domingo, 28 de fevereiro de 2016

Estética


Hélia Correia, nas Correntes d'Escritas, mergulha, com a intensidade e voracidade que já lhe são características (sorrisos na plateia) na Grécia Antiga. Para nos dizer, fundamentalmente, que aquela sociedade estava num estádio superior (face às nossas sociedades contemporâneas). Cada pessoa sabia o mais ínfimo pormenor de um texto, de uma narrativa, de um mito. Sabia-o de cor. E um saber de cor é um saber de coração. No caso, partilhado colectivamente. Como a história era, para todos, um adquirido, e como todos sentiam a existência desse substracto comum, então a ida ao teatro não se fazia para conhecer a narrativa, não, não era isso o que interessava, de modo nenhum, não era um suspense para ver a história de cowboys e quem fica com a rapariga. As pessoas choravam em conjunto, indignavam-se em conjunto, teatros (com capacidade) para trinta mil pessoas, mas nunca a infantil procura do realismo, a noção perfeita de que naquelas longas horas em que a peça podia decorrer, era o artificialismo a primar (pense-se no tipo de máscaras utilizadas), a fruição estética a prevalecer em absoluto. Em certa peça que Eurípedes conduz, com o ganhar dinheiro, a ganância, em jogo, os espectadores chegam a atirar coisas para o palco e o dramaturgo tem que interromper por instantes, pedindo calma à assistência. A catarse emergira. A solidariedade compassiva podia ser experimentada. Hoje, estamos, ao invés, numa fase infantil de fruição.

Para ver "O filho de Saul" com outros olhos


Para compreender as opções estético-morais dos filmes acerca da Shoa, dois textos fundamentais, este fim de semana, na imprensa portuguesa - a propósito da estreia de "O filho de Saul" - de Vasco Câmara - aqui - e António Guerreiro - aqui.  Que reclamam, também, a entrevista do realizador da obra ora estreada, Lázló Nemes aqui. Não está em muitas salas do país, para já pelo menos, mas eis que se nos torna obrigatória a ida ao cinema (nós os que vimos A lista de Schindler e Shoa, de Spielberg e Lanzmann, respectivamente).

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Eros


Olho minha mulher com a sedução de sempre. Um corpo destro direito firme. Rigoroso. O assento estreito, ajustado à cadeira, sem transbordar, apertado contra si, o busto perpendicular. Todo o seu boleado se travava no limite justo, toda a sua superfície. Enquadrada nas linhas da perfeição. Olho-a e revolvo-me por dentro numa confusão de impulsos. Beijar-te. Não, não, lamechices não. Traçar-te breve com a mão o limite do teu contorno. O pescoço direito mas sem altivez, agora silenciosa, o olhar vivo de lume. Deusa da juventude, Flora pagã. Sinto-a nos meus dentes, na sua realidade intacta de ser. E quente, de substância infernal. Pintava-se pouco e assim a sua carne era verdade desde a fímbria do seu lineamento - que irás dizer amanhã? Fértil pura maciça. Densa como um desejo fortíssimo a estalar - que irás? Tenho as mãos cheias da tua plenitude - não te amo, não. Tenho o corpo batido da tua dureza como de pela de nervo. E foi como se realmente a sua gravidez fosse um erro, o seu corpo distendido rebentado. E no entanto. Como existires sem pagares à vida o preço da tua perfeição? Do teu excesso vital? Da tua força germinativa? Como ser um erro que eu te fecundasse? Te obrigasse a rebentar a tua pressão para a cadeia da força continuar? Para a vida rebentar de novo em ti?

in Até ao fim, de Virgílio Ferreira, p.40. 

Esperar contra toda a esperança




Esperança de uma nova vida - intitulou o australiano Warren Richardson, a foto nocturna, tirada entre a Sérvia e a Hungria, a 28 de Agosto de 2015, um bebé passado entre uma cerca, o drama dos refugiados exposto em toda a sua nudez. Foi fotografia do ano do World Press Photo.

Deus Caritas Est - 10 anos


Ontem e hoje (25 e 26/02) decorreu no Vaticano um Congresso Internacional para celebrar, debater, conferenciar, os 10 anos da encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI. Relembro bem o entusiasmo, a surpresa refrescante, a alegria que me invadiu, o texto magnífico, a busca filológica, as concepções filosóficas, o amor nas suas diversas configurações, os autores mais diversos conhecidos de cor, o fel de Nietzsche e o mel do agapê como novidade neo-testamentária tão delicadamente explicados. No acolhimento do corpo, na ironia de dois ilustres que se cumprimentavam galhardamente ("oh corpo!", ao que o outro retorquía "oh, alma"), a hospitalidade do homem todo. Um texto inicial - nunca há uma segunda oportunidade para se causar uma primeira impressão - que desmentia, para quem queria saber, para quem queria ler, para os que levavam a sério o ofício de participarem, todo um prognóstico/agenda eivado de um preconceito negativo para com Ratzinger. Uma encíclica que agarra o leitor a um pontificado, que faz de imediato intuir um estilo, que reclama atenção, que exige estudo e preparação, que quer gente com razões, e razão crente. Um marco que convém, de facto, festejar. Uma encíclica inesquecível.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Tolentino Mendonça no Correntes d'escritas 2016



Descubro, entretanto, que foi já disponibilizada a conferência que aqui deixei por entre alguns apontamentos, no post anterior.

[uma palestra que passa muito por diferentes pontos explorados em A mística do instante, nomeadamente na parte primeira do livro; mas, ainda, na questão dos sentidos, no enfatizar da cozinha, por exemplo, não poucas eram as referências que havíamos recebido em Nenhum caminho será longo; sobre a intervenção de José Tolentino de Mendonça, na Póvoa, o Público, pela pena de Luis Miguel Queirós, classificou-a como "densa": "uma inesperada apologia do silêncio", a "conferência foi tudo menos ligeirinha". Em todo o caso, "a palestra interessou o bastante a audiência para ter motivado uma infindável série de perguntas".

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ANALFABETOS DOS SENTIDOS




Para mim, foi uma estreia - a presença, durante a tarde de hoje, nas Correntes d'escritas, na Póvoa do Varzim. Cheguei a tempo da conferência inaugural, de José Tolentino de Mendonça, passei pela mini-feira dos livros acantonada à beira do Cine-Teatro Almeida Garrett onde decorrem os trabalhos, escutei um pouco a apresentação de livros numa sala contígua ao palco principal, regressei ao anfiteatro para o debate das 17h30, com Hélia Correia, Manuel Alegre e António Torres - ficando a faltar Eduardo Lourenço que, por doença (não grave) não veio. A conferência inaugural teve por título O silêncio dos livros. O debate até ao fim da tarde fez-se em torno de literatura e catarse. Sempre com a moderação (espirituosa não raro) de José Carlos Vasconcelos. Lugares completamente esgotados na sala (o que inclui os mais recônditos pousios, das escadas, aos camarotes sobrelotados e com bancos desconfortáveis, ou ao plano inclinadíssimo na zona cimeira da sala de espectáculos).

José Tolentino de Mendonça foi apresentado por José Carlos Vasconcelos como sendo "uma das vozes mais singulares e significativas da poesia portuguesa actual", gerando, não raramente, com as suas palavras, uma "grande perplexidade, até pelos lugares que ocupa". De resto, "a sua poesia é de uma grande riqueza e diversidade" alcançando no leitor "o maravilhamento da coisa de existir". Paradoxalmente, disse Vasconcelos, "a sua poesia recorda a de Alberto Caeiro".

Tolentino de Mendonça deixou, a principiar, uma senha, chave-de-leitura para o que se seguiria: a obra "A estética do silêncio", de Susan Sontag.
Principiou esta verdadeira oração de sapiência pela evocação de escritores que, a dado momento, abandonam a actividade literária. Rimbaud, eis o primeiro dos exemplos mencionados: de escritor passa a comerciante/traficante (na África do Norte). Mas pensemos, ainda, em Wittegenstein - o filósofo que abandona a actividade (filosófica) até aí prosseguida e passa a enfermeiro que presta auxílio aos militares. Tais abandonos, sublinha Tolentino, obrigam-nos a olhar "para o interior da escrita". De que material é feita?
Anna Akhmatova, que viu a sua vida (e dos seus mais próximos) torturada pelo jugo estalinista, deu conta de como a procura por um filho preso pelo regime do terror pode ser o lugar do indizível (de cadeia, em cadeia, sempre sem saber a sorte, nem se quer o local que lhe calhava, como que perdia a capacidade de expressar por palavras o que sentia). Portanto, há dimensões do humano que não são passíveis de serem ditas, escritas, traduzidas por palavras. Mas as palavras, no seu silêncio, podem manter vivas as perguntas.

O mote para a alocução seria o diagnóstico do filósofo Byung Chul-Han (em particular, pôde perceber-se, em A sociedade do cansaço) sobre a sociedade contemporânea no que esta tem de viragem do paradigma do imunológico para o de uma fadiga radicada no excesso de emoções, no acervo incontrolável de informação, na insaciável teimosia em nunca desligarmos (ou, com Pessoa, "de que estou cansado não sei e de nada me serviria saber, porque o cansaço ficaria na mesma"). Em este contexto, o do excesso de estimulação sensorial, cumpre, com efeito, "combater a atrofia dos sentidos" e retomar o caminho da sensibilidade. "Ah, se eu pudesse sentir!..." - eis o desespero contemporâneo.

Mas indaguemos, melhor, do que falamos quando falamos em atrofia.

a) A FORMA COMO LIDAMOS COM O SOFRIMENTO: há um "mito" que paira sob as nossas existências. O de que temos o "controlo da vida". Ora, pura e simplesmente, trata-se da "negação do princípio da realidade". Com tal pressuposto falacioso, a consequência é a de não estarmos preparados (equipados) para acolher "a irupção do inesperado". A dor, em esta cosmovisão que nos atravessa, é sempre vista como "tempestade estranha, tirânica". Somos completamente "capturados por ela". Há uma "combustão fechada" que se forma, "um incêndio íntimo que cresce" (aqui Marguerite Duras, em A dor, é agora a autora convocada). Ignoramos o que fazer. Precisamos de outros recursos para lidarmos com a dor. Ignoramos a melodia das coisas.

b) A ROTINA: a rotina começa por ser um "esforço de regulação", um positivo/favorável esforço de regulação. A vida seria impossível sem ela (o caos emergente). Só que esta virtude, esconde, contudo, um grave perigo: por vezes, "a rotina substitui-se à vida". Deixa de haver "lugar para a surpresa". A nossa vida passa para "piloto automático". Bem podem os dias ser novos (que adianta?). Sejamos claros: "a rotina não basta ao coração do homem". Intuímos, no fundo, que a nossa divisa deveria ser: "em cada dia, olhar tudo pela primeira vez", "cada instante como porta por onde entra a alegria".

c) EXCESSO DE COMUNICAÇÃO: segundo o maior estudioso das coisas da comunicação, McLuhan, com o excesso de comunicação, "o indivíduo passa a ser uma presa". Em especial, "um dos efeitos da TV é retirar a identidade pessoal". Passamos a ser, apenas, um "grupo colectivo de iguais". Perde-se a singularidade pessoal. No tempo em que vivemos, somos, pois, remetidos para uma "hipertrofia dos olhos e dos ouvidos" ("viste aquilo? Ouviste a última?"; de entre os sentidos são estes que mais, ou quase exclusivamente, são agora reclamados). Sentidos à distância (contrariamente a sentidos de proximidade, como o tacto ou o paladar (e nos nossos supermercados, o olfacto perde, tudo tende a tornar-se asséptico). Tenhamos consciência de que "não é assim em todas as culturas". A nossa "distância da natureza tornou-se tão grande" que, por exemplo, "deixamos de saber andar descalços", ou "acariciar vidas desprotegidas". Em suma, "tornamo-nos nos analfabetos emocionais que somos" - Ingmar Bergman.

O silêncio é a experiência humana mais profunda. Silêncio que os livros geram. Permite-nos reaprender a arte de ser, quer dizer, a arte de saborear, escutar, ver, olfactar. 

Em "Contra a Interpretação", Susan Sontag diz-nos que vivemos na "sociedade do comentário" (sendo que na sociedade portuguesa, da política ao futebol, passando pelo social, esta evidência atinge o paroxismo). Bem ao invés, os livros, no seu silêncio, carregam a vida nua, a possibilidade de experiência, a alfabetização dos sentidos. Numa palavra, "a literatura é uma máquina de gerar vida; de gerar presença e presente".

Em definitivo, concentremo-nos nos sentidos:

TACTO: desde a Antiguidade Clássica que se pensou ser o tacto o primeiro dos sentidos (apesar de, em Aristóteles, aparecer em terceiro lugar). E o livro, justamente, TOCA-NOS. Porque, na ordem da criação, em primeiro lugar, somos criaturas tácteis. O desenvolvimento dos sentidos terá começado no tacto (no feto). O tacto vem descrito como "o nosso primeiro olho". Ele permite que haja encontros: um tocar e um ser tocado. E olhemos as mãos com Rainer Maria Rilke: "as mãos são um organismo complexo, um delta onde desagua um rio que vem de muito longe". As mãos "têm direito próprio à sua beleza". E podem dizer uma biografia: "da forma como fomos tocados". O tacto "é um dicionário, um léxico".

O pintor catalão Miró teve um Mestre, Francisco Gali, que (em termos pedagógicos) arriscava por caminhos inesperados. Assim, colocava, nos discípulos, uma venda, para que estes tocassem o objecto (a desenhar) com os dedos (desenho a realizar, pois, não só com os olhos). O pintor, de outra forma, acreditava Gali, não conseguiria chegar à representação do mundo.

[verificámos, já, com o que vem dito, que sempre se procurou produzir uma hierarquia dos sentidos]

PALADAR: para S.Tomás de Aquino, o paladar era o mais perfeito dos sentidos. Para o autor, o tacto, o olfacto e o paladar são os sentidos inferiores - e, destes, o paladar é o mais limitado. Possui, muito escassamente, cinco categorias elementares. Já para Rousseau, "há milhentas coisas indiferentes ao paladar, ao olfacto, ao tacto, mas não ao gosto". Feuerbach questiona a divisão tradicional: também o paladar é elevado a acto científico e espiritual.
Em realidade, não são, hoje, raros "os primatólogos que atribuem ao paladar um papel-pivot no desenvolvimento humano". O desenvolvimento da cozinha terá permitido a expansão do cérebro ( e de aí, a composição das grandes sinfonias, ou as gravuras das cavernas).

VIVEMOS UMA MUDANÇA EPOCAL: COMPREENDEMOS QUE CARECEMOS DE UMA SABEDORIA MAIS INTEGRADORA. NÃO APENAS A MENTE (CONTA). Contamos o TODO QUE SOMOS. Há, pois, uma "maior consciência de nós próprios". Sabemos que sabor e saber - desde logo na sua origem latina - adquirem uma ressonância de grande proximidade. Segundo Ruben Alves, alunos e professores, por consequência, deviam passar, antes das aulas, por uma cozinha para tentar perceber a ligação saber-sabor (desejo).

OLFACTO: actua em nós como contacto fusional com o mundo. Há dimensões que se captam apenas pelo odor. Algo que é muito diferente da imagem. Cura-se, no olfacto, de "impregnação pura". Enquanto que na visão o objecto está fora de nós, no olfacto, exemplifique-se, quando sinaliza o perfume este já caiu sobre nós. Mais: na primeira semana de vida fora do ventre materno, o bebé já reconhece o cheiro da mãe. E é pelo olfacto que chegamos "à casa da nossa infância", "ao brinquedo" de outrora. "No reconhecimento de um odor, esperamos mais do que em qualquer outra representação" (Walter Benjamim). O cérebro reconhece 10 mil odores e este, o odor, "desperta sensações que nem sempre a linguagem reconhece".

AUDIÇÃO: o mundo que nos rodeia é completamente sonoro e, ainda assim, dele só captamos uma pequena parte. Pensemos, ilustrando, na capacidade auditiva dos animais: o elefante, até com as patas, capta som. Nossa limitação: 2 mil Hz. É a frequência mais aguda a que chegamos. Ora, a baleia azul emite sinais sonoros capazes de serem colhidos a centenas de quilómetros.
Escuta desinteressada do outro: não há, apenas, escuta com os ouvidos, mas também com o coração. E na escuta, escutar o quê, afinal: "Ouve, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo. Capta outra coisa que eu própria não consigo dizer" (Clarice Lispector). 

VISÃO: a luz viaja a 200 mil/km por segundo. A visão é a síntese de todos os outros sentidos: cores, profundidade, distância são-nos dados por esta. Segundo o poeta Tonino Guerra, tal como os crentes, os agnósticos também têm dúvidas. E, para este agnóstico em particular, nada o faz mais entrar em dúvida do que "o milagre absoluto que um olho é". O olhar remete para a reflexividade e, logo, para o binómio vidente/visível. O olho é fundamental, também, para o encontro com os outros e connosco mesmos. Essencial para nos lançarmos no mundo. Niculau de Cusa dedicou, num certo sentido, à visão um tratado, De visione Dei: o ângulo dos teus olhos à luz de Deus é infinito. As criaturas existem pela Tua visão. O ser das criaturas é o Teu ver e ser visto.

A literatura é uma "lente para nos olharmos melhor" (Marcel Proust). Leitura: com ela, fazemos uma experiência de vida que de outro modo não faríamos. Inscreve em nós uma brecha. Consegue introduzir lentidão (em nossas existências). Silêncio: escola de solidão. "Estamos sempre sozinhos com aquilo que amamos" (Truman Capote). A solidão fala, é polifónica.

A literatura de um país é o silêncio (chão) comum. O que foram as grandes paixões, silêncios, emoções que aquela comunidade viveu. A literatura é iniciação à vida. Na nossa cultura, perdemos os rituais de iniciação. Somos uma sociedade (secularizada) muito cinzenta. A literatura pode potenciar um encontro de homens e mulheres livres.

Porque é que se escreve? Acho que pelo mesmo motivo porque se lê. Se eu não escrever, morro - literalmente, os verdadeiros leitores, os leitores fanáticos sentem que definham se não lerem; a leitura afigura-se-lhes, pois, como "tábua de salvação", "arte de resistência", até "face à própria morte".
Precisamos de valorizar o silêncio como linguagem. Face a um conflito, dizemos: "a falar é que a gente se entende". Sim, é verdade. Mas também o silêncio "constrói pontes de entendimento que faltam, às vezes, às palavras". Silêncio: escola de paz e de reconfiguração. "Gostaria de ver o silêncio declarado património imaterial da humanidade" (risos na plateia). O silêncio é forma de comunicação extraordinária; comunhão, proximidade que nenhuma palavra do mundo é capaz de dizer.
Muitos dos grandes poetas chineses escreveram um único poema, um verso sobre uma rocha, ou numa árvore. O escritor é um bicho silencioso. "É da ruminação do silêncio que o encontro profundo com a palavra pode fazer-se".

Não iludamos: "o silêncio é a grande tentação do escritor". Do poeta. "É o demónio necessário da criação".

Nesse "evangelho muito amado que é o de S.João", encontramos a afirmação de que "no princípio era a Palavra" (não o silêncio). Alguns traduzem por "no princípio era a Relação", ou "no princípio, era o desejo de Palavra". Na verdade, "o silêncio é apofático: não dizendo, diz; não revelando, manifesta". Há no silêncio uma tensão utópica imensa: coloca-se no campo do não feito. "O poeta é alguém que se expõe ao silêncio, por vezes tem que se tornar um foragido, um indigente, um pária, tem de ganir como um cão". Um poeta é uma consequência do silêncio.


[a partir do caderno de apontamentos que tomei para a conferência inaugural das Correntes d'Escritas 2016. Qualquer erro e/ou limitação face à exposição de Tolentino de Mendonça é, pois, da minha inteira responsabilidade]

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Grande



Uma Maria Rueff excepcional, no Teatro de Vila Real, fez este Sábado uma semana, a dizer, em múltiplos tons, gargalhadas da plateia às vezes, outras vezes o silêncio cortante, perante quem traz à cena, com uma força tremenda, registos de uma gama tão ampla, mil e uma mulheres, mulheres em diferentes fases da vida e circunstâncias, o monólogo como tour de force de uma leitora apaixonada, de uma leitura avassaladora, António Lobo Antunes e suas personagens vivíssimas (adaptado por Rui Cardoso Martins; António e Maria, Teatro Meridional). Um Sábado cumprido a chave de ouro.

Razões para a tristeza do pensamento (IV)


A partir de Dez razões (possíveis) para a tristeza do pensamento (de George Steiner):


A aspiração à verdade, por um lado, e a contaminação da linguagem com suas ambiguidades ("a linguagem, por assim dizer, é hostil ao ideal monocromático da verdade. Ela está saturada de ambiguidade, de simultaneidades polifónicas"), requerendo autonomia (da razão), dificultando aquela aspiração, constitui um motivo adicional para a tristeza do pensamento.

Bárbaros



Passou esta semana no Doc3, da RTP, um documentário (de 2010), intitulado "Os bailarinos do Afeganistão" (pode ver aqui). Nele se denuncia como uma prática tradicional (bárbara), o Bacha bazi, rejuvenesceu naquele país com a queda dos talibãs e a vitória dos senhores do Norte: com as mulheres embutidas em burkas, envoltas em ilimitados panos, são recrutados crianças/adolescentes para, vestindo-se de mulheres, dançarem para outros homens. Danças que surgem, claramente, como eufemismo de pedofilia, escravatura sexual, proibida (o bacha bazi) por lei, mas tolerada na prática, prosseguida, inclusive, por agentes de autoridade. Ter uns adolescentes como coutada é motivo de distinção social, de honra no Afeganistão da segunda década de 2000. Generais, barões da droga, poderosos de diferente índole aproveitam-se da pobreza que povoa o território e recrutam rapazes, a troco de algumas migalhas à família, para dançarem para si e amigos. Uma dança escondida da família de origem, que de resto de bom grado tapa ouvidos e olhos. A pobreza extrema não consente olhos e ouvidos. Uma dança escondida dos amigos, envergonhada. Uma dança perpetuada por quem é abusado e pretende abusar depois. O documentário fala em "donos". Não menos que "donos" de crianças, objectos sexuais de quem se dispõe como se entende. E em desobedecendo os rapazes, a morte é um destino real (e confirmado). Bárbaros. Absolutamente bárbaros.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Obama e a questão energética



Durante a semana que passou soubemos que Arábia Saudita, Rússia, Venezuela e Qatar concordaram congelar a sua produção de petróleo, de modo a tentar moderar os excessos de oferta com que o mercado se vê actualmente (inundado), visando, com este pacto, a inflação do preço do petróleo - que, de tão diminuto, tem dinamitado algumas economias (a Venezuela deve ver o PIB descer 18% este ano). Ora, escutando alguns especialistas na matéria, em diferentes depoimentos, nos últimos dias, constatámos que, hoje, os EUA importam cerca de metade (do petróleo) que ainda há 3 ou 4 anos importavam. Trata-se de uma mudança de grande alcance que é um dos grandes legados da Presidência Obama, como escreve Bernardo Pires de Lima (XXI, nº6, pp.34-35): 


Mas talvez o grande fardo do próximo presidente seja maximizar a importância da revolução energética em curso nos EUA e no Atlântico. Obama pode não ter acertado completamente a agulha na política externa, mas tornou os EUA auto-suficientes, alterando o seu perfil de importador crónico para grande produtor global. Desde Nixon que todos os presidentes bateram nesta tecla, mas nenhum inverteu a condição nem tão pouco o papel determinante da OPEP na geopolítica da energia. Este quadro vai mostrar-nos como serão os próximos vinte anos tão diferentes dos últimos.
O boom exploratório das empresas norte-americanas levou os EUA, a partir de 2009, a alterar a sua trajectória energética, ultrapassando hoje a Rússia como maior produtor de gás mundial e projectando o seu papel como futuro líder exportador desse recurso. Em 2013, já 95% do gás natural consumido nos EUA teve origem interna, contornando a crise económica e sinalizando uma maior independência face a zonas tradicionalmente problemáticas do ponto de vista da importação de petróleo, como o Médio Oriente.

Falsos


Jorge Ferreira está transformado em novo caso patológico da arbitragem portuguesa. Em todos os jogos em que participa, já sabemos ao que vem. Já sabemos quem ganha, já sabemos quem perde. A nomeação para Paços de Ferreira é, apenas, o mais recente insulto à inteligência, de quem não tem a menor consideração, escrúpulo ou respeito pela verdade do jogo. Inqualificável.

Ideologias (VI)


Manuel Monteiro, em Partido Popular: um partido de direita, não adere à tese de que o PSD se auto-posicionou, no seu nascimento, no centro-esquerda por causa da falta de legitimidade de quem se apresentasse como sendo de direita, em virtude de ser esta a área ideológica associada ao Estado Novo. Não, não se tratou de pura táctica para melhor jogar no mercado eleitoral à época existente, assinala. Pensar isso seria atribuir "reserva mental" a Francisco Sá Carneiro e a diversos textos, entrevistas, conferências que escreveu e deu (nos alvores da democracia). A interpretação de Monteiro inverte o ângulo de análise: o PSD não se afirmou à esquerda em virtude de se estar perante uma Revolução (contra um regime de direita); o PSD virou, antes, à direita em função daquilo que assistiu (interpretou) no pós-revolução.

N'os navios da noite', de João de Melo


"Há sempre algo de grandioso na derrota
                      que não pertence à vitória"

                                     Jorge Luís Borges 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ideologias (V)


Se não encontro contradição entre a afirmação de André Freire e de Sofia Serra Silva (em A opinião pública de direita, antes e depois da crise de 2008) de que desde 2011 e até ao presente estamos perante a "direita mais neoliberal de sempre" (p.87) em Portugal, com o escrito de Ana Rita Ferreira (em A evolução das ideologias políticas do PSD e do CDS-PP: uma análise dos documentos programáticos (1974-2012)) quando esta aduz que a principal ruptura do PSD com a social-democracia, que marcara a história do partido desde o seu início até à aurora do séc.XXI, ocorreu com o programa apresentado por Durão Barroso (2002) - é perfeitamente possível sustentar-se que o PSD nunca foi tão liberal como desde 2011 e, ao mesmo tempo, entender-se que o corte com a social-democracia é (que é) um anelo singular/drástico no Partido Social Democrata e tal ocorrer anos antes; num caso, estamos perante uma mudança qualitativa (da social-democracia ao liberalismo), no outro analisa-se o quantum de liberalismo em diferentes programas e mandatos -, diferentemente a análise de José Pedro Zúquete. Para este autor, Pedro Passos Coelho estabelece, de facto, uma ruptura com toda a a história do PSD e seus líderes, não por uma causa de tipo ideológico, mas por introduzir no PSD uma mobilização de índole utópica: Passos pretenderia criar o novo homem português, o empreendedor, o não lamechas, o não preguiçoso, o não indolente, o industrioso. Passos é, pois, visto no ensaio A direita e a genética (inserido, bem como os ensaios vindos de citar em As direitas na democracia portuguesa, de Riccardo Marchi), como um revolucionário, um milenarista.
O autor utiliza como metodologia não apenas a verificação (empírica) do que foram as diferentes lideranças do PSD, mas ainda, e muito, recorre a citações de entrevistas das diferentes lideranças. É um caminho que chega a resultados desiguais, a meu ver, nem sempre optimizáveis. Com limitações. Que importância dar a afirmações de Durão Barroso segundo as quais "o PSD não é um partido neoliberal", se conhecemos bem o seu (seu de Durão Barroso) programa (às legislativas de 2002) concorrendo nessa precisa área política (como muito bem demonstrou Ana Rita Ferreira)? Que dizer do personalismo sustentado retoricamente, e evocando obras que arremetiam contra o liberalismo no plano económico, se depois se pretende alterar o programa do partido colocando a tónica nesta última dimensão? Das duas, uma: ou José Pedro Zúquete se revê na auto-identificação que cada líder do PSD foi propondo (para si próprio ou para o partido), ou toma acriticamente as afirmações de posicionamento que cada liderança faz. O problema desta metodologia, de resto, pode bem ilustrar-se no título - irónico - do ensaio. Título que bebe de uma afirmação de Passos Coelho ao Público, em 2009, segundo a qual "a genética do PSD" ainda faz sentido. O ensaísta, na conclusão do seu artigo, considera, justamente, que Passos entra em ruptura com a genética (do PSD)...pelo que, portanto, de nada adianta a afirmação de fidelidade à mesma. Todavia, há situações em que as palavras e os actos podem estar mais próximos. E todas as palavras de Passos aqui (neste ensaio) convocadas, por exemplo para a supressão de alguns feriados, parecem condizer com a política empreendida (a este propósito, permita-se o parêntesis, o texto de Clara Ferreira Alves, no Expresso da semana passada, representa a mais completa assimilação de tal mundividência; ora, isto oriundo de quem se reclama de centro-esquerda mostra, em realidade, a vitória cultural do tal legado de Passos e de outros vários opinion makers e ideólogos que insistiram na revolução ao longo de quatro anos). Em suma, por caminhos tortos talvez se tenha chegado ao ponto. A metodologia de Ana Rita Ferreira, em todo o caso, pareceu-me passível de uma outra segurança e solidez.

Surpresa na livraria



Não sucede muitas vezes, não abundam as boas livrarias, mas quando acontece é como que uma epifania:  percorro, mais demoradamente, as secções de que mais gosto e encontro, não sem franca surpresa, Declínio e queda do Império Romano (volume I), de Edward Gibbon, em português, reedição (relativamente) recente. Até a editora eu desconhecia: a Letras Itinerantes. A letra que aparece grafada, no livro que me encontra ao fim da tarde, percebo de imediato, remete para o tempo da máquina de escrever, muito miudinha ainda por cima, difícil de ler, pouco sedutora, a fazer lembrar os manuais de Direito no início do século, já ali anacrónicos. Mas o carácter "clássico" e "imprescindível" da obra levou-me a adquiri-la.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Um quadro de referência (II)


                                      ÉTICA DO DEVER (a partir do SÉC.XVIII)

Duas teorias sobre o dever:

a) CONSEQUENCIALISMO

b) DEONTOLOGISMO


a) "De boas intenções está o inferno cheio". O que fazemos deve ser medido pelas consequências e não pelas intenções. Por melhor que seja a intenção, se depois tem más consequências, o que fazemos é errado.

A perspectiva UTILITARISTA (Bentham, Stuart Mill, Peter Singer) propugna a maximização do bem-estar. Devemos buscar esta maximização quer enquanto indivíduos, quer na acção política. Conseguir alcançar o maior bem possível, do ponto de vista das consequências, eis o desiderato. O que é o bem-estar? Muitas vezes, tem-se respondido com "prazer", ou "ausência de dor". Esta ética, curiosamente, foi tida por João Cardoso Rosas como excessivamente altruísta - "tenho mil euros no banco, quando podia tê-los entregue a uma instituição de caridade e satisfazer muitas mais pessoas" -, "própria de santos ou heróis".

b) A Deontologia é um sistema de regras. Regras absolutas (em princípio, nunca, em nenhuma circunstância, devem ser quebradas). Pensemos nos 10 mandamentos, na ética kantiana (imperativo categórico). Aqui, estamos perante uma ética centrada no agente e não nas consequências. Para a deontologia, matar e deixar morrer, por exemplo, são coisas diferentes (ao contrário do que sucede, no mesmo exemplo, para o consequencialismo).

Os exemplos de Jim e os Índios (perante um general que capturou Jim e 5 índios, Jim é colocado perante a circunstância de atirar perante um Índio, com a promessa de matando um, os restantes sobreviverem; ou abster-se de matar algum e os cinco morrerem - isto, claro, num óbvio exercício "torturador" por parte do general), isto é, o que faz Jim nesta situação (?), ou o de podendo, nós, capturar, na rua, alguém, para lhe retirar órgãos para salvar 5 pessoas (ainda que à custa da pessoa capturada), ilustram como, umas vezes, seguimos uma lógica deontológica e, em outras ocasiões, uma consequencialista. A hesitação entre a opção por uma, ou outra, dá-se tanto a nível pessoal, como profissional e político.

Na medida em que a ética do dever, embora imperativa (deves fazer isto), nos dá duas pistas diferentes (utilitarismo e deontologismo), será que fracassou? Tem-se colocado a tal ética os problemas do intuicionismo, da motivação e o regresso de uma ética das virtudes.

A questão da motivação, por exemplo, é sem dúvida importante: eu posso achar que devia ser vegetariano e ser incapaz de resistir a um bom bife. Entre o achar que e o fazer vai uma distância considerável. A ética do dever procurou ser um "céu racional".
A ética das virtudes procura que sejam cultivados os bons traços de carácter e, portanto, não tem aquele problema. Em todo o caso, oferecendo orientação, não dá uma solução evidente, uma decisão casuística. "Quando não se acredita em nenhuma regra absoluta, só se pensa nas consequências" (João Cardoso Rosas).

Os Direitos humanos, por sua vez, são uma tentativa de harmonizar consequencialismo com deontologia - um consequencialismo das regras.

Embora não acredite nas regras, o consequencialista pode pensar "ainda bem que as regras existem, porque assim as pessoas sentem-se mais seguras e há maior bem estar". Os juristas tendem a ser anti-consequencialistas.

Em suma, a ética antiga, centrada na virtude, e a ética moderna, focada no dever, são, ambas, relevantes para quem pensa sobre Moral. Perante questões como "O que é a justiça?", ou "O que é a coragem?" - perguntas colocadas por Sócrates - as pessoas não tinham ideias muito claras. Com Platão assistimos a uma hierarquização das virtudes e, sobretudo, a uma visão muito intelectualizada acerca destas, pressupondo o atingir do mundo das Ideias - quem alcançasse as verdadeiras ideias, alcançaria, ipso facto, as virtudes. Para Aristóteles, a virtude ética é um traço de carácter, manifesto no agir habitual. Traço, pois, manifestado empiricamente. Como sabemos o que é a coragem? Na acção é que vemos como é.

Aristóteles erigiu o meio termo, a justa medida, a virtude cardeal. Ela situa-se, aliás, entre dois vícios: vício por excesso e vício por defeito. Pensemos na generosidade: o seu vício por defeito é a avareza, enquanto que o seu vício por excesso é o desperdício. O homem virtuoso atinge a felicidade (corajoso, justo, honesto). Para Aristóteles a felicidade é o telos (fim) do Homem; todas as coisas têm um propósito. 

A ética das virtudes é atractiva, porque nos coloca perante questões como "que tipo de pessoa devemos ser?" como "construção que cada um faz de si próprio" (Cardoso Rosas) e fornece orientação - dá pistas, mas não oferece solução. A sua lógica é teleológica. A ética do dever coloca-nos questões como "como devemos viver?", "o que devemos fazer?", deveres positivos e negativos e baseia-se num olhar da ciência moderna (o mundo sem finalidades ínsitas). O domínio e transformação que preconiza para a natureza parte de uma visão desencantada desta.

Um quadro de referência



No passado Sábado (13-02-2016), regressámos a Mateus para as Conversas sobre Arte, Ciência e Cultura (no actual ciclo, consagradas à Ética). Desta feita, pudemos escutar a magnífica conferência do Professor João Cardoso Rosas, com boa conversação de seguida, sob o título Da virtude ao dever: o carácter imperativo da ética moderna

Desde já, impor-se-à deixarmos, de modo esquemático (recorrendo ao desenho do Presidente da Associação Portuguesa de Ciência Política), o quadro de referência que serviu, modelarmente, à palestra e charla tidas:



ÉTICA DAS VIRTUDES                                                              ÉTICA DO DEVER
(Ética Antiga)                                                                                     (Ética Moderna)

- Atractiva                                                                                      - Imperativa

- Oferece orientação                                                                       - Oferece decisão

- Ciência antiga                                                                              - Ciência Moderna
  
- Ontologia teleológica                                                                  - Ontologia anti-teleológica

- Paradigma aristotélico                                                                - Paradigma newtoniano

- Viver de acordo com a natureza                                                - Dominar e transformar a natureza  


(continua)


Impostos



0,55%, 0,40% e 0,37% foi a percentagem, do total de receita apurada em sede de IRS, em Portugal, nos anos de 2012, 2013 e 2014, paga pelos mais ricos. Estes escalões de rendimentos, na Europa, pagam 20 a 25% do total do IRS cobrado.

Em Portugal teremos 240 contribuintes com património superior a 25 milhões de euros, ou 5 milhões de euros anuais.

É a concorrência fiscal entre os países da União Europeia que mais beneficia quem tem alto rendimento.

Há cerca de 90 jurisdições internacionais conhecidas como paraísos fiscais ou off shores, a maioria pertencentes aos EUA e ao Reino Unido, onde a discrição é ainda maior e onde se torna muito moroso - ou quase impossível - encontrar o dinheiro. Abrir uma conta bancária num paraíso fiscal não é ilegal - mas é de declaração obrigatória em Portugal. E, por isso, não compensa. Quando declarada, os juros pagam uma taxa liberatória de 35%, superior em sete pontos à taxa aplicada sobre um vulgar depósito num banco nacional.

[na reportagem da Visão na semana passada, a que aludimos no post notícias que deviam abrir telejornais]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Tendências Globais



Tendências globais verificadas ao longo deste ciclo de debates em Serralves (identificadas por Álvaro de Vasconcelos): empoderamento (desaparecimento do analfabetismo, mulheres a participarem no mercado de trabalho, etc.) dos cidadãos (a nível mundial, com maior exigência cidadã), com cidadania mais activa nos últimos anos (mas com tendência para o populismo também, pondo em causa partidos tradicionais e o sistema representativo); diversidade cultural, mas também nacionalismos identitários; enfraquecimento dos estados e do poder político; difusão do poder a nível global, com um policentrismo hiante; desenvolvimento humano, com milhões a saírem da pobreza para a classe média, mas com graves problemas como o da escassez de água e de alimentos.

Maria João Rodrigues:

A democracia não está a funcionar bem, porque os cidadãos sentem que não têm grande margem de escolha. A nível nacional há margem, mas delimitada pelas regras europeias. Se se pretende aumentar essa margem, então é preciso intervir também a nível europeu. A nível europeu a forma de fazer política está a mudar. Há um jogo de forças entre as instituições europeias e um papel mais activo das famílias políticas europeias. Tem que haver cidadania europeia. Chegamos à seguinte encruzilhada: ou há recuo para posições nacionais – o que não será o melhor -, ou se constroem melhores soluções europeias. Portanto, há necessidade de uma forte cidadania europeia. Se os jovens querem ter uma vida melhor têm que passar à acção e articular uma posição a
nível europeu.

Alda de Sousa:

O meu pessimismo é grande. Não creio que existam posições progressistas no quadro europeu. A Alemanha impõe as suas regras às periferias europeias. A UE está numa deriva anti-democrática. A transformação terá que vir do âmbito nacional. A mudança de correlação de forças irá travar-se a nível nacional. Não creio que haja qualquer identidade europeia. Até me dão calafrios dizer-se que há uma superioridade dos valores europeus, quando vemos, por exemplo, a questão dos refugiados.

José Luis Cruz Vilaça:

aquilo que somos na UE hoje deriva do método comunitário (com iniciativa da Comissão) instituído pelos pais fundadores. Método de co-decisão entre o Conselho Europeu e o Parlamento. E depois há ainda o Tribunal Europeu. Hoje, o défice democrático da UE é muito menor do que há alguns anos. O essencial da luta contra a crise foi feito pelo método intergovernamental, no Eurogrupo. Há uma possibilidade de superação da crise, alterando método comunitário.

Paulo Rangel:

a crise que vivemos não é nacional, nem europeia, mas global: uma crise do Estado. A partir da segunda metade do séc.XX, especialmente depois da queda do muro de Berlim e, mais ainda, depois do 11 de Setembro, dá-se a perda da territorialidade. Desterritorialização do poder. De aí as crises da democracia. Porque a vontade da maioria não decide nada. A UE é uma tentativa de resolver isto. Mas isto também não resolve o problema, porque as tecnologias, por exemplo, permitem a desterritorialização. O território não tem a importância de outrora: isto é claríssimo na questão dos mercados. Quem vota neles? O futuro das democracias passará por uma menor importância do voto, mas maior importância dos direitosDe aí que os tribunais sejam instituições de futuro, e os governos instituições do passado. Os populismos não são apenas europeus. Veja-se o que se está a passar nas primárias norte-americanas. O órgão principal na UE é hoje o Conselho Europeu: ele é que define, hoje.

Se a Catalunha tem Bruxelas, já não precisa de Madrid. O mesmo de Edimburgo face a Londres. Hoje para me afirmar no mundo não preciso de Madrid ou Londres, se tenho Bruxelas. Neste sentido, Bruxelas mina o poder interno.

A natureza humana é uma natureza de violência. A Europa esteve sempre em guerra. Devemos preparar-nos para a guerra. Temos que ter um exército europeu. Já em 2010 disse ao Jornal de Negócios que havia forte possibilidade de guerra.

Rui Tavares: 

o meu cenário preferido é o da democracia europeia. Não necessariamente federal, mas de algum modo inspirado por experiências anteriores. Há 100 anos estávamos em guerra, mas também há 200 e há 300. Portugal esteve sempre presente. A ideia de impedir um poder hegemónico na Europa esteve sempre presente. Mas às vezes com alguma precipitação. A promessa europeia (equivalente ao sonho americano) seria: prosperidade partilhada; estado de direito; direitos fundamentais para maiorias e minorias; soberania popular ou democracia (pode ser desterritorializada). Não acho que a principal crise na europa seja a do euro ou a dos refugiados, mas antes a do Estado de Direito (como com o que se está a passar na Hungria). Reinvenção da democracia necessária: deveríamos eleger os nossos representantes no Conselho da UE (normalmente, são embaixadores, mas legislam e deviam ser eleitos); o programa da Comissão deve ser apresentado com maior clareza; as famílias políticas europeias podem não corresponder às famílias políticas nacionais.
Não estávamos mal equipados com os Tratados europeus, para lidar com a crise: Roosevelt, com muito menos instrumentos (dados pela constituição americana) fez muito mais (do que a Europa). Não fizemos mais porque os Estados não quiseram.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Um abandono trágico



Um habitante de Allepo aponta-nos o dedo, usa a câmara como metralhadora do desespero de quem foi abandonado e deixou de contar para o resto da Terra: não vos perdoarei não terdes feito nada! Aqui o plural é a sociedade internacional, incapaz de travar o sanguinário regime de Assad, cavalgando, com snipers, sobre a sua própria população. Todos os códigos ultrapassados: a imagem do familiar que fica por terra, e não pode ser enterrado, permanece no meio da estrada um mês fora, porque ir buscar aquele corpo, aquela pessoa, equivale a um suicídio, ilustra o ponto de não retorno de quatro anos de matança. O corajoso documentário Aleppo. Notes from the dark, de Wojciech Szumovsky e Michal Przediacki testemunha os funerais corridos a tiro, a ausência de água potável meses a fio, o pão comido com bolor e água, a falta de electricidade durante meio ano em Allepo. Há mais: a radicalização religiosa daqueles que antes nem eram "praticantes", mas que, votados ao absoluto desprezo do resto do mundo, se inclinaram para as únicas súplicas que crêem escutadas. Se não somos poupados a qualquer pormenor, ficámos a saber como o regime pretendia que os seus médicos de serviço executassem, com injecções de ar, aqueles considerados terroristas, seus concidadãos ainda meses antes (entre os terroristas, crianças, porque não?). Este, o quotidiano de fome, de feiras para trocar algo num instante que se julga de trégua mas se transforma em tragédia - onde nenhum inocente, de que idade for, é poupado -, de lutas que ninguém houve (não há tv's, rádio, imprensa para noticiar manifestações) e no qual toda a infra-estrutura sofreu um dano brutal.
O não vos perdoarei não terdes feito nada remete-nos para o mundo policêntrico, ou anárquico, em que vivemos, sem liderança clara; para guerras travadas sem legalidade e legitimidade, transformando qualquer intervenção seguinte em uma miragem, seja na dificuldade de convencimento da opinião pública interna (do financiamento da intervenção, aos homens no terreno), seja, a fortiori, na persuasão da comunidade internacional; no drama humano de guerras travadas e no drama humano de guerras por travar, quer dizer, não terá sido devidamente ponderada, aqui, a responsabilidade de proteger (ou não se terão criadas as condições políticas para desbloquear uma acção concertada; ou o sistema que possuímos para desbloquear precisa de ser reformado; ou conflitos outros impedem agora as principais potências de se entenderem). E nem sempre as melhores intenções, dos líderes mais prestigiados e/ou bem-intencionados, para evitar uma intervenção, acautelam os interesses das populações. Em 4 anos 11% da população síria morreu, ou ficou gravemente ferida.

Quanto custou a guerra do Iraque aos EUA?


Só a guerra do Iraque custou aos EUA 800 mil milhões de dólares.

[dado presente no texto de Bernardo Pires de Lima, na revista XXI, nº6, Jan-Jun 2016]

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Eutanásia (II)


No único parecer, até hoje, sobre a questão da eutanásia, de 1995, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida considerou que a eutanásia não deveria ser legalizada.

Eutanásia


No parecer de 2013, a Associação Médica Mundial exorta os médicos a não praticarem eutanásia, mesmo em países onde esta esteja, ou venha a estar, legalizada.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

10 MANDAMENTOS. RAZÃO. REVELAÇÃO


Como diz Joaquim Carreira das Neves (p.ex., em O coração da Igreja tem de bater), certamente os Dez Mandamentos ("o abc da conduta humana", segundo Thomas Mann) não foram ditados, soprados ao ouvido (em nenhuma língua).

André Torres Queiruga fala assim da questão da revelação:

1) O que o profeta descobre não é uma realidade externa ou sobreposta, mas a única realidade humana (e do mundo); a especificidade do seu contributo não é acrescentar-lhe um suplemento «sobre-natural», mas vê-la na sua integridade e profundidade, ao descobri-la fundada e animada pelo Deus que cria e salva; 

2) Vê-a não com um órgão estranho ou mediante um intervencionismo milagroso, mas com uma razão humana que, criada e habitada também ela por Deus, consegue captar a sua presença.

3) Compreende-a como revelação, pois não pensa que descobriu por sua conta um Deus que, como nos jogos infantis, procurava esconder-se; pelo contrário, sabe que, se consegue descobrir o significado dessa presença, é unicamente porque Deus estava a fazer todo o possível para manifestar-se.

Por isso, e isto é muito importante, por parte de Deus deve falar-se de «a máxima revelação possível» (...)
O profeta é o primeiro a cair na conta, não de algo exclusivo para ele, mas de algo que Deus estava a procurar manifestar a todos (pois em todos habita com o mesmo amor). Por isso, a palavra profética chega certamente de fora - fides ex auditu -, mas não traz algo externo, pois remete o ouvinte para a sua própria realidade, a sua própria e definitiva verdade última.
Neste sentido, pessoalmente recorri à categoria de «maiêutica histórica», porque pode exprimir com precisão esta estrutura fundamental.
É maiêutica porque, como Sócrates dizia de si mesmo, como que evocando o ofício da sua mãe, a palavra de revelação não introduz nada de fora, mas ajuda a «dar à luz», a ver com os próprios olhos a realidade enquanto habitada por Deus. Por isso, todo o crente pode - e deve - chegar a dizer, como os seus vizinhos à Samaritana: «Já não cremos por causa do que tu contas; nós mesmos ouvimo-lo e sabemos que ele é realmente o salvador do mundo» (Jo 4, 42). (...) A revelação eterna de Deus acontece na realização intrinsecamente histórica do homem (...)

Franz Rosenweig (...): "A Bíblia e o coração dizem o mesmo. Por isso (e  por isso) a Bíblia é 'revelação' ".

É claro que este conceito de revelação realiza a seu modo a equivalência de uma sobrenaturalização do natural e uma naturalização do sobrenatural, ou, se se quiser, uma «revelização» - sit venia horribili verbo (desculpe-se o horror do termo) - da razão e uma «racionalização» da revelação.
À maneira de teses, tentarei mostrar alguns pontos importantes, com uma advertência prévia fundamental: falarei sempre de uma razão teónoma, isto é, uma «razão ampliada» - a única real - que, sendo manifestação da realidade humana toda, procura compreender-se a partir do seu fundo mais radical e não se fecha a nenhuma das suas dimensões, recusando qualquer redução ou estreitamento, seja racionalista, positivista, instrumental ou de qualquer outro género. Inclui, portanto, em si mesma, também o sentimento, a experiência e intuição. Na verdade, mais do que de «razão», dever-se-ia falar da subjectividade humana com todas as suas capacidades de tomar consciência do real.

1.Que a revelação é verificável - dentro, é claro, do seu modo de «dação» específica - segue-se claramente do que ficou dito. Uma vez que faz de «parteira» para cair na conta do seu ser próprio, toda a pessoa está, em princípio, em condições de reconhecer-se na interpretação que se lhe propõe, ou de rejeitá-la, se não a convence, ou até de propor uma interpretação alternativa. Isto é, de facto, o que acontece na vida real, quando esta é crítica. Blondel disse-o bem, ao falar da conversão como coincidência entre o «fait intérieur» - a própria subjectividade enquanto habitada e chamada por Deus - e o «fait extérieur» da proposta revelada.

2.Compreende-se que toda a religião é revelada, na exacta medida em que «religião» significa cair na conta da presença de Deus e acolhê-la.

A teologia, a partir de «o Deus que cria por amor», in Deus ainda tem futuro?, pp .263 e segs.

Historiografia (IV)


Pareceu-me que a publicação da mais recente obra do Professor Frederico LourençoBíblia - o livro aberto, suscitou nos autores que na nossa imprensa escrevem vindos, especialmente, do mundo religioso (católico), de José Tolentino de Mendonça a Frei Bento Domingues, passando por Anselmo Borges, um especial interesse e enfoque nas questões historiográficas relativas à Bíblia e a Jesus de Nazaré. Em quatro posts, procurarei aqui relembrar, neste âmbito, de modo esquemático, alguns dados a termos em conta:


46.Do período entre 110 e 120 d.C. 3 curtas menções a Cristo foram conservadas nas obras de autores romanos: Plínio, o Jovem; Tácito; Suetónio.

47.Estes autores vêem de esferas estatais. Tinham posições administrativas e ambições literárias. Eles vêem o cristianismo como algo de negativo.

48.Plínio era aristocrata e advogado. Regista, indo averiguar um pleito contra cristãos – nesta altura perseguidos como “inimigos do género humano” -, obrigando, a quem não queria penar severamente, a abjurar o Cristo, o que lhe contam antigos cristãos que dizem ter abandonado o Deus de Jesus Cristo: reuníamo-nos antes do pôr do sol e cantávamos a Cristo, nosso Deus. Depois, fazíamos juramento no qual nos comprometíamos a não furtar, não roubar, a não cometer adultério, ou ficar na posse de bens que nos haviam sido confiados.

49.Tácito: membro da aristocracia senatorial. Tem aversão aos cristãos. Ficou célebre pela sua obra “Anais”. Também ele se refere a Jesus.

50.Suetónio: pertence à ordem dos cavaleiros. Advogado. A fonte de Suetónio, sobre Cristo, não é, manifestamente, cristã.

51.Sobrevalorizadas, muitas vezes, como prova da indiscutível existência de Jesus de Nazaré, ou subvalorizadas, outras tantas, pelo facto de as alusões a Jesus serem, ainda assim, curtas, em alguns casos dependentes de fontes cristãs, o principal valor das fontes não cristãs, sobre Jesus, é que elas demonstram que os contemporâneos dos primeiros cristãos não vêm motivos para duvidar da existência de Jesus.

52.Os Evangelhos pretendem transmitir tradições do que Jesus disse e fez durante a sua vida terrestre (1). A experiência pascal, ao transformar profundamente os discípulos e a sua relação com Jesus, também transformou as tradições sobre Jesus e a maneira de as transmitir (2). O aparecimento dos Evangelhos (escritos) implicou algum tempo, respondeu a motivos/situações concretas e pressupôs uma maneira própria de entender a tradição anterior (3).

53.A tradição evangélica transmite-se, no início, de forma oral. É impensável conceber-se os discípulos a tomarem notas escritas das palavras de Jesus. Mas a cultura da escrita fazia, igualmente, parte da cultura em que se integravam os primeiros cristãos. Assim, à medida que se realizavam coleções mais extensas – das palavras, dos feitos, das realizações de Jesus – e se acentuava o desejo de que não se perdessem, a codificação escrita é natural corolário. Tal codificação não supôs o desaparecimento da transmissão oral: ambas coexistiram.

54.De acordo com a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, o trabalho dos Evangelistas consistiu em:
a) seleccionar dados da tradição oral ou escrita; b) realizar sínteses; c) adaptar a tradição recebida à situação das diversas Igrejas; d) conservar o estilo da proclamação.

55.Natureza dos evangelhos sinópticos: i) são textos narrativos. Face ao imprevisível e único actuar de Deus na história, resta relatá-Lo, contá-Lo. Há, na Bíblia, textos argumentativos, poéticos, exortativos, etc.; os textos dos sinópticos são, pois, narrativos; ii) mas não uma narrativa qualquer. Não uma narrativa ficcional, lendária, fantasiosa. Não uma narrativa jornalística, biográfica (à maneira actual). Trata-se de uma narrativa teológica, de quem descobriu Deus em – na vida de – Jesus (o Cristo). Não são crónicas históricas, mas baseiam-se na História.

56.Objectivo/finalidade dos evangelhos: x) despertar e fortalecer a fé nas comunidades cristãs; xx) fazer da vida de Jesus o paradigma para compreender as suas palavras; xxx) visão equilibrada e sintética, tanto teológica como literariamente, da pessoa e obra de Jesus, da vinculação dos discípulos com ele.

57.A Igreja sempre aceitou a pluralidade dos Evangelhos e opôs-se a ficar com um só, ou de escrever um relato-síntese de todos eles. A pluralidade dá riqueza teológicas; 4 perspectivas podem completar-se.

58.A reivindicação dos direitos da razão humana em todos os campos, realizada pela Ilustração/Iluminismo, necessariamente teria que ter a sua tradução na teologia e nos estudos bíblicos. Assim, em finais do séc.XVIII, inícios do séc.XIX principiam os estudos científicos sobre os Evangelhos.

59.A designação sinóptico foi aplicada aos três primeiros evangelhos, por J.J.Griesbach, em 1776. Mt, Mc e Lc apresentam tais semelhanças e diferenças que é possível coloca-los em três colunas e com uma “visão de conjunto (sinopse) verificar concordâncias e divergências.                            

60.Alguns critérios muitas vezes utilizados para tentar encontrar Jesus nas palavras que lhe são atribuídas nos Evangelhos:  
j) tradição múltipla: um dado evangélico que se encontra em mais fontes (tradição múltipla) tem mais probabilidade de remontar a Jesus do que aquele que se encontra numa única fonte. A probabilidade aumenta quando tal aparece sob formas literárias diversas; jj) descontinuidade ou dissemelhança: o pensamento e forma de estar de Jesus não só são novos como inesperados, pelo que quando se aponta à originalidade há grande probabilidade das palavras remontarem a Jesus; jjj) conformidade (ou continuidade e coerência): completa o critério anterior. Continuidade com o ambiente da Palestina daquele tempo, conformidade com o ensinamento central de Jesus, a vinda do Reino de Deus; jjjj) explicação necessária: os dados paradoxais que nos são apresentados, episódios ou discursos, só são explicáveis à luz da personalidade extraordinária de Jesus Cristo; jjjjj) estilo de Jesus: o falar de Jesus seria simples, sóbrio, autorizado. Solene, empenhativo. Eivado de expressões arcaicas. Com paciência e amor para com os pecadores; duro para com a hipocrisia dos fariseus.                 

61.Os Evangelhos não seleccionados para o cânone foram entendidos como possuindo características lendárias, mitológicas, de concepção geralmente muito tardia, com traços gnósticos (de rejeição do mundo, de rejeição do corpo, de revelação da mensagem a um grupo de eleitos). Autores há que contestam esta apreciação do valor dos apócrifos. O chamado Evangelho de Tomé, ainda assim, será aquele que, para alguns autores, conserva dados de real interesse e utilidade.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
 (conclusão)


[Pequena bibliografia consultada: “A verdadeira história de Jesus”, de E.P.Sanders; Gerd Theissen e Annete Merz, “O Jesus histórico – um Manual”; Joachim Gnilka, “Jesus de Nazaré”; Joaquim Carreira das Neves: “Deus existe?”; “Evangelios Sinópticos e Hechos de los Apóstoles”, de Rafael Aguirre Monasterio e Antonio Rodríguez Carmona]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Historiografia (III)


Pareceu-me que a publicação da mais recente obra do Professor Frederico LourençoBíblia - o livro aberto, suscitou nos autores que na nossa imprensa escrevem vindos, especialmente, do mundo religioso (católico), de José Tolentino de Mendonça a Frei Bento Domingues, passando por Anselmo Borges, um especial interesse e enfoque nas questões historiográficas relativas à Bíblia e a Jesus de Nazaré. Em quatro posts, procurarei aqui relembrar, neste âmbito, de modo esquemático, alguns dados a termos em conta:

31.Antes de Paulo, pregaram e escreveram apóstolos, profetas, doutores, evangelistas cujos textos – fonte Q – não chegaram até nós.

32.Uma fonte tem tanto mais valor quanto mais se aproxima do Jesus histórico.

33.Ora, os Evangelhos contém tradições individuais mais antigas do que Paulo e, por isso, estão mais próximos do Jesus histórico.

34.A palavra apócrifo significa oculto. Significa, com um sentido neutral, o que não foi incluído no cânone. Em sentido pejorativo, quer dizer herético, falsificado.

35.O grupo de escritos do Cristianismo nascente ficou fixado/estabelecido, definitivamente, no séc.XVII. O principal critério foi a suposta ortodoxia e confiabilidade destes evangelhos, em contraste com os apócrifos.
Entre eles se inclui a 1ªCarta de Clemente, as Cartas de Inácio e a carta de Policarpo, a Didaqué, a Carta de Barnabé.

36.Agrapha: palavras de Jesus não incluídas nos evangelhos canónicos. Palavras de Jesus transmitidas oralmente nos Padres da Igreja ou de palavras transmitidas em apócrifos.

37.Sobre os apócrifos (da razão de não integrarem o cânone): aponta-se-lhe o não seguir a tradição apostólica; alguns autores sustentam que são muito tardios e não contém tradições do séc.I (outros, contestam esta visão). Afirma-se também possuírem carácter lendário e fantasias.

38.Vários agrapha começam com “e Jesus disse”.

39.A guerra dos judeus contra Roma decorreu entre 66-74 d.C. e está reflectido no Evangelho de Marcos – de aí a sua datação.

40.É muito provável que a fonte Q estivesse disponível em grego e por escrito. A fonte Q apenas pode ser inferida.

41.Mateus é bem atestado por papiros antigos (a partir do ano 200). Provável que tenha sido redigido na década de 80, o mais tardar na de 90.

42.O Evangelho de Lucas surge na 1ª metade da segunda geração: entre 70 d.C. e 140-150 d.C. O Evangelho de João surge pela viragem do século.

43.Inicialmente, as palavras de Jesus terão sido transmitidas por peregrinos carismáticos (uma forma de cristianismo social radical). Tal pode ser inferido creditando-se o evangelho de Tomé.

44.Flávio Josefo, e entramos aqui nas fontes não cristãs acerca de Jesus de Nazaré, historiador judeu, foi preso pelos romanos na guerra da judeia contra Roma. Profetizou que Vespesiano seria Imperador. Este acabou por vir a desempenhar tal múnus. E mandou libertar Flávio Josefo. Este, fala de Jesus na obra “Antiguidades Judaicas”, a sua história do povo judeu, escrita por volta do ano 93. O parágrafo no qual fala de Jesus, na exacta formulação que até nós chegou, vem merecendo amplo debate entre aos exegetas quanto ao modo como poderá ter sofrido – e em que precisos termos – alterações (relativamente ao que seria o trecho original do parágrafo, não se duvidando, todavia, de que nesse passo, ainda assim curto sem dúvida, mencionou Jesus de Nazaré).

45.O filósofo pagão Mara Bar Sarapion terá sido o testemunho mais antigo, tanto pagão como judeu, sobre Jesus. Numa carta, a partir de uma prisão, para o filho, refere-se ao rei dos judeus e à nova lei que veio dar (ao seu povo). Compara a morte de Jesus à de Sócrates, ao modo como o povo foi injusto com ambos. A carta deste estóico sírio terá sido escrita pouco depois de 73 d.C.


[Pequena bibliografia consultada: “A verdadeira história de Jesus”, de E.P.Sanders; Gerd Theissen e Annete Merz, “O Jesus histórico – um Manual”; Joachim Gnilka, “Jesus de Nazaré”; Joaquim Carreira das Neves: “Deus existe?”; “Evangelios Sinópticos e Hechos de los Apóstoles”, de Rafael Aguirre Monasterio e Antonio Rodríguez Carmona]

Notícias que deviam abrir telejornais


Para guardar, o trabalho de Clara Teixeira, com Isabel Nery e Rita Montez mais Hélder Oliveira, na Visão desta semana. Bom jornalismo na peça Como os ricos escapam ao fisco.
Nela, entre muitos outros dados, pode ler-se uma notícia que devia ter aberto os telejornais domésticos (mais interessados no spin, na pequena política do que naquilo que estruturalmente ajuda a moldar, em termos económicos, as nossas vidas): "Na semana passada, a fuga ao fisco pelas grandes empresas foi tema de debate no Parlamento Europeu, em Estrasburgo. Em cima da mesa estava um pacote de medidas que deviam contribuir para combater o conluio entre governos e multinacionais, no seguimento do escândalo Luxleaks. Mas os avanços foram titubeantes. Tirando a obrigatoriedade de cada país elaborar um relatório sobre os acordos fiscais especiais, que terá ainda de ser negociada com cada governo, poucas foram as conquistas (...) Medidas como o imposto mínimo, que implicaria uma taxa comum dentro da UE, independentemente do que cobra cada país, e a protecção dos "lançadores de alertas", que evitaria o castigo de quem denuncia fraudes, ficaram pelo caminho. Marisa Matias (...): "como explicar aos cidadãos não votar isto?". Luxemburgo e Holanda nem responderam. (pp.41-42, Visão nº1197, de 11-02 a 17-02-2016)

Dos papéis numa sociedade em mudança


- Quem se sente como pai? Tudo isto é infantil, não é tempo de ser criança.

Até ao fim, Virgílio Ferreira, 1ª edição 1987, reimpressão da Quetzal 2014, 23.

[diálogos com o pai]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

AMOR, VIDA




A foto é de Joseph Eid, da AFP (encontrei-me com ela, hoje, na Visão). Em Homs, na Síria, país no qual terão morrido, soubemos hoje, cerca de 470 mil pessoas desde 2011, cidade que era a terceira maior do país, com 650 mil habitantes, destruída, devastada, em cacos. E, ainda ali, com espaço para o amor, numa homenagem incrível à vida. Nem a morte os separa (titulou a Visão) Uma foto extraordinária.

A Economia e a Física


Timothy Garton Ash, esta quinta-feira, em ElPais:

The Guardian preguntó hace poco a nueve economistas si nos encaminamos a otra crisis financiera mundial y, como es natural, dieron nueve respuestas distintas. (...) Los que consumimos ciencia económica debemos ser más realistas sobre sus límites, y los propios economistas también. Una actitud más modesta tanto en la oferta como en la demanda de análisis producirá mejores resultados. (...) Después de la gran crisis que comenzó hace casi 10 años, la ciencia económica ha hecho examen de conciencia, hasta cierto punto. Seguramente la autocrítica debería haber sido más profunda, tanto en los medios académicos como en la banca, pero está ahí. En particular, los pensadores económicos agrupados en torno al Instituto de Nuevo Pensamiento Económico de George Soros (INET) han elaborado un revelador informe sobre lo que sucedió. (...) Adair Turner, que vivió de cerca las principales decisiones económicas cuando era jefe de la Autoridad de Servicios Financieros de Reino Unido y hoy preside el INET, ofrece una versión comedida y convincente en su libro Between Debt and the Devil. Es cierto que los principales economistas criticaron los modelos matemáticos de perfección del mercado y que los mercados financieros tal vez siguieron versiones demasiado simplistas de esos modelos, dice Turner, pero “la corriente dominante de la ciencia económica y la ortodoxia política” no vio venir la crisis e incluso contribuyó a ella. Los principales errores fueron la “hipótesis del mercado eficiente” y la “hipótesis de las expectativas racionales”. Los economistas se acostumbraron a pensar que los actores del mercado se comportan no solo de forma racional, sino de acuerdo con los mismos modelos mentales que los economistas. (Soros lleva medio siglo tratando de denunciar esta falacia). Además, los especialistas en macroeconomía “en general no tuvieron en cuenta las operaciones del sistema financiero, en particular el papel de los bancos”. (...) El fundamentalismo del mercado se consideraba el polo opuesto de la economía comunista centralizada, pero en realidad cometió el mismo error: creer que un modelo racional podía abarcar, predecir y optimizar la dinámica complejidad del comportamiento colectivo de los seres humanos. Como escriben Roman Frydman y Michael Goldberg, “el economista, pues, igual que un planificador socialista, cree que puede hacer grandes cosas porque piensa que ha logrado descubrir el mecanismo predeterminado que produce los resultados del mercado”. (...)Numerosos economistas cayeron presa de lo que se ha denominado envidia de la física, por analogía con la envidia del pene de Freud. Como otras áreas de las ciencias sociales, aspiraban a tener el prestigio, la certidumbre y la previsibilidad de la física. Hace tiempo que pienso que esta arrogancia creció gracias a que la economía es la única de las ciencias sociales a la que se le concede un Premio Nobel. Para ser exactos, es el Premio Sveriges Riksbank de Ciencias Económicas en memoria de Alfred Nobel, dotado por el banco central sueco y creado en 1969. Pero todo el mundo lo llama Premio Nobel de Economía y ha otorgado a los economistas una aureola especial que los ha ennoblecido. (...) Eso no quiere decir que no debamos hacer caso a los economistas ni que la ciencia económica no merezca tener un Nobel. Solo significa que no es una ciencia exacta como la física. Para ejercerla bien hay que tener en cuenta la cultura, la historia, la geografía, las instituciones, la psicología individual y colectiva. John Stuart Mill decía que “nadie puede ser buen economista si no es nada más”, y John Maynard Keynes que un economista debía tener “algo de matemático, historiador, estadista y filósofo”. Y afirmó que “la ciencia económica es fundamentalmente una ciencia moral”. En realidad, se podría decir que el Nobel de Economía está a mitad de camino entre los de Física, Literatura y Paz. La ciencia económica es, en el mejor de los casos, un oficio multidimensional, basado en hechos, alerta a todo lo que influye en el comportamiento humano, de miras ambiciosas y de expectativas modestas sobre lo que se puede predecir. (...) ¿Cuál es la conclusión de esta nueva y vieja interpretación de la naturaleza de la ciencia económica? No conozco la economía que se enseña en las universidades tanto como para decir si tienen que adaptarse más, pero me llamó la atención un manifiesto publicado hace un par de años por estudiantes de Economía en la Universidad de Manchester. En él proponían un enfoque “que comience con los fenómenos económicos y dé a los alumnos las herramientas para evaluar cómo puede explicarse desde distintas perspectivas”, en lugar de modelos matemáticos basados en hipótesis nada realistas. Seguramente a la economía le pasa como a otras disciplinas y cambia más despacio de lo que debería, por la fuerte inercia que suponen los viejos profesores acostumbrados a una manera determinada de hacer las cosas. (...) Y está también la conducta de los grandes responsables de la economía: ministros, banqueros centrales y líderes empresariales. Hace poco leí una espléndida charla que pronunció el veterano inversor Charlie Munger, el socio de Warren Buffett en Berkshire Hathaway, en 2003, mucho antes de la crisis. “Todo lo que ha conseguido Berkshire lo ha hecho sin prestar la más mínima atención a la teoría del mercado eficiente”. Su sabio consejo era restablecer el carácter multidisciplinario de la ciencia económica, no dar peso excesivo a lo cuantificable frente a lo que no lo es, no ceder a los deseos de falsa precisión ni dar prioridad a la macroeconomía teórica por encima de la microeconomía cotidiana, que era por la que se regían las decisiones inversoras de Berkshire. 

Na íntegra, aqui.

No mesmo sentido, o segundo episódio da série documental Capitalismo que o Odisseia tem passado.

Na nossa tese, de resto, havíamos sublinhado esta dimensão: Ora, se atentarmos, em particular, no pilar regulador - todas as instituições assentam em sistemas de regras que regulam e constrangem o comportamento dos seus membros; o específico dos que enfatizam este pilar é o seguinte: centralidade aos processos de produção de regras e práticas de controlo e aplicação de sanções –, que tende a ser aplicado, primacialmente, na análise da economia, observamos que ele parte de uma concepção antropológica segundo a qual indivíduos e organizações são actores racionais que perseguem (apenas) interesses próprios, agindo de acordo com uma lógica instrumental e calculista, respeitando as regras por as percepcionarem como vantagem, numa lógica de custo-benefício[6]. Sem embargo, será de aceitar, sem mais, esta descrição de indivíduos e organizações? Primo: será que as pessoas se guiam pela razão, em vez - de se deixarem seduzir pela - da paixão e dos impulsos? Em segundo lugar, tomando como bom o pensamento de Herbert Simon, as pessoas nem sempre estão dispostas a concentrarem-se de tal maneira que possam/consigam chegar a escolhas racionais. Note-se: várias pesquisas provam o afastamento da completa maximização dos (humanos) objectivos ou finalidades (na acção humana). E, ademais, o que é racional, é-o para todos (os homens e mulheres), ou, para outros, (o que havia sido racional nos seus congéneres) pode, afinal, ser entendido como pouco razoável/estúpido? Na verdade, tem-se traduzido, comumente, escolha racional como o “perseguir inteligentemente os (…) interesses próprios e nada mais para além disso”[7]. De acordo com o Nobel da Economia e filósofo indiano, estamos perante uma abordagem claramente redutora: “Dado que, normalmente, os seres humanos têm boas razões para dedicarem a sua atenção a outros objectivos, para além de uma actividade dirigida exclusivamente à satisfação dos interesses próprios, e podem vislumbrar argumentos que depõem a favor da tomada de consciência de valores mais amplos ou de certos padrões normativos de bom comportamento, pode concluir-se que, na verdade, a Teoria da Escolha Racional acaba por reflectir um entendimento extremamente limitado da razão e da racionalidade”[8] Existirá o altruísmo? Uma pessoa pode ser mais altruísta do que outra sem que nenhuma viole o princípio da racionalidade: “a existência de uma pluralidade de escolhas racionais torna difícil que, partindo da mera ideia de racionalidade, se consiga chegar a uma previsão única da escolha real de uma determinada pessoa”[9]. Em uma definição lapidar, diríamos, com Francis Edgeworth, que o ser humano é “um egoísta impuro, um utilitarista misto”[10]. Em suma, “A suposição de um ser humano completamente egoísta viria a assenhorar-se de grande parte da corrente económica dominante, ao passo que muitos dos grandes cultores da disciplina já viriam a expressar sérias dúvidas acerca da veracidade de uma tal suposição (…) É frequente pensar-se erradamente em Adam Smith como um defensor da suposição exclusiva busca do interesse próprio, sob a forma do ‘homem económico’. A realidade, porém, é que Adam Smith nos oferece uma discussão particularmente elaborada dos limites dessa suposição de uma universal busca do interesse próprio. Adam Smith realçava o facto de que o ‘amor de si mesmo’, como ele chamava ao impulso subjacente aos comportamentos exiguamente auto-interessados, é apenas uma das muitas motivações que os seres humanos podem ter. Ele distinguia claramente entre diferentes razões que podem levar alguém a contrariar os ditames do amor de si mesmo, aí se incluindo, entre outras, as seguintes: simpatia (…), generosidade, espírito cívico”[11] 

Vide, aqui.