domingo, 31 de maio de 2015

Imigração




No mais recente Olhar o mundo (RTP2), Carlos Lopes (Secretário-Executivo da ONU) deu esta nota acerca do fenómeno da imigração: o número de africanos que atravessa, anualmente, o Mediterrâneo cifra-se em 175 mil (pessoas; isto em um universo de 2 biliões de africanos). Portanto, do ponto de vista relativo muito poucos acabam por ser estes migrantes. Visto, ainda, de um outro prisma: bem mais de 175 mil são os europeus que migram para África. Alertou, ainda, este orador das Conferências do Estoril, para o facto de países mais fechados à imigração, como o Japão, por exemplo, serem mais envelhecidos, enquanto outros, como EUA ou Canadá, que recebem mais imigrantes, conterem mais população jovem. Constatou como no globo haverá uma parte muito jovem e outra muito envelhecida, claramente delimitadas do ponto de vista geográfico, e o futuro contrato social deverá ter em conta esta realidade. Considerou que devido às redes geradas pelos jovens, com recurso às novas tecnologias, onde encontram amigos em todo o mundo, e em assumindo-se, cada um, cada jovem como cidadão do mundo, a ideia de que alguém da minha idade me vem - de fora - roubar o emprego já não colhe - ou seja, a bondade na visão sobre a imigração será, hoje, bem maior do que em tempos recentes. Veremos se não haverá, neste último apontamento, bastante optimismo quanto a uma fraternidade digital.

Génio



Messi: só para coleccionadores.

sábado, 30 de maio de 2015

Skholé


A palavra "escola" deriva do latim "schola", por sua vez formada a partir do grego "skholé". Pierre Bordieu recuperou para o conceito contemporâneo de "escola" o sentido primordial do termo grego, definindo escola como "tempo livre e libertado das urgências do mundo que torna possível uma relação livre e libertada com essas urgências e esse mundo". Numa sociedade em que a Escola esteja ligada a uma visão utilitária do conhecimento e em que estudar apareça exclusivamente associado à obtenção de vantagens profissionais, económicas e sociais, pode parecer um contrassenso recuperar o seu sentido original de "tempo de lazer ou de descanso". Na realidade, essa proposta de Bordieu faz todo o sentido, porque é aquela que melhor nos ajuda a compreender a relação intrínseca entre Escola e Saber. E encarar a Escola como "tempo livre e libertado das urgências do mundo" é, na minha opinião, a melhor forma de fazer jus à almejada "Sociedade do Conhecimento" (...)
Na realidade e ao contrário do que muitas vezes ouço dizer, creio que os alunos que frequentam a Escola de hoje são muito mais exigentes do que os do meu tempo. Mas o que exigem eles de nós, professores? O que é o mesmo que perguntar: num mundo altamente competitivo, que vantagem apresenta, ainda, a Escola relativamente a todas as outras fontes de obtenção de informação? A primeira que me surge parece-me óbvia: a Escola é o único lugar onde os alunos podem estar em contacto permanente com profissionais que estudaram para os ajudar a hierarquizar, criticar e organizar toda a informação de que já dispõem e toda aquela que está à sua disposição (...)
Advogo uma ideia ao mesmo tempo antiga e nova, simultaneamente simples e complexa: a Universidade deveria começar muito mais cedo. O que quero eu dizer com isto? Que desde a mais tenra infância se deveria promover uma Escola que colocasse o aluno na posição de investigador, investigador de si, dos seus semelhantes, do mundo à sua volta, do mundo imaginado. Este lugar é, do meu ponto de vista, muito mais compatível com o mundo em que vivemos e com os imensos meios de que todos dispomos, a começar pelos alunos, para acedermos a todo o tipo de informação. Porque o que transforma a informação em conhecimento é o processo que envolve o sujeito numa descoberta significativa e profunda que altera drasticamente a sua relação consigo próprio e com o mundo em que vive.

António Branco, Professor e actual Reitor da Universidade do Algarve, na intervenção no colóquio na Gulbenkian Pensar a Educação. Portugal 2015, publicado pelo JL nº1165, ano XXXV, 27 de Maio a 9 de Junho de 2015, suplemento Educação, p.3.

A escola de cada um


Porque a escola não pode, de facto, falar (apenas) ao aluno médio ou ser construída para este:

"Existem, hoje, entre 10 e 20% de alunos em risco de Necessidades Educativas Especiais; entre 10 e 12% com Necessidades Educativas Especiais; e entre 5 e 10% de sobredotados". Dados de Ana Maria Serrano, professora da Universidade do Minho, na conferência Pensar a Educação. Portugal 2015, que decorreu na Gulbenkian, e cujos sublinhados foram registados por Carolina Freitas, JL, nº1165, ano XXXV, 27 de Maio a 9 de Junho de 2015, suplemento Educação, p.2. 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Fanatismos




[Os fanatismos, mesmo quando não vão aos extremos] confundem a linguagem que aponta para um sentido com a própria realidade. "Deus existe". Esquecem que a palavra "existe" não tem ali o mesmo significado que tem quando dizemos que uma pedra existe. São registos múltiplos de linguagem. Se não se entra nessa dança, na dança simbólica, não se entende nada no plano religioso (...) Se não há o salto para o ilimitado da linguagem, de todas as linguagens...Os únicos que fazem alguma coisa muito boa são os músicos, os da grande música. Porquê? Porque não a posso apanhar (...) Quando fazemos da palavra Deus um referente, é como se metêssemos Deus numa gaiola, é como se metêssemos Deus dentro dos nossos conceitos, das nossas imagens. Os nossos conceitos, as nossas imagens são para nos fazer viajar. É para que a imaginação não pare (...) Há uma expressão em francês a que acho piada: "Un Die défini est un Dieu fini" [Um Deus definido é um Deus acabado] (...) Somos amados. Aquilo de que todas as pessoas gostam é de contar para os olhos de alguém. Fora do amor não existimos. (...) A gente nota, mesmo nas leituras do Evangelho, que Jesus levou muito tempo a encontrar o seu caminho. Coisa espantosa (...) A Igreja deve ser um foco de alegria - porque há esperança! A crença na ressurreição é uma crença muito razoável. Se não há uma memória de alegria para biliões de seres, baptizados e não baptizados, para aqueles que nem tiveram tempo para viver, para os que foram para a vala comum...pelo amor de Deus, isto não tem jeito (...) Não se aguenta a desvida se não se faz um hino à vida (...) Quando [cada um de nós] chegámos [à Terra] isto já estava como estava e quando partimos, isto ainda fica muito atrasado. Agora, segundo o sopro que cada um receber, segundo o vento que chegar a cada um, que [este] responda (...) Digo às pessoas todas: se [a História, a vida] não tem sentido, a única filosofia verdadeira é o suicídio. A questão toda é que confessamos que temos sentido. Saímos, vamos a um sítio bonito e vemos que tem sentido (...) Quando dizemos Deus, dizemos que o mundo tem sentido. É uma forma de falar. Wittgenstein viu muito claro quando disse que dizer que o mundo tem sentido é [uma forma de] rezar (...) Aquilo que dá sentido à vida é o que eu posso fazer pela alegria daqueles que não podem nada. Ou então nego-me, e nego-me ao sentido da vida [...] Claro que [a parábola dos talentos] é literatura! Queria era ver o povo que possa viver sem literatura (...) A frase mais horrorosa que ouvi em Portugal foi, não sei se há três anos: "não sejam lamechas". Quem não está bem, que emigre (...) Esta frase é a negação de um país. Seja que governo for, pode fazer bem, pode fazer mal. Não pode, à partida, dizer que está para uns tantos, e que, os que não estão bem, que se amanhem (...) Uma Igreja de entrada: as pessoas que venham cá ter connosco e a gente diz como é. Não. [Uma Igreja de saída] É sair ao encontro. É uma frase de Jesus que este Papa reencontrou: "Vinde a mim vós todos que andais aflitos e oprimidos, e Eu vos aliviarei" (Na minha terra havia a Nossa Senhora do Alívio) (...) Deus não pode ser confundido com os nossos limites. Quando digo Deus, não falo de uma entidade que possa definir, mas de um amor imenso. O ser humano, com a sua razão, organiza o mundo como pode (Digo muitas vezes: "foi o que se pôde arranjar!"). O importante é perceber que são pessoas da nossa família que sofrem. Não são estranhos (...) O homem veio, não para ser servido, mas para servir (...) O essencial, não entendemos. Mas podemos caminhar para ele. O essencial é o que puxa por nós, o que nos faz andar. A arte, a poesia, que nos faz saltar para lá do muro. A teologia e a filosofia: são um interrogar contínuo. Cada adquirido é só um patamar para nova interrogação.

Frei Bento Domingues, em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, Jornal de NegóciosWeekend, 22/05/2015, pp.4-9.


Talento


I: Passamos pouco tempo a pensar sobre nós próprios?
Tiago Forjaz: Claro, e a pensar no nosso argumento. Quem somos, o que queremos, que legado queremos construir, que mensagem queremos deixar. Há uma coisa muito importante no talento: é que só conseguimos ser resilientes se construirmos algo em cima do nosso ponto de vista original, a ideia de quem somos. Depois da intempérie, como volto ao estado inicial? Para isso tenho de me conhecer e isso obriga-me a ter consciência do meu propósito de vida.
Tiago Forjaz, em entrevista a Pedro Rainho, no jornal I, no suplemento Educa, p.11, 27/05/2015.

Colinho


O colinho e o manto protector da Coreia do Sul, no Mundial de 2002, foram os seus adeptos - que encheram os estádios, e fizeram muito barulho, e tal...

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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Um epitáfio


Gerando alguma expectativa pelo facto de ser um formato novo, no âmbito da análise e comentário político em Portugal; dado essa mesma análise e debate estarem praticamente ausentes dos canais televisivos generalistas (fora do cabo); em virtude de se inspirar em um programa prestigiado da televisão francesa, As palavras e os actos (RTP1, 20H50), esta noite em estreia, concita algumas atenções e tem como primeiro convidado Alberto João Jardim. Ele que, em rigor, no interior do PSD, terá sido aquele que do ponto de vista discursivo melhor terá articulado uma alternativa ao modelo liberal que se tornou não só predominante como hegemónico em tal partido (o seu último discurso de tomada de posse merecia releitura). Seja como for, Jardim dificilmente dirá melhor, sobre os últimos quatro anos, do que aquilo que afirmou em recente entrevista ao Expresso: os portugueses berram, mas aceitam tudo. Fica como epitáfio da legislatura.

Já chega


Depois de uma semana em que tivemos que levar com doses cavalares diárias das imagens de Guimarães - será que quem está à frente das decisões editoriais nos telejornais achou mesmo aquele o tema mais importante do mundo, durante 7 looongos dias?! -, Fernando Madrinha escreveu com acerto no Sol (22/05/15, p.12):

Enquanto o Correio da Manhã se vai tornando, não apenas líder, mas também o modelo da Imprensa portuguesa, o tabloidismo entra pelas televisões adentro. Assim, são cada vez mais raros os jornais televisivos que não abrem com a notícia de um crime, o julgamento de um crime, ou as imagens de um crime, repetidas até à exaustão e ao vómito. Ninguém diria que, contra todas as expectativas, a criminalidade tem diminuído significativamente nos últimos anos. Com excepção da delinquência juvenil e dos carteiristas, estes, sim, em franco progresso.

Imaginário comum (?)




Os entrevistadores do Público perguntam a Rui Tavares se ele não gostava de estar no papel da protagonista de Borgen, tendo uma palavra determinante a dizer na formação do Executivo (3ª temporada); Jorge Almeida Fernandes recorre à mesma série para falar dos resultados das mais recentes municipais e regionais em Espanha; José Manuel Fernandes pergunta a Francis Fukuyama, partindo de House of Cards e Borgen; ontem, o I trazia uma peça acerca dos cenários pós-eleitorais (pós-legislativas), intitulando o texto de Guerra de Tronos; Fernando Sobral escreveu no último Weekend duas extensas páginas sobre o estado da arte quanto às séries que nos são propostas...
Creio que foi Pacheco Pereira quem disse que muito provavelmente as séries, as melhores séries, seriam vistas - no futuro - como hoje olhamos para o romance do século XIX. Ficção de grande qualidade, na qual atentar se torna imperativo. Bem mais (ou bem menos) do que isso, o recurso exaustivo a títulos, personagens, conteúdo de diferentes séries televisivas fazem delas quase como que o código da cultura, em nossos dias. Em todo o caso, questiono-me, pensando, por exemplo, em um texto de um catedrático de jornalismo que criticava o recurso a colunistas do Washington Post ou do The New York Times no primeiro - e, aliás, glorioso - ano do jornal I (dirigido por Martim Avillez Figueiredo), 'padecendo' de 'excesso de cosmopolitismo' (elitista), segundo o académico, ou a sinalização, de um dos (antigos) provedores do leitor do Público quanto ao registo de linguagem utilizado naquele periódico, se, ainda assim (os números de Borgen, na RTP2, eram considerados bons, no momento em que a série passou pela primeira vez, mas isso significava, às vezes, 80 mil espectadores), estas referências não surgem encriptadas para muitos leitores (mesmo os que lêem 'jornais de referência' e se pretendam mais exigentes e/ou politizados, fazendo parte de tal formação o conhecimento das séries evocadas). Ou, talvez, de modo mais optimista, funcione como estímulo extra a que a tal ficção de qualidade no século XXI seja vista por mais gente.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Tiago Rodrigues - Sessão " Ciência, arte e conhecimento"



Tiago Rodrigues principia a sua intervenção com uma história magnífica de Boris Pasternack, a importância da memória, do intangível, daquilo que ninguém nos pode roubar (a memória de Primo Levi, a educação preconizada por George Steiner ecoam). O 30 de Shakespeare. Depois, a evocação das origens do teatro que remontam, ainda, as celebrações litúrgicas. Elementos que compõem o teatro, mas que também são comuns à esfera do religioso: memóriaassembleia, a transcendência. Prosseguirá pelos caminhos da necessidade de legitimar a importância da arte e da educação artística (diferente da educação para a arte) na nossa polis. Isso passa, inclusive, pela conversa ao café. É preciso habitar os teatros, sendo que Portugal tem um número de teatros - "de edifícios a que chamamos teatros" - per capita dos mais elevados da Europa. Damos muita importância a espectáculos para crianças/infantis e, depois, 'universais', mas temos esquecido a adolescência. Ninguém melhor do que os católicos, considera o orador, para perceber a importância da arte - sem necessidade, pois, de persuasão para reivindicar o seu estatuto na cidade. Ninguém melhor do que os católicos a habitar edifícios (analogia com os teatros) e, portanto, a encher salas, a que horas for, em comunidades (sentimos que estamos a ficar fartos da mediação do ecrã e será em frente ao outro que nos reencontraremos). Tiago Rodrigues promove o distinguo entre cultura e arte, considerando que "instituições culturais" podem ser mais fácil autocolante na lapela de um político, enquanto a arte não será domesticável (e uma nova geração de artistas tem irrompido na última dezena de anos e ascendido a instituições que assim serão menos 'controláveis'; embora "a partir de Lisboa", Tiago Rodrigues quer um D.Maria nómada e de todo o país...a até além fronteiras). Uma oração de sapiência que vale a pena escutar.

Livre-arbítrio (XL)




A predestinação, pois claro. A ética protestante e o espírito do capitalismo. O espírito do tempo.

«Eles estão a roubar-nos as ovelhas». Foi assim que um jesuíta descreveu a vaga de mudança que está a varrer o cristianismo na América Latina, um antigo bastião católico. Quem são «eles»? As novas Igrejas protestantes evangélicas, pentecostais e carismáticas que nasceram na região nos últimos 30 anos - tal como aconteceu nos Estados Unidos, em África e noutros lugares - estão a preocupar a Igreja Católica e a reduzir rapidamente os seus rebanhos. (...)
No entanto, as ovelhas não foram roubadas. As ovelhas já não são ovelhas: são consumidores, e encontram um produto mais atractivo no mercado da salvação. (...) Muitos [destes novos movimentos que nas últimas décadas congregam milhões de seguidores] pregam o chamado evangelho da prosperidade, que afirma que Deus aprecia a acumulação de riqueza na vida terrena e recompensará as doações materiais à Igreja com prosperidade e milagres. De facto, numa sondagem recente do Pew sobre as atitudes religiosas nos Estados Unidos, onde 50 das maiores 260 Igrejas se baseiam agora na prosperidade, 73 por cento de todos os Latinos religiosos concordavam com a afirmação de que «Deus concederá sucesso financeiro a todos os crentes que tenham uma fé suficientemente forte». (...) Em parte, este falhanço [da Igreja Católica, nomeadamente, em manter o número de fiéis na América Latina, mas também de algumas das principais denominações protestantes] tem que ver com a doutrina e com a capacidade das Igrejas evangélicas de oferecerem uma mensagem baseada na riqueza e em ofícios espectaculares (...) Uma mensagem explícita sobre riqueza e prosperidade e uma ênfase nas acções individuais e na redenção ajustam-se a um cenário onde a pobreza e a exclusão têm sido a regra.

Moisés Naím, O fim do poder, Gradiva, Lisboa, 2014, pp.283-290.

Livre-arbítrio (XXXIX)




Sobre a felicidade. Sobre o conteúdo da qual a ciência nada tem a dizer. Só na Grécia Antiga, houve quem contabilizasse, como ensina Adela Cortina, 25 definições diferentes acerca do significado da mesma. Eis uma pequena nota nossa sobre o tema:

Pascal BRUCKNER, A euforia perpétua. Ensaio sobre o dever da felicidade, Editorial Notícias, Lisboa, 2002, 32. No entendimento deste autor, podemos afirmar que a felicidade é subsumida a uma dimensão prazenteira, hedonista. Ao longo da história da filosofia, contudo, mesmo autores que convergiam na necessidade de buscar este bem, a felicidade, divergiam quanto ao conteúdo da mesma: Aristóteles reclamava a eudaimonia como felicidade, isto é, a busca dos grandes mistérios do universo ou a dedicação à política, com uso da justiça e da prudência; para os epicuristas felicidade era sinónimo de prazer, enquanto os estóicos refutavam que a felicidade pudesse consistir em emoções prazenteiras, pois não dependem, estas, de nós. Cf. Adela CORTINA, Para qué sirve realmente la ética, Paidós, Barcelona, 2013, 33. 

Livre-arbítrio (XXXVIII)





Santidade e determinismo.

"Já depois de publicado este ensaio deparei no livro de memórias de José Saramago com a seguinte passagem: «A ambiciosa ideia inicial - do tempo em que trabalhava no Memorial do Convento - havia sido mostrar que a santidade, essa manifestação «tetaratológica» do espírito humano capaz de subverter a nossa permanente e pelos vistos indestrutível animalidade, perturba a natureza, confunde-a, desorienta-a». José Saramago, As pequenas memórias, Lisboa, Caminho, 2006, p.36. Saramago não gostaria de ser apodado de determinista biológico, mas é o que a sua afirmação implica. De qualquer modo, a ideia que propõe é a mesma da do [meu filho, de 11 anos] Duarte. Simplesmente, não é apenas a santidade que aparece como uma violação da natureza, como o escritor propõe, mas toda a civilização"

Onésimo Teotónio Almeida, De Marx a Darwin. A desconfiança das ideologias, p.88, nota de rodapé 78.

Livre-arbítrio (XXXVII)


Shakespeare (adaptado)

"É importante verificar que há mais coisas no céu e na terra que nos sonhos da filosofia de Dennett"

M.R. Bennett e P.M. S. Hacker, Fundamentos filosóficos da neurociência, p.469.


Apenas alguns exemplos.


"Já devia ser evidente que, tal como Ryle e Wittgenstein, não pensamos que a investigação empírica consiga resolver quaisquer problemas filosóficos, tal como ela não consegue resolver problemas matemáticos. Portanto, afastamo-nos de Dennett desde o início, porquanto repudiamos o naturalismo quiniano que adopta. Não pensamos que os problemas filosóficos possam ser resolvidos através da pesquisa científica. (...) Dennett não tem problemas em imputar propriedades psicológicas ao cérebro. Ele pensa que o cérebro é consciente, que recolhe informação do mundo e usa-a para extrair antecipações. Afirma que o cérebro faz muitas vezes suposições simplificadas, usa informação de apoio, chega a conclusões e interpreta a informação que recebe. Já argumentámos que isto é incoerente. (...) Porque se a mente é o cérebro, então estar ciente da mente é estar ciente do cérebro (mesmo que não constatemos isso). Dennett vai mais longe: estamos tão intimamente cientes da nossa mente, declara ele, «que pode mesmo dizer que você é a sua mente» (...) Afirma que é indiscutível que temos mentes (embora não seja muito claro sobre o modo como podemos ser e ter uma mente). (...)  De acordo com Dennettt, o sujeito não tem autoridade sobre os habitantes do seu mundo heterofenomenológico («o que acontece dentro dele»), mas só sobre o que (lhe) parece acontecer dentro dele. Mas isto pouco sentido faz.
Primeiro, se o sujeito afirma que acredita, espera, receia, anseia isto, aquilo ou aqueloutro, não está a relatar nada que aconteça dentro dele. Crenças, esperanças, receios e anseios não «acontecem nas» pessoas. Mas elas possuem uma autoridade prima facie sobre aquilo em que acreditam, esperam, receiam e anseiam. A sua confissão sincera é um critério (anulável) da sua crença, esperança, receio ou anseio. Na ausência de provas em contrário, a sua palavra permanece.
Segundo, em relação a uma série de fenómenos mentais, não há nenhum «parece», e para um sujeito possuir «autoridade» em relação a esses itens nada tem a ver com nada que simplesmente lhe parece ser o caso. De maneira que, por exemplo, não há nada como parecer a uma pessoa que ela mesma está com dores (a fortiori, não há nada como lhe parecer que está com dores e que não está com dores); e o que acontece com as dores também acontece com outras sensações

 M.R. Bennett e P.M. S. Hacker, Fundamentos filosóficos da neurociência, pp.449-467.

Livre-arbítrio (XXXVI)





Sobre a unanimidade entre cientistas.


"Deixemos agora a Filosofia da Ciência e passemos às Ciências Cognitivas, sempre dentro da perspectiva da impossível unicidade do conhecimento. Aqui opto também por uma visita a um livro de balanço crítico e síntese. Trata-se de Conversations on Consciousness. What the best minds think about the brains, free will, and what it means to be human [Oxford University Press, 2007]. Contém entrevistas com reconhecidas autoridades como o casal Patricia e Paul Churchland, Ned Bloch, Francis Crick, David Chalmers, Daniel Dennett, Roger Penrose, John Searle, Francisco Varela e outros, conduzidas por Susan Blackmore.
Para não tornar fastidiosa em demasia esta minha excursão, citarei apenas o parágrafo conclusivo do prefácio, onde a entrevistadora resume o aprendido nas suas conversas com especialistas:

Eu aprendi imenso destas maravilhosas conversas [...] Mas será que compreendo agora a consciência (consciousness)? Entendo certamente bastante melhor do que antes as muitas teorias sobre ela, mas quanto à consciência em si - se é que isso existe - receio que não.

Depois da leitura deste conjunto de entrevistas eu próprio cheguei a uma conclusão idêntica e posso fazer minhas as palavras de Susan Blackmore (...)
Num caso ou noutro, vemos pronunciamentos algo atrevidos de sumidades com a veleidade de terem tocado os limites últimos.
Estou a lembrar-me de Daniel Dennett (...) que se atreveu a publicar um livro com um título como Consciousness Explained. Mas a explicação da consciência parece ter satisfeito apenas o próprio Dennett e mais ninguém".


Onésimo Teotónio Almeida, De Marx a Darwin. A desconfiança das ideologias, Gradiva, 2009, pp.89-106 (do capítulo 'Do (r)econhecimento da ignorância como saudável atitude fundacional').

terça-feira, 26 de maio de 2015

Antonio Pinho Vargas - Sessão " Ciência, arte e conhecimento"



A alocução de António Pinho Vargas, no ciclo Escutar a cidade, ter-se-à constituído - pelo menos, de entre as conferências que escutei neste âmbito -, muito provavelmente, como a instância mais crítica ao negligenciar/omissão da Igreja no mundo da música, muito concretamente: "nenhum padre, nenhum teólogo, nenhum frade, nenhum Bispo" - com excepção da presença do Bispo de Viana do Castelo, no festival de música sacra daquela cidade, no início deste século - o interpelou relativamente às últimas peças que compôs, particularmente Judas (segundo cada um dos evangelistas). Algo que atribui ao facto de sermos, cada vez mais, "ilhas", com a área de interesse e de especialização de cada um, distante de outros saberes, actividades, àreas de conhecimento, artes: "o actor não vai ao espectáculo de música; o músico não vai ver a peça de teatro...etc". Em realidade, "o homem da Renascença, que ainda em Kant se manifestava, já não existe". Só o especialista sobrevive. 
Creio que estas sessões valem bem por momentos como este que, a meu ver, obrigam, inapelavelmente, a um exercício auto-crítico: "o sair" da Igreja para o mundo que Francisco pede; a "Igreja perita em humanidade" implica uma busca de diálogo e o atentar, muito seriamente, criticamente, com muito interesse em obras como as que Pinho Vargas compôs.
Longe de registos menos assertivos, a intervenção de Pinho Vargas foi tudo menos politicamente correcta não apenas ao evidenciar a total ausência de compositores portugueses na primeira linha de destacadas publicações sobre História da Música, como na constatação de que mesmos consagrados músicos portugueses não executam nenhuma peça de autor português, para além da ausência de qualquer criatividade do Estado português ou das elites culturais.

Bons debates


Numa altura em que temos vindo a colocar, aqui, no blog, alguns apontamentos a partir dos dois últimos volumes publicados por Francis Fukuyama, foi muito interessante assistir ao debate de ideias entre este cientista político, Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto, com moderação de José Manuel Fernandes: a situação de África, o Estado (de Direito) e a democracia por construir; a influência, directa e indirecta, dos livros de Fukuyama na conformação da ordem internacional; a mistura de confucionismo com selecção académica para a função pública no modelo chinês; o exemplo de Singapura; as classes médias nas sociedades actuais - com Jaime Gama em grande forma, e a considerar os livros de Fukuyama "estimulantes" e que quer quem tem responsabilidades públicas, quer o cidadão comum devia ler. Um encontro na livraria Bucholz, com vídeo no 'Observador'. 

Da história pátria




Foi uma matéria que nos interessou muito nas aulas de História, um ponto em que a Dr.ª Dores insistiu, por entre peças de jornal com as últimas da historiografia sobre o tema e o sublinhar de quanto o país perdeu com a saída dos judeus – e quanto outros beneficiaram em vez de nós. E na valorização da característica do “pragmatismo”, ela que é vista com grande simpatia a Norte e desconfiança, desdém ou desprezo a Sul (no dizer de Felipe González, no seu mais recente livro).
No História a História, de Fernando Rosas (realização de Bruno Moraes Cabral), na sua mais recente edição (Domingos, noite, RTP2), regressamos a esse desgraçado tempo em que judeus que não quiseram/aceitaram converter-se ao cristianismo – finais do séc.XV – chegaram a suicidar-se. Mais: com uma lei, do tempo de D.Manuel I a implicar que fossem retirados aos judeus filhos destes menores de 14 anos – e, mais tarde, menores de 20 anos – para que fossem entregues a cristãos para que fossem baptizados e educados na fé cristã, houve judeus a matarem os próprios filhos, em desespero. E aos cristãos-novos ficam vedados cargos, profissões, enquanto impostos especiais lhe são acometidos. A Pascoela de 1506 fica marcada como a data do mais tenebroso progrom em Portugal, sendo que no espaço de dois dias são mortos alguns milhares de judeus. Frades dominicanos agitam a populaça (contra os tristemente designados “assassinos de Cristo”). Os autores, e colaboradores da matança, porém, serão severamente punidos, pelo rei D.Manuel que, à altura dos acontecimentos e em época de peste, se encontra fora de Lisboa.
D. João III introduz a Inquisição, o Tribunal do Santo Ofício em Portugal. Encarregue de o presidir, seu irmão, cardeal D.Henrique. Segundo Fernando Rosas, a perseguição que a Inquisição promove vai muito além do religioso, incidindo em tudo o que é considerado ‘anormal’ (bígamo, p.ex.) à luz das concepções da elite dirigente. 285 anos de Inquisição em Portugal, 225 de autos de fé, construídos, estes, em forma de espectáculo, destinado a espalhar o medo, perante multidões (e, em múltiplas ocasiões, com a presença do Rei).
progrom já no séc.XIV. Judeus vêm para Portugal, perseguidos, por exemplo, em Aragão. Raramente labutam a terra. São alfaiates, pequenos comerciantes. Os mais cultos vão para as maiores cidades do litoral. São indispensáveis na corte, em não poucos casos (são sábios matemáticos, são mercadores, são cientistas, são médicos).
Há quem, não só no interior da comunidade judaica, lute contra a Inquisição. O padre António Vieira ou o médico-historiador Ribeiro Sanches são disso exemplo. O Marquês do Pombal desfere golpe ao Tribunal do Santo Ofício que, contudo, só após o advento do liberalismo, é encerrado, após proposta de um deputado da Extremadura.


P.S.: Quando principio a escutar esta emissão de História a História, perguntam-me se estou a ouvir José Hermano Saraiva. Não, por acaso é o Fernando Rosas, digo com alguma ironia. A verdade é que o tom enfático e dramatizado parece beber algo no historiador que, como se sabe, estava nos antípodas, em termos ideológicos, do responsável por este programa. E, ademais, Rosas, que começa esta emissão a falar-nos da Guarda – em meados do séc.XIV, cerca de 20% da população era judaica; ou seja, perto de 600 pessoas – dizendo “foi aqui…” (um “foi aqui!...”, muito glosado por Herman José, por exemplo), mas, como que afastando-se do seu predecessor em programas do género, acrescentou: “foi aqui que, segundo pensam os historiadores…”.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Cercado (VI)



Não é apenas José Sócrates que fica incomodado com a declaração de Teixeira dos Santos ao Jornal de Negócios - a partir de então, segundo Fernando Esteves, Sócrates passa a ver o Ministro das Finanças como alguém "vendido" aos "interesses da Alemanha" e do "grande capital"; o livro não poupa os detalhes do ponto crítico a que chega a relação: Sócrates considera o acto uma "canalhice", uma coisa "de um garoto"; os gabinetes de Sócrates e de imprensa do Ministério das Finanças não se falam, etc. -, são os restantes ministros que, segundo Cercados, ficam, igualmente, indignados, com a atitude do titular da pasta das Finanças. Sócrates, entretanto, pedira já aos seus homens de mão para solicitarem à Grécia e Irlanda exemplares de cartas a pedir ajuda externa. Mas ainda não era o momento de anunciar publicamente o pedido.
Quando na entrevista a Judite de Sousa e José Alberto Carvalho - este último, imposto pela equipa de Sócrates -, o ex-PM diz que o telejornal de sexta, da TVI, de Manuela Moura Guedes, é "travestido", Judite Sousa confidencia que pensou: "está louco!". A jornalista dá conta de que Sócrates não só não a olhou, como não lhe dirigiu palavra (ao contrário do que fez com o outro entrevistador, como faz questão de registar).
Manuela Moura Guedes que, por sua vez, considera impressionante como algumas das notícias que dava no seu jornal televisivo não tinham eco a seguir nos outros media (nomeadamente, o vídeo acerca do caso Freeport).
O livro recorda, pormenorizadamente, cada um dos casos em que Sócrates esteve, ou foi, envolvido: da Cova da Beira à Licenciatura. A obra, concordo com Marcelo Rebelo de Sousa, procura ser isenta. Mas tem muito material já conhecido (nomeadamente, o publicado pelo autor, na Sábado, sobre o caso pelo qual Sócrates está, actualmente, indiciado, bem como o vasto material recolhido sobre os vários casos precedentes), informação já adquirida. Os capítulos mais "picantes" foram pré-publicados em vários jornais. Termina, contudo, de um modo assaz curioso, com uma citação de um "colega", João de Sousa, do estabelecimento prisional onde Sócrates se encontra: na "mitologia [quiçá, loucura]" de Sócrates, a passagem pela cadeia torna o grande homem mais sensato, sábio (Sócrates, acredita João de Sousa, pensa pertencer à linhagem de um Soares, um Luther King, um Mandela, todos eles homens que passaram pela prisão) e, assim, um dia a Presidência da República estaria ao alcance. Todavia, a verdade, escreve João de Sousa, é que Sócrates é hoje alguém que "está morto em vida". Fernando Esteves sentencia que com "Sócrates nunca se sabe".

Cercado (V)



Fernando Esteves revisita o debate televisivo entre Sócrates e Passos Coelho para as legislativas de 2011 para firmar a derrota do primeiro e propor duas explicações para a ocorrência: a) Sócrates está convencido que vai perder e deixa cair os braços (Bernardo Ferrão, da Sic e do Expresso, diz que durante aquela campanha Sócrates não só estava "cansado", como, até, "desleixado"); b) Sócrates subvaloriza o adversário político, considerando-se muito superior, intelectualmente, a este (a derrota, no debate, seria "teoricamente impossível").
Quando Judite de Sousa vai para a TVI e quer mostrar músculo, leva os presidentes dos maiores bancos portugueses a estúdio. Fernando Esteves considera "indiscutível" o papel desempenhado por estas entrevistas no pedido de ajuda e na queda do governo. Sócrates, quando ouve Ricardo Salgado falar na inevitabilidade do resgate, sente-se "revoltado e traído". 
Quando Teixeira dos Santos faz a declaração ao Jornal de Negócios sobre a urgência do pedido de auxílio que Portugal terá que fazer, Sócrates, assim que soube, na descrição de Cercado que vai beber a Resgatados (David Dinis e Hugo Filipe Coelho), terá exclamado: "pelas costas, como um patife!".
Importante o registo das horas que antecedem a viagem de Sócrates ao Conselho Europeu para obter respaldo para o PEC IV, em particular o encontro entre Sócrates e Passos Coelho: "Apesar disso, embora contrariado, Passos ter-se-à comprometido nessa noite a não tirar o tapete ao Governo numa circunstância tão complicada" (p.114). O que se segue conhece-se, passando pela advertência de Marco António Costa (recorde-se que recentemente, ao I, em entrevista a Ana Sá Lopes, Marco António, confrontado, pela primeira vez, com a frase que sempre lhe fora atribuída - ou tens eleições no país, ou no partido -, inicialmente dada a conhecer pela Visão, não a desmentiu, mas considerou-a descontextualizada: ele não teria, com a expressão em causa, pretendido fazer qualquer advertência, encostar Passos à parede, mas apenas análise política, cenarização). Um banqueiro ainda tenta convencer Passos, este está irredutível. O mesmo se passa com Durão Barroso. Sabedor da intenção do PM, o PR manda colocar na imprensa a informação de que não foi tido nem achado no processo negocial que envolveu o pacote de medidas do PEC IV. No dia seguinte, Passos envereda pelo mesmo caminho, mesmo se ouvido na noite anterior ao Conselho Europeu (ainda assim, não escutado, de facto, durante a negociação daquele pacote legislativo). No final do dito Conselho Europeu, a parte portuguesa parece muito feliz com os resultados alcançados - mesmo depois de Sócrates ter quase perdido a cabeça com o PM holandês, perguntando-lhe quanto Portugal lhe devia e falando com ele sobre o "calvinismo reles" -, mas Vítor Escária - ilustre desconhecido, que terá sido determinante nas negociações económicas com as instituições europeias para o PEC IV - informa da posição de Passos Coelho em Portugal. Barroso também terá ficado chocado.
Apesar de ter proposto um choque tecnológico, Sócrates não será um às das tecnologias, nem sempre compulsando, da melhor forma, a informação que um dispositivo que manda instalar ad hoc no seu gabinete para monitorizar a evolução da dívida portuguesa e suas taxas de juro. O horror com os possíveis 7% de juros, colocados como fasquia-limite para um pedido de socorro, segundo Teixeira dos Santos, em célebre entrevista ao Expresso, torna o acompanhamento obsessivo. Novo, pelo menos para mim, o facto de essa declaração, segundo a investigação de Fernando Esteves, ter um pressuposto: o então ministro das Finanças fala nos 7% porque julga que esse valor nunca será atingido.

domingo, 24 de maio de 2015

Cercado (IV)


José Sócrates "não era um funcionário exemplar" (p.40) na Câmara Municipal da Covilhã (pode ler-se em Cercado, de Fernando Esteves). Em 2011, há necessidade de o ex-PM abandonar o país, quando muitos, na rua, o insultam, passam por ele e baixam os olhos, e poucos são já os que o cumprimentam. O livro de Fernando Esteves repete o que sabemos sobre o caso, quanto aos indícios e imputações que são feitos a Sócrates, em termos judiciais (com os detalhes publicados na Sábado, de que aqui demos conta). Os capítulos da reacção de José Rodrigues dos Santos ao confronto televisivo com José Sócrates já o havíamos lido em pré-publicação, esta semana, dado que vários media anteciparam excertos do livro. O mesmo se diga da conversação entre José Sócrates e Judite de Sousa com esta a escrever no seu diário que o então Primeiro-ministro a tentou condicionar. Novidade, para mim, o facto de Sócrates ter sido confrontado com escutas onde a sua intimidade sexual era exposta, o que o terá levado a explodir (de raiva). Há uma semana, a Sábado revelava a séria possibilidade de virmos a ter acesso a escutas nas quais Sócrates faria comentários sobre as lideranças que lhe sucederam no PS; só se espera que, no respeito pela pessoa e pelo mínimo de elevação do nosso espaço público (no que este contém, também, de dignidade das instituições) que não venhamos a ter manchetes com o referido motivo da raiva de Sócrates.
As raízes humildes do juíz Carlos Alexandre - que na adolescência colabora na construção da casa da família - ou do amigo de José Sócrates, Carlos Santos Silva - que nasce em uma casa sem electricidade ou Wc - são ainda traçadas.

Cercado (III)


Petit storie.

Curioso: inicialmente, Sócrates fica entusiasmado com a troca pivots na RTP. Passando a ser José Rodrigues dos Santos, em vez de Cristina Esteves,  o seu interlocutor, o ex-PM crê que fica garantida maior audiência nas noites de Domingo no canal público e, por outro lado, julga que passa a ter à sua frente um peso pesado que o seu estatuto justifica.

Cercado (II)




Os media, hoje.

O modo como Vítor Gonçalves se refere à entrevista que fez, em conjunto com Paulo Ferreira, a José Sócrates no regresso deste a Portugal e ao comentário e combate político, traduz-se em "um bom espectáculo televisivo" (p.18)

Cercado


Olho para a ficha técnica e reparo que, embora acabado de sair neste Maio de 2015, Cercado. Os dias fatais de José Sócrates, vai já na segunda edição. Fernando Esteves principia por olhar o personagem que acaba por biografar com fascínio - José Sócrates, afirma o jornalista, "é épico. É trágico. É tétrico" (p.10) -, sublinhando um aspecto importante: nenhuma das muitas pessoas que entrevistou - muito próximas, ou nem tanto, do ex-PM - suspeitou, alguma vez, que ele seria a cabeça de algum polvo. Surpreendente - notícia, portanto - o facto de Sócrates já ter decidido solicitar ajuda externa, quando Fernando Teixeira dos Santos faz a declaração ao Jornal de Negócios. O gabinete de Sócrates tinha, já, segundo se adianta neste livro, o draft da carta do pedido de assistência.

sábado, 23 de maio de 2015

Um balanço




I: Que balanço fazes destes anos de governo de Passos Coelho? É possível falar de uma mudança de paradigma da direita?

Pedro Mexia: Julgo que é possível, sim. A mudança já começava a existir antes deste governo, na blogosfera já era visível uma reconfiguração da direita portuguesa que se afastava de alguns sectores. Gente mais jovem e académica que se afastava do padrão democrata-cristão (estou a ser genérico). Uma visão mais parecida com os economistas austríacos ou com a chamada escola de Chicago. A ideia individualista era mais forte que o sentimento colectivo, ou, dizendo de outro modo, era visível a dissolução de uma matriz cristã. Aconteceu, sim. Nalguns momentos senti isso como um retrocesso, em alguns momentos houve figuras ligadas a este governo que fizeram declarações públicas que revelaram uma insensibilidade social muito gritante. (...) Tudo o que não respeita o sofrimento alheio, incluindo o desemprego e a pobreza, não me interessa. É o meu fundo católico, se quiseres.

entrevista concedida por Pedro Mexia a Luís OsórioI, ano 6, número 1869, 25/04/2015, p.25.

Contabilista


Uma pessoa que não tem a noção do misterioso de tudo, a meu ver, é um contabilista.


Frei Bento Domingues, em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, Jornal de Negócios, Weekend, 22/05/2015, p.6.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Capa do jornal "Record" de amanhã




Capa do jornal "Record" de amanhã. 

Estava a brincar: na imagem, a capa do jornal "Lá Afición", do México, na sua edição de hoje, dando conta de que o clube Monterrey havia prometido aos seus adeptos "um clube de primeira linha" para a inauguração do estádio, mas afinal apresentou-lhes o clube da luz. "Uma decepção rotunda", afirma do jornal da América Central, a quem falta o spin diário e sistemático da mais desbragada propaganda. Jesus no sporting. Rui Vitória no clube da luz. E Lopetegui o pior treinador do mundo. Quem não acreditar nisto não é bom português, chefe de família e venerando e obrigado. Por cá, o respeitinho é muito bonito. A verdade é que nunca interessa.

O passo em frente




Às tantas, a rebelde filha de Simon Kapita, em Os influentes (uma série sobre política, agências de comunicação e família, que a RTP2 transmitiu), interrogada pelo Eliseu sobre as companhias (muçulmanas) com que se envolvera, diz aos pais que "eles não são terroristas...andam à deriva...e metem-lhes umas coisas na cabeça". De algum modo, a frase fez-me lembrar o que escreveu Orwell, a propósito de um episódio que viveu na guerra civil espanhola, quando um "inimigo", do lado de lá da trincheira, aparece de calças na mão (após resolver as mais elementares necessidades). Orwell e os seus não atiram. "Um fascista com as calças na mão, não é um fascista". O outro, ainda que por um instante, humanizado. Ou, visto a contrario, que construções necessitamos de fazer para não ver no outro um humano e mais fácil ser combatê-lo ou aniquilá-lo. [Mesmo] Todas as guerras justas necessitam dessa conceptualização. [Mesmo que nem todos sejam bons rapazes.Que não são]

Terra movediça


Quatro lugares diferentes reclamam ser Emaús (do encontro com o ressuscitado). A Igreja do Santo Sepulcro é cuidada, está debaixo da tutela de seis confissões religiosas diferentes (que, não raro, se guerreiam, literalmente, pelo assunto). Joaquim Carreira das Neves aconselha o livro de Martin, mas diz que a perspectiva deste sobre os milagres ou os relatos das aparições são "acríticos". O pluralismo metodológico, sem soluções únicas, em todos os domínios. Peregrinos comovem-se com locais por onde Jesus terá passado, mesmo sem a garantia absoluta da historicidade dos locais.

"Nós esperávamos"




"«Nós esperávamos» talvez sejam as palavras mais tristes do Novo Testamento", escreve James Martin, Jesus - um encontro passo a passo, a propósito do caminho para Emaús, no relato de Lucas, com Cléofas e o seu amigo, a encontrarem o 'forasteiro' e a darem conta da tristeza por não se ter dado, por não terem notado o que esperavam após a morte de Jesus.

Bom ladrão


Segundo a tradição, o bom ladrão chamava-se Dimas.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Livre-arbítrio (XXXV)




Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:


O debate originado pela sociobiologia, agora mais conhecida por psicologia evolutiva, em torno da natureza humana tem lançado bastante luz sobre as pretensões da biologia no sentido de reduzir a si as ciências sociais - criando uma concepção rígida e de certo modo fixa dos seres humanos. (...) A maioria dos argumentos contra o determinismo biológico e contra a chamada dissolução (preemption) das ciências sociais e da ética (uma vez que, segundo alguns sociobiólogos, as questões sociais e éticas são redutíveis a - ou simplesmente se dissolvem em - questões de ordem natural, e portanto pertencentes ao domínio das ciências da natureza), tropeça inconscientemente na «falácia naturalista», bem como no ilegítimo uso da analogia entre o mundo animal e as sociedades humanas. Tal reducionismo - o de associar e limitar todo o comportamento humano a forças biológicas - é acusado de carregar consigo uma estreita visão da natureza humana. (...) Lewontin e os seus colegas (...) acrescentam que na verdade há desacordo até mesmo entre os sociobiólogos sobre o que seria uma apropriada lista dos traços do que supostamente constituiria essa natureza humana (...) Stevenson identificou sete concepções principais de natureza humana, estendendo-se elas desde Platão e a doutrina cristã até Marx, B.F.Skinner e Konrad Lorenz (...) [num livro escrito em co-autoria com David L. Haberman, Stevenson] alargou o número de concepções clássicas para dez. (...) Assim, a rejeição da formulação sociobiológica desta questão baseia-se no facto de existirem variadas concepções de uma supostamente única natureza humana.(...)
[Em um número especial da revista The Philosophical Forum escreveu um dos autores]: A opção tomada por [Edward] Wilson e outros, de ignorar a evolução cultural como factor significativo para a compreensão de padrões contemporâneos do comportamento humano é uma escolha que requer uma visão particular da história humana. A literatura sociobiológica é extraordinária na sua ausência de preocupação com explicações culturais alternativas para os fenómenos examinados. Em parte alguma é sugerido como é possível usar dados para se distinguir entre explicações alternativas.
(...)
[E Kenneth Bock, em Human Nature and History:] A tese de fundo deste livro é que a experiência histórica dos seres humanos nas suas vidas sociais e culturais não é simplesmente uma expressão da sua natureza. A História é algo em si própria. Qualquer que seja a medida em que outros animais possam ter as suas histórias, sê-lo-á obviamente muito mais no caso do Homem. Esse é o elemento da existência humana que constitui o foco central das interrogações humanísticas. Qualquer que seja a luz que a biologia nos possa trazer sobre a humanidade, seria trágico se fosse deixada por estudar a dimensão histórica da vida.
(...)
[Mais adiante, Bock:] "compreender os humanos como produtos de experiências de tempo e lugar em ambientes sociais e culturais particulares é algo diferente de encará-los como produtos de selecção natural".
[Em uma obra coordenada por Leroy S.Rouner, com participação de Sissela Bock e Stanley Rosen, escreve-se no ensaio principal:] Primeiro, existe uma natureza humana no sentido em que os seres humanos partilham de facto certas capacidades básicas, desejos e disposições que colectivamente os individualizam como espécie e a distinguem das outras. Segundo, a natureza humana é só uma pequena parte do que individualiza e distingue os humanos. Terceiro, a natureza humana está tão sobrecarregada de cultura que não temos acesso directo a ela, sendo a descrição que dela fazemos necessariamente inferencial, um tanto especulativa, e nunca por completo despida da nossa concepção do que gostaríamos que fosse. Quarto, uma vez que auto-reflexão, autodeterminação e criatividade são todas parte da identidade humana, uma natureza como a que temos não nos determina inteiramente, constituindo em grande parte um recurso a que podemos aceder e mobilizar ao formularmos e realizarmos os nossos ideais de autodesenvolvimento. E, finalmente, os seres humanos são capazes de a si próprios darem, tendo-o na verdade feito e continuado a fazê-lo, naturezas novas com o poder de rivalizar com a força da natureza que herdaram.
Estranhamente, as assinaladas respostas à sociobiologia nunca fazem qualquer referência explícita a um ponto específico que poderia demolir todos os alicerces das teses da sociobiologia. Refiro-me ao que poderia ser enunciado nos seguintes termos: a história das civilizações é, de algum modo, a história das respectivas inovações (...) a ciência e a tecnologia são, ao fim e ao cabo, «violações da natureza» (...) ou transformações da natureza. A «civilização» em geral é, nessa medida, nada mais do que «violação», ou transformação da natureza, o que quer que seja que, em última análise, ela possa constituir e qualquer que seja a nossa concepção dela (...)
Deverei reconhecer que os anos duros das propostas mais deterministas surgidas do campo da sociobiologia parecem já ultrapassados. Ainda surgem, no entanto, posições semelhantes à de Alexander Rosenberg profetizando a dissolução das ciências sociais nas ciências meramente biológicas, como no caso de Laura Betzig (...) Apoiando-se na autoridade do biólogo Edward O.Wilson, afirma peremptoriamente no prefácio (...): Porque a biologia é um empreendimento canibalístico - porque, como Ed.Wilson profetizou em 1975 no seu Sociobiology, a história, filosofia, ciência política, sociologia, economia, antropologia, psicologia e todas as restantes «ciências» humanas se tornarão um ramo da biologia à medida que, inevitavelmente, se voltarem para a teoria darwinista.
Como eu dizia, porém, hoje começa a predominar uma atitude bem mais moderada. Por exemplo, na sequência de Leslie Stevenson e Robert Solomon, Paul R.Ehrlich publicou (...) Human Natures (...):
Nas últimas décadas alguns cientistas biológicos e sociais têm feito grandes progressos na elaboração de uma visão diferente do que somos e de onde viemos (...) Têm documentado a desmesurada diversidade de indivíduos e de sociedades em áreas tão diversas como as preferências sexuais e os sistemas políticos. É pois à luz desse progresso científico que pretendo salientar as naturezas humanas: o comportamento diversificado e evolutivo, as crenças e atitudes do Homo sapiens e as evoluídas estruturas físicas que governam, apoiam e participam no nosso funcionamento mental único. Embora os nossos corpos e comportamentos partilhem múltiplos atributos comuns, será muito mais proveitoso considerar-se não uma mas muitas naturezas humanas. Os universais que ligam as pessoas entre si, em qualquer ponto da nossa evolução, são cobertos pela palavra humanas. A palavra naturezas enfatiza as diferenças que nos dão individualidade, variedade cultural, bem como o potencial para um futuro genético e - especialmente - para a nossa evolução cultural.

Onésimo Teotónio Almeida, Natureza humana e determinismo biológico, in De Marx a Darwin. A desconfiança das ideologias, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.73-88.


Livre-arbítrio (XXXIV)





Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:


Ambos os autores, chegando a esta investigação provenientes de direcções muito diferentes, ficaram perplexos, e por vezes embaraçados, com o uso de conceitos psicológicos na neurociência contemporânea. A perplexidade ficou a dever-se, muitas vezes, ao significado possível de uma dada afirmação dos neurocientistas em relação ao cérebro e à mente, ou ao motivo que levava um neurocientista a pensar que as experiências que levara a cabo esclareciam a capacidade psicológica que estava a ser estudada, ou os pressupostos conceptuais das questões postas (...) As questões conceptuais antecedem os assuntos da verdade e da falsidade. São questões respeitantes às nossas formas de representação, e não questões respeitantes à verdade ou falsidade de declarações empíricas. Estas formas são pressupostas por declarações científicas verdadeiras (e falsas) e por teorias científicas correctas (e incorrectas). Determinam não aquilo que é empiricamente verdadeiro ou falso, mas em vez disso aquilo que faz e não faz sentido. Por conseguinte, as questões conceptuais não são acessíveis à investigação e experimentação científica ou à teorização científica. Visto que os conceitos e as relações conceptuais em questão são pressupostos por essas investigações e teorizações.(...) Quando uma questão conceptual é confundida com uma científica, está sujeita a parecer estranhamente obstinada. Nesses casos parece que a ciência deveria ser capaz de descobrir a verdade do assunto sob investigação através da teoria e da experiência - todavia, ela revela-se persistentemente incapaz de o fazer. Não há aqui qualquer surpresa, visto que as questões conceptuais são tão inacessíveis aos métodos empíricos de investigação quanto os problemas das matemáticas puras são irresolúveis pelos métodos da física (...) A despeito dos grandes avanços da neurociência no começo do século XX devidos a Charles Sherrington, a bateria de questões conceptuais popularmente conhecida como o problema mente-corpo ou mente-cérebro continuou tão espinhosa como sempre (...) Uma dessas complicações está patente na persistente imputação de atributos psicológicos ao cérebro (...) As suas descobertas não afectam de modo nenhum a verdade conceptual de que estas faculdades e o seu exercício na percepção, pensamento e sensação são atributos dos seres humanos, e não das suas parte - em particular, não são atributos dos seus cérebros. Um ser humano é uma unidade psicofísica, um animal que consegue percepcionar, agir intencionalmente, raciocinar e sentir emoções, um animal utilizador de linguagem e que não é só meramente consciente, mas também autoconsciente - não um cérebro embutido num crânio de um corpo. (...)
É um erro, um erro conceptual, pressupor que a percepção é questão de apreender uma imagem na mente (Crick, Damásio, Edelman), ou a produção de uma hipótese (Helmholtz, Gregory), ou a formação de uma descrição de um modelo 3-D (Marr). (...) A ciência está tão atreita ao erro e confusão conceptual como qualquer outra forma de empreendimento intelectual. A história da ciência está atulhada com destroços de teorias que não eram apenas factualmente erradas, mas conceptualmente falhadas. (...) É verdade que ela [neurociência] é agora uma ciência florescente. Mas isso não a torna imune a confusões e emaranhados conceptuais.(...) Questões mal orientadas também podem tornar a investigação fútil.

M.R.Bennett e P.M.S.Hacker, Fundamentos filosóficos da neurociência, 15-20.

Livre-arbítrio (XXXIII)




Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:


Primeiro, não é a mente que pensa e raciocina, quer coisas e tem finalidades, forma intenções e toma decisões, actua voluntariamente ou intencionalmente. É o ser humano. De facto, caracterizamos uma pessoa como tendo uma mente límpida, rigorosa ou decisiva. (...) Se queremos compreender como é que uma pessoa normal raciocinou da forma que o fez, pensou o que pensou, tem os objectivos e propósitos que tem, e porque decidiu o que decidiu, formou tais e tais intenções e planos, e agiu intencionalmente, não há nenhuma justificação neurocientífica que nos esclareça o que queremos ver esclarecido (...) E se a nossa explicação tornar inteligível o seu raciocínio, não é preciso acrescentar mais nenhuma informação sobre os eventos neurais do cérebro. O máximo que uma explicação neural conseguiria fazer seria explicar o modo como era possível à pessoa raciocinar convincentemente (ou seja, que formações neurais têm de estar no seu devido lugar para dotar um ser humano com tais e tais capacidades intelectuais e volitivas), mas ela não consegue relatar o próprio raciocínio, quanto mais explicar a sua força.(...)
Se A matou B, podemos querer saber a razão. Podem dar-nos uma razão, mas mesmo assim podemos continuar insatisfeitos, querendo compreender melhor - mas o «melhor» que queremos compreender é muito provavelmente o motivo de A, e não os eventos neurais ocorridos na altura do assassínio. Queremos saber se ele matou B por vingança ou ciúmes, por exemplo, e isso exige uma narrativa muito diferente de tudo o que a investigação neurocientífica conseguiria produzir. A explicação da acção por redescrição, por citação de razões de actuação, ou pela especificação dos motivos do agente (e há outras formas de explicação de tipos relacionados com estes) não são substituíveis, mesmo em princípio, por explicações em termos de eventos neurais no cérebro. Este assunto não é empírico, mas lógico ou conceptual. O tipo de explicação é categoricamente diferente, e as explicações em termos de razões e motivos, objectivos e propósitos de actuação, não são redutíveis a explicações de contracções musculares produzidas em consequência de eventos neurais (...) 
Na medida em que a mente não é uma substância, de facto não é uma entidade de tipo algum, não é logicamente possível à mente funcionar como um agente causal que provoca mudanças no agir do cérebro. Não estamos a tratar aqui de uma descoberta empírica, apenas de um esclarecimento conceptual. (...) Também é verdade que os desígnios perseguidos por uma pessoa não são os desígnios do cérebro dessa pessoa. Mas não se segue daqui que são os desígnios da mente dessa pessoa. São os desígnios da pessoa - e devem ser compreendidos como factos sobre a vida humana, formas de vida social, eventos antecedentes, circunstâncias actuais, crenças e valores de actuação, e assim por diante, e não em termos de eventos e mecanismos neurais. Mas, evidentemente, é verdade que, sem o funcionamento normal do cérebro, o ser humano não teria, e não seria capaz de se dedicar aos tipos normais de desígnios a que nos dedicamos.

M.R.Bennett e P.M.S. Hacker, Fundamentos filosóficos da neurociência, Instituto Piaget, 2005, pp.78-80.

O que estas afirmações fazem colocar em cheque são os seguintes pressupostos filosóficos - claro que há estes pressupostos filosóficos - de alguns autores na área da neurociência: a) concepção cartesiana da mente; b) a pretensão de que é empírica a questão de saber se os mecanismos cerebrais podem ser responsáveis pela mente.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Livre-arbítrio (XXXII)


Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:


Livre-arbítrio (XXXI)




Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:


Por sua vez, o médico e neurocientista Miguel Castelo-Branco, explicando o conceito de delusão – “algo é visível ou percebido mas não consegue perceber uma outra realidade subjacente”[1] – indaga, com expressividade, mas ainda de modo (algo) retórico:

“será que a ciência pode estabelecer a espiritualidade religiosa como uma delusão que pode ser explicada, e transformá-la na explicação perceptível de uma ilusão da qual se pode escapar? Se assim fosse, como explicar as ‘delusões’ duradouras do budismo, hinduísmo, cristianismo, islamismo e judaísmo? Elas desafiam a explicação científica, escapam ao seu reducionismo e revelam-se como transcendentais”[2].

A conclusão do investigador, porventura temperada pelo signo da provisoriedade, é a de que “talvez a ciência possa simplesmente explorar a fenomenologia da espiritualidade”[3]. Em seu entender, “a emergência de estados mentais a partir de relações físicas ou biológicas parecem envolver um tipo de processo que não pode (pelo menos por ora) ser extraído através de um esquema dedutivo”[4], quer dizer, “continua porém por definir como é que se opera uma transição metodológica da ‘explicação’ epifenomenal à ‘descrição’ iluminada da experiência espiritual e religiosa”[5]. Maria Filomena Molder recorda Kant: “A ciência da natureza não há-de nunca revelar-nos o interior das coisas”[6]. E, posicionando-se sobre os limites da ciência, aduz:

“A ciência não conhece o limite como limiar, não tem a experiência do umbral, cria as suas próprias limitações, que nada deixam de fora (deixando tudo o resto de fora) (…) Não há, na verdade, qualquer tensão na ciência em relação àquilo que fica fora dela, pois fora dela não há nenhuma coisa que a transcenda, o exterior da ciência é impensável, irrepresentável, pela própria ciência. Nessa medida, não se podem estabelecer limites éticos à ciência ou aparecerão sempre estranhos ao universo dos seus métodos, operações e objectivos. A matemática não pode conduzir à metafísica (nem tem necessidade disso) (…) A matemática nunca nos revelará o ser interior das coisas, que lhe é heterogéneo, mas também não é isso que ela pretende. Ao invés, a metafísica instituída pela própria natureza da razão não é um resultado de uma escolha arbitrária nem de um crescimento do progresso da experiência. O anseio da razão de chegar à plenitude, de ir até ao ponto de contacto do espaço cheio da experiência com o espaço vazio do qual nada podemos saber, conduz-nos aos limites e àquilo que os exorbita (as ideias transcendentais), e isso implica-nos até à medula”[7].



P.S.: Miguel Castelo-Branco ganhou o Prémio Bial, o mais importante prémio na área da Medicina em Portugal, depois de ter perscrutado o cérebro humano. Professor na Universidade de Coimbra, com várias publicações na sua área de especialidade.



[1] Miguel BRANCO, Neurociência e espiritualidade, in Anselmo BORGES (coord.), Deus ainda…, 77.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem, 80.
[5] Ibidem, 82.
[6] Maria MOLDER, As nuvens e o vaso sagrado, Relógio D’água, Lisboa, 2014, 123.
[7] Ibidem, 122 e 124.

Livre-arbítrio (XXX)




Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:

Da série "grandes prefácios".

Este livro estava à espera de ser escrito. A agenda reducionista na ciência biológica originou tantas dificuldades conceptuais que um dia alguém exterior ao ponto de vista reducionista teria de analisar estes problemas em profundidade. Que um neurofisiólogo e um filósofo se tenham juntado para o fazer também é um sinal dos tempos. À medida que a biologia vai progredindo para lidar com a complexidade e a extraordinária subtileza da vida, agora que ela a dividiu em porções menores, vamos achar este género de combinação de competências e formas de pensar cada vez mais necessário (...) Visto que é necessário um esquema conceptual para se fazer uma experimentação proveitosa, não podemos deixar de pôr esses dois tipos de questões (...) Alguns dos meus colegas cientistas vão contestar fortemente (...) [a] afirmação de que a neurociência tem confundido com frequência e sistematicamente as questões conceptuais com as questões empíricas (...) Em segundo lugar, faria apelo a alguma paciência e humildade. Paciência, porque como fisiólogo tenho trabalhado com (e publicado com) filósofos profissionais de várias orientações há mais de 40 anos, e considero que os cientistas desconsideram irreflectidamente a filosofia mais frequentemente do que o inverso. Humildade, porque os assuntos são de máxima importância social. Algumas das afirmações da ciência reducionista não são só conceptualmente incorrectas ou até ininteligíveis, como têm grandes implicações sociais. As palavras que usamos, os conceitos com que analisamos e apresentamos as descobertas biológicas, afectam profundamente a forma como nos vemos a nós próprios enquanto seres humanos. Se não houver outra razão, basta esta para que seja necessário fazer um debate crítico. A natureza controversa deste livro surge porque a posição filosófica reducionista particular que ele critica está muito difundida, hoje em dia, na comunidade científica (...) Além disso, para a maioria deles, esta posição é uma necessidade metodológica, percepcionada como o único paradigma científico capaz de explicar as coisas com êxito. (...)
O principal interesse deste livro é a ruptura com o que resta da confusa herança cartesiana, primeiro expressa na dualidade da mente e do corpo, mas ultimamente expressa na dualidade do cérebro e do corpo. Os autores revelam que, embora a primeira exigisse a crença numa substância não material, enquanto a última é completamente materialista, muitos dos problemas conceptuais (essencialmente os do «espírito na máquina») são os mesmos. Para os nossos predecessores dualistas, o espírito era uma substância imaterial real, para nós é «o 'Eu'» (ou «olho interior» ou qualquer outra coisa deste género) que «vê» os qualia que «formam a nossa experiência». É isto que nos leva a perguntar qual o grupo de células, ou até qual é o neurónio (!), que está a efectuar a «visão». A questão aqui é que a simples substituição do «Eu» ou «olho interior» pelo cérebro ou parte do cérebro não evita o problema. (...)
O principal problema para muitos conceitos e usos «novos» da linguagem nas abordagens reducionistas é que este teste fracassa totalmente. Acontece que esse novo uso da linguagem não é científico, trata-se antes de uma ferramenta política ou social. (...) Não podemos, de forma coerente, negar a nossa própria racionalidade. De contrário teríamos dificuldades em expressar o que dizemos ou de ser convincentes ao dizê-lo, que é precisamente o que acontece no triste caso das pessoas mentalmente doentes que, não obstante estarem cientes da sua irracionalidade, não a conseguem resolver. Se conseguíssemos ter êxito na «redução» do comportamento racional à simples causalidade molecular ou celular, então deixaríamos de ter capacidade de exprimir com sentido a verdade daquilo que conseguimos fazer. Mas, felizmente, essa redução não é concebível.

Denis Noble, Professor de Fisiologia Cardiovascular na Universidade de Oxford, secretário-geral da União Internacional das Ciências Psicológicas (1993-2001), in M.R.Bennett e P.M.S.Hacker, Fundamentos Filosóficos da neurociência, Instituto Piaget, 2005, pp.11-14. Bennett é Professor em Sidney e Hacker em Oxford.




Livre-arbítrio (XXIX)


Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:

Quando Dennet (vide, p.ex., Sofia Miguens, em Uma teoria fisicalista do conteúdo e da consciência, Campo das Letras, Porto, 2002, p.391 e ss.) estabelece os critérios que, a seu ver, são necessários para que haja pessoa - e, no seu constructo, não "apenas" ser humano - o que está a fazer, obviamente, não é ciência, mas encontra-se no campo da filosofia. "A noção de 'condições de pessoalidade' opõe-se desde logo a uma concepção absoluta de pessoa segundo a qual por exemplo um ser humano é sempre e em qualquer circunstância uma pessoa" (Miguens, p.392). Uma concepção. A partir de uma dada mundividência. Não objectiva, mas controvertida, claro. O método científico não é, pois, apto a dizer o que é/quando é pessoa.

Por outro lado, na descrição da autora, "um agente pode ser intencionalmente imprevisível mesmo que o determinismo físico seja verdadeiro" (p.400).

Sobre o "Eu" há distinção entre a posição de Dennet e Damásio - pelo que tomar as posições de ambos como absolutamente idênticas não procede: "De facto, a ideia de apresentação de uma representação de unidade de alguma forma exclui aquilo a que A.Damásio chama a base corpórea do sentimento de si, uma possível incorporação constitutiva do conteúdo do self que escapa a esta teoria funcionalista do Eu" (p.414).


Livre-arbítrio (XXVIII)


Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate: