sábado, 31 de outubro de 2015

Noite



Gosto particularmente deste título do mais recente livro (de poesia) de A.M. Pires Cabral: A noite em que a noite ardeu. Ele reconduz-nos, abre-nos, de imediato para uma possível pluralidade de caminhos de um roteiro espiritual: a) o momento em que da escuridão, da peregrinação da ausência, da aridez - na qual pode haver, até, como sabemos dos grandes místicos, comprazimento, e a ausência como forma maior de presença, em paradoxo maior - se passa a uma visio beatifica;  b) a noite, como o que fica quando a noite desaparece - não, não o contorno da luz clara e límpida, de um dia resplandecente ou rosa, mas ainda a noite que não cessa; c) a noite consumida, "ardida", o tempo de lidar, de lutar com essa dureza de recusa do ídolo enfim esvaído, e o soçobrar/cair no nada.

Fazer experiências políticas



Assim como Passos aproximou o PSD de domínios ideológicos e políticos que o PSD nunca experimentara, o PS prepara-se para trilhar um caminho desconhecido, aparentemente sem ver outra alternativa. O centro implodiu. Se o PS se aliar ao PSD e ao CDS e reconstruir o “arco da governação”, será muito provavelmente engolido ideológica e eleitoralmente pelo PSD de um lado e o BE do outro. A defesa de uma política alternativa à de Passos durante os anos da troika conduziu o PS de Costa para a esquerda. Tendo como pano de fundo a indefinição do que é hoje a social-democracia e o socialismo democrático quer em termos ideológicos, quer programáticos, o líder do PS percebeu que o seu caminho teria de ser feito longe do PSD e em demarcação da direita. E mostrou-o logo quando se candidatou contra Seguro. Nos vários documentos programáticos que foi apresentando lá estava a estratégia de obter uma maioria absoluta para abrir o PS e trazer o PCP e o BE para a esfera da governação. Esta opção estratégica é explícita desde as primárias contra Seguro, apesar de o projecto de Costa conter contradições, como a que existe em ter uma estratégia de diálogo à esquerda e um programa que a nível de proposta económica era o mais à direita do PS. Nada garante que o caminho agora iniciado pelo PS levará a bom porto. São imensas e potencialmente explosivas as contradições entre o que é a social-democracia e o projecto federalista europeu original do PS e o que é a proposta de construção de uma sociedade socialista defendida pelo PCP ou o projecto radical – ainda que nalguns pontos próximos da social-democracia – que o BE preconiza. Mas uma coisa parece clara. É impossível o regresso ao passado do consenso europeu que caracterizou o regime político português durante quatro décadas. Cavaco percebeu isso, daí querer evitar a todo o custo que o PS prossiga o caminho do qual já não terá volta. Mesmo sendo impossível de prever o futuro do sistema político, é de admitir que o que sobreviver quer do PSD, quer do PS será diferente do que foi o consenso do “bloco central”. Ainda que os actuais líderes se mantenham à frente dos actuais partidos, nada será como dantes. E é de admitir que uma futura revisão constitucional venha a consagrar profundas mudanças no sistema político. Neste devir da política portuguesa há um momento que se torna essencial, o da eleição do próximo Presidente da República.

São José Almeida, Público, 31-10-2015.

Chelsea-Liverpool, 2015-2016




1. Klopp despede Mourinho. O Chelsea até começou da melhor maneira e, na primeira ocasião do jogo - a única, em toda a primeira parte, para os blues, e uma de duas em todo o jogo para os londrinos -, numa excelente jogada, Ramires marcou. Na equipa da casa, mau grado a temporada negativa vivida até ao momento, Willian atravessa um momento esplendoroso, cotando-se, claramente, como um dos grandes jogadores dos principais campeonatos europeus neste primeiro (quase) terço de época. Mas do lado do Liverpool, o brasileiro Coutinho que, há épocas sucessivas, é um dos principais protagonistas do que o game tem de beautiful, na Europa, marcou dois magníficos tentos e arrumou com as pretensões da equipa de Stamford Bridge.

2. Fabregas começou no banco; a realização televisiva do encontro nunca perdeu oportunidade de realçar o facto.

3. A segunda parte é tensa, nervosa mesmo. Lucas Leiva tem amarelo e Ramires força o segundo. O banco do Chelsea agita-se, esbraceja, espuma. Mark Clattenburg demora muito tempo a decidir-se, hesita, parece querer ganhar segundos para tomar uma opção, Leiva fica em campo. Na televisão inglesa, está Howard Webb a comentar em directo. Se em Portugal se criticou na década de 90, do século passado, a participação de Mário Graça e Vítor Correia nos comentários, nos estádios, ao vivo, dos lances de arbitragem, por suscitar demasiada atenção nos homens do apito - algo que não sucedia em países civilizados - passados estes anos todos temos a mesmíssima ecologia e modo de actuar em Inglaterra. Webb elogiou a decisão de Clattenburg.

4. Klopp lança Benteke a uns 25mn do fim, por troca com Milner. Com os forasteiros em igualdade no marcador num terreno difícil, a substituição, num primeiro lance, poderia parecer temerária. Tratava-se, afinal, da saída de um médio duro para a entrada de um ponta-de-lança. Se Klopp pensou num pivot para segurar a bola e propiciar a entrada de médios, até pelo bom jogo de cabeça, melhor o executaram os seus jogadores. No primeiro lançamento directo de um central para o seu ponta-de-lança, Sakho permitiu a Benteke a assistência para Coutinho embalar a vitória.

5.O lance mais bonito do desafio ocorreria quando, ainda empatado o encontro, na meia lua, a uns 45 metros da baliza contrária, Óscar descobre o guardião contrário demasiado longe da sua porteria. Exibi-lhe, então, um chapéu de alta costura que ninguém diria menos que perfeito. E, todavia, Mignolet, teve um golpe de rins de levantar um cinema.

6.Pese o resultado de empate durante algumas dezenas de minutos, o público de Stamford Bridge não deixou de cantar José Mourinho, José Mourinho e nas bancadas podiam ler-se tarjas como "One of us" ou "Mourinho, simply the best". Há, em Londres, um jogo muito importante para a Liga dos Campeões na próxima quarta-feira, mas é inegável que, apesar do apoio de pelo menos parte do público, a margem de manobra do treinador português é agora muito escassa.

7.Talvez Luís Filipe Vieira tenha em José Mourinho a sua possibilidade de um momento "golpe de rins Mignolet". Se, por esta altura da época - não mais do que isso, mas com suficiente ruído, nomeadamente interno -, Vieira é apontado como o presidente que tendo à sua disposição um treinador consagrado - para uns, mais consagrado, para outros menos, mas com títulos e futebol no currículo -, permitindo que um concorrente ficasse com Jorge Jesus à disposição, agora pode surgir a hipótese de uma não menos "impensável" contratação - caso Mourinho saia mesmo do Chelsea -, reassumindo Vieira a liderança política interna (e até externa). Claro que se dirá que Mourinho quer outras ligas, que Jorge Mendes negoceia com PSG, Mónaco ou Inter, que ganha muito dinheiro, etc.etc. Mas conhecendo-se a personalidade de Mourinho também se sabe que, neste instante da carreira, carece de afago, de colinho. 14 milhões de afectos. Impossible is nothing.

A crença hodierna em Deus

Avatares de la creencia en Dios
A la memoria de mi hermana Dolores (1942-2015)
En plena Ilustración europea se prohibían en España los libros que intentasen demostrar la existencia de Dios; se los consideraba peligrosos. Y es que Dios era tan evidente que no necesitaba demostración alguna. Se cuenta que durante el reinado de Felipe IV (1621-1665) se pensó, para remediar la pobreza de nuestras tierras, en canalizar los ríos Manzanares y Tajo; pero una ilustre comisión de teólogos se declaró en contra con la siguiente sutil argumentación: si Dios hubiese querido que ambos ríos fuesen navegables le habría bastado con pronunciar un sencillo “hágase”. Si no lo hizo, sus razones tendría. Y no está permitido enmendarle la plana.
Salta a la vista que por aquellas fechas Dios era algo inmediato, asequible, presente, familiar. Era un dato más de la realidad, o incluso el gran dato. Europa y, por supuesto, España convivían sin mayores traumas con la fe en Dios, una fe heredada de las buenas gentes del pasado.
También parece obvio que en la actualidad Dios no encuentra fácil acomodo, al menos en la geografía occidental. Hace más de un siglo que Nietzsche, con su habitual desparpajo, lo envió a engrosar la lista del paro; lo declaró viejo y cansado, incapaz de asumir las tareas que los nuevos tiempos demandan. Y un gran conocedor e intérprete de Nietzsche, M. Heidegger, no tuvo reparo en afirmar que “en el ámbito del pensamiento es mejor no hablar de Dios”. Se tiene la impresión de que la recomendación del filósofo de la Selva Negra goza de notable aceptación. En España, constataba con ironía Antonio Machado, “se puede hablar de la esencia del queso manchego, pero nunca de Dios…”.
Se ha hecho un gran silencio sobre Dios; su muerte ha sido repetidamente anunciada. Lo hizo, pero sin triunfalismo ni euforia, Nietzsche. De hecho percibió como pocos que, sin Dios, sonaba la hora del desierto, del vacío total, del nihilismo completo. Acudió a tres certeras metáforas para ilustrar las consecuencias de la muerte de Dios: se vacía el “mar”, es decir, ya no podremos saciar nuestra sed de infinitud y trascendencia; se borra el “horizonte” o, lo que es igual, nos quedamos sin referente último para vivir y actuar en la historia, se esfuman los valores; y, por último, el “sol” se separa de la tierra, es decir, el frío y la oscuridad lo invaden todo, el mundo deja de ser hogar. ¡Noble forma de despedir a un difunto! Nietzsche era consciente de que la muerte de Dios cambiaba el destino del mundo y de la historia y le quiso dedicar un gran elogio fúnebre. Repetidamente se ha evocado el carácter clarividente, casi profético, de la figura de este genial escritor y filósofo. ¿Intuiría que un siglo después de su muerte, en nuestros días, nos íbamos a quedar casi sin mar, sin horizonte, sin sol? Tal vez fue consciente de la notable dificultad que entraña convertir en categorías seculares vinculantes los pilares religiosos de antaño.
No parece posible, ni lo pretende este artículo, retornar a los lejanos tiempos en los que la presencia de Dios era tan obvia que se contaba con él a la hora de canalizar los ríos. Occidente ha seguido, más bien, el itinerario de Feuerbach: “Dios fue mi primer pensamiento, el segundo la razón, y el tercero y último el hombre”. En el ámbito filosófico, la teología de ayer se llama hoy antropología. Y tampoco asistimos en la actualidad a contundentes proclamaciones de ateísmo. El ardor negativo de otros tiempos ha dado paso al desinterés actual. Muchos ateos de ayer prefieren llamarse hoy increyentes.
Y es que tal vez todos, creyentes e increyentes, nos hemos dado cuenta, como Bonhoeffer, de que “el problema de Dios tiene su origen en Dios”, en su “invisibilidad”, en el carácter misterioso de su revelación. Bien lo sabía san Agustín: “Si lo comprendes, no es Dios”. De ahí que el aplomo afirmativo de otras épocas haya sido reemplazado por un incómodo balanceo entre el sí y el no. El maestro Eckhart era llamado “el hombre del sí y del no”. Se referían al carácter dialéctico de su pensamiento, también cuando hablaba de Dios. Solo abandonaba la dialéctica cuando se disponía a preparar una sopilla para los pobres; no había para él urgencia mayor.
Impresiona constatar cómo creyentes tan profundos y auténticos como José Gómez Caffarena se adherían a la “dramática ponderación entre el sí y el no a la fe cristiana”. En él vencía el sí, pero su fe supo de noches oscuras, de travesías del desierto. Y no es menor la impresión que causan algunas frases del papa Francisco: “Si una persona dice que ha encontrado a Dios con certeza total y ni le roza un margen de incertidumbre, algo no va bien”. O esta otra: “Si uno tiene respuesta a todas las preguntas es prueba de que Dios no está con él”. Y añade: “Un cristiano que lo tiene todo claro y seguro no va a encontrar nada”. Desde luego no estamos ante un lenguaje muy pontificio, pero sí hondamente humano, altamente teológico, y sensible a nuestro convulso siglo XXI.
No puede, pues, extrañar que dos grandes maestros de la teología cristiana, Karl Rahner y Karl Barth, se mostrasen abiertos a una teología más propensa a la pregunta que a la respuesta. Preguntado en una ocasión el primero si de veras se consideraba creyente cristiano, respondió con aire taciturno: “Sí, pero no a tiempo completo”. Obviamente no quería decir que, por ejemplo, era creyente en las horas centrales del día e increyente al atardecer. Sencillamente aludía al carácter débil, precario, de su fe; estaba traduciendo al lenguaje de nuestro tiempo el evangélico “creo, Señor, pero ven en ayuda de mi incredulidad”. Rahner, calificado por H. Fries como “el mayor testigo de la fe del siglo XX”, solo se consideraba, pues, creyente a intervalos. Es más: dejó escrito que lo de ser cristiano no es un “estado”, sino una meta, un ideal. Propiamente no es correcto decir “soy cristiano”, sino “aspiro a ser cristiano”. En parecidos términos se expresaba el otro gran maestro, en este caso de la teología protestante, Karl Barth, al rechazar la distinción entre creyentes e increyentes. Aducía que él conocía a un increyente llamado Karl Barth. En realidad, la tradición cristiana siempre supo que somos ambas cosas a la vez, creyentes e increyentes. Nuestro Unamuno lo expresó lapidariamente: “Fe que no duda es fe muerta”.
Por último: los avatares de la creencia en Dios son asunto de la “interioridad apasionada” (Kierkegaard) de cada creyente. Pero es posible que en ese secreto recinto personal se escuche la atormentada voz de Pascal con su inolvidable “incomprensible que exista Dios e incomprensible que no exista”. Es, de nuevo, la dialéctica entre el sí y el no, compañera asidua de la condición humana y de la creencia religiosa.
Manuel Fraijó es catedrático emérito de la Facultad de Filosofía de la UNED. ELPAIS, 31/10/2015

Conversas sobre Deus



Na Capela do Rato, até 16 de Dezembro, às quartas-feiras.


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Retratos da escola (III)


O professor de Matemática diz que o novo programa da sua disciplina, para o Secundário, foi abandonado por outros países há 20 anos, é muito extenso e obriga a um ritmo tal que não permite paragens para grandes solicitações dos alunos. Será abandonado em breve; é uma certeza absoluta. Os pais escutam com certo ar de espanto, mas é-lhes aconselhado juntar-se aos cientistas da área para que possam formar correntes de opinião, mobilizadas e mobilizadoras, que tenham em conta a dificuldade-extra que está colocado sobre os ombros dos (actuais) alunos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Mais vale um pecador que se arrependa (II)


Mas é curioso que os defensores da invasão do Iraque, incluindo em Portugal, pouco ou nada hajam reconhecido os erros que na altura aplaudiram.

Francisco Sarsfield Cabral, hoje, no site da RR, sobre a recente entrevista de Tony Blair à CNN.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Retratos da escola (II)



O livro de ponto, embora ainda em uso em alguns estabelecimentos de ensino, tende a tornar-se, na era do digital, um tesourinho das nossas memórias. O sumário regista-se, cada vez mais, num programa criado para o efeito, onde estão as fotos com os alunos de cada turma, existindo um espaço para, naturalmente, se assinalarem presenças e ausências dos estudantes.

Retratos da escola


Seis anos depois, o slogan da primeira campanha de Obama está bem vivo. Tinha-me esquecido do que eram as colunas com decibéis exageradíssimos nos recreios do Secundário antes das eleições para a Associação de Estudantes, agora com Dj´s profissionais a animar a malta e tudo, menos chocolates e outras guloseimas que nos atiravam quando por lá andávamos como eleitores, intervalos, em qualquer caso, mais alegres e animados do que aqueles que precederam esta semana e, certamente, daqueles que se vão seguir. As habituais listas A, B e C disputam apoios. Um dos cartazes da primeira das listas exibe esperança: "YES, "A" CAN". Num espaço interior, há um aggiornamento televisivo da mensagem, "Isto é tudo muito bonito...mas não há nada como a Lista C".

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Canasta



Pela primeira vez na história do desporto nacional, o Alentejo tem uma equipa a disputar o principal campeonato de basquetebol. O privilégio pertence ao Eléctrico, de Ponte de Sôr. Uma cidade do distrito de Portalegre, com cerca de 7500 habitantes.

O tempo dos radicais (VI)


1.Se necessário fosse, a entrevista de Jerónimo de Sousa, concedida a Judite de Sousa, na TVI24, no Sábado, ilustrou, na perfeição a salgalhada em que António Costa se meteu: o acordo, para suportar um futuro governo liderado pelo PS, não só não é para 4 anos, como as negociações PS-BE e PS-PCP são independentes ("a Catarina [Martins] o que é de Catarina", disse Jerónimo). O PS coloca-se na dependência de PCP e BE, anualmente sujeito a que qualquer um destes partidos possa tirar o tapete (pois o acordo não é negociado a três, nem para quatro anos).

2.Em realidade, nem o discurso de Cavaco justifica a ausência de debate/contraditório no interior do PS. À excepção de Francisco Assis, parece não haver (quase) ninguém que se oponha a este acordo. E, a meu ver, para discordar dele nem necessário seria pertencer à "direita do PS". As dificuldades da plataforma estão tão à vista que a recusa teria muito mais, até, um contorno pragmático - aquilo que é passível de ser feito e o que não tem pernas para andar - do que ideológico. Muito provavelmente, o PS irá pagar, a não muito longo prazo, com língua de palmo, esta fuga para a frente e este desaparecimento do terreno do debate (interno). António Costa, que elogiei quando me pareceu ser caso disso - constatei este fim-de-semana que, por exemplo, Pedro Santos Guerreiro, que não é propriamente socialista, considerou, no Expresso, que o programa de Costa era melhor do que o (quase inexistente) do principal adversário -, parece, de facto, apostado em chegar, de qualquer maneira a PM. Na oposição, ficaria com a "faca e o queijo na mão" que agora cedeu a BE e PCP. Ademais, com uma AR à esquerda ficaria em posição privilegiada de beneficiar os sectores da sociedade que disse defender em primeiro lugar. Assim, e pese a nebulosa "legitimidade pelo exercício" (Pacheco Pereira) que pudesse vir a alcançar (aguentar quatro anos, assim?), dará ensejo a um discurso do caos, que permitirá, em pouco tempo, colocar em causa o que entretanto pensar adquirido. No limite, a questão da fragmentação no PS, a médio prazo, que tem sido colocada por muitos - e apesar do carácter clubístico de muito voto em Portugal, fazendo com que tenha havido, até hoje, patamares mínimos dos quais diferentes partidos não passam -, não pode ser colocada de fora, por completo.

3.À direita, na agenda não deixa de estar a possível fusão de PSD/CDS, como resposta ao rearranjo à esquerda - como alvitraram, entre outros, Paulo Rangel, ou o jurista Ricardo Costa.

4.O discurso de Cavaco pedia, em bom rigor, a manifestação das forças vivas. Cavaco pedia para ser pressionado. No Observador, pois claro, Maria João Avillez tinha, já, mostrado a sua indignação pelo facto das elites (económicas) não se manifestarem contra o novo governo em formação (com António Lobo Xavier a seguir-lhe as pisadas na Quadratura do Círculo). Respondeu à chamada António José Saraiva, no Sol, considerando tudo ser preferível a um governo com uma frente de esquerda. Todavia, a intelligentsia de direita, de Vasco Pulido Valente a António Barreto, apercebendo-se do risco que seria oferecer um "capital de queixa" à esquerda e responsabilizar Cavaco e Passos pelo que se passasse num governo de gestão, qualificaram como "medonha" essa decisão e aconselharam Passos a rejeitar, liminarmente, essa opção. Os jornais de fim-de-semana dividiram-se entre os que citavam Passos, precisamente, a afastar uma participação sua num governo de gestão (Sol e I ) e aqueles que afirmaram estar o PM indigitado a preparar o Governo de Gestão (Expresso).

5.Muito importante, neste quadro, o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa. Quando já os sinos dobravam; quando se pedia a presença de militantes nas ruas contra o governo formado à esquerda; quando, mesmo os que eram crianças ao tempo da Fonte Luminosa, se agitavam como participantes na gesta épica, eis que Marcelo diz que o tempo em que se dividiam os portugueses entre bons e maus terminou em 1975 e que devem procurar-se pessoas que façam pontes, estabeleçam diálogos, vejam os outros (políticos, cidadãos de outros partidos) como adversários e não inimigos. Marcelo desdramatizava onde outros esticaram ao limite a dramatização; Marcelo pedia um clima pacífico onde outros apelavam à concentração frente a quimeras; Marcelo "destensionava" o que outros haviam tornado, deliberadamente tenso. Marcelo esvaziava a onda. Marcelo Rebelo de Sousa tem, na verdade, a meu ver, a missão histórica de moderar, de recentrar, de trazer para o campo de uma dialéctica adulta franjas políticas mais radicalizadas, em alguns sectores da nossa sociedade. É um papel extraordinário.

6.Se, todavia, a coligação de forças à esquerda, apesar da vitória da coligação PaF, se fizesse em sentido inverso - uma aliança à direita, depois de uma vitória de uma força de esquerda -, teria, exactamente, a mesma berraria, a mesma indignação, o mesmo tom crispado, a mesma alegação, sem dúvida forte e com razões bastantes, de uma legitimidade política diminuída para quem assim governa.

7.José Sócrates, creio que em 2011, num debate televisivo, sustentava que quem devia governar era a força política que obtivesse mais votos.

8.Ainda em 2011, se a memória não me atraiçoa, Paulo Portas, no debate com Pedro Passos Coelho, considerava que, dando naquela altura, percentagens das sondagens somadas, 46% a PSD+CDS, preferível seria que esse resultado, em vez dos 34%+12% então verificados, traduzisse uma paridade (23%+23%). Ou seja, Paulo Portas considerava que apesar de outra força política ter, eventualmente, mais votos - o PS teria, claramente, mais do que 23% -, seria a Coligação - que, como Coligação não ia a votos, à época - que devia governar. Era o tempo em que Portas dizia que o CDS-PP estava à esquerda do PSD (nomeadamente, ao nível das preocupações sociais; numa entrevista a António José Teixeira, Nuno Portas afirmava-se satisfeito pela fase "liberal" de Portas ter passado, dando origem a uma fase "democrata-cristã"; como isto é tudo por fases, em 2002, por exemplo, Paulo Portas, virando-se para Durão Barroso, num debate televisivo, atirava-lhe que este tinha medo de se assumir de direita).

9.Há pessoas que nos habituámos a escutar, pela sua moderação e ponderação, pela sua lucidez. O que diria Jorge Miranda sobre o discurso de Cavaco? "Excessivo" e "sem necessidade", disse.

10.Manuela Ferreira Leite, no seu mais recente comentário televisivo, disse que Passos foi a correr fazer um acordo de governo com o CDS, inviabilizando uma "grande coligação" de "bloco central". A afirmação tornou mais credível a ideia, muito presente em diferentes jornais, de que esse seria o cenário favorito do Presidente da República. 

11.Estar com militantes do PSD e do PS no mesmo dia, resulta num exercício divertido, por estes dias. Num lado, gostaram do que chamam "coragem" de Cavaco no seu mais recente discurso e consideram o discurso de Ferro Rodrigues, na tomada de posse como Presidente da AR, "trauliteiro"; do lado contrário, "trauliteiro" foi Cavaco e o discurso de Ferro "o que eles mereciam".

12. Menezes Leitão escreveu no I, lembrando Mário Soares, que com um governo de frente de esquerda "nem um castiçal" ficará no país. Além disso, como se sabe, frases como "fraude eleitoral", "golpe de estado" foram usadas e abusadas. Cavaco empregou o termo "catastrófico" e João Galamba respondeu-lhe dizendo que se tratava de um "golpista que sequestrou o Parlamento". Em semanas, sucessivas, de doidos, o MRPP suspendeu Garcia Pereira por "incompetência" e, pasme-se, "anti-comunismo". E Arnaldo de Matos, confrontado com a incoerência de quem tinha estado durante uma inteira campanha contra o euro e pretendia que a renegociação da dívida imediata, exclamou que "isto é tudo um putedo". 

13.Pedro Santos Guerreiro, na enésima hipótese de avançar com todas as jogadas que o xadrez oferece, viu, nas palavras do Presidente, a hipótese, ainda, de um governo PS apoiado pela Coligação. A hipótese parece, mesmo, académica.

14.Importava-nos, nas vozes a ouvir, o que diria o decano dos senadores. Adriano Moreira, ao I, afirmou que "o eleitorado foi posto perante uma coligação e mais não sei quantos partidos e não duas coligações. Estas surpresas são possíveis na letra da Constituição e aí tem uma contradição. A Constituição permite isto, o que não me agrada (...) Eu achava mais fácil para o país que António Costa tivesse seguido a tradição do Partido Socialista. E lembro-me sempre das intervenções e das atitudes de Mário Soares, que fez muitos sacrifícios e soube conciliar essas coisas" (pp.14/15, nº2023, 22/10/2015).

15.Manuela Ferreira Leite, em defesa do centro: "Há muito tempo que eu ando lutando contra a ideia de que o Partido Social Democrata perca a sua matriz social-democrata, porque é essa matriz que põe o partido mais ao centro. O PSD tem hoje o rótulo de partido de direita. Não pode imaginar como isso me choca! A ideia de que o PSD é um partido de direita...quando o PSD não é um partido de direita. É de centro. Agora, de direita?! Não é. Agora, [no país] está a direita contra a esquerda. O PS afastou-se da sua base, mas o PSD também. Ficou um centro sem dono. O centro faz falta à democracia. Isto descaracteriza o PSD. Não tenho dúvidas de que o PSD foi puxado para a direita nos últimos quatro anos. Já aqui [TVI24] disse que no programa eleitoral do PSD não havia nada social-democrata!" (TVI24, 22/10/2015, 22h).

16.Num discurso inteligente, muito bem escrito e dito, Marcelo Rebelo de Sousa, na apresentação da sua candidatura à Presidência da República, observou que "o combate maior na política é o combate à pobreza, às desigualdades sociais, à luta pela justiça social". Embora muita gente conviva bem com tudo e o seu contrário, isto parece-me o oposto da indiferença face à pobreza, às desigualdades sociais e a justiça social. Indiferença, ou consideração da inevitabilidade destas - o que vem a ser a mesma coisa. "Ninguém se salva sozinho", disse Marcelo, colocando uns óculos que, felizmente, permitem ver a realidade social sem anomia da competição e empreendedorismo como os únicos desígnios. 


Mais vale um pecador que se arrependa



Tony Blair pediu desculpas, numa entrevista de Fareed Zakaria que hoje a CNN transmitiu, pelo seu papel na Guerra do Iraque. Fosse pela credulidade, chamemos-lhe assim credulamente, nas "provas" arranjadas para justificar a intervenção no Iraque, fosse, como sublinhou o ex-PM britânico, pela saída - das tropas lideradas pelos EUA - do país atacado sem olhar a como este ficaria, sem pensar no que se seguiria. Desmantelou-se um Estado, destruiu-se um país. Morreram centenas de milhares de pessoas. Mais: "alguns elementos de verdade há", diz agora Blair, na alegação de que aquele ataque, na primeira metade da década inicial do século XXI, contribuiu para a formação/ascensão do chamado Estado Islâmico (ISIS). 

Era bom que se lessem e relessem os textos, os comentadores, os vigilantes da opinião que assinaram nos jornais em Portugal nesse momento tenebroso da nossa história recente. Permanecem por aí, como se nada fosse com eles, descendo sobre a pluma cada qual como se fosse Catão, ou como anjos da República. Recordo, em sentido oposto, Diogo Freitas do Amaral: em se juntando, numa descida pela Avenida da Liberdade, a Mário Soares ou a Francisco Louçã, contra a guerra no Iraque, foi apodado de radical, revolucionário e o que mais se sabe. Teve primos que deixaram de lhe falar por causa disso. Atendendo ao que é Portugal, suponho que os primos continuem a achar que lhes assiste razão, e que Freitas é que faz parte do eixo do mal. A realidade é sempre um aborrecimento. Quanto ao Professor, esteve aí ao lado da posição então sustentada, por exemplo, pelo Papa João Paulo II - em Espanha, várias vigílias, em igrejas, contra aquela guerra houve, mas em Portugal disso não tenho memória -, como, de resto, em vários outros momentos defendeu, noutros temas, e atacado com igual virulência, a Doutrina Social da Igreja e aqueles a quem a Igreja promete especial atenção. E, certamente, com esperança aguardará que, tal como Blair, os primos tenham vergonha - que é diferente de fazer de conta que têm vergonha - e façam acto de contradição. Porque lá diz o Evangelho: "haverá mais alegria no Céu por um pecador que se arrepende do que por 99 nove justos que não necessitam de arrependimento".

sábado, 24 de outubro de 2015

A defesa do centro (político)



P.S: na íntegra, aqui.

A crise, passo a passo


O Sol apurou que Passos Coelho não quer ficar num governo de gestão. Ainda assim, o jornal vai desenvolvendo, com Paulo Mota Pinto e Paulo Otero, a hipótese de um governo de iniciativa presidencial. Cavaco sempre rejeitou a ideia de um governo dessa natureza - parece-me, pois, um puro exercício especulativo/ocioso. O semanário lembra, ainda, que não podendo o PR dissolver a Assembleia, todavia tem a possibilidade de demitir um governo a que tenha dado posse entretanto. No que é um recado ao PS. Francisco Louçã prevê que Passos nunca aceite ser governo de gestão, na medida em que, nesse caso, seria o PM gestionário a revelar as contas (BES, etc.) mal fadadas do Executivo anterior. No duelo de constitucionalistas, Tiago Duarte recordou a origem histórica do preceito constitucional sobre moções de rejeição: da autoria do PS, visava proteger governos minoritários (em vez de se votar o programa do governo, este passaria sempre que não houvesse votação de de uma moção de rejeição; em vez da protecção de um governo minoritário teríamos, agora, aquele instituto contra esse mesmo governo minoritário). E Jorge Reis Novais perguntou se, em sendo necessário que além da garantia de cumprimento constitucional PSD e CDS tivessem que assumir gostar da CRP, estariam em condições de governar? A pergunta, retórica, servia de analogia para com os partidos que, no seu entender, não estando de acordo com as regras europeias, assumem um compromisso de as respeitar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O tempo dos radicais (V)


Cavaco Silva colocou-se, ontem, no discurso ao país, naquela posição de quem, deliberadamente, se auto-limita a escolher entre duas incoerências: a) ou a de vir a manter um governo de gestão por vários meses - algo que o próprio, antes, considerou ser altamente prejudicial ao país; b) ou a de depois de considerar "catastrófico" um governo de esquerda, vir a dar-lhe posse. Estou convencido que a incoerência em causa será a segunda (b)); seja como for, claramente desnecessária. Quando ganhou maiorias absolutas como PM, ou quando foi eleito PR à primeira volta, Cavaco conseguiu, sempre, ir além de uma área política, somando votos de múltiplos sectores. Que, quando o país atinge níveis inauditos de radicalização política, Cavaco se transforme em mais um dos radicais de facção; quando se exigia um moderador e árbitro, vemos o mais alto magistrado da nação entrar num discurso completamente sectário, vemos um político que perdeu muitas qualidades e que em nada contribuiu para deslaçar o nó em que a vida política portuguesa se encontra. Ademais, como Paulo Rangel dissera a quando do discurso de entrega a Passos das condições para formar governo, a excessiva parcialidade tende, até, a prejudicar - a ter esse potencial - a parte pela qual se faz coro. Ou seja, hoje já a esquerda junta diz que em caso de governo de gestão, todos os prejuízos devem ser assacados ao Presidente da República e ao Governo - um argumento suficientemente forte para Cavaco não indigitar esse Governo de gestão, como estou convencido que não indigitará. E, de facto, mesmo desgostando-se da situação que está em marcha quanto à formação de um governo, não parece muito patriótico estar-se a criar anátemas que venham a prejudicar o país. De resto, Jorge Coelho disse na sic notícias que nada funcionaria tão bem como cimento à esquerda - nomeadamente, entre o grupo parlamentar do PS - como um discurso tão descentrado como o ontem realizado em Belém. Entre um governo com défice de legitimidade política e muitos escolhos à partida, e um discurso pouco democrático que acha que só uma área política pode governar em Portugal, assim vamos, continuamos, sem políticos à altura.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Mixed feelings



Se alguém esperava um Gregório Duvivier num estilo corrosivo, numa peça sobre actualidade, carregada de uma matriz política, capaz de nos reencaminhar para a Porta dos fundos, e nos retirar dos excessos da política doméstica, em Uma noite na Lua, de João Falcão, desenganou-se cedo. Se Hamlet não tivesse sido escrito, eu teria escrito cada uma daquelas frases, palavra por palavra; se a nona sinfonia de Beethoven não tivesse sido composta, eu mesmo o faria. Só cheguei tarde. Que pena ter chegado tarde. Terem chegado primeiro é muito fácil, porque puderam gravar em bronze o que eu diria. Mesmo a ideia de Deus, com as suas provas e refutações (da ideia), já havia sido criada. A vida como farsa, o humano sem liberdade, joguete nas mãos de um autor. Tudo já foi dito e inventado, pois claro. Face a esta constatação não seríamos capazes de dizer que o texto é a quinta-essência, nem que nos fartámos de rir. Nesse sentido, algo de desilusão houve. O mesmo não se diga da representação que arrebatou a sala, do milimétrico e absolutamente preciso jogo de luzes, da encenação, da sonoplastia. A noite, no Grande Auditório do Teatro de Vila Real, com muita gente a assistir - bom trabalho da produção na promoção da peça - terminava com algum sentimento contraditório (mas um pouco com a ideia de um espectáculo caro, face ao padrão habitual, e ao espectáculo visto).

O tempo dos radicais (IV)


1.Provavelmente, a mais arguta observação que pude escutar acerca do actual momento político, em Portugal, veio de José Miguel Júdice: um Governo formado pela Coligação PaF com o PS - mesmo que com um apoio de incidência parlamentar, e negociação orçamento a orçamento - poderia situar-se mais à esquerda do que resultará de um governo com PS, PCP e BE. Em realidade, um Governo com a primeira das composições vindas de mencionar, ficaria muito na dependência do PS. Viu-se, neste período negocial, que a Coligação PaF avançou com um conjunto de cedências programáticas não negligenciáveis e, existindo verdadeira negociação, mais propostas do programa do PS seriam acolhidas. Por outro lado, em formando o PS coligação com a sua esquerda, a realidade é que, sentindo-se inevitavelmente acossado, tenda a ter que fazer uma permanente demonstração de que será intransigente no escrupuloso cumprimento da ortodoxia que nos está fixada. O que, por sua vez, não deixará de gerar fortes tensões, supõe-se, entre a nova coligação (de esquerda) formada.

2.Repare-se que à saída da reunião com o Presidente da República, Jerónimo de Sousa disse que o suporte ao PS será "tanto maior" quanto este mais patriótico for (seja lá o que isso quer dizer). Ou seja, o suporte ao PS está longe de ser algo de estável, de permanente, de uniforme ao longo de uma legislatura (se lá chegarmos).

3.Tenho alguma dificuldade, de resto, em dar por garantido que o PS de António Costa conseguiu, mesmo, trazer o PCP e o BE para o "arco da governação". Que tal possa ser dado como um "aquis". Não recuará o PCP (ou o BE) ao menor abalo na governação, a qualquer política entretanto menos do agrado destes dois partidos? Não sairemos do final da legislatura com vários tipos de esquerdas, como sempre sucedeu? Com todas as forças vivas a tornarem a governação um exercício muito difícil; com a legitimidade política a não ser a mesma do que aquela que resultaria do PS ter vencido as legislativas, não arrisca Costa demasiado, face a uma possibilidade nada escassa de um compromisso tão periclitante redundar numa governação curta, num discurso do caos subsequente, de uma grande maioria de sentido oposto ao pretendido pelo líder do PS, que reverta, dentro de umas dezenas de meses, o que até lá tiver sido feito, e ainda com um espírito de uma retaliação de quem julgava ter legitimidade para agora governar? Até por isso, mesmo do ponto de vista da sobrevivência política de António Costa, do que a história sobre ele registará, me parece não ter sido grande ideia esta coligação que se prepara para liderar.

4.Em favor da tese de que está mesmo em curso uma mudança no PCP, a peça da Visão da passada semana, na qual era dada a garantia que Jerónimo de Sousa, um líder escolhido pela velha guarda, pretendia, afinal, desde há muito este passo de partido de protesto a partido que participa, de algum modo, nas decisões da governação.

5.Mesmo que cosmética - permaneço céptico -, certo é que a abertura para viabilizar um governo liderado pelo PS foi mostrada pelo PCP. E, nesta medida, a Coligação PaF deve questionar-se acerca do porquê de este momento inédito do PCP. Se estão dispostos a algum compromisso, como nunca estiveram, e ainda que venha a revelar-se frágil, porque querem, definitivamente, afastar a Coligação que Governou o país nos últimos 4 anos?

6.Ferro Rodrigues abandonou, zangado, a liderança do PS, em discordância com Jorge Sampaio, por este ter empossado um PM, Santana Lopes, não eleito, porque achava determinante a "eleição para PM"; o mesmo PS, acha agora sinal de maturidade democrática a liderança do Governo resultar do quadro parlamentar e sua relação de forças, não estando nós, afinal, desta vez, a "eleger um PM". O inverso se passa com o PSD: pareceu-lhe bem - pelo menos num momento inicial - a indigitação, para PM, de Santana Lopes, mesmo sem eleições, dada a maioria, então, existente no Parlamento; agora, ao invés, reclama que toda a gente esteve a escolher um PM e preferiu Passos Coelho a António Costa

7.Ana Catarina Mendes avançou um argumento para contrabalançar a dita - que me parece bem real - perigosidade de fragmentação da coligação à esquerda (sem que a legislatura fosse completada, por força da presença de PCP e BE): na década de 80, do século XX, a Coligação era formada por PSD e CDS e não chegou ao fim, tal como, na legislatura há pouco finda, Portas chegou a considerar irrevogável a sua saída. Enquanto refutação de uma "superioridade moral" de garantia de estabilidade à direita o argumento pode proceder; enquanto reivindicação de um possível falhanço, dentro de meses, de uma coligação de esquerda - outros já falharam também nesses compromissos - seria caricato.

8.Quando se chegou à altura de votar o PEC 4, Marco António Costa advertiu - ou, nas palavras do dirigente do PSD, analisou politicamente a situação -  Passos Coelho: "ou tens eleições no país, ou tens eleições no partido". Não há dúvida que há muito mais sobreviventes políticos capazes de actos desesperados, que em nada beneficiam o país, do que vestais que se fingem ofendidas. Não pode haver um double standard, nem realidades a preto e branco, bons contra maus, apesar, de não raro, isto de facto parecer uma cowboiada.

9.Diogo Freitas do Amaral disse que "se pudesse carregar num botão" escolheria uma situação de "bloco central" - pese, e não é pouco, é verdade, as objecções que vêem sendo colocadas por Pedro Adão e Silva quanto ao eleitorado que se podia libertar para as franjas políticas; o que só evidencia que nenhuma opção é de borla ou inócua -, porque "seria o melhor para o país" (vide ponto 1). No mesmo sentido se pronunciou Teixeira dos Santos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O tempo dos radicais e o fim do «superego cristão»: "os fracos merecem protecção e não desprezo"


O que acontece é que o liberalismo tem sido entendido, essencialmente, como uma categoria do pensamento económico que se entende às vezes apenas na sua visão libertária, identificando o Estado com o mal, insistindo em que tudo o que é sector público é mau até prova em contrário…Aí, a minha costela, não vou dizer democrata-cristã, mas a minha costela cristã, faz-me achar que o Estado é um factor importante de correcção de desigualdades e assistência. Tenho alguma dificuldade em pensar que há pessoas sem nenhuma rede de protecção numa sociedade em crise, como estamos agora. Bem sei que isto é tido como paternalismo por algumas pessoas, mas acho que o paternalismo não é o pior dos defeitos, apesar de tudo, comparado com a insensibilidade face ao sofrimento em particular, por exemplo. A mim preocupa-me muito esta ideia de que se um modelo económico funciona muito bem, as pessoas cujas vidas são destruídas por ele são consideradas um dano colateral. Tenho dificuldade em ir por aí.

(…)

Quanto ao conservadorismo, acho que é pré-político…(…) Isto é, a minha disposição seria conservadora mesmo que a política não me interessasse. Sou uma pessoa naturalmente céptica, prudente, cautelosa, acredito em pequenos passos, na evolução em vez da revolução, não espero demasiado da natureza humana, enfim, tudo isso que são os fundamentos filosóficos do conservadorismo desde Burke (…) Esse tipo de ilusão sobre a natureza humana é trágica porque, depois, a natureza humana não é assim e começam a rolar cabeças.

(…)

Ele [Roger Scruton] é, hoje em dia, talvez o filósofo conservador e pensador mais conhecido, pelo menos no mundo anglo-saxónico. Mas foi muito céptico em relação ao período do thatcherismo, por exemplo, dizendo que, para um verdadeiro conservador, a ideia de que o mercado é o alfa e o ómega é particularmente perniciosa (…) trata-se da ideia de que no fundo, o mercado tendencialmente devora e destrói muito daquilo que um conservador acredita, como a família, nomeadamente. A pura lógica capitalista é perigosa para os valores tradicionais. O Zygmunt Bauman tem um exemplo muito divertido, ou trágico, conforme a nossa disposição, quando diz que o problema do capitalismo é que, a certa altura, também vai permeando a lógica dos nossos comportamentos extraeconómicos. E ele diz assim: «Se nós nos habituamos», não me lembro em que altura é que estávamos, mas suponhamos que era agora, «se nos habituamos a mudar do iPhone 5 para o iPhone 6 quando ele aparece, e o 5 fica imediatamente obsoleto, como é que a certa altura não passamos a transportar isso para as nossas relações?» Como é que nos casamentos não largamos a nossa mulher quando aparece um «novo modelo»? Num certo sentido, o que ele quer dizer é que não se trata de um modelo económico, de pura liberdade económica, de competição, etc., mas de, depois, isso constituir uma espécie de modelo filosófico e ético que vai infiltrar todos os aspectos da sociedade. E isso, diz ele, que é pós-marxista – mas eu enquanto conservador também acho -, é perigoso. A ideia de que o critério ético é a rentabilidade, ou a utilidade, é-me particularmente antipático.

(…)

Eu tenho registado a quantidade de dirigentes políticos [portugueses] que dizem frases sobre o desemprego, a emigração, a quebra de rendimentos, de uma forma um bocadinho desapiedada demais. Havia uma espécie de superego cristão que impedia que as pessoas dissessem isso em público. Um certo pudor com o sofrimento dos outros e a miséria (…) Tem havido, agora não tanto, mas durante um tempo, um conjunto muito grande de declarações de responsáveis políticos e partidários que me parecia que não tinham sequer a consciência de que não se pode dizer tudo, e de que não se pode ofender as pessoas (…) As coisas têm de ser ditas de uma forma minimamente sensata e civilizada. E acho que essa elegância se perdeu um bocadinho.

(…)

Acho que aqueles a quem no cristianismo se chama «os homens de boa vontade» reconhecerão que o pensamento social da Igreja tem procurado que o capitalismo e o crescimento económico não atropelem, não esmaguem a pessoa humana, para usar, também, uma expressão muito cara ao pensamento social da Igreja (…) Trata-se, apesar de tudo, de uma ideia anti-nietzscheana, se quiser: a de que os fracos merecem protecção e não desprezo. Numa palavra, é isso: os fracos merecem protecção e não desprezo.

(…)

Acho que uma pessoa que não é sensível ao sofrimento humano não devia estar na política. Porque o exercício da política não é só assinar papéis e fazer contas – há vidas em jogo. Eu sou muito sensível a isso e tornei-me ainda mais sensível nos últimos anos (…) O regresso da ética à política…Acho que as nossas ideias têm consequências. Se as nossas acções, enquanto pessoas individuais, devem ser bem pensadas porque podem ferir terceiros, as nossas acções como dirigentes de países, por maioria de razão, têm um peso ético. Eu não posso assinar um papel que afecta a vida de milhares de pessoas, como se isso não tivesse consequências.


[De que maneira é que a herança cristã ou o catolicismo o marcam ainda hoje?]

Não pode deixar de marcar porque é uma visão do Homem e do seu destino. É difícil subvalorizar a dimensão que tem um pensamento tão forte como o pensamento cristão, como também outros pensamentos religiosos (e o pensamento marxista, e outros), porque de facto tem uma visão total do que é o ser humano, dos seus fins, das suas dualidades, da sua História…São dois mil anos em que o cristianismo teve, em alguns momentos, as pessoas mais inteligentes do seu tempo a escrever. Santo Agostinho, por exemplo, que é um dos meus autores de eleição. De Santo Agostinho a Kierkegaard e a outros. São autores que ainda dialogam comigo. Tudo aquilo que eles dizem ainda me diz respeito e, portanto, sim, o pensamento cristão e a sensibilidade cristã e o entendimento cristão do mundo são muito importantes.


Pedro Mexia, entrevistado por Francisco José Viegas, LER nº139, Outono 2015, pp.26-39.

Lebenswelt


Há conceitos que, ao longo de uma formação, se tornam estruturantes, aos quais regressamos compulsivamente, como uma necessidade de diálogo constante (com estes). A ideia de que todos partimos para a apreensão/compreensão da realidade com óculos - com uns dados óculos -, atribuindo, de modo imediato, sentido e valor ao que estamos observando - mas que com óculos diferentes teria uma leitura sem dúvida diversa -, colocando-se, desta sorte, em crise, um certo universalismo do olhar, e uma dada coloração cultural nele, faz com que me interrogue, com que debata o lebenswelt, o mundo da vida. O conceito é de Husserl (p.44), e Jurgen Habermas, no seu recente Mundo da vida, política e religião, nas páginas iniciais descreve-o do seguinte modo: estamos imersos no mundo da vida de uma maneira não teórica, mas pré-teórica; abarca-nos. Husserl fala do horizonte do mundo da vida como tendo a função de solo (o chão em que assentamos). Não se trata da composição do mundo em si mesmo, mas, antes, das nossas condições de acesso ao mundo; é o pano de fundo com que a este acedemos. Husserl, com este conceito, pretende, pois, recuperar o esquecido fundamento de sentido das ciências e, portanto, libertar a sociedade do conhecimento de um objectivismo de graves consequências. O mundo da vida é pré-reflexivo e é(-nos) dado nos nossos actos/performances; é "horizonte acompanhante".

domingo, 18 de outubro de 2015

Lutas justas



No Expresso, José Eduardo Agualusa traça a actual luta de Luaty Beirão como a mais grave crise para a cúpula do poder angolano desde a independência do país e geradora da maior turbulência social desde o fim da guerra civil. Uma frente contra o poder dirigido por José Eduardo dos Santos, capaz de juntar elites culturais, filhos de antigos membros do regime, diplomados no estrangeiro nas melhores universidades e que assim se juntam aos mais fustigados socialmente. Uma rede que perpassará a diáspora angolana, colocando, em especial desde os tempos que se seguiram às primaveras árabes, a agenda democrática no centro dos debates. Nicolau Santos associa uma decadência, que vê nas sugestões de saída de postos-chave da sociedade angolana feitas pelo ainda Presidente, mas negada pelas personalidades solicitadas a abandonarem os seus cargos, às dificuldades económicas que a baixa do preço do petróleo fez o país sentir, a tremideira por que passa o regime de Dos Santos. A peça do Expresso não deixa de tocar na vergonha do silêncio das autoridades portuguesas face à cilada montada ao cidadão (também) português, Luaty Beirão, filho de uma antiga figura destacada do regime angolano, quando viajou, pela última vez, para Lisboa. E o silenciamento da situação esteve longe de se confinar ao poder político, mas que teve, igualmente, acolhimento mediático.

sábado, 17 de outubro de 2015

Memória (sem densidade)



Que notícias retemos, do ininterrupto caudal com que somos bombardeados diariamente? O ataque de Anders Breivik, na ilha de Utoya, a um acampamento de jovens social-democratas noruegueses, em 2011, é revisitado pela peça de David Greig, Os acontecimentos, que os Artistas unidos, com o Coro de Câmara da UTAD levaram, ontem, a cena, no Pequeno Auditório do Teatro de Vila Real (mais de meia sala, ainda que longe de esgotar). Em grande medida, o texto protesta contra qualquer positivismo, qualquer sequenciação causa-efeito na procura de compreender os atentados, o acabar com a existência do outro. A premissa "se não é louco, só pode ser mau", sobre Breivik, é questionada pela multiplicidade de personagens escutados que acabam na impotência (da ausência) de uma clara resposta para a demanda efectuada: "a infância foi difícil, mas não catastrófica; a ideologia seguida [podia ser perigosa, mas] não foi interiorizada", a sexualidade não se apresentava como problema determinante. Sofreu bullying, na escola, o futuro assassino, e ficou com a percepção de uma maldade congénita do humano; perdeu um progenitor cedo; tinha espasmos militaristas. Pistas, deixas, nadas? Seria tudo isso que, somado, levaria ao crime? Seria outra coisa qualquer? Este mistério é experimentado por quem não pode deixar de prosseguir o encalço dos fios narrativos de uma biografia, mas que em encontrando-se com amigos de infância, pai, jornalistas conhecidos do homicida nunca alcança responder inteiramente à procura que produz. O próprio personagem objecto de estudo parece longe de se compreender: visitado, na prisão, pela vítima sobrevivente, relaciona, sem se perceber com que consciência, o ataque com uma arma que buscara por via de uma questão passional. Aqui, nas motivações que conduzem o homem a matar seus semelhantes, nada é absolutamente claro/fiável. A procura, todavia, tem um valor em si mesmo: o querer, realmente, compreender um outro incapaz, por sua vez, de empatia com os demais - obcecado com os aborígenas da Austrália, supõe-se que parecido ao chimpanzé que pretende a exclusiva sobrevivência da tribo. Quem busca compreender pode ter desfalecimentos - Claire conduz um coro, mas "manter a fé, face aos acontecimentos, é difícil" e o próprio coro, às tantas, deserta, não mais quer saber do que se passou, passemos a página, "é demasiado deprimente" persistir no mesmo. A peça convoca, ainda, a pergunta acerca do que é susceptível de perdão.
Saímos com a sensação de que o texto, em todo o caso, nunca traz nada de verdadeiramente novo, sem a densidade que os acontecimentos sugeriam que pudéssemos vir a encontrar (nela).

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O tempo dos radicais (III)


1.Subscrevo Manuela Ferreira Leite, ontem, no seu espaço de comentário semanal: com o PS a encostar a BE e PCP, e com PSD e CDS muito à direita, desaparece o centro político em Portugal.

2.O momento que estamos a viver, de resto, mostra bem a existência e valor desse espaço político que não é de nenhures: o centro.

3.Em célebre entrevista ao Sol, na pré-campanha, António Costa disse identificar-se politicamente com Manuela Ferreira Leite (com as posições por esta tomadas nos últimos 4 anos). Ora, Manuela Ferreira Leite, como ainda ontem mostrou à saciedade nunca pretendeu inscrever-se no espaço político da esquerda à esquerda do PS). E falando Costa acerca de um conjunto de personalidades que representariam uma área mais moderada, no espaço social-democrata/democrata-cristão, também deve tomar, agora, nota do que essas mesmas personalidades têm reflectido.

4.Claro que, embora implicitamente e de modo subtil, Ferreira Leite tenha apoiado o programa do PS às últimas legislativas - de modo perfeitamente natural e coerente em termos ideológicos -, neste seu comentário à Coligação à esquerda que está a ser tentada não podia senão afastar-se vigorosamente ("eu não patrocinei isto", dirá). Por muito exagerados que pareçam termos como "golpe de estado" ou "fraude eleitoral", que a ex-líder do PSD ontem utilizou, eles em todo o caso reflectem aquele que penso ser um sentimento maioritário na sociedade portuguesa que é o da menor legitimidade política da solução que vem sendo apontada ao futuro governo. E isso, creio, será pago com muitos juros pelos protagonistas - pessoais e partidários - que agora alinhem nessa solução, contribuindo, ademais, para futuras soluções mais drásticas e radicais em termos políticos (que as receberão de bandeja e até como álibi, anunciando, uma vez mais, o apocalipse).

5.Há uma semana, António Lobo Xavier concedia que esta é a AD mais à direita de todas aquelas que até agora foram experienciadas.

6.Tem razão Paulo Rangel quando diz que a expressão "reuniões técnicas" não é politicamente inócua. Traduz, de facto, simbolicamente a ideia de que o acordo político está efectivado e que só faltam discutir pormenores/detalhes (técnicos). Também penso que a opção política foi tomada a priori: Costa decidiu formar governo à esquerda e não negociar à direita. Isso não resultou das conversas tidas, mas foi um ponto prévio (por muito que se procure, agora, negar).

7.Em sentido diverso, e quando se procura falar em coligações negativas, tem toda a dificuldade do mundo em explicar-se a Coligação de direita (e as forças mais à esquerda) sobre o modo como se aliaram para votar o PEC IV e de que maneira essa decisão teve algo de patriótico. Não se vislumbra em que medida.

8.Como reconhecia José Matos Correia - um quadro do PSD normalmente ponderado e razoável, intelectualmente honesto nos debates -, Santana Lopes foi PM sem eleições, pelo que dizer-se que estamos a eleger um PM, nas legislativas, tendo muito de verdadeiro (em termos materiais), nem sempre se verificou na história recente da nossa democracia.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O tempo dos radicais (II)


1.Não se trata de "comerem criancinhas ao pequeno almoço". Não se trata de recuar demasiado na história até as comparações se tornarem completamente inverosímeis. As divisões à esquerda do PS, a constituição de grupos e sub-grupos, de partidos que têm sempre uma particularidade qualquer que os obriga a cindirem-se dos demais, a história de José Sá Fernandes em Lisboa, o Livre que se formou porque era necessário unir (como alguns comentam com graça, até para unir foi preciso dividir), tudo um conjunto de registos que não tornam, de facto, muito expectável uma grande segurança do PS em promover acordos sólidos com parte daqueles que se encontram à sua esquerda.

2.O PS não ganhou e, portanto, efectivamente, a expectativa de ser o seu (completo) programa a governar não tem razão de ser. As cedências da Coligação Paf, com a força negocial que o PS estava a ter, poderiam, ainda, acrescer, melhorando, na realidade, a vida de muitos portugueses - algo que, para não militantes partidários, é o que verdadeiramente importa.

3.A maior parte das pessoas não gosta de ler programas (ou outros documentos similares), acha desnecessário, mas, às vezes, também não sabe o que perde. Por exemplo, no documento facilitador para um entendimento para a formação de um governo, elaborado pela Coligação, esta seleccionou, de entre as propostas do programa do PS aquela que incorporava o despedimento por conciliação. Ora, como sabemos, durante a campanha eleitoral, se às terças, quintas e sábados, Paulo Portas zurzia António Costa por uma viragem esquerdista, às segundas, quartas e sextas atacava o líder socialista por ser ultraliberal, assim brindando algumas das propostas do programa de Costa. Qual, de entre as propostas socialistas, de modo emblemático, poderíamos qualificar como mais liberal (em termos económicos, na abordagem às relações laborais)? Justamente, o despedimento por conciliação. E de entre as vinte medidas repescadas ao PS qual aquela que tinha obrigatoriamente que ser incluída pela Coligação Paf? Pois, claro, o despedimento por conciliação. Não sei se hei-de sorrir com os abonos de família, o médico por família, a atenção ao pré-escolar, o Complemento Social para Idosos - as medidas impossíveis e loucas de tomar, uma atenção social que não poderia ser tida em conta -, se hei-de chorar por depois de dizerem que liberal era o PS, recuperarem a medida emblemática presente nessa zona do programa socialista.

4.Se a Coligação Paf vier, enquanto governo minoritário, a elaborar o Orçamento para 2016, incluirá as medidas que estava disposto a "conceder" ao PS, ou, em não tendo chegado a encontrar um apoio deste, deixa-las-à cair? 

5.Francisco Assis, depois de ter dito na semana anterior que achava uma coligação frentista de esquerda "impossível", só poderia reforçar, como fez, esse ponto de vista, na entrevista à RTP3. Então como torná-la visível, como tornar noticiável uma entrevista que diria o mesmo que o entrevistado havia dito uma semana antes (portanto, uma não notícia)? Como fazê-lo, sendo esse, claramente o objectivo, sendo esse o prosseguimento de um caminho encetado a quando da disputa Seguro-Costa que, sendo depois das europeias em que Seguro apoiara Assis, e sendo meses depois de Costa se chegar à frente com o apoio de Assis, permitia, a este, o terreno ideal para a equidistância e a demarcação (dos dois concorrentes)? Emprestando um pathos e uma gravitas ao que dizia, carregando a hora de um peso enorme - "pensei muito em dar esta entrevista (...) se não achasse que tinha a responsabilidade de falar não vinha de propósito e falaria amanhá no habitual debate das quintas-feiras...", etc.etc. Assis penso, ponderou e decidiu ir à RTP apresentar a sua (pré) candidatura à liderança do PS. Ao contrário de outras vezes, porém, não defendeu uma grande coligação (à alemã). Nas páginas do Público, sustentou-o mais do que uma vez. Mostra, assim, uma flexibilidade táctica que o fez correr também para o soundbite preparado: "isto é como uma associação de ateus dizer que se coliga com um grupo de religiosos, porque não há problema nenhum em almoçarem".
Talvez surpreendente ter começado por entender a questão do Tratado Transatlântico como uma pedra de toque que não permitiria um entendimento à esquerda.

6. De Santana Lopes a Bagão Félix, a direita do espectro político já avisou Cavaco, se necessário fosse, que não admite menos do que a indigitação de Pedro Passos Coelho para Primeiro-Ministro - bem pode Jorge Reis Novais dizer que, se for caso disso e para não perder tempo, Cavaco deve logo nomear um outro PM, em chegando à conclusão de que Passos não passa no Parlamento. A aprovação de uma moção de rejeição, com queda do governo, na AR, tem uma dimensão simbólica forte, permitindo uma capitalização política. Evidentemente, Cavaco não tomará outra decisão (que não esta).

7.Depois de ex-assessores nas redes sociais e de Santana Lopes, na televisão, terem criticado a ausência da Coligação no terreno, Passos Coelho recuperou a iniciativa, mostrando músculo (para alegria dos fiéis). É verdade que a ars política tem os seus encantos, sobretudo em tempos de bonança (o que não é o caso, para o país). Mas o contraste entre uma disposição bondosa e humilde para a negociação e o tom crispado e agreste, em menos de 24 horas, ressaltam a dramatização forçada, a dimensão de jogo que por estas horas parece infeliz. Há mais de uma semana, Constança Cunha e Sá considerava, na TVI24, estarmos a assistir a uma "palhaçada", com encenação de negociações que nenhuma força política, no fundo, desejava que chegassem a bom porto. Iremos ver, dentro em breve, se passados mais de dez dias, a percepção da população, com ou sem razão, não será a de que foi isso mesmo a que se assistiu, levando-se longe de mais a teatralização.

8.Se António Costa permanecer líder do PS até às Presidenciais, como tudo indica, dir-se-à, no final destas, que Costa perdeu as suas segundas eleições. Aliás, em bom rigor, os recuos, os tabus, os falsos recuos e os falsos tabus, no interior do PS, só se deram lendo o calendário político: o próximo líder quer entrar depois das presidenciais, com currículo limpo, sem passar pela inapelável derrota de Janeiro. Mas há alguém que diga, a sério, que com outro líder, com outra estratégia ou outra táctica, o PS - fantasiando que os candidatos são "pertença" dos partidos - bateria um candidato chamado Marcelo Rebelo de Sousa? Dir-se-ia: com António Guterres, talvez. Mas a não candidatura de Guterres tem alguma coisa a ver com o facto do líder do PS ser Costa? Guterres seria candidato se outro fosse o líder socialista? Claro que não.

9. As falácias não terminam por aqui. Quando se diz que Seguro foi vencedor em duas eleições, sendo uma delas as autárquicas cai-se, de novo, numa argumentação de tipo puramente formal. Nas democracias mediáticas em que nos encontramos, a vitória nas autárquicas tem uma dimensão "qualitativa" que passa muito pela apreciação sobre quem ganhou meia dúzia de câmaras emblemáticas (ou, ainda, aqui e ali, uma mudança de cor em uma autarquia que seria especialmente simbólica). Lisboa e Porto, muito especialmente, tornam-se câmaras por cujo resultado o país espera. Sintra e Gaia, dada a expressividade populacional que alberga, são também olhadas à lupa. Coimbra acaba, também, por fazer parte do medidor. Ora, o que se passou nas últimas autárquicas é que no Porto foi eleito um independente com uma base social em que os apoiantes habituais do PSD tiveram um papel muito importante...e em Lisboa a vitória, com mais de 50%, foi de António Costa. Mesmo em Câmaras, como Vila Real, em que a mudança de cor política na liderança da autarquia ocorreu pela primeira vez - portanto, tendo uma forte carga simbólica -, tal sucedeu por motivos locais, em tudo alheios à liderança nacional do PS.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O tempo dos radicais


1.Provavelmente, será pouco sensato, eficaz e/ou interessante procurar falar quando todos gritam. Uma onda de histeria percorre o país nos últimos dias, nove em cada dez artigos de jornais estão pejados de raiva política e adjectivação pessoalizada, há editoriais que antecedem noticiários radiofónicos a apelar a governos desta ou daquela natureza.

2.Dir-se-ia que estamos em estado de excepção. Melhor seria, contudo, escrever que continuamos em estado de excepção - desde 2011. Se alguém esperaria que o fim das eleições traria alguma pacificação à vida pública e política, desenganou-se num instante. Pelos vistos, a radicalização a que assistimos nos últimos 4 anos, veio para ficar, com contributos de vários quadrantes.

3.Quando, ontem, a Coligação de direita liberal concedeu em aceitar cerca de 20 propostas ínsitas no programa do PS, ofereceu a António Costa o seguinte, em termos políticos:

a) o desnudar de uma propaganda ínvia, repetida ad nauseam, que garantia que as propostas do PS iriam, inevitavelmente, fazer regressar a troika ao país e gerariam o caos e a desgraça;

b) o aceitar de que o programa, sem consideração por sectores muito desfavorecidos da sociedade portuguesa, elaborado pela Coligação, tinha uma profunda carga ideológica e não resultava, exclusivamente, de uma necessidade ("seria por maldade que reduzíamos os níveis do Complemento Social para Idosos?"). No documento ontem enviado ao PS, a Coligação aceita várias medidas inscritas no programa de António Costa, como a reposição dos níveis do Complemento Social para Idosos, ao mesmo tempo que reafirma que as metas para com o défice, no sentido de não mais o país se sujeitar ao procedimento por défice excessivo, são para cumprir. Ou seja, a reposição do Complemento Social para Idosos, bem como outras medidas de cariz social, são compatíveis com tais metas. A pergunta, claro, é porque motivo, existindo tal compatibilidade, não plasmou a Coligação, no seu programa, tais medidas. Ontem, Paulo Portas não foi de modas, e considerou, mesmo, tais propostas, assim acolhidas pela Coligação, "um avanço para o país". Eu não diria melhor.

4.O mais interessante e esclarecedor debate nos media, entre líderes de partidos concorrentes, às eleições legislativas, foi aquele que opôs Catarina Martins a António Costa. Em se discutindo a questão das pensões, ficava, em definitivo, clara a posição moderada e central de Costa face a duas radicalizações de sentido oposto: o programa do PS congelava pensões, não as aumentando; a Coligação de direita liberal cortava no sistema 600 milhões ao ano (2,4 mil milhões em 4 anos); o BE exigia o aumento destas, porque o compromisso com os pensionistas vinha antes do compromisso europeu. Costa, num exercício de grande honestidade intelectual, reconheceu a perda do poder de compra dos pensionistas - em função do aumento da inflação, o congelamento das pensões significava perda do poder de compra dos pensionistas. Mas querendo mudar as regras na Europa, sabia, no entanto, que até as coligações políticas estarem no terreno para que tais mudanças pudessem/possam ocorrer, a saída de Portugal do Euro, ou a renegociação unilateral da dívida, como as lições recentes da história europeia demonstravam, colocariam o país numa situação muito pior. Como Alberto João Jardim dizia, há dias, num exemplo muito gráfico, nem os eleitores do BE que tenham 100 mil euros numa conta querem passar para 50 mil no dia seguinte. Ou, como Louçã dizia, a uma semana das eleições, faltava a BE e PCP explicar como seria o day after fora do euro, o que seria das poupanças. Sim, Catarina Martins marcou o ponto da perda do poder de compra dos pensionistas, mas à custa de iluminar como o fazia prometendo algo completamente irrealista, demagógico e contraproducente. Costa, ao contrário do que muitos repetiram sabendo que tal era falso, e muitos outros imitaram por ignorância, estava bem longe de "prometer tudo a todos". As pensões eram, justamente, um exemplo paradigmático.

5.Não imagino, de facto, mesmo que num acordo para um futuro governo BE e PCP se comprometam a não tocar directamente na saída do Euro (ou da Nato), como será possível, em cada medida, em cada corte ou não aumento de uma rubrica orçamental, não virem reivindicar que não devemos cumprir com as metas a que estamos adstritos (ainda que, simultaneamente, tudo devamos fazer para as alterar). Neste sentido, concordo com Marina Costa Lobo (Expresso da meia noite, sic notícias, 09/10/2015): as diferenças são demasiado radicais, e nem a formulação de um compromisso em que, em abstracto se diga não tocar naquelas regras europeias, evitará que estejam latentes e que venham à tona, ao menor solavanco.

6.Independentemente da indiscutível legitimidade constitucional de um governo com uma frente de esquerda, a verdade é que a legitimidade política de um governo liderado por quem não ganhou as eleições, num país sem essa tradição, está muito em cheque. Ignorar isso, parece-me uma leviandade.
Mais, uma parte do país achará que se trata de uma "usurpação" e passará a odiar o futuro PM (o artigo de Maria João Avillez, ontem, no Observador, não deixa margem de dúvidas a esse respeito). Com uma imprensa com os níveis de agressividade com que se encontra - quem leu jornais nos últimos 7 dias não teve como não reparar -, com as ameaças de Bruxelas, com uma parte do PS em armas, o Governo estará acossado e encostado à parede desde a primeira hora. Para que quer António Costa prosseguir num projecto sem futuro (e que, como escrevia João Miguel Tavares, estará destinado a promover uma maioria absoluta de sentido oposto dentro de meses)?

7.Há quem só veja radicalização em um dos lados, natureza humana má em uma das partes (se Costa se quer salvar a todo o custo, o que é absolutamente lamentável, ontem a TSF escrevia, na sua página na net, que nas 20 cedências de ontem, a Coligação queria manter-se, fosse de que forma fosse, no poder). Estamos num daqueles momentos de puro maniqueísmo. Era, ou ainda é, com António Costa, que a moderação seria possível, no exercício negocial com a Coligação que ganhou as eleições, melhorando, claramente, a vida de muitos e muitos portugueses (70 mil, por exemplo, apenas na directa reposição do Complemento Social para Idosos). Eu não sei se entra no léxico técnico de "estrutural" a reposição deste Complemento. Para mim, mudar para melhor a vida de 70 mil pessoas - e potencialmente mais, quer no agregado, quer pelo aumento do consumo - é, certamente, estrutural.

8.Consigo compreender que perder umas eleições, prosseguindo um trajecto que foi desde uma perspectiva para a próxima década do país (Agenda para a Década) - não nos estão sempre a dizer que devíamos pensar no país que queremos a 10/15 anos, deixando o curto-prazo? -, ao delinear de um cenário macro-económico - não nos estão sempre a dizer que não adiantam promessas genéricas e tudo deve estar assente em pilares sólidos e concretos, por muito que as previsões sejam falíveis, mesmo nestes exercícios? -, até à apresentação de um programa detalhado como nunca se vira no Portugal democrático, derrota essa face a quem não apresentou programa e se escudou no sistemático ataque ao programa adversário (a moderação, para alguns...), seja difícil de engolir. Mas é a democracia. Os grandes líderes foram os que souberam ter a grandeza de face à radicalização, convocar a moderação; face à guerra ideológica/cultural, trazer o compromisso, olhar cada rosto concreto, visando melhorar a sua vida. Qualquer revanchismo será sempre petit. Inconsequente, contraproducente, gerará mais vítimas.

9.A terceira via, a que no fundo a manchete de hoje do Público traduz, um PS que não chega a acordo com ninguém, também me parece que, destinada a não influenciar as políticas governativas, não contribui para a melhoria de vida das populações. A cultura do diálogo é, ainda, mais necessária quando o país passa, ainda, por tantas dificuldades. Só na cabeça de lunáticos e propagandistas tais dificuldades desapareceram.

10.Disse Rui Tavares que uma coligação de esquerda mostrará que o Livre foi vítima do sucesso das ideias que promoveu. Com efeito, Rui Tavares, com André Freire, foram das personalidades que mais lutaram, no espaço público português, por essa coligação (por trazer 20% do eleitorado a jogo; alguns dos PS que concordam com essa frente dirão, mesmo, que assim, o PS trará à democracia mesmo alguns aderentes a regimes não democráticos, como outrora, na nossa história, outros partidos fizeram essa integração à direita). Mas, na realidade, nem o PCP nem o BE, substituem o optimismo europeu do Livre, a ideia de aprofundamento político da União Europeia em vez de regressão. Faz toda a diferença.

11.Quando penso que democratas-cristãos dão o aval a políticas e programas que omitem sectores sociais que deviam ser aqueles que deviam vir em primeiro lugar das suas preocupações (quando, como agora, confessadamente, assumem que podiam não ter omitido); quando ouço a palavra Europa como se ela também fosse isenta de discussão ou fosse neutra do ponto de vista de projecto ideológico (e nada fosse necessário fazer); quando se diz, não que os mercados preferiam isto ou aquilo, mas que podem deitar abaixo o país se a escolha não for tal (e democracia, que tal?); quando vejo, socais-democratas a querem uma revanche radical para combater políticas radicais, penso que se continua a esquecer a pessoa, cada pessoa, e no tom caricatural que a berraria oferece por estes dias, simbolicamente, então só me lembro do quadro de Chagall que me indica sempre o lugar onde quero estar.

sábado, 10 de outubro de 2015

A riqueza e o Reino


Leituras dominicais (litúrgicas). O camelo era o animal de maiores dimensões conhecido ao tempo de Jesus. E já Job perguntara de onde vem a Sabedoria. Ela que é superior à própria saúde. Algo que ultrapassa a imagem literária e, na absoluta doação, se torna a própria Beleza.