quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Sobre o "não há dinheiro"


Votar num programa ou proposta política é sempre ter presente que se está a privilegiar certos sectores (sociais), determinados interesses, apostar em umas concretas àreas quando os grupos, os interesses ou as àreas a apostar podiam ser, definitivamente, outras (que, em princípio, um outro programa irá privilegiar). Podem ser os interesses, os grupos, as àreas que, sem dúvida, estamos convencidos que merecem uma consideração especial - até pensando no que essa focalização é determinante, ainda, para a harmonia de toda uma sociedade, de uma leitura, afinal, de bem comum -, mas pensar que, a esse respeito, são assépticos os programas é, claro, um erro.
Para a próxima legislatura, o programa do PS prevê, com a consignação de 4pp. do IRC, 400 milhões de euros anuais, em receitas para o Estado, 1600 milhões nos próximos 4 anos. A descida no IRC, acordada entre Passos Coelho e António José Seguro - alegando o PS que implicaria, adicionalmente, uma descida em sede de IRS - significou, com efeito, uma perda substantiva de receitas para o Estado, já nesta legislatura (diferentes economistas calcularam diferentes valores para as perdas em causa, mas, em todo o caso, sempre significativas). E com a continuada descida, nos próximos anos, caso a coligação vença, uma adicional perda de receita directa, para os cofres do Estado ocorrerá. É evidente que quem sustenta estas medidas dirá que com a criação de emprego que advirá dessa baixa no IRC, do aumento do investimento, será compensada esta perda - mas então que monitorização, que garantias, que emprego foi criado com a baixa já verificada na legislatura ora finda? Dir-se-à, ainda, que com a baixa na TSU, para os empregadores, a perda para a Segurança Social, também é clara. Certo.
O que aqui se pretende chamar a atenção é que existindo, realmente, recursos limitados, o "não há dinheiro" pretende, quase sempre, escamotear a alocação, a concepção política, a ideologia por de trás do destino a dar aos finitos recursos existentes.

Alma



"A vinte minutos do fim, o Porto era um vendaval à procura do terceiro golo"

Juan L. Cudeiro, no ElPais, na crónica sobre o FCP-Chelsea

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Estado Social


Pedro Adão e Silva e Mariana Trigo Pereira, em Cuidar do futuro. Os mitos do Estado Social português (Clube de Autor, 2015) recordam que, mau grado o excelente desempenho no combate à pobreza por parte do Estado Social, este não foi criado com essa finalidade precípua, mas visou, em grande medida, integrar a classe média, fornecendo seguros sociais, sendo que esta, a classe média, vislumbrava benefícios (para si) na existência desse mesmo Estado Social. De aí que reduzir o Estado Social a uma tarefa de combate à pobreza e destinado, exclusivamente, aos mais pobres possa enfraquecer o apoio de outros sectores sociais a esse mesmo Estado Social e, assim, em última instância, colocar este em causa. Os níveis de desempenho desse Estado Social haviam, de resto, contribuído para fortalecer o apoio/legitimação ao sistema democrático que, na opinião dos autores, poderia, desta sorte, de alguma forma, fraquejar. Além do mais, enquanto amortecedor de crises, o papel económico desse mesmo Estado Social, cujo modelo é descrito como afastado do assistencialismo, não foi menos relevante.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Sondagens


Pedro Magalhães mostrou no seu blog, margens de erro, que nunca, desde 1991, quem seguia à frente nas sondagens, nesta altura, a menos de uma semana das eleições, deixou de as ganhar. Um dado objectivo e eloquente. Não vejo como, independentemente das preferências eleitorais de cada um, se consegue imaginar uma conspiração colectiva para dar a vitória a uma força, ou conjunto de forças partidárias, em sondagens de instituições, ou empresas variadas e de diversa natureza. Sou pouco dado a essas fantasias. Os dados são claros. É evidente, consultando-se, ainda, o escrito de Pedro Magalhães, que a coligação, de acordo com os números dos estudos de opinião que vêm sendo publicados, perde 500 a 700 mil votos face ao que PSD e CDS somados obtiveram há quatro anos, numa penalização, ainda assim, estatisticamente considerável. E que o PS, ao longo da legislatura, nunca ultrapassou os 3% de avanço face a uma coligação de direita (liberal). Também no campo das sondagens, deve a racionalidade primar sobre o wishful thinking.

Sem sofismas (II)



Conversa recorrente, não só de café mas mesmo com e entre pessoas que trabalham na área da saúde, é a da falta de médicos e do poder da ordem dos médicos (numa espécie de relação causa-efeito). Ora, em realidade Portugal apresenta um rácio médico por cem mil habitantes que o coloca num patamar cimeiro na União Europeia (em 2013, tínhamos 426 médicos por 100 mil habitantes, 5º lugar na União Europeia). Assim sendo, a existência de um milhão de portugueses sem médico de família tem origem num problema que tem que ser procurado em outro lado. O médico Miguel Oliveira e Silva propunha na Sábado (nº594, 17 a 23 de Setembro de 2015): indicadores qualitativos e de produtividade individual no SNS; indicadores de comparação dentro do SNS que permitam escolher os melhores serviços (de consulta de esterilidade, de cirurgia ou medicina interna); directores de serviços em exclusividade, bem pagos; exclusividade para todos os que entrem no SNS por um mínimo de 5 anos; premiar os melhores com incentivos e subsídios; flexibilização horária sazonal; equipas de urgência fixas; reservas de camas hospitalares no Inverno "para acabar com a indignidade de macas nos corredores".

De acordo com este médico obstetra, "em plena campanha eleitoral, é assustador quão pouco a Saúde tem sido discutida".

Sem sofismas



O que correu mal era inevitável, o problema vinha de trás. Sim? Então como justificar a colocação de professores em Novembro, com aulas iniciadas em Setembro, no ano lectivo 2014/2015, quando por única e exclusiva vontade deste Executivo, se criou uma bolsa de contratação de professores, com uma quantidade absurda, incompreensível de critérios, lançando o caos absoluto no sistema? Em que medida isso vinha de trás? Em que medida os responsáveis eram/foram outros que não a equipa liderada por Nuno Crato? Como admitir que ninguém tenha sido responsabilizado, nem, tão pouco, os professores prejudicados verdadeiramente ressarcidos (de salários, de tempo de serviço, etc.)? O problema no Citius, no caso da Justiça, também era uma necessidade? Também era uma inevitabilidade? Voltando ao caso da educação, a prova de acesso para a docência, nos moldes apresentados, com as suas charadas, prova que alguém é (in)capaz para o exercício do professorado? E, na sua concreta formulação, essa prova era, de modo algum, inevitável? Só há debate público se ele for informado, com argumentos intelectualmente sérios. De outra maneira, é propaganda.

P.S.: no caso da Educação, como aqui fui escrevendo, no entanto, considero claramente positiva a reintrodução da cultura clássica - latim e grego - no sistema, desde tenra idade, bem como do inglês obrigatório no terceiro ano de escolaridade, ou a ponderação, quanto ao ranking das escolas, do factor sócio-económico das famílias para que a aferição fosse/seja séria (para cada escola/agrupamento).

domingo, 27 de setembro de 2015

Saldo migratório



Desde 1993 até 2011, o saldo migratório português foi positivo. Nos anos mais recentes, os saldos migratórios voltaram a registos negativos: são mais as pessoas que saem do país do que aquelas que nele entram. Foram 18 anos consecutivos de um indicador que mostra, de algum modo, a evolução pela qual Portugal passou, recordando, do mesmo passo, a turbulência que no segundo e terceiro anos da década de 90, do século passado, se registou em terras lusitanas (e em outras paragens).

Sentido da vida



Para Richard Taylor, "o sentido da vida está no nosso interior, não é atribuído do exterior"; o propósito da existência "é simplesmente viver, como for natural viver". A cada castelo construído - prestes a cessar na medida em que, em construção, se encaminha para o seu terminus -, outro se erguerá. Há castelos para construir e vontade de os construir e isso basta - escreve Taylor. A compulsão interna para fazermos o que fomos aqui postos para fazer, e para o fazer sempre, eis, para este filósofo, o mais perto que podemos encontrar de um Céu. Construir o castelo, não a utilidade do castelo, não o castelo pronto, não o saber do que será, amanhã, o castelo, todas as perguntas, aliás, podem ser canceladas, para este autor, mas o simples entregar-se a fazer o castelo e aí realizar-se sem mais, eis o sentido descoberto na pedra levada ao cimo da montanha, constantemente, por Sísifo.

a partir de Desidério Murcho (org.), Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida, Dinalivro, 2009, 33-46.

sábado, 26 de setembro de 2015

Ocultação, vazio e moralina




Fui reler o livro Mudar, com o qual Pedro Passos Coelho se apresentou ao PSD e ao país. Valia a pena, dizia-o para comigo mesmo, (re)considerar o que o autor escrevera, em 2010, antes da completa agudização da crise (em Portugal). À época, fiz recensão da obra na universidadefm. Aqueles que ouvem essas anotações semanais, escutaram, então, por um lado, o assinalar daqueles que considerei os principais tópicos da obra e, por outro, a minha própria valoração do que estava proposto. Como sempre, indicação rigorosa (objectiva) das ideias (por um lado); subjectividade (minha) na sua apreciação (por outro). Para quem considerava, como o autor desse já relativamente distante reparo, que se havia ido longe de mais nas práticas de um ultra-liberalismo à escala global, a conclusão era, então, clara: "o livro chama-se Mudar, mas do ponto de vista ideológico, é Mudar para que tudo fique na mesma", escrevi-o e disse-o aos microfones da rádio. Confirmei-o, agora, de novo: defesa inequívoca da concessão de gestão privada com vista a privatizações das unidades de Saúde (por oposição, por exemplo, Manuela Ferreira Leite, à luz de um paradigma social-democrata, nem a concessão privada considera defensável...quanto mais privatizações); defesa, claríssima, de um considerável aumento de propinas no ensino superior; plafonamento na segurança social; co-pagamento em diferentes domínios; defesa do modelo económico de inspiração liberal.
Isto para dizer o quê? Para dizer que uma das grandes falácias da propaganda em curso é pretender que muitas das medidas que colocaram em causa a protecção social dos mais frágeis se deveu às circunstâncias e contingências. A diminuição da protecção social do Estado deriva, bem antes, de uma determinada visão acerca do seu papel, uma visão plasmada em livro, preto no branco, e que nas propostas de revisão constitucional, ou nessa eloquente proposta de redução da TSU das empresas à custa dos trabalhadores - travada na rua por mais de um milhão de portugueses, entre os quais me incluí, como registei neste blog e nessa participação de cidadania na rádio - só não ficou à vista de quem não quer ver.
Mas há mais que merece atenção neste livro. Quem se der ao trabalho de o comparar, por exemplo, com o último publicado por Al Gore, percebe a esmagadora, a abissal diferença entre as ideias soltas do primeiro, muitas vezes pouco consistentes e fundamentadas, e uma preparação com muita literatura especializada sobre cada uma das áreas abordadas, do segundo. Passos Coelho, por exemplo, escreve, no campo do ensino: "Vou falar da Matemática que é aquilo de que entendo mais...". O sistema da ensino, tal como as outras àreas, não pode ser abordado, como é óbvio, num tom impressionista e sem muita literatura de suporte. Com considerações pela rama. Passos acha que está muito instalada a ideia de que é importante uma cultura geral ampla, mas não uma especialização. E depois os outros que sujem as mãos, atira. Quem diria?! Contactando-se, diariamente, com centenas de adolescentes, infelizmente, constata-se que pura e simplesmente não lêem. Não querem saber. Aos 14 ou 15 anos, a resposta, sucessivamente, tanto quanto a experiência empírica alcança, é a de que não lhes interessa um livro, como não prestam atenção a um jornal. Não vale a pena falar dos filmes que vêem, ou da música que ouvem. Passos parece, no bom estilo português, avançar para a media res: "nem superespecialização, nem uma cultura renascentista". Cultura "renascentista", ou, como também escreve, "humanista"?! Onde?! Lê-se e não se acredita.
Mas não é só isso. É que a saúde ou a educação têm como único prisma de abordagem, nesta visão do mundo, o económico. É, convenhamos, um tipo de posicionamento muito pobre e redutor. Passos, politicamente correcto, diz "aceitar" quem faz escolha pelas humanidades. Segue-se a adversativa. Que é, em si mesmo, como diriam os espanhóis, um poema. E, verdadeiramente, a antecâmara da moralina anti-humanidades ou gente não empreendedora que se seguiu a 2011. Apenas uma sub-espécie da moralina geral, com a substância do vazio.
Intransigência ideológica, superficialidade, moralismo. O Portugal que havia de vir tem um retrato prévio. Relê-lo é voltar a saber o que sabíamos. 

Às cegas



Ninguém duvidará que Francisco Louçã irá votar BE no próximo dia 4 de Outubro. Por isso mesmo, as suas palavras, esta noite, no comentário semanal na sic notícias, deviam levar a séria meditação da proposta com que este partido, bem como o PCP, se apresenta a eleições:

"O PCP e o BE têm, ainda, pouca proposta concretizada sobre como resolver, detalhadamente, as questões da dívida, ou do risco de uma pressão para uma saída do Euro e como se pode acautelar/proteger as poupanças, proteger a economia, mobilizar os recursos para a criação de emprego, de que forma. Faz falta uma esquerda mais capaz"

Dito de outra forma, temos partidos, com consideráveis intenções de voto - a julgar pelos estudos de opinião que vêm sendo publicados -, que querem preparar e levar Portugal à saída do Euro, sem conseguir explicar, minimamente, o dia seguinte a esse mesmo abandono da moeda única europeia. É um "vamos sair do euro e logo se vê". Como Francisco Louçã afirma, não se explica às pessoas o que será das suas poupanças, mas talvez 15% do eleitorado não veja o menor problema nisso. Por fim, o Professor de Economia regista que os partidos mais à esquerda não apresentam, com robustez e clareza, propostas para o emprego. Tudo visto e somado, estamos perante propostas de uma aventura sem preparação, uma alternativa pouco qualificada (como se percebe das palavras do próprio Louçã).

Ainda no seu comentário, no Tabu, Francisco Louçã deu conta de que existem, apenas, 56 pensionistas com reformas iguais ou superiores a 10 mil euros e que acima de 5400 há pouco mais de quinhentos. Em média, o milhão e trezentos mil pensionistas portugueses, do sistema público, recebem 336 euros. Nesta medida, o comentador qualificou de "aventura sem nome" o plafonamento proposto por Passos Coelho. Uma proposta não suficientemente escrutinada, levando, tal como no caso da esquerda extrema, a um pedido de cheque em branco para uma medida de um alcance tremendo. De um extremo ao outro do espectro político, pretende-se, pois, que as pessoas votem desconhecendo ao que vão.

domingo, 20 de setembro de 2015

K.


George Steiner, num texto de 1963 incluído em Linguagem e Silêncio, nota como já em 1958 se recensearam 1300 comentários e exegeses da obra, por sinal não demasiado extensa, de Kafka. Este, aparece aos olhos de Claudel como o grande escritor da época, do século, a par de Racine. Diferentemente da recusa alegórica, metafórica, parabólica, o Kafka de Steiner é o profeta do tempo do inumano que pressente (ou constata). Kafka morre em 1924. Os totalitarismos, e a (forçada) "colaboração" vítima-carrasco, antecipada em A colónia penal (os judeus irão cavar, literalmente, nos lager, a sua sepultura). O marquês de Sade é o padroeiro da nossa época, afirma, então, Kafka que, nos diários, reflectirá acerca da impossibilidade de não escrever, o escrever como tipicamente marcando o habitante de Praga também, mas ao mesmo tempo a impossibilidade de escrever, de captar, com a escrita, o indizível. Creio que esta impossibilidade última de comunicação perpassa, ainda, o conto na origem de Viver é impossível, ontem em cena no Rivoli, onde a disposição do chão em que assentavam os personagens remetia-me para o fragmento, para a possibilidade de ilhas, para a forma do aforismo em que Kafka se especializa. K. passou a ser marca registada.

sábado, 19 de setembro de 2015

Tacteando pelo mundo




Por entre fragmentos e ilhas. Um Rivoli cheio. É impossível viver, a partir de Descrição de uma luta, de Kafka [para se ler no Volume II, dos Contos, de Kafka, publicados pela Assírio e Alvim, com tradução de José Vieira Mendes]. Com João Lagarto e Sérgio Praia


O princípio das entradas múltiplas impede somente a entrada do inimigo, o Significante, e as tentativas para interpretar uma obra que na verdade se propõe apenas à experimentação.

O que interessa a Kafka é uma pura matéria sonora intensa, sempre em relação com a sua própria abolição, som musical desterritorializado, grito que escapa à significação, à composição, ao canto, à fala, sonoridade em ruptura para desprender-se de uma cadeia ainda muito significante.

Acreditamos apenas em experimentação de Kafka, sem interpretação nem significância, mas somente protocolos de experiência: “Não quero a opinião dos homens, procuro apenas propagar conhecimentos, contento-me em relatar” [Informe a uma academia]


in Kafka. Por uma literatura menor, de Gilles Deleuze e Félix Guattari.

[um livro que delimita o espaço do diálogo entre o homem e o devoto - "não te entendi e por isso estou feliz"; "se estás feliz é porque compreendeste" - como lugar de uma literatura menor, isto é, uma literatura minoritária em uma língua maior; um livro que nos fala de A metamorfose como lugar da não metáfora, do não simbolismo, numa escrita de hiperealismo, onde a a forma animal pode ser lugar de fuga e liberdade - face às hierarquias, às burocracias]

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O Rendimento Mínimo


A prestação social não contributiva Rendimento Mínimo Garantido foi criada, pelo governo português, liderado por António Guterres, em 1996. À época, a criação de tal mecanismo de combate à pobreza extrema, no nosso país, não resultou de um puro impulso voluntarista: ela correspondeu, antes, à concretização de uma Recomendação do Conselho Europeu, datada de 1992 (Recomendação do Conselho de 24 de Junho de 1992, relativa a critérios comuns respeitantes a recursos e prestações suficientes nos sistemas de protecção social - 92/441/CEE). Hoje, o sucessor do rendimento mínimo, o Rendimento Social de Inserção corresponde a 0,7% das despesas da Segurança Social.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Migrantes





1. O argumento pelas «fronteiras abertas»: não está demonstrado que a vida dos nacionais para cujo país os migrantes se dirigem se encontre pior pelo facto de estes ali passarem a viver; e, mesmo que algum prejuízo de aí adviesse, era necessário que este fosse superior ao do migrante que não acede ao país pretendido, para se poder obstaculizar a entrada deste (nesse território). Um argumento de Joseph Carens.

2.O argumento pelo controlo (de cidadania) dos migrantes: se fosse, exclusivamente, o migrante a decidir acerca da cidadania tal não seria verdadeiramente democrático. A decisão ficaria nas mãos de uma pessoa só, em vez da multiplicidade e diversidade de pessoas e correntes existentes no interior de uma comunidade. O argumento de Martha C. Nussbaum.

3. Faz todo o sentido: Um controlo, por parte dos Estados, a quem estão acometidos os desenhos normativos da regulação destas matérias, em função, por exemplo, da segurança nacional (registo criminal, etc.) ou questões de saúde (ex: epidemia da gripe das aves, etc.).

4. A diferenciação habitual (pelo menos, em termos europeus): os imigrantes têm acesso aos direitos fundamentais (liberdade de expressão, de pensamento, a liberdade religiosa, os direitos de personalidade, mas também os direitos sociais como o direito à saúde, educação, segurança social). Já quanto a direitos políticos, há uma diferença, habitual, substantiva, entre cidadãos e migrantes.

5. Um acquis: a) o direito dos Estados de controlo dos seus fluxos migratórios; b) os efeitos positivos das migrações nas contas públicas; c) o efeito positivo das migrações, em geral, nas sociedades de destino, de origem e para os próprios migrantes, quer do ponto de vista material, quer do ponto de vista imaterial, enquanto elemento enriquecedor da diversidade cultural. A partir de Paul Collier.

6. Países com sistemas migratórios mais desenvolvidos: Austrália, Canadá, Nova Zelândia, EUA. Têm políticas migratórias com grande concepção e vários instrumentos administrativos a acompanhar.

7.Sistema de pontos: O primeiro país a conceber um sistema de pontos foi o Canadá, em 1967. O sistema procura antecipar a provável contribuição a longo prazo do migrante para a sociedade de acolhimento e sua economia. Factores (pontos) a ponderar: i) idade; ii) percurso académico; iii) conhecimento da sociedade de acolhimento e sua língua; iv) experiência de trabalho. Permite, nos critérios de selecção, ser claro, transparente e não discriminatório. Pode ser conhecido de antemão. Mecanismo flexível que permite contemplar vários factores e fazer variar o seu peso específico.

8. Pedra angular no tratamento de migrantes: a consideração da dignidade da pessoa humana. A ninguém, portanto, podem ser denegados direitos fundamentais, em função desta mesma trave-mestra. Já ao nível dos direitos políticos, faz sentido que os migrantes - nomeadamente, os que não se pretendam instalar, de modo permanente, num dado território/Estado - possam ter uma consideração diferente. No entanto, os migrantes, a sua posição, deverá ser a antecâmara da cidadania. Não devemos ter leis dirigidas a quem nelas - ainda que indirectamente, em democracia representativa - não participa (na elaboração destas). No taxation without representation. Seyla Benhabib tem participado nesta discussão acerca de quem compõe, hoje, o demos. Para que não se repita a experiência grega (antiga; sem mulheres, escravos ou estrangeiros na polis).

9. O elogio de Portugal: a separação de entidades que estão vinculadas à questão migratória, mas numa óptica de fiscalização e outras a esta adstritas mas numa lógica de integração e acolhimento tem merecido elogios internacionais. Porque esta separação suscita a confiança dos imigrantes (nomeadamente, sabendo que tem quem, verdadeiramente, os acolha, sem essa hospitalidade ser algo de travestido para um enfoque policial - esse pertence a uma outra entidade e o imigrante percebe-o).

10. Os pobres dos pobres: "os migrantes de países pobres não são necessariamente os mais necessitados, uma vez que estes não têm sequer os meios para tomar a decisão de emigrar. Essa decisão vem a ser tomada por quem tem recursos suficientes, ainda que muito escassos, para mudar de país, algo que não se encontra ao alcance de todos" (p.27, Gonçalo Matias).

11. A novíssima migração: representada por jovens quadros, a trabalhar em multinacionais, que fazem o percurso Norte-Sul, em sistema de grande rotatividade, dadas as oportunidades, muitas vezes muito bem remuneradas, em países pobres ou emergentes. De aí o fenómeno de considerável emigração, também, em população de países ricos - neste tempo de globalização.

12. Falácias sobre imigrantes: "a ligação entre imigração e terrorismo é largamente despropositada já que não só não há relação entre ambos os fenómenos como a experiência demonstra que, em alguns casos, os ataques terroristas são perpetrados por cidadãos nacionais, como exemplos recentes no Reino Unido o comprovam" (p.25, Gonçalo Matias).

13. Falácias sobre imigrantes (II) : "o argumento financeiro [contra o reconhecimento de direitos sociais aos imigrantes ilegais] assenta, normalmente, na convicção de que os imigrantes ilegais não pagam impostos e, assim, estariam a beneficiar de serviços suportados pelos nacionais e pelos imigrantes legais. Esta convicção não corresponde, todavia, à realidade. Na maior parte dos sistemas fiscais, os imigrantes ilegais pagam impostos. Desde logo pagam os impostos de consumo como o IVA, exactamente do mesmo modo que todos os consumidores num determinado país. Depois, quanto aos impostos sobre o rendimento, é também possível que o seu pagamento ocorra por via da retenção na fonte na medida em que as autoridades fiscais não procedem ao controlo do estatuto migratório dos sujeitos passivos. Finalmente, na utilização de serviços públicos os imigrantes ilegais pagam todos os tipos de tributos e taxas que são devidas como contrapartida da prestação desses serviços. Assim, não corresponde à verdade que os imigrantes ilegais se encontrem numa situação de «imunidade fiscal» em resultado da sua situação perante o regime migratório, pelo que o argumento financeiro não pode ser considerado decisivo na negação de direitos sociais aos imigrantes ilegais" (p.42, Gonçalo Matias).

14. Falácias sobre imigrantes (III): a experiência vem demonstrando que os Estados são incapazes de controlar, menos ainda eliminar, a imigração ilegal. Há cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais nos EUA.

15. Um caminho em tempo de globalização: "seria possível estender aos imigrantes um conjunto de direitos humanos e alguns direitos de cidadania, como o direito de voto, de maneira que, simultaneamente reconhecesse direitos de cidadania sem atribuir o estatuto de cidadão. Isto permitiria atribuir direitos aos imigrantes que seriam próprios dos cidadãos sem os integrar definitivamente na comunidade nacional, o que seria mais consentâneo com uma época de globalização em que as pessoas estabelecem elementos de conexão com diversos Estados e sem estabilidade temporal. Não existe um perfil único de migrante. Há pessoas que migram para se estabelecer e criar família e outras que migram temporariamente para um trabalho ou tarefa específica (...) Nenhuma resposta é adequada para todos" (p.52, Gonçalo Matias).

16. O regresso de jovens emigrados: Taiwan e a Coreia do Sul investiram fortemente no regresso dos seus jovens quadros expatriados, alterando o seu perfil migratório na última década.



[a partir de Gonçalo Saraiva Matias, Migrações e Cidadania, FFMS, 2014; Gonçalo Saraiva Matias é doutor em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, investigando e ensinando na Universidade Católica Portuguesa, na Faculdade de Direito (Lisboa), tendo defendido a tese de doutoramento The path to citizenship: towards a fundamental right to a specific citizenship. Realizou investigação na Georgetown University Law Center. É professor convidado na Washington University na St.Louis Law School. É assessor para os Assuntos Jurídicos e Constitucionais da Casa Civil da Presidência da República]

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A legislatura do jas-mim



1.Em Setembro de 2011, começava este blog. Nesses dias primeiros, contava a expectativa - e o comentário - acerca do Anel de Nibelungo, de Wagner, na Casa da Música.

2.Termino, aqui, uma etapa, neste blogar, com uma outra ópera, Giordano Bruno, que no passado Sábado me levou ao mesmo local para, entusiasmado, transpor uma época e determinados personagens - que sempre que assimilados a símbolos tendem a perder a complexidade que caracteriza as pessoas reais que foram; e sobre o que, hoje, a História da Filosofia regista acerca do processo de Bruno demos notas em Agosto - e poder tornar cénica uma ambição que não pode ser senão, tenho disso consciência, um work in progress: ser um homem livre.

3.Talvez dos elogios de que mais tenha gostado, por parte do júri, na defesa da tese que realizei este Verão foi a referência à "absoluta honestidade intelectual" com que li e tratei cada autor, "respeitando sempre o seu pensamento". Com autores de proveniências e filiações diversas (nalguns casos, divergentes) essa era uma exigência indeclinável: antes de concordar ou discordar, antes de comentar, era necessário expor e compreender um pensamento, um autor. Se o havia, de algum modo, seleccionado, convocado ao texto, era necessário tratá-lo com a devida consideração e respeito.

4.Assim, também, neste espaço. Procurei que aqueles que me pareceram os principais contributos para o espaço público português (europeu) fossem devidamente recenseados. Só depois comentados. Foram quatro anos intensos. Havia demasiada pré-compreensão, pouca realidade. Houve vasta investigação sobre as causas da crise, houve muitos livros e estudos, quisemos que quem por aqui passasse pudesse não ter acesso ao repetir do que era hegemónico no complexo mediático, mas que estava nas livrarias e que tantas vezes nos mostrava como as coisas estavam longe de poder esgotar-se nos simplismos bacocos ditos por preguiça.

5.É preciso retirar consequências de leituras com as quais concordamos. Byung Chul-Han falou-nos no empresário de si próprio, no escravo de si próprio que continua a sugar-se, reclamando mais de si, e como esse trabalho nas redes sociais pode ser o prolongamento dessa realidade. Tomar como obrigação o escrever diário de um blog, a sós, colocando nele, desejavelmente (mas, certamente, falhando várias vezes nesse objectivo), exigência, pode ser esse caminho louco. Mas fica, de outra sorte, um contributo cívico e um compromisso.

6.O respeito por teses diversas não significou uma imunidade de tipo tecnocrático - a colocação acima do bem e do mal - nos debates públicos: apenas derivou da necessidade de ouvir múltiplos registos, vozes, confrontar o pensamento de outros com o lugar da nossa proveniência. Procurar o rigor. Mudar de opinião, se necessário. Não ficar pelo que apenas corrobora o que pensamos. Tentar uma aproximação com um maior naipe de instrumentos ao real. Mas sem nunca obnubilar uma inscrição numa dada tradição (cristã/católica) e, em termos políticos, nesse cruzamento que deu tão bons resultados nas décadas que nos precederam, "a banalidade do bem" (Tony Judt) social-democrata e a democracia-cristã. Acredito, convictamente, na sabedoria plasmada na Doutrina Social da Igreja. E entre os autores de filosofia política, o "social-democrata tranquilo" (como lhe chamou Luis M. Faria) John Rawls (como o economista e filósofo Amartya Sen) têm sido inspiração. O agradável disto é que os que lêem e conhecem quem aqui escreveu sabem que é, genuinamente, assim, e é de há vários anos, bem antes da crise, portanto (como se documenta, de resto, em registos de colaboração com a imprensa).

7.Deixei aqui, em 2011, um escrito (já com uns dois ou três anos) que continha a minha perspectiva sobre o que devia ser a cidade. Quer em termos globais, quer a concreta cidade de Vila Real. Neste Verão, deixei neste blog, uma actualização - já sem o local - do que penso e de como vejo vários dos desafios do mundo em que vivemos.

8.Como conta várias vezes Steiner, contava-se a piada sobre os judeus de que aguentavam a pior vida imaginável para lerem o jornal do dia seguinte. A curiosidade, o gosto pelo conhecimento é, de facto, um grande combustível. Continuarei apaixonado pelo quotidiano, seus estranhamentos, mistérios, maravilhas.

9.Apenas deixo o ritmo frenético dos posts diários. Poderei vir, aqui, ou a outro lado, fazer uma anotação, um comentário, deixar um dado, uma sedução. O blog deixa de emitir 24 horas por dia, isso é seguro.

10.Obrigado por terem passado por aqui.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Um democrata-cristão confessa-se


  • Ensaio de Diogo Freitas do Amaral para a VISÃO nº 1175, de 10 de setembro de 2015


Em quem votar?

Mas há que ser pragmático: justiça social em democracia e na Europa, hoje, só com o PS. Como disse Churchill, "às vezes é necessário mudar de voto ou de partido, para não ter de mudar de princípios"

Passos Coelho conseguiu, é verdade, alguns resultados económicos positivos: há que reconhecê-lo. Mas a que preço?
Cortou salários e pensões. Levou inúmeras empresas à falência ou a grandes despedimentos. Cortou no acesso à saúde e às prestações sociais. Aumentou muito mais do que o previsto o flagelo do desemprego. E, mesmo assim, não conseguiu atingir, em maio de 2014, os principais objetivos iniciais do "Memorando" de 2011 - nem na dívida pública, nem no défice orçamental, nem no crescimento económico, nem na descida do desemprego...
Será verdadeiro o argumento de Passos, segundo o qual, se o PS for agora para o Governo, voltaremos, dada a tradição despesista dos socialistas, ao desgoverno de 2011?
Não é. Primeiro, porque a verdadeira tradição do PS tem sido a de corrigir os excessos de outros que ocuparam o poder antes dele: foi assim duas vezes com Mário Soares (1976-78 e 1983-85) e foi assim nos primeiros tempos de José Sócrates, que entre 2005 e 2008 fez baixar o enorme défice orçamental de Santana Lopes, de quase 7% do PIB para menos de 3%!
Em segundo lugar, a argumentação de Passos Coelho é historicamente errada: a principal causa do nosso trambolhão em 2011 foi a crise económica mundial que começou em 2008-2009; como é improvável que ela se repita na próxima legislatura, é igualmente improvável que possamos voltar à situação de 2011. Aliás, Portugal não tropeçou sozinho: também sofreram grandes crises a Grécia, a Irlanda, a Espanha, Chipre e, fora da União Europeia, a Islândia, para não falar da Itália.
Eis assim, posto a nu, o principal defeito do atual primeiro-ministro (PM): manipular os números, para poder fugir à verdade plena, sobretudo através de omissões e meias verdades.
Como democrata, também não gostei nada do estilo neoautoritário do PM, que aos poucos conseguiu controlar quase todos os órgãos da comunicação social. E sustento que foi mesmo antidemocrático fazer repetidas e graves acusações ao Tribunal Constitucional, o que nunca tinha acontecido desde que ele existe, há mais de 30 anos...
Como democrata-cristão, chocou-me e indigna-me a falta de sensibilidade social desta direita neoliberal, que conscientemente tributa mais o trabalho do que o capital, e que pretende resolver todas as crises à custa das classes médias - sem as quais não pode haver Democracia (já Aristóteles o percebia). Fiquei realmente estupefacto com a proposta de alteração da TSU, em 2012, na qual Passos Coelho revelou a sua verdadeira face: tirar rendimentos aos trabalhadores para os entregar aos empresários. É ter a injustiça social como objetivo!
Passos também se gaba da "sua" estabilidade governativa: mas não esqueçamos que, em três anos, perdeu Victor Gaspar, Miguel Relvas, Álvaro Santos Pereira e Miguel Macedo, além de numerosos secretários de Estado.
Bem pior do que isso, alienou a estrangeiros quase todas as melhores empresas portuguesas, feitas por nós (capitais, técnica e trabalhadores portugueses): a EDP, a REN, a TAP, a PT, os CTT, a CIMPOR, a ANA, etc.. E acha que fez bem! Quer também vender para fora o Novo Banco, depois de ter deixado cair (sem qualquer preocupação, e sem uma cabal explicação ao País) o maior e mais antigo banco privado português, quando o próprio Presidente Bush (filho) salvou com dinheiros do Estado, em 2008, vários bancos, companhias de seguros e a Chrisler.
Tão-pouco foi edificante ver o desprezo público de Passos Coelho pelo CDS - sem o qual ele nunca teria sido primeiro-ministro! -, até ao dia (já em 2015) em que concluiu pelas sondagens que ia precisar outra vez do CDS, logo transformando arrogância e humilhações em sorrisos e palmadinhas nas costas. Que baixeza!
Quanto ao PS - a que nunca pertenci nem tenciono pertencer, pois sou democrata-cristão -, merece-me, apesar de várias diferenças ideológicas importantes, mais simpatia do que o atual PSD, porque pretende caminhar no sentido de uma maior justiça social, sem quebra dos compromissos europeus assumidos por Portugal.
Se o PSD foi, e é, o partido da austeridade acima de tudo, o PS apresenta-se (e bem) como o partido do crescimento económico e da criação de emprego, dentro dos necessários equilíbrios financeiros.
Já o disse e repito: não há perigo de regresso a 2011, porque o Lehman Brothers não vai falir outra vez; porque a União Europeia está hoje melhor apetrechada para controlar crises sistémicas; e porque os partidos políticos aprendem com os seus próprios erros.
O que podemos razoavelmente esperar do PS, liderado pelo experiente, sério e democrata António Costa?
No plano político, o respeito pela Constituição e pelo Tribunal Constitucional.
No plano económico, o arranque do crescimento pelo aumento da procura interna, já que o investimento continua retraído e a procura externa é por definição instável.
No plano financeiro, é previsível o rigor imposto pelo Tratado Orçamental europeu, mas com as margens de flexibilidade que nele existem, mais as que podem e devem ser negociadas com inteligência e tenacidade.
No plano social, confia-se no respeito pelos direitos adquiridos dos reformados, claro, e num vasto conjunto de medidas de emergência para apoio às famílias mais carenciadas: aspeto crucial. Entretanto, a sustentabilidade da Segurança Social deve ser estudada muito a sério, para não acabar de vez a esperança dos jovens Portugueses no futuro do seu país.
 No plano da Educação, da Justiça e da Saúde, há que restabelecer a ordem no caos, e não deixar que a mania das reformas afete a continuidade dos serviços públicos essenciais.
No plano cultural, enfim, aguarda-se que de uma vez por todas seja possível definir prioridades nacionais - pois não há dinheiro para tudo -, mas evitando os desastres colossais, como por exemplo o do megalómano edifício do Museu dos Coches.
Não espero milagres. Já não acalento muitos sonhos. Sei mesmo que vou discordar de algumas medidas que o PS teima em querer fazer suas, e que melhor seria deixar para pequenos partidos marginais.
Mas espero - e exijo - que o PS mantenha o código genético que lhe imprimiu Mário Soares: Democracia, Europa, Estado Social. Tudo numa linha moderada de progresso, e nada numa linha radical de regresso ao Estado Liberal - hoje infelizmente protagonizada pelo PSD, que não nasceu com essa vocação. Onde paira o espírito social e progressivo de Sá Carneiro e dos outros social-democratas que o acompanharam?
Se houvesse uma verdadeira AD, de caráter vincadamente social e progressista - como a que fizemos em 1980 -, não seria com certeza necessário que tantos sociais-democratas e democratas cristãos (como eu) tivessem de votar nos socialistas.
Mas há que ser pragmático: justiça social em democracia e na Europa, hoje, só com o PS. Como disse Churchill, "às vezes é necessário mudar de voto ou de partido, para não ter de mudar de princípios".

sábado, 5 de setembro de 2015

Ir ao que importa


A pré-campanha, as sondagens, os acontecimentos surpreendentes parecem, cada vez mais, dar razão a Marcelo Rebelo de Sousa quando este prognosticou que uma vitória de António Costa seria "um milagre". A dificuldade política de posicionamento do PS é iniludível: a) rompendo absolutamente com a política até agora seguida, seria confrontado com o resultado grego; b) não se afastando suficientemente dessa mesma política, é acusado de ser mais do mesmo e, assim, de ser preferível o original à cópia. A isto, junta-se o elefante no meio da sala: José Sócrates
O problema dos cartazes, ao fim e ao cabo, apenas ilumina esta imensa dificuldade: eles oscilaram entre a absoluta denúncia, em discurso directo (mais ou menos...), dos males da austeridade, com palavras carregadas e a placidez de uma confiança que nada acrescenta. O cenário macro-económico, o programa socialista, procura, na reposição de alguns mecanismos de protecção social ou na penalização do recurso ao precariado pelas empresas, atravessar essa frincha de uma porta que à distância - e a grande maioria do eleitorado é de longe que vê - parece fechada. E explicar a subtileza da alquimia de todas as medidas que, combinadas, farão, finalmente, tcharam, também não é para meninos. Um caminho muito estreito, de facto, num momento em que como bem diz e escreve Pacheco Pereira, as televisões se fartaram dos pobres e há demasiados invisíveis na nossa sociedade. Ainda há meses Passos Coelho se lamentava de não ter baixado mais os custos do trabalho e, com efeito, não custa adivinhar o que pensará caso a proposta, que atingiu uma violência social enorme durante três anos, for sindicada - nada travará a "receita" do "progresso". E por muito social que agora tenha na boca, não era propriamente social-democrata o Mudar que escreveu, ou o projecto de revisão constitucional que apresentou. Uma decisão quanto ao voto numas eleições não se faz, a meu ver, com recurso a pontuações num concurso paupérrimo de pré-campanha ou campanha eleitorais, mas no juízo do que foram quatro anos de governação e no que se propõe para diante (de todos os lados e facções). É preciso sair do longo ruído destes meses finais até Outubro para uma decisão não folclórica - a frase A, o cartaz B, o dichote C - e uma manifestação de cidadania adulta e madura. O resto, é ver passar os comboios e comentar a arruada de cada apeadeiro.

Forças de segurança



Apenas 6% dos membros da Guarda Nacional Republicana (GNR) têm licenciatura; 41% completaram o ensino Secundário; 34%, o 9º ano. A idade média dos militares da GNR é de 38 anos. Há um total de 22349 efectivos, dos quais 92% homens. Na Polícia de Segurança Pública (PSP), há um total de 21825 efectivos. 34% dos oficiais possuem licenciatura. A maior parte do contingente tem o 12º ano. Os homens são 90% do total de efectivos. Metade do efectivo tem entre os 45 e os 54 anos. "A Escola Prática de Polícia também não dá resposta - há uma década, os cursos tinham, em média, mil alunos; agora são três centenas. Há 2218 lugares por preencher na carreira de agentes, 728 na de chefe, e 663 na de oficial. "Nos últimos 14 anos, 60 militares da Guarda terão posto termo à vida, uma média de 4,3 pessoas por ano. Muitos deles fazem-no em postos da GNR e usam arma de serviço". 6,7% dos militares da GNR já tentaram suicidar-se e, num inquérito recente, 70% relataram que o trabalho os afecta psicologicamente.

[dados presentes na peça de José Plácido Júnior e Vânia Maia, na Visão nº1174, 3 a 9 de Setembro de 2015, pp.52-59]

Anotações à margem (II)


No seu livro Misericórdia, Walter Kasper escreve que A era secular, de Charles Taylor, é "uma obra modelar" (nota de rodapé 21, p.14). E lamenta a falta de atenção da teologia dogmática/sistemática ao tema da misericórdia (colocada de lado de entre os atributos de Deus): "Trata-se aqui unicamente de mostrar que, no marco dos atributos metafísicos divinos, apenas existe lugar para a misericórdia, a qual não resulta da essência metafísica de Deus, mas sim da sua autorrevelação histórica" (p.22).

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Anotações à margem


A partir do ano 180, subitamente, os Evangelhos são tratados pelos nomes pelos quais hoje os conhecemos (Marcos, Mateus, Lucas, João); até então, eram citados anonimamente.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Naúfragos


O que fizeste ao teu irmão?, João Miguel Tavares.

Conselhos ao (futuro) príncipe




Maquiavelismo (muito) antes de Maquiavel. Quinto Túlio Cícero (será? os estudiosos dividem-se quanto à autoria da carta, e respectivos conselhos eleitorais, que sustentam este livro, como explica, na Introdução, Philip Freeman), procura advertir o irmão, Marco Cícero, um brilhante retórico e advogado de causas impossíveis, sobre o que deve fazer para ganhar a eleição para Cônsul (cargo mais elevado na República), na grande Roma. Mesmo sem sangue azul, meritocracia, afinal, a funcionar em 64 a.C., Marco Cícero é eleito (o último cidadão a ser eleito cônsul, não pertencendo à classe senatorial, havia alcançado tal honra 30 anos antes). Mesmo que, anos mais tarde, seja assassinado, como o irmão, e a República ceda lugar ao Império.
Intemporais são os homens e as mulheres que se vêem retratados neste escrito clássico, a propósito de um metier que está longe de ter mudado assim tanto mais de 2070 anos depois. Entre a scientia e ars políticas, entre o divertido e o rigorosamente útil para as campanhas vindouras:

nº42. Diga-se, em primeiro lugar, que nada impressiona tanto o eleitor médio como o facto de haver um candidato que se lembra dele, por isso tens que trabalhar todos os dias para te lembrares dos nomes e das caras das pessoas.
Tu possuis, meu irmão, qualidades maravilhosas, mas tens de adquirir as que te faltam e fazer parecer que nasceste com elas. Tens muito boas maneiras e és sempre cortês, mas tornas-te, por vezes, um tanto hirto. Precisas, urgentemente, de aprender a arte da adulação - que na vida de todos os dias é uma coisa vergonhosa, mas durante uma campanha eleitoral é essencial. Não há desculpa para o facto de utilizares a adulação para corromper um homem, mas é aceitável que uses uma certa insinuação como modo de criar adeptos políticos. Porque um candidato tem que ser um camaleão, adaptando-se a cada pessoa que encontrar, mudando, se necessário, de expressão e de discurso.

[para António Costa]

nº43. (...) Durante a campanha não há tempo para férias. Tens de estar presente na cidade e no Fórum e falar constantemente com os eleitores, um dia e no dia seguinte e no noutro e no noutro. Não permitas que se possa dizer que deixaste de dar a maior atenção a qualquer assunto durante a campanha.

[para a "humanização" de um candidato, Caras, Vip's, faicebook...)

nº44. (...) As pessoas gostam de ouvir dizer que és generoso para com os teus amigos em eventos como banquetes, por isso tu e os teus amigos têm de fazer celebrações para as quais convidam os dirigentes das tribos (...) Tens, evidentemente, de manter abertas as portas da tua casa, mas tens de abrir sobretudo o rosto e a expressão, que são considerados as janelas da alma.

[as regras do ofício]

nº47. (...) Afinal de contas, se um político só fizesse as promessas que sabia que ia poder cumprir, não granjearia muitos amigos (...) O não-cumprimento das promessas dissolve-se muitas vezes numa nuvem de alterações de circunstâncias, de modo que a insatisfação que provoca contra ti acaba por ser mínima.

nº48. Se faltares a uma promessa, as consequências são incertas e o número de pessoas afectadas é reduzido. Mas se te recusares a prometer alguma coisa, as consequências são certas, e a recusa provoca imediatamente a zanga de um número muito maior de eleitores (...) Por isso, é melhor deixar algumas pessoas aborrecidas contigo no Fórum quando as desiludires do que teres uma multidão à porta de casa quando te recusares a prometer-lhe aquilo que ela quer.

[tradução de Pedro Saraiva, Gradiva, 2015]

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

"Atemperados"


Chamo «atemperados» aos que se atemperam às circunstâncias do tempo e do meio. São os piores, porque são mistos - têm três doses da bílis azeda dos três partidos [absolutistas, republicanos, atemperados]. São a mentira convencional - a máscara. Déspotas para zelarem a liberdade, livres para glorificarem o despotismo.

Camilo Castelo Branco, Perfil do Marquês do Pombal, Prefácio, Aletheia, 2015 (reedição)

Debate? Qual debate?


Não houve debate entre Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, ontem, na RTP Informação. Seis minutos a encher chouriços com diferenças inexistentes entre PCP e BE ("temos uma história diferente", "temos um modo diferente de ver as coisas", "não são as diferenças que interessam os portugueses", "vamos centrar-nos no que interessa ao país"). Mais do que seis a bater em Costa (maxime, despedimento por conciliação como uma das medidas ínsitas na proposta socialista). É verdade que há medidas liberais (na economia) no programa do PS, mas não se esperaria que o programa do PS fosse totalmente ao encontro das pretensões da CDU e do BE. A meu ver, é frágil, por isso, como argumentação, para fugir a um contributo governativo, dizer-se que há esta ou aquela medida de direita, no programa socialista que, logo, não poderá contar com estes partidos para um governo. Além de frágil, parece-me um tipo de argumentação falaciosa. Porque seleccionar duas ou três medidas a la carte, ignorando por completo outras que são de esquerda, no mesmo programa do PS, significa não ousar o exercício de compromisso que as coligações subentendem e que se traduziria na esperada tentativa de PCP e/ou BE, integrantes de um futuro governo, de eliminar/mitigar/compensar medidas que considera erradas para a economia e sociedade portuguesas. O argumentário expandido só teria provimento se o programa fosse completamente escrito à direita (como não é). O entorse no sistema partidário português permanece e não se deve à direita. De resto, com a evolução do pensamento de Francisco Louçã para uma aproximação às teses de João Ferreira do Amaral, no que ao euro (saída de Portugal do) diz respeito, também as diferenças existentes entre PCP e BE, nesta matéria, parecem hoje desfeitas. Para quê duas forças partidárias que defendem exactamente o  mesmo? Dupond e Dupont, no arranque morno, muito morno, dos debates para as legislativas.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Desilusão (II)


A mais recente edição do Courrier Internacional é dedicada à II Guerra Mundial, de cujo fim se cumprem 70 anos. Na secção dedicada a cinematografias dedicadas à II WW, lugar, também, para Saló ou os 120 dias de Sodoma: "último filme de Pasolini e manifestação de uma violência sem precedentes - e nunca ultrapassada - na história do cinema".

Mestres (VII)



Dizer, como disse Steven Weinberg, neste ciclo de entrevistas, que a única consolação é saber-se que não há consolação, é, para o historiador Simon Schama, é procurar ser o melhor [o campeão] dos derrotados (uma fala de Seinfeld). A discordância do agnóstico, perante tal enunciado, é completa.
O rapaz formado no judaísmo ortodoxo - onde aprende, até hoje, a oração como forma de ligação com as gerações que o precederam, lugar de encontro, pois; ainda agora, no Yom Kippur pode rezar a kaddish, que se reza apenas em circunstâncias excepcionais, dedicada ao pai; nos funerais judeus ortodoxos são proibidas flores, para que quando o Messias voltar, a saída dos túmulos se faça sem percalços para os braços do Criador -  encontra beleza na imperfeição, nas ruínas, na confusão (a rapariga estrábica, mas bonita, que lhe afaga o cabelo, após uma queda sua, no início da adolescência, eis o exemplo perfeito de combinação entre imperfeição e beleza). Não no perfeito, no gélido mármore, mas na macieza do último Ticiano.
A História rejeita a "tirania do presente", permite a afinidade com outros tempos e culturas, torna complexo um pensamento que, sem ela, permanece infantil. Da História vem consolação.
Ela que, por sua vez, nunca se encontra na morte de um amigo. Aí, não há quartetos de Beethoven que valham (o seu efeito é, precisamente, aumentar a tristeza). Também não há consolação possível para Auschwitz. 
Schama gosta de música enérgica, onde assoma vitalidade, mesmo quando não esperança. Fidélio, de Beethoven, puxa pelo historiador, assim como Schubert. Para um pouco destro em trabalhos manuais, para qualquer trabalho manual, até o cozinhar pode constituir ocasião de consolo.