terça-feira, 30 de junho de 2015

Legados


A investigação (e seus resultados, em A condição humana) em torno do conceito de vita activa foi o grande legado que Hannah Arendt deixou à filosofia do século XX - escreve António Marques em A filosofia e o mal.

Caixa de pandora (V)











segunda-feira, 29 de junho de 2015

Caixa de pandora (IV)


Caixa de pandora (III)


Viriato Soromenho-Marques, hoje, no DN:


Caixa de pandora (II)


Wolfgang Munchau, hoje, no DN:

A conclusão que tiro é que há dois resultados prováveis. O primeiro é um regime indefinido de controlo de capitais, talvez com uma reestruturação bancária mais tarde, como parte de um pacote mais amplo de alívio da dívida. Isso deixaria a Grécia dentro da zona euro. O segundo cenário é o grexit. O primeiro seria preferível. Mesmo assim, o segundo seria ainda preferível ao acordo que o senhor Tsipras rejeitou ou a um retorno a um consenso pró-austeridade. A minha maior preocupação é política. O que acontecerá se o eleitorado grego votar sim mas a Grécia for na mesma forçada a sair da zona euro, porque os credores e o BCE não lhe deixaram outra opção? Este cenário seria o mais tóxico de todos. Implicaria que uma união monetária sem uma união política só pode existir em violação dos princípios básicos da democracia. Seria entendida como sendo um regime totalitário.

domingo, 28 de junho de 2015

Caixa de pandora





O "acontecimento"


Em A filosofia e o mal, António Marques qualifica como "deprimente" o desinteresse da filosofia da segunda metade do século XX pelo acontecimento do Holocausto e, bem assim, "chocante" que Heidegger e Sartre, nas suas obras durante ou pós-II Guerra Mundial, não reflictam acerca do problema do mal ancorados no acontecimento que estavam a viver (qualquer comparação com este acontecimento diminui a força a partir da qual esta reflexão deve ser articulada). Hannah Arendt, pelo contrário, assume o tópico para reflexão (sistematizada) o que é um mérito em si mesmo. Ainda que, segundo o Professor da Nova, Arendt esteja fundamentalmente errada (neste ponto). Foi o interesse público demonstrado pela reedição de Eichmman em Jerusalém - a quando dos 50 anos desta obra, em 2013 -, bem como pelo filme Hannah Arendt que levou o Professor a pensar escrever a obra que agora nos chega.

Eduardo Lourenço


LER Capa138.jpg

Acabo de ler a entrevista de Eduardo Lourenço a Paulo Moura, na LER (nº138, Verão 2015): a) uma parte da humanidade já acredita que a morte é o fim de tudo; b) como o humano se julga dono do mundo e julga poder dominá-lo de qualquer modo isso pode voltar-se contra ele (aqui, a entrevista é muito próxima do que o Papa Francisco escreve na mais recente encíclica); c) não se compreende como a Europa se preparava para integrar a Turquia e deixava de fora a Rússia; d) a ilusão de imortalidade é fundamental para não nos confrontarmos com a nossa essência que é a morte (aqui a 'mentira' da religião seria necessária); e) os padres da Igreja sempre integraram os autores que vinham do paganismo, até à própria dissolução do cristianismo (nesse paganismo), quando, na verdade, foi o cristianismo a suportar a unidade europeia; f) desde 1451 que o Islão viveu na Europa como posteriormente a URSS; g) a Europa nunca soube lidar com o Outro, o diferente de si; nunca o entendeu, ao longo da História; h) para que houvesse uma unidade europeia, era necessário que na escola os estudantes saíssem a saber quem foi Dante, Camões, Cervantes - e não sabe; i) Portugal já não tem álibis - a narrativa da gesta dos descobrimentos se foi - e temos de demonstrar do que somos capazes. A escola é aí fundamental e nela o cultivo das ciências. As Humanidades poderiam ser recuperadas, depois. Mas é preciso emular, copiar, as nações mais avançadas porque a História é uma luta constante; k) A existência de Portugal é um milagre e saímos quando necessário, pois que se assim não fosse teríamos sido engolidos por Castela; l) a verdadeira eternidade seria voltar a contar com os que amamos, que estes voltassem aqui e agora, mas esse sonho é-nos interdito; m) não sabemos em que momento da história da humanidade nos encontramos, ou, se quisermos, sempre, para cada geração é o momento zero da história que ela continuará sem nos pedir opinião; n) a descolonização foi o momento marcante do século XX, sendo que de algum modo perdemos a tempestividade de nos irmos embora (dos impérios), ficando (ao mesmo tempo), algo que só a Inglaterra logrou (ainda que hoje talvez isso aconteça, mesmo, connosco, em alguns lugares).

Entre outras afirmações a interpelar-nos.

sábado, 27 de junho de 2015

Laudato Si. Razões a partir da fé.


1.O mundo foi criado por Deus.
2.Logo, o mundo não é pertença do ser humano.
3.Este, o mundo, não se apresenta ao humano como objecto que pode ser dominado e destratado a eito, consoante apetites e humores demasiado humanos. Como é importante repropor o Deus Criador e Pai, renovando a consciência que evite a cultura do descarte (a nosso bel-prazer).
4.O humano deve, aliás, cooperar com a criação (contínua) e cuidar das demais criaturas que são, elas mesmas, pelo facto de existirem, glória a Deus.
5.Se a Natureza parece remeter para um sistema que se pode analisar, Criação aponta para um dom (gratuito que, portanto, nos é oferecido).
6.Apesar de todas as criaturas terem sido criadas por Deus, não têm todas o mesmo valor: o humano tem um lugar especial.
7.O lugar especial que o humano ocupa resulta de ter sido feito 'à imagem e semelhança de Deus', capaz de se conhecer, possuir, dar e entrar em comunhão com outras pessoas. Não é algo, mas Alguém. Possui, pois, uma grande dignidade, um grande valor. "O amor de Deus pelo ser humano confere-lhe uma dignidade infinita" (nº65)
8.Só Deus é santo.
9.Logo, se o humano não o é, não deve comportar-se como tal perante a Natureza, perante a criação. Não é, pois, admissível um antropocentrismo despótico. A indiferença ou crueldade com que tratamos outras criaturas de um modo ou outro poderá repercutir-se no modo como tratamos os humanos (nº92).
10.Mas a natureza também não é Deus. Não deve, pois, ser divinizada. Se o fosse, não seria frágil - como é - e não necessitaria da colaboração do humano - como necessita.
11.O cuidado com as demais criaturas, não deve, reitere-se, aceitar que todas têm o mesmo valor ("isto não significa igualar todos os seres vivos e tirar ao ser humano o seu valor peculiar que, simultaneamente, implica uma tremenda responsabilidade"; "às vezes nota-se a obsessão de negar qualquer preeminência à pessoa humana, conduzindo-se uma luta em prol das outras espécies que não se vê na hora de defender igual dignidade entre  os seres humanos. Devemos, certamente, ter a preocupação de que os outros seres vivos não sejam tratados de forma irresponsável, mas deveriam indignar-nos sobretudo as enormes desigualdades que existem entre nós, porque continuamos a tolerar que alguns se considerem mais dignos do que outros", nº90). Não é possível possuir-se um amor genuíno por toda a criação, se, na verdade, mais preocupados estamos com o tráfico de animais do que com o tráfico de seres humanos, ou com a situação dos pobres ("não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se, ao mesmo tempo não houver, no coração, ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos. É evidente a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano de que não gosta", nº91).

A partir do capítulo II da Laudato Si, do Papa Francisco.

[confrontar a recusa da divinização da natureza com os vários politeísmos que por aí surgem, os paradigmas new age, etc., bem como perceber a não igualização de todas as criaturas à luz da mundividência cristã, face, por exemplo, a autores que consideram este privilegiar como "especismo", como é o caso de Peter Singer]

Laudato si. Para uma ecologia integral


O capítulo II, da encíclica Laudato Si, do Papa Francisco é paradigmática do quanto uma dada tradição (religiosa) pode contribuir para iluminar um conjunto de questões/debates públicos; dito de outra forma, aquele capítulo da carta do Santo Padre é a demonstração cabal do contributo público relevante que as religiões podem dar ao espaço público. De resto, é, desde logo, uma compreensão em profundidade, do ponto de vista metodológico/hermenêutico de como abordar uma ecologia integral que as palavras do Papa surgem eivadas de uma grande sabedoria - que é sempre contrária aos reducionismos obtusos que, infelizmente, continuam a prosperar no nosso tempo: 


63. Se tivermos presente a complexidade da crise ecológica e as suas múltiplas causas, deveremos reconhecer que as soluções não podem vir duma única maneira de interpretar e transformar a realidade. É necessário recorrer também às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade. Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído, então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem própria. Além disso, a Igreja Católica está aberta ao diálogo com o pensamento filosófico, o que lhe permite produzir várias sínteses entre fé e razão. No que diz respeito às questões sociais, pode-se constatar isto mesmo no desenvolvimento da doutrina social da Igreja, chamada a enriquecer-se cada vez mais a partir dos novos desafios.

Papa Francisco, Laudato Si, nº63

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O desafio do momento


O que singulariza o concreto desafio que o ISIS significa, segundo Bernardo Pires de Lima, é a sofisticada campanha de radicalização ideológica online (algo que não existia, pelo menos com o actual grau de sofisticação, com a AlQaeda) e é para essa campanha e para uma resposta adequada que temos - em particular, os que são políticos, mas demais cidadãos - de nos preparar.

Risco bom, risco mau



54. Preocupa a fraqueza da reacção política internacional. A submissão da política à tecnologia e à finança demonstra-se na falência das cimeiras mundiais sobre o meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse económico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afectados os seus projectos. Nesta linha, o Documento de Aparecida pede que, «nas intervenções sobre os recursos naturais, não predominem os interesses de grupos económicos que arrasam irracionalmente as fontes da vida».[32] A aliança entre economia e tecnologia acaba por deixar de fora tudo o que não faz parte dos seus interesses imediatos. Deste modo, poder-se-á esperar apenas algumas proclamações superficiais, acções filantrópicas isoladas e ainda esforços por mostrar sensibilidade para com o meio ambiente, enquanto, na realidade, qualquer tentativa das organizações sociais para alterar as coisas será vista como um distúrbio provocado por sonhadores românticos ou como um obstáculo a superar.

Papa Francisco, Encíclica Laudato sí, nº54



A valorização mítica do risco é hoje apenas aplicada à acção individual, dentro de um quadro de self improvement e self empowerment. A acção colectiva, que não seja assistencial e caritativa, é um mau risco.

José Pacheco Pereira, O risco bom do poder e o risco mau da liberdade in XXI, nº 5, Jul-Dez 2015, p.32, nº24.

Estratégia



Curiosamente, se, em vez de correr para Putin, Tsipras tivesse recorrido a uma intensa campanha diplomática junto da Administração Obama, talvez houvesse dado o verdadeiro golpe de mestre, alcançando a máxima pressão junto dos decisores europeus, eventualmente, mesmo, dividindo Merkel e Schauble, notou, ontem, Bernardo Pires de Lima, em As palavras e os actos (RTP1, 5ª, 20h50), lá onde considerou que o actual PM grego sabe que não é vendável um acordo na Grécia - seja que acordo for - pelo que eleições ou um referendo serão os cenários mais prováveis. Segundo o especialista de relações internacionais, as propostas e conduta dos políticos gregos têm sido surpreendentemente sensatas - no que assim se afasta das visões hegemónicas na interpretação da atitude grega. A procura de levar até ao último segundo as negociações, com isso apertando ao máximo a pressão sobre quem tem a última palavra fará parte de um jogo com lógica.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Guerras



Inventariando as possibilidades próximas de uma guerra, Paulo Rangel, em entrevista a António José Teixeira, no último Sábado (SicNotícias), aludiu às reiteradas palavras do Papa Francisco sobre uma Terceira Guerra Mundial (e até a Ratzinger/Bento XVI pela sua alusão a Bento XV).
Na encíclica Laudato si, Francisco fala expressamente em um “cenário favorável a novas guerras” (nº57). Este cenário tem que ver com os recursos (naturais) que se esgotam.
A este propósito, escreve o Santo Padre, se a dívida financeira faz com que alguns países pobres sejam controlados por outros (não pobres), todavia esquece-se que estes últimos contraíram para com os primeiros, em não raros casos, uma dívida ecológica, dada a riqueza da biosfera presente nos ditos países, utilizada por terceiros. Um olhar que não seja redutor, uma “ecologia integral”, com horizontes amplos – que faltam a muitos governos, na crítica feita pelo Papa -, que se pretendem inscritos no documento dirigido a todos os habitantes do Planeta (nº3), tem por consequência olhar a todas as – a todo o tipo de – dívidas. Para que não haja guerras. Até porque, ao olharmos para questões concretas como a da privatização da água (nº30), teremos sempre de ter em conta e garantir que não se privam os mais pobres do acesso a esta, indispensável à vida.
De resto, “é previsível que o controle da água por grandes empresas multinacionais se transforme numa das principais fontes de conflito deste século” (nº31).

Estilos



O estilo rocócó é o primeiro, na história da arte europeia, a exprimir a felicidade (puramente terrena), aponta Frederico Lourenço.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Só para coleccionadores (III)


Agora que a Quetzal reúne crónicas sobre futebol escritas por Dinis Machado, vale a pena dizer que o jogo mereceu já, felizmente, tratos requintados, de calcanhar ou de chilena, por parte de alguns reconhecidos literatos. Recordo, aqui, o clássico de Eduardo Galeano, Futebol a sol e sombra.

A bola como bandeira

O futebol e a pátria estão sempre unidos; e com frequência os políticos e os ditadores especulam com esses vínculos de identidade. A esquadra italiana ganhou os mundiais de 34 e de 38 em nome da pátria e de Mussolini, e os seus jogadores começavam e terminavam cada jogo dando vivas à Itália e saudando o público com a palma da mão estendida.
Também para os nazis, o futebol era uma questão de Estado. Um monumento recorda, na Ucrânia, os jogadores do Dínamo de Kiev de 1942. Em plena ocupação alemã, eles cometeram a loucura de derrotar uma selecção de Hitler no estádio local. Tinham sido advertidos:
- Se ganham, morrem.
Entraram resignados a perder, tremendo de medo e de fome, mas não conseguiram aguentar as ganas de ser digno. Os onze foram fuzilados com as camisolas vestidas, no alto de um barranco, quando terminou o jogo.

Eduardo Galeano

[tradução nossa]

Só para coleccionadores (II)


Agora que a Quetzal reúne crónicas sobre futebol escritas por Dinis Machado, vale a pena dizer que o jogo mereceu já, felizmente, tratos requintados, de calcanhar ou de chilena, por parte de alguns reconhecidos literatos. Recordo, aqui, o clássico de Eduardo Galeano, Futebol a sol e sombra.

O ópio dos povos?

Muitos intelectuais de esquerda desqualificam o futebol porque castra as massas e desvia a sua energia revolucionária. Pão e circo, circo sem pão: hipnotizados pela bola, que exerce um perverso fascínio, os operários atrofiam a sua consciência e deixam-se levar como um rebanho pelos seus inimigos de classe.
Quando o futebol deixou de ser coisa de ingleses e de ricos, no Rio de Prata nasceram os primeiros clubes populares, organizados nas oficinas dos caminhos-de-ferro e nas garagens dos portos. Naquele entretanto, alguns dirigentes anarquistas e socialistas denunciaram esta maquinação da burguesia destinada a evitar as greves e a mascarar as contradições sociais.
A difusão do futebol no mundo era o resultado de uma manobra imperialista para manter os povos oprimidos na idade infantil.
Sem embargo, o clube Argentino Juniors nasceu chamando-se Mártires de Chicago, em homenagem aos operários anarquistas enforcados num primeiro de Maio, e foi um primeiro de Maio o dia eleito para fazer nascer o clube Chacarita, baptizado numa biblioteca anarquista de Buenos Aires. Naqueles primeiros anos do século, não faltaram intelectuais de esquerda que celebraram o futebol em lugar de repudiá-lo como anestesia da consciência. Entre eles, o marxista italiano António Gramsci, que elogiou “este reino da lealdade humana exercida ao ar livre”.

Eduardo Galeano

[tradução nossa]

Examinar



Crónica de há duas semanas na universidadefm:

Exames - mundos de ontem, mundos de hoje

O ancião de um dos lados de onde venho conta-me como foi: saía de casa às quatro da manhã, de burro - com mais sorte, pois, do que muitos que faziam o trajecto a pé – e iniciava, assim, o percurso de um dia crucial na sua vida. Não ia haver uma segunda oportunidade. Não existia uma segunda fase, uma segunda época. Eram cerca de seis da manhã quando chegava às portas da sede do concelho. Despia a vestimenta rudimentar com que acedera àquele local e colocava o fato e gravata com que devia assomar ao exame da quarta classe.
Esta imagem parece, hoje, quase medieval, embora não tenha muito mais de meio século português. Agora, os meninos do quarto ano dirigem-se à sala, em dias de exames como aqueles que ocorreram e ocorrem por estes dias, em vestimenta desportiva, ténis, calção, cruzando a perna, até, durante a escrita das provas. Do ponto de vista simbólico, ali se insinuam duas sociedades diametralmente opostas: uma, muito hierárquica e vertical; esta, muito mais horizontalizada – ainda que a actual avassaladora previsão normativa de cada passo do exame e modo de estar nele, pareça, paradoxalmente, querer quebrar aquele aparente – às vezes, na verdade, feito de grande nervosismo - à vontade.
Nas últimas semanas, diferentes periódicos portugueses têm dado conta do estudo de uma prestigiada universidade britânica que concluiu que os alunos das escolas do Reino Unido, de onde os telemóveis haviam sido banidos, em tempos lectivos, obtiveram claros melhores resultados nos exames nacionais (face a alunos de escolas onde tais práticas para com os telemóveis não haviam sucedido). Uma psicóloga explicava ao Diário de Notícias que o nosso sistema educativo ainda não aprendeu a lidar com as novas tecnologias e a importância da internet na vida dos mais novos.
Um certo deslumbramento com o que é novo, os gadjets que se sucedem a todo o instante, pode afigurar-se como algo natural, humano. Demasiado humano, dirão outros. Afinal, quando se ignora, aos 11 anos, o significado de “cobiçaram”; quando os títulos das composições de Português se repetem à exaustão, sem ponta de imaginação ou originalidade; ou quando as respostas às perguntas de compreensão de texto apresentam sérias debilidades, esse objecto que alguns achavam em desuso, o livro, volta a apresentar, para muitos que o negligenciaram, uma súbita sedução.
E, na realidade, quando relemos os textos de Hans Christian Andersen – um excerto dos seus contos aparecia no Exame de português do quarto ano de escolaridade – ou histórias clássicas como a de Alibabá e os quarenta ladrões – com um período recuperado para o exame do sexto ano, de Língua Portuguesa – compreendemos, de imediato, o potencial de prazer que podem proporcionar aos pequenos leitores. Sejamos capazes de recuperar e transmitir essa paixão. Para lá dos exames. Para que também estes corram bem.

Boa semana.

Pedro Miranda

terça-feira, 23 de junho de 2015

Só para coleccionadores



Agora que a Quetzal reúne crónicas sobre futebol escritas por Dinis Machado, vale a pena dizer que o jogo mereceu já, felizmente, tratos requintados, de calcanhar ou de chilena, por parte de alguns reconhecidos literatos. Recordo, aqui, o clássico de Eduardo Galeano, Futebol a sol e sombra.

O futebol

A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. À medida que o desporto se fez indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar porque sim.
Neste mundo do fim do século, o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável. A ninguém lhe dá a loucura que faz com que o homem seja criança por um instante, jogando como joga a criança com o globo e como joga o rato com o novelo da lã; bailarino que dança com uma bola leve como o globo que vai pelo ar e o novelo que roda, jogando sem saber ao que joga, sem motivo e sem relógio e sem árbitro.
O jogo converteu-se num espectáculo (…) que não se organiza para jogar mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do desporto profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia.
Por sorte, todavia aparece nos estádios, ainda que seja muito de vez em quando, algum descarado cara suja que sai do libreto e comete o disparate de fintar toda a equipa adversária, e o árbitro, e o público das tribunas, pelo puro gozo do corpo que se lança à proibida aventura da liberdade.

Eduardo Galeano

[tradução nossa]

[este texto permitir-nos-ia reflectir sobre o futebol de Mourinho, Ronaldo e, claro, olhando para o último parágrafo, sobre Messi; mas é a analogia com o jogo na liturgia que Guardini promove que fito em um primeiro instante, nessa liberdade absoluta a que nos convoca]

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Pneumónica (II)


A gripe pneumónica é, também, chamada gripe espanhola, porque é introduzida em Portugal por trabalhadores que vêem daquele país. Atinge o seu auge entre Junho e Dezembro de 1918, embora se prolongue por 1919. Não se sabendo, ao certo, se a sua origem remonta à China, ao Sudeste asiático, ou às tropas americanas que vêm para a Europa combater, ela deflagra em Brest. Chega a Portugal por volta de Abril de 1918 e, num país muito pobre e atrasado, com profissionais da medicina e seus ajudantes destacados para auxílio das forças portuguesas na I Guerra Mundial, os efeitos são demolidores. No período mais mortífero, morrem mais de 60 mil portugueses. Às vezes, tal representará 10% de uma dada localidade do nosso país. Em Lisboa, o Liceu Pedro Nunes é evacuado (de alunos) e passa a ser mais um centro de tratamento, face à exaustão dos demais. Há anúncios em jornais com todas as mezinhas e promessas de cura. Se estimativas com alguns anos, apontavam para mais de 20 milhões de mortos, em todo, o mundo, Fernando Rosas assinala que outras mais recentes falam em mais de 50 milhões de vítimas em resultado desta terrível epidemia. Em Portugal, Ricardo Jorge, director-geral da Saúde desde 1906, terá um papel importante no estudo, conhecimento e combate a esta epidemia. Na Europa, o Instituto Pasteur será determinante para colocar cobro a este enorme problema que se alastrou a praticamente todo o mundo.

[continuando a aprender no História a História, RTP2]

Os assuntos que nos ocupam



Crónica matinal, de há 3 semanas, na universidadefm:

Surgimento do Estado

Clássica questão da ciência política, a origem do Estado é um tema glosado com bastante interesse por Francis Fukuyama, em As origens da ordem política. O bando, isto é, a aglomeração dos humanos em famílias nucleares, dispersas por alguns territórios pelos quais passam brevemente, será a original forma de organização humana (na qual a hierarquia será ténue). Em este estádio, os humanos caçadores e recolectores partilham, imediatamente, o objecto de caça, dado ainda não existirem modos de conservação da carne. Muito curiosamente, psicólogos evolucionistas sustentam que as nossas actuais práticas de partilha de carne – em alturas como o Natal, Páscoa ou, nos locais onde tal é celebrado, o Dia de Acção de Graças – remontam, ainda, a este período. Com o advento da agricultura, há cerca de 9 mil anos, umas centenas ou mesmo milhares de humanos, reúnem-se em torno de um ascendente comum, mesmo que muito afastado (e de geração muito longínqua). Do bando, passamos à tribo.
Segundo Francis Fukuyama, que ainda há duas semanas veio a Portugal à Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, falar sobre o futuro da Europa, é necessária a confluência de vários factores para que o Estado possa emergir: i) abundância de recursos, que superem os necessários à mera subsistência; ii) a sociedade tem que ter uma escala suficientemente grande para que haja divisão do trabalho e elite dirigente; iii) constrição física de súbditos para aumentar densidade populacional e garantir a não fuga daqueles quando sob coacção; iv) grupos tribais motivados a abdicar da sua liberdade em favor da autoridade do Estado. 
Deve sublinhar-se que estes estádios não se sucedem de modo excludente: ou seja, com a formação do Estado, por exemplo, a organização tribal não desaparece. Pelo menos, em parte significativa do globo. Pensemos, em nossos dias, no Afeganistão ou no Iraque. A Europa é uma excepção que deve ao cristianismo ter uma outra base, que não o parentesco, como cimento da coesão social.
Aristóteles via a formação do Estado como algo natural, a aspiração à vida feliz, com a junção das aldeias, visão contrastada com a origem baseada em um contrato social, um pacto artificial entre agentes isolados que transferem poder para uma entidade terceira com vista à preservação da própria vida ou da propriedade, como pressupunham Thomas Hobbes e John Locke, respectivamente.
Aristóteles teve razão ao assinalar o homem como animal político, ser de palavra, comunicação onde se joga o que é justo e justo, bem e mal, nesse sentido se gerando também conflito, humano gregário e social, mas, por essa via também, ser de violência.
Embora o ser humano nunca tenha sido encontrado nesse estado natureza de que falou Hobbes ou Rousseau, foi o ser humano isolado, racional, egoísta que imperou como representação, como imagem do que somos durante séculos e para o qual construímos as nossas instituições. O homo economicus por natureza. Tempos de crise e de leitura em profundidade dos últimos dados da antropologia ou da psicologia evolutiva, pela ciência política são, pois, propícios ao ajuste de espelhos manifestamente imperfeitos.

Boa semana.

Pedro Miranda.

Possibilidades de interpretação



*A semana decisiva, por Wolfgang Munchau.




sábado, 20 de junho de 2015

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Olhar a história


No seu Esquerda e Direita. Guia histórico para o século XXI, Rui Tavares lembra que com a vinculação ao par (ideológico) esquerda e direita deixámos "as divisões tribais e sectárias do passado, as nossas lealdades clientelares a senhores feudais, as guerras mercenárias contra ou a favor de dinastias e impérios" (p.71). Portanto, agora passaríamos a lutar por grandes ideias, valores políticos. Contudo, muito depois de 1789, como no-lo mostra Mark Mazower, em O continente das trevas, as lutas por interesses específicos, os grupos parlamentares em muitos países que ou defendiam artesãos, ou comerciantes, ou uma confissão religiosa, por exemplo, continuaram bem vivos. Os 'tribalismos', ou pequenos 'feudos', desta sorte, não se eliminam completamente. Mazower vê o fascismo como grande repto e competidor da democracia - muito mais do que o comunismo que ficou circunscrito, geograficamente -, no século XX, e opta por este binómio para explicar um tempo, carregando na importância dos valores nas escolhas das pessoas/cidadãos. Neste sentido, não encarna, como Hobsbwam, a interpretação de que a economia prima sobre tudo o mais, e de que o fascismo é, apenas, um outro - um dos vários outros - nomes do capitalismo (sendo, portanto, a grande batalha entre este último e o comunismo; não é essa, reitere-se, a interpretação de Mazower). O autor de O continente das trevas sublinha como fascismo e nazismo abolem, por completo, a distinção burguesa entre público e privado (para os ideólogos do fascismo, o cidadão devia ser tanto fascista num comício, como no emprego ou em casa). Se no fascismo, ou em vários dos nacionalismos (nomeadamente católicos que se impõem, em diferentes países, pela década de 30 do séc.XX), o apelo a forças da tradição, como a Igreja, ainda se faz notar, no nazismo estas são completamente abafadas em favor do Fuhrer (mesmo o Estado de direito virá a conhecer a retroactividade de leis, sucumbirá às opções do Fuhrer; a opção pelo colectivo, menos que o enfoque nos direitos individuais será legado de um direito ou jurisprudência conservadores). A obra de Mazower mostra como a crítica extremada do individualismo (ou egoísmo) do liberalismo político - que não entusiasmará ninguém, no entender de muitos intelectuais da época - pode fazer-nos cair numa tentação de sinal contrário (a supremacia do colectivo, nos totalitarismos). Uma das descobertas como grande lição da II Guerra para homens democrata-cristãos como Maritain (e note-se como Mounier chegou a colaborar com Vichy) foi, precisamente, a afirmação da consciência individual (que nalguns casos muito significativos se havia oposto ao mal hediondo).

A história depois da história


Do continente das trevas. Mesmo após o nacional-socialismo, o racismo permanece na Europa, nos anos imediatos. O anti-semitismo não é abandonado. O Imperialismo continua, nos anos seguintes a 1945, com as potências vítimas do poder nazi a perpetrarem o domínio (imperial) em/sobre outras zonas do globo. Há um consenso contra o laissez-faire durante a II Guerra Mundial, mas há direitos - como os que dizem respeito às mulheres - que estão/são mais vivos durante o conflito do que no seu final. O liberalismo de uma democracia que não atende à dimensão social sucumbe. A reforma agrária tem um peso importante no desencadear da guerra civil em Espanha e na subida do Duce ao poder em Itália. Só o Norte da Europa, com a aliança com as comunidades rurais, e a Grã-Bretanha não caem em ditadura(s). O sistema político é algo no qual atentar é, igualmente, importante: os sistemas representativos permitem dezenas de partidos, em vários parlamentos, de diferentes estados, representando sectores e interesses muito específicos da sociedade, em vez da nação como um todo. A experiência política mais revolucionária, com a ideia do fim da propriedade, longe de todas as tradições a que se fez apelo em outras demandas políticas/ideológicas suas contemporâneas, é a do comunismo, na URSS. Em tempo de paz, os campos de concentração nazi podem ter 25 mil pessoas, na URSS milhões. Mark Mazower não alinha em ideias metafísicas da Europa e extrai como principal lição do século XX, neste continente,  a precariedade e a contingência, a necessidade e o inelutável que é lutar politicamente por objectivos que não são garantidos nem dados a priori por nenhum dado ou protecção. A história não tem fim.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Tremendo


Ainda o muito marcante texto de Paulo Varela Gomes, na Granta.

Nuno Rogeiro escreveu na revista Sábado, há 4 dias, sobre este artigo, que "precisamos de o ler", porque "é um texto admirável de um homem que recusa a ser colaboracionista no próprio desaparecimento. Sobretudo por causa dos seus. E da maravilha da vida. Reconcilia os que precisam (todos nós) com o mistério da esperança".

E, hoje mesmo, li o que escreveu o ex-secretário de Estado da Cultura, Rui Vieira Nery: "certamente um dos textos mais duros e mais belos que li desde há muito tempo. Revela uma coragem, uma dignidade e uma nobreza de carácter que nos fazem sentir muito pequeninos e que nesse exercício de humildade nos ajudam a reavaliarmos todas as nossas falsas prioridades e a enfrentarmos com um bocadinho menos de medo a nossa própria mortalidade e a nossa sede de eternidade. Obrigado, Paulo. Que Deus o abençoe".


Estavas, linda Inês, posta em sossêgo (II)

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É ligeiramente aborrecido, bem sei, mas de quando em vez a campainha desperta o recreio. Andávamos entretidos, há semanas, na infindável campanha eleitoral que começou há muito, a olhar a propaganda diária de notícias prometedoras, dos dados estrondosos e salvíficos, quando, da realidade - sempre uma chatice - nos cai o país real. O relatório sobre a situação da Saúde no nosso país, hoje conhecido, o relatório sobre a situação de centenas de milhares de doentes sem o tratamento devido, apeadas para casa porque muito caras para os hospitais, sem dinheiro para medicamentos, nem, tão pouco, para transportes que os levem a consultas necessárias, falta de enfermeiros, equipas não potenciadas como devia ser, com as camas públicas a diminuírem e a aumentarem as privadas, sem a comparticipação necessária do Estado em diferente medicação, com o especial e preocupante caso dos doentes psiquiátricos, parece aterrar de um país longínquo e desconhecido do que temos observado irromper pelos ecrãs às 20h. O problema é, "apenas", a dissonância cognitiva face ao país real residir no tom festivo com que se nos apresentam às 8h da noite. Afinal, qual é a festa?

Estavas, linda Inês, posta em sossêgo


De acordo com o mais recente relatório do FMI, referindo-se aos países avançados nos quais inclui Portugal, "a flexibilidade do mercado de trabalho beneficia os ricos e reduz o preço de negociação dos trabalhadores de mais baixos rendimentos". Tal flexibilidade tem aumentado a desigualdade social que, por sua vez, é, ainda, nociva à economia. Para Passos Coelho, no entanto, e há escassas semanas, no caso português, nesta legislatura só ficou por fazer a reforma para baixar os custos do trabalho às empresas. Não precisam de programa, nem de "garantias": a próxima reforma do código de trabalho lá dará para um aditamento em um futuro relatório do FMI.

Partidos transnacionais



Foi na leitura de A sociedade do risco, de Ulrich Beck, há uns 4 ou 5 anos - preparando uma entrevista, que não chegou a realizar-se, a Paulo Rangel, a propósito do seu O estado do estado, no qual o pensador alemão tinha um lugar -, que me deparei, pela primeira vez, com a intuição de que fariam sentido partidos transnacionais. Muitos dos problemas que temos não se solucionam, com efeito, em pura lógica nacional: questões ambientais; harmonização fiscal; evasão e planeamento fiscais; regras laborais, etc. Rui Tavares defende a existência destes partidos - desde logo, a uma escala continental (europeia) -, mas facilmente se percebe como funcionam como antecâmara de uma deliberação que se pretende à escala global. Em Esquerda e Direita. Guia histórico para o século XXI, o ex-eurodeputado elabora algo que qualifica, em formulação bem conseguida, como "objectos de desejo" políticos - de uma "herança social" para jovens, até a um rendimento universal de cidadania, um subsídio de desemprego europeu, etc. - como algo capaz de mobilizar em uma agenda a lançar. Mas não ignora que para a financiar necessita que o 'capital' não tenha as possibilidades de fuga que hoje consegue (de aí os mecanismos transnacionais a implementar). Depois, louvando-se na campanha de Barack Obama pretende uma coligação de uma "maioria de minorias", coligando, por exemplo, os desempregados do Sul com os centros criativos do norte. Um cidadão poderia, neste futuro imaginado, ser inscrito em um partido europeu (transnacional) sem estar inscrito em um a nível nacional, ou, até, quiçá, desrespeitar a escolha de filiação que o partido nacional fizesse a uma escala europeia (ou transnacional). Com inteligência, Rui Tavares afasta-se da demagogia apolítica de um Podemos, quando nota que quando se quer fazer do binómio casta vs 99% o sucedâneo do esquerda/direita, significa importar para território seu os mais reaccionários ou os mais revolucionários dos cidadãos, como se, afinal, as diferenças de mundividência, ideológicas não contassem (suprimindo-se a escolha, suprimindo-se a política; em resultado curiosamente espelhar ao dos que referem que as soluções são técnicas e não há que discutir o caminho único).
O historiador pretende ver Portugal manter-se no euro e, de novo com subtileza, responde aos que se querem fora da moeda única e/ou do projecto europeu (pense-se aqui em muito do que tem dito João Ferreira do Amaral): "argumentar que a democracia historicamente só funcionou à escala do estado-nação, por exemplo, não é só argumentar como a direita, supondo que o que houve até agora é aquilo que por natureza deve haver, mas esquecer a enorme importância que para a democratização nacional tiveram os movimentos internacionais do seu tempo. A história é a história. O futuro sê-lo-á a seu tempo, da forma como o conseguirmos fazer. Hoje, outra soberania é possível" (p.105).

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Retratos


Paula Cruz, 39 anos, professora nascida em Viana do Castelo, desencaminhou jovens e adultos para os territórios do pensamento. Ensinou em terras onde os testes não se davam quando a filha do médico adormecia e enfrentou professores hirtos, de olhar severo, para quem "os novos" nada aprendem e, como tal, nada podem ensinar. Saíram-lhe ao caminho alunos humildes a pedir desculpa por 'só' conhecerem Os Lusíadas até ao Canto VII. Mulheres trabalhadoras a roubarem tempo aos filhos, ao descanso para aprender em horário nocturno saberes que levam anos. Viu miúdos a chegar às aulas de tractor, e ela, filha de agricultores, a lembrar as vacas, os porcos e o jeito que a mãe tinha de lhe mostrar o futuro: "Não queres isto para ti, pois não?".

Miguel Carvalho, Retratos de quem deu a volta à crise, XXI, nº5, FFMS, Jul-Dez de 2015, p.17.

Ao ouvido



Crónica minha de há três semanas, na ufm:

Um país, duas regiões

Quantas nações cabem em um país? A reedição do clássico Identificação de um país, do Professor José Mattoso, serve de mote à revisitação de um Portugal uno, mas com diversidade bem acentuada entre o Norte montanhoso com uma alma muito sua, sem direito a grandes interferências, liberdade arcaica reivindicada sem pejo, e um Sul de planícies mais fáceis de atravessar e onde o compósito se forma nas diferentes trocas.
Partindo da constatação de como, de modo praticamente uniforme, desde 1975, Norte e Sul votam de modos opostos, e com Orlando Ribeiro evocado, José Mattoso recua no tempo, no clima, na orografia e busca continuidades que ainda nos expliquem: pensamos no Norte de montanhas íngremes, isolamento imposto ou conquistado durante tempos a fio, liberdade, também, pois claro, concentração populacional, conservadorismo de quem não acolhe, por sinuoso ser, ainda, o caminho, muitos estrangeiros; arcaísmo de cultura, assim perene, valorização, por séculos, da família extensa (a viver na mesma casa), casamento tardio de mulheres, número significativo de celibatários, respeito e valorização dos mortos; a Sul, planícies, mais fácil troca de produtos e gentes, casamento mais precoce entre as mulheres, menos homens dispostos ao celibato, menor concentração de pessoas, número bem menor, ao longo dos séculos, de famílias extensas (a viver na mesma casa), menor celebração/valorização dos mortos, maior individualismo.
No final do século XIX, maior alfabetização masculina a Norte do que a Sul; e, inversamente, maior alfabetização feminina a Sul do que a Norte. Por vezes, traços nortenhos superam fronteiras nacionais (há outros Nortes europeus que partilham algumas semelhanças com o Norte português, por exemplo, ao nível da existência de famílias extensas e número substantivo de celibatários).
Mattoso não propõe uma explicação de tipo causa-efeito entre orografia e carácter de um povo – ou de povos –, mas regista coincidências e continuidades.
No início da nacionalidade, havia, desta sorte, diferenças claras - algumas, como sabemos, bem perenes e que devem beber, pois, em explicações muito afastadas no tempo, como vimos de observar -, que havia que harmonizar e suplantar (por vezes, diferenças que se completavam) para podermos falar de Portugal.
Atendendo à efectiva diversidade portuguesa, para que a unidade da nação emergisse houve, segundo o historiador, a concorrência de quatro factores determinantes: a) transferência de população, isto é, as migrações (nomeadamente de Norte da para Sul); b) o desenvolvimento económico e tecnológico; c) a criação de uma classe dominante; d) a organização do Estado.
Entre diversidade e unidade, pluralismo e harmonização, diferença e completude, assim nos fizemos portugueses muito próprios.

Boa semana.
Pedro Miranda

Liberdade, Igualdade, Fraternidade (?)


O próprio lema revolucionário - o célebre «Liberdade, Igualdade, Fraternidade» - demorou quase um século a impor-se: aparecendo no Clube dos Cordoeiros, num convento franciscano em Paris, em 1791, foi preterido por Napoleão, que escolheu «Liberdade e Ordem Pública», ou pelos tradicionalistas, que preferiram «Rei, Lei e Fé», ou pelos positivistas, que lhe contrapuseram «Ordem e Progresso» (que foi parar à bandeira do Brasil), até finalmente se impor com a Terceira República Francesa.

Rui Tavares, Esquerda e Direita.Guia histórico para o século XXI, Tinta da China, Lisboa, 2015, pp.37-38.

domingo, 14 de junho de 2015

"Revolução"


Com a Revolução Francesa, até a palavra "revolução", explica Rui Tavares em Esquerda e Direita. Guia Histórico para o século XXI, ganhou um novo significado: deixa de ser a reviravolta para se regressar ao normal, à ordem, para se tornar na mudança que não volta atrás.

Uma pena




Há tempos, Herman José, em entrevista a Vítor Gonçalves, referiu-se ao prazer que tem sentido com o regresso à estrada, retomando as suas performances em palco. Pareceu-me que, na sequência do que dissera anteriormente no mesmo diálogo, a saber, o tempo que houvera para preparar Herman Enciclopédia e que lhe permitira chegar aos tão brilhantes resultados que conhecemos, queria tomar para si a medida necessária, de molde a ter um espectáculo que os media de hoje já não acolhem. Tomei, pois, como autêntica a expressão e fui ver. Assisti, com pena e desilusão, durante uns trinta minutos, não aguentei mais confesso, a um homem que foi genial, é inteligente e culto transformar-se num enunciador de graçolas do mais básico e rasteiro, sempre com os mesmos temas a apelar ao grotesco, e a personagens da cultura mediática com que qualquer iniciado de stand up comedy poderia entreter-se. Herman sabe que não é um Fernando Rocha. É pena que leia o público português, o mercado, como lhe pedindo isso, apenas isso, e não se sinta o homem irreverente que vá à luta para o contrariar, vencendo - com o humor genial capaz de a todos agregar; o mais difícil e que chegou a conseguir na sua extraordinária carreira. Por muitos saltos que tenha dado, por muito prazer que diga sentir, o Herman que vi foi um homem de braços caídos.

Interpretações eleitorais


Se, como tem escrito Vasco Pulido Valente, as gentes andam desnorteadas entre promessas baseadas em crescimento económico pouco plausível (para os próximos 4 anos), ou em garantias cuja solidez ninguém descortina, natural é que a percepção, por cada cidadão, do que cada força política (ideológica) representa, face às prioridades/expectativas/desejos, que esse eleitor tem, para um governo - sejam estas, em primeiro lugar, a disciplina das finanças públicas, ou, se inscrevam em essa posição os mecanismos de solidariedade social - determinem o seu voto. Em meu entender, isto explica, em boa medida, por que o par direita/esquerda não só mantém validade - não só ajuda a interpretar a realidade política/eleitoral - como a sua resiliência. "Eu" posso não conhecer, não "me" apetecer saber, não ter tempo para ler programas, mas tenho "a certeza" que com um partido ou coligação determinados valores políticos - como os acima descritos - serão melhor protegidos do que com outro partido (ou coligação). Se se poderá argumentar, sem especiais dificuldades, que, por exemplo, as finanças públicas sãs são condição para que possa haver justiça ou coesão social - e que não se trata, aqui, pois, de valores antitéticos, no que, aliás, representaria uma leitura simplista; ou, ainda, que não divergem, mesmo partidos de ideologias diferentes, de desideratos como os de umas finanças públicas sólidas -, a verdade é que se olharmos para diferentes inquéritos que, para ilustrar, o livro de André Freire sobre esquerda e direita oferece, notaremos que a hierarquização entre o par aqui sugerido é clara. 

Umbral e cristianismo do paradoxo

sábado, 13 de junho de 2015

Feira do livro



Seguindo algumas das conferências da FFMS na Feira do Livro de Lisboa: David Justino, em diálogo com Paulo Chitas, diz que cada aluno que chumba, chumba, em média, 2,3 anos, em Portugal. Os chumbos só serão responsáveis por cerca de 2% dos chumbos (do 4º, 6º e 9º anos). Portugal foi o país que mais evoluiu na quebra do abandono escolar, nos últimos 15 anos. E os resultados nos testes PISA encontram-se praticamente na média da OCDE, algo que em muito poucas outras àreas o país alcança (para David Justino tal deve-se não às políticas públicas, mas devido ao aumento de escolarização dos pais dos alunos que na última década melhoraram, claramente, os resultados nos exames comparativos internacionais). Antes de existirem os actuais exames, o número de chumbos era bem maior, pelo que não terão sido estes a aumentá-los. As escolas, no entanto, estão muito centradas nos exames finais e aí o ano escolar pode tornar-se num sucessivo examinar...até ao exame final. "Não quero formar cordeiros para uma sociedade de lobos", afirmou o ex-ministro da educação, em defesa dos exames, falando numa sociedade na qual as pessoas nos seus empregos são avaliadas constantemente e que têm de ser preparadas para tal embate.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Omissões no debate político


João Duque, no suplemento de economia do Expresso (06/06/15), junta-se a um significativo grupo (de estudiosos) que vêm na robotização, na potenciação das novas tecnologias factores cruciais para a diminuição dos trabalhos disponíveis (ou, se preferirmos, a contrario, para o aumento do desemprego estrutural) e, bem assim, para as consequências que julga necessárias ou inevitáveis: aumento de subsídios e aumento da tributação do capital. Ironizando, refere que quanto ao primeiro dos aspectos muito caminho tem sido trilhado; já no segundo elemento do par em causa tem que conseguir alcançar-se o objectivo preconizado.
O facto de João Duque estar longe de perfilhar ideias cuja proveniência costuma ser a esquerda do espectro político, mais nos faz estar convictos de que, justamente, aqui será muito mais a realidade - do que a ideologia - a impôr-se. A questão está nos manuais há anos (vide, por exemplo, de 2006, Direita e esquerda? Divisões ideológicas no século XXI), há programas políticos que chegaram a incorporá-los (creio que aqui ao lado o Podemos chegou a inscrever, mas retirou a proposta de uma renda de cidadania do seu leque de medidas a implementar), já houve referendos (vide Suiça) sobre a matéria, de quando em vez há pequenas conferências/debates sobre este tema (a UTAD foi palco, neste ano lectivo, de um desses debates), há, até, livros que se antecipam ou pretendem lançar a discussão (Martim Avillez Figueiredo lançou, há um ano, obra de resposta a Philippe von Parijs), o articulista do jornal de referência aborda a questão com acutilância (leia-se António Guerreiro, no Público, para exemplificar). No entanto, o tema não chega às televisões, logo não chega à (grande) conversa de café. Para os partidos, dá ideia que o problema não existe. Eis uma grande omissão do debate político (interpartidário).

Faces da escola (II)


Teste intermédio: o aluno, ao fim de poucos minutos, dá o exame por concluído. Já?, questiona-se a docente. Que sim. Revê, então, o que escreveste para confirmares se tudo está bem e se não pretendes modificar alguma coisa. Nada de alterações. A professora abeira-se da carteira do António e percebe que quase todas as questões foram respondidas de modo errado. Adverte, de novo, o aluno para a necessidade de rever a prova, se não podes não passar. Digo-lhes isto, justifica imediatamente em tom maternal, que é para ver se estão mais atentos e concentrados. À tarde, a mãe do António liga furiosamente à educadora: como foi possível dizer aquilo ao menino? Como aludir a um chumbo que sabia impossível? Será admissível abordar o infante logo no início do teste? Ainda se espanta, quando relata o caso, a dedicada professora, conquanto me pergunta: que autoridade vou ter perante este aluno, depois de ele ouvir o modo como a mãe falou comigo?

Faces da escola (2015)


A professora estava incrédula: os pais do João foram fazer queixa à sede do Agrupamento de escolas onde lecciona de que este se constipara (responsabilidade da professora, concluíram de imediato os progenitores do menino).

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Silêncio


O texto de Paulo Varela Gomes, na Granta, é de estremecer. Quase se chora, se não se chora mesmo, ao ler Morrer é mais difícil do que parece.

Comunidade



Não sabia que se calculavam estas coisas.

Mas fico a saber no Editorial de Carlos Vaz Marques, na Granta (Falhar melhor) que de acordo com as estimativas de demógrafos e matemáticos - a última das quais realizada em 2011 - terão passado pela Terra 108 mil milhões de almas.

Da religião e da ciência (III)

Da religião e da ciência (II)



"Se procuro um sentido para além do que me é dado pela minha profissão? Claro", Carlos Fiolhais, cientista.

Da religião e da ciência



Continuamos a acompanhar as conferências de Sinais de Fogo. Desta vez, o tema foi A loucura das religiões. Com Frei Bento Domingues e Carlos Fiolhais. Moderação de Ana Sousa Dias.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Finais que sabem a pouco (NBA 2015)


Tristan Thompson fez-me recordar Denis Rodman: pode um jogador que não marca um ponto ser determinante na vitória da sua equipa? Pode. Por exemplo, se ganhar muitos ressaltos, vários deles ofensivos e que se transformam em pontos fulcrais, segundos preciosos. Pela primeira vez na história da NBA, os dois jogos iniciais dos Finals foram a prolongamento. O segundo desafio não foi, de resto, muito melhor do que o primeiro. Um chorrilho de turn-overs e bolas fáceis desperdiçadas prossegue. Lebron James é celebrado em crónicas de jogo e merece chamadas de capa (vide, hoje, Gazzetta dello Sport), mas o realizador da Abc bem viu: em dois jogos consecutivos, falhou os cestos em cima da buzina que dariam vitórias. Joga contra o mundo, mas também falha muito contra o mundo. De épico, apenas os 3.18mn de recuperação de 11 pontos, pelos Warriors, quando se julgava que desta não haveria extra-time. A ausência de Irving, afinal, não foi determinante. Dellavedova pode ser a arma secreta destas finais. Isto, pelo menos, enquanto  Stephen Curry permanecer com percentagens desastrosas de lançamento. Quem teve direito a luxo nos últimos anos, Spurs e Mavericks praticando um basquetebol maravilha nas finais, só pode perguntar-se se este ano a luta é para ver quem falha mais. Neste segundo encontro, até a arbitragem foi do pior.

Crónicas




Leio a crónica A perfeição do cristal (inserta, por Frederico Lourenço, em O lugar supraceleste) e penso imediatamente que poderia pertencer a Claudio Magris; já Sob o signo do implacável remetendo/defendendo, bem, a ideia, a existência do Sublime (de que os gregos não duvidam) não oferece os instrumentos hermenêuticos indispensáveis para quem não perscruta ou entende a diferença entre Mozart e um cantor pop poder fazer a destrinça (faz, mais, por ela, um exercício para iniciados, de um grande professor de Música, numa das aulas de Yale disponíveis gratuitamente no youtube que Pacheco Pereira costuma aconselhar); quanto à exposição do autor, da sua intimidade, em muitos dos textos que escreve, dir-se-ia que, em alguns casos pelo menos, a sua crueza ajuda a ir muito além daquela história subjectiva (leia-se o "leve daqui as crianças" e, assim, a evolução do 'estatuto' destas, na nossa sociedade); não fugindo às questões últimas, Frederico Lourenço vê o sentido da vida em fazer algo por outrem. Ir além do egoísmo, do interesse próprio, servir outrem. Bebe - como no-lo mostra na aurora deste livro - em textos pré-cristãos (hindus) que lhe revelam o desígnio e compreende-se como ratificador desta perspectiva olhando para a sua experiência de vida; crê que faz sentido distinguir génio de bom gosto (e interroga-se se Paula Rego não cai neste caso: um génio sem a centelha do bom gosto). 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Da história pátria: escravatura


Escravos em transporte

O História a história (Domingos, RTP2) foi hoje dedicado ao tema da escravatura em Portugal. Para tal, foi necessário recuar ao século XV, altura em que a actividade principiou em solo português. Centenas de escravos chegam a Lagos, vindos da Guiné. O negócio, de que participa o Infante D.Henrique é altamente lucrativo. Todos os anos chegarão a Portugal cerca de 4 mil escravos. Além disso, portugueses comerciam-nos para outros países europeus e americanos. Curiosamente, com a vinda de escravos, muitas ocupações ficam satisfeitas, em diferentes ofícios, o que resultará em aumento da emigração portuguesa. "Com excepção dos pedintes", observa o historiador (Fernando Rosas), quase não há ninguém, na sociedade portuguesa, que não possua escravos. Para lidar com estes, e em particular para os constranger/punir, são criados um conjunto enorme de artefactos. O tratamento cruel conhece, com efeito, várias modalidades, principiando, desde logo, pelo ferro em brasa cravado - às vezes, mais do que uma vez - na pele do que terá um amo (com o nome deste). À chegada, maridos separados das suas mulheres, filhos apartados de suas mães. Máscaras. Azeite a ferver. Chicotes. Se não há excessivos reparos da Igreja, em Portugal, face a tal prática, serão, contudo, instituições na órbita desta que farão peditórios, ou reunirão instrumentos com vista a alcançar cartas de alforria para que estes homens em servidão deixassem de se encontrar em tal estado. O modo de maior desumanização dos escravos terá sido a prática de criar esquema e locais onde escravos procriassem entre si para de aí resultar força de trabalho alocada onde necessário. Em algumas cidades, os escravos representaram 10% das populações, em períodos do séc.XV ou XVI. Seriam leis do Marquês do Pombal, "proto-abolicionistas" nas palavras de Rosas, que, pretendendo, é certo, encaminhar os escravos para os brasis, objectivamente se tornaram pioneiras no contributo para o fim da escravatura, antecipando, até, o que posteriormente seria realizado com a Revolução Francesa (1789).

Multiculturalismo no cinema


António Pinto Ribeiro (Miscelânea, Cotovia, 2015) chama a atenção para o filme Me beautiful Launderette, de Stephen Frears, de 1985 foi dos primeiros a apresentar, ao grande público, o tema do multiculturalismo. E que, em tempos que nos são mais próximos, Lisboetas (e Novos Lisboetas), de Sérgio Treffaut se tornaram verdadeiros clássicos do documentário sobre situações interculturais.

domingo, 7 de junho de 2015

Óscar Romero (III)




O Bispo Romero encontra-se na capela do Hospitalito, onde vive, homilia proferida na missa por alma de Dona Sara, a meio da eucaristia, na semana que o devia conduzir ao Domingo de Ramos de 1980, quando recebe um tiro, de fora do templo, que o atingirá mortalmente, aos 62 anos. Nos dias anteriores fará um apelo à consciência dos militares para que não matem os seus compatriotas camponeses, mesmo que para isso tenham que resistir a ordens e normas. O discurso ficará célebre e é visto como a causa próxima do homicídio de que vem a ser vítima. Vinte e quatro horas antes do assassinato, Óscar Romero fala no martírio como algo que lhe poderá suceder e que receberá, garante, como dádiva. O juiz que se encarrega do caso é rapidamente "visitado" por um grupo de assaltantes, em sua casa, com vista a pôr cobro às investigações. O magistrado, de sobreaviso face ao clima que se vivia, tem uma arma por perto e consegue afastar os criminosos. O magistrado é, no entanto, obrigado a fugir para a Venezuela. El Salvador, palco privilegiado da guerra fria que se encontra no auge, passa, então, por uma guerra civil - Romero sempre conseguia dialogar com revolucionários guerrilheiros e com oligarcas conservadores, tornando-se um positivo obstáculo a que esta se desencadeasse. Mas agora já não há Romero. O caso judicial fica, entretanto, congelado, porque os acontecimentos diários que se sucedem parecem sempre mais importantes. Só com os acordos de 1992, com o final da guerra naquele país, uma "comissão da verdade" irá assinalar um ex-general como o autor moral do crime, ele que seria, pois, o mandante de um esquadrão de morte que se situa no extremo direito do espectro político.

sábado, 6 de junho de 2015

O escritor




Ao que parece, há grandes escritores que nunca foram para a cama com ninguém (Isaac Newton, por exemplo) (...) A parte difícil é a vida: estar fora e dentro dela. Para escrever algo que valha a pena, não dá para estar, de alma e coração, na vida do mundo e na vida dos outros. Mas estando fora delas também não dá. O dilema está em conciliar a sentença de solidão perpétua que o escritor tem de aceitar com o problema de o facto de estar fora da vida lhe vedar o acesso ao que sustenta a escrita: a própria vida. Como se vê no caso de Proust e de Pessoa (e de tantos outros), a perfeita decantação por escrito da experiência de viver implica em grande medida não viver. As implicações disto são muitas. Um exemplo apenas: a relação ideal para o escritor será sempre com alguém que consiga a cada momento tornar-se inaudível e invisível. De certa forma, Newton até tinha razão.

Frederico Lourenço, O lugar supraceleste, p.56.