domingo, 31 de janeiro de 2016

A China no futebol


Fiquei bastante surpreendido com as transferências, no "mercado de Inverno" de Guarín e Ramires (este numa transferência de 33 milhões de euros, a mais cara contratação do campeonato chinês), ainda, aparentemente, com muito para dar ao futebol e sem veterania assinalável, para a liga chinesa. Mas, vendo bem, como as coisas são, em nossos dias, talvez o dado mais relevante para se compreender o que aí vem, em termos futebolísticos (e sua deslocalização) seja este: a Ford largou a Uefa e o patrocínio da Champions League e tornou-se sponsor do campeonato chinês. A China pretende receber e vencer o Mundial de 2030 (sempre a longo prazo a previsão chinesa). E, muito recentemente, Rummenige, falando de uma putativa (super)liga europeia (nenhuma equipa portuguesa mencionada), falou na possibilidade de ser jogada na China e nos EUA. Mamona parece exigir, incessantemente, novos tributos e adulações, pelo que não se regateará por locais mais amistosos e tradicionais da bola, desde que tudo venha envolvido em bons cobres. E, todavia, como apontava, recentemente, John Carlin os europeus vivem o futebol muito diferentemente do modo americano de apreciar os diferentes desportos. Cada adepto, no Velho Continente, projecta-se na equipa e cores que escolheu e o jogo assemelha-se a um combate levado a sério, não apenas o entretenimento que compete com a comédia romântica do shopping da esquina. Passá-lo para esse exclusivo domínio - tem caminhado nesse sentido, mas ainda relativamente distante de ser assimilado por ele, em esta época - será confirmar as teses de Willaime: até os "desencantadores são desencantados", não cessando o sentimento de perda e vazio. Encher-se-à, provavelmente, de yuans a bola, mas a aura - a "mística" - irá borda fora.

Tendências globais



O Burundi está numa situação muito parecida à do Ruanda dos anos 90, sendo que podemos estar à beira de um (novo) genocídio sem que se desbloqueie a capacidade de agir. "Não imaginam a frustração" de saber que o problema se pode resolver, de quem são os actores que o podem concretizar e, ainda assim, tudo ser deixado sem solução: "muitas vezes, é muito duro!", concluiu, em tom angustiado, António Guterres, na passada segunda-feira, em Serralves, para uma conferência sobre Tendências Globais - nessa noite, muito centrada nos problemas dos refugiados. E, ainda que muito lamentando a ausência de estratégia europeia, ainda que fazendo remontar a crise ao facto de os sírios, muito em particular, se terem sentido abandonados e por isso partirem de suas casas, ainda que tenha aludido ao "colapso" que poderá advir de a Alemanha recuar na posição que tem mantido, até ao momento, nesta problemática, Guterres não deixou de salientar, após inciso de Álvaro de Vasconcelos, que mais dramática ainda é a posição dos "deslocados internos", 8 milhões na Síria. É que enquanto as protecções jurídicas de que gozam os refugiados - incluindo o papel do Alto Comissário que ainda é significativo, em termos normativos -, os deslocados internos parecem estar completamente ignorados (e sem qualquer protecção; o ex-PM português diz que o estatuto do refugiado, de 1951, seria, hoje, impossível de elaborar, dado que os direitos para este(s) plasmados hoje não recolheriam suficiente aceitação). A conferência principiou pelo diagnóstico de um mundo caótico, em que a emergência do poder de potências médias deixou sem uma liderança clara e, bem assim, sem capacidade de eficácia para responder a questões urgentes do ponto de vista humanitário (hoje, Clinton não teria a mesma eficácia no pronunciamento decisivo que alcançou para reconfigurar a questão timorense). A intervenção no Iraque foi, ainda, "momento crucial" para a perda da liderança americana. Até devido aos problemas demográficos portugueses, António Guterres sustentou que o país devia ter uma política pró-activa em matéria de acolhimento do contributo que refugiados (e outros migrantes) poderiam trazer ao país.

Modelos educativos


Os sublinhados principais que faço da entrevista de Josep Menéndez, director-adjunto da Fundação Jesuítas-Educação, da Catalunha, ao DN

É preciso fazer coisas no colégio para que o aluno se vá construindo, e todos os conhecimentos têm de ser metidos dentro do projeto. Não é: "A minha vida é isto e os meus conhecimentos estão noutro lado." Tenho de integrá-los. (...) Um dos elementos estratégicos é ter grupos de alunos de 50 ou 60, com três professores na aula, de diferentes disciplinas, trabalhando em equipa - não é cada um na sua área. Isto agrada aos professores mas exige mais deles. Nunca trabalhámos assim. Eu nunca dei uma aula com outro professor. (...) Aplicamos uma parte da [Teoria] das Inteligências Múltiplas (Howard Gardner, 1985, Harvard), uma parte da aprendizagem baseada em problemas, uma parte do trabalho colaborativo, e fazemos um ecossistema. O nosso modelo baseia-se muito no trabalho interdisciplinar por projetos. (...) Primeiro houve uma fase de pegar na tesoura e no currículo e começar a cortar. O currículo é excessivo, demasiado grande, mas não podes perder os elementos essenciais, tens de garantir que o aluno os aprende. Juntámos um grupo de professores e dissemos: têm de estabelecer prioridades nos conteúdos do currículo. Esse trabalho durou dois anos (...) Precisamos de mais tempo, porque precisamos de uma metodologia muito mais construtivista. (...) Estamos a falar de miúdos de 10 anos, do 5.º ano, que têm de aprender os acidentes geográficos - o cabo, o golfo, a península, a ilha. Tradicionalmente, é assim: "Uma ilha é um pedaço de terra..." ... rodeado de água por todos os lados... Exato. Neste modelo, o professor reúne-os em grupos e diz: vamos aprender acidentes geográficos, a ilha, a península. Aos 10 anos, eles já ouviram estas palavras, já as viram muitas vezes. Dizemos: em grupo, vão escrever uma ilha por palavras vossas, sem ir ver a lado nenhum. Uma menina dizia - não sei explicar o que é uma montanha. E fazia um gesto que ilustrava a ideia de montanha. Escreve isso. Uma coisa que sobe. Uma coisa, não, terra. Terra que sobe. A certa altura estão apaixonados, não se aborrecem, falam uns com os outros. Quando o professor diz: vamos saber o que os livros dizem, os alunos já estão a trabalhar mentalmente com a imaginação. É mais lento mas é mais profundo. (...) A volta ao mundo em 80 imagens. Este grupo fica com a América, aquele com a Europa, outro com a África. O que queremos saber? A língua que falam, se têm religião, como é o país - é montanhoso, tem mar, tem rios? Vão dizendo coisas e o professor vai escrevendo no quadro. O professor está ali para o caso de eles se esquecerem de alguma coisa. Por exemplo, um grupo não falava da língua - não seria interessante saber como falam? Mas os alunos já estão a trabalhar. O que significa um país, de que vive? Eles não vão dizer "que economia têm", e se não pensaram nisso, se achavam que o que comem cai do céu, vão ter de pensar como se ganha a vida. Em vez de explicar tudo, em vez de ser o professor que fala, fala, fala, são os alunos que falam, que partilham. A dada altura, o professor diz: procurem na internet - têm computadores à disposição, pesquisem. Quantos quilómetros quadrados, quantos habitantes? E descobrem: não tínhamos pensado nisto, não tínhamos pensado que é importante saber quantas pessoas ali vivem, e se os que lá vivem são todos desse país ou se têm muita imigração. Tudo vai sendo construindo em volta disto. (...) Os alunos começam o dia sentados na sala, nuns estrados em degraus, como se fosse uma praça pública. Sentam-se todos juntos, os 50 ou 60, e partilham como começamos o dia. Todos têm cadernos iguais, o caderno do projeto de vida. O caderno é de cada um e de mais ninguém, dizemos aos pais que não o podem ler, e não os podem mostrar aos companheiros. Eles vão escrevendo sobre o que lhes chama a atenção. Por vezes começam com uma oração, mas muitas vezes escrevem sobre o que se passou, se houve uma notícia sobre refugiados, ou alguma notícia desportiva, por exemplo se o Barça perdeu, o que nunca acontece... se o Barça perdeu há de haver alguém que pergunta mas o que é isso, a derrota, o que significa? Ao fim do dia, a mesma coisa. (...) os projetos ocupam 60% do tempo. Treze por cento é dedicado à reflexão, ao fim da semana, ao fim do dia. E o resto, 20 e tal por cento, é dedicado a algumas tarefas que não se fazem por projetos. Por exemplo, alguns conceitos de matemática são muito complexos. Então o professor dá-os em meia hora, três quartos de hora. Os professores de Inglês disseram-nos que os verbos irregulares de inglês têm de ser memorizados. Há áreas que não podem ser trabalhadas em projetos, e estão nesse caso a segunda língua estrangeira - todos estudam Francês ou Alemão - a música e a educação física. Não estamos satisfeitos por termos separado estas áreas, mas estamos a começar. Por vezes a música integra-se. Há projetos que duram, no máximo, duas semanas, outros uma semana ou três dias. Depende. Os mais fortes duram duas a três semanas. (...) O que diz o currículo oficial é que a escola deve promover o gosto pela leitura. Não é ler três livros e fazer um teste. Como fazer? Dando-lhes mais liberdade e ampliando o número de livros. Os alunos têm 100 livros, e têm de ir lendo. Há alunos que leem 10, 12, 14. Outros leem quatro ou cinco, é o mínimo por ano. Num ambiente digital, os alunos partilham o que leem. Escrevem: li isto, gostei por isto ou aquilo, e isso é partilhado entre três colégios. Temos alunos de um colégio que influem muito nos alunos de outro. Todos os alunos têm de ir escrevendo sobre o que leem. Como o professor não dedica tanto tempo a explicar, o que faz é observar e ler o que eles escrevem. Um professor consegue sempre intuir - estás a copiar tudo, tudo o que escreveste foi copiado, porque eu conheço-te e sei que isto não tem nada a ver contigo. Tem tempo para lhe dizer - vamos lá... Ou tem tempo para dizer a um companheiro - vamos tentar que fulano leia mais. O resultado que observamos é que os alunos leem, uns na sala de aula, outros no chão, outros no sofá, outros no salão. E leem. Não há disciplina para ler, não estão todos sentados. Os alunos vão lendo e escrevendo e os professores não fazem exames sobre os livros, fazem debates. Vamos falar sobre este livro. Ou sobre este quadro. E fazem debates. (...) Primeiro, observamos quantos livros leem. E depois quando terminam as férias e regressamos à escola, fazemos uma espécie de focus group: quantos livros leram no verão? No verão não é obrigatório. Eu, nenhum. Eu, dois. Eu, quatro. Ao fim de três anos, saberemos se há alguma relação entre o que fazemos e o que leem no verão. Se lerem mais é porque gostam de ler. É uma aposta de longo prazo. (...) O currículo é um elemento muito importante de referência. Queixamo-nos de que o currículo é demasiado extenso, mas muitas das partes estão bem selecionadas. E os alunos têm de ser avaliados segundo as competências nacionais. Mas é muito importante estabelecer prioridades e evitar as repetições. Quando os professores trabalham sozinhos, há coisas que acontecem naturalmente. Um gosta muito de um tema e repete-o de ano para ano. Pelo contrário, há um tema do currículo que nunca foi tratado. Tentamos ter um olhar transversal do currículo, dos seis aos 16 anos, e garantirmos que adquirem os conhecimentos das competências. O currículo é um obstáculo se eu quiser cumpri-lo todo, se não for capaz de criar prioridades e trabalhar com os outros professores. (...) Não há provas finais. Há testes pequenos durante a avaliação, até porque os currículos dizem que tem de haver avaliação contínua. Substituímos a ideia de um exame final escrito pela apresentação e defesa de projetos. Se estive três semanas a trabalhar num projeto em que adquiri algumas competências, em que assimilei alguns conceitos, tenho de ser capaz de defendê-los quando o apresento diante de um professor. O professor faz testes, por exemplo sobre os verbos irregulares de inglês... Há testes de problemas de matemática.
(...) Reduziu-se a conflitualidade, os problemas dentro da aula, os alunos que tinham diagnóstico de TDA (distúrbio de défice de atenção), hiperatividade, estão muito mais confortáveis. Os mais tímidos também, porque o olhar não é do professor sobre os alunos, é mais global. O professor pode captar de imediato se há bullying, está a observar. É tudo mais transparente. (...) As famílias estão na expectativa. Há um elevado nível de confiança nos jesuítas. É curioso, porque por vezes há mais confiança por parte dos níveis mais altos da sociedade, e nos colégios de zonas mais populares há mais desconfiança - será que os jesuítas estão a fazer a experiência para nos pôr à prova, como se fossemos cobaias? Mas nós estamos a fazer num colegio de Lleida e noutro de Barcelona, de classe média, média-alta, e num colégio de classe operária. 

Na íntegra, aqui.


Competências de literacia literária


Lendo o Expresso:

- A partir desta segunda-feira, Portugal participará no PIRLS, prova destinada a medir a literacia (em leitura), em termos internacionais (com dezenas de países envolvidos).

- Serão mais de 200 escolas portuguesas a participar, urbanas e rurais, medindo competências dos alunos de 10 anos.

- Da primeira vez que participámos na prova, ficámos acima da média de 45 países participantes (19º lugar, à frente de França e Espanha). Desta feita, participarão 60 países.

- Os países que obtiveram melhores resultados, na mais recente aplicação da prova, foram Hong Kong, Rússia, Finlândia e Singapura.

- Em quase todos os países, as raparigas alcançaram melhores registos.

- Alunos que haviam frequentado o pré-escolar e para os quais os pais tinham lido e participado na realização das primeiras letras obtiveram melhores desempenhos.

sábado, 30 de janeiro de 2016

TRAIÇÃO



"Não foi só um abuso físico, foi um abuso espiritual", diz uma das vítimas de pedofilia, da Igreja de Boston, no filme de Tom McCarthy: os guardiões do templo, os mediadores, haviam infligindo o maior dos danos ao próximo (muitas vezes, um próximo vindo dos bairros mais desfavorecidos para quem a atenção de um pároco se assemelhava à directa guarda de Deus), a perda da fé, do sentido vital. Muitas das vítimas suicidaram-se. "Este é um sortudo, é um dos sobreviventes", observa, de forma gélida, o advogado de um dos visados, dirigindo-se ao repórter do Boston Globe que acabara de perceber como o interlocutor que estava a entrevistar apresentava evidentes sinais de ter caído na toxicodependência. O filme, acabado de estrear em Portugal, remete, de facto, para uma culpa sistémica e não propriamente individualizada: "para criar uma criança é precisa uma aldeia; para abusar dela, também", resume um dos intervenientes ao longo da investigação jornalística - sobre a qual o filme é, também, em boa medida -para nos dar conta não só do modo de actuação da hierarquia eclesiástica, mas da complacência policial, judicial, jornalística de toda uma região. Um dos jornalistas que trabalha no caso - a persistência, o não descanso, a obsessão, a crença na força do jornalismo para mudar determinadas realidades sociais são bem ilustradas neste caso - remata o sentimento com que sai da investigação extensa que ajudou a promover: "tive a formação católica, depois deixei de frequentar a Igreja. Porquê? Pelas tretas do costume. Mas tive sempre a ideia, a esperança de que lá iria voltar, regressar um dia destes. Mas agora não consigo". Não se pode matar a esperança ao outro - máxima traição. Não chegamos a Deus sem mediação. Uma pura relação directa-vertical, como a frase do jornalista demonstra, deixa claras interrogações de insuficiência. Precisamos do testemunho dos outros para permanecermos, temos obrigação de ser esperança para outros.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Bons começos



Fiz hoje a primeira conferência, com dados da investigação a que cheguei no semestre anterior, numa escola de Mesão Frio. Dificilmente, a escolha do concelho do meu distrito poderia ser mais feliz, por tudo o que representa quando olhamos para a realidade (humana) local. Simbolicamente, lendo os sinais, congratulo-me, mesmo, que ali tenha sido. Dois blocos de 80 minutos, grato pelas questões e pelas palavras finais, professores muito atenciosos e generosos, alunos atentos, grato pelo convite e pelos companheiros de painel. Um dia diferente, testando, é a vida, a timidez e ansiedade. Correu francamente bem, creio.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Interpretações pós-presidenciais



O Pacificador



Marcelo Rebelo de Sousa regressa ao discurso com que lançou a campanha, um Presidente imparcial mas socialmente parcial, alinhando, com o Papa Francisco, pelas periferias, pelos mais pobres e dependentes. Marcelo quer pacificar, mas sabe que a paz sem coesão social é difícil de alcançar. Propõe cicatrizar, unir o país, o que não é má ideia. Tem uma legitimidade e força política difíceis de igualar por outro cidadão português. Aproveitá-la em favor do país não dispensará, longe disso, a sua proverbial criatividade. Assumiu, já, a gravitas do novo múnus. 


domingo, 24 de janeiro de 2016

Outras músicas



No Sábado passado, saindo da "zona de conforto", estive no Teatro de Vila Real, em ambiente de fusão, num futuro-presente a ouvir a música dos Pocket Symphonies.

Como está o Borússia de Dortmund



A cerca de um mês do confronto para a Liga Europa com o FCP, e na primeira jornada após a pausa de Inverno da Bundesliga, para mais jogando num dos campos mais difíceis do campeonato alemão, o do quarto classificado, o Borússia de Monchengladbach, impunha-se perceber o momento do Borússia de Dortmund.

O que se pode dizer, de imediato, é que está em excelente forma e recomenda-se. O Dortmund é a equipa mais goleadora da Bundesliga (mais dois golos do que o Bayern). Está a apenas 6 pontos da liderança. Bateu, jogando melhor, criando mais e melhores oportunidades, rematando mais, tendo mais posse de bola, o quarto classificado, em casa deste.

Com a intensidade e agressividade que, desde há anos, são marca da casa, o Dortmund efectua uma pressão muito alta através de uma transição defensiva que coloca a equipa num 4x1x4x1, com um primeiro tampão defensivo a ser formado por Aubameyang, Mikitarian, Reus e Gundogan. Em ataque, Thomas Tuchel, mantendo a equipa em 4x3x3 (como com Klopp) desviou Mikitarian do meio para uma ala (no caso, a direita). A mudança não é, propriamente, de pouca monta. Significa que a equipa abdica daquele que era um dez mais puro, por um interior, um 8,5. A posição 10 é, assim, de algum modo, sacrificada. O que parece concitar vantagens, neste Dortmund, na hora de defender. Ao meio, pela direita (pela esquerda entra Castro), Gundongan faz um jogo soberbo. Se já gostávamos do oito empreendedor de há anos, agora Gundongan oferece-nos um repertório ainda mais vasto, com assistências de morte e uma longa distância temível. A exibir-se como esta tarde, e como há anos escrevíamos, apresenta-se como um dos melhores médios a jogar nos campeonatos europeus. Por outro lado, em jogando Mikitarian na ala direita, Marco Reus foi desviado - face ao tempo de Klopp, quando jogava, quase sempre, pela direita, procurando potenciar o seu jogo interior e a maior capacidade de finalizar com o destro - para a esquerda. Reus mantém-se muito fiável no seu jogo vertiginoso, vertical, gélido na hora da finalização. Não admira que com ele e com o avançado-centro Aubameyang - ele que é o melhor marcador da Bundesliga, superando, por exemplo, Lewandovsky; ele que noutras encarnações partia da ala, fosse como extremo, fosse como segundo avançado disfarçado, é também um grande velocista - as transições ofensivas sejam uma constante (oferecer espaço nas costas a esta tripla de avançados, apoiada por Gundogan é letal).

O Dortmund não elabora demasiado a meio campo - Gundongan é um prático elegante; Tuchel não apenas remete Mikitarian para a ala, como deixa de fora Kagawa - e joga, não raramente, directo de um central (muitas vezes, Hummels) para os avançados. A saída de bola não necessita, pois, no desenho de Tuchel, de passar pelo 6 (Weigl) ou por um dos 8. No jogo desta tarde, nas laterais Piszczek foi mais atrevido, pela direita - combinando bem com Reus e Gundogan - do que Park na esquerda.

Neste regresso do campeonato, Aubemayang - que tendo muitas virtudes...não é um virtuoso/prodígio de técnica - perdeu vários golos. Na defesa, alguma permissividade esteve à beira de consentir que do 2-0 favorável ao Dortmund se passasse para o 2-2. 

Em suma, ou muito muda o Porto até 18 (e 25) de Fevereiro, ou novo pesadelo o esperará no regresso à Alemanha.

Aldeias e desertificação


Actualmente, há cerca de 200 aldeias portuguesas sem habitantes.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Mais realidade, menos ideologia



no Público on line (aqui)

Amanhã


De entre as análises, ou críticas, mais falaciosas, muitas das quais vindas da direita, a esta campanha presidencial e, em particular, a Marcelo Rebelo de Sousa esteve, sem dúvida, a inusitada afirmação de que com personalidades como Durão Barroso, ou Rui Rio a campanha teria outra mobilização, outro fulgor. Bom: com Durão Barroso, com quem nem uma parte do PSD está reconciliada, a mobilização poderia existir, mas pela negativa - algumas acções de rua, imagino, poderiam ser tudo menos simpáticas (lá voltaria a discussão sobre a saída de PM a meio do mandato, regressaria ademais a posição então tomada acerca da guerra do Iraque). E que dizer de Rui Rio? Se algumas sondagens permitem, hoje, ainda, sustentar alguma - embora não demasiada - zona de dúvida quanto à existência de uma segunda volta, com um candidato que entra em todos os sectores ideológicos, que pensar dos resultados de um candidato muito mais de facção, como Rio? Marcelo Rebelo de Sousa é, a léguas, o melhor candidato - de entre todos os que se pudessem cogitar - provindo da área do centro-direita. 

Que a campanha teve muito de vazio? Com certeza. Em todo o caso, que não foi pouco, durante a última semana, Marcelo posicionou-se, em matéria de questões económicas, favorável a uma aposta que tivesse em conta a importância do consumo interno (uma dimensão insuperável, mesmo se não faz parte das folhas de excel). Depois do que se discutiu nas últimas legislativas, depois do que havia sido dito pelo Conselho de Finanças Públicas - com o Orçamento ontem, em esboço, apresentado a dimensão Investimento, por exemplo, ganhou um outro peso - tais afirmações não foram inócuas.

Depois do acto eleitoral precedente, de resto, qualquer candidatura, mau grado a diferença de eleições em presença, recebeu um grande incentivo a não mostrar ao que vem. Após a apresentação do programa económico que António Costa procurou levar a todo o lado, só se discutiu, só se criticou, só se apontaram armas a propostas nele contidas. Sem qualquer programa, a PAF não teve que discutir o que defendia, porque, a cada momento, podia ajustar o que pretendia ao que fosse mais conveniente eleitoralmente. Recorde-se que o comentariado que elogiou o detalhe da proposta do PS foi o mesmo que esteve omisso quanto à inexistência de proposta competitiva.

Talvez por isto Sampaio da Nóvoa não se libertou nunca, durante a pré-campanha e a campanha para as presidenciais, das amarras de um discurso redondo, quando parecia possível, até face à enorme desvantagem com que partia, reinventar uma linguagem política feita de rodriguinhos tácticos, de muito salão, e de, assim, ousar dizer um Portugal prospectivo. Pense-se na abordagem e leitura do país que Adriano Moreira tem projectado ao longo dos anos, por exemplo. Que ideia de Portugal, de sua história, dos caminhos de liberdade para o país continuar um organismo vivo. Sem, necessariamente, oferecer um programa executivo de medidas concretas, mas disponibilizando um referencial estratégico, mapa com o qual contar. Mesmo perdendo, o contributo teria sempre um valor inestimável que as frases feitas sobre a sociedade do conhecimento e a necessidade da qualificação não justificam. Sampaio da Nóvoa não pôde, ou não soube, fazê-lo. Ainda assim, em todo o caso, Nóvoa foi muito melhor candidato independente do que, por exemplo, Fernando Nobre há 4 anos. É falso que tenha estigmatizado os partidos. Não entrou em populismos. Não teve afirmações que recordaremos pelo monumental ridículo. Participou bem e de modo incisivo no único debate digno desse nome nesta campanha. Como alguém dizia, muitos apoiantes de Marcelo não ficariam horrorizados se Nóvoa vencesse as Presidenciais (e, já agora, vice-versa). 

Quem pensar que o Executivo socialista, com seus frágeis acordos, poderá não resistir toda a legislatura e que uma queda abrupta poderá fazer regressar um conjunto de políticas que levadas ao extremo a que chegaram seriam, de novo, muito nefastas socialmente, poderá pensar que esse seria ou será o melhor motivo para votar Sampaio da Nóvoa. Isto é, com um governo de direita de novo no poder que presidente estaria mais vocacionado para tentar um jogo de travões a uma política de austeridade pura e dura? A pergunta, ou raciocínio, nunca foram elaborados, à esquerda, durante a campanha - porque tal significaria enviar um sinal de pouca crença nos acordos vigentes em tal área política - e à direita não se quis equacionar o cenário para não dar ideias.
A questão aqui é saber se alguém que é apresentado (e, no fundo, se apresenta) como o representante de tais acordos tem poder/legitimidade política/força para, em caindo as forças representadas, mexer, ainda, com o xadrez político criado ex novo. Num ponto, diga-se, Maria de Belém tem razão: só o futuro dirá se "houve tempo novo". Em durando pouco o novo executivo, e regressando a política anterior, a breve prazo, tal tempo teria sido um intervalo - e certamente não propriamente louvado.

Acredito que Marcelo vá ser um Presidente que não criará ondas a qualquer governo. Não perturbará António Costa, nem um seu eventual sucessor. Pretenderá a unanimidade nacional. Nenhum outro político português está hoje em condições de unir, de agregar, de ter uma expectativa positiva sobre si. Duvido é que com essa legitimidade e poder, com a força de não ter tido partidos atrás, Marcelo esteja num posto que lhe possibilite melhorar muito as coisas - no que para alguns poderá constituir futuro motivo de decepção

O seu principal desiderato (político), como confessou a meio da década de 90 do século passado um seu descendente e como Maria João Avillez pontua no retrato no Observador, apontava ao Executivo (mas as coisas são o que são). E, claro, a construção do personagem passou muito - não tanto por outros inúmeros méritos que possui mas - pelo encher do olho ao pagode com coisas como o número de horas pretensamente dormidas (ou por dormir), livros lidos em catadupa, saltos ao mar diariamente (Avillez desconstrói bem isso no ponto 10, do dito retrato), insinuando-se, "com o contributo do próprio", a presença do "homem mais inteligente de Portugal" (como se isso, como se esse título existisse e pudesse ser atribuído). Em nada concordo, no retrato da jornalista, é que Marcelo tenha, todos os Domingos, triturado Passos. A meu ver, tal não corresponde à realidade. E, indo ainda à campanha, Marcelo fez bem, no debate a 9, fazer marcha-atrás quanto aos gastos de campanha dos outros candidatos, elogiando a moderação, depois de dizer que os gastos eram escandalosos, momento em que se deixou tentar pela demagogia (assim corrigida, embora, é verdade, com contradição num espaço de três semanas).

Não sei se foi a pior campanha de sempre para as presidenciais - e, se assim sucedeu, acredito mais no contributo das circunstâncias (o tal cansaço da política depois das legislativas e do processo de formação do governo, o facto de hoje apenas haver "restos da política", etc.) do que na falta de qualidade dos protagonistas. Sei que, com elevado grau de probabilidade, vamos ter um Presidente da República que estará longe de ser o pior que nos calhou nestes 40 anos. Estou, mesmo, bastante tranquilo, a um dia de Domingo.

Conheço quem siga o conselho de Henrique Raposo, há uma semana, no Expresso, e embora tendencialmente votasse Marcelo, tentará, com o seu voto, obrigar a disputa de uma segunda volta, para que haja discussão mais séria e apareça mais política durante os próximos 15 dias. Mas conheço, igualmente, quem tendencialmente votasse Sampaio da Nóvoa, mas convencendo-se de que na segunda volta Marcelo venceria de novo, tenha decidido não contribuir para mais gastos eleitorais e optado pragmaticamente pelo Professor de Direito.

As mil e uma noites de Portugal (III)



O julgamento do galo, com um juíz que entende a fala dos bichos e um escrivão que acompanha à concertina, pode encerrar o momento mais original, onírico, de As mil e uma noites - volume I: o inquieto, de Miguel Gomes. Ele releva de uma plasticidade, de registos múltiplos, que a película assume (passível de, em essa estética, convocar, também, públicos plurais), pontuando momentos puramente ficcionais, se preferirmos alegóricos porque a história do galo poeta que pressentia no fogo que arde sem se ver as montanhas e serras devastadas pelo fogo real das chamas que assolam, anualmente, Portugal, convocando-nos a histórias de terrível densidade - os registos testemunhais dos que ficaram desempregados depois dos 50, voltaram para casa dos pais de onde haviam saído aos 18 anos, tiveram que devolver a casa ao banco, viram bens e esperança arrestados são tremendas - sem desmobilizar os que não ficariam para o puro documentário (uma das dimensões que a obra congrega, igualmente), dando-nos o sopro de uma vida onde a tragédia se enlaça, não raro, com o sorriso que irrompe inesperado, o burlesco que se impõe perante demasiada realidade. Quando um dos desempregados sem colocação à vista conta, como conta o desempregado que conhecemos da vizinhança, que quando interpelado pela felicidade que agora tem por poder ir constantemente à praia, se dá conta da dissonância cognitiva entre si e o seu interlocutor - "desde que estou desempregado não fui um único dia à praia, porque não há alegria para isso; quando uma pessoa está empregada, aí sim, há vontade e alegria para ir para a praia" – sentimos o seu desespero à flor da pele: “quando a minha mulher começa com muitas perguntas…uma pergunta, duas…à segunda já não consigo açambarcar”. Sorrio, sorrio com o verbo, açambarcar é muito bem apanhado, é muito genuíno, não querer ouvir ninguém, empatizo com aquela raiva, com aquele grito despejado no verbo, açambarcar, saiam da frente, deixem-me, caluda, fico com a cicuta até ao fim. O Portugal com a faca nos dentes, de que falou Nicolau Santos

Nunca tinha pensado naquele ritual de ano novo, mergulho do mar em manada, pançudos ou trinca espinhas, que entra, inevitavelmente, pelo telejornal à hora de almoço a cada 1 de Janeiro, como mais do que uma tradição mais ou menos simplória, fútil, continuação de uma certa embriaguez e maria vai com as outras – que prolonga a noite do concerto pimba do arraial precedente. A frase, contudo, que acompanha, no filme, a descrição do ritual é tão gelada como a ida ao mar em tempo de Inverno: não se pode negar a ninguém aquela oportunidade de pensar que toda a maldade, todos os pesadelos, angústias e tensões serão imolados na leva da água purificadora, torrente que tudo renovará, numa manhã de certo nevoeiro.

E há, neste retrato que fica perenemente de um país em implosão (2011-2015), uma incontornável dimensão política: ele fala de um país com “um governo aparentemente desprovido do sentido de justiça social”. Coloca-nos no cenário das reuniões governamentais com a troika. Aí, por entre muita caricatura, que evita que a obra se transforme ou pudesse ser catalogada de panfleto, surge um Primeiro-Ministro (representado por Rogério Samora) com ares de leviandade que, perante cada medida proposta dos membros da troika, se lamenta aparentemente sem sinceridade (“tem que ser não é?”, encolhendo os ombros), uma ministra das Finanças (representada por Maria Rueff) firme e hirta como uma barra de ferro, aparentemente desprovida de sentimentos, e um sindicalista que diz, constantemente, os mais obscenos impropérios atirados seja aos governantes nacionais, seja ao triunvirato, aparentemente sempre zangado com o mundo e desconhecedor de quaisquer constrangimentos à acção de quem quer que seja. Este último, o triunvirato, se não é completamente silencioso, tem uma expressão de autómato: “Inevitável”, “Inevitável”, “Inevitável”. E que outra palavra nos pretenderam impingir dia a dia, quatro anos consecutivos?

Às tantas, em pano e ruído de fundo, escutamos uma emissão de rádio na qual uma locutora informa da mais recente posição da troika, contraditória com outras posições por si tomadas. No filme de Miguel Gomes, nova metáfora, tal é tributário de uma substância que um mestre vodu forneceu aos membros da reunião (governo-troika), homens de há muito desprovidos de educação sentimental, eunucos cinzentos sem sangue nas veias, momentaneamente, por via do produto ofertado pelo Professor Karamba de ocasião, reconciliados com o prazer. O modo arbitrário – que racionalidade? – como algumas das instituições que integraram a troika foram mudando de posição/política ficava descrito em tons coloridos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Capitalismo



Vendo a série Capitalismo, com uma ampla gama de especialistas multi-disciplinares (historiadores, antropólogos, economistas, sociólogos) e multi-nacionais, que ontem principiou no Odisseia:

Só na cabeça de ideólogos é que o capitalismo é resultado dos postulados de Adam Smith ou de Ricardo. Em realidade, o capitalismo não é um produto de ideias, mas de processos históricos. Estes remontam ao tempo dos mercadores de Veneza e Brugges, no séc.XVI. Quando muito, Adam Smith oferece-nos uma justificação intelectual para um sistema em funcionamento. De resto, o modo como teorizou a passagem de trocas directas, mesmo entre tribos primitivas, até à necessidade de uso do dinheiro, embora intuitivamente possa ter e faça sentido, baseia-se em algo que nunca aconteceu em termos históricos, ou, pelo menos, em algo para o qual não dispomos de qualquer prova/evidência: as trocas directas. A investigação, com 400 anos, nunca encontrou tais sociedades onde tal, supostamente, sucederia (se bem que Smith não dispusesse de meios para o comprovar). Ademais, a suposição de uma superioridade europeia que a tornasse única potência disponível para controlar mares e colonizar terras, continentes baseia-se num pressuposto falso, etnocêntrico que ignora os avanços orientais. A China não estava menos apetrechada. Todavia, o que parecia inconcebível aos orientais seria desertificar continentes inteiros pela volúpia do lucro. As armadas chinesas parecem ter um suporte estatal por trás; as europeias corresponder a uma iniciativa (mais) privada. A peculiar relação entre o credor e o empreendedor, entre quem financia as expedições e aquele que se endividou e fará tudo para não apenas saldar a dívida como ganhar com a sua demanda, parece ser o elemento-chave para explicar, segundo o documentário dirigido por Ilan Ziv, o porquê de o capitalismo ter surgido a Ocidente. Marco histórico fundamental se apresentará, ainda, a chegada e descoberta da América, com as plantações e exploração da mesma ter que implicar que os colonizadores vão além da sabedoria plasmada nas Escrituras - até então tida quanto baste para um Homem prosseguir vida - e encontrar meios para que a expedição desse bons resultados. A aproximação entre avanço científico e o do capitalismo será clara na exploração de diferentes vertentes/produtos que se comerciarão. Tudo sustentado, ainda, em um esquema esclavagista de dimensões exorbitantes - aspecto que Adam Smith terá negligenciado. O documentário conclui com os cercados na Grã-Bretanha, com as terras que eram deixadas aos mais pobres, em pequenas parcelas, a serem reivindicadas pelos proprietários, pela burguesia e senhorios aristocratas, na medida em que a lã de ovelha passa a ter um valor muito remunerado. As famílias pobres são despejadas em centros urbanos, despojadas de tudo - incluindo a possibilidade de não depender de outrem que a terra permitia -, locais urbanos estes, aliás, que são marcados por doenças várias e nos quais até ao século XIX se criminalizará a pobreza, incluindo crianças. O mercado de trabalho que daqui resulta é o de quem mais nada tem que a força (de trabalho) para sobreviver.

Entre outros vários periódicos, o Le Monde considerou uma série de grande valor, um enorme contributo para a reflexão económica e social, um dos motivos maiores por que valeu a pena ver tv em França no último ano.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

As mil e uma noites de Portugal (II)



O texto narrativo fornece uma densidade à história, à vida dos trabalhadores dos Estaleiros de Viana do Castelo que nenhum apontamento de reportagem, em um telejornal, seria capaz de conferir (o plano de Mil e uma noites: o inquieto no qual vemos, ao fundo, um repórter da TVI a gravar a última peça, enquanto na primeira pessoa, e sem pressas, ouvimos, simultaneamente, toda a vida de um trabalhador dos estaleiros, desde o dia, aos 14 anos, em que as gruas e os guindastes exerceram um fascínio tremendo - o mundo sem fim e sem limites - até aquele em que tem que cumprir, no interior dos estaleiros, a jogar às cartas ou a escrever peças de teatro, as 8 horas que lhe estão reservadas agora que trabalho não há, estabelece, formalmente, um paralelismo/comparação que torna muito presente a diferença de registos a partir da qual acedemos à realidade e conseguimos - no segundo dos casos - penetrar em esta): no momento inicial do filme de Miguel Gomes são marcantes as palavras que nos remetem para a noção de que para aqueles trabalhadores cada barco pronto a partir para o mar tem um significado equivalente ao de dar, trazer ao mundo um filho; que todos os rituais devem ser cumpridos, o baptismo que junta toda a população, as bençãos e preces para que tudo corra bem ao e no barco, a festa comunitária por mais um ofício bem cumprido e entregue, sinal de (pelo menos relativa) prosperidade naquele lugar. O último barco a sair de Viana, porém, nem o baptismo recebe, pelo que desde logo ali se prefigura "um mau augúrio" para os que o irão habitar em terras, ou mares longínquos. Há uma desconformidade cósmica que abala aquela comunidade, cada um daqueles rostos - alguns dos quais não resistirão ao fracasso, colocando fim à vida, noutros casos emigrando, fazendo promessas de nem um tostão mais ver o país que não os abraçou.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Que motivações para os DESCOBRIMENTOS portugueses?


Os motivos impulsionadores fundamentais daquilo que é conhecido por época dos Descobrimentos parecem ter surgido de uma mistura de factores religiosos, económicos, estratégicos e políticos. É claro que nem todos em idênticas proporções (...) Com risco de uma simplificação exagerada, pode, talvez, dizer-se que os quatro motivos principais que inspiraram os dirigentes portugueses (fossem reis, príncipes, nobres ou mercadores) foram, por ordem cronológica mas sobrepostos e em diversos graus: 1) um zelo de cruzada contra os muçulmanos; 2) o desejo de se apoderarem do ouro da Guiné; 3) a demanda do Preste João; 4) a procura das especiarias orientais.

Charles R.Boxer, O Império Marítimo Português. 1415-1825, Edições 70, 2015, p.75.

Pub: As mil e uma noites de Portugal



Logo, a ver Portugal pela lupa de Miguel Gomes. No Teatro de Vila Real.

Adenda: um dos filmes que concitou maior expectativa no público local, com cerca de 60 pessoas a assistir.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Primárias (II)


Quando Maria de Belém, e seus apoiantes mais destacados, começam a entrar num tom de queixa e recriminação para com dirigentes do PS que apoiam Sampaio da Nóvoa apenas transmitem uma imagem de enorme insegurança e fragilidade. De gostar de ter esses apoiantes a seu lado e de não o conseguir. Mais: de alguma contradição entre a afirmação de uma total independência e de pretender votos à direita e o querer ser a mais pura das candidaturas do PS. Belém, na pré-campanha, ainda introduziu questões como a do acordo ortográfico ou da presença da Guiné Equatorial na CPLP; depois, decidiu entrar num campo de crítica pessoal; em definitivo, entrou em perda desde o debate com Marcelo - sobretudo, por comparação com a prestação de Sampaio da Nóvoa no dia anterior. Os conselhos de Jorge Coelho - o menos interessante participante de sempre no Flashback/Quadratura do Círculo - tiveram como único efeito introduzir na campanha e na personalidade de Maria de Belém um estilo menos urbano (que, há uns meses, ninguém diria casar com a ex-ministra da Saúde).

Mundos



Aprendendo com o 60 minutes:

20 estados dos EUA não prevêem nenhuma compensação (indemnização) para aqueles que tendo sido condenados o foram de modo indevido, tendo-se provado (entretanto) a sua inocência. Ou seja, alguém pode ter passado trinta anos em um corredor da morte, condenado por homicídio, e em provando-se a sua inocência - o programa da CBS ilustrava um caso em que a prova balística desmentiu, em 2015, a sentença de 1985 -, nem o bilhete de autocarro, para regresso a casa, é oferecido por um destes 20 estados. Nem um pedido de desculpa.

A crise (portuguesa) e suas origens


Cinco anos depois, continuamos a discutir as origens da crise (no que ela tem de especificamente portuguesa), as responsabilidades dos nossos dirigentes à época (ou em diferentes épocas), a importância dos factores externos para a emergência da mesma. Em virtude de a leitura ideológica e partidária tender a primar em muitas das análises, talvez mesmo quando mais anos tiverem passado desde esta concreta crise, ainda assim a completa concordância de pontos de vista dificilmente será exequível. Todavia, creio que hoje, na excelente entrevista que dá ao jornal I, Ricardo Paes Mamede pontua muito bem a questão (face à investigação que foi sendo publicada nos últimos quatro anos), numa visão equilibrada que considera constrangimentos internos – não raro obliterados à esquerda -, mas concluindo pela primazia da dimensão do peso de factores exógenos a Portugal – algo que à direita não é particularmente relevado.


"A segunda questão é saber se estamos nesta situação por escolhas internas ou por condicionalismos externos. Não há nenhuma governação que seja perfeita, e isto dá um poder enorme a quem recusa que haja condicionalismos externos porque os problemas seriam sempre motivados por falhanços internos. Houve erros internos em Portugal. Podemos apontar, por exemplo, políticas orçamentais que foram expansionistas quando a economia estava a crescer e que foram contracionistas quando a economia estava em recessão, o que é o contrário do que se deve fazer; podemos apontar o excesso de investimento em infraestruturas que a certa altura deixaram de ter razão de ser, tornaram-se pouco produtivas e redundantes do ponto de vista social. A questão é saber qual é o peso desse tipo de decisões de política interna para explicar a nossa situação, perante todas as transformações que houve, tanto a nível europeu como fora dele, que parecem muito mais importantes para explicar a situação a que chegámos".

domingo, 17 de janeiro de 2016

Primárias


Se, no campo político do PS, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém disputam uma espécie de primárias para uma eventual apoio do Partido Socialista numa hipotética segunda volta das Presidenciais, já a ideia de primárias selectivas (seleccionadoras) para (futuro) Secretário-Geral do PCP - como alguma imprensa observa as candidaturas oriundas no PCP às Presidenciais - não permitirão, por certo, a Edgar Silva pensar em, a prazo, assumir a liderança do seu partido. A campanha foi fraquinha, muito demagógica, metendo todas as causas e promessas ao barulho, mesmo as mais alheias às funções presidenciais, confundindo o relevante com o acessório - no mesmo dia, por exemplo, a reivindicação do fim das portagens no Algarve e a regionalização (sem referendo). Com uma estética comicieira bastante datada, numa espécie de concurso pela (melhor) indignação, num tom milenarista (perdendo, aliás, com isso, autenticidade).

sábado, 16 de janeiro de 2016

Subterrâneo - eis uma condição



O subterrâneo, aqui, é, não tanto um lugar físico, mas muito mais um estádio a que chega o homem (consciente, contemplativo, radical; num certo sentido, o homem de moral aristocrata). Desse lugar, lúcido e sombrio, a vontade prevalece, e essa é da inércia. O sobre-homem não se quer misturado com o homem da acção sem porquê, do activismo sem rota, do porque sim, daquele que não pretende parar e olhar o sol de frente. A reivindicação máxima do humano, do humano livre, será esta, a da constatação de que nada serve o arrastar de um produtivismo obtuso, quando por trás do sofrimento, por trás da dor de dentes, ninguém está a ouvir (nota: em tempo de possibilismo e de não afirmações completamente taxativas, logo o narrador fala de um não sei quê, ou não sei quem, presente na realidade; tudo, sempre, acompanhado de um ruído de fundo como que a ilustrar, em termos formais, o intenso maquinar do torvelinho, torrente inesgotável de pensamentos-perguntas que emanam do subterrâneo). No monólogo que Fiodor Dostoievsky desenhou - e que nesta peça dura 1h15 - há uma charla com vários diálogos interiores, aqui e ali fragmentários, que correspondem a tantas interrogações como facetas do indagador (múltiplo, porventura heteronímico): terá a razão sempre razão? A reacção a um racionalismo que enclausurara o corpo todo, negado, sem sentimento ou emoção, tem contornos nietzscheanos: a reivindicação do dionisíaco - o problema da razão exacerbada, com Sócrates - como complementário ao apolíneo (a razão como parte, apenas, da experiência humana, longe de esgotar, e de ser desejável que esgotasse, todas as fontes vivas com que a natureza dotou o humano, sitiadas entretanto e, portanto, a recuperar). A épica pela liberdade - aqui traduzida pelo conceito de vontade - é transversal ao texto, com o autor a olhar assim o humano: 2+2=4, muito bem, mas muito mais interessante seria (ou é) 2+2=5 se eu assim o desejar. O Homem destruiu, destrói, destrói sempre para reivindicar o seu selo próprio, o cunho de que nunca abdicará, o sangue que não desiste de ver jorrar, porque lhe dá a noção de estar vivo, de escrever o destino pelo seu punho, nunca marioneta nas mãos de deuses (ou da deusa razão, deusa ciência). Mesmo que o regresso ao Éden fosse possível, sempre haveria humanos a recusá-lo, talvez porque a placitude fosse demasiada, talvez porque o problema, o problema para nós, humaníssimos, é o "aborrecimento". Ele que, mais do que outra coisa, nos recordará a morte. O texto como que antecipa Sartre e o seu "a existência precede a essência" na recusa de determinismos ou essências: quem nos disse que o humano age sempre em seu próprio interesse? Quem nos diz o que é o interesse? Nestas interrogações, de resto, e na recusa de resposta positiva a ambas - a história prova que, para o bem ou para o mal, o homem nunca agiu no seu próprio interesse...e não há mestre suficiente para o concretizar, somos aqui advertidos -, vai, já, de resto, também a refutação das premissas do homo economicus de que parte certa economia (o homem egoísta que age apenas no seu próprio interesse; as ciências sociais, aqui a literatura, a ficção a ajudar-nos a descodificar a humana condição). A sabedoria que Os cadernos do Subterrâneo nos lega passa por uma descrição nada optimista do ser humano - em guerra desde o dia inicial, imparável nesse guerrear ontem, hoje, sempre -, pela recusa do progresso (moral) na história da humanidade e, bem assim, pela rejeição de que a civilização tenha melhorado o humano.

Na encenação da peça, em Guimarães, fomos confrontados com imagens projectadas em tela, pano de fundo do personagem que se interroga e nos interroga, em espécie de apresentação ultra-moderna, como fazem os técnicos de modalidades de auto-ajuda (por vezes, com personalidades e locais, acontecimentos projectados, em tais imagens apresentadas, bastante óbvios para ilustrar uma frase, uma alusão), aqui sem verdades edificantes e reconfortantes, ainda, contudo, no império do indivíduo - mesmo o que fechado no subterrâneo durante anos a fio, quando tem possibilidade de se manifestar "fala, fala, fala", quer dizer, somos, efectivamente, seres de fala, zoon politikon - mas com perguntas densas - mais do que certezas absolutas - que seria possível fixar no powerpoint

Encenação: Luís Araújo
Actor: Nuno Cardoso

Guimarães, 15/01/2016, 22h. Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor lotado.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Uma estreia



Alguma coisa muda quando uma aspirante à liderança de um partido, como Assunção Cristas, diz que se candidata porque quer, porque tem vontade, "porque gosto da política". Não tarda em cair em desuso a abnegação contrariada pela pátria, o serviço a contra-gosto, a penúria hercúlea no pastoreio colectivo (acompanhado do não menos fadário "para prejuízo da família"). As declinações anti-Cavaco, muito na moda, que o tempo oferece são, na verdade, infindáveis. Ademais, para o CDS vejo a vantagem de escutar o país, finalmente vence no partido - em um partido - quem, fora do partido, a generalidade dos portugueses preferiria. Helena Matos propôs um ângulo outro para apreciar esta habitual divergência, hoje convergência (no CDS face ao eleitorado globalmente considerado): popularidade e adequação seriam coisas diversas e um partido, se seguisse o que de fora lhe sopram, poderia acabar por eleger uma liderança que seria alheia ao intento interno. Prefiro pensar, por uma vez, no sinal optimista que daqui pode advir: os partidos recolherem do eleitorado a noção de quem, aos olhos do país, adquiriu méritos suficientes para ser levado a sério, pressionando estes a contrariar o habitual cursus honorum das jotas, do arroz de pato e dos jogos de multibanco.

Da nossa História (II)


O Brasil deriva o seu nome das substâncias corantes com o mesmo nome (pau-brasil) presentes na lucrativa madeira vermelha que foi encontrada pelos portugueses quando acham o litoral brasileiro. Inicialmente, deslumbrados, como se pode ler em Pero Vaz de Caminha - com semelhanças com a atitude de marinheiros ingleses e franceses com as beldades do Taiti e das ilhas do Pacífico - com a inocência dos "selvagens" que encontram - o Adão em estado puro, pronto para a conversão, o "bom selvagem" antes de ser teorizado filosoficamente -, mas logo, em virtude da não completa obediência e acatamento dos ameríndios a todo o tipo de trabalhos forçados impostos, tidos por "bestas" incorrigíveis (que punem, sem tino, com uma ferocidade, ela sim, selvática). Em virtude da ameaça da possível fixação dos franceses neste território, D.João III promove a sistemática colonização do território.

Da nossa História



Uma obra, O Império Marítimo Português 1415-1825, na qual o historiador (conservador) Charles Boxer contraria as teses de Gilberto Freyre quanto ao luso-tropicalismo: "há uma grande quantidade de provas que contrariam a moderna posição portuguesa de que o Brasil foi um caso em que não houve derramamento de sangue, caracterizado por uma instintiva simpatia e compreensão dos ameríndios, que as outras nações colonizadoras na América, quer se tratasse da Espanha, da Inglaterra, da França ou da Holanda, não possuíam" (p.104). 

domingo, 10 de janeiro de 2016

O CDS-PP do futuro


2016 tem tudo para ser um óptimo ano de debate político, em Portugal. Quanto ao entendimento do tipo de partido que o CDS-PP deve vir a ser, principie-se pela leitura do que preconizam, de modo contrastante, Adolfo Mesquita Nunes (um partido mais catch all) e Miguel Alvim (um partido mais delimitado do ponto de vista ideológico-identitário)

Espírito crítico


Rafael Argullol é dos raros nomes que a cada texto na imprensa nos propõe um olhar crítico, não banal e rotineiro, certeiro, sobre a realidade hodierna: Provincianos e cosmopolitas - eis o seu artigo mais recente.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Logo, na Casa da Música



Logo, darei um salto à Casa da Música para ouvir ópera, com uma meia-soprano turca, Ezgi Tuklu, que promete. Uma noite na ópera italiana, com árias de Rossini, Donizetti, Bellini e Ponchielli, para entrar no fim-de-semana.

Adenda: Tuklu levantou a plateia, a Sala Suggia praticamente lotada, com uma mudança, ainda que não demasiado grande, de repertório - passando a incluir Verdi, por exemplo -, tendo o amor, em época de romantismo, séc.XIX, como temática transversal às composições escutadas.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Escola e futuro



Atenção à paixão da criança (artista), para a criação de um mundo singular ao qual cada um se dedica.

Pereambulando pela cidade



1.Como estão a ficar bonitos os edifícios, suas fachadas, recuperados pela Santa Casa da Misericórdia, junto à estação, em Vila Real. Que bem feita a recuperação, que diferença face ao estado de degradação a que haviam chegado. Este tipo de reabilitação é, também, regeneração urbana. Creio que, em breve, igualmente o edificado que pertencia, propriamente, ao interior da própria estação de caminhos de ferro, hoje tristemente ao abandono, com os vidros das janelas partidos, o edificado desfigurado, por um vandalismo que o desdém consente, dará lugar a uma nova rotunda que, pelo menos, terá a virtude de permitir aos autocarros - alguns dos quais com manifesta dificuldade em fazer a curva, ganharam novo balanço.

2.O único local da cidade onde era possível adquirir o ElPais - ainda que com um dia de atraso - passou a uma loja de gomas e outros convites à diabetes para as criancinhas do Colégio S.José. Lá se foi o suplemento Ideas que, não raro, trazia algo do melhor que era possível encontrar na imprensa ibérica aos fins-de-semana. 

3.Entretanto, o cuidado com o(s) Corgobus foi redobrado, nota-se no interior do transporte público - a perfeição da limpeza, o pormenor tido em conta - o cuidado que há com as primeiras impressões (da nova gerência). Felizmente, foi possível reconduzir os motoristas - geralmente simpáticos e eficientes.

4.Diminuir o IMI em função do número de filhos será socialmente justo? Então a nível nacional, defendem e dizem que um filho de um pobre não pode valer menos do que um filho de um rico, e agora propõem esta legislação?, questiona, o deputado do PCP, o executivo socialista, na última Assembleia Municipal. E com razão. Duplo padrão. E faltaria provar a relação entre esta baixa de impostos com um eficaz incentivo à natalidade. Muito duvidoso, no mínimo.

A ciência e a política


A teoria das raças está lá, no nazismo, embora a teoria das raças seja plural: não há uma teoria das raças, há várias. E o nazismo vai buscar a versão mais hierárquica e mais imutável da teoria das raças, que é a de meados do século XIX, com o [Louis] Agassiz, o Samuel Morton, o Josiah Nott, que eram um grupo nos EUA muito ligado aos sulistas, embora o Agassiz trabalhasse em Harvard, estava ligado a este grupo de médicos e de anatomistas do Sul que estavam claramente ao serviço de uma política de perpetuação da escravatura.

Francisco Bethencourt, em entrevista à Ler, p.31

Racismo (colectivo)


O racismo com que eu trabalho é o colectivo (...) Por exemplo, antes das acções segregacionistas no Sul dos EUA que foram depois consagradas em lei havia racismo informal e é um caso típico de racismo bottom-up, de baixo para cima. Não é um racismo imposto institucionalmente. Aquilo que aconteceu na Alemanha nazi é um caso curioso: é um racismo imposto de cima para baixo, e é um racismo de Estado. É um racismo suportado e enraizado por via do Estado. Noutros períodos históricos é raro encontrar um racismo deste estilo. Temos o racismo do Império Otomano, em que o genocídio dos arménios é organizado pelo Estado.

Francisco Bethencourt, em entrevista a Bruno Vieira Amaral, Ler, p.31.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

As coisas em si e as palavras das coisas


Lucien Febvre, o grande historiador francês, dizia que muitas vezes a coisa em si existe antes de a palavra ter sido inventada. O comportamento ou conteúdo das acções pode existir antes da palavra.

Francisco Bethencourt, em entrevista concedida a Bruno Vieira Amaral, na Ler nº140, fala, assim, sobre o racismo (existiu antes de a palavra ser inventada; mas, claro, podemos imaginar múltiplos campos de aplicação desta ideia; por exemplo, em termos político-ideológicos a asserção de que A República, de Platão, contém um gérmen comunista em potência; a perspectiva de que podíamos ter posicionamentos de esquerda ou direita antes dos conceitos surgirem na sequência da Revolução Francesa...sendo que, aqui, Rui Tavares sempre rejeitaria noções essencialistas de esquerda e direita e apresentaria diferentes exemplos de como tais conceitos, em diferentes épocas, no pós-1789, quiseram, cada um deles, dizer coisas diferentes em momentos diversos)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O melhor ponto da campanha



Gostei particularmente de Marcelo Rebelo de Sousa no debate com Henrique Neto. Depois de este (último) ter dito, como Tino de Rans, que "o país está farto de académicos" e que ele é que foi empresário e criou postos de trabalho e teve iniciativa, etc., Marcelo foi capaz de o confrontar com assertividade: por um lado, não tendo medo de jogar em "campo alheio" - então o senhor não gosta de ter a sua filha como investigadora, como refere tantas vezes? Então não gosta de ter na sua comissão de honra académicos como o Prof.Nuno Crato ou o Prof.Campos e Cunha? -, obrigando o adversário político a recuar - "eu não sou contra os académicos"; e obrigando-o a recuar, porque sem medo de o confrontar nos seus próprios termos, mesmo tendo, pequeno frisson, que invocar o caso pessoal da descendente; depois, porque em tom afirmativo e sem tibieza foi capaz de reclamar para o professorado não menos respeito, não menor importância do que a de ser empresário. Ter dado aulas a 25 mil alunos não é menos importante do que ter sido empresário. Muito bem. Talvez poucas personalidades políticas, em Portugal, nos últimos anos tenham tido, em debates, a capacidade de reivindicarem a importância das funções públicas - sem se deixarem intimidar por uma suposta superioridade de tudo o que é "privado"; o inverso também não teria sentido - como Marcelo Rebelo de Sousa fez no debate com Henrique Neto. A desconstrução do discurso populista alheio, por um lado, e esta reafirmação do valor dos académicos, dos professores, da formação, do conhecimento, dos que estão encarregues de funções públicas merece ser vivamente saudada. Foi, a meu ver, o melhor ponto da campanha (até ao momento). O saudoso Manuel António Pina escrevia numa das suas crónicas, na última página do JN, que só em Portugal ser filósofo, poeta, intelectual era pecado/ridicularizado (fulano tal é um filósofo, dizemos com sarcasmo). Frente à debilitação ou menosprezo daqueles que se ocupam com o estudo sério, com a preparação sistemática do saber, com a dedicação às Letras e Artes, é importante que alguém assuma um sério contraditório. Marcelo Rebelo de Sousa fê-lo com contundência - e até o seu paternalismo, "viu como você entende a importância da educação?", caiu bem perante quem se apresenta como Catão, em modo vidente (Henrique Neto tudo previu, tudo sabia e bastava ter sido ele o eleito para estarmos perto do paraíso). Do que o país está farto, ou devia estar, é de demagogia (barata).

Desigualdade e satisfação vital



domingo, 3 de janeiro de 2016

O fim da classe média (americana)


Ainda não é propriamente o fim, o acabar da classe média, mas o que sucede é que, nos EUA, esta deixou, oficialmente, de ser a classe maioritária, ou melhor, as pessoas situadas nas franjas, nos extremos de rendimentos  - de rendimento, sublinhe-se; embora o conceito de classe média, segundo diversos autores, suplante a dimensão rendimento - superam-na (vide esta notícia).

Os debates para as presidenciais que vi


1. Penso que mesmo contando Juntas de Freguesia, nunca um debate político televisivo terá tido menos de meia-hora de duração. Aconteceu com António Sampaio da Nóvoa e Marisa Matias, para as Presidenciais, na RTP, no primeiro dia do ano. Na realidade, não se tratou de um debate, mas de dois pequenos monólogos - para mais redondos, muito redondos. Vinte e cinco minutos já foi de mais. José Gil, há meses, na Visão, fez a mais certeira das críticas a Sampaio da Nóvoa: as citações de Zeca Afonso, toda a estética com que lançou a candidatura, lançou-a mais para o passado do que para o presente-futuro, quando se esperava (e espera) que o antigo reitor tenha uma capacidade de falar e de se projectar muito mais "contemporânea". 

2.Marcelo Rebelo de Sousa, o melhor performer político português, fingiu levar a sério os trocadilhos, as citações, os trejeitos, a conversa de café e da treta de Jorge Sequeira e o discurso de fazer chorar o chão da calçada, um populismo ultrapassado de Tino de Rãs, mais o discurso em tom fúnebre e grandiloquente, de Cândido Ferreira, como se a República tivesse sido apunhalada por só existirem 26 debates para as Presidenciais, em vez dos 48 ou, quiçá, 54 com todos os frente a frente possíveis entre candidatos (vou ali fazer as contas). Marcelo sente-se à vontade em todos os terrenos, e mesmo na autêntica palhaçada em que consistiu o "debate" - o povo isto, o povo aquilo, o povo aqueloutro de Tino, que chegou a falar na necessidade da participação da primeira-dama, ou, consentiu, de "uma companheira, ou companheiro" de cada candidato, obrigando Marcelo a manter cara de póquer quando afirmou "sinto que temos o mesmo perfil" [ele, Tino, e Marcelo], ou Óscar Wilde assim, fulano tal de Oxford assado, todos somos políticos e outras coisas profundas de Sequeira - lá se manteve, como se nada fosse, concordo inteiramente com a ideia do Prof. Jorge Sequeira, deixe-me pegar na excelente ideia de Tino, e tal. Em tom condoído, Marcelo ofereceu-se, mesmo, para realizar o frente a frente com Cândido Ferreira - "tem todo o direito, é justíssimo". Como poderia Marcelo não ofertar a qualquer candidato a possibilidade de debater com o principal senador da nação? Muitas vezes, penso que Marcelo é, como certo dia escreveu Pulido Valente, o candidato ideal que conhece o regime por dentro - por todas as suas vicissitudes biográficas -, Professor Catedrático de Direito que conhece profusamente o funcionamento do Estado, a Constituição, não desconhecendo a história, os valores e as gentes, a ciência política, tendo, ademais, ganho uma maturidade que o pode levar a um registo bem mais sensato do que soía - de outras épocas. Ao mesmo tempo, Marcelo é, não raro, o chefe deste tipo jornadas televisivas, de um artificialismo e de uma superficialidade caricatas, deste povo da televisão, destes personagens que tanto estão um dia num big brother como no dia seguinte afirmam, sem vergonha, ir ganhar as eleições, para terem mais 15 dias de fama, parecendo nada levarem a sério, nada valer a pena, estarmos condenados ao homem light que tudo burla. Pode dar umas graçolas, mas não tem graça. nem graciosidade a palhaçada que se viu na tvi24.

3.Maria de Belém surpreendeu-me como conseguiu destrunfar, de imediato, Paulo Morais, como foi incisiva e contundente a cortar, cerce, a associação da sua pessoa a qualquer tipo de situações menos claras - com um bom golpe mediático, adiantando-se na entrega de um dossier, com as suas participações e vinculações de cidadania. À partida, teria o mais delicado dos debates a abrir, mas foi firme, impositiva, liderante. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que perdeu um debate com Jorge Sampaio para as autárquicas de Lisboa - que considerou muito importante para o resultado final das mesmas - porque jogou para o empate. Será interessante perceber como se vai posicionar no debate com Maria de Belém que, já se percebeu, debaixo de um sorriso e uma posse aparentemente frágeis, se prepara para umas quantas caneladas. Embora eu ache que independentemente desse resultado do debate televisivo, os jogos há muito que estão feitos.


Peso das exportações no PIB


O peso das exportações no PIB, em Portugal, é de 40%; na Holanda e Bélgica, esse valor suplanta os 80%; na Dinamarca, 54%.

[a partir dos dados fornecidos por Ricardo Reis, hoje, no seu artigo no Dinheiro Vivo]

Factos


Há, hoje, 650 mil trabalhadores, em Portugal, a ganhar o salário mínimo nacional (agora fixado nos 530 euros).

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Razões para a tristeza do pensamento (III)


A partir de Dez razões (possíveis) para a tristeza do pensamento (de George Steiner):

Um terceiro motivo de uma tristeza inseparável do pensamento: o pensamento (e o pensamento sobre o pensamento), sendo privado, próprio, repete-se vezes sem conta, dificilmente alcançando originalidade. Estamos condenados a dizer o mesmo, ainda que por palavras outras. É a forma verbal, e não o conteúdo, que dá a certas palavras e enunciados uma força imensa, assinala Alexander Pope. E Steiner pergunta que metáforas são verdadeiramente novas, se foram pensadas unicamente pelo emissor, se os receptores as perceberam imediatamente?