividade o delata, e essencialmente porque a ser chamado, com ou sem recurso às urnas, para regressar ao governo tal não se deverá ao facto de as pessoas terem pensado que mudou de pensamento e orientação políticas.