domingo, 30 de agosto de 2015

O FCP à beira de um ataque de nervos


Um portista olha para o onze e parece, finalmente, encontrado um meio-campo com um dez (em condições). Até que enfim, Brahimi ao meio. Mas eis que descobre, nos primeiros minutos de jogo que, tendo ganho um dez, viu desaparecer o oito. Um duplo pivot, com Danilo e Imbula, é muito defensivo, para mais jogando em casa, na liga portuguesa (sem jogar com outro grande). Logo se percebe o maior defeito do sistema táctico: a equipa fica partida, sem equilíbrio entre sectores. O jogo é caótico, reina a anarquia. O FCP pratica experimentalismo táctico não no início de Julho, mas no final de Agosto. Setembro promete. Entra André, sai Varela (após meia hora indecente), o meio campo mais preenchido, a quatro, praticamente. Até se chegar à fórmula final, com um seis e dois interiores como a equipa está habituada, houve o record de quatro meios-campos diferentes, por parte do FCP, em 60 minutos. Merece o guiness. O desnorte é completo e só um frango (do adversário) sossega as bancadas. 
Lopetegui, tendo começado mal a época passada, num 4x5x1 estéril que não aproveitou o incrível momento vivido, então, por Brahimi - a que o argelino nunca mais acedeu -, conseguiu, a partir de Bilbau, onde o FCP fez o seu mais completo, equilibrado, melhor jogo da última temporada, encarreirar a sua equipa para momentos de belo futebol e uma Champions como deve ser. O campeonato falhou na Madeira, no Restelo, mas, mais ainda, em arbitragens que ficam para a história da mentira. Lopetegui, ao contrário do que muitos adversários pretenderam, branqueando, estes, os Bruno Paixão, os Manuel Mota, os Jorge Ferreira, os João Capela deste campeonato, não foi o pior treinador do mundo. Não por acaso, de entre todos os portistas com assento nos jornais, não se conhece um caso que tenha pedido a cabeça do treinador no final da época. Mas o certo é que o FCP não ganhou e o caso, entretanto, já mudou de figura (leia-se Paulo Teixeira Pinto, ABola, 29/08/15).
O Dragão assobia aos cinco minutos de jogo. O treinador assobia a SAD ao deixar Cissokho fora dos convocados e a SAD parece assobiar o técnico ao deixar por contratar um médio ofensivo. Tello parece assobiar todos ao deixar de acelerar. A desconfiança está instalada. O público parece ter deixado de acreditar em Lopetegui, e, mais importante e fundamental, este parece desconfiar, agora, de si próprio. Dificilmente estará no Dragão até ao fim da época. Nos últimos anos, capaz de segurar as dificuldades e assegurar uma transição rápida, conhecendo bem o nosso campeonato e impondo um pragmatismo necessário nas ocasiões mais difíceis, esteve Jesualdo Ferreira. E o Dragão, Professor, é bem mais interessante do que o Egipto.
Note-se, sempre, que bem joga o Estoril de Fabiano Soares. Assim fossem todos os clubes, tracção à frente e campo inteiro para jogar, e teríamos um excelente campeonato. Não são necessários autocarros para se estacionar com classe no relvado.
A questão presidencial também não deixa de pairar sobre as Antas.


Não havia necessidade



Ganhe quem ganhar as próximas eleições legislativas, o Estado de Direito e a separação de poderes vão manter-se, felizmente, em Portugal. Vir colocar isto em causa, aludir à possibilidade de isso estar em jogo quando se votar a 4 de Outubro, coloca o mais sofisticado dos intelectuais ao nível sectário mais primitivo. Não havia necessidade, Paulo Rangel.

sábado, 29 de agosto de 2015

Sem demagogia


Neste contexto, e à maneira de parêntesis, permita-se-me manifestar o meu acordo com a lei aprovada no Parlamento quanto ao aconselhamento e à taxa moderadora para quem aborta. Estou à vontade, porque, aquando do referendo, num texto muito citado por adeptos da despenalização, no qual, distinguindo claramente entre o plano jurídico-penal e o moral, perguntava se, no seu drama, em lugar de uma punição penal, do que a mulher precisa não é sobretudo de solidariedade, também lembrei - e o primeiro-ministro de então afirmou que se atenderia às boas práticas de outros países - o que se passa na Alemanha: para poder abortar legalmente, a mulher, sem prejuízo da sua autonomia, terá de apresentar um comprovativo de que passou por um centro de aconselhamento (Beratungsstelle). Esses centros devem ser plurais e reconhecidos. Por outro lado, como justificar a isenção de taxa moderadora?

Anselmo Borges, DN, 29/08/15

Desilusão


Para acabar no Saló ou 120 dias de Sodoma, que é um filme de uma violência e negrume extremos, acho que é preciso haver uma grande desilusão.

Miguel Gomes, em entrevista à revista Tabu

O novo homem


O homem quer apenas viver, sem uma grande ideia. Isso nunca aconteceu na vida russa, nem a literatura russa conhece isso (...) Ruíram todos os valores, menos o valor da vida, da vida em geral. Novos sonhos: construir uma casa, comprar um bom carro, plantar uma groselheira (...) De súbito tudo em redor como que se tornou diferente (...) até o próprio homem. Tornou-se mais colorido, mais solto, explodiram o monólito, e a vida espalhou-se em ilhas, átomos, células"

Svetlana Aleksievitch, O fim do homem soviético, pp.10-13

A entrevista de Jerónimo de Sousa


Na entrevista à TVI/TVI24, quinta-feira à noite, Jerónimo de Sousa deixou duas notas politicamente relevantes: a) deixou claro que, se necessário, e como o PCP fez no passado, pode deixar cair o seu candidato presidencial à primeira volta, em favor de uma solução eleitoralmente mais forte (no caso, leia-se, naturalmente, Sampaio da Nóvoa; outra posição, mesmo que com grandes justificações no plano teórico, seria, na prática, insustentável politicamente, porque seria uma ajuda de facto a eleger, ou melhor, a passar a uma hipotética segunda volta presidencial, um candidato [no caso, uma candidata] politicamente mais afastado do PCP, como dissemos em post anterior); b) Jerónimo não assume que o PCP proponha a saída do euro, afirmando ser a posição do seu partido mais complexa do que isso. A enunciação da mesma seria a seguinte: Portugal não deve sair do euro de forma abrupta; o governo português deve principiar por negociar com os credores; não se obtendo os resultados desejados nessa negociação, avanço para a saída do euro
A meu ver, a equação pública de um plano de saída do euro, equivale a uma pressão efectiva sobre os credores. Quando Jerónimo de Sousa diz que não pretende fazer o mesmo que os gregos - "chegar às negociações e bater o pé" -, mas sugere que se chegue às negociações com o 'trunfo' da saída do euro à vista da mesa [este é o ponto político, na medida em que a preparação de uma eventual, livre ou obrigada, saída do euro, competirá a todos os governos e estados; só que essa preparação não se faz pública, algo pretendido pela CDU], a posição pode ser interpretada como tendo o mesmo significado ("bater o pé"). Ao contrário de Tsipras, Jerónimo de Sousa coloca, claramente, a saída do euro como caminho perfeitamente possível. Uma opção legítima (na linha do que João Ferreira do Amaral tem sustentado; e mesmo o "Tsipras não estava preparado" [de Jerónimo] equivale muito ao que Francisco Louçã tem dito sobre o tema e que significa que, a seu ver, a saída do euro devia ser o caminho a seguir, dadas as pretensões gregas), mas com uma formulação bastante rebuscada (não assumindo uma vontade, ou o que se julga ser uma necessidade para o país, de um modo directo, claro].

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Filmes de actores



Depois de A dúvida, um outro filme de actores, neste (meu) Verão: A última estação, de Michael Hoffman. Neste caso, os actores são Helen Mirren (como condessa Sophya) e Christopher Plummer (como Tólstoi). O biografado merecia mais. Ainda assim, a recusa da ideologia primando sobre a pessoa (nem eu sou muito bom tolstoiano, diz Tolstoi a Bulgakov, seu seguidor, no movimento tolstoiano, e as coisas do amor). Os trajes de pastor (ou de monge), a idolatria em torno da sua figura, a mulher que não acredita na nova religião nem segue a ideia de abandono da propriedade privada sugerida pelo marido, os donos do movimento e como pretendem moldar o fundador (à sua própria imagem), a consideração pelo escritor por parte da comunidade, os ciúmes entre o movimento (público) e a dimensão privada (familiar) da personalidade em causa, tudo isto perpassa o filme - baseado  num romance de Jay Parini - sem, no entanto, excessiva densidade.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mestres (VI)



"A beleza é o carácter", concretiza, em fórmula depurada, a definição solicitada, Wole Soyinka. É mesmo isso. O homem que esteve preso dois anos, pela ditadura nigeriana, encontra prazer, mas não beleza na sexualidade, no orgasmo. Na cadeia, nunca foram tais temáticas que solicitaram a sua atenção. Motivo de consolação, aí, as obras de arte entranhadas em si, em especial a música, sinfonias sabidas de cor que interiormente percorreu e o salvaram, num silêncio preenchido, na prisão. Além disso, muito logicamente, precaveu-se, lutando para encontrar as fórmulas, equações matemática aprendidas na escola para preservar a sanidade mental, ocupando-lhe muito tempo. Um ofício. Mas, momento belo, na cadeia, ele que viu seus semelhantes agrilhoados, nos pés, a caminho do enforcamento, foi escutar, certo dia, sem aviso, os seus companheiros naquele lugar inóspito, cantarem, cantarem colectivamente, canções tradicionais e outras, cristãs. Uma força que assim se afirmava, ainda que não agressiva.
Saberá Soyinka, o Nobel da Literatura de 1986, porque é que quem leu Rilke e ouviu Beethoven foi capaz, no momento seguinte, de torturar (a grande questão de Steiner)? Tal como Rilke quis aceder ao âmago, à essência (pura) da poesia, os carrascos podem ver-se no papel de escultores de uma humanidade purgada de elementos não puros, perfeitos. O mesmo quanto à exaltação, harmonia e perfeição, dimensão visionária em Beethoven: a transposição dessa perfeição cabia ao verdugo. Soyinka conheceu-o de perto: aquele julga que a humanidade se divide em escumalha e elite, e, obviamente, pertence a este segundo grupo, pelo que cumpre-lhe pôr fim ao restante conjunto (de [sub-]humanos).
O pressuposto de que a vida vale a pena não lhe interessa. Parece-lhe isso: um pressuposto, um a priori que rejeita. Vive-se e pronto. Sem fatalidade, cabendo a cada um cumprir o seu destino (moldá-lo). 
Para a religião yoruba, a que pertence, há três esferas inter-relacionadas: a dos que não nasceram, a dos vivos e dos mortos.
A conversa começara pela indagação acerca de uma eventual percepção do belo pelos animais (maxime, pavão), ou se se trata de propriedade - a percepção - dos humanos. Na infância, já Soyinka retirava consolação da literatura e da Natureza - estando a sós com ambas; gostando, ainda, hoje, de uma hora no mato, para descansar; gostando, ainda, da caça.

De partida


Para a Oclízia, de partida.

Silêncio é tudo o que temos.
Há Resgate na Voz -
Mas o Silêncio, Infinidade.
Carece de uma face.

Emily Dickinson, traduzida por Ana Luísa Amaral, Duzentos poemas, p.261.

Histórias para contar


Além disso, as histórias que apareciam nos jornais encaixavam naquele imaginário porque eram cada vez mais surrealistas. Havia crimes que me pareciam absurdos e que antes da crise não tinham lugar; não existiam. Há um segmento do filme, chamado "As lágrimas da Juíza", inspirado numa série de crimes verídicos como o roubo de um sistema de rega de um estádio de futebol no interior do país. Outro exemplo é o roubo de gado, que não é propriamente uma actividade discreta. Termos chegado a este estado de as pessoas se arriscarem a roubar 40 vacas como se estivessem no faroeste diz alguma coisa sobre a actual sociedade portuguesa.

Miguel Gomes em entrevista a Aisha Raim, Tabu nº469, p.14, Sol, 21/08/15. O realizador falava, neste excerto, da metodologia de preparação do seu novo filme, As mil e uma noites, que estreia muito brevemente.

Paradoxos políticos


Tem-se dito e escrito, repetidamente, e apesar dos esforços de António Costa em sentido contrário, que António Sampaio da Nóvoa se encontra bem à esquerda no espectro político português. Na esquerda do PS (?), algures entre o PCP e o BE (?). Pois bem, BE e PCP já anunciaram, através de vozes autorizadas (ainda não formalmente), que vão apresentar candidatos às próximas presidenciais. Se tal acontecer, e se esses ditos (futuros) candidatos não resignarem antes da primeira volta, estarão a contribuir para que uma parte do eleitorado que ,supostamente, se poderia rever em Sampaio da Nóvoa, acabe por não apoiar esta candidatura, minguando as hipóteses de este chegar à segunda volta (caso esta venha a acontecer, como se prevê, se Marcelo e Rio concorrerem em simultâneo) e, contribuindo, dessa forma, para que Maria de Belém, supostamente uma candidata situada na direita do PS e, portanto, mais afastada de BE e PCP, passe à segunda volta. Em suma, apresentando candidatos às presidenciais, BE e PCP contribuirão para poder afastar da corrida a personalidade - com algumas esperanças (?) de poder vir a ser eleito - que, supostamente, estaria mais próxima daqueles partidos. Paradoxos políticos bem à portuguesa.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Mestres (V)



Uma mãe alcoólica, que fazia chantagem emocional com a filha (de quem se sentia dependente), um pai com agudo sentido de aventura, enérgico, vibrante; uma mãe vinda de uma certa aristocracia social, para quem as questões sociais tinham pouco interesse, e um pai vindo da pobreza, do Sul da América, para quem subir na vida era determinante; uma mãe frustrada no casamento, a quem uma paixão anterior marcara para sempre; um pai, advogado de questões fiscais, que gostaria de ter sido cientista; uma mãe que, finalmente, assume o seu problema com o álcool e ajuda os seus semelhantes nos Alcoólicos Anónimos (um modo de consolação); um pai racista, que não entende a utilidade da Filosofia, mas que ensina, como ninguém, a força de vontade que ajudará a futura Professora a singrar. O republicano de direita, que lê alto de modo magnético, tem como declaração de amor à filha, no hospital, em fim de vida, o apoio a Hubert Humphrey face a Richard Nixon ("um modo de dizer eu gosto de ti, eu estou atento ao que dizes"). A sua energia será o que Martha Nussbaum procurá nos parceiros (amorosos) que a vida lhe traz.
A arte, a escrita, o trabalho será uma forma de tentar compensar um sentimento de culpa que todos trazemos (Martha sente culpa em relação à mãe, que não compreendeu, a quem não perdoou durante muitos anos). A arte ajudará a sublimar a dor. Mahler, com As canções das crianças mortas, será absoluta referência neste quadro. Uma hora e vinte e cinco de conversa com "uma das mais intrigantes filósofas da actualidade" sobre emoções, intimidade, família.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Jean-Luc Marion (IV)


Para o Luís:

Deus é o impensável. Mas podemos pensar o impensável. O impensável oferece o único rosto criticado daquele que se trata de pensar. O impensável, enquanto tal, depende do próprio Deus e caracteriza-O como a aura do seu advir, a glória da Sua insistência, o estrondo da sua retirada. O impensável determina Deus com o selo da sua definitiva indeterminação para todo o pensamento criado e finito. O impensável encobre a separação entre Deus e o ídolo, ou melhor: entre Deus e a pretensão de toda a idolatria possível. Porém, Deus não deve desaparecer como conceito, mas instância crítica para o próprio pensamento. A sua incomensurabilidade (pre)enche o nosso pensamento, desde as origens e para sempre.

"Que nome, que conceito e que signo podemos, então, praticar? Só um, sem dúvida, o amor (...) tal como propõe São João - "Deus [é] agapè" (1 João 4,8). Porquê o amor? Porque este termo (...) continua a ser, de maneira paradoxal, (o) suficientemente impensado para [poder/conseguir] libertar, em algum momento, pelo menos, o pensamento de Deus de uma segunda idolatria. Esta tarefa imensa e, em certo sentido, todavia não iniciada, exige trabalhar conceptualmente o amor (e, por sua vez, trabalhar o conceito com amor), até ao ponto de [fazer] despontar a sua plena potência especulativa"

Traços do amor: o amor dá-se. O dom, para ser dado, não precisa de um interlocutor que o receba; o amor ama sem condição, pelo simples facto de amar; ama sem limite ou restrição; não exige a menor consideração; não temos que procurar uma [dada/determinada/pré-concebida] morada divina: basta aceitar o amor; o amor não quer compreender, porque não pretende prender de nenhuma maneira; o amor nada retém, nem, sequer, a sua representação; o amor só se dá abandonando-se, transpondo-se para fora de si; para ele, não podemos ter uma resposta, uma representação, um ídolo. O amor submerge. Deus dá-Se a pensar como amor, como dom; como pensamento do dom; como um dom para o pensamento. Um dom que se dá para sempre. Só um pensamento que se dá pode doar-se a um dom para o pensamento. O amor transcende-se a si mesmo, num movimento crítico em que nada - nem sequer o Nada - pode conter o excesso de uma doação absoluta (p.81)

Na distância, só o agapè pode abrir a doação de cada coisa sobre a terra, nos infernos e nos Céus, porque só o agapè, por definição, nem se conhece, nem é - mas dá-se. No seio do agapé, seguindo o seu fluxo como se segue uma corrente demasiado forte para dar-lhe a volta, uma corrente demasiado profunda para conhecer a sua fonte e o seu vale, tudo segue a doação e, pelo rastro traçado na água, mas sem poder agarrar nada, tudo indica [qual] o sentido da distância. (p.152)

Se, face à idolatria, talvez importe um silêncio face a/sobre Deus, todavia, "não basta [uma pessoa] calar-se para escapar à idolatria". Não é um silêncio qualquer que convém observar:
"O silêncio que convém a Deus que se revela como agapê em Cristo consiste em calar-se por e para o agapè; consiste em conceber que se Deus dá, então, nomear Deus impõe receber o dom e - posto que o dom só advém na distância - devolvê-lo. Devolver o dom, jogar em redundância a doação impensável, é algo que não se diz, mas faz-se. No fim de contas, o amor não se diz, mas faz-se. Só então pode renascer o discurso, mas já como um gozo, um júbilo, um reconhecimento. Ou, mais modestamente, o silêncio que convém a Deus impõe saber calar-se, não por agnosticismo (o sobrenome refinado do ateísmo impossível), nem por humilhação, mas simplesmente por respeito. Inclusivamente contra si mesmo, há que reconhecer que, se não amamos o suficiente o agapè de modo a exaltá-lo, devemos ao menos preservar esta impotência como sinal de algo possível (...) Se chegássemos a vislumbrar, ainda que fosse em esboço, aquilo pelo qual o agapè excede tudo (e também o Ser/ente), então o nosso silêncio poderia fazer de nós, um pouco, os 'enviados...anunciantes do silêncio divino'" (p.153)

[a partir de Dios sin el ser]

Jean-Luc Marion (III)


Para o Luis:

Causa sui: causa de si mesmo.

É necessária a figura de um fundo fundador, de um fundamento para assegurar o ente, fundo que deve segurar-se e, portanto, fundar. "De maneira que Deus só pode entrar na filosofia na medida em que esta exige e determina, segundo a sua essência, que Deus entra nela, assim também o modo como deve fazê-lo". O advir de algo como 'Deus' na filosofia depende então menos do próprio Deus do que da metafísica (como figura do pensamento do Ser). 'Deus' determina-se [é determinado] a partir e em proveito do que a metafísica pode realizar, admitir e suportar. Esta instância anterior - que determina a experiência do divino a partir de uma suposta condição iniludível - assinala o primeiro traço de idolatria. Procurar provar Deus, provar que Deus existe, que tem que haver Deus enquanto causa sui, um Deus que tem de demonstrar existir é muito pouco divino.
Será, portanto, que um nome próprio pode apropriar-se de Deus?
A religião cristã não pensa Deus como causa sui, porque não O pensa a partir da causa, nem a partir do conceito, mas a partir do próprio Deus na Revelação. Deus tem que ser? Que Deus admite que uma menção decida da maior ou menor grandeza da sua divindade?
"Importa, por isso, pensar Deus sem nenhuma condição, inclusive sem a do Ser. Não podemos minimizar o risco de que pensar Deus sem o Ser leve à impossibilidade do pensamento - mas isto não é absurdo, dado que o Deus mesmo, para pensar-Se (para ser pensado), deve pensar-Se como algo maior do que Ele não se pode pensar. Deus desvia e enlouquece todo o pensamento, inclusivamente não representativo. Deus não encontra nenhum espaço teórico à sua medida".

[a partir de Dios sin el ser, 2010, pp.62-77]

Jean-Luc Marion (II)


Para o Luís:

A "morte de Deus", enquanto morte do "deus moral", constata o crepúsculo de um ídolo. Deus é libertado para a posição/possibilidade de uma apreensão não idolátrica (Dele). Todavia, a saída de um ídolo não significa a não decaída em um outro, dificilmente, aliás, se libertando o divino enquanto tal: "a avalancha bárbara de 'ídolos' terríveis e fúteis, cujo consumo aumenta sem cessar nosso tempo nihilista, assinala a exasperação da idolatria e não, claro está, a sobrevivência de um certo desejo natural de ver a Deus"(p.67).

[ a partir de Dios sin el ser, 2010, pp.66-67]

domingo, 23 de agosto de 2015

Jean-Luc Marion


Para o Luís:

Só sob a forma de conceito, Deus poderá ser refutado, ou provado. Logo, se Deus está para lá de todo o conceito...

[a partir de Dios sin el ser, Ellago, 2010, p.64]

"SSS"


É lá que se juntam?
Continua a ser a casa da família, onde fiz a minha educação enquanto infância, adolescência, com os primos, com os tios, com os pais. O lugar onde me formei. Era o lugar das férias, que eram muito longas, três meses no verão. Mais o Natal, mais a Páscoa. Numa casa daquelas, com 30 e tal primos, não sei quantos tios... Era um caldo impressionante. Devo muito aos meus tios, aos meus primos, a essa família grande. Depois viemos para Nova Oeiras onde ainda vivo. Fiz o Liceu de Oeiras, depois fui para Coimbra, fiz uma formação em Artes e Teatro em Lisboa. Mais tarde fui para Genebra onde fiz a minha formação na área da Educação e Pedagogia. Em Paris, fiz a minha formação em História.

Quando diz formação são doutoramentos?
É. A esse nível, sou uma pessoa híbrida. É uma qualidade mas é uma fragilidade. Sou muitas vidas, muitas culturas, interesso-me por coisas muito diferentes, sou capaz de adotar linguagens diferentes, desde uma mais histórica até uma mais poética a até a uma mais pedagógica. Sou capaz de circular por mundos muito diferentes. Retira-me do que um autor francês chamava com muita graça os "SSS", Spécialistes Spécialement Spécialisés. Aquelas pessoas com uma formação em profundidade numa área, mas que são ignorantes de outras dimensões.

António Sampaio da Nóvoa, em entrevista a Ana Sousa Dias, no DN, 21/08/15



Da entrevista de Sampaio da Nóvoa, três breves notas:

1.Sendo interessante a conceptualização de uma nova forma de poder, para o séc.XXI, em que é uma plataforma que nele assenta, sem uma visão messiânica de um indivíduo redentor - o Presidente que faz por nós, mas nós que nos alçamos e sustentamos politicamente uma Presidência -, não será ela, depois, contraditória com a ideia de o Presidente que vai de terra em terra porque "as pessoas precisam de alguém que as proteja"? Não se passa, na mesma entrevista, da "maioridade política", da "emancipação" ao "paternalismo"?

2.Por vezes, ao longo da entrevista, parece pressentir-se, no candidato, uma não total crença na vitória: às vezes, uma vitória são sementes que se lançam para o futuro; vejo isto como uma construção que se está a erigir, etc. Julgo que a auto-confiança eleitoral é determinante nos resultados de um candidato, sem que este deva, de modo algum, perder a lucidez e perceber o que se passa em volta.

3.A entrevista é interessante; mostra, uma vez mais, um candidato com uma biografia extraordinária, capaz de ousar e de ter golpe de asa, de possuir um horizonte amplo e uma variada gama de recursos, sendo que, independentemente de se concordar com (tudo) o que diz, é pena que se viva num tempo de pura derrisão, levando ao apoucamento das pessoas, igualando tudo e tudo fazendo perder valor, afastando muitos dos que poderiam qualificar o nosso espaço público. Vale a pena voltar a lembrar o apelo de Adriano Moreira à comunicação social para não desfigurar candidatos, nem, efectivamente, apresentar puras caricaturas.

Séries e política


Na realidade política de que participei nunca vi nada parecido com aquilo que assisti em séries como House of Cards, ou Borgen, diz António Costa - que cito de cor - na entrevista à Visão. Com elas, com as séries aprendi o que não se deve fazer em política. Responde-lhe o entrevistador, Filipe Luís: e eu também sou muito mentiroso. Este fim-de-semana, ao Sol, Costa diz que como nos conhecemos todos, em Portugal, todos primos uns dos outros como diz Pacheco Pereira, somos muito mais bonzinhos do que as personagens das referidas séries políticas. Todavia, quando a coligação vem dizer que durante estes anos esteve a salvar o Estado Social aí o cinismo é tal que essas afirmações, segundo Costa, são dignas da House of Cards (mais uma vez, uma frase - essas afirmações são dignas de House of Cards - só compreendida com recurso a uma chave, a um novo código de cultura que actualmente, de facto, o seriado representa).

[a entrevista do Sol, as entrevistas do Sol, contém um número de questões ligeiras, light, que são um exagero, mesmo no interior da cultura em que vivemos]

Audiências políticas


Como o debate televisivo entre Passos Coelho e António Costa será transmitido por RTP, SIC e TVI em simultâneo é (praticamente) certo que terá a maior audiência de sempre (no que diz respeito a debates políticos; claro que, em todo o caso, é difícil fazer comparações com debates realizados no tempo em que existia apenas a RTP). Pelo que poderá adquirir um carácter mais decisivo do que anteriores discussões políticas televisionadas.

sábado, 22 de agosto de 2015

Põe-me um like (II)


Reputação vs consciência, na era das redes, por Adela Cortina.

Mestres (IV)



O Nobel da Física de 1979 explica muito bem, nos minutos iniciais da conversa acima reproduzida, o significado de desencantamento do mundo e, muito especialmente, no episódio da trovoada, a passagem, nos termos de Charles Taylor, de um mundo poroso a um outro defendido. Imediatamente, face ao desencanto, coloca-se a questão da consolação face a essa tristeza - no fundo, tristeza pela ausência de finalidade presente no Universo, tristeza pelo papel não muito importante do humano nesse Cosmos, tristeza por não irmos encontrar os mais queridos numa outra vida - e, aí, a ciência, acredita Steven Weinberg, pode ser uma resposta (claro está: aqui, a tensão para a ciência como substituto religioso, pode assomar). Em todo o caso, a beleza das leis da natureza - quer dizer, a beleza da sua simetria; iguais permanecem, independentemente da observação, do ponto em que se encontre o observador - é um pouco "austera e limitada" se comparada com as possibilidades das artes. Explicam-nos mais e melhor. E se cada peça no seu lugar, cada nota no seu exacto ponto se entrevê em Bach, o mesmo não se diga da cena do coveiro, no Hamlet, de Shakespeare. "Uma pessoa verdadeira nunca seria totalmente previsível". Confunde-se o Deus que pode ter criado o mundo - e as investigações a que Weinberg acede mostram, antes, o peso do acaso e de forças impessoais a emergir - com a bondade de Deus, que o judeu não encontra depois de Auschwitz. O que é uma bela fórmula, a fórmula capaz de registar o fundamento de tudo? A beleza advém de conseguir explicar esse todo - se não, não seria bela; a de Eisntein mais bela do que a de Newton - satisfatoriamente. Essa demanda, embora não responda a muitas questões que permanecerão para sempre, essa capacidade "de olhar para o mundo tal como ele é, e não como gostaríamos que fosse" corresponderia à maior consolação. Eis a perspectiva do cientista, que desde novo se tornou descrente.

Bola


1. Penso que vai ser interessante observar até onde vai o Bayern este ano, nas competições europeias. Parece-me que Vidal e Douglas Costa - uma sensação deste início de época - poderão trazer um acrescento de verticalidade e agressividade que completa o jogo de muita posse de bola. Numa lógica de equilíbrio - aquele que me parece, cada vez mais, o factor determinante no sucesso das equipas - por/enquanto complementaridade, creio que será o Bayern mais forte da era Guardiola.

2. Begovic é o nome do guarda-redes número 2 do Chelsea e as suas exibições nas duas jornadas inaugurais do campeonato mostram que é um nome a seguir. A primeira parte do Manchester City frente ao Chelsea resultou na melhor exibição que vi aos Citizens desde que emergiram como potência futebolística internacional. Sem lesões, Aguero é um dos verdadeiros virtuosos - faz muito em pouco espaço - do futebol mundial. Apesar do sonho de Florentino, é muito mais um jogador à Barça (muito mais, até, do que Neymar, este último mais vertical). E David Silva seria, a meu ver, o futuro substituto natural de Iniesta, sendo que Arda Turan é muito mais um segundo avançado, ou um ala interior do que propriamente um 10 ou 8,5 que o autor do golo da final do mundial de 2010 representa.

3. Há muito que não via um treinador ganhar tanto um jogo, previamente, na sala de imprensa, como Jorge Jesus venceu a Supertaça. Intimidou os contrários, motivou os seus, lançou medo para fora, concitou confiança para dentro. Foi deselegante e Rui Vitória tem motivos para se sentir tocado. Mas o ex-treinador do Guimarães perde mais em lidar com a questão como muito pessoalizada do que se a tomar como parte de um jogo - com o que lhe cumpre, também, jogar (e mudar abruptamente de registo, em três dias, como fez, também não ajuda). Depois dos ameaços de André Villas Boas, com uma época excepcional no futebol português, Jorge Jesus vai-se afirmando como a figura que mais marca a liga portuguesa, no pós-Mourinho. Mesmo havendo outros treinadores com melhores registos, no mesmo período (Jesualdo Ferreira ganhou 3 campeonatos em 4 épocas, e não 3 em 6, ganhando, também, taças e supertaças, apurando-se, sempre, para a segunda fase da Liga dos Campeões, alcançando, em uma das ocasiões os 1/4 de final). E a personalidade avassaladora ameaça criar um vazio, de onde parte, como sempre sucede com as figuras, goste-se mais ou menos, carismáticas.

4. Sei que o director de comunicação do FCP se chama Rui Cerqueira, mas não me recordo de uma entrevista ou declaração marcante, da sua parte, ao longo dos anos em que ocupa aquele cargo. Já no clube da luz, de João Malheiro a João Gabriel é garantido, época após época, o protagonismo - sempre pelos motivos mais lamentáveis e rasteiros - do director de comunicação encarnado. E, na mais recente guerra, lançada a Jorge Jesus, o falhanço tem sido, então, total e confrangedor.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Mestres (III)



O que é a emoção? É aquela barreira indefinida onde baixámos a guarida, as defesas. O ataque brusco e inesperado que vem do cenário. E o que é a felicidade? A felicidade é uma recordação. Não nos enganemos: é o presente. A recordação alegre, satisfeita do momento passado. A alegria desse recordar. A certeza de que a felicidade passou por ali é a felicidade. Ainda que não se saiba exactamente, cientificamente, a historicidade desse passado tal como recordado com felicidade. Nenhuma entrevista de Wim Kayzer remete tanto para a construção da personalidade, do 'eu', do lidar com a morte - nas suas fugas, nos seus olhares de frente o pó - como esta a Rutger Kopland, o psiquiatra que retrata o momento da emoção no grito dos gansos, um som que ouviu desde a infância e continuará a ouvir depois de morrer. Necessitamos de um relato próprio estruturado e coerente. Quem somos. O psiquiatra também é poeta, e sabe que é a arte que desvela o mundo, mostrando-se (sem o véu) os elementos do cenário a que, de outro modo, não tínhamos acesso. O mundo tal como ele é; a verdade.

Umas vezes me espanto, outras me envergonho


Sabia-se que ia valer tudo na pré-campanha e na campanha eleitoral para as próximas legislativas. Mas, de facto, não deixa, ainda assim, de espantar o critério editorial do jornal I, que nesta sexta-feira concede uma extensa mancha da sua capa a uma sondagem interna de um dos concorrentes a estas eleições. Uma opção que permite dar o resultado de uma sondagem sem a realizar (sem nela nada investir: não responder por ela nem financeira, nem eticamente); que tende a igualizar uma sondagem de uma empresa conhecida/credível para um órgão de comunicação social (Católica, Eurosondagem, etc.) com uma outra feita para um partido (será que o I vai falar da metodologia da sondagem? Que escrutínio desta, sabendo-se que mesmo relativamente às que aparecem nos media, como um recente trabalho da Visão divulgou, falta uma bem maior/melhor supervisão/fiscalização das sondagens); mexe com as expectativas de campanha, e de todos os eleitores, como qualquer resultado de uma sondagem. Não duvido que a sondagem exista, ou apresente os dados oferecidos pelo jornal (mesmo que há menos de duas semanas uma grande sondagem, publicada pelo Expresso, tenha oferecido resultado bem diverso deste ora referido). Penso é que é inédito o destaque, com chamada à capa, dado por um órgão de comunicação social a uma sondagem interna de um partido (ou coligação) e que na ponderação dos bens em jogo - credibilidade da sondagem, expectativas eleitorais, aproveitamento do trabalho de outrem para divulgar uma sondagem na qual nada se investiu, igualdade de tratamento de partidos [o I dará amanhã destaque a uma outra sondagem do género: "PS rejubila com sondagem que lhe dá 7% de avanço", ou "BE exulta com sondagem que lhe garante dois dígitos"?] - a prudência aconselharia, claramente, uma outra opção jornalística.

Uma candidatura por explicar


Desde que foi Ministra da Saúde de António Guterres que Maria de Belém não teve, tanto quanto me recordo, uma tomada de posição marcante sobre uma política, uma causa, um tema da cidade. Não entendo bem o que justifica a sua candidatura à Presidência da República. Não foi, de resto, explicado o motivo, a inspiração, o sobressalto, a leitura do que neste momento histórico leve a considerar como importante, para o país, uma candidatura sua a PR. 
Depois, e quanto ao texto de suporte deste avanço, assinado por Manuel Alegre, no DN, das duas uma: ou António Costa tem razão e, como disse à Visão, na semana passada, a imagem de António Sampaio da Nóvoa como "esquerdista" é "uma caricatura" (e, portanto, compreende-se que Manuel Alegre o não tenha apoiado de imediato); ou Sampaio da Nóvoa situa-se mesmo na esquerda do PS e então não se compreende porque é que ao nível das preocupações ideológicas - sempre tão convocadas por Alegre - o ex-candidato a PR necessitou de outra candidatura. Por outro lado, ainda, nestes quatro anos, em defesa dos direitos sociais, de uma área "não esquerdista", destacaram-se personalidades como Adriano Moreira, Freitas do Amaral ou Manuela Ferreira Leite. Não se fez ouvir a voz de Maria de Belém.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Mestres (II)



Yehud Menuhin deu concertos desde os 13 anos, viajando por todo o mundo, obrigando-se a uma ordem e rotina que se furtam ao amador que decide numa noite tocar um belo quarteto: estudo da composição no avião ou automóvel, descanso da parte da tarde, concerto à noite. Dificilmente, o experiente músico consegue encontrar a obra que exprima, simultaneamente, beleza e consolação - mas acaba por achar Schubert, cujas memórias, nostalgia de casa, de regresso, motivaram sempre a tocar o Ave Maria aos militares. E, no entanto, prossegue até à Nona de Beethoven, que, tal como as grandes Paixões de Bach, ou as peças de Shakespeare, purgam a alma - das suas emoções maiores, da dor e sofrimento, da bondade e alegria. A arte devia ser sempre sublimação da violência. Os quadros de Goya, sem o sangue dos soldados, contêm, ainda, essa esperança de redenção - algo que o cinema e a tv já não incorporam, criando uma carapaça de indiferença: 'isto ocorre todos os dias, que posso eu fazer?. De resto, até à criação do Estado  de Israel, os judeus haviam cumprido os 10 mandamentos. Mas o monopólio da violência adstrito à máquina estatal impediu que tal caminho continuasse a ser trilhado. Ora, a lição que Israel podia dar aos demais era a reconciliação com os antigos inimigos. Jerusalém não mais deveria ser a cidade do sacrifício.
 O momento maior de Menuhin dá-se no encontro com Bártok, o professor magiar, que nunca aceita falar de trivialidades, já com leucemia: "nunca pensei que alguém pudesse tocar tão bem uma composição de alguém que já morreu!". Máximo elogio a alguém que não acredita em ceú e inferno em outro mundo, mas na construção de céus e infernos terrestres, com os outros, coroando uma existência com um toque de júbilo - e não de tristeza - em um funeral. Prossigamos. E, com Menuhin fazia, com a associação Live Music Now, levar a todos os recantos, em particular aos marginados, a vitória da beleza: no mais inóspito dos locais, sem uma planta, uma flor, um quarteto trás uma alegria inaudita aos reclusos. À saída, oferecem ao maestro uma rosa. Como uma rosa, naquele lugar? Se fosse um pano pintado, era coerente com aquele local. Agora, uma rosa?...não sei de onde veio.

Releituras


'Laudato si', por Peter Singer.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Mestres



As obsessões indispensáveis de Steiner, as histórias repetidas que conhecemos de cor, os problemas que inquietaram uma vida, a educação completa, a alegria de uma curiosidade infinita, a recusa do politicamente correcto. Entrevistas para guardar.

Condição feminina


Face à precaridade imperante e à desigualdade salarial, muitas mulheres preferem refugiar-se na família e na descendência. À falta de um posto de trabalho formidável, muitas centram-se na procriação. Para quê matar-se a trabalhar por um salário ínfimo quando existe uma alternativa mais apetecível? Frente a um mundo laboral que as trata como lenços descartáveis, o cometimento de criar um filho feliz e inteligente resulta mais apaixonante. Hoje, para muitas mulheres, ter um filho é como criar uma obra-prima (...) O novo feminismo, em lugar de nos incitar a viver como os homens, prefere sublinhar os nossos particularismos. Especialmente a maternidade, mas também o pacifismo, a proximidade com a natureza ou a atenção aos outros. Esse modelo filosófico-feminista que surge nos anos oitenta encontrou uma audiência muito considerável entre as mulheres das classes favorecidas (...) Consideram que o feminismo de Beauvoir foi demasiado viril, o que posso entender, porque negou a feminidade. Mas não aceito que falem da mulher como uma pessoa com mais aptidão a dedicar-se aos outros, mais empática ante a dor ou mais generosa do que um homem. Aqueles que acreditam que a mulher emendará o que o homem fez mal e criará uma espécie de nirvana feminino, equivocam-se. Esquecem que os nossos comportamentos são muito parecidos (...) É uma absurdidade contrária à realidade. As mulheres são capazes de fazer tudo o que um homem faz, incluindo o pior imaginável, como a violência ou o terrorismo (...) O que mudou [quanto ao uso do véu por mulheres muçulmanas em França] desde 1989 foi a chegada do salafismo ao território francês.  Há duas décadas não havia nem uma mulher com véu em França. Os muçulmanos franceses não sabiam sequer o que era a burka. Produziu-se um trabalho de proselitismo inimaginável nos banlieues, que começa nos imãs mas vai além deles. A classe política não o quis ver, porque constitui um tabu, mas o tempo demonstrou que a sua expansão era sintomática de um combate contra o laicismo (...) Pelo menos, começamos a abrir os olhos sobre o facto de o islamismo, inclusive quando minoritário, pode ter efeitos espantosos. O islão deve poder ocupar todo o seu lugar na sociedade francesa, mas o islamismo tem que ser combatido sem piedade.

Élisabeth Badinter, filósofa, entrevistada, no âmbito das Conversas com futuro, por Álex Vicente, no suplemento Ideas, pp.8-9, ElPais, 16/08/2015.

"O século do povo"



Faz parte das predilecções da adolescência, a série documental O século do povo (BBC), acompanhada, com entusiasmo, semanalmente, quando nos canais privados portugueses - ainda sem o cabo - era possível assistir a coisas desta qualidade. Guardo, ainda, religiosamente, como prendas de Natal, que pude escolher, os dois volumes, em livro (Gradiva), que codificavam, por escrito, muitas das cenas e acontecimentos gravados e suportados em imagem (desta série). Creio que ainda no terceiro ciclo, mas seguramente no Secundário, vimos alguns destes episódios, sobre os quais, depois, apresentávamos relatório susceptível de certificar a atenção prestada e a capacidade de discernir os acontecimentos e seu significado. Só hoje dei conta que o youtube disponibilizava este verdadeiro serviço público, "com o senão", como diz Mário Soares a abrir, de uma abordagem de pendor "anglo-saxónico", no qual "a europa do Sul terá sido prejudicada". O que o episódio inaugural - dos 26 que compuseram a série - mostra é uma onda de esperança, de optimismo que a aurora do século XXI não secundaria. No final do século XIX, narra a voz inconfundível de Alberto Ramos, as pessoas curvavam-se sem perguntar, em longas jornas, mas essa era "uma realidade que estava prestes a mudar". E este episódio, para quem necessite, explica o como (dessa mudança, a duras penas). O que se pretende referir quando se critica, hoje, o esquecimento de como se fez vingar o reconhecimento dos direitos inalienáveis da pessoa - "o gozo apolítico" de certos bens sociais. Soares parece ter razão ao prognosticar, com Malraux, o regresso do religioso no século XXI - dada "a perda de valores" -, mas nem tanto quando julga que os homens aprendem com a História. Para ver e/ou rever.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Yoga e soft power indiano



O yoga gera uma receita de 9 mil milhões de euros/ano, nos EUA. É praticado por 20 milhões de americanos. Curiosamente, na Índia, de onde deriva esta prática, desde há 4 mil anos, o yoga fica confinado às classes alta e média da população. Numa acção de charme, numa via de soft power, o presidente Modi, um indiano que nasceu pobre, vendedor de chá, e chegou à presidência, em 2014, com o apoio das grandes empresas, insistiu e conseguiu que a ONU consagrasse um dia internacional do yoga, forma de apresentar a Índia como estando de regresso, e o hinduísmo com benevolência. Isto, depois da sua chegada ao poder - ele que havia militado em organizações fundamentalistas hindus e já como governador de um estado indiano, durante 13 anos, parecer complacente com ataques a minorias religiosas - ter coincidido com a perseguição e 'conversão' de minorias muçulmanas e cristãs. Num país com 1/6 da população mundial, esperar-se-ia que o assento no Conselho de Segurança da ONU fosse uma realidade. E com uma economia considerável, a subrepresentação no FMI ou no Banco Mundial, outra constatação. Falta um sistema fiscal à Índia. Mas falta mais: há dificuldades com a aquisição de terras; as estradas são más, tal e qual como o sistema eléctrico do país, com a insegurança a prosperar em algumas localidades. Assim, maiores dificuldades à maior implementação da Indústria, num país maioritariamente rural. Ainda assim, com uma gestão prudente das finanças públicas, com a sorte do preço do petróleo, apresenta-se com um crescimento económico estimado de 7,5% para 2015 e a economia mais resistente de entre os países emergentes. Modi, um líder com traços autoritários, terá tido um primeiro ano de mandato bastante razoável, mas não espectacular como alguns pensavam ser possível.

[a partir dos textos publicados, no passado Domingo no Ideas, de ElPais]

Contingente Ribadouro (II)


Agora com um estudo sistemático, científico, da responsabilidade do Ministério da Educação - e, espero, com efectivas consequências - provou-se o que era possível constatar desde o início do século: a inflação das notas, de sonhos, de expectativas de vida - para uns -, penalizando mais ainda quem nasceu em baixo, nomeadamente com o truque da inflação das notas internas, arrasadas ano após ano pelos exames nacionais, em algumas escolas (e, particularmente, em alguns colégios privados). Em 2011, fiz esta crónica para a rádio, reparo que publiquei aqui. Mas datava de uns bons anos antes o meu espanto com a ausência de qualquer mobilização política - que se visse - em torno do tema (que mexia, muito efectivamente, com a justiça social e a vida concreta de uns quantos adolescentes/jovens). Finalmente, espero que se tomem medidas para não mais persistir esta vergonha.

Na margem (II)


DESEMPREGADO


Nunca te ocorre que as coisas não são eternas, que podem mudar de um dia para o outro. Não pensas que o teu inferno possa ser o desemprego, o ficar de fora da maldição de Jeová, afastado dos livros onde se anotam as encomendas, do bloco de guias de remessa, longe das máquinas e das ferramentas, numa situação que é o perfeito oposto contemporâneo da maldição bíblica: não ganharás o pão com o suor do teu rosto. Uma diabólica e inesperada reviravolta. Descobres então a irritante placidez das manhãs sem despertador, o dia como uma planície que se estende até ao horizonte, um tempo sem margens, uma paisagem sem acidentes que a delimitem, sem um rebanho a pastar nessa extensão que se torna infinita, e não vislumbras qualquer edifício, a silhueta de qualquer árvore. Atravessas o nada a pé, sozinho. O inferno como um armazém deserto, um hangar silencioso onde reina um vazio esmagador. E a maldição divina de ganhar o pão com o suor do rosto acaba por te parecer extremamente apetecível, a estridência dos despertadores, a água a correr de torneiras e chuveiros, o gorgolejar da cafeteira ao lume, a balbúrdia do trânsito matinal, o murmúrio das conversas ao balcão do café onde comes o teu croissant, as vozes de uns e de outros na oficina, as discussões entre colegas de trabalho, o zumbido das máquinas, o intervalo a meio da manhã para uma sandes e uma cerveja. Álvaro: entrada na carpintaria às oito; pausa para o pequeno-almoço às nove e meia; vinho, vermute ou Ricard à uma e meia, e caminhada até casa, onde às duas horas em ponto a mulher pousa sobre a toalha de linóleo um prato com arroz, outro com salada, os pickles, e, ao lado, um naco de queijo e uma cesta com fruta; uma soneca no sofá, diante do noticiário do canal regional, e a caminhada de regresso à oficina - que ajuda a fazer a digestão -, a preguiça laboral da tarde, quando os movimentos se tornam inevitavelmente mais lentos e, depois do trabalho, uns copos de vinho no bar com os amigos (Álvaro tomava-os sempre sozinho, segundo alguns por uma espécie de misantropia, segundo outros por simples mesquinhez), o jantar, o sofá e a televisão antes de ir para a cama. E agora, o que há-de fazer? Ainda mal recuperou do choque.

in Rafael Chirbes, Na margem, tradução de Rui Pires Cabral, Assírio e Alvim, 2015, pp.233-234

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Na margem



Este fim-de-semana, morreu Rafael Chirbes
Um dos prazeres deste Verão foi ler a sua escrita despudorada, carnal, sem contemplações, corrosiva, de um sarcasmo capaz de nos interpretar sem complacência. Conseguindo captar a coloquialidade, na sua forma mais bruta e nua, com a força que essa autenticidade carrega, mais desveladora de um modo de pensar e sentir (de um personagem, de um olhar sobre o mundo) do que uma purga eventual de interjeições politicamente incorrectas (inscrevendo-se nessa tradição), ao mesmo tempo que o artifício literário (dizer o homem é inocente é um oxímoro), a capacidade de analogia, de comparação (fugiu-lhe uma ideia como um flato), de gerar uma imagem, de forjar um humor desarmante, se afirmava, em simultâneo. 
Sem ser um romance de ideias, em A margem começamos por nos encontrar com as periferias geográficas, os fins do mundo que ninguém conhece, para logo serem humanas: os imigrantes que acorrem ao sul de Espanha - com o pano de fundo de um choque de civilizações, via religiões; desmontado, questionado, imediatamente, nos diálogos aduzidos entre os próprios imigrantes, e ao modo como são tratados nos respectivos países de origem, passando-se, assim, a um choque intra-civilizacional; e que num romance sobre o tempo presente se comece por aqui é muito revelador quanto aos marcos identitários de que se lança mão por estes dias -; os desempregados que ficam com o frigorífico vazio e não têm como alimentar os filhos; os que são gozados, cruelmente, nas tascas das aldeias onde o infortúnio do outro é conhecido (e comemorado); as vítimas dos patos bravos de uma aposta total no imobiliário que marcou a Península nas últimas décadas; a vida, explicada e detalhada, de uma prostituta; a decadência física e moral, motivada pela doença; a ausência de liberdade em uma inteira vida, o ter de viver sempre encurralado, sempre de mão a pedir o emprego na oficina do pai e, depois, o manter-se dependente deste quando aquele envelhece e não pode ser deixado só - a pobreza da infância à velhice; as empregadas domésticas que da Colômbia vieram para Espanha para ganhar mal e porcamente. Ao lado da margem, claro, os yuppies, os novos-ricos, os bon-vivant que conhecem toda a sorte de vinhos, se especializam a debitar e discorrer sobre todas as marcas, que assinam as melhores revistas da especialidade, e os chef's, quais novos ídolos que fazem jorrar michelins, os novos Nobel, a cultura que existe quando aquela com maiúsculas - Cultura - era, primacialmente, cultura animi...e se a alma desapareceu.... 
Há as guerras ancestrais entre Abel e Caim, há inveja, ódio, ciúme, chico-esperteza: as reuniões pela herança, as desavenças, em família, pela disputa de heranças, e há a fama pela fama, de quem não se destacou por nada na vida, mas vai à televisão uma vez e isso basta para se tornar numa figura. Normalmente, uma figurinha. A nossa espuma. Pelas vozes dos personagens, mundivisões diversas se apresentam na sua forma canónica: de um lado, a tua ética é o que tens no bolso, a moral não é para os pobres (os pobres não têm moral); do outro, o homem é o lobo do homem. Como que despida de qualquer ilusão, colocando-nos, não raro, e desde as linhas iniciais, num ambiente putrefacto - mas também o Orwell de O caminho para Wigan Pier não sublimou os retratados, cujas condições em que viviam denunciou -, a carne devolvida ao leitor num espelho cru e até num gracejo cínico, assim a mordacidade viva, contundente, forte para melhor revelar uma condição e um tempo, que atravessa uma escrita que marcou o nosso Verão 2015.

domingo, 16 de agosto de 2015

Hegemonia


Em Vila Real, nas quatro escolas que oferecem o Ensino Secundário, a menor percentagem de alunos que, nelas, optaram pela área científico-tecnológica foi, ainda assim, superior a 62%. No colégio da Boavista, então, a totalidade dos alunos do Secundário fez essa mesma opção. Nas restantes três escolas, há quem tenha optado por Artes, Economia ou Humanidades. Mas a hegemonia nas opções realizadas dificilmente poderia ser mais esmagadora.

Fernando Pessoa e o cristianismo


O que pouca gente saberá é que Fernando Pessoa possuía uma [biblioteca], invulgarmente munida, acerca de Jesus Cristo e de religião em geral, atestando assim a relevância pessoal que dava ao tema. Nas estantes da sua biblioteca podem encontrar-se volumes de Teologia do Antigo e do Novo Testamento, Comentários aos Salmos e às Cartas de Paulo, uma pluralidade de títulos em torno ao dossiê "Jesus Histórico", introduções aos Padres da Igreja, obras de Atanásio e Clemente de Alexandria, manuais de liturgia e piedade.
As referências a Jesus e ao cristianismo que surgem esparsas na obra pessoana não são, portanto, marcas ocasionais: elas são reflexo de uma verdadeira paixão, intelectual e de vida. Um registo bem curioso é aquele que surge no editorial da revista "Orpheu", de que Pessoa foi um dos codirectores. Nesse texto, que saiu da sua pena no ano de 1915, lê-se a dada altura: "O termo 'modernista', que por vezes também se aplicou aos artistas de Orpheu, não lhes pode ser aplicado, por isso não tem significação nenhuma, a não ser para designar - porque assim se designou - a nova escola pragmatista e exegética dos Evangelhos". Fernando Pessoa acompanhava de perto, como se vê, o debate teológico do seu tempo.
Como cartografar, portanto, o complexo território da crença num autor tão reconhecidamente complexo e paradoxal? A resposta deverá ser buscada nesse poema do desassossego que a sua alma verdadeiramente foi, de pergunta em pergunta, de indagação em indagação, cantando "a cantiga do Infinito numa capoeira" e ouvindo "a voz de Deus num poço tapado" (como refere num passo de uma das suas líricas mais impressionantes, "Tabacaria").
Não foram a "cantiga do Infinito" ou "a voz de Deus" que se silenciaram: elas continuam a ressoar. O que radicalmente se alterou nesta contemporaneidade, da qual Pessoa é um protagonista mas também um sintoma, foi o lugar da enunciação e da audição de Deus: uma "capoeira" e "um poço tapado", espaços irregulares, dilemáticos, improváveis, em rutura já com a geografia de um sagrado expectável ou religiosamente correcto.

José Tolentino Mendonça, O Infinito numa capoeira, E, nº2233, p.84, Expresso, 15/08/2015

sábado, 15 de agosto de 2015

Francisco, pela National Geographic




Relativamente ao trabalho, publicado na National Geographic (Agosto 2015), da responsabilidade de Robert Draper (com fotografias de David Yoder), sobre o Pontificado do Papa Francisco cinco destaques essenciais:

a) Para Ramiro de la Serna, padre de Buenos Aires e amigo do Papa, a Igreja está a ser reconduzida de modo a colocar, de novo, no centro o homem em vez do pecado (que até agora teria ocupado essa posição central);

b) De acordo com o padre jesuíta Thomas J. Reese, do National Catholic Reporter, até ao advento do actual pontificado a Igreja era apreendida como fazendo do combate ao casamento homossexual, ou o controlo da natalidade, as suas grandes causas, enquanto hoje é percebida como tendo à sua frente "o amigo dos pobres";

c) Segundo o antigo professor de Jorge Bergoglio e seu amigo, Scanonne, relativamente à questão da comunhão dos católicos recasados, o Santo Padre "está definitivamente aberto a uma mudança". O pastor pentecostal Saracco deixa perceber, pelas conversas que teve com o Papa, que correndo de feição o próximo Sínodo, a questão do celibato dos padres será colocada em cima da mesa.

d) Na perspectiva de De la Serna, "ainda não assistimos às verdadeiras mudanças", mas "também ainda não assistimos à verdadeira resistência" (dos sectores que as não querem ver implementadas).

e) Francisco é apresentado como sendo tudo menos um homem ingénuo, alguém que é, mesmo, um jogador de xadrez. Quando viajou, da Argentina, para o Conclave, deixou tudo em dia e organizado, sabendo que podia não regressar (embora o desejo de passar os últimos anos na Argentina seja algo revelado pelos seus amigos). Além do mais, o Cardeal Peter Tuckson, do Gana, revela que se sentia, entre os eleitores, um grande desejo de mudança quando Francisco foi eleito, e o seu manifesto, antes da eleição, sobre a situação da Igreja e o caminho que deveria trilhar, foi determinante para hoje Bergoglio ser Papa (ele que fora já votado, significativamente, a quando da eleição de Bento XVI). Desde o início do seu Pontificado que sabe da necessidade de ser reformador e da urgência da celeridade. Tem procedido a diversas mudanças (no IOR, no colégio cardinalício [nomeou 39 cardeais, 24 fora da Europa], criticou severamente a Cúria, criou a Comissão Pontifical para a Protecção de Menores, fez nomeações para a sanação dos problemas das Finanças no Vaticano,  etc.), sente-se um callejero (um vagabundo das ruas), não lida directamente com a informática, gostava, mais vezes, de andar sem segurança e visitar os bairros mais pobres da cidade. A reportagem/análise da National Geographic principia com um episódio ecuménico, ocorrido na Argentina, sob a égide de Bergoglio, que se prostrou de joelhos, face a um sinal de irmandade entre cristãos (evangélicos e católicos) - algo que o jornal conservador do lugar considerou uma traição. E termina com uma frase que Francisco terá dito a Mario Poli, arcebispo de Buenos Aires: "É muito divertido ser Papa".

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Razão transversal


É a dimensão, no fundo, mais importante da minha vida [ser crente]. E digo-lhe que num caso de dúvida, numa decisão, o que vai fazer pesar para um lado ou para o outro, é aquilo que entendo que um cristão deveria preferencialmente fazer.

Marcelo Rebelo de Sousa, entrevistado por Nuno Saraiva, hoje, no DN

A solidão do guarda-redes



De uma genuinidade à flor da pele, o testemunho de Vítor Valdés fez-me recordar o que John Carlin escreveu acerca da biografia de Robert Enke: estranho, estranho é que mais jogadores, em alta competição, não se evadam, não fujam, não se passem. Valdés queria "nascer outra vez", e não seria guarda-redes com toda a certeza. Cru, sabe que nem as muitas vitórias atenuam o sofrimento tantas vezes passado. Não compensaram, não. Definitivamente, não. Várias vezes, não lhe apeteceu estar no estádio, para disputar um jogo. Queria estar noutro lado qualquer, certamente a ver um filme. Foi guarda-redes, porque sim, porque o convenceram de que era talhado para isso e, depois, muito trabalho, trabalho, trabalho, trabalho - podia ser profissional de outra área (trabalho, trabalho sempre).
O que distingue um guarda-redes de um central, um médio, um avançado? "A solidão". Aquele a quem o pai das outras crianças, mesmo inadvertidamente, mesmo sem maldade, apontam, cruelmente, o dedo. A culpa é tua. A derrota é tua. Foste tu que perdeste. Foste tu que nos perdeste. Tu que nos fizeste perder. A argamassa, depois, de que se nutre o gladiador que um dia parou Henry e Wenger em Paris, o êxito de uma vida que coloca e recoloca no DVD da sala. Afinal, a alegria da terra e das pessoas entre as quais nasceu. Eis o motivo da celebração (a festa de 2006 fora antecedida de uma de expressão idêntica...em 1992). Depois, bem depois, sozinho, na Alemanha, abandonado a uma lesão - que tinha tudo para não o ser, um penalty transformado em livre; um cruzamento, no qual a bola é sereia que todos prende e não há como pensar em proteger o cabedal -, viu quebrado o mundo artificial, a bolha em que são envoltos os jogadores e equipas do mais alto calibre, uma fantasia que desconhece o homem da rua, o tilintar da moeda no bus que o leva à clínica, diariamente. Excelente "cura de humildade". Para quem vê os guarda-redes dos infantis como irmãos, guarda-redes como ele (mas a quem quer vir a ensinar alguns truques que o mano mais velho já sabe). Mãos de aço, forjadas na dureza do trabalho que agradece a um "pai rígido", capazes de não deixar fugir, ainda, um fulminante amor à primeira vista. Uma grande entrevista, uma lição de electrizante, e raríssima, autenticidade.

Nobel da Filosofia


Nem de propósito: leio no ABC que o prémio considerado o Nobel da Filosofia foi este ano entregue a Charles Taylor (juntamente com Jurgen Habermas).

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Referências (pessoais). E o sentido da vida




Autor de referência que me acompanhou ao longo de alguns meses deste último ano foi Charles Taylor. Este Domingo, ElPais entrevistou-o (no âmbito da rubrica Conversas com futuro, no suplemento Ideas, a entrevista foi conduzida por Francesc Arroyo, pp.8-9). O jornal europeu de referência apresenta o autor como "pensador de amplo espectro, considerado um dos principais filósofos contemporâneos", professor que vê agora traduzida para espanhol a sua grande obra, felizmente já antes disponível em português, A era secular ("um grande tratado da última década"). De resto, registe-se que há grupos sectoriais especializados em escalpelizar, parte por parte, este monumental livro de mais de 1000 páginas.
O professor emérito de Filosofia na Universidade de McGill, formado em Oxford, foi encarregado, juntamente com o sociólogo Gérard Bouchard, pelo Governo do Canadá, de um trabalho sobre as diferenças culturais e o acolhimento de imigrantes, dando origem ao relatório da Comissão Bouchard-Taylor. O pensador afirma-se, por sua vez, politicamente, "muito comprometido" com o social-democrata Novo Partido Democrático do Quebec.
Mas, o mais, importante, na entrevista e tema subjacente a toda ela, incide no modo como reflecte a/acerca da aturada investigação que promoveu sobre o nosso tempo enquanto tempo secularizado:

"Vivemos séculos na Cristandade, não no cristianismo: uma civilização na qual tudo - a moral, a arte - era inspirado pelo cristianismo. A maioria das igrejas foram formadas nessa concepção moral, coroada pelo facto de ser uma moral considerada absolutamente válida, a salvo de qualquer crítica. É compreensível que quem geriu essas Igrejas resista ao novo, porque crê que questiona a lógica do cristianismo"

"Hoje, as pessoas não têm claro [qual é] o sentido da vida. Há séculos, sabiam que cada um tinha que conquistar a salvação - como se dizia no Quebec - obedecendo à Igreja, sendo um bom cristão. E tinha-se um imenso temor a ser condenado. O significado da vida era tão claro que ninguém se queixava da falta de sentido. Com as mudanças, há quem creia que a vida não tem sentido. As reacções podem ir desde a tentativa de dar sentido ao sem sentido, como Camus, até destruir-se ou paralisar-se. Creio que há algo no ser humano que actua contra isto: um desejo de sentido. Pode dizer-se que a vida não tem sentido, ou que o sentido é incerto, mas há constantemente no Homem movimentos de significação que renascem na vida e isso indica-nos que somos menos distintos dos antigos do que acreditamos, às vezes com sentimento de superioridade (...) Acreditamos ser superiores porque os antigos estavam obnubilados e aceitavam histórias que lhes contavam, e nós não. Somos menos diferentes do que isso, ainda que haja diferenças"

"Para explorar os diferentes modos de significação da vida, a linguagem filosófica, que quer ser muito clara, não é suficiente. Há um pensamento subtil, como dizia Pascal. Não há apenas um pensamento matemático capaz de explorar as diversas formas de significado. Para falar como um filósofo há que ler literatura, ouvir música, porque há outras formas de expressar as coisas. O discurso do filósofo coxeia um pouco, devo dizê-lo, sem essa referência à literatura. Nela, dá-se uma riqueza, uma densidade de pensamento que falta completamente noutros textos. Eu procuro navegar entre uns e outros porque penso que é necessário"

"Encontra-mo-nos numa nova situação. Irei usar uma analogia: se vou à China, no início estou desorientado; tenho que aprender algo da língua, aprender conceitos que me são estranhos, antes de poder falar com as pessoas. O mesmo se passa quando nasce uma nova era. Aparecem problemas novos e nem sempre temos as palavras adequadas para expressar uma opinião. Estamos obrigados a encontrar a linguagem que nos permita descrever a nova situação. Vivemos numa era na qual tudo muda muito rapidamente. Precisamos de uma linguagem que dê conta dos novos significados. É um processo sem fim".

[tradução minha]

Uma sugestão


Ainda pensando no texto de Fernando Belo, e no que escrevemos na tese sobre o modo como o inciso bíblico Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus conhece(u) recepções muito variadas, afigurou-se-me que uma tese que seria interessante consistiria no recensear de todas as interpretações/significados encontrados/atribuídos à injunção vinda de mencionar. Seria, particularmente, útil em disciplinas como as de Direito Constitucional, Ciência Política ou Teologia
Um livrinho que coligisse tais glosas. Talvez já existente em outras paragens.
Recordo-me da referência a este brocardo, nas aulas de Direito Constitucional, a) dar por assente que ele significava a separação das esferas temporal e espiritual (o que nem todos os exegetas asseguram), e b) que significava apenas isso. Ora, é muito curioso, justamente, verificar a diversidade de soluções a que autores diversos têm chegado para compreender/fazer compreender aquela expressão (aquela resposta de Jesus Cristo).

Números e pessoas (V)



Em 1950, havia 25 milhões de turistas no mundo. Hoje, são 1100 milhões. Duas companhias - Carnival e Royal Caribbean - controlam quase dois terços do negócio mundial de cruzeiros. Quando um cruzeiro atraca num porto produz uma poluição equivalente à produzida por 12 mil automóveis. Os chineses são os que mais viajam. E são os que mais gastam nas suas visitas. Em 2014, os chineses somaram 109 milhões de saídas ao estrangeiro. Gastaram 151.800 milhões de euros. Prevê-se que a tendência possa manter-se nas próximas décadas, a não ser que se instale, mesmo, uma catástrofe económica na China.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

César e Deus


Na tese que aqui trouxe, ao longo do último mês, equacionou-se, no fundo, a relação entre política e religião, num quadro cristão (e católico). A propósito do brocardo Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, sublinhámos as múltiplas interpretações que vêm sendo sugeridas para o concretizar. Num texto muito estimulante sobre este tema, Fernando Belo, hoje no Público

 5. Delineado o quadro histórico, resta a questão inteira: como se relacionam os evangelhos, na sua radicalidade espiritual escatológica, com a política do mundo de hoje, com as suas questões ecológicas e sociais lancinantes? Do religioso para o espiritual, o enigma da fecundidade (duma planta muitas sementes, dum casal muitas ninhadas) desloca-se dos campos e dos rebanhos para os comportamentos humanos, cujo excesso tem o nome de generosidade: amar o próximo é a coisa mais difícil do mundo, como todos temos experiência. Em que é que a política, a organização da sociedade, se opõe à generosidade, quando em termos de riqueza, a fecundidade foi substituída pela produtividade? Em todas as suas estruturas que consolidam um poder, substantivo de uso corrente, este tende a impedir o que os seus subordinados podem, como verbo. O motivo evangélico do serviço extremamente radical — “vocês sabem que os que são vistos como chefes das nações mandam nelas como senhores e que os grandes fazem sentir o seu poder sobre elas; não deve ser assim entre vocês: pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, far-se-á o vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vocês, far-se-á o escravo de todos” (Marcos 10,42-44) — pode ser lido como fomento das possibilidades dos que estão sujeitos aos poderes, ajudá-los a libertarem-se para o que possam fazer e ser. Como por exemplo deve ser o lema de toda a educação, de todo o ensino. 6. Há três dicotomias políticas nos evangelhos que podem ser esclarecedoras: “não podeis servir Deus e o Dinheiro” (Mateus 6,24), “dai o que é de César a César e o que é de Deus a Deus” (Marcos 12,17), “[Deus] não é um Deus de mortos, mas de vivos; todos com efeito vivem por ele” (Lucas 20,38). O dinheiro, César e o Deus dos mortos (da religião enquanto poder, de que o suporte é o Templo, adversário simbólico de Jesus) são três feitiços do poder substantivo que impede que se possa viver fecundamente. É o cerne da atitude espiritual, renunciar aos feitiços, mas também é a de todos os grandes apaixonados por causas de vida, artistas ou pensadores, gente entregue à generosidade social, aqueles cujas biografias lemos por vezes maravilhados, que nos mostram como vale a pena viver. Fecundidade fora do ‘poder’: ‘sem posses’ mas ‘podendo’ além do que podiam. É isso uma ética radical. 7. É o dito referido ao imposto a César que pede um esclarecimento, os outros dois podem ser deixados à imaginação do leitor. Esta oposição é uma espécie de emblema da leitura anacrónica, que lê uma repartição das actividades, ao poder do Estado o que lhe compete, ao mundo eclesiástico a sacristia e o seu rebanho de pastores, um pacto entre dois ‘poderes’ substantivos (em que um deles está a perder terreno há mais de um século, o outro também aliás, nos últimos 30 anos de supremacia financeira do grande capital, como temos sentido). Mas uma leitura atenta do episódio que culminou nessa frase mostra o anacronismo que seria deixar-se todo o domínio de César ao seu arbítrio. Trata-se de uma armadilha: “é ou não lícito pagar o imposto a César?” Se Jesus disser que não, será denunciado à autoridade romana ocupante, a quem esse imposto se destina; se disser que sim, será abandonado pela multidão anti-ocupação romana que o aclamou à entrada em Jerusalém e à expulsão dos vendilhões do Templo, deixará de ser perigoso. Se a resposta de Jesus fosse a que hoje corre (e que ajuda ao ajuste dos poderes, não é daí que vêm os problemas entre nós, essa lição de separação dos domínios até seria útil a muçulmanos e israelitas), ele teria caído na armadilha e sido renegado pela multidão, o que obviamente não sucedeu: a resposta não foi a dum ‘colaborador’ com o ocupante. A astúcia de Jesus foi pedir a moeda e pegar pela imagem de César nela: a Lei bíblica proíbe as imagens de humanos, aquela imagem é pois ilícita, estrangeira, mandá-la para César equivale a expulsar a moeda do país, o que por um lado convém à multidão que o aclama e por outro não dá pretexto a acusação aos Romanos. “E eles ficaram espantados” com a resposta, concluem os três evangelhos. Em vez de submissão ao poder de César, é a libertação dos feitiços do poder — do dinheiro e das burocracias (clerical ou outra, engravatada, mediática) — que permite ‘viver’ fecundamente, apaixonadamente.

Na íntegra, aqui.

Dúvida



Se conseguíssemos esquecer a América da caça às bruxas, caldo cultural que marca o filme, este - sem nunca ter o condão de arrepiar, ou envolver demasiado o espectador; um filme de actores, claro, com Meryl Streep ou Seymour Hoffman, mas não um grande filme, creio - poderia, ainda, ilustrar, uma vez mais, a absoluta recusa da dúvida, isto é, e afinal, a rejeição da nossa condição de fragilidade, de (simples) mortais, ilustrados na todo-poderosa, mas humana, madre que termina em lágrimas porque, ao fim e ao cabo, não tem certezas (neste caso, sobre a culpabilidade do padre Flynn). Como parábola desta nossa condição, que o "belo sermão" com que se inicia A dúvida (John Patrick Shanley, 2008) ajuda a ler (prosseguir nela é o nosso acesso hoje à estrela que indica o caminho ao marinheiro; sobre a dúvida escreve importantes páginas, Ratzinger, em Introdução ao Cristianismo), fica novo testemunho.

A qualidade do Estado


Se as discussões sobre o Estado se concentram na sua quantidade - mais, ou menos, Estado -, elas podiam, antes, ou simultaneamente, focar-se na qualidade: sobre a capacidade, organização, complexidade e eficácia de este instrumento político servir a comunidade. Assim, diz-nos Francis Fukuyama, poderemos ser tão bem servidos por um excelente welfare state nórdico, como por um mais minimalista Estado de Singapura, ou mesmo EUA, desde que o funcionamento da máquina estatal - funcionamento que tem, precisamente, permitido a italianos e belgas, por vezes, prescindir de governos - seja mesmo bom. Para o politólogo, "temos uma tendência inata" a beneficiar amigos e familiares e é isso que torna tão difícil manter um Estado moderno (a corrupção, ou tráfico de influências são ameaças constantes). Os próprios EUA estão completamente capturados - ao nível dos seus decisores políticos - estão completamente capturados pelo poder económico-financeiro, garante, afirmando, ainda, que a disfuncionalidade do Estado pode levar à decadência.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Homework (III)



O Giordano Bruno (1973), de Giuliano Montaldo, representado por Gian Maria Volonté, é mundano, irrefreável, bon vivant, excessivo, convicto, insolente, reformador, auto-confiante, aventureiro, incorruptível, bravo, apaixonado, desiludido por fim. O poder não se reforma, de per se. Secular, ou não secular. A última nota é, pois, de pessimismo. Humano e institucional. Bruno não conseguiu ser o bom conselheiro que muda o príncipe. Sete anos e muitas dúvidas volvidas, as habituais alas 'conservadora' e 'progressista' a digladiarem-se no interior do Tribunal do Santo Ofício, morre Giordano às mãos da sua luta pelo que acredita ser verdade, pela liberdade da sua consciência.