quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Bater à porta



Jorge Wemans, a democracia na Igreja como imagem que o mundo possa reflectir, a renovação da linguagem com o sabor e o saber da autenticidade, a relação da Igreja com o bairro, a comunidade.

Lugares trocados


Se, nesta quinta-feira, Manuela Ferreira Leite, no Expresso, dá uma estocada, quiçá definitiva, a eventuais pretensões de Maria Luís Albuquerque quanto a uma futura liderança do PSD - em 15 dias, tudo o Banif levou; Ferreira Leite intitula o texto, no suplemento de economia do referido semanário, com "A queda de uma ministra" e termina com um exclamativo "Lamentável!" para resumir a actuação da anterior titular da pasta das Finanças -, já Francisco Assis, no Público, é especialmente mauzinho com António Costa - um artigo muito envenenado para o líder do PS -, enquanto não poupa elogios a Passos Coelho e Paulo Portas, ao mesmo tempo que pede uma moratória para um mais avisado juízo acerca de Cavaco Silva. Dois textos de fim de ano que, como diria uma estranha professora de português que tive durante o Secundário, poderiam ser sumariados da seguinte forma: "reatamento conclusivo da notificação anterior".
Boas festas.

Vocações



«Quando era menino eu arrancava elásticos das botinas para fazer uma espécie de viola» - um dos personagens de O selvagem da ópera (p.62), de Rubem Fonseca.

Razões para a tristeza do pensamento (II)


A partir de Dez razões (possíveis) para a tristeza do pensamento (de George Steiner):

Segunda razão para uma «melancolia indestrutível»: um pensamento totalmente concentrado (em si/sobre si) leva à exaustão, ao colapso. "Os contemplativos, os mestres da meditação e seus acólitos, dão testemunho da ocorrência de períodos, por vezes extraordinariamente longos, de um recolhimento da psique de tal forma antagónico a qualquer dispersão da atenção que permite uma intencionalidade única e total (...) Há indícios, embora intermitentes, de que os poderes implícitos da meditação extrema podem esgotar-se numa idade bastante precoce (...) As explosões de concentração do pensamento dirigido, a coerção da focalização absoluta, poderão acarretar o risco de exaustão ou danos mentais subsequentes. Há monomania em determinadas intensidades de pensamento (os lasers podem queimar. É, apesar de tudo, uma monomania sem a qual diversos picos de compreensão humana e de conquistas não seriam exequíveis".

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Um sobrevivente político



Num debate, para as legislativas, em 2002, com Durão Barroso, Paulo Portas atira ao então líder do PSD que este tem medo de se assumir de direita. Em 2011, o líder do CDS-PP, no período em que mais se aproximou da teoria da equidistância, faz campanha com uma frase repetida permanentemente: "em matéria social, estamos à esquerda do PSD". Nuno Portas dava conta, à época, com manifesta satisfação, a António José Teixeira, da evolução do descendente, de um tempo liberal (em particular, no Independente) a um democrata-cristão (um estádio a que agora havia chegado, alegadamente como se diz). Por pouco. O governo que integra é liberal - nunca a economia, o sector do turismo teve uma política tão liberal, vangloriava-se, ao Expresso, Adolfo Mesquita Nunes, este Verão. Há pastas que resvalam para o assistencialismo e das quais não pode considerar-se que o PP nada tenha a ver, bem pelo contrário (veja-se a Segurança Social). Entretanto, os que, no PSD, transportam consigo o atributo do cinismo - que noutras encarnações Portas considerava uma grande virtude em homens de Estado -, responsabilizam o CDS pela deriva de direita do partido a que pertencem - penalizando-se, por isso. Fim da coligação, anui Passos Coelho, com o realismo de quem pretende, pelo menos, mais dois anos. Pedro Mexia nota bem no Governo Sombra: a plataforma programática que encostara o PSD mais à direita não tem o CDS como artífice. Mas se o princípio o que tem que ser tem muita força sempre contou, de sobremaneira, para o agora líder cessante do PP, então logo a profecia se auto-cumpriu: Passos, obrigado pelos comentadores mais conhecidos e pela sociedade-civil social-democrata a recuar (vide, por exemplo, Eduardo Vera Cruz, no Público, ou Rui Nunes, no JN; pena o silêncio durante quatro anos), cumprimenta Costa como primeiro-ministro sem vírgula e faz perguntas moderadas que lhe valem um para cima no Expresso. A política, e Paulo Portas, têm horror ao vazio (sociológico) e colam-se a um discurso mais empedernido à direita - diga lá aos camaradas para deixarem as greves (dirigindo-se ao PM). Num tempo de escombros, em que, como reconhece Lobo Xavier, a democracia-cristã é uma saudade e a maioria no CDS é ateia, resta esperar, apesar dos pedidos mais grandiloquentes para uma redefinição programático-identitária, mais do mesmo: procurar as causas perdidas ainda sem advogado e puxar por elas, esperando que os eleitores nelas participantes sejam muitos. Pretender qualquer essência programática, lá onde as grandes narrativas se foram, lá onde a desconfiança ideológica é enorme, lá onde às vezes tudo parece jazer, lá onde não se lê, lá onde impera a manha e a táctica, é demasiado. Lá é onde estão todos - a própria brincadeira habitual em torno da social-democracia mais não é do que isso. Portas viu, desde há muito - como o Bloco, de resto, também interpretou -, que seriam já mais causas em vez de partidos, nichos e não tanto classes sociais, a irromper politicamente. Dançou - demasiado lestamente para alguns, brilhantemente para outros, as duas coisas eventualmente para a maioria - a música do tempo. Donald Rumesfeld, e não era fácil imaginá-lo a fixar um temperamento menos sedento, anotou-o como extremamente ambicioso.

Razões para a tristeza do pensamento


A partir de Dez razões (possíveis) para a tristeza do pensamento (de George Steiner):

1º motivo de pesar: dúvida e frustração como resultado das perguntas que colocámos. "Em frentes absolutamente decisivas, não conseguimos chegar a nenhuma resposta satisfatória, muito menos conclusiva".

Entretanto, na escola (II)


Há algo de galhardo, de honradez, nobre naquele gesto que os directores de turma têm quando, como acontece reiteradamente, para a derradeira - e longa - reunião de final de período trazem para a mesa, para o Conselho de Turma, duas horas a discutir casos difíceis, resumos de comportamentos e desempenhos em aulas, decisões e propostas limite, uma sanção, uma mudança de turma, bola de carne, bolos, bebidas (muitas vezes, confeccionados pelos próprios). Para além de compulsarem toda uma série de informações mais ou menos relevantes, de terem que fazer estatísticas, de prepararem a acta, de serem fustigados com conversas paralelas em momentos de formalidade inter-pares, assumem uma responsabilidade integral, entendendo tratar principescamente os restantes colegas. Talvez pareça fora de tempo, de outro tempo, de outra época; talvez seja uma tradição muito própria de uma cultura, uma região, uma escola. Mas acontece. Chapeau.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A participação na Comunidade Política



Chamava a atenção, nesta alocução, há poucas semanas, do juiz Pedro Vaz Patto, para o preenchimento do conceito de "bem comum", presente na "Gaudium et Spes", do Concílio Vaticano II e para a diferenciação entre "princípio da subsidariedade" e "estado mínimo".

Neoliberalismo


É uma discussão tipicamente portuguesa. Liberalismo, ultraliberalismo, neoliberalismo? Segundo alguns, o neoliberalismo nunca existiu, não se sabe o que é, uma inventona para o debate político dos últimos anos. Todavia, na literatura portuguesa dedicada a temas de filosofia política, nomeadamente o Manual de Filosofia Política (2ª edição revista e aumentada; 2015), coordenado por João Cardoso Rosas, são-nos oferecidos os caracteres desta ideologia. No capítulo A crise da democracia, Marta Nunes da Costa apresenta-nos a seguinte descrição (p.290/291):


O neoliberalismo define-se por reivindicações específicas: primeiro, de que o Estado deve estar e manter-se separado da iniciativa privada, e que esta deve estar aberta ao comércio e investimento estrangeiro. Esta abertura ao mercado conduz, como sabemos, à redução salarial e à perda efetiva de direitos humanos - tais como o direito ao trabalho. A ideologia neoliberal apresenta-se com a retórica de que mais abertura traz mais oportunidades para o crescimento económico. Em segundo lugar, o neoliberalismo defende como prática uma cultura de austeridade, ou seja, o corte de despesa pública com serviços sociais, educação, saúde, etc. Este corte representa a eliminação do mínimo de segurança dos mais pobres. Em terceiro lugar, o neoliberalismo traz consigo a transformação da lei laboral e direitos adquiridos no último quarto de século. Em quarto lugar, promove e incentiva a venda de bens do Estado e privatizações. Em quinto lugar, o conceito ou ideal regulativo de bem comum é absolutamente eliminado, e a existência do próprio ser humano é reduzida ao estatuto de comodidade (...) O neoliberalismo, com discurso e retórica das liberdades, conduziu à comodificação de tudo, à perda de valor da condição humana, em detrimento da acumulação de capital por parte de uma elite cada vez mais concentrada e reduzida (...) Esta ordem neoliberal que tem gerado um poder hegemónico global é incompatível com a democracia.

[o artigo de Marta Nunes da Costa tem como bibliografia essencial, entre outros, David Harvey, A Brief History of Neoliberalism, Oxford University Press, 2005]

domingo, 27 de dezembro de 2015

A genealogia da ópera


Num dos parêntesis que, muito judiciosa e assiduamente, o narrador de O selvagem da ópera (de Rubem Fonseca) faz - para nos informar, contextualizar, cultivar, por entre uma narrativa muito segura, que sabe sempre o que quer e para onde vai, frase curta, directa, cinematográfica, carregada de ritmo -, a indicação de que as "primeiras manifestações operísticas" [operáticas] da história datam da Grécia Antiga, porquanto as antigas tragédias (gregas) eram cantadas e musicadas, muito embora só o(s) texto(s) tenha (m) chegado até nós.

Jornais de referência




sábado, 26 de dezembro de 2015

Lusco-fusco



Não é absolutamente certo que Henrik seja o Salieri de um Mozart que é Konrád. Não é certo por múltiplos aspectos, dos quais relevaria o facto de Henrik ter a sociedade a seus pés, estar integrado, não necessitar de uma inveja que não consente por ser um protegido dos deuses. Todavia, o talentoso, o artista, o homem a quem foram dados mais talentos é, com efeito, Konrád. E o interessante, nesta analogia, é perceber, diferentemente do que sucede no filme de Milos Forman, como, no livro de Sándor Márai, o virtuoso, o génio pode penar a duras penas ao ver como é, apenas, "tolerado", enquanto o mais íntimo dos amigos é exultado socialmente (no filme de Forman, Mozart aparece como pop star). Pelo menos, é assim que Henrik, no final da existência, observa aquele que foi mais íntimo do que um irmão - e que, no entanto, lhe chega a apontar a pistola à nuca.

Bem à maneira estóica, Henrik, no final da existência não se deixa abalar já por acontecimentos externos e tudo suporta. A filosofia estóica é derramada quando, recorrentemente, se assinala que aquilo que um homem é não se vê no que diz, mas no modo como se comporta. A pessoa não precisa de dizer nada, a vida fala por ela. A morte pode ser uma resposta, um modo de falar de alguém. "Os mortos falam sempre bem", diz o velho sábio. Do mesmo modo, sobrevir à morte de alguém querido é, ainda, pronunciar-se. Não acompanhar o que morreu, um crime.

A primeira parte da obra contém uma extraordinária elegia da amizade - "existe um certo tipo de amizade que é mais profunda e mais densa do que a dos gémeos no útero materno" (p.14).
A amizade entre Henrik e Konrád, travada desde a mais tenra infância, prolongada na juventude, seria o protótipo de como esta pode ser o mais importante na existência humana: "a amizade deles era tão séria e silenciosa, como todos os grandes sentimentos que duram uma vida inteira. E tal como todos os grandes sentimentos, continha também um certo pudor e sentimento de culpa. Uma pessoa não pode apropriar-se impunemente de outra, separando-a das restantes. Contudo, sabiam também, desde o primeiro momento, que esse encontro os vinculava para a vida inteira" (p.29-30) "Partilhavam tudo, o vestuário, as roupas interiores, no palácio dividiam o mesmo quarto, liam o mesmo livro simultaneamente, descobriam juntos Viena e a floresta, os livros e a caça, a equitação e as virtudes militares, a vida social e o amor (...) [Henrik] orgulhava-se de Konrád, se pudesse, tinha-o apresentado a toda a gente, como se fosse uma obra de arte, uma obra-prima e, ao mesmo tempo, gostava de ocultá-lo de todos, temia que alguém lhe pudesse tirar a pessoa que amava (...) Havia algo no relacionamento dos dois, ternura, seriedade, dedicação, algo de fatal, e essa irradiação desarmava qualquer tendência sarcástica. Em todas as comunidades humanas, esse tipo de relação suscita o sentimento de uma certa inveja. Não há nada tão desejado pelo homem como uma amizade desinteressada (...) Nada é tão raro entre jovens como uma afeição desinteressada que não pretende do outro nem ajuda nem sacrifício (...) Os dois rapazes sentiam que viviam numa condição maravilhosa, sem nome, num certo estado de graça. Nada é tão delicado como essa relação. Tudo o que a vida oferece mais tarde, os desejos subtis ou brutos, os sentimentos fortes, as ligações fatais da paixão, tudo isso é mais rude, mais desumano" (p.32/33)

Henrik e Konrád encontram-se, desde muito cedo, para se formarem militarmente. Mas, enquanto que para Herik tal não "é apenas uma posição, mas uma vocação", para Konrád trata-se, muito simplesmente, de responder a uma ambição social de quem para ali o enviou. Desde cedo, o pai de Henrik, que aceita Konrád como amigo seu também, assume que Henrik "não é um verdadeiro soldado. É diferente". Uma das diferenças, estará na música, local, afinal, secreto, refúgio a que ninguém acede. No colégio militar a música não aceite, ali onde se procura a "disciplina, que era a sua vida". A obediência vai no coração. E dá sentimento de segurança. Para Henrik, a música surgia a modos de libertação de uma prisão e permitia-lhe uma linguagem não verbal - que como se verá no desfecho da narrativa pode ter sido fatal.

Quando vão fazer o serviço militar, as diferenças entre os jovens são marcadas: Henrik, o homem com dinheiro, mundano, amante de festas, boémio, superficial (vide a música que aprecia); Konrád, o monge, que não sai durante semanas a fio, que não aceita prebendas do amigo, que se exercita na música clássica. Konrád falava a Henrik das suas leituras; este conversava sobre a vida. O primeiro tinha que perdoar, ao segundo, a riqueza; e este, por sua vez, devia condescender com a pobreza do amigo. Eram diferentes, mas completavam-se.

Na amizade pode haver ascendente e um eros da alma. Neste recorte dos traços da amizade, e dado que, afinal, Henrik formará com a sua mulher Krisztina e Konrád um triângulo amoroso, perguntar-se-à, em definitivo, de que matéria se faz a amizade. A páginas tantas é-nos dito que Henrik e Konrád "viviam por essa razão" (p.58) -  a amizade que unia os dois. Em realidade, ambos prosseguem  vida mesmo depois da morte de Krisztina (uma mulher independente, "soberana", "livre"). Porque a amizade dos dois era mais forte do que qualquer coisa? Porque a amizade tudo supera (o amigo mais íntimo que trai o parceiro com a mulher deste)? Amizade, amor? "O amor tudo suporta", diz Paulo. Mas o texto de Márai assinala que a amizade prossegue para além de tudo (não há acontecimento que a apague). E que limites para a traição? E que culpa tem o traído?

Mas que dizer do beijo na testa que Nini imprime em Henrik, no final do reencontro, 41 anos volvidos, entre os dois grandes amigos, no ocaso da narrativa? Que a mais pura das amizades ali se abrigara? (entre Nini e Henrik)

Para dar com o triângulo de que antes nunca suspeitara, Henrik dedicar-se-à à reclusão. Só a solidão lhe permite chegar à verdade. Esta solidão é originada no momento que parte a sua vida em dois, um antes e um depois, que também trespassa a narrativa (p.95): o momento em que Konrád lhe aponta a arma e se prepara para o matar. Não, não há uma prova física que o sustente, Henrik estava de costas, mas as grandes verdades não necessitam de positivismos: "sabe-se das coisas essenciais da vida, sem telefone nem rádio" (p.79). Uma coisa a realidade, outra a verdade.

Na sageza de que se reveste o texto - que manifestamente reclama uma dimensão sapiencial, e procura, no fim de tudo, a vida nua -, a asserção de que a natureza humana não se satisfaz, não se completa - e, portanto, recusa a morte - sem que a pergunta fundamental de uma vida, que difere de pessoa para pessoa, seja respondida. Mas para isso há que saber fazer a boa pergunta. E talvez, aliás, só possamos ir ao limite da pergunta excelente, óptima. Fora desse limiar, nada.
O sábio sabe que se pode amar a pessoa para lá das suas qualidades (atributos). O lusco-fusco do dia é descrito como, por certo, pouca literatura foi capaz de o fazer, mas pode, ainda, ser interpretado como a zona cinzenta sem respostas e como a culpa de que ninguém se subtrai (se Henrik tivesse feito uma pergunta, ou até uma recriminação à mulher que o traíra, esta não teria morrido; e as correlações fidelidade-felicidade são equacionadas despidas de qualquer moralismo).

[em Portugal, esta obra vai na 27ª edição]

Jesus (II)


Elogio de la Navidad

 Allá por los años setenta no era raro encontrar en alguna iglesia alemana un belén presidido por el siguiente texto: “El establo, el hijo del carpintero, el predicador entre gente humilde y el patíbulo al final son resultado del material histórico y no fruto del material dorado, preferido por la leyenda”. Lo llamativo de este texto es el nombre de su autor: no lo escribió un fervoroso teólogo cristiano, sino Ernst Bloch, filósofo marxista y ateo. Nunca escatimó este autor de una monumental filosofía de la esperanza elogios a Jesús de Nazaret: “Aquí aparece un hombre bueno con todas las letras, en toda la extensión de la palabra, algo que no había ocurrido nunca”. Como credencial de la bondad de Jesús exhibía Bloch su “tendencia hacia abajo”, es decir, su decantación por los pobres y marginados de la tierra. Y, naturalmente, el “establo” al comienzo de su trayectoria, y el “patíbulo” al final simbolizan vigorosamente esa opción por los más débiles.
Todos sabemos quiénes son los débiles de la economía, de la política, de la sociedad, de la vida. Dostoievski los evocó dramáticamente a todos en su novela Humillados y ofendidos, una novela necesariamente larga, como largo es el recuento de los maltratados de la historia. Bloch diría que, en algún sentido, los evangelistas Mateo y Lucas los convocaron a todos al “establo”. Conscientes del relieve de la persona cuya vida, muerte y resurrección iban a narrar, estos dos evangelistas intentaron reconstruir su árbol genealógico. En la reconstrucción de Mateo tienen un puesto de honor los débiles. Es llamativo, por ejemplo, que falten en su lista los nombres de mujeres famosas del Antiguo Testamento, como Sara y Rebeca. ¿Pretendió Mateo destacar ya la tendencia hacia abajo, hacia lo desconocido, hacia lo mal visto, de Jesús y del naciente cristianismo? En cambio, nombra a Rajab, mujer de cuyo matrimonio la Biblia nada sabe. En general, las mujeres mencionadas son, con motivos o sin ellos, de dudosa fama. Y un último dato que no puede ser casual: las cuatro mujeres nombradas en la lista son extranjeras. ¿No estaremos ante una temprana superación de los límites étnicos y geográficos, hoy de tan necesaria actualidad?
Lo que es indudable es que el establo nació con vocación de universalidad, algo legítimo siempre que no se trate de una universalidad impuesta. Es cierto que inicialmente, según informaba allá por el año 90 el historiador judío Flavio Josefo, la “tribu” de los cristianos estaba formada de “esclavos y desarrapados del mundo mediterráneo”. Pero bien pronto aquella “funesta superstición”, como llamó Tácito al cristianismo, amplió su radio de acción. La nueva religión, nacida al amparo del “hijo del carpintero”, dejó enseguida constancia de su honda preocupación social. Además de anunciar las bondades del más allá insistió en la necesidad de ponerlo “todo en común” en el más acá. Hubo frentes fijos y privilegiados: los huérfanos, las viudas, los ancianos, los enfermos, los pobres, los discapacitados. Sin olvidar el sentimiento de grupo, de comunidad, que la nueva religión fomentaba. Entonces, como hoy, la soledad hacía estragos. Epicteto describió “el horrible desamparo que puede experimentar un ser humano en medio de sus semejantes”. No es de extrañar, pues, que el mundo pagano, inicialmente poco simpatizante del nuevo movimiento religioso, terminase reconociendo que, aunque los cristianos no habían inventado el amor al prójimo, lo practicaban con notable efectividad.
El árbol genealógico reconstruido por Mateo y Lucas, los únicos evangelistas que narran la infancia de Jesús, pretendía situar a Jesús en este mundo. Deseaban destacar que el “predicador entre gente humilde” no cayó de un cielo resplandeciente y estrellado. Le precedieron unas generaciones que se movieron, como las nuestras, entre la generosidad y la intriga, entre la grandeza y la miseria de todo lo humano. Ellas son un indicio fiable de que, por mucho que se la maltrate, la moral nunca se rinde. Si hemos llegado hasta aquí, si la “furia de la destrucción” (Hegel) no ha acabado con todo es porque somos constitutivamente morales. La moral nunca será un “mobiliario muerto” (Fichte).
El nacimiento de Jesús de Nazaret no fue registrado por las crónicas de la alta sociedad de su tiempo. Los evangelistas se cuidan de constatar que fue anunciado a unos pastores, gente mal vista, con fama de asaltar a los peregrinos y de permitir que sus ganados pastasen en la propiedad ajena. Los protagonistas del nacimiento, María y José, eran gente sencilla de pueblo, débiles económica, cultural y socialmente. La debilidad es, pues, el marco que preside la entrada del Nazareno en este mundo; debilidad cuya presencia se irá haciendo más densa día tras día hasta culminar en el “patíbulo”, símbolo de ignominia y marginación.
Por último: el evangelista Mateo evoca la presencia de una estrella que brilla en el cielo y conduce a los Reyes Magos al “establo”. Curiosamente una de las etimologías del término “Dios” es “div” o “deiv”, que significa brillar. Es una palabra que tiene su origen en la experiencia de la contemplación del firmamento, de las estrellas. Expresa lo que todos sentimos cuando elevamos nuestros ojos al cielo: admiración, sobrecogimiento, dependencia, invocación, fascinación ante tanta grandiosidad. Enseguida nos viene a la mente el “cielo estrellado” que tanto impresionaba a Kant, o “el silencio de los espacios infinitos” que sobrecogía a Pascal, o la experiencia de lo “tremendo y fascinante” que con tanto acierto acuñó R. Otto. El cielo “se lo saben” los científicos, pero nos sobrecoge a todos.
La otra etimología del término Dios, propia de las lenguas germánicas y anglosajonas (Gott, God), podría derivarse de la raíz indogermánica “hu” que significa llamar, suplicar. Remite a la experiencia de invocar al Misterio, al fundamento último de la realidad, a Dios, desde una situación humana de profunda necesidad, sufrimiento y desamparo. Es lo que hacen los Salmos. Intentan conmover a Dios, suplicarle, darle gracias.
Los evangelios informan escuetamente de que Jesús murió en la cruz dando un grito fuerte, invocando a Dios y preguntándole por qué le había abandonado. Es posible que en sus últimos momentos Jesús experimentase crudamente la ausencia de Dios. Tal vez lo más correcto histórica y teológicamente sea decir que en la cruz la confianza de Jesús en Dios fue puesta duramente a prueba. Experimentó, en palabras de Hölderlin, que “Dios ha hecho el mundo como el mar hace la playa: retirándose”. Bloch tenía razón: hubo establo al principio y patíbulo al final; y en medio, también lo señala Bloch, permanente roce con la “gente humilde”, con las víctimas de la desigualdad y del injusto reparto de los bienes de esta tierra. No es un mal elogio ateo de la Navidad.
Manuel Fraijó es catedrático emérito de Filosofía de la UNED. ELPAIS, 25-12-2015

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Jesus



Frei Bento Domingues: Se há um modelo de vida no Ocidente, é a arte de viver de Jesus. Fazendo uma espécie de apanhado de tudo o que foi escrito no Novo Testamento, parece-me que Jesus se sai bem no exame. Aquilo que Jesus é é para todos os tempos e lugares. Jesus, não sei, tem um quê de especial, um quê não sei quê. Cheira-me que por aqui passa Deus, passa o ser humano e passa a vida e passa a alegria.
Frederico Lourenço — Com essas palavras concordo inteiramente.

O crente e o não crente para quem “Jesus sabe bem”, P2, 20/12/2015. Moderação de Carlos Vaz Marques.

Caldo de cultura



Se James Joyce inventou o "monólogo interior", a Odon von Horváth reservada estava a criação do "diálogo interior" (como escreve Berta Mias Mahou, na Introdução a Juventud sin Dios). O professor de um tempo em que os meios de comunicação de massas, em particular a rádio, destilam propaganda de ódio ao outro (diferente); o professor humanista que acredita na radical igualdade entre os humanos; o homem que deverá respeitar prescrições e circulares que lhe indicam dever "afastar dos jovens tudo o que possa afectar as suas futuras faculdades militares", questiona-se, numa inquietação existencial profunda, "que pode fazer um só indivíduo contra todos?" (p.34). O mestre encontra-se, em realidade, em um tempo no qual os alunos são tratados por (iniciais) letras - o professor tem os B., o N., o T. A desumanização na sociedade totalitária passa por aqui, por retirar o nome, por desapossar o outro de toda a identidade (que principia na nomeação); os pais - entre os quais não havia nenhum operário; latente, aqui, evidentemente, o binómio cultura-barbárie, ou, de um outro modo, escolarização-cultura-barbárie - perpetuam uma ecologia que faz com que escrever-se, como faz o aluno N, que "todos os negros são astutos, cobardes e vagos" (p.34) seja (o) normal e que anormalidade signifique, ao invés, afirmar, como acontece com o docente ,dirigindo-se aos alunos, que "os negros são humanos como vós" - uma frase capaz de infernizar a restante vida do professor. Mias Mahou assinalara, na Introdução (nota de rodapé 4, p.25): "a subida ao poder do nacional-socialismo, que se declarava expressamente contra os «decadentes» efeitos do intelecto, supôs o triunfo do irracionalismo. Do irracional - «sangue», «solo», «raça» - devia vir a renovação".  Ao professor mais não resta do que uma resignação dorida, acentuando não o conflito mas verdadeiramente o abismo de gerações, em esta estação da história humana: "falo uma língua diferente". Eles, os alunos, "odeiam-me", acrescenta.
A sociedade caldo de cultura para a ascensão do nazismo é exposta sem tibiezas - o director do colégio onde o professor dá aulas que manda seguir as directrizes do poder político, numa obediência que vai contra os "valores eternos", não porque aqui o mal seja banal e a estupidificação se afirme sem mais, mas porque o dinheiro da pensão é o único princípio que conta: "Esquece-se, por acaso, da circular interna 5679/33? Devemos afastar da juventude tudo aquilo que, de algum modo, possa afectar as suas futuras faculdades militares...o que significa que temos que educá-los moralmente para a guerra. Ponto! (...) Tome nota disto: não existe nenhuma pressão. Poderia também contradizer o espírito da época (...) mas não quero. Não, não quero ir embora. Quero chegar a jubilar-me para poder cobrar a pensão completa" (p.43); mas, ainda, importaria confrontar esta postura com a do juíz que ouve, em tribunal, falar contra os negros e, apesar do olhar de reprovação, "não se atreveu a interromper" o discurso da testemunha que escutava (p.147), ou dos que desfilando, por entre pais e filhos, ladeiam cartazes com palavras de ordem contendo ódio "e os que nelas não crêem desfilam também" (p.167). Parece não haver espaço para Antígonas. O director do colégio faz evocar Heidegger. E a burocracia aparece na circular. Sem delongas: "governa única e exclusivamente o dinheiro". Não há bem em si; o que é bom é o que nos interessa (p.50). Realismo, ou crueldade? "Desde que existe, a sociedade humana é incapaz de renunciar ao crime por razões de sobrevivência" (p.50). Uma frase que Timothy Snyder poderia utilizar no seu recente livro sobre o holocausto como advertência (para futuro; e o fim da revolução verde, com suas consequências; ou, ainda, dito de outro modo: a nossa ausência de superioridade moral face à sociedade de há sete ou oito décadas). Reforço da ideia de que não houve quem dissesse não (ou da ausência de força destes): os humanos tornaram-se loucos e os que não o são não têm coragem para meter os loucos numa camisa de forças. A massa pretende abafar a individualidade: o aluno que se escandaliza por o colega escrever um diário: com a escrita deste, está a sobrevalorizar o eu.
Quando lhes é proposta a guerra, sob a forma de treinos paramilitares, na montanha, os rapazes respondem entusiasmados: "Hurra!". A expressão parece pretender denotar a brutalidade de que se nutrem - ainda que, participando em uma sociedade onde as palavras querem dizer o oposto do que se imagina, e se trata de implantar a novilíngua orwelliana, seja o próprio professor a afirmar a um periódico que investiga o crime que ocorrerá na montanha, que os alunos em nada são brutos, mas verdadeiros heróis devotados à nação e se algum crime existiu excepção foi (p.101).
Durante a I Guerra Mundial, sempre o escândalo do mal como rocha do ateísmo, o professor abandona a crença em Deus. Também a Igreja lhe oferece um mau testemunho: parece estar sempre ao lado dos ricos, diz o professor ao padre com quem charla. Um aluno, questionado sobre a sua crença em Deus, diz que sim, mas por dizer. Toda a gente age etsi Deus non daretur (p.145).
Durante largos capítulos, Juventud sin Dios é um policial em busca do culpado pela morte do aluno N. no acampamento para exercícios paramilitares. A culpa como que tudo e todos - ainda que com graus diferentes - permeando, a (quase) inexistência de puros bons, assoma ao texto. E a consciência individual, Deus como verdade que fala ao ouvido do pecador e o obriga a confessar o seu pecado - mesmo à custa de perder emprego e pão - afirma-se em todo o seu esplendor. O professor crê, de novo, em Deus. Já não o deus como o mais terrível que há no mundo, mas um Deus revelado como verdade. E na procura da verdade visita a aristocracia, mátria do desconhecido que matara N. O Mestre quer falar com a mãe de T., mas esta nunca pode atender, sempre ocupada, sem tempo, de resto, para o próprio filho. O egoísmo é um outro mal social assim denunciado.
Se ao professor, se a Horvath, está destinado o exílio - no caso do personagem desta ficção, o exílio em África -, todavia, nem só de realismo trágico se faz a peça. Há quatro alunos que concordaram com a afirmação sobre os negros feita pelo professor - e que lhe vêm fazer essa surpreendente revelação. Reúnem-se, aliás, num clube secreto (o bom alemão é um alemão morto...ou exilado...ou escondido). Nesse clube, lêem. Atente-se, por um lado, na definitiva importância do livro, da leitura, das ideias. Fundamentalmente, de ser consequente com elas - "não estamos aqui só para ler livros, mas também para viver de acordo com eles", p.177. Por outro, a noção de que a cultura pode, ainda que não obrigue, a levar a sério o jogo da vida, se penetrada em profundidade, e não revisitada, de modo burlesco, pelo homem light que pega nos livros para deles se mofar, apenas para com eles gozar - como com outros grupos, neste período histórico, sucedia, na leitura feita por Odon von Horvath.

[a partir de Juventud sin Dios, BackList, 2010; tradução nossa dos excertos supra]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Da importância da cultura (II)



A fé e a cultura encontram-se irmanadas na mesma procura: a verdade. Os caminhos comuns de busca podem, pois, ser criativos. A Igreja não pode ser a aldeia do Ásterix, não pode ser uma ilha fechada sobre si mesma. Tem que ter uma gramática que traduza a sabedoria sobre o humano. A dimensão cultural na evangelização é fundamental. É ela que dá nota da vida toda, que faz corpo, que incarna. A cultura nunca há-de ser ornamento, porque é dimensão absolutamente vital. Dizer cultura não é, no entanto, dizer, necessariamente, "bem" e "verdade": deve esta, igualmente, estar aberta a quem a auxilie nessa caminhada para purificar o que de não verdadeiro possui.


Da importância da cultura



Do drama da ruptura entre cultura e Evangelho, introduzido pela modernidade; pela cultura como espaço de perguntas - mesmo que não de respostas - que permitem levar a sério o jogo da vida; pela pertinência das pegadas dos homens e mulheres da poesia, da dança, da música, do modo como nos interpelam no modo intenso como se ligam ao seu ofício, convidando-nos ao mesmo apreço no empenho contemplativo das nossas actividades. José Tolentino de Mendonça, na noite de 10 de Dezembro, no Instituto Diocesano de Formação Cristã, na revisitação da Constituição Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II.

Dança como apelo de uma liberdade radical



Magnífico o documentário de Ric Burns, American Ballet Theatre, que contando-nos a história da companhia de ballet norte-americana se cola à pele da história ocidental (com a Rússia) dos últimos 400 anos, ao mesmo tempo que nos fala da humana liberdade que voa nas pontas dos dedos do pé.
É como etiqueta que a dança surge. Código de homens. Cortesãos. Bailarinos. Porquê? Porque é necessário cumprimentar, controlar o corpo, saber apresentar-se à autoridade - maxime, o rei - como se impõe. Os gestos devem ser viris, firmes, de uma disciplina e auto-domesticação a toda a prova. Na realidade, quanto mais refinada a corte, mais o domínio do obséquio, da pompa e solenidade se faz notar. No século XVII, primeiro em Itália, mas com inigualável preeminência em França (de onde derivam todas as expressões ligadas a aspectos da dança, utilizados por todo o mundo), a dança emerge. A corte de Luis XIV é o paradigma da excelência - o monarca, ele mesmo, um bailarino de recorte. Cinco as posições universais que ficam como pedras basilares e que recuam à antiguidade clássica, o corpo geométrico, perfeito, cantado.
Nas ruas, o tempo muda. A Revolução (Francesa) avança. Cheque-mate ao rei. Com todos os seus avatares. O ballet aristocrático, cortesão, não representa, já, os interesses do povo. Fora com os dançarinos. Irrompem, então, em bicos de pés, como uma moeda só sobre o solo, porque tudo o mais é elevado, transcendente, etéreo, a mulher bailarina, símbolo, nesse estado, nessa graça, de sonho, irracional, ilusão, transcendência - o que o povo quer.
Na prática das barras, cada manhã repete o que há 4 centúrias se faz e na concentração máxima sobre elas se atingirá uma dimensão que se aproxima de uma matriz religiosa. Contemplativa. 
Pedro Grande, na Rússia, adopta o fausto francês, dá-lhe toques imperiais, o classicismo mantém-se até à revolução de 1917 que faz muitos migrarem. Para Itália, Inglaterra, Alemanha e, muito especialmente, os EUA. As raízes do ballet americano encontram-se, pois, muito curiosamente, nesta dissidência russa, mas o apelo à adaptação do repertório à cultura americana - arte enxertada numa cultura, na história - será indeclinável. Dos duendes e fadas até à tragédia (da notícia) do quotidiano (que vai ao proscénio de corpo inteiro) vão concepções diversas do que deve ser posto em prática e de uma tradição que se renovará com Tudor e Blanchine. Durante as décadas de 60 e 70 do século XX, os diálogos culturais americano-soviéticos, em plena Guerra Fria, passarão muito pela dança e o ballet. O Bolshoi de Moscovo esgotará Nova Iorque. O apelo da síntese poética de um corpo de "matéria espiritualizada" prosseguirá como demanda de uma nobreza, já não de casta, mas de carácter.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Entretanto, na escola


É uma pena que uma aluna com umas notas tão boas vá para artes!... - diz, compungida, na reunião, a professora de Educação Visual.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Um outro objecto



A cena inicial, plano sobre uma rua, a passadeira numa avenida de Teerão, mostra uma metrópole por onde há jovens de jeans e t-shirt como em qualquer lugar ocidental, mochila a tiracolo, mesclados com jovens cobertas com  véu. A realidade, feita desta mistura, reconhecer-se-à, mais adiante, em uma outra cena, em que um acidentado, em estado aparentemente muito grave, pede que lhe seja gravado o testamento, via telemóvel de última geração, enquanto o dita no caminho para o hospital. O testamento visa preservar os direitos da esposa, a quem nada restaria não fosse a bondade daquele marido. As tensões modernidade/conservadorismo são expostas, inúmeras vezes, de modo hilariante até, ao longo do filme.

Entrámos no taxi do intelectual Jafar Panahi e não mais dele saímos, num conjunto de histórias susceptíveis de nos darem a conhecer o actual Irão, num enredo que passa pela micro-narrativa naif, doce, surreal até desembocar, ou dar a ver desse forma, em modo de paradoxo maior, a gélida crueldade do regime.

No carro de Panahi entra um "trabalhador independente", que mais tarde se define como "assaltante" que defende a pena de morte para os assaltantes que dias antes roubaram os pneus de um carro, de um seu conhecido, e em seu lugar colocaram uns tijolos. Que exagero!, responde-lhe a professora que segue, também, na parte de trás da viatura. Aquele tu cá-tu lá, homem-mulher, poderá parecer, de algum modo, surpreendente, ao leitor ocidental, dado o estatuto da mulher a oriente. De qualquer forma, e conquanto o "trabalhador independente" queira centrar-se na punição, e a professora - com o cabelo coberta - ache que o "importante é ir às causas" (no que teríamos uma espécie de ensaio direita-esquerda), o espectador é informado de que o Irão é recordista em execuções (de penas de morte), só suplantado pela China.

Um novo cliente está agora a bordo do taxi, um espertalhão que reconhece o "taxista" e se aproveita da fama deste para se apresentar como "sócio" do realizador e assim impingir mais uns filmes, vendidos no mercado negro, a um estudante de cinema. Conhecer Woody Allen, entre muitos outros cineastas, em Teerão, só pela porta do cavalo - diz-nos o filme, por entre o jeito para o negócio do empresário anão que tem um video-clube com entrega ao domicílio.

Duas velhotas tomam o táxi, uma das quais munida de um aquário com um peixe lá dentro, para depositar, impreterivelmente, ao meio-dia, num lago qualquer, numa localidade ainda aparentemente distante. Um abanão repentino do carro, leva a que o aquário se parta, os peixes fujam, e o condutor tenha que retirar um saco de plástico e enchê-lo de água para devolver o peixe ao seu habitat. Antes, já as velhotas levavam as mãos à cabeça - "é demasiada emoção" -, entendendo que, por via da sua data de nascimento, sem que os peixes fossem devolvidos ao lago até ao meio-dia, estas morreriam. O momento surreal do filme.

Atrasado, com um sentimento de culpa, o taxista vai ao colégio buscar a sobrinha que, longe de uma obediência acrítica e uma mansidão sem fala - como o espectador ocidental poderia (pré) julgar -, fala em tom zangado com o tio, fazendo a sua birra e convocando o especialista em cinema para o auxílio no trabalho marcado pela professora de cinema. Trata-se de filmar uma história sobre o país, onde os bons devem ser identificados por não usarem gravata, não terem a barba feita, utilizarem nomes sagrados do Islão. O filme deverá ter realidade, "mas não realidade realidade", e, muito menos, "realismo sórdido". Mais, estejam à vontade as crianças, dirá a professora, para se autocensurarem quando virem que a história tem partes menos edificantes. Política nem pensar. 

Ainda que aparentemente protegida da realidade - um café gelado que ela gosta, uns mimos -, a pequena sobrinha de Panahi virá a perceber que a liberdade de expressão, ou melhor, a sua denegação por exemplo, integra o conceito de "realismo sórdido" que não é para mostra em nenhuma curta. Na escola, ou fora dela. Mas a combatividade de que a criança/adolescente dá mostras, revelar-se-à quando recebe, em nome do tio preso pelo regime, o Urso de Ouro, em Berlim.

Um filme, que o Teatro de Vila Real passou na terça-feira desta semana, que num tom (aparentemente) leve, glosando o documentário - o homem acidentado que tem muito "sangue cinematográfico" e só de um lado da cara -, questionando o modo de apreensão da verdade - o empresário anão: "pensas que eu não percebi que este casal acidentado era composto por dois actores" -, flirtando com o jogo verdade/mentira com o espectador, apostando no binómio modernidade - tecnológica, social nas respostas da adolescente - vs conservadorismo - maxime, a questão da herança da mulher, a impossibilidade de se aceder livremente aos filmes ocidentais - nos dá, num humor de quem não abdica de rir mesmo no interior de um regime tenebroso - nas voltas infantis, na realidade à parte, com a sobrinha, algo de A vida é bela recordei.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Pura política


1.Rui Rio defrontará Pedro Passos Coelho, em Março, no próximo Congresso do PSD. Depois da experiência vai-não-vai para as Presidenciais, depois de se ter deixado ultrapassar no timing de apresentação da candidatura por Marcelo Rebelo de Sousa, não faria qualquer sentido o ex-presidente da Câmara do Porto apresentar, de motu próprio, a reflexão que fez - com Passos não se transmite esperança aos portugueses e dificilmente o PSD voltará a ganhar eleições legislativas com tal líder; o país precisa de reformas estruturais pactadas pelo bloco central e é urgente que as respectivas lideranças falem e se dêem bem -, na última terça-feira, na Alfândega do Porto, para depois recuar. Rio que anda na política desde a jota sabe bem que a imagem de indeciso, uma espécie de Fernando Seara, lhe seria colada fatalmente. Rio antecipa-se a eventuais outros candidatos, nomeadamente posicionando-se para dentro de dois anos, se agora vier a ser derrotado.

2. De qualquer forma, não deixa de ser surpreendente que Rio se diga ainda não totalmente convencido por não ter avançado para as presidenciais - afinal, pensa ter perfil para um cargo executivo ou de moderador?; não deixa de ser curioso que no artigo de explicação de desistência das presidenciais, no JN, Rio tenha dito que alguém que não seja dos meios da capital não tem hipóteses sérias na política nacional e agora se candidate a um lugar que lhe venha a permitir, no futuro, eventualmente, chegar a PM; por outro lado, tendo ainda há poucos anos dito que só por uma grande necessidade do país, só com uma grande vaga de fundo equacionaria o regresso à política, por querer dedicar-se ao privado, não há dúvida que Rui Rio foi lesto a cavalgar uma onda inexistente; se face a pessoas como Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira ou o Paulo Rangel dos dois anos iniciais do mandato de Passos (com alguns apontamentos de Morais Sarmento) se poderia perceber alguma diferença ideológica para com a linha que o actual líder do PSD representa, com um Rui Rio que ainda hoje não sabe se fez bem em não se candidatar às presidenciais (para as quais reclamava o apoio da direcção que agora se preparará para combater), que parece ter pena por não representar um espaço político que só podia ser aquele a que Marcelo recusou dar guarida (as presidenciais como segunda volta das legislativas), também não se concebe propriamente que mudança no interior do PSD Rio representa, para lá das sempre muito peremptórias alusões a longínquas e obscuras reformas estruturais que nunca desenvolve ("precisamos de uma reforma estrutural na Justiça" quer dizer o quê?).

3. Foi bom o debate, esta semana, no Parlamento. Merece, por isso, ser saudado. Com António Costa a semântica volta a ser política, por excelência. Mas Passos também esteve bastante bem: deixando o radicalismo de antanho, fez perguntas pertinentes, importantes politicamente para o país, sempre num registo sóbrio. Catarina Martins esticou a corda na medida exacta - nem fretes a Costa, nem atacar imoderadamente o novo Executivo -, sobrando para Paulo Portas o momento estridente e desmesurado da tarde, com um frentismo ideológico que pareceu querer perpetuar - ao contrário do que fez o PSD - a refrega das semanas anteriores (obtendo respostas de igual dureza, com a coisa quase a resvalar para o plano pessoal com Costa). Tal extremismo tem, no entanto, o condão de sempre tornar a esquerda unida, permitindo a Costa brilhar na assumpção do papel de pater familias (vide defesa sagaz do papel do sindicalismo no Estado Social).


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Dureza



Rara a brutalidade, na última cartada de Pedro Sanchez, dirigindo-se a Mariano Rajoy, no frente a frente que há pouco terminou.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Eles andam aí


Dez anos depois, onde andam eles, que passaram a fazer parte de um imaginário colectivo de quem se interessa pelas questões da cidade (global)? Personalidades que se projectam como personagens-falcão. Segui o rastro de um recente GPS (CNN) de Fareed Zakaria e descobri que Paul Wolfowitz, secretário-adjunto de Defesa da primeira Administração George W.Bush é, hoje, conselheiro de Jeb Bush. Está velho.

Da educação do príncipe (II)



A Ética a Nicómaco é a obra sobre a qual nos detemos, mais pronunciadamente, na tarde de Mateus. Ela surge na última fase da busca de Aristóteles, dedicado, agora, à indagação acerca da felicidade e (boa) construção do/pelo humano. Acrescente-se, ainda, quanto à influência das obras aristotélicas no pensamento ocidental que foram livros deste - e hoje temos, ainda, várias obras apócrifas de Aristóteles -, com títulos como Física, Política ou Psicologia que estiveram na génese destas disciplinas. À época, ciência queria dizer duas coisas distintas (será esta a distinção feita por Aristóteles): de um lado, as ciências teoréticas (Física, Matemática, Metafísica); do outro, as ciências práticas (Economia, Ética e Política).

A ética ocupa-se do fim último do Homem. Esse fim será a felicidade. Mas como obtê-la? O humano age, faz escolhas, toma decisões. O bem é aquilo por que tudo anseia, escreve Aristóteles - nome que significa "o bom fim". Tudo acontece em função de quatro causas, mas a ciência arquitectónica que organiza todas as outras é a Política - esta ocupa-se dos fins dos homens. O Bem único, último, está para lá da experiência. Assim, na ética, a investigação deve principiar pela opinião mais comum entre os homens. Tanto a maioria (destes), como os mais sofisticados (de entre a espécie) afirmam ser a felicidade (eudaimonia) o bem para o qual os homens tendem. Mas o que significará felicidade? Viver bem, ter uma vida boa, com prazer (sentidos), para uns; acção política (frutuosa), dimensão contemplativa, para outros. De entre os bens susceptíveis de preencher a categoria da felicidade, Aristóteles descarta o prazer - demasiado pouco; do mesmo modo, ser rico, ter honras/reconhecimento social não é a resposta, porque colocaria a felicidade dependente de outros. Em assim sendo, a felicidade dependerá de um bem autárquico.
Por sua vez, dirá Aristóteles, os animais não podem ser felizes, dado que para tal suceder seria necessário que possuíssem racionalidade; para alguém ser feliz precisa de conhecer os fins (possíveis ou passíveis de alcançar) e ser capaz de escolher a melhor finalidade.

A questão seguinte será: como escolher, então, a acção que melhor nos realiza? A alma dirige o corpo e tem várias secções; uma, racional - por exemplo, para (controlar) a digestão; outra, irracional - o apetite por algo, que nos leva a agir. A alma tem a sua parte de disposição teórica e de disposição ética. O pensamento depende da educação; carece de treino. Outro tipo de virtudes, dependem mais dos hábitos. A maior parte destas (das virtudes) adquiri-mo-las pela prática, pelo hábito. O hábito torna-se, pois, uma segunda pele.

Ora, quais as virtudes que nos levam a escolher bem? Coragem, temperança, generosidade, magnificência, magnanimidade, prudência, gentileza, sinceridade, espirituosidade, amabilidade, pudor, indignação.

O justo meio é determinante, neste contexto, e consiste em fazer o que se deve, quando se deve, nas circunstâncias que se deve, em relação às pessoas que se deve.

Outras duas virtudes em que atentar: sageza/sensatez e a sabedoria. Com elas, encontramo-nos em um ulterior nível de realização do Homem, pelo intelecto. Tais virtudes não estão ao alcance dos homens mais comuns.

Aquele que atinge a felicidade perfeita é, ipso facto, filósofo - ainda que muito filósofo não encontre a felicidade perfeita.

A amizade é algo de indispensável para os homens; é, mesmo, o mais necessário para a vida humana.
Também na amizade podemos distinguir diferentes espécimes: a amizade como utilidade (aquele que é, ou se faz amigo de outrem para disso tirar qualquer tipo de partido); a amizade com base no prazer (um vínculo existente para que um fim de algum modo análogo à utilidade: alguém que retira prazer do outro).

A amizade perfeita é aquela em que se é amigo por aquilo que cada um é - não por uma utilidade, um prazer. A amizade perfeita significa querer bem ao outro como para si mesmo (este "como a si mesmo" releva do entendimento benéfico que Aristóteles tem do "egoísmo").

Da educação do príncipe



Em Mateus, as conversas começam à volta de um objecto, leit-motiv para a charla que continua. Na introdução de Ética de Aristóteles: antiguidade e actualidade, aula aberta do Prof.José Meirinhos - que contou, de resto, com seus doutorandos, do Porto; na sessão de Mateus, estiveram presentes 43 pessoas, um record em ocasiões do género -, o mote foi dado pelo exemplar, pertencente à Casa de Mateus, dos Discursos sobre la filosofia de Aristóteles, manual destinado a contribuir para a ilustração e formação do príncipe, no século XVI - já Tomás de Aquino reclamara para o rei educação perfeita. Aliás, para Aristóteles a ética não é assunto de jovens, mas metier de gente com maturidade e experiência. Desde logo, porque para exercermos um juízo, para procedermos a um julgamento carecemos de uma substantiva acumulação de conhecimento; por outro lado, porque a impulsividade, o sangue quente dos mais jovens não combina bem com esse adequado ponderar.

Foi Aristóteles que inventou a palavra ética e, bem assim, trata-se do autor fundador da disciplina (homónima). Cura-se de um homem que exerceria duradoura influência na história do pensamento - pense-se, por exemplo, em termos da história pátria, como o capelão de Filipe III oferece, em 1603, ao soberano uma obra com 8 discursos aristotélicos para edificação do rei (no caso, para os filhos de Filipe).

Aristóteles nasce em 384, no Nordeste da Grécia, na Calcídica, em Estagira (daí o nome o estagirita, com que é tão celebrizado). O pai, Nicómaco, era médico. Aristóteles frequentou a Academia, de Platão. Nele, formou-se a esperança de vir a suceder ao autor de Fedon à frente da Academia. Tal pretensão seria frustrada. Dirigiu-se, então, para Assos. Dedicar-se-à à Biologia e aos estudos naturalísticos; passa, efectivamente, a ser um cientista da natureza.
Filipe II da Macedónia convoca-o para preceptor de Alexandre, tinha este 13/14 anos (e exerceu tal múnus durante 3/4 anos). Concluída tal missão, regressa a Atenas para fundar o Liceu. Terá escrito cerca de 200 obras; até nós, chegaram 47/48 obras genuínas. Entre estas, ficámos, essencialmente, com aquilo que poderíamos designar de Sebentas (com que ensinava). Inteiras, possuímos 34 obras (que subsistiram). Foi Andrónico de Rodes quem recupera as obras de Aristóteles, perdidas numa cave.
Diz-se que exercia o seu magistério passeando com os alunos. De aí ser chamada escola peripatética.
Morre em Cálcis, com um problema de digestão.

(cont.)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Pós-passismo



Primeiro, foi Nuno Morais Sarmento na entrevista a Vítor Gonçalves. O tiro para o pós-passismo, se a oportunidade se proporcionar, chegou, o novo governo acabado de tomar posse, com a bengala da evocação de uma (suposta) deriva esquerdista do PS: agora que o Partido Socialista se radicalizou à esquerda, disse Sarmento, é fundamental que o PSD esteja ao centro. O partido precisa de se recentrar, porque isso é fundamental para a sociedade portuguesa. É certo que o confesso barrosista nunca remeteu para termos como social-democracia, ou outras expressões mais ousadas (quando não equívocas). Habilmente, o ex-ministro afirmou que nunca, como agora, Passos Coelho tem o apoio do partido, dado ter ganho eleições em circunstâncias eleitoralmente menos propícias. Num primeiro momento, assim será. O antigo comentador da RTP concluiu, já lá vão duas semanas, com a afirmação de que PSD e CDS devem seguir separados (ainda que com alguns acordos, nomeadamente em matéria orçamental).

Depois de Nuno Morais Sarmento, Miguel Albuquerque, na RR, afinou pelo mesmo diapasão: a coligação PaF deve desfazer-se. O jornalista da Renascença nota mais: o silêncio quando se fala da liderança do partido é muito significativo, as frases de apoio a Passos Coelho adquirem um tom excessivamente formal, frio. Algo que, em alguém tido como próximo do actual líder do PSD, não deixa de ser, de facto, surpreendente.

No programa Falar Claro, também José Eduardo Martins deu voz aos que expressam descontentamento com a possibilidade da coligação, à direita, se manter. E, se o social-democrata não antevê Passos fora do poder (no PSD), é muito crítico dos que o acompanham e, mais ainda, recusa, definitivamente, fazer parte de qualquer direcção social-democrata presidida por Passos Coelho.

Nuno Morais Sarmento - como por exemplo, Nuno Rogeiro, na Sábado elogiaram, ainda, a competência e capacidade política de António Costa para firmar os acordos que o levaram ao Governo.

Manuela Ferreira Leite repete, a cada quinta-feira, que fica chocada cada vez que alguém diz que o PSD é um partido de direita.

Quer dizer, tudo visto e somado, está, com efeito, criado um caldo de cultura no interior do PSD favorável a mudanças internas - que poderão ter múltiplas e diferentes expressões, mas que, como é evidente, tenderão a afectar a liderança se o novo Governo durar mais tempo do que aquele mínimo que recolocaria, inevitavelmente, Passos Coelho na liderança de um Governo que substituiria um que (eventualmente) se fragmentasse. Claro que experimentado, desde há décadas, no mundo das juventudes partidárias, fazendo um longo percurso partidário, Passos Coelho já se apercebeu do agitar de águas. A política, como o próprio sabe, não se dá com complacências; é implacável. "Se não tiveres eleições no país, vais tê-las no partido", poderia repetir-lhe, hoje, Marco António Costa.

É um pouco neste contexto que situo, até, a mais recente polémica criada com Pacheco Pereira. Se as àguas internas se agitam, necessário é criar uma nuvem de fumo. Mas num PSD que, em o actual Governo se aguentando duradouramente - hipótese muito discutível, diga-se -, ainda que não por genuína convicção, mas por táctica a maioria entendesse que o caminho centrista, menos liberal e mais social-democrata fariam sentido, então ao historiador poderia estar reservado, muito ironicamente (embora sem excessiva surpresa olhando ao modo como os partidos votam, mudando de rumo interno, às vezes radicalmente, com um grande facilidade ou irreflexão ideológico-programática), de não pouco relevo. De aí que me surpreenda, sim, de algum modo, que no caminho para um novo centro em Portugal, Pacheco Pereira não apoie, de imediato, Marcelo Rebelo de Sousa - fazendo desse apoio a leitura que, por exemplo, um Pedro Marques Lopes tem dado a uma vitória marcelista (na reconfiguração da social-democracia à portuguesa).
Possivelmente, a excessiva proximidade temporal com o período que antecedeu as últimas legislativas, as cumplicidades programáticas, pessoais formadas, ou a compreensão de que Marcelo é demasiado inteligente para se deixar acantonar em qualquer pomo de facção (ideológica) o tenham levado ao actual "agnosticismo" presidencial.
Esperemos para ver se não regressam as disputas entre bases e elites e quem representará estas dentro de dois anos (se entretanto o novo Executivo até lá não cair).

O papel da Filosofia: entre (II)


Há um certo auto-engano na auto-compreensão secularista estreita de uma filosofia «científica» que se considera a si mesma exclusivamente como herdeira da filosofia grega e como adversária natural da religião. Isso é falso por vários motivos. Primeiro, ignora-se o carácter religioso das origens platónicas da filosofia: a subida [elevação/ascese] às ideias [puras] é um genuíno caminho de salvação, que caracteriza a filosofia grega, algo que também podemos ver em Pitágoras ou em Empédocles, e que é um fenómeno paralelo a outras cosmologias e religiões do Este asiático (como o confucionismo ou o budismo). Sem embargo, a filosofia nunca assentou [raízes] nas práticas rituais da polis grega, e com Aristóteles adquiriu cedo uma orientação mundana e científica. Isto poderia explicar o motivo pelo qual o caminho da salvação através da contemplação pôde combinar-se com o caminho salvífico do cristianismo na cultura monástica da Idade Média - mais estreitamente, claro, no misticismo cristão.
Em segundo lugar, a auto-compreensão secularista suprime os traços conceptuais, antes mencionados, deixados no pensamento filosófico pelas tradições monoteístas por meio da simbiose da filosofia grega com o cristianismo paulino. A revolução nominalista no pensamento medieval aplanou o caminho para o nascimento da ciência moderna, do humanismo e de novos enfoques epistemológicos e sobre a racionalidade da lei, assim como do protestantismo e a mundanidade do cristianismo: quer dizer, do que a Igreja Católica entendia, no início, por «secularização» desde o seu ponto de vista (como sublinhou recentemente Charles Taylor, em A Secular Age). Na medida em que estes processos complexos podem ser entendidos também como processos de aprendizagem, a partir dos quais não é razoável voltar a um estádio anterior, a nossa auto-compreensão simplesmente expande-se.

Jurgen HabermasMundo de la vida, política y religion, Trotta, 2015, pp.96-97.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O papel da filosofia: "entre"


A expressão «pós-secular» não é um predicado genealógico mas sociológico. Utilizo essa expressão para descrever as sociedades modernas que lidam com a existência de grupos religiosos e nas quais as diferentes tradições religiosas continuam a ser relevantes, ainda que as próprias sociedades estejam, em grande parte, secularizadas. Na medida em que descrevo como «pós-secular» não a própria sociedade, mas uma mudança de consciência nela, o predicado só pode utilizar-se para referir-se a uma auto-compreensão modificada das já, em boa parte, secularizadas sociedades da Europa Ocidental, Canadá e Austrália. (...) Neste caso, «pós-secular» refere-se (...) a uma cesura na história das mentalidades (...)
Desde então [com a revolução nominalista e desde o século XVII] a filosofia colocou-se ao lado das ciências e ignorou, mais ou menos, a teologia (...) Inclusivamente, os filósofos do idealismo alemão, que assumem a herança judaico-cristã, simplesmente dão por adquirida a sua própria autoridade para poder dizer que conteúdos religiosos são verdadeiros e quais não o são. Eles consideraram já, também, a religião como uma configuração do passado. Mas é assim?
Para a filosofia, há indícios empíricos de que a religião se manteve como uma configuração contemporânea do espírito. Ademais, a filosofia encontra também razões internas para isso, razões na sua própria história. O longo processo de traduzir conteúdos essenciais e religiosos para a linguagem da filosofia começou na Antiguidade tardia. Basta pensarmos em conceitos como pessoa e individualidade, liberdade e justiça, solidariedade e comunidade, emancipação, história e crise. Não podemos saber se este processo de apropriação do potencial semântico de um discurso que no seu núcleo permanece inacessível se esgotou ou se pode continuar a dar frutos. O labor conceptual dos escritores e pensadores com preocupações religiosas, como o jovem Bloch, Benjamim, Levinas ou Derrida, fala a favor da produtividade contínua de tal esforço filosófico. E sugere uma mudança de atitude a favor de uma relação dialógica, aberta à aprendizagem, com toda a tradição religiosa e de uma reflexão sobre a posição do pensamento pós-metafísico entre as ciências e a religião.
Essa reflexão impele-nos em duas direcções. Por um lado, volta-se contra uma auto-compreensão secularista da filosofia que aspira a mesclar-se com a ciência, ou a converter-se em uma ciência. Toda a assimilação com as ciências cancela a dimensão reflexiva que caracteriza o labor de auto-compreensão que cabe à filosofia e a distingue da investigação científica. As ciências orientadas metodologicamente dirigem-se para si mesmas sem mediação ao seu objecto - portanto, sem verificação reflexiva da inevitável influência das próprias práticas da investigação científica nos seus resultados. Tem que fazer como se mirasse o mundo desde nenhum sítio [neutralidade]. Este esquecimento de si é aceitável. Só se converte em um problema quando os filósofos se disfarçam de cientistas para totalizar subrepticiamente  - quer dizer, estender ao mundo como um todo - os âmbitos objectuais das ciências. Pois o «nenhum sítio» [neutralidade] que então é assumido sem reflexão, e desde o qual se projecta a cosmovisão naturalista do cientificismo forte, não é mais do que o cúmplice clandestino do «ponto de vista divino» vazio de metafísica.
Por outro lado, não devemos apagar a diferença que existe entre fé e conhecimento no modo de pretensão de verdade. Inclusivamente se pensar a situação pós-secular tivesse que levar a mudar de atitude face à religião, tal revisão não pode alterar o facto de que o pensamento pós-metafísico é um pensamento secular que insiste em distinguir fé e conhecimento como dois modos essencialmente diferentes de pretensão de verdade. Repito: em suma, podemos chamar «pós-secular» a uma situação na qual a razão secular e uma consciência religiosa que se tornou reflexiva estabeleçam uma relação, da que o diálogo entre Jaspers e Bultmann é exemplo.

Jurgen Habermas, Mundo de la vida, política y religion, Trotta, 2015, pp.93-95.

[tradução nossa]


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O papel da Filosofia




No passado Sábado, na Casa de Mateus, numa muito agradável palestra do Prof. José Meirinhos dedicada ao tema A ética em Aristóteles: antiguidade e actualidade, incluída no 3º ciclo de conversas sobre Ciência, Arte e Cultura, foi evocado o fresco de Rafael, de 1509, encomendado pelo Papa Júlio II. Em particular, observou-se como o gesto de Platão (autor que reconhecemos, nomeadamente, por levar consigo a obra Timeu, com o indicador virado para cima, para o "Céu", como podemos ver na imagem) pretendia indicar o lugar da Filosofia como sendo a disciplina que se ocupa e remete para um mundo transcendente, puramente intelectual; ao invés, o gesto de Aristóteles, apontando para uma dimensão mais terrena (a palma da mão como que apontando para a Terra), observaria como o humano não tem acesso a realidades não naturais; aquilo a que tem acesso é à realidade empírica, objecto, pois, com o qual deve ocupar-se a Filosofia. 
Muito interessante de observar, a esta luz, de resto, como alguma da filosofia contemporânea repensa o papel e locus que a disciplina deve ter em nossos dias, no que respeita às relações com a teologia e às ciências, respectivamente.
Na releitura de A ética a Nicómaco, ainda, essa agradável recompensa que é a um Sábado nos reencontramos e falarmos da amizade como um dos indiscutíveis leit-motiv da existência. Precisamos de conversar mais vezes sobres isto. Num mundo saturado das discussões ininterruptas sobre realidades tão numéricas, é bom regressar à calma de uma reapreciação e contemplação das grandes virtudes portadoras de eudaimonia. Em 2016, festejamos os 2400 anos de Aristóteles.

As escarpas do transcendente



A divergência, neste livro de Frederico Lourenço, para com (alguma) exegese católica de hoje, será, essencialmente, esta: os livros bíblicos não foram escritos, na sua origem, para serem lidos metaforicamente…mas lê-los literalmente não permite bons resultados – “uma das grandes questões a confrontar os leitores pós-modernos da Bíblia que querem alisar os tremendos problemas que a leitura literal levanta é que nenhum autor de nenhum dos livros da Bíblia o escreveu com a intenção de NÃO ser levado à letra. Quando Lucas nos dá o seu relato (que ele não sabia ser historicamente inverosímil) do nascimento de Jesus, não o fez para nós lermos nele acima de tudo o seu encanto poético: fê-lo para ser tomado à letra como verdade que lhe foi transmitida com origem em testemunhos oculares, como se lê logo no início do seu evangelho. Este facto é tão incómodo tanto para crentes como para não-crentes, mas não vale a pena fintá-lo: nenhum livro da Bíblia foi escrito para ser relativizado e lido cum grano salis; foi escrito, isso sim, para ser lido à letra” (p.16). Portanto, as leituras alegóricas seriam construções posteriores, dadas as impossibilidades a que conduziria a literalidade. Mas, logo nas páginas iniciais em que o autor avança esta posição, como leitor perguntava-me como é possível supormos que os (diferentes/divergentes) autores do Génesis, por exemplo, pensassem estar a transmitir como as coisas se passaram realmente, pelo menos à nossa maneira “cientificista” de entender como as coisas se passaram realmente (embora, se uma hermenêutica sustenta que à época em que o Génesis é escrito as mentalidades não estavam contaminadas pelo positivismo e pela confusão entre História/facto e verdade, poderiam, efectivamente, pensar estar a transmitir (literalmente...?) uma verdade...que não a história factual...Deus criou o mundo em sete dias, etc. Mas confesso que aqui a aplicação do advérbio de modo “literalmente” me parece de difícil operatividade – ainda que fique registado o (possível) vício de raciocínio, o anacronismo, de uma leitura “cientificista” de um dos livros da Biblioteca que a Bíblia é).
Um dos textos mais interessantes/desafiantes desta obra de Frederico Lourenço, a meu ver, e no actual contexto histórico, prende-se com a (também/ainda) hodierna questão da circuncisão: pode um pai impô-la a um filho (sobretudo, ainda que não exclusivamente, no contexto cultural do judaísmo, mas em sociedades demo-liberais)? O caso foi, em 2011, levado aos Tribunais alemães, “tendo ocasionado legislação oriunda de um tribunal de Colónia que (…) procurava defender a integridade física dos bebés do sexo masculino nascidos de pais judeus” (p.53). Todavia, a “tentativa de proibir a circuncisão foi de tal forma contestada pela comunidade judaica que o legislador alemão teve de recuar, sob pena de incorrer na acusação de anti-semitismo”. Ora, parece-me que este tem tudo para se tornar num novo caso-escola, porventura substituindo, com vantagem – e aqui utilizo o termo vantagem para significar que perante a demonstração de que com a prática da circuncisão não há, para futuro, diminuição do prazer sexual (experimentado por quem se submeteu, ou foi submetido, a tal prática), p.ex., ou que a anestesia evitará dor e, em assim sendo, possivelmente a resposta poder-se-á afigurar menos clara, ao intérprete, do que a que imediatamente o impele a manifestar-se no caso da mutilação genital feminina -, a sempre apontada mutilação genital feminina, para colocar nas aulas de filosofia (do 10º ano) sobre os limites do relativismo cultural e ético, a relação multiculturalidade-multiculturalismo, os limites deste último. Evidenciando as dificuldades de um critério supra-culturas (dificuldade, reitere-se, ilustrada pelas decisões jurídica e política divergentes entre si, no mencionado caso alemão, de 2011)
As questões de tradução são, igualmente, um dos pontos fundamentais a repensar com o livro em apreço. É muito importante, diz-nos o autor, pensar-se num Deus humanado que nasceu numa manjedoura, abandonado aos animais, mais tarde cuspido e mal-tratado pelos seus semelhantes. Mesmo que um distinto núcleo da narrativa (bíblica) se ofereça sem plausibilidade histórica, no que concerne à configuração do nascimento de Jesus (apontamento, neste caso, sem surpresa), essa ideia deve permanecer bem presente na comunidade, advoga o ensaísta.
Mas esta lógica, aplicada a tudo na Bíblia – esta vista como contendo umas boas lições espirituais, de moral, acerca da condição humana, mas sem nenhuma outra dimensão que não a de pura poesia - torna este livro sagrado um manancial de ensinamentos (quase) com o mesmo estatuto com o qual, por exemplo, Luc Ferry pega nos mitos gregos, extrai lições/princípios/valores, e assim ensina os filhos - talvez, contudo, o modo como o cristianismo vem sendo, quando é, reapropriado a Ocidente e em especial na Europa; isto é, se a Ocidente se vivem tempos pós-seculares - fora as adesões ao Islamismo, nele presentes – eventualmente seja/esteja a ser desta forma (o cristianismo não já como realidade face à qual se seja indiferente/ignorante, mas fonte a explorar como poesia, digamos assim; ou como, melhor ou menos boa, antropologia, como história de mitos, ou história da nossa tradição/cultura; ou história de uma das tradições que impregnou a nossa cultura). Mas para um crente (em Deus), como dizia Pedro Mexia na Capela do Rato, há duas semanas, ou há uma dimensão transcendente, ou, então, a Igreja é, de facto, uma ONG. Bem intencionada, por certo, mas uma ONG.


Diga "prestações sociais não contributivas"



O mais curioso da primeira grande entrevista do novo Primeiro-Ministro português (ontem, ao Público) foi constatar como António Costa precisou de mais de dois meses e meio para, finalmente, esclarecer o ponto do programa do PS quanto a cortes nas prestações sociais não contributivas. O contundente embaraço face à pergunta de Graça Franco, na já longínqua e improvável manhã de 17 de Setembro, durou uns intermináveis quinze dias de campanha eleitoral - terá custado uns quantos votos, permaneceu matéria de especulação para iniciados e mistério por mais de 70 dias no país - em que Costa esteve debaixo de fogo em matéria de Segurança Social, permitindo que escrutinado fosse, exclusivamente, o seu programa. Agora sabemos que, inexplicavelmente, a acreditar no que diz o PM, a pergunta da directora da Rádio Renascença tinha resposta bem simples: com a previsão do programa do PS, em matéria de crescimento na Economia, há prestações sociais, como o subsídio de desemprego, que deixam de ser pagas (a tantas pessoas), de aí diminuindo a despesa com tais prestações. Costa afirmou ao Público que "a direita vendeu" ao país a ideia de que ele pretendia cortes em prestações sociais. Creio, contudo, que melhor e mais rigorosamente teria dito que lhe faltou capacidade para "conseguir vender" a ideia de que com o programa do PS o crescimento da economia seria tal que permitiria, até, diminuir a despesa social.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O que dizemos quando dizemos ideologia?


Aprendendo com José Pedro Teixeira Fernandes:

Apesar da mais conhecida gaffe apontada a Francis Fukuyama ser a que glosa a ideia de "fim da história", com ela (vai também e) se esquece que no início dos anos 90, do século XX, o apelo ideológico do islamismo foi visto como coisa menor, incapacidade sedutora/atractiva, de tal força, fora dos muros dos países culturalmente delimitados pelo Islão. Nesta previsão, aliás, Fukuyama não estava sozinho. Olivier Roy ou Gilles Kepel são outros ilustres que o acompanham no vaticínio. E, no entanto, desde há décadas que ideólogos do islamismo neste vêm o único sistema capaz de lutar contra a ideologia materialista, representada tanto pelo capitalismo como pelo comunismo. Pode haver nuances entre estes dois sistemas políticos, mas, vistos sob certas lentes, trata-se da mesma realidade: uma ideologia materialista que importa combater. Com efeito, habituados a ponderar em termos de postura face à economia - e a supormos capitalismo e comunismo como "os" sistemas (e) que se digladiaram como radicalmente opostos -, às relações que esta, a economia, tece, ao posicionamento/intervenção do Estado, negligenciámos o elemento cultural. O islamismo poderia ser, assim, (mais) uma ilustração da não pertinência do conceito de "fim da história", na medida em que, o (o islamismo) ele mesmo, se mostra capaz de se oferecer como ideologia alternativa - uma ideologia total, que recobre todos os âmbitos, portanto ainda capaz de rivalizar no plano económico - à(s) ideologia(s) existente(s). Se, em grande parte do Ocidente, sem ignorar a atracção que regimes musculados com boa performance económica podem exercer frente a regimes liberais, Estado regulador (e american way of life) que possam ter piores performances económicas, este sistema parece, com efeito, não ter um rival (económico); todavia o apelo cultural pode levar-nos a identificar no multiculturalismo uma ideologia (que, com maior ou menor sucesso, em alguns países vai fazendo o seu caminho) e, bem assim, no islamismo um foco de atractividade que mesmo que minoritário em nossas sociedades ocidentalizadas pode/está a ter efeitos muito impressivos.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Conversas na cidade: a Europa (II)



Ideias fortes, de António Lobo Xavier, no final da noite de sexta/início de madrugada deste Sábado, no Cais da Vila, em Vila Real, em debate sobre o futuro da Europa:

- a posição de Lobo Xavier sobre a Europa não é demasiado contrastada com a de Seixas da Costa - que a precedeu -, na medida em que a construção europeia se fez com os partidos democrata-cristãos e social-democratas ao leme. "Em 1945, os católicos que militavam na democracia-cristã eram progressistas". Neste sentido, Lobo Xavier tem dificuldade em entender como o líder do PS (social-democrata) atira ao líder do PP (que, no seu entender, seria o que resta da democracia-cristã, em Portugal) disseram as coisas que se conhecem nos últimos debates parlamentares: "vivemos em tempos complexos que não se resolvem com ideias simples" [no entanto, um dia antes, na Quadratura do Círculo, Lobo Xavier havia dito que nenhum problema notara no discurso de Paulo Portas; bem ao invés, este fora, além de espirituoso, o melhor da oposição durante a moção de rejeição];

- porém, "a democracia-cristã é hoje composta maioritariamente por ateus", ficando como marca de um tempo, mas perdendo, "nestes nossos tempos seculares" a marca "confessional" [diríamos, de valores] então presente (na fundação destes partidos);

- E o lugar, em Portugal do PSD, nesta construção? "Não quero dizer mal de outro partido". Mas. E há sempre um "mas": "Cavaco ganha as primeiras eleições legislativas com um discurso anti-europeu, muito próximo do de [daquele que viria a ser o de] Manuel Monteiro";

- "Se o Estado Social falhar, falham a social-democracia e a democracia-cristã";

- "Não é possível nenhuma reforma institucional na Europa nos próximos 5 a 10 anos";

- A primazia deve, pois, ser dada à recuperação da economia, em vez de se esperar por avanços ou arranjos institucionais que resolvam problemas. No entender de Lobo Xavier, a Europa não levou assim tanto tempo a reagir aos problemas: "Fez-se tudo [o que era possível fazer] o que não implicava [mexer nos] tratados":

- Portugal não aproveitou a presença no Euro para dar um salto de competitividade na sua Economia;

- Não poupámos, também, apesar da baixa nos juros de que beneficiámos com a adesão à moeda única. O que sucedeu foi que aproveitámos para melhorar um pouco as nossas vidas, "porque tínhamos uma vida muito pior que a dos outros. Não se trata aqui de fazer qualquer recriminação";

- Não foram os mercados, mas declarações da srª Merkel e do sr. Sarkozy que lançaram o problema do pagamento - do reembolso dos investidores - da dívida, quando disseram que não estavam dispostos a assacar com as dívidas de países como a Grécia; Em sentido inverso, foi o sr.Draghi quando garantiu comprar tantos títulos de dívida quanto necessários que remendou a situação. Isto é, foi o esticar dos tratados até ao limite, foi o poder da palavra, não um conserto institucional;

- A saída do Euro seria um sacrifício brutal para toda a gente, em Portugal, e significaria uma pauperização da vida dos portugueses e o desistir de um país que inovasse;

- "A arte que se pede aos políticos portugueses nos próximos 10 anos" é conseguir aumentar a competitividade do país no Euro sem sacrificar tanto as pessoas [como nestes quatro anos], de tal modo que não seja sedutor [ou a resolução desesperada] para uma maioria da população (eleitora) a futura saída da Zona Euro;

Na fase de perguntas (da plateia) e das respostas dos convidados de 4 de Dezembro do ciclo "Portugal: caminhos de futuro", Seixas da Costa afirmou que "o tempo do federalismo na Europa passou; a Europa confederal ainda é possível; a Europa federal já não é possível". Mais disse, sobre a Turquia, que em função da sua força demográfica, e em virtude dos critérios do Tratado de Lisboa (a relação entre votos e demografia) levaria a que a sua força política fosse determinante - p.ex., teríamos a destruição da PAC, pelo que a entrada turca na UE não deverá ocorrer. O embaixador lamentou que a Turquia não tivesse sido devidamente considerada pela Europa quando as forças laicas/seculares prevaleciam, sempre restando, afinal, a lei de Chirac, em França que obriga a que seja referendada uma eventual entrada da Turquia na UE. O que face aos últimos acontecimentos é uma clara improbabilidade;

E António Lobo Xavier terá surpreendido quando disse que se solidariedade, na Europa, significa transferências dos mais ricos para os mais pobres, então essa solidariedade é maior hoje do que era em 2008 ou 2007: "Há mais dinheiro hoje para Portugal do que antes da crise; Portugal financia-se hoje abaixo do que se financiava em 2007; em parte, tal deve-se ao BCE, mas também temos, por exemplo, países do Leste da Europa a financiarem-se a 5% para emprestarem, na sua quota, abaixo desse valor".
Nos EUA a redistribuição é feita a nível federal e o seu orçamento corresponde a 20% do PIB, enquanto na UE se situa no 1% do Produto. Tal significa, pois, olhar de outra forma para a dotação orçamental na Europa.