segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Debate legislativas espanholas



Primeiro debate entre três candidatos, líderes de três dos quatro partidos que seguem nos principais lugares para as legislativas segundo as sondagens, na história da democracia espanhola. Primeiro debate on line – via ElPais (com transmissão directa, também, via rádio, na Cadena Ser. Um dia depois de este jornal publicar sondagem com uma diferença de 0,2% entre o partido preferido pelos inquiridos (PP) face ao terceiro dos partidos preferidos (PSOE). A caminho das legislativas e em cima da hora, aqui ficam os nossos destaques. O debate terminou há segundos:

Albert Rivera com um discurso afirmativo, assertivo, focado, mais virado para a proposta concreta e com uma dimensão pragmática, apoiada em modelos nórdicos que têm provado no plano económico-social. Frase mais curta e incisiva. Quer Pedro Sanchez – que durante muito tempo se centrou mais no que iria anular de legislação anterior do que no que iria fazer – quer Pablo Iglesias – com propostas desenvolvidas, claramente mais ousadas à esquerda – coloram-no, com frequência, à direita. Sanchez a procurar um perfil mais de PM, não podendo ter um estilo mais de desafiador que os seus interlocutores desta noite interpretaram.

Pedro Sanchez (PSOE): “Devemos salvar a nossa casa comum” (“casa comum”, expressão de Laudato Si, do Papa Francisco, sobre a Terra)
“Hoje, neste debate, Rajoy [que declinou estar presente no debate desta noite] está como esteve nestes quatro anos: ausente”
“A cadeia de solidariedade, ao nível das pensões, é o que forma a social-democracia, que em Espanha é representada pelo PSOE. Essa cadeia é o que a direita quer quebrar e a crise foi uma desculpa”
“Um de cada quatro contratos de trabalho no nosso país [Espanha] tem a duração de uma semana”
“Há três milhões de espanhóis que estão desempregados e que não têm nenhum apoio [público]”;“Nós nunca derrogamos a contratação colectiva como fez este governo; Baixaram muito os salários, nestes 4 anos; o PP precarizou as relações de trabalho”
“Não prometo baixas de impostos como fazem o PP e o Ciudadanos, porque isso significaria não arrecadar 10 mil milhões para o Estado, dado que temos compromissos europeus. Nem amnistias fiscais, nem paraísos fiscais”
“Lei de igualdade salarial entre homens e mulheres”; “Aprovaremos quotas para mulheres em conselhos de administração”
“A minha pátria é a igualdade”; “1% da população espanhola tem receita que equivale a 70% do que possuem os mais pobres”
“Não defendemos o co-pago farmacêutico”
“Universalizar a educação dos 0-18 anos. Vamos triplicar o gasto em educação em 4 anos”
“Estás a confundir a ‘nova política’ com a difamação” [Pedro Sanchez para Pablo Iglesias, depois deste se referir a nomeações, de militantes do PSOE, para Conselhos de Administração de empresas públicas]
“Recuperar os direitos perdidos na IVG”
“Queremos um ingresso mínimo vital”
“A autodeterminação da Catalunha não é solução”
“Não digo que sejas de extrema-direita; só de direita” [Pedro Sanchez dirigindo-se a Albert Rivera]
“Só temos dez juízes por cem mil habitantes, muito menos do que em França e Itália”


Pablo Iglesias (PODEMOS): “Infelizmente, o nosso país continua a vender armas à Arábia Saudita”
“Lutar a sério contra a fraude fiscal que custa, a cada cidadão, 2000 euros ano em impostos”
“Fiscalidade progressiva; baixar o IVA; os bancos devem pagar impostos de solidariedade e de transacções financeiras”
“Apostar por energias limpas e renováveis”
“Programa de regresso dos cérebros que fugiram do país nestes anos”
“Algumas das propostas do Ciudadanos são como as do PP. Mas o PSOE é muito diferente em campanha do que quando está no Governo. O contrato de trabalho único é nivelar toda a gente por baixo”
“Plano nacional de transição energética criaria 300 mil empregos”
“Plano de emprego para mulheres de 45 anos e que estejam em risco de ficar fora do mercado de trabalho”
“Não lei sobre violência de género, mas lei de violência machista é o que faremos”
“Antes dizia-se que o direito à saúde, educação, vivenda era populismo. Seja bem-vindo o Ciudadanos à blindagem constitucional dos direitos sociais”
“Não é possível aceitar que haja dez milhões de espanhóis em situação de pobreza”
“Um por cento de cada obra pública para assegurar a acessibilidade de todos”
“Não vejo mal que haja incentivos [financeiros] para professores. Os alunos devem avaliar os professores”
“Os meninos que têm necessidades educativas especiais devem estar nos mesmos colégios dos restantes”; “O que sai caro em Espanha é a corrupção: segundo os estudos, 48 mil milhões”
“Famílias inteiras não podem despender 250 euros em cada início de aulas. Não vamos a oferecer livros a cada um, mas cada colégio deve tê-los e proporcionar a quem necessite”
“Uma parte das pensões deve ser paga com recurso a impostos”; “Propomos um rendimento mínimo de 600 euros”; “Proponho que a idade da reforma seja reduzida para os 65 anos, para mais jovens ingressarem na Segurança Social”
“Estamos de acordo que os catalães decidam se querem continuar em Espanha; acreditamos na fraternidade; acreditamos numa solução de tipo da Escócia; temos um país plurinacional”


Albert Rivera (CIUDADANOS): “Não referendarei uma ida à guerra contra o terrorismo. Não irei alijar a as minhas responsabilidades e as do Senado”.
“Não podemos ter mais despesa do que receita”
“Complemento salarial para as classes mais desfavorecidas” (imposto negativa à maneira de António Costa)
“Contrato único estável, à maneira da Dinamarca, que tem 6% de desemprego. Há que pensar no que fazem Dinamarca, Suécia, Holanda” (a maneira do que defendia Mário Centeno enquanto teórico das relações laborais)
“Maternidade e Paternidade serão iguais na legislação, com o Ciudadanos. Serão 26 semanas como nos países nórdicos”
“Blindar a Constituição quanto aos direitos sociais”
“Defendemos Pacto Nacional pela Educação: educação trilíngue nas autonomias. Toda a gente deve saber falar inglês como o filho do rei”; “o Inglês não se sabe hoje, como não se sabia no tempo do PSOE; o Professor é o mais importante de um país; devemos ser exigentes com eles e respeitá-los muito simultaneamente”
“Acho que ser feliz é compatível com ser produtivo. É necessário dar tempo aos trabalhadores para estarem com a família”
“O PP acha que a Educação é um gasto. Mas para mim é um investimento e os melhores países do mundo, em termos de justiça social e crescimento, fazem grande aposta na educação”
“O segundo problema dos espanhóis, a seguir ao desemprego, é a corrupção. Defendo os mesmos direitos e deveres para os políticos face aos cidadãos e não terem foros especiais, com passagem imediata a uma instância superior”
“Devemos poder escolher partidos, mas também pessoas, como se faz na Alemanha. Devemos obrigar os partidos a fazer primárias e a respeitar essas primárias”

domingo, 29 de novembro de 2015

Conferências de Mateus: globalização (II)



São duas as formas através das quais obtemos ideias, segundo garantiu Rui Tavares, na segunda das intervenções do dia inicial - com conferência no edifício de Geociências, da UTAD, no final da tarde da última sexta-feira, em Vila Real - do Seminário, sobre a Globalização, organizado pelo Instituto Internacional Casa de Mateus: a) por fermentação - juntar tudo aquilo a que temos acesso, jornais, cinema, alta cultura, baixa cultura, etc.; b) por destilação - procurar uma linha de força, uma ideia-mestra que nos possa guiar no meio de tal aglutinação.

No entender do historiador, vivemos, claramente, numa fase de fermentação sem uma ideia/desígnio aceites como mobilizadoras. A Europa como regulando a globalização, transformando-a positivamente podia ser esse móbil (que falta). Avisando os presentes que o seu pensamento, em torno da democratização da globalização - no fundo, o ponto em que Vale de Almeida deixara a discussão - ainda era embrionário e que as ideias a avançar a seguir estavam a ser "testadas" em auditórios como aquele vilarealense, questionou: a globalização pode ser democrática?

E, conquanto a desistência, o mero protesto pareceu, em Portugal, nos tempos mais recentes, ter perdido espaço, a resposta, à interrogação colocada, é sim. Só se reforma pela positiva; de nada valerá uma rejeição sem mais - da globalização ou de outro fenómeno/empreendimento político.

Como encorajamento, registou:

a) DIGNIDADE (hoje tida por Universal - diríamos, a Ocidente -, enquanto há alguns séculos só determinados grupos sociais eram tidos como susceptíveis de ter dignidade(s); rei, bispo, p.ex.);

b) SOBERANIA  (só o soberano tem soberania; hoje, a soberania é popular, reside no povo);

c) DIREITOS (durante séculos não existiu a noção do "direito a ter direitos" que hoje podemos identificar).

O líder do partido LIVRE vê uma democracia global, cosmopolita, que abarque o mundo inteiro, como uma utopia. Mas o seu pensamento procura conjugar utopia com possibilidade prática. Claro que a hipótese democrática não é, em todo o caso, um determinismo. Já tivemos momentos de desglobalização: por exemplo, desde logo com a emergência da I Guerra Mundial e consequente desintegração de um concerto europeu e de uma ordem liberal que transitava do século XIX. Fim da globalização liberal do séc.XIX, pois.

De resto, nota o ex-eurodeputado, não é fácil sair da globalização, como não o é abandonar o euro ou Shengen - cada um destes projectos não se desorganizam de modo simétrico ao da sua construção. "Mesmo coisas que são frustrantes, há que salvá-las [de um desaparecimento que causaria danos excessivos] do modo menos traumático possível".

O projecto europeu foi, desde os seus primórdios, ancorado em uma alma dupla:

(Método)    Integração económica (passo para a integração política)   ------»  Jean Monnet 

                   Cidadania Europeia (de imediato)  -------------»  Altiero Spinelli

De uma banda, tecnocracia; de uma outra, democracia. Dois tipos de legitimidade em causa: output legitimacy - uma legitimação pelos resultados, pelo crescimento, etc.; input legitimacy: pessoas votam em representantes/eleitos.

Neste instante, um olhar "visionário" sobre a UE é urgente, diz o autor de O pequeno livro do grande terramoto. Tal passa por instâncias representativas dos cidadãos na Comissão Europeia e no Conselho Europeu, maior acesso ao Tribunal de Justiça da União Europeia. É que, em nossos dias, temos um clube de democracias europeias que não significa/representa uma democracia europeia.

Como se procederia a uma democratização à escala global?

i) Mesmo não indo tão longe como Jurgen Habermas propõe quando reclama um Parlamento Global, criar uma Assembleia Parlamentar da ONU com representantes das Assembleias de todo o mundo;

ii) Criar um Tribunal Internacional dos Direitos Humanos, susceptível de vincular os Estados, visando dar concretude à Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), perdendo esta, desta feição, o carácter essencialmente proclamatório de que se reveste.

Para Rui Tavares, citando Kant, "o progresso não é para se adivinhar, mas para fazer".


P.S.: naquelas petit storie que compõem estas alocuções, o embaixador João Vale Almeida, na única incursão na política interna, contou que disse a Rui Tavares, durante a viagem para Vila Real, que "ter razão antes de tempo é não ter razão" e que aquilo que muitos julgavam impossível de concretizar foi pelo líder do Livre antecipado. "Apesar das diferenças ideológicas, estou de acordo com muito do que disse Rui Tavares", pontuou Miguel Poiares Maduro, dizendo tratar-se de "um amigo, de quem gosto": "toda a gente gosta dele, mas depois ninguém vota nele". Risos na sala, transformados minutos depois num sorriso com um encolher de ombros, pelo visado, quando alguém lhe disse "eu também gosto do Rui Tavares...".

Conferências de Mateus: globalização



Miguel Poiares Maduro, na última das intervenções, no Auditório Geociências da UTAD, na jornada inaugural do Seminário Mateus Doc X, organizado pelo Instituto Internacional Casa de Mateus, dedicado, este ano, ao tema da Globalização afirmou não ser contraditório alguém ser favorável, como ele é, no plano interno - isto é, em Portugal - à diminuição da taxa de IRC e, simultaneamente, no plano europeu, pretender, como pretende, que haja uma taxa uniforme de IRC. Isto, porque, para o país ser competitivo, enquanto a taxa uniforme não existe, a fiscalidade tem que ser atractiva ao investimento, mas, simultaneamente, reconheceu o ex-ministro, é um facto que os agentes que têm pago impostos no último decénio e meio, aqueles sobre quem recai a carga tributária não são os que têm conseguido maior mobilidade que lhes permite furtar-se a uma taxação mais consentânea com um esforço equitativamente distribuído. Ora, a situação que se vive, de facto, não tem uma justificação ética e é preciso, do ponto de vista político, intentar modos de alterar o problema - e aí entra uma taxa de IRC comum aos países da UE.

É, sem dúvida, interessante observar o discurso de alguém que despindo, em boa medida, a capa política e vestindo a toga académica, deixa de lado uma dimensão puramente ideológica - a enunciação de um dos lados que a questão pode ter, nomeadamente a resposta na frente interna enquanto a uniformidade fiscal não se impõe a nível europeu - e constata a anormalidade e a falta de razoabilidade de serem os mesmos a pagar os Estados Sociais existentes, aliás mais minguados pela ausência de receita condizente e justa. E de interpretar a questão da fiscalidade não como uma espécie de dado da natureza face ao qual nada há a fazer, mas de o conceber enquanto questão claramente (de vontade) política.

De resto, como observou o embaixador João Vale de Almeida, o PIB mundial, nos últimos 15 anos, duplicou. Criou-se, pois, muita riqueza, ainda que os próximos anos venham a conhecer um crescimento medíocre. Vale de Almeida, de entre "trezentas definições possíveis" para "globalização", escolhe "conjunto de factores e processos que reduziram distâncias, aumentaram a interdependência e aumentaram, também, a noção dessa mesma interdependência". Do ponto de vista histórico, a globalização lança raízes na diáspora do Homo Sapiens, e, muito especialmente para nós, adquire corpo com os Descobrimentos (portugueses). Mas é muito mais recente, data dos últimos 30 anos, o grande salto qualitativo da globalização (desde meados dos anos 80 até se consolidar nos anos 90). Nesse período, o conferencista adapta Churchill, "nunca tanta coisa mudou em tão pouco tempo que afectasse tanta gente". De um ponto de vista político, a globalização fica marcada pelo fim da URSS e pela abertura da China. Passamos, por conseguinte, de um mundo bipolar - URSS vs EUA - ou Unipolar (quando cai o muro de Berlim) para um Apolar ou Multipolar (sem uma liderança clara ["não há evidentes focos de poder"], ou com lideranças múltiplas). Em termos tecnológicos, a capacidade de transportar gentes e mercadorias, a mobilidade de pessoas, capitais e bens tornou-se nota dominante. Na Economia, deu-se uma enorme liberalização do comércio - nunca se liberalizou tanto em tão pouco tempo. Assistiu-se à emergência de uma classe média global, com aumento da esperança média de vida e redução da pobreza. Chama-se Hiperglobalização ao processo que consiste em um maior crescimento do comércio face ao (de que) o Produto. Em âmbito cultural, um imaginário comum se impôs a mais gente - vemos os mesmos filmes, lemos os mesmos livros em várias partes do mundo -, as relações sociais e a disponibilidade de informação sofreram um enorme incremento. Quanto aos valores, regista-se um declínio, ou mantém-se a supremacia do Ocidente? O ex-chefe de gabinete de Durão Barroso, na Comissão Europeia, responde que, em realidade, se a classe média da china quer viver como os suburbans dos EUA, estes, porém, não querem viver como a classe média chinesa. De qualquer jeito, é certo que assistimos, neste espaço de tempo, a uma transferência do centro de gravidade da economia mundial. O diplomata traçou, de seguida, de resto, um interessante quadro de como esta gravidade se moveu, em termos históricos:

Ano 0 (da era cristã): o centro de gravidade, ao nível da economia, estava na Índia e Paquistão
1950: o centro de gravidade estava a Norte da Islândia
2010: centro da Sibéria, a Leste de Moscovo
2025: prevê-se que o centro de gravidade da economia mundial esteja na China

Não houve o "fim da história", o poder (ele mesmo) declinou; transferiu-se do nacional para o regional e até para o local, os mercados e até para os indivíduos.

O centro de gravidade deslocou-se, ainda, dos partidos para as causas.

Para João Vale de Almeida, são 7 os desafios que se colocam à globalização, no século XXI:

1) o regresso da geopolítica - isto é, o regresso das zonas de influência, por banda de algumas potências, regressa. "A ideologia está a voltar";

2) fim da hiperglobalização - estamos agora a assistir ao princípio, a nível económico, à "nova mediocridade";

3) crise da democracia liberal/representativa - com modelos alternativos, musculados, mas com bons resultados económicos, à democracia;

4) terrorismo e intolerância

5) desigualdade - a associação entre globalização e desigualdade é perigosa.

6) energia/Clima: sustentabilidade

7) crise de governação - como gerir uma economia global sem (ou deficiente) governança global?

(cont.)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Noites na cidade




Ainda muito embalado pelas variações em torno da noite, de A.M. Pires Cabral, em A noite em que a noite ardeu, fui escutar, neste serão, na Biblioteca Municipal de Vila Real, a República de San Cirilo, descrita pelo mesmo autor como a "loucura" de uma "hagiocracia", uma comunidade comandada por um Santo. Uma sátira política, no rescaldo do Estado Novo, título saído em 1983, vencedor, então, do Prémio Círculo de Leitores, livro "completamente atípico" na economia das cinquenta obras do autor (segundo o próprio), que afirmou não mais pretender enveredar por esse caminho (na escrita), dado que outras são, agora, suas inquietações, romance fora de circulação e, por isso, hoje recuperado por Rui Santos, que cumpre saudar, novel editor, em A ronda da noite, capaz de ousar um critério e uma selecção que não se guie pela última novidade. Um abraço ao Rui.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Republicanismo



A minha crónica, nesta segunda-feira, na universidadefm (aqui em versão completa)


Republicanismo

Evocado, inúmeras vezes, nos últimos dias, em particular pelos principais responsáveis políticos franceses, o Republicanismo, a República, não designa, apenas, um regime político que se opõe à Monarquia, mas uma corrente filosófica antiga – recentemente renovada com novos contributos - que pretende a) descrever um determinado modo de os cidadãos se relacionarem entre si; b) que busca a igualdade; c) que remete para a necessidade de participação dos cidadãos nos assuntos públicos para não sofrerem a dominação de outros, ou de um Governo. Neste contexto, podemos, identificar duas tradições republicanas diversas entre si: por um lado, o chamado republicanismo cívico (de raíz aristotélica) que, na interpretação do modo como os cidadãos deviam relacionar-se entre si, sublinha a importância, determinante, de valores e finalidades culturais e éticas partilhadas, homogeneidade social, pela comunidade para que esta possa deliberar. O republicanismo cívico emerge, historicamente, ligado à crítica dos costumes comerciais que, pretensamente, centrarão os cidadãos nos seus próprios interesses e desviá-los-ão do interesse público. Por outro lado, o republicanismo político (que remontará a Cícero, ou Maquiavel) não pretende que haja uma definição substancial de bem que una, previamente, toda a comunidade e tende a ver, antes, os valores republicanos não como um fim em si mesmo, mas como proteção contra a interferência dos demais (a liberdade definida pela negativa: como não dominação). Nesta segunda tradição, cada um procurará, pois, seguir a sua noção de bem (ou a noção de bem em que se insere) sem ter que aderir previamente a uma dada doutrina a este respeito. Quer em uma, quer em outra das correntes republicanas, sublinhe-se, valoriza-se muito a participação política dos cidadãos, mas o modo como o espaço público é formado e formatado é, pois, bem diferente. O paternalismo e o carácter algo abstracto do ideal de não dominação são as críticas apontadas às duas tradições.
As críticas comunitaristas ao liberalismo político – entendido, aqui, como modelo de regras atinentes à organização do fórum público, sem nenhuma definição substancial de bem – têm dado um contributo muito importante no sentido de se revalorizar o debate moral, o debate acerca das finalidades em uma sociedade: sem que este debate em torno do sentido, do desígnio que pretendemos prosseguir (em conjunto), seja revigorado, assinalam, a política fica desertificada, a ininteligibilidade do que se discute, por parte dos cidadãos é completa, a sua desmotivação e desinteresse marcados, a polis fica, totalmente, nas mãos do especialista, do tecnocrata. No plano da pura neutralidade de princípios ou valores a que aderir, a política pode tornar-se coutada da técnica, dos interesses - ou de ambos. Esta crítica teve o mérito de permitir introduzir, em algumas teorias liberais, a ideia de que a motivação última de cada pessoa, para a sua adesão a determinados princípios de justiça, fosse explicada aos seus concidadãos, mesmo que ela remetesse, em última instância, para uma doutrina forte e ainda que sujeita a uma tradução (semântica) em termos estritamente seculares. A renovação do republicanismo, de resto, parece passar por aqui: sem uma definição substancial de bem prévia – muito difícil de conjugar em tempo de sociedades muito plurais e complexas; sendo que da pluralidade, segundo Amartya Sen, resulta tanto tensão como criatividade (que não florescerá, tão vivamente, em ambientes mais homogéneos), mas com espaço para que as motivações mais fundas de cada cidadão, de cada pessoa, as tradições que enformaram as razões de cada um, não sejam negadas, mas acolhidas/respeitadas.
Porque, neste preciso tempo, se joga, uma vez mais, um debate perene: a alienação de cidadãos, em um dado país, a Ocidente, decorrerá mais de um vazio, um mal-estar, uma ausência de proposta ou de uma pauta, que a negação da explicitação e debate das motivações últimas, que podem juntar razão e emoção provoca, podem conferir ao nosso agir (também público), de aí desaguando em extremismos, ou dever-se-á, tal radicalização, à invocação e à existência de doutrinas fortes no espaço público (que deve ser completamente asséptico)?
Um defensor do liberalismo político, Jurgen Habermas questiona-se no último livro por si publicado (Mundo da vida, política e religião): “ao nível dos recursos culturais, a modernidade assentou na orientação para a verdade que possui a ciência, no universalismo igualitário do direito e da moral, assim como na autonomia da arte e da crítica. A minha pergunta, na actualidade, é a seguinte: é suficiente o potencial desta grandiosa e, tal como espero, inalienável cultura ilustrada, para gerar, nas condições das sociedades complexas, os argumentos necessários em situações de crise para uma acção solidária socialmente?”.
Se, com o muito glosado Só sei que nada sei, Sócrates deu conta da dificuldade de aceder à verdade absoluta, do mesmo passo que (se auto) exigiu uma medida mais alta de verdade, e se os que chamam a atenção para o facto de a razão ser enformada culturalmente o fazem com pertinência - não se constituindo, pois, a razão como neutra (universal) -, então seria, provavelmente, de esperar que essa medida mais elevada da verdade resultasse de trocas entre razões diferentes. Ainda que com elementos absolutamente inegociáveis em cada uma delas – não tenhamos, a esse propósito, nenhuma ingenuidade. Contudo, tal comércio só poderá ocorrer assim que todas as razões aceitem passar pelo crivo da crítica. E, manifestamente, ainda há um longo caminho a percorrer para que esse crivo e a aceitação da crítica tenha acolhimento universal.

Boa semana.



P.S.: Texto que teve em especial conta os ensaios/capítulos O comunitarismo, de Carlos Amaral, Adenda sobre Michael Walzer, de Rui Areal e Republicanismo, de Roberto Merrill e Vincent Bourdeau, do Manual de Filosofia política, João Cardoso Rosas (coord.), Almedina, 2ª edição revista e aumentada, 2015.

sábado, 21 de novembro de 2015

Longe das identidades monolíticas



No ocaso da trama - de Longe dos homens, de David Oelhoffen -, Mohamed (Reda Kateb) é colocado perante a inevitabilidade da escolha. Nas palavras de Daru (Viggo Mortensen) e nas imagens que nos remetem para um caminho rochoso, sabemos que o homem acusado de homicídio não pode furtar-se à decisão: ou se entrega, na sua aldeia, à polícia; ou segue o deserto até os nómadas o acolherem sem perguntarem motivos. Naquela cena, naquele instante a mais manifesta explicitação de uma abordagem existencialista da vida que um filme inspirado em O hóspede, de Albert Camus, traria com naturalidade: estamos condenados a sermos livres
Longe dos homens significa, aqui, porventura, a recusa de todas as identidades absolutas e únicas em que por vezes estes, os homens, se enclausuram, como se fosse preciso, seja sempre preciso, ir além da ideologia, do nacionalismo, do fanatismo para olharmos o outro concreto que tornamos - podemos tornar - amigo. O ex-combatente, oficial, francês, mas agora professor primário numa escola argelina, desabafa, a certa altura, que o pretendem francês na Argélia e que o vêm argelino em França. Para lá dos contextos históricos e biográficos de O hóspede, a intriga como que nos pede um renovado esforço para sermos homens e mulheres de fronteira, capazes de escutar mais do que uma narrativa (irredutível), colocando a pessoa antes de qualquer constructo.

[mais gente do que habitualmente, para assistir a um filme, no Teatro de Vila Real, na passada 3ª feira]

terça-feira, 17 de novembro de 2015

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Grandes perguntas


Maria Herrera Lima realiza, com razão, a constatação empírica de que os cidadãos religiosos não se comportam de maneira diferente daquela parte da população que é não religiosa. No entanto, a questão que me interessa não se encontra no nível das acções e dos argumentos do indivíduo. Ao nível dos recursos culturais, expressa-se a auto-compreensão normativa da modernidade sobretudo na orientação para a verdade que possui a ciência, no universalismo igualitário do direito e da moral, assim como na autonomia da arte e da crítica. A minha pergunta, na actualidade, é a seguinte: é suficiente o potencial desta grandiosa e, tal como espero, inalienável cultura ilustrada, para gerar, nas condições das sociedades complexas, os argumentos necessários em situações de crise para uma acção solidária socialmente?

Jurgen Habermas, Mundo de la vida, política y religión, Trotta, 2015, p.117.

[tradução nossa]

Iluminismos


Iluminismos e não Iluminismo. A distinção é feita, pela primeira vez, em 1968, por Betty Behrens, no Historical Journal, e indica as diferenças que houve de movimentos Iluministas nas diferentes realidades nacionais. Não se trata de nuances - maxime, como se acomodou o Iluminismo, à francesa, em Portugal -, mas de diferenças substantivas: Gertrude Himmelfarb mostra, em Os caminhos para a modernidade, que se a razão foi endeusada em França, ela não obteve o mesmo estatuto na Grã-Bretanha ou nos EUA. No Reino Unido, no lugar da razão, a virtude. Enquanto virtude social - compaixão, benevolência, simpatia. Nos EUA, onde grandes intelectuais se erigem a governantes, a liberdade política. Em nenhum destes últimos dois casos, a razão é a autoridade última - séculos depois, assistimos a uma grande crítica da razão, de vários tipos de razão (instrumental, totalitária, etc.) - e nunca a religião é tida como inimiga, ou sinónimo de superstição, crendice, atraso a ultrapassar. Ela pode, é, aliás, ser entendida como aliada na formação dos sentimentos morais (Adam Smith é Professor de Filosofia Moral). Enquanto crítica, superação da religião, o Iluminismo francês surge, de resto, como uma espécie de "Reforma atrasada". A história dos países ajuda a interpretar a divergência de caminhos seguida pelos Iluminismos britânico, francês, americano: "assim como a Grã-Bretanha tinha passado antes por uma Reforma religiosa, assim também passou por uma "Revolução Gloriosa" que encerrava a promessa de ser um arranjo político permanente. A França, não tendo tido uma Reforma religiosa nem uma revolução política, estava, em certo sentido, madura para ambas. E a América, tendo recebido ambas como legado da Grã-Bretanha, procurava a independência que reivindicava como parte desse legado" (p.29).
Todavia, sem determinismos históricos, percebe-se, também, que as formas que caracterizaram cada um dos Iluminismos dependeu das ideias, expressas por múltiplos pensadores, filósofos, escritores de cada um dos contextos (por vezes, visitando-se e influenciando-se mutuamente; com autores franceses, como Montesquieu, mais perto da visão anglicana do Iluminismo, ou Paine talvez mais perto dos ideais iluministas franceses). Se Himmelfarb nos garante a precedência cronológica - e até de algumas das ideias importantes que mobilizaram todos os contextos em questão - do Iluminismo britânico (mais do que escocês, britânico), como explica que tendamos a olhar para o Iluminismo como realidade primacialmente francesa? Por um lado, tal resultará dos philosophes franceses se auto-compreenderem como corpo unitário, destinados a rumar - com as suas nuances - num mesmo caminho (sentimento, pois, de corpo), enquanto que os britânicos não se entendiam em movimento, em um corpo unitário (a protagonizar um movimento); por outro, porque apesar da controvérsia entre historiadores, tudo apontar - a maioria dos historiadores concorda - que, efectivamente, o movimento da Enciclopédia ter tido um papel muito relevante para a emergência da Revolução Francesa. É muito interessante verificar o nome de Enciclopédia - sem mais - dado pelos franceses aos vários volumes de conhecimento reunidos, conhecimento a que qualquer pessoa, pelo uso da razão, em qualquer parte do mundo, poderia aceder (a ideia de uma razão universal e não permeada culturalmente), enquanto a Enciclopédia, nas ilhas, era Britannica. Seja como for, esta última viria a beneficiar de muitas mais traduções, em todo o mundo, reedições que O Federalista também conheceria, em debates que ainda hoje nos interpelam.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Machado de Assis evocado na Biblioteca Municipal de Vila Real



Atendendo ao carácter mítico de que está revestida a figura de Jorge Luís Borges, talvez o momento mais emocionalmente tocante da exposição do embaixador (brasileiro) Lauro Moreira, na Biblioteca Municipal de Vila Real, na noite de terça-feira, em conferência sobre a vida e a obra de Machado de Assis, tenha sido a descrição da visita que o diplomata, então destacado em Buenos Aires, fez a casa de Borges, onde conversou, durante uma tarde inteira, com o genial escritor e sua mulher. A recordação dessa peregrinação adveio do espanto, do "escândalo" mesmo, sentido, nesse dia de final da década de 60, pelo embaixador, ao constatar que "a biblioteca ambulante" que tinha como interlocutor desconhecia, afinal, ainda, por aquela altura, Machado de Assis (e, de resto, ignorava, também, Guimarães Rosa, um escritor que nasce no ano em que Assis morre; de escritores em língua portuguesa, Borges conhecia Camões e pouco mais).
Esta pequena história permitia, outrossim, mitigar o sentimento de perda, de ausência, de pobreza de que Lauro Moreira se nutrira quando, em Lisboa, assomou a uma Bertrand, em 2006, e descobriu não existir um único exemplar da obra de Machado de Assis, nas estantes daquele estabelecimento comercial - "Machado quê?!", ter-lhe-à perguntado o funcionário da livraria (entretanto, um cliente vetusto, especialmente conhecedor do local, conseguiu localizar um livro, umzinho, do escritor brasileiro). Moreira, em entrevista a uma gazeta portuguesa, dá conta da estranheza por aquele facto. Como é possível em Portugal não conhecerem um dos maiores escritores de língua portuguesa, de todos os tempos? Inês Pedrosa, responde-lhe, à época, dizendo que no Brasil também não encontra Eça. Que não, garante o diplomata, Eça está por toda a parte nos brasis. E é isso mesmo: "Assis é o nosso Eça". A embaixada do Brasil organizará, assim, naquele então, um conjunto de encontros dedicado ao grande literato e, posteriormente, com a Gulbenkian, realizar-se-à um Forúm, de três dias, no qual marcaram presença alguns dos mais reputados especialistas na obra de Machado de Assis.
Machado de Assis, filho de um neto de escravos, tem uma mãe açoriana. Os progenitores desaparecem quando Assis tem 9 (mãe) e 12 anos (pai), respectivamente. O século XIX que conhecerá no Rio de Janeiro em que vem ao mundo é povoado por escravos, arquitectura caótica, saúde pública precária, 300 mil pessoas. Nasce numa quinta e aprende francês com uma senhora de uma padaria. É "adoptado", de algum modo, por pessoas com dinheiro bastante. Em casa, entram alguns periódicos. Desde cedo, publica em jornais. Poesia, crónica, crítica literária. Cedo é, ainda, na adolescência (pelos parâmetros de hoje).
Os géneros em que se espraiará serão, pois, múltiplos, sendo que atingirá maior, sublime, dimensão enquanto ficcionista - seja na pele de romancista, seja na de contista. O único grande romancista da América Latina no século XIX, dirá Carlos Fuentes, no documentário que seguimos antes mesmo da palestra do embaixador Lauro Moreira principiar.
Para o Prof.Abel Baptista estamos, mesmo, perante o autor que melhor português escreveu, desde sempre - pelo menos em romance. Harold Bloom selecciona-o entre os grandes génios da literatura universal. Em 1960, na New Yorker, Susan Sontag leva-o, com especial empenho, ao povo norte-americano. John Updike é um fã incondicional.
Machado de Assis critica O primo Basílio, de Eça, que, nos livros seguintes, terá em atenção aquele apontamento - nota o diplomata. Do mesmo modo, como suscita, da plateia, Hercília Agarez (que faz questão de dizer que em 1968 já existiam edições portuguesas da obra de Machado de Assis), a estética de Assis é, ainda, tributária de Almeida Garrett - a quem agradece, em uma das obras. Em todo o caso, As memórias póstumas de Brás Cubas "não têm a ver com nada", garante o conferencista, homem cultivado e cosmopolita, que esteve, já, colocado nos EUA ou, ainda, na CPLP, apaixonado pela obra de Assis, com cadência muito sistematizada na exposição em Vila Real.
Na vasta publicação de Machado de Assis é possível desmentir a crítica que alguns lhe fizeram de pouca atenção à situação social do seu tempo, dada a denúncia, clara, que faz da escravatura.
A diferença para Eça, assinala o embaixador, é a tónica ser o substantivo em vez do adjectivo (queirosiano). E um dos aspectos da modernidade da obra, de alguém marcado pessoalmente mas não literariamente por José de Alencar, passa pela ausência de carácter moralizante ("Assis não julga"). A realidade é interessante, o realismo é que não, dirá o espirituoso autor de Dom Casmurro, lado, esse, lúdico também, que permite ao leitor abeirar-se do livro, construção literária, mundo à parte, permanentemente mundo à parte, ostensivamente mostrado ao leitor à maneira de Cervantes. Mundo à parte que vale por si, que tem consistência em si mesmo.

Uma intervenção interessante de Lauro Moreira que merece publicação.

Cerca de 30 pessoas assistiram ao documentário, na Biblioteca Municipal de Vila Real, na noite de dia 10 de Novembro, entre as quais alguns familiares do embaixador Lauro Moreira. Minguadíssimo público sub-50 (anos). Início da sessão às 21h30.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Um Portugal/um português raro e admirável


Para mim, Paulo Cunha e Silva simbolizava e constituía um Portugal criativo, aberto, vibrante, culto, cosmopolita, inspirador capaz de fazer em dois anos o que outros não fizeram, nem fazem em décadas. O Porto agora repleto de vida passava por ele, muito por ele. A cidade seduzia. Um grande autarca, uma grande figura nacional. Já aqui tinha dado nota de como me impressionara a sua actuação na polis, procurando dotá-la de outra argamassa, ele que nos deixa o Forum da Felicidade como última construção sua.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Marcelo e a questão de Deus



Marcelo Rebelo de Sousa, na última quarta-feira, na Capela do Rato. Áudio integral: aqui.

Retratos da escola (IV)


Na reunião, constata-se que o Rui tem problemas de subnutrição. Mas eu vejo-o a tomar o pequeno almoço, diz a Luísa. Mas a Márcia atalha, numa voz sussurrada: Toma o pequeno almoço, mas não almoça. O Jorge: O Rui emagreceu muito...Na escola o retrato social é imune a propagandas: 25% dos pais de uma das turmas estão desempregados; a Filipa tem problemas nos resultados escolares e ninguém ignora que nestes 4 anos os pais emigraram, voltaram a casa, e estão a pensar de novo emigrar; os pais da Lúcia têm rendimento mensal que oscila entre os trezentos e tal euros de pensão de invalidez do pai e uns biscates, quando calha, da mãe. Depois, o grau de escolarização: turmas inteiras em que os alunos têm progenitores que não chegaram, num único caso, ao 12º ano, muito menos ao Superior. Pergunto numa aula, os alunos já não são crianças: "acham legítima a situação X?". O que é "legítima", professor? Sim, tudo se reflecte na sala, do vocabulário às competências não cognitivas. Os factores preditivos de uma nota, de uma avaliação, com raras excepções, confirmam-se plenamente. A prática confirma o que aprendera na teoria. Paraísos? Nem os que se anunciam agora, nem os que se contaram do que ficou para trás.

P.S.: nomes obviamente outros, ficcionados, face aos das pessoas cuja situação se retrata.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Puro non sense


Se quem organizou a vinda de José Sócrates a Vila Real, no último fim-de-semana, soubesse como isso contribui(u) para aumentar a indignação e o sarcasmo de muitos dos seus concidadãos, o afastamento das pessoas da política, talvez ponderasse não levar a iniciativa adiante. Uma coisa é a solidariedade pessoal, as questões de amizade (do foro privado). Perfeitamente legítimas. Outra, um novo género de acção pública, a conferência-comício, com recepções entusiásticas, como se as centenas de pessoas que estiveram no Pequeno Auditório acreditassem que estamos perante um "preso político" - algo em que, segundo Ana Gomes, "só Sócrates acredita" -, ou como se nos deparássemos com alguém regressado de um exílio, de um país longínquo face a um regime (país) onde não houvesse Estado de Direito. As lealdades partidárias, porém, a meu ver, não deviam ir tão longe. O que hoje é dado assente sobre a Operação Marquês, os factos indisputados, aquilo sobre o qual nem Sócrates se opõe é de uma gravidade que, independentemente do desfecho penal do caso, devia levar a um mínimo de prudência e recato: o ex-PM confirmou ter recebido, através de dinheiro in cash, depois de combinações cifradas, centenas de milhares de euros, durante meses - ou anos - a fio. De um amigo que é empresário. Dinheiro que qualificou como "empréstimos". Mas colocando-se, objectivamente, na dependência de uma outra pessoa (com um determinado currículo e filiação profissional que, aliás, o colocou como contendendo, mesmo que indirectamente, com concursos públicos, em anos recentes aos das ditas transferências de dinheiro). Segundo os advogados de Sócrates, este procedimento deveu-se à pouca confiança do ex-PM em "instituições financeiras". Ainda que Sócrates, meses antes, tivesse ido à televisão dizer que havia contraído um empréstimo numa instituição bancária para financiar os estudos e o ano de estadia fora de Portugal. Para muitos portugueses, o grau de verosimilhança desta versão da história é muito escasso. Mas não são os portugueses, naturalmente, a decidir - e para que um crime dê lugar a qualquer punição é preciso proceder à prova e, antes disso, a uma acusação. Direito, pois, por muita convicção que haja face aos dados públicos, à presunção de inocência. Outro juízo, diverso, é se do ponto de visto da tal "ética republicana" é admissível a referida dependência (pessoal). Alegar, aliás, realizações no Interior (de Portugal), no actual contexto, remete, infelizmente, para o triste adágio do prevaricou, mas fez. Não presta um grande serviço ao ex-PM, nesta circunstância, quem assim diz. Nem, repita-se, as assembleias populares - as que amam e as que odeiam Sócrates - substituem a justiça. Se centenas de pessoas estiveram em Vila Real a aclamar José Sócrates, muitas outras se sentiram, nesta cidade, tratadas como parvas. E manifestaram-se incrédulas com tal evento.

Emprego na era Obama


Durante a era Obama, foram criados 9 milhões de empregos nos EUA (250 mil, só em Outubro último).

Da segurança do avião




Segundo a The Economist, a probabilidade de alguém se ver envolvido num desastre aéreo é apenas de 1 em 5,4 milhões.

Uma maravilha



Bergkamp nos pés - e sobretudo na cabeça - de Neymar. Uma espécie de plágio criativo.

domingo, 8 de novembro de 2015

O tempo condensado



Estava a ver Viagem a Tóquio, de Yasujiro Ozu, e a pensar como dava um bom complemento ao Pais e Filhos, de Turgunev. Agora, o centro da narrativa, é certo, não é, já, a altiva arrogância da juventude, mas em torno da figura de dois acolhedores anciãos se joga, sem grandes notas dramáticas (mesmo que, por vezes, a crueldade se imponha sem forçar), a  perenidade das relações em família, na sua ambiguidade e complexidade - os filhos que acolhem os pais...mas com certo incómodo, os descendentes que, embora assistindo ao funeral da mãe, regressam de imediato aos seus afazeres, a recepção aos pais com doces e chás, mas logo o envio para um spa mais ou menos distante, o rapaz que confessa não ter sido bom filho, a pergunta que os avós fazem a si mesmo quanto ao amor preferencial pelos netos (ou pelos seus rebentos), a sábia, tranquila velhice, interrompida pela reflexão sobre os filhos que nunca chegam aos altares que lhe haviam sido encomendados, a corrupção que se segue a uma idade do ouro tão ficcional quanto inelutável (o nosso tempo é que foi). Eis a perenidade da vida - que nem a transição dos costumes, no Japão do pós-guerra, ou o binómio cidade-campo, atenua na sua aparente universalidade. Pelo meio, como destacava, na RTP2 a actriz Rita Durão, essa cena belíssima, esse plano encantado da avó, em "monólogo interior", vendo o neto crescer e brincar, perguntando-lhe retoricamente se seguirá a profissão do pai, e constatando que já não estará quando essa hora chegar, um modo realmente magistralmente condensado de assinalar o ciclo da vida.

O médico como humanista (II)


Nem de propósito, a recensão desta semana, de Pedro Mexia, no Expresso, é ao livro do Professor João Lobo Antunes. Reforçando o que aqui já havíamos escrito:



Pedro MEXIA, A condição humana, Expresso. A Revista do Expresso, n. 2245, 07. 11. 2015, 66.


Esteta fleumático, João Lobo Antunes entende a neurocirurgia como a escuta de um “vibrato emocional”


Para circunscrever o âmbito muito vasto das suas inquietações, João Lobo Antunes cita Renée Fox, socióloga e especialista em bioética: “Saúde, doença e cuidados médicos estão integralmente ligados a alguns dos aspectos mais básicos e transcendentes da condição humana. A concepção do ser humano, o nascimento, a sobrevivência e o crescimento; as capacidades físicas, emocionais e intelectuais (...); sexualidade; envelhecimento (...). A prática da medicina, bem como a experiência da doença convocam os problemas críticos do significado – questões fundamentais sobre os ‘porquês’ da dor, sofrimento, angústia; os limites da vida humana; a morte;  e as suas relações com o mal, o pecado e a injustiça”. Ou seja: nada do que é humano é estranho à medicina, à medicina vista como uma “epistemologia moral”, tão próxima do discurso da ciência como dos ensaios de Montaigne.
Esta sétima colectânea de Lobo Antunes reúne artigos, conferências, intervenções em colóquios, evocações de amigos desaparecidos, textos claros, cultos, elegantes. Certos ensaios são muito específicos ou especializados,  mas outros dirigem-se a todos os públicos. Numa época em que a medicina vive “empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia”, Lobo Antunes defende a figura do médico humanista, genuinamente atento à humanidade mas também solidamente formado nas Humanidades. Um médico que sabe e que se preocupa. Que escuta, compreende, consola, e às vezes salva.
Lobo Antunes não se furta a comentar as tentações demiúrgicas do médico, em especial do cirurgião, a vaidade, o quase-cabotinismo, a equívoca faceta de artista-cientista; mas estes ensaios são sobre os médicos e sobre os doentes, sobre a “humanidade ferida” de ambos. Uma vida humana é um “caos irreprimível, quântico, de ideias, emoções, vontades e memórias, sempre agitadas, sempre imprevisíveis”, e a doença, quando surge, “actua como um magneto implacável que agrega toda esta limalha numa massa sólida, imóvel, tenaz”. A doença é uma condição, a manifestação da inevitável vulnerabilidade, um teatro de medos e esperanças, um discurso de ficções e de metáforas.
É por isso que Lobo Antunes valoriza tanto a “medicina narrativa”: não como conjunto de case studies mas enquanto catarse, memorial, testemunho. E as narrativas individuais,  de cidadãos anónimos, não se distinguem, na sua autenticidade, dos grandes textos sobre a doença, aqui convocados: “A Morte de Ivan Ilitch” de Tolstoi, Tchekhov em Sacalina, o poema “Do not go gentle into that good night”, a peste alegórica em Camus, as confissões de Anatole Broyard e as imprecações de Susan Sontag, a viuvez de Joan Didion, o “Ravelstein” de Bellow e a “Némesis” de Roth. Ou os livros-sobre-a-doença aos quais Lobo Antunes está ligado de modo mais pessoal: o “De Profundis, Valsa Lenta” de Cardoso Pires, escrito por seu estímulo, e o “Sôbolos Rios que Vão”, do irmão António. Esteta fleumático, mas sensível à compaixão e à comoção, João Lobo Antunes entende a neurocirurgia, e toda a medicina, como a escuta de um “vibrato emocional”. Uma escuta que depende do conhecimento técnico e da capacidade de empatia, mas que se aperfeiçoa através dos livros que descreveram a doença como símbolo da nossa comum fragilidade.

João Lobo Antunes, OUVIR COM OUTROS OLHOS

sábado, 7 de novembro de 2015

Noutros países, foi há vinte e tal anos. Ou trinta.


Há uma semana, Paulo Rangel, em entrevista à RTP, sugeriu como nomes para liderar um eventual futuro governo de iniciativa presidencial, Luís Amado ou Guilherme d'Oliveira Martins. Pois bem, Luís Amado foi entrevistado, durante a semana, no mesmo canal. E o que disse? Além de considerar completamente descabido o governo de iniciativa presidencial (com o seu nome), referiu que nunca, na história do PSD, tinha subido à sua liderança uma geração de pessoas tão radicais de direita como aquela que comandou os destinos do partido (e do país) nos últimos quatro anos. E que esse radicalismo esteve na moda, noutros países, há 20 e tal anos. Portanto, o moderado, o árbitro de Paulo Rangel, quanto ao governo de iniciativa presidencial e ao PSD, pensa isto. Quanto ao PS, também julga que a ida para a esquerda leva à erosão do centro, algo negativo para o país. E que a pessoalização, na política portuguesa, desde há meia-dúzia de anos, é excessiva, dificultando os acordos políticos-institucionais, que se deviam impor às idiossincrasias pessoais.

Ainda, e sempre, a defesa das Humanidades


Sou um grande defensor de os cursos das ciências duras terem a obrigatoriedade de frequência de duas cadeiras das ciências humanas. A Universidade de Aveiro já faz isso. Está testado. Harvard e o MIT têm isto (...) Porque o conhecimento das ciências humanas é fundamental. Têm sido tratadas como fait-divers. E não são. São elementos estruturantes. Nos EUA, é comum encontrar um cirurgião que é simultaneamente um grande músico. Em Londres consultei um médico que é um superespecialista em lúpus, tem mais de 70 anos, e lidera uma banda de música, a que chamou «Lupus Band». (...) Eduardo Lourenço disse uma coisa que nunca esquecerei: sabemos pouco sobre o Estado Novo porque ainda há poucos romances passados nesse período. É muito interessante em relação ao modo como se devem estudar as coisas.

Eduardo Marçal Grilo, em entrevista concedida a Isabel Nery, Visão nº1183, 05-11 a 11-11-2015

P.S. Num exemplo extraordinário de curiosidade intelectual, Marçal Grilo, aos 73 anos, regressou à universidade para fazer uma cadeira de História dos Fascismos, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Aluno de Fernando Rosas, "um comunicador magnífico". O ex-ministro da educação, considera que os exames do 4º ano de escolaridade, em Portugal, estão "a mais": "o risco do excesso é transformar os professores em treinadores para os exames. É redutor. É pobre. Há mais educação para além dos exames". Estes exames são, ademais, fonte de competitividade: "mas o maior competidor de cada um deve ser ele próprio (...) A cultura da exigência não se esgota nos exames, começa em casa. Mas também é preciso tempo para brincar". Quanto ao momentum político português: "nesta eventual coligação à esquerda existem muitos ingredientes para que não corra bem. Mas, se correr bem será um facto histórico e mudará radicalmente a vida política portuguesa. Radicalmente".

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O médico como humanista



João Lobo Antunes não é, apenas, um dos mais consistentes seguidores da máxima de Abel Salazar, segundo a qual quem só sabe de medicina, nem de medicina sabe. O facto de ser um proficiente cultor dessa verdade permite-lhe testemunhar em favor dela e arremeter contra uma medicina, mais, um sistema de ensino, que dela se terá afastado. No ensaio O consolo das Humanidades, publicado no livro que acaba de sair do neurocirurgião (Ouvir com outros olhos, Gradiva, 2015), concretiza, com especial acuidade, o que pretende estabelecer quando considera que a ignorância da literatura, da filosofia, da história, da religião, por parte de quem tem a medicina por ofício, faz desse profissional menos excelente. A questão, não se julgue, não se pretende com qualquer adorno, uma erudição que combinaria bem com uma profissão prestigiada. Bem mais do que isso: na mais prosaica interpretação do que o doente conta acerca de si mesmo e sua doença, na frase que lhe sai aparentemente tão cristalina, escondem-se interstícios, zonas obscuras, sentidos outros que o desconhecimento de outras vozes - que se expressam na poesia, na filosofia, no grande romance, nas grandes tradições religiosas - não permite entrever/encontrar/descobrir. O grande médico é, assim, também, o grande leitor, para ser o grande ouvinte: "É que a narrativa da doença - e é importante no meu ofício saber ouvi-la -, só é bem entendida quando já se escutaram outras vozes, na ficção, na filosofia ou na poesia, que ajudam a apreender o seu sentido mais profundo, oculto tantas vezes nos interstícios de um discurso que tanto pretende revelar, como ocultar. De facto, o encontro singular da clínica é feito de palavras mas, não raramente, também da eloquência de um silêncio igualmente revelador" (p.43). 
Daqui ao j'accuse, um pequeno passo: "a verdade é que não encontro nos médicos das novas gerações o mesmo vibrato emocional que me animou toda a vida, talvez porque desconhecem os dialectos do sofrimento, ou porque receiam mergulhar num mundo de emoções que só vagamente vislumbram ou, mesmo, penetrar no íntimo de uma solidão tão unicamente humana. Isto apesar da intervenção de uma pedagogia solicita, chamada a ensinar alíneas da comunicação entre médico e doente, formais, correctas, irrepreensíveis, mas que desdenham a compaixão"(p.43).
Mas ensina-se, a compaixão? João Lobo Antunes abeira-se do próximo, munido dessa linguagem que nos religa, para responder: "Sempre duvidei que a compaixão fosse um sentimento ensinável, embora admitisse tal ser possível em relação a certos valores morais, usando, como método, o exemplo. Podemos apenas apontar o que no outro - e aqui o conceito de próximo adquire uma admirável ressonância cristã - nos parece digno de merecer compaixão" (p.44).
O Professor excelentíssimo, que por tanto se ter destacado no campo das ciências duras ganha especial autoridade quando não aceita o cientismo divinizado, ou a idolatria de uma tecnologia sem a densidade de rosto humano, prossegue na denúncia do esquecimento do complexo de textos que dão textura à experiência - médica também -, permanecendo, ainda, nos novos tempos admiráveis: "falando ainda das novas gerações dos meus companheiros de ofício, creio que, em certa medida, esta falta de curiosidade pela história do outro e a platitude da sua resposta emocional se devem, em parte, à incapacidade de descobrir e ser desafiado pelo mistério das narrativas que quase não chegam a ouvir, confinados ao mundo de um conhecimento científico cujas limitações ignoram, e cegos pelas maravilhas da tecnologia que lhes confere autoridade e poder. Alguns, os mais perigosos, nunca irão perceber que no cérebro desta Medicina Contemporânea se juntam, em inesperadas sinapses, incerteza, risco e erro. Ora, como alguém notou só as Humanidades reconhecem a incerteza como a emoção humana dominante" (p.44).
Que aprendeste tu, afinal, com esses livros todos, com essas tertúlias entre literatos e filósofos, para que te serviram? João Lobo Antunes adivinha a pergunta e ilustra-a, percebe-se com que prazer, profusamente: "A maior conquista foi ter-me apurado o ouvido para captar outras vozes, compreender o significado oculto das palavras, e ter a competência para falar com qualquer pessoa num diálogo que nos eleva àquela altitude comum que permite o olhar horizontal, olhos nos olhos. Mas muito mais aprendi em obras de ficção. Em Moby Dick, por exemplo, encontrei o eco dos meus receios numa sala de operações, mas também o impulso de perseguir o inimigo até ao limite das minhas forças, e da necessidade de aquele impulso ser moderado pela mais negligenciada das virtudes, o bom senso. Não conheço elogio mais belo ao carácter pastoral do meu ofício, oficio agitado pelo heroísmo e pela cobardia, pelo orgulho e pela humildade, do que La Peste de Camus. Não existe talvez nenhum tratado de bioética que penetre o cerne do sofrimento físico e espiritual da doença mais profundamente que A morte de Ivan Ilitch de Tólstoi, a que repetidamente aludi. E muito mais poderia citar. Foi na filosofia, aprendida nos livros mas, sobretudo, tão socraticamente, no convívio com Fernando Gil, que descobri a importância de olhar para além das aparências e fazer perguntas cuja resposta, sabia de antemão, seriam outras perguntas. E, finalmente, muito me ensinaram os poetas, pois, como ensinou o genial Brodsky, a poesia é a forma mais concisa de transmitir a experiência humana" (p.45)
A doença, sobretudo a doença que ameaça a vida humana "é a incisão mais forte na essência que somos" (p.35). De aí que no cuidado, na sageza com que o médico com ela lida, há-de nutrir-se de grande preparação e, como se vê, o estetoscópio não é o principal instrumento para conhecer o outro. Na doença, conclui de muitos anos de experiência João Lobo Antunes, acedemos, olhando finalmente o sol de frente - e "olhar para estas coisas de frente exige a coragem de um domador de leões", nas palavras de Virgínia Woolf -,  provavelmente ao único momento lúcido de um exame do que foi a nossa vida. Nesse instante, em que se dá o "desdobramento da personagem que somos é um fenómeno fascinante: uma é fria, racional; a outra exuberante e emotiva; esta é movida pela esperança, aquela abatida pelo desalento; a primeira não ilude a verdade, a segunda faz-lhe ouvidos moucos" (p.39), regressam à cena actores esquecidos da nossa biografia, e a coragem é o que fica quando a esperança se foi. Talvez, nesses momentos, a solidão seja, de facto, iniludível e inultrapassável, mas até para a compreender é preciso alguém com antenas afinadas: "médico para ser perfeito devia sofrer todas as doenças, pois só assim podia formar o juízo exacto" (Francisco Sanches citado por J.Lobo Antunes). E ter a subtileza de intuir que isto é mais do que uma imagem.

Uma espécie de carta - desencantada talvez - aos médicos de novas gerações, enquanto advertência, ao sistema de ensino como proposta, às gerações que um dia querem praticar medicina para que sejam cumpridoras integrais da sua regra. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Arte na família

A aula



Compreender não é tudo, nem, talvez, o mais importante. A aula, sem emoção, é nada. Que importa que durmam? Importa que acordem, uma vez que seja, durante a aula: sinal de que esta foi capaz, algures, de acender alguma lanterna, de se sintonizar com os interesses, mais profundos, do aluno/ouvinte/interlocutor.

Textos que são texturas nossas



Frederico Lourenço, embora educado na religião católica, escreve, sobre as Escrituras, em O livro aberto: leituras da Bíblia (Cotovia, 2015), numa perspectiva não religiosa. O autor sente, em todo o caso, uma pronunciada simpatia pela tradição judaica. E é "hipersensível" ao apelo do Divino. Crê que Deus, em existindo, terá uma conformação diversa da manifestada no Antigo e Novo Testamentos. Mas faz questão, ainda, de registar: "não tenho nenhum problema em afirmar que, pessoalmente, considero Jesus de Nazaré a figura mais admirável de toda a história da Humanidade" (p.14). A sua revisitação da Bíblia poderá inspirar - di-lo não sem justificada ironia - muitos católicos a uma primeira leitura dos textos vetero e neo-testamentários.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A realidade da abstenção em Portugal



Achei um pouco exótico o comentário de António Barreto, na mais recente entrevista televisiva que deu, quando considerou que "arranjamos sempre desculpas para tudo" assim que confrontado com estudos que colocam em causa os valores oficiais da abstenção em Portugal. Exótico, porque estudos sérios, muito objectivos, a partir dos Censos 2011, de meridiana racionalidade e clareza, apresentam dados bastante convincentes. A tentação do moralismo, muitas vezes, em Portugal, sobrepõe-se, claramente, à realidade (maxime, "ah, não se pode chumbar os meninos"...quando até ao 10º ano cerca de 35% dos alunos já chumbaram, pelo menos, uma vez; quando, em Portugal, anualmente, chumbam 150 mil alunos). O texto que aqui fica já tem semanas, dado à estampa pelo Público, mas é muito esclarecedor acerca dos desvios muito substantivos que, com um grau de probabilidade muito elevado, se encontram nas estatísticas oficiais sobre a abstenção, no nosso país. Dito de outra forma: Portugal pode encontrar-se, de facto, nos antípodas do que se possa pensar, entre as democracias em que a erosão nas urnas é, até, das menos elevadas. O autor do estudo é engenheiro civil e chama-se Alberto Miranda Raposo.

Afinal (II)


"Espera-se que cheguem à Alemanha entre 800 mil e 1,5 milhões de refugiados este ano, levando ao limite a máquina administrativa alemã. Só para integrar as crianças na escola, por exemplo, serão necessários mais cerca de 25 mil professores, estimam associações citadas pelo Economist. Uma opção que traz mais benefícios do que custos. O Commerzbank calcula que o crescimento económico em 2016 dos estimados 1,7% para os 1,9% por causa do estímulo que a integração dos refugiados trará à economia. Ética ou realpolitik, pouco importa"

Mafalda Anjos, 10 pontos da semana, in Visão, nº1182, 29-10 a 4-11-2015, p.29

Era axial


A expressão - era axial - pertence a Karl Jaspers e foi por este aplicada ao ano 500 a.C., como eixo em torno do qual se acelera a rotação da história universal, porque nesse período de tempo, relativamente curto, entre 800 e 200 a.C., produzem-se um conjunto de revoluções de mentalidades que suscitam o surgimento das "doutrinas fortes" - as poderosas doutrinas religiosas que chegaram à actualidade - e as imagens metafísicas do mundo.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Social-democracia



Em Um tratado acerca dos nossos descontentamentos, Tony Judt falava na necessidade de uma nova narrativa moral nas nossas sociedades. 

No mesmo sentido, se pronunciava Michael Sandel, em O que o dinheiro não compra: estamos sedentos de um debate sobre o certo e o errado, os objectivos, finalidades, o sentido que queremos imprimir às nossas sociedades.

Agora, num texto inserto em Quando os factos mudam. Ensaios 1995-2010 (Edições 70, 2015), uma obra com selecção e introdução de Jennifer Homans (historiadora e viúva de Judt), sob o título O que está morto e o que está vivo na social-democracia? (texto resultante de uma conferência em Nova Iorque, em 2009, do historiador e Professor em Oxford), podemos procurar concretizar o entendimento de Tony Judt acerca dessa narrativa.

De um modo muito imediato, essa narrativa impõe colocarmo-nos/colocar-se uma pergunta como central no debate político: quanto custa a humilhação?

Colocada de modo paradoxal, porque parece subentender uma dimensão económica quando o autor rejeita o primado do económico na discussão na polis e a sua substituição pelo debate sobre o certo e o errado como caminho indispensável para, depois sim, buscarmos os meios de o traduzir (esse certo e o errado) sempre aproximados, nunca perfeitos - pois cada vez que se procurou a tradução cientificamente perfeita se caminhou para o desastre ("os melhoramentos imperfeitos em circunstâncias insatisfatórias são o melhor que podemos esperar e provavelmente não deveremos querer ir mais além", p.356) -, ela remete, uma vez mais, para a lógica dos direitos de cidadania, da prestação de serviços pelo Estado, de este poder representar uma argamassa de união interpessoal quando se vive um tempo e uma sociedade líquidos - em vez da lógica caritativa, o direito em lugar do favor - como fundamental em lógica social-democrata.

A pergunta quanto custa a humilhação?, surge, ainda, no contexto de outras demandas quanto a uma economia da felicidade em que instrumentos como o PIB são reequacionados como no célebre relatório, para o Governo francês, em que participaram Stiglitz e Sen (Judt elogia os esforços, mas diz que, ainda assim, em tal relatório nunca se saiu do económico; p.357, nota de rodapé 6).

Judt argumenta por uma social-democracia do medo, assumindo, pois, o carácter conservador do que foi conquistado, exibindo como, por múltiplas formas, está a tentar ser destruído (nomeadamente, em privatizações que colocarão, dos caminhos de ferro aos correios, populações remotas fora de jogo). "Uma social-democracia do medo é algo pelo qual vale a pena lutar. Desistir do trabalho de um século é trair aqueles que viveram antes de nós e as gerações vindouras", p.356).

Tal como Thomas Piketty, em O capital no século XXI, Judt não assume, nunca, neste texto, o desejo de novas conquistas ou desejos (refere, aliás, que a social-democracia foi vítima do seu próprio sucesso; algo que já argumentara em outros livros; o que também volta a dizer, embora por outras palavras, é que não pode viver-se num gozo apolítico de determinados bens, na medida em que a obtenção destes, enquanto bens sociais, teve uma história, uma luta política por trás; os sociais-democratas "deviam estar muito zangados"). Recorde-se, aliás, que Picketty sustenta que "novas conquistas" ou "direitos" (sociais) implicariam, nomeadamente, mais impostos e que na Europa Ocidental a tributação, com as suas diferenças e nuances, é considerável e as populações não estarão disponíveis para um aumento na fiscalidade. Nas palavras de Judt, "em vez de procurarmos restaurar a linguagem do progresso optimista, devíamos começar por reanalisar o passado recente (...) [recordando] ao público as conquistas do século XX e as consequências prováveis do nosso desmantelamento apressado das mesmas"(p.354). Em O século XX esquecido, na Introdução, já Judt deixava entender como o Estado Social se formara contra o desemprego, a desprotecção, o infortúnio na vida, criando uma rede que evitasse que se caísse na situação que gerou a guerra. Visto a contrario, a democracia liberal poderia perigar, com o desmantelamento dessa malha de protecção. No ensaio presente em Quando os factos mudam, volta a mostrar-se preocupado com tal situação.

É interessante, ainda, perceber de que mundividência, de que mundo da vida, de que vocabulário - e a tradição a que pertence - usado pela social-democracia, em termos históricos: 

"No passado, a social-democracia preocupou-se inquestionavelmente com o certo e o errado, sobretudo porque herdou um vocabulário ético pré-marxista imbuído de antipatia cristã aos extremos de riqueza e à idolatria ao materialismo" (p.354)

Muito próximo de Sandel, na sua obra mais recente - ou Sandel muito próximo de Judt, dado que o livro daquele é posterior à conferência deste -, Judt formula as questões que julga que temos, hoje, que colocar: "O que consideramos instintivamente errado nos nossos esquemas actuais e o que podemos fazer em relação a eles? O que consideramos injusto? O que ofende o nosso sentido de correcção quando somos confrontados com a prática irrestrita do lóbi pelos ricos a expensas dos demais? O que perdemos? As respostas a estas perguntas deviam assumir a forma de uma crítica moral às inadequações do mercado irrestrito ou do Estado tíbio. Temos de compreender porque é que ofendem o nosso sentido de justiça e equidade. Em suma, temos de regressar ao quadro dos fins".

O inicio do ensaio O que está morto e o que está vivo na social-democracia?, Tony Judt faz-nos recordar as excelentes páginas resultantes do seu diálogo com o (também) historiador Timothy Snyder, Pensar o século XX, consagradas à Europa central - muito em particular, ao mundo austríaco e seus influentíssimos pensadores no século XX -, para nos recordar a presente crise e seu modo de abordar como "ecos" do debate, com 70 anos, entre Hayek e Keynes.

O historiador social-democrata escreve que não se compreende o momento pelo qual passamos nestes anos e o debate intelectual que se seguiu se não recuarmos ao momento genesíaco da Viena com um governo socialista, com planeamento central, que seria derrubado com a ascensão dos nazis.

Hayek lerá - mal, segundo Judt em Pensar o século XX, e aqui, também, de modo indirecto - aquele sucesso histórico como o falhanço de um modelo de planeamento, "dirigido pelo Estado, os serviços públicos municipais e a actividade económica colectivizada" (p.342) que tinha permitido, pelo seu fracasso, que o totalitarismo assomasse à sua cidade e a toda a Áustria, levando-o ao exílio. A conclusão era clara: "a melhor maneira de defender o liberalismo [democracia], a melhor defesa de uma sociedade aberta e das suas liberdades, era manter o governo longe da vida económica. Se o Estado fosse mantido à distância, se os políticos - por muito bem intencionados que fossem - fossem impedidos de planear, manipular ou dirigir os assuntos dos seus concidadãos, os extremistas da esquerda e da direita não teriam hipóteses" (p.342). Eis a origem, no que ao século XX diz respeito, de uma resposta político nos termos do liberalismo económico.

Por sua vez, John Maynard Keynes colocou o acento na incerteza, na ausência de proteção como chaves hermenêuticas para a compreensão da grande crise que levou a Europa à Guerra: "a essência do seu contributo para a teoria económica foi a sua insistência na incerteza: em contraste com as receitas confiantes da economia clássica e da economia neoclássica, Keynes sublinhou a imprevisibilidade essencial dos assuntos humanos. Se havia uma lição a tirar da depressão, do fascismo e da guerra, era a seguinte: a incerteza - elevada ao nível da insegurança e do medo colectivo - era a força corrosiva que tinha ameaçado e poderia ameaçar de novo o mundo liberal [democrático]" (p.342). Eis a origem de uma resposta política nos termos da social-democracia.

Assim sendo, temos que Keynes "procurou um papel acrescido para o Estado da segurança social, incluindo mas não limitado à intervenção económica em contraciclo. Hayek propôs o contrário. No clássico O caminho para a servidão, publicado em 1944, ele escreveu:

Nenhuma descrição em termos gerais pode dar uma ideia adequada da semelhança entre uma grande parte da literatura política inglesa actual e as obras que destruíram a crença na civilização ocidental na Alemanha e criaram o estado de espírito no qual o nazismo pôde prosperar.

Por outras palavras, Hayek projectou explicitamente um desfecho fascista caso os trabalhistas chegassem ao poder em Inglaterra. E chegaram. Mas acontece que implementaram muitas políticas directamente identificadas com Keynes. Nas três décadas seguintes, a Grã-Bretanha (e grande parte do mundo ocidental) foi governada à luz das preocupações de Keynes" (p.343)

Para Judt, a social-democracia, a formação de um Estado social robusto depende de uma sociedade com certo grau de homogeneidade - "a disponibilidade para pagar serviços e benefícios para terceiros assenta no entendimento de que eles farão o mesmo por nós e pelos nossos filhos - porque são como nós e vêm o mundo como nós" (p.340). Eis uma explicação possível para que o socialismo (democrático) nunca tenha colhido nos EUA, eis dificuldades hodiernas com a questão da integração de migrantes - com outra mundividência - nas sociedades ocidentais, eis, ainda, perigos que a pouca confiança interpessoal na sociedade portuguesa pode acarretar.

Marcando sempre o ponto quanto à necessidade de o debate ir bem mais além da discussão económica, recorre, et pour cause, à Teoria dos Sentimentos Morais. É com Adam Smith que fechamos: a "predisposição para admirar e quase idolatrar os ricos e os poderosos e para desprezar ou, pelo menos, negligenciar as pessoas pobres e de baixa condição (...) é (...) a causa maior e mais universal da corrupção dos nossos sentimentos morais" (p.346). Sublinha Judt: "Pois assim estamos agora".