quarta-feira, 29 de abril de 2015

Tragédia grega (III)




Sófocles não vai à procura de causas para o mal. Este nem sequer é problema. É, apenas, prova. Para o humano. Que deve confiar em si e nos deuses. Não há revolta, porque não há imersão em origens de um inexistente problema. As coisas são assim, ponto. Enganam-se, do seu ponto de vista, os comentadores modernos em busca de causas no personagem Édipo para a desgraça que sobre ele se abate.

Tragédia grega (II)


Segundo a tradição, Sófocles tem funções religiosas, na cidade. Ele é sumamente piedoso. Nunca tantos humilhados e ofendidos passaram por uma tragédia (como nas dele). Empático para aqueles com quem o destino é severo.

Tragédia grega




O Édipo de Rei Édipo não é menos obstinado do que o Creonte de Antígona, comenta Jacqueline de Romilly.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Atenção às sugestões




Em Maio, no S.Luiz, vai estar em cena Hécuba, de Eurípedes. Colm Toíbin, há não muito tempo, revisitou-a, de algum modo, em O novo Testamento de Maria. Regresso aos clássicos, intertextualidade com os grandes motivos da tradição que ainda preenche um tanto do imaginário ocidental, possibilidade de potenciar, também em este campo, os recursos endógenos, valorizar as humanidades e as pessoas que por cá, em diferentes àreas, a elas se dedicam, um modo outro de aproximação aos espectáculos - sugestões para tempos vindouros.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Santa Engrácia (obras de)


Parece que há sempre mais um período a acrescentar, uma frase a modificar, um autor a apor, umas notas de rodapé a corrigir. A tese sempre a milímetros de concluir...

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Fórum TSF




Ouvido, hoje, num dos fóruns radiofónicos da manhã, a caminho de uma aula: "se as contas tivessem sido feitas pelo dr.Medina Carreira, isso é que eu gostava...". Um ouvinte, considerando completamente irrealista o cenário ontem apresentado pelo grupo de economistas vinculado ao Partido Socialista, desfazendo-se em elogios ao programa das segundas-feiras, na TVI24. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Alternativa




Suspeito que por algum tempo, e finalmente, venhamos a ter boas discussões políticas. Ouvi, atentamente, o comentário e alertas de João Vieira Pereira na sicnotícias, após as extensas apresentações e explicações de Mário Centeno e António Costa, relativamente ao relatório Uma década para Portugal. O jornalista do Expresso sublinhou, com meridiana lógica, que se pressupostos como o do consumo (em vez de poupança) pelos portugueses (robustecidos, em termos económicos, com algumas das medidas preconizadas) não se verificarem, logo a teoria cai (quanto ao crescimento económico esperado e consequências daí advindas). Pode mesmo, com Vera Jardim, duvidar-se de qualquer prognóstico para daqui a 4 anos e considerar-se o exercício esotérico.
Em qualquer dos casos, saliente-se, por um lado, que Centeno afirmou existir na simulação uma margem prudencial que acomoda desvios (negativos) ao cenário idealizado, com existência de um plano B - que teremos todos interesse em vir a conhecer - e, por outro, que algumas das medidas, nomeadamente em sede de código de trabalho, teriam sentido, cremos, mesmo em não se verificando o crescimento económico ora previsto (a partir das projecções da Comissão Europeia), sendo exemplo a questão da penalização do permanente despedimento e contratação - instabilidade - nas empresas, a partir de uma regra norte-americana.
Claro que, e apesar da perda de riqueza nestes anos, os cenários de crescimento de mais de 2,5% ao ano, nos próximos quatro, poderão parecer a um leigo - como o que assina este post - que lê os números da última década e meia, e sopesando as limitações ao crescimento que variados autores apontam, a que acresce uma interdependência global cada vez maior, com qualquer acidente a provocar variações negativas, bastante optimistas (ainda que, ao longo de anos, se tenha podido ler, com insistência, nos suplementos económicos, como a fasquia dos 3% de crescimento era essencial à criação de emprego). O mais surpreendente, talvez, a inclusão da descida da tsu para empresas - um pouco inexplicável à luz das críticas recentes às propostas de Passos (embora prevendo também a baixa da tsu para trabalhadores).
Não menos certo é que se se pede que se apresentem propostas quantificadas, elas têm de partir de uma base, uma previsão, um modelo - e, neste caso, seguiu-se a Comissão Europeia. Nas regras de trabalho, para além da explicitada norma laboral ("copiada" aos norte-americanos), introduziu-se uma outra (baseada nos exemplos alemão e italiano) quanto a uma negociação da cessão do vínculo contratual, entre empregado e empregador, com compensação significativa nos dias de trabalho dos primeiros três anos de trabalho e, ainda, nos anos seguintes (embora menos dias, a seguir). Quer dizer, houve mundo real por de trás de, pelo menos, algumas das propostas mais significativas.
Outras, ao nível fiscal, mesmo caminhando no sentido correcto ao nível da justiça social, veremos se alcançam eficácia (ou se não se tornam meramente proclamatórias).
Não se diz outra coisa do que a urgência de pensar o país a médio-longo prazo e, portanto, o exercício também tinha de se projectar no tempo. Pareceu intelectualmente muito transparente e pronto para crítica. Também pareceu que estava quase exclusivamente eivado de boas notícias (o que costuma fazer desconfiar o pobre da esmola).
Ainda não é o programa de governo do PS, adiantou Costa. Nem podia sê-lo, diríamos nós, se em nenhum momento se falou de educação, saúde, justiça... (como era suposto não se falar, de resto, nesta ocasião específica).
Vai ser interessante ler as críticas (sérias) a este enunciado de 90 páginas. Para votarmos em consciência, é, inclusive, uma crítica urgente. Tal implica, porém, uma leitura do documento, certamente alguma sofisticação técnica, trabalho prévio. Slogans não nos interessam. Vai ser importante fazer vir a lume o plano B, reitere-se.
Dito isto, pode continuar a dizer-se que "não há ideias"? Não. Que "Costa ou Seguro são o mesmo"? Não (nunca ouvi várias das ideias hoje anunciadas, nomeadamente as que visam alterar o código de trabalho, pela voz ou pena de António José Seguro). Que "não há alternativa?" Não - pelo menos, para já, e antes que algum exercício rigoroso de desconstrução prove que o exercício, e as propostas nele contidas, são impraticáveis ou conduzem a maus resultados para o país. Só na competição pelas ideias e propostas políticas, e a partir de valores políticos de que se parta, se poderá avaliar qual o melhor caminho. Os dados estão lançados e creio que no bom sentido: no da apresentação de projectos para escrutínio no espaço público. Sim, isto já não é uma política de casos. Não se está a pessoalizar a política. Estão a afirmar-se ideias. Pedia D.Manuel Clemente, há dias, aos diferentes partidos: "apresentem-nos propostas!". Aqui estão múltiplas e, certamente, será interessante de observar as que se lhe oporão nas próximas semanas. Influirá, no entanto, em demasia, nas sondagens este ou outros exercícios semelhantes? Duvido bastante.


Recebido (e entregue, espero)




É mesmo a tua cara, diz-me ela, sobre o tema da tese. Sim, penso que sim, o cruzamento entre o político e o religioso, com as suas minudências teológicas, as suas construções filosóficas é, realmente, o terreno que, provavelmente, resultando de uma traditio dada gratuitamente - há sempre uma biografia...e um conjunto de biografias que nos precedem e/ou são coetâneas companhias de eleição...e que contribuem para sermos o que somos -, mais foi irrigada pelo interesse e curiosidade intelectuais, pela procura do conhecimento (em si mesmo), pelo prazer e pelo trabalho, pelo lúdico e pelo científico. Tinha coisas escritas há uns sete ou oito anos e que juntei agora ao trabalho - o que me deu esse traço de continuidade no interesse por estas questões. Há prazos, claro, e viagens por continuar. Sempre. Mais uma etapa.

Iniciativa




Por vezes, sem que lhes seja solicitado, chegam junto do professor, e perguntam se podem projectar o que têm preparado na pen, sobre a matéria, para os colegas (verem). Neste caso, penso que o a-vontade tecnológico lhes confere um poder de iniciativa que a geração anterior, na mesma idade, não tinha. Preparam os materiais e expõem-nos, se for caso disso. Claro que nem sempre a aula está vocacionada para o efeito, nem sempre faz sentido o que pretendem, nem a qualidade é garantida, mas, entre perdas e ganhos, sublinhe-se o traço empreendedor. O gostar de ser reconhecido é que é intemporal.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Cão que morde, ladrando


Cão que ladra não morde, dizia ele, sabendo morder ladrando, fazendo-o convictamente. A analogia com os humanos não podia conceber equivalente para morder (bater?), porque os danos reputacionais, fora os patrimoniais, seriam demasiado elevados. Aquilo era um convite a uma aceitação, calada, daquela putrefacção, permanente, diária, da linguagem, isto é, do humano, ser de palavra e comunicação, ser de relação [não, não o teorizou, assim, ele, entre as telenovelas, à noite; não precisava de teorização, apenas dos efeitos, o levar os outros a fazer o que pretendia, independentemente da forma]. Quebrada, a relação, sempre que haja cão que morde, ladrando.

domingo, 19 de abril de 2015

O PS e Guterres




Está desiludido com Guterres?

Seixas da Costa: Não gostava que me tivesse feito essa pergunta.

em entrevista concedida a Nuno Saraiva, DN, 18/04/2015, p.7.

P.S.: Henrique Neto afirmou ao Sol que Guterres "prejudicou o PS, sem necessidade" e José António Lima concluiu, no mesmo jornal: António Costa "bem pode agradecer a Sócrates e Guterres boa parte dos infortúnios que está a viver".

Reformas


Foram as reformas Schroder, no mercado laboral, o factor decisivo para a competitividade de que a Alemanha dispõe?

Segundo Mariana Mazzucato, não.

"E é evidente que tanto em Itália como em Portugal, a produtividade não tem estado a aumentar e, consequentemente o PIB também não, porque não investimos em nenhuma das áreas que o fazem crescer: a formação do capital humano (para lá da simples educação), investigação e desenvolvimento e nas instituições fundamentais que permitem as ligações entre a ciência e a indústria (como os centros Fraunhofer alemães, por exemplo). Isso é, claramente, o que faz a diferença na competitividade entre os países do sul (os difamantes PIGS) e a Alemanha, não é a história que costumamos ouvir de que de alguma maneira a Alemanha apertou o cinto enquanto os PIGS perdulários gastaram demasiado. Sem dúvida, a razão para empresas alemãs como a Siemens ganharem contratos por toda a Europa é precisamente porque fazem parte de um ecossistema de inovação muito bem aprovisionado, onde o lado público investiu diretamente em todas as espécies de áreas que aumentam não só a produtividade, mas também a inovação. Isto inclui, por exemplo, ter um banco público, o KfW que continua a ser um dos maiores investidores mundiais nas áreas inovadoras, como a tecnologia verde".

Mariana Mazzucato, em entrevista concedida a André Macedo e Miguel Marujo, DN, 19/04/2015, p.12.

P.S.: A autora é professora de Economia da Inovação, na Universidade de Sussex, no Reino Unido e o seu livro O Estado empreendedor foi escolhido como um dos livros do ano para o Financial Times e a Forbes. A revista norte-americana New Republic considerou-a, em 2013, uma "dos três pensadores mais importantes sobre inovação".


sábado, 18 de abril de 2015

Sábio


O adjectivo que os gregos utilizavam para descrever o sábio era methórios, "aquele que está sobre a fronteira".

José Tolentino de Mendonça, Hóspedes do grande mistério do mundo, E, Expresso, 18/04/2015, 90.

Classe média




Pacheco Pereira responde hoje, no I, entre outros, a Vasco Pulido Valente:

Muitas vezes os críticos da classe média em Portugal dizem: 'ah, a nossa classe média cresceu encostada ao Estado'. É bom que se diga que nasceu encostada ao Estado em quase todos os países europeus, porque havia a consciência de que não podia haver uma sociedade de proletários e de muito ricos. E a classe média, com o crescimento do Estado em várias funções, como os correios, na saúde, na própria administração, no ensino, foi o mecanismo no qual se criava uma classe que funcionava como 'buffer' social que retirava as pessoas da pobreza e impedia a polarização social. De tal maneira que a geração seguinte era sempre mais letrada que a anterior. Esse mecanismo foi o primeiro a ser destruído com o processo de ajustamento em Portugal liderado pela actual maioria. E não necessitava de ser.

entrevista de José Pacheco Pereira, concedida a Luís RosaI nº1863, ano 6, 18 de Abril de 2015, p.24.

Funcionários públicos


*Em 1995, no final dos governos Cavaco, havia em Portugal 647893 funcionários públicos nos quadros (com dezenas de milhares de outros a recibos verdes);

*Em 2002, no final dos governos Guterres, havia 778782 funcionários públicos;

*Em 2011, no final dos governos Sócrates, havia 737774 funcionários públicos;

*Em finais de 2014, a menos de um ano do governo Passos Coelho, havia 655620 funcionários públicos.

"A leitura sequestrada"


La Lectura secuestrada
Aunque uno quisiera, hoy es prácticamente imposible aislarse del mundo, incluso huyendo a los lugares más remotos donde todavía no llega Internet. Me di cuenta cuando, recorriendo varios monasterios de clausura, los religiosos me hablaban de sus trabajos, a través de las nuevas tecnologías, y me descubrían conocimientos insospechados. ¿También se puede llegar a Dios a través de Google? Por eso, a pesar de que no soy un habitual consumidor de blogs ni redes sociales, la amplia red de amistades inevitablemente me hace llegar informaciones sobre asuntos que creen de mi interés.
Desde hace tiempo hay blogs y cuentas dedicados a combatir el sentido de la cultura, tal cual aún hoy la concebimos. Espacios que atacan a la lectura, a la escritura, al papel y a todos aquellos medios educativos que no se basen en el uso fundamentalista de las aún llamadas nuevas tecnologías. Por supuesto, soy defensor de la libertad de expresión, pero me preocupa, me descorazona que varios de estos profetas que claman contra el “pasado” y no ocultan su deseo de destruirlo sean profesores.
Un gran maestro y filósofo, Emilio Lledó, afirma que los seres humanos somos esencialmente palabra, comunicación, lenguaje. La vieja definición de que el hombre es un animal que habla, que tiene logos, sigue siendo irrefutable. Porque nuestra inteligencia es lingüística. Pensamos con palabras. Con palabras nos comunicamos. Y ellas organizan nuestras propias acciones. Sólo pienso en la medida que soy capaz de expresarlo en palabras: interiormente o hacia los demás. Pretender sustituir la palabra por aparentes equivalencias no es sino una forma falaz y taimada de empobrecer nuestra inteligencia. Y cada acto que atente contra sus manifestaciones fundacionales —la escritura, la lectura, la oratoria…— es un atentado contra nuestra riqueza civilizatoria.
Roland Barthes, de quien se cumple este año el centenario de su nacimiento, en ¿Por dónde empezar?, escribe lo siguiente: “Frente al profesor, que está del lado de la palabra, llamemos escritor a todo operador del lenguaje que está del lado de la escritura; entre ambos, el intelectual, aquel que imprime y publica su palabra. No existe apenas incompatibilidad alguna entre el lenguaje del profesor y el del intelectual”. Y yo me pregunto: ¿profesores antiintelectuales? ¿Pueden realmente ser docentes quienes no hagan del logos el eje de su labor educadora, independientemente de su campo de especialidad? A veces pienso si no estaremos abocados a un colonialismo digital. Si, tras la dura y esforzada lucha que nos llevó a una sociedad más igualitaria, no estaremos creando artificialmente nuevas clases sociales: la de los proscritos, rango este último al que pertenecen no pocos de los pretendidos educadores a los que ya me he referido.
Los colonos digitales actúan como la infantería del colonialismo digital. Su ataque se basa en combatir las evidencias de la “vieja cultura”: los anteriores sistemas cognitivos del saber, los derechos legítimos de los autores, el mérito basado en el estudio, el conocimiento y la experiencia; en suma, el sentido profundo de las humanidades, de la ciencia, a manos de una técnica vacía, puramente consumista, cuando no movida por intereses especulativos o comerciales… Y, como expresión de todo ello, cantan himnos de promesas democráticas.
Pregonan una mutación antropológica con tintes de radicalidad. O conmigo o contra mí. Y cualquiera que no se pliegue a sus consignas, inmediatamente es arrumbado al ostracismo, calificado como retrógrado, cuando no como representante de los más oscuros intereses. Siempre, culpable de pensar. Los proscritos gutenberguianos y los inmigrantes digitales pedimos una tregua, un tránsito, una cooperación. Un tiempo que nos permita encajar el antes y el ahora, como siempre fue: el mundo del pasado con el del futuro, pues ningún futuro se construye en el vacío y desde el vacío.
Uno de los mantras que esos colonos digitales repiten hasta la saciedad es el de que las nuevas generaciones son ya nativos digitales, en uso del término que inventó Marc Prensky. Esta idea de los nativos digitales, extendida por Ferri, es otra gran falsedad. No conozco a ningún nativo digital, simplemente porque no existen. Todo es tan reciente que hay escasísimo fundamento para construir esas “nuevas verdades reveladas”. Y jamás —o ese es mi más íntimo deseo— máquina alguna podrá sustituir o superar la labor humana, cercana, cómplice, estimuladora que un buen profesor tendrá siempre en sus alumnos. Los humanos aprendemos de los humanos. A través fundamentalmente de la experiencia. De las máquinas aprenden las máquinas.
La escuela, la Universidad sólo tienen sentido en la medida que formen individuos cultos y libres, no meros consumidores o integrantes de masas informes. La escuela, la Universidad, con el uso sensato de los nuevos instrumentos de construcción y trasmisión de la información, han de seguir siendo agentes del pensamiento creativo, reflexivo, crítico, solidario y en permanente deseo de aprender. Bienvenidos los aparatos, los instrumentos que auxilien dicha labor si, sobre todo, enfatizan el valor fundamental del factor humano.
Si para caminar en la vida necesitamos la pausa, la reflexión, el lento asimilar de cada concepto, pongamos en cuarentena todos aquellos instrumentos que apelan exactamente a lo contrario. La instantaneidad, la concurrencia efervescente de llamadas que diluyen nuestra atención, que tornan la contemplación en hiperactividad; que nos hacen ir de un lugar a otro, en un rumbo cada vez más errático, lo que tan poco tiene que ver con el inevitable sereno ritmo de saber. Madurar requiere de un tiempo.
Hoy más que nunca, y precisamente como compensación a la “velocidad de los tiempos”, necesitamos apelar al silencio, a la intimidad, a la concentración, a la imprescindible construcción de referencias culturales, y a la capacidad de interpretación e integración del texto, de la obra. La mente no puede ser educada en la dispersión. En el continuo ajetreo. Somos caminantes, no velocistas. De ahí que, una vez más, reclame la práctica reposada de la conversación, del diálogo, de la comunicación, de la lectura.
El libro de papel, desde su debilidad ante los ejércitos a los que se enfrenta, solo se ofrece a sí mismo, forma parte de un ecosistema y su función no es tan fácilmente sustituible por otros soportes. La biblioteca es una identidad individual, el archivo de Internet es una memoria masiva, una posibilidad nueva que se da a quienes siempre la tuvieron y tampoco antes la utilizaron. Los nuevos formatos todavía no han abierto suficientemente nuevos horizontes de lectura ni, al menos por ahora, han traído al territorio de la palabra leída las ingentes cohortes que anunciaban. Me atrevo a decir que la mayor parte de tales dispositivos, siendo así que incluyen la posibilidad de la lectura de libros, son usados para otras muchas tareas o distracciones, como, por otra parte, ya ha ocurrido con otros tantos inventos tecnológicos. La muerte del pensamiento —según escribe Bataille en El no-saber— “es la voluptuosa orgía que prepara la muerte, la fiesta que la muerte da en su casa”. El propio pensador francés, a mediados del siglo pasado, ya habló de la “teología del ocio”.
Proteger la lectura, proteger el arte de decir y de escuchar, proteger la escritura. “La desaparición del lector en profundidad lleva a la regresión de la creación intelectual”, escribe Roberto Casati en Elogio del papel (Ariel). Y añade el escritor y director del CNRS (Centre National de Recherche Scientifique) “la escuela debe, en cierta medida, resistirse a las tecnologías distrayentes, el verdadero cambio es el desarrollo moral e intelectual de los individuos”.
Demos a cada cual el justo lugar que le pertenece. A la tecnología el que tan eficazmente le corresponde. A la humanidad, a la ciencia humanista, el lugar que nunca debe ceder. Adorno, en La crítica de la cultura y la sociedad, hablaba del progreso y la deshumanización, de la difícil convivencia entre ambos. Hoy también vivimos idéntica encrucijada. De cada uno de nosotros depende la dirección que elijamos. Mi opción está tomada, pero no dejo de preguntarme: ¿ habrá escogido ya la humanidad otro camino distinto a aquel por el que llegamos hasta aquí?
César Antonio Molina es director de la Casa del Lector de Madrid, El Pais, 18/04/2015


Os malucos do riso


Se, relativamente ao lance ocorrido na área do Bayern, no primeiro minuto do jogo da Champions da passada quarta-feira, no Dragão,  L'Equipe escreveu que "é incrível" como Manuel Neuer não foi expulso, já o britânico The Independent sentenciou que "só uma pessoa no planeta" conseguiu achar que a jogada era para cartão amarelo: o árbitro do encontro (Carlos Velasco Carballo). Puro engano. Diamantino Miranda, em A Bola TV, alvitrou e, no dia seguinte, João Bonzinho confirmou em A Bola: o guarda-redes alemão toca na bola, não existindo grande penalidade. O Porto foi beneficiado, aliás como sempre. Ou, se não foi, é bem feita (não ter sido), para não criticar os tão excelentes árbitros portugueses (versão José Manuel Delgado). O que seria de nós sem as verdades ditas pela imprensa desportiva de Lisboa? Ou, pelo menos, sem a pândega que suscitam os seus artigos, as suas neuroses, os seus desejos mais infantis.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

"Aulário"



Na escola, vamos precisar de actividades que calha bem partilhar com 500 alunos - e então as escolas devem estar apetrechadas, nomeadamente com auditórios ou anfiteatros para os albergar -, e outras que só fazem sentido ser dirigidas a 5 discentes. A flexibilidade será a nota dominante, em matérias que exigirão, provavelmente, uma menor rigidez no espartilho de cadeiras, em um "aulário" desmotivante para muitos. Um saber feito de workshop's, oficinal, onde se aprende a sério emergirá, junto a maior motivação por parte dos alunos. O desafio que, nos últimos 40 anos, na educação, passou por instruir todos, dará, em breve, lugar a um outro, que atenderá à diferença e especificidade de cada um. O modelo fordista, quando estamos um século adiante, só se mantinha na sala de aula. A necessidade e disponibilidade dos professores para estarem em constante aprendizagem terá que ser enorme. Joaquim Azevedo, que nos ensina tudo isto sobre a escola do futuro, diz-nos que não seria mau que, por exemplo, não pudesse haver candidatos a cursos para professores que entrassem com média inferior a 16 valores. Os professores até agora formados foram(-no) para outra sociedade. Quem está agora a passar pela escola não sabe que emprego terá amanhã, quantos empregos durante a vida, com que tipo de duração e contrato.
Maria Manuel Mota vê no seu caso um exemplo muito ilustrativo do que foi o progresso na educação que o país conheceu, nas últimas quatro décadas. Oriunda de uma família da periferia de Gaia - ela mesmo, uma periferia do Porto -, e sem que os pais tivessem grande escolarização, frequentando a hoje reputada académica a escola pública, foi capaz de um trabalho de grande qualidade e de singrar na Universidade. Entende que é a Universidade que molda e deve moldar os valores prevalecentes na sociedade - pois que quase todos os que formarão terão sido formados na Universidade - e crê que em Portugal não se valoriza, suficientemente, o conhecimento como valor em si mesmo. Os meus pais, diz Maria Mota - queriam que eu tirasse um curso para ter um emprego seguro para a vida. Mas não propriamente pelo valor do conhecimento. O que posso eu acrescentar, em conhecimento, ao mundo, seja pela via da ciência, seja pela via da arte? Quando uma amiga e colaboradora de Maria Manuel Mota, professora no MIT, lhe pergunta em que idade começou a pensar que ia mudar o mundo, esta achou a interrogação de uma grande arrogância - "mudar o mundo? Vê-se logo que é professora no MIT..." (risos). Mas ponderou melhor: que estamos aqui a fazer se não for para acrescentar ao conhecimento e mudar algo? A amiga tinha feito com que mudasse de perspectiva e passasse a entender que esta visão das coisas falta inculcar na nossa educação (na educação das nossas crianças/adolescentes/jovens).
Mais do que a mudança de regime, mais do que as mudanças políticas - muito importantes -, a mobilidade social, na sociedade portuguesa, nos últimos 40 anos, deve-se à Educação (às políticas e esforços colocados na educação), referiria António Mega Ferreira

sinais de fogo: moderação de Ana Sousa Dias

Parte 2: Aqui, Joaquim Azevedo diz que construímos escolas luxuosas, mas não voltadas para o futuro, não se tendo falado com as pessoas que pensam o futuro da escola no planeamento da sua construção. Não mais se pode pensar na escola dirigida exclusivamente ao 'aluno médio'. A realidade 'turma' tenderá a desaparecer. Maria Manuel Mota afirma calcular em mais de 10% a percentagem da população que não se sente motivada por nada, por nenhum emprego ou actividade em particular. E António Mega Ferreira assegura que muitos dos que estudam música não gostam de música e vêem-na como uma maçada de um ofício que praticam por razões exclusivamente de ordem material, para horror dos mais românticos.

Parte 3: Porque os dinamarqueses são tão bons? De onde vêm os nossos Professores? E a experiência do 'carro vassoura' no Porto (e ainda a Catalunha).

Parte 4: Joaquim Azevedo fala do modelo Dinamarquês que, além do mainstream (que inclui ensino profissional), oferece, ainda, outros três tipos de ensino. A importância da abordagem dos jesuítas da Catalunha baseada na teoria das inteligências múltiplas. A formação de professores fundamental, enquanto necessidade de estudo e do lastro antropológico e filosófico para aderir aos reptos ora deixados.

Associações voluntárias e qualidade democrática


As sociedades com níveis mais elevados de pertença a organizações voluntárias são a Suécia, Holanda, Noruega, Dinamarca e Finlândia, com 60 a 80% da população a pertencer a uma Associação. Na Alemanha, Bélgica e Áustria é igualmente muito significativa a percentagem da população filiada em associações voluntárias: 50 a 60% da população. Na França e Itália 40% e em Portugal e Espanha 30%. De acordo com Tiago Fernandes (A sociedade civil, FFMS, 2015), a força do Estado; o grau de consulta entre Estado e associações na definição de políticas públicas; o grau de universalismo do Estado-Providência e os poderes do Parlamento são dimensões que, quanto mais robustecidas, mais fortes serão a sociedade civil e mais elevada a qualidade de uma democracia.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Revolução e qualidade da democracia


Quase sempre elogiada, entre nós, por comparação com a revolução de Abril de 1974, a transição para a democracia, em Espanha, ao perpetuar as elites no poder - sem acesso popular, só as políticas mudando -, não gerou a vitalidade democrática, a democracia participativa que Portugal esteve sempre mais próximo de ser, nestes últimos 40 anos. Dito de outro modo, a Revolução para a democracia, em Portugal, foi responsável, na distribuição que promoveu, na permissão do acesso a recursos e capacidades pelas massas populares, por termos, hoje, uma mais densa malha de organizações e associações que emergiram da sociedade civil. O investigador Tiago Fernandes ajuda-nos, assim, em A sociedade civil (FFMS) a reler os processos reformistas e revolucionários, na Península Ibérica, durante a chamada terceira vaga de democratização. Se, em outros âmbitos, a transição espanhola terá oferecido melhores frutos, Tiago Fernandes garante que as "democracias que decorrem de um processo revolucionário tendem a oferecer mais oportunidades e mecanismos para a participação e inclusão cívica das massas na vida cívica nacional", pelo que ao nível deliberativo Portugal terá ficado a ganhar. Muitos os ângulos, perspectivas diversas que após quatro décadas continuam a tornar interessante e importante revisitar este passado próximo.


Cinco para a meia noite




A conferência de imprensa dos advogados de José Sócrates coincidiu com a intensificação do caso BES, alargado à Suíça, e com uma crescente contestação na rua dos lesados. De acordo com Pedro Delille, o seu cliente usaria os envelopes carregados de dinheiro do seu amigo Santos Silva por não "confiar" nos bancos. Afinal, o homem que como primeiro-ministro nunca pareceu hesitar em intervir na administração e nas guerras internas dos bancos seria, no fundo do coração, um Bakunine anticapitalista. (...) A defesa de José Sócrates, sem prejuízo do princípio da presunção de inocência, parece tornar cada vez mais credível a possibilidade de o país ter tido à frente do governo, durante seis anos, alguém sem qualificações éticas ou substantivas para o cargo. (...) E nós, os cidadãos comuns, estaremos em condições, até psicológicas, de suportar toda a verdade? Teremos a coragem de arcar com todas as consequências se se confirmar que, afinal, a nossa democracia foi impotente para impedir que o nosso sistema político e económico tivesse sido capturado por inimigos do interesse público?

Viriato Soromenho-Marques, Até onde queremos saber?, DN, 14/04/2015.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Adolescentes




Quando a coisa - um consumo interdito, uma proibição, uma refeição menos perfeita - não lhes agrada:

- Que ranço!


Quando aprovam a experiência - um espectáculo a que vão assistir, um prato suculento, um programa de TV:

- Que mina!


[quem lidar com adolescentes, ao longo dos anos, notará uma linguagem muito própria que não raros membros da tribo usam insistentemente, e que varia conforme as épocas; as expressões acima citadas surgem, ao meu ouvido, como palavras da moda, que por tudo e por nada, entre teenagers são hoje usadas]

Uma farsa?


Liquidado o último homem, custa-me muito a crer que tudo se passará como se eles não houvessem jamais existido. Custa-me a acreditar que a vida de cada um de nós não passe de uma farsa tragicómica.

Jean d'Ormesson, O mundo é uma coisa estranha, afinal, 146.

Política



Hayek, Platão e o Sermão da Montanha - a mais recente entrevista de Freitas do Amaral.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Presidenciais


A pergunta que se impunha a José Alberto Carvalho, na noite televisiva de ontem, era, claramente, esta: "Tendo o Professor Marcelo Rebelo de Sousa defendido uma única candidatura de direita às presidenciais, caso Rui Rio decida avançar, antes do Verão, pondera o Professor abdicar de uma eventual candidatura (sua)?".

Pessoalmente, fiquei surpreendido com a notícia do Expresso, deste fim-de-semana, que dava conta do avanço de Marcelo, mesmo com Rio no terreno (estava em crer que não seriam compatíveis, que ocupariam, em parte, o mesmo eleitorado, que Marcelo não avançaria com Rio na estrada; diferentemente, supunha, como suponho, Santana Lopes candidato, seja com Marcelo, seja com Rio).

Francisco Pinto Balsemão viu bem quando, falando para o partido de que é fundador, advertiu que não devia deixar-se, este, enredar em discussões idênticas àquelas a que se assistiu no PS. Dito de outro modo, uma candidatura de Rio que fracture o PSD - entre os que desejam o ex-edil portuense para PR e aqueles que preferem Marcelo - seria, certamente, o desejado no PS. Rui Rio é, assim, num certo sentido, a grande esperança do PS (para que as divisões internas, com as presidenciais, neste partido, não sejam as únicas a suceder e, desse modo, eventuais efeitos nas legislativas sejam, deste modo contrabalançados, com outras fracturas, mesmo que não tão expressivas; Rio, em qualquer caso, melhor recebido, no PSD, do que Sampaio da Nóvoa no PS; mais fácil, pois, de impor disciplina no caso laranja do que no rosa; tal não suprime, em todo o caso, a discordância).

O valor da liberdade (VI)




Fernando Henrique Cardoso, na sua formação académica (e política), participou em um seminário destinado a fazer um exercício comparativo das várias traduções existentes, em várias línguas, de O capital, de Karl Marx. Assim, seria possível compreender melhor a obra, os conceitos, o modo como tinha sido apreendida em diferentes culturas. Acha que os que partem de Marx para qualificar todo o liberalismo de neoliberalismo não o leram, porque em alguns escritos terá considerado o liberalismo político. Fora isso, Henrique Cardoso considera que uma das grandes vantagens do Brasil é que não há uma comida de branco, ou de negro, uma música de um grupo particular; a culinária, a música, a moda são brasileiras. Este Brasil mestiço, este Brasil plural que incorporou em si a diferença estará, pois, em especiais condições de auxiliar o mundo a acomodar a globalização.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Noites de poesia (II)




Depois da referência a Elsinore, o castelo de Hamlet, em Cesariny, seguiu-se, na noite de anteontem no Teatro de Vila Real (Hamlet em Pessoa, com André Gago e Carlos Barretto), o ser ou não ser, em Jorge de Sena. Apeteceu-me recuperar hoje, provavelmente muito influenciado pelo texto de João Gama, no DN - um artigo que chega a roçar o grotesco - o "país dos sacanas". 

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas
E todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
Para fazer funcionar fraternamente
A humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
Para além da rivalidade, invejas e mesquinharias
Em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
E ver se se convertem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
Ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
Porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
Que a nobreza, a dignidade, a independência,
a Justiça, a bondade, etc., etc., sejam
Outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
A um ponto que os mais não capazes de atingir.
.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então neste país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

Jorge de Sena, No país dos sacanas, in 40 anos de Servidão.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Noites de poesia


Um dos poemas a que, na noite de ontem, no Café Concerto, do Teatro de Vila Real, André Gago deu vida. Principiou, assim - foi o primeiro dos poemas ditos - a noite de poesia em torno do Hamlet que nos levou até ao início de madrugada, com casa cheia:

You are welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário CesarinyPena Capital, Assírio & Alvim, 1982

Teses para a tese



Para os judeus, a Tora, para os muçulmanos o Alcorão. E, por outro lado, para os romanos, a religião civil. Uma só ordem (em qualquer dos casos). Qual confusão/embate política/religião? Nada. Para o Cristianismo, a Bíblia não é o código político, nem este, por sua vez, pode deixar bastar-se a si mesmo e deixar de confrontar-se com valores que o limitam/tutelam - a tensão surge, pois, neste quadro (leia-se A grande separação, de Mark Lilla).

terça-feira, 7 de abril de 2015

Sampaio da Nóvoa




Não me convence o argumento do Professor Doutor de Coimbra, meu Deus! - porque a política é o lugar vazio, o lugar sem título, de todos e de ninguém, onde nenhuma formação específica dá acesso especial ao poder -, mas igualmente fico por convencer com o seu inverso (espelhar): é um Professor Doutor de Coimbra (no caso de Sampaio da Nóvoa, da Sorbonne, Oxford ou Columbia), logo não pode exercer política ("o currículo a mais", a falta de actividade política - ou partidária). Mais: se a habilidade política é urgente nesta hora, dificilmente a experiência de quem está no metier há muito parece servir de grande consolo: o actual PR, não quis ou não conseguiu forçar um governo maioritário, em 2009 (sendo a legislatura interrompida, com estrondo, no meio do turbilhão da crise), nem, tão pouco, um acordo na actual legislatura quando o explicitou necessário. 
O segundo dos argumentos que vi opor a Sampaio da Nóvoa foi o seu pretenso perfil intervencionista (que resultaria das declarações que fez na entrevista ao JN, no passado Sábado). Enunciar um conjunto de temas pelos quais um PR deve puxar - foi isso que o proto-candidato disse ser necessário - não me parece que, por si só, sustente a objecção. Em que difere isso de escolher a competitividade como grande tema e andar pelo país a mostrar casos de sucesso no mundo empresarial, ou apontar a pobreza e as situações de degradação que há no país e mostrá-las aos telejornais? Não foi isto que fizeram "políticos profissionais"?
Finalmente, sobre a questão do vazio das intervenções, parece-me certeira a observação de Seixas da Costa: há pessoas, em particular mas não só, nos media certos, que parecem ser pagas para andar a encontrar em cada texto um engraçadismo para tentar desqualificar uma pessoa/um candidato a um lugar político (que não lhes agrade por qualquer motivo). Mas, olhando à personalidade em causa, e também a bastante do que disse, será que estamos perante alguém sem preparação - e sem "nada na cabeça", como sugerem esses textos, eles mesmos caricatos? Este tipo de comentários que visam enxovalhar, sem nada de construtivo trazerem nem nada de sério discutirem, também contribuem para afastar as pessoas da causa pública (sob a capa de rejeitarem um pretenso "texto vazio", esconde-se, quase sempre, a procura de ridicularizar a pessoa; é, pois, em rigor, algo ad hominem).
Sampaio da Nóvoa confirmou ao JN que a falta de visibilidade é, de facto, um "grande problema". Apesar dos exemplos históricos que se podem dar - a percentagem de Mário Soares no início da campanha de 1986 - não se afigura muito fácil ou plausível que estando a 20 ou 30% de distância de um candidato que apareça na frente, nas sondagens, consiga vir a ser eleito PR. Que um partido de poder apoie um candidato "derrotado à partida" - a história está em aberto, mas parece muito complicado que assim não seja - não pode deixar de se afirmar dilemático (muito, ainda, na dinâmica que cruza com as legislativas). Dito isto, a argumentação substantiva contra Sampaio da Nóvoa - na entrevista ao JN falou na necessidade de despojamento na política e Sérgio Sousa Pinto viu nisso, com horror, a apologia da pobreza; a sério? - não se distinguiu, nestes dias, pela subtileza.
Pode ser que algum dos defeitos apontados tenha razão de ser, mas ainda falta preencher com conteúdo assinalável tais críticas.

Pub: logo, no Teatro "Hamlet em pessoa"




Por aqui, logo à noite.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Guterres - o Cavaco de 1995?


1.Dificilmente alguém veria, à vista desarmada, grandes semelhanças de personalidade (política) entre Aníbal Cavaco Silva e António Guterres

2.Todavia, dei por mim, estes dias a comparar o comportamento de Cavaco com Fernando Nogueira, em 1995, com o de António Guterres face a António Costa, em 2015. Um longo tabu do então PM, em 1994, acompanhado por uma fatal não confirmação de que seria candidato às Presidenciais seguintes - após Nogueira ter feito esse anúncio -, desgastou ainda mais uma candidatura que, após 10 anos do PSD no Governo, já corria em desvantagem. Foi um contributo mais para uma derrota previsível. À época, era bem audível a insatisfação entre militantes social-democratas com aquele que fora o seu líder durante dez anos: "só pensa nele!...", indignavam-se amiúde (o que, de resto, se repetiria, de algum modo, quando Cavaco mandou retirar o seu rosto dos cartazes da campanha de Santana Lopes...que não foi, aliás, especialmente meigo com o actual PR na entrevista ao DN, há escassos dias).
A situação do PS, à partida, é mais favorável, relativamente às legislativas, do que aquela em que se encontrava o PSD a caminho de Outubro de 1995. É verdade que Guterres não veio desmentir Costa, após este ter feito qualquer anúncio de candidatura presidencial do Alto Comissário para os Refugiados, da ONU. Mas, em realidade, estando a sua candidatura marcada nas estrelas, Guterres tinha a obrigação de ter vindo dizer, expressamente, que não queria ser candidato, se tal se verificava. Em devido momento, Augusto Santos Silva disse, com toda a razão, que embora fosse cedo para Guterres se expor num anúncio formal de candidatura, era, contudo, tarde para dizer que não. E, de resto, Guterres deu sinais de que iria avançar. Quando o jornal Sol anunciou que Guterres não seria candidato à Presidência por prolongar o seu mandato na ONU, foi o ex-PM a querer fazer uma declaração ao Expresso, no dia seguinte, garantindo que tudo estava em aberto. Naquelas circunstâncias, isso só poderia querer dizer sim, como alguém tão experimentado como Guterres não pode alegar desconhecer. Com as suas hesitações, com a eventual espera pela definição do futuro secretário-general da ONU, com o seu nim, Guterres como que capturou o partido (embora sempre se possam apontar críticas a uma liderança do PS que não conseguiu forçar a decisão...talvez, embora, pela compreensível razão de que nenhum outro candidato estivesse em reais condições de vencer Marcelo Rebelo de Sousa).

3.Não foi preciso esperar mais do que um dia para que a candidatura de Sampaio da Nóvoa (desde que diferentes media a confirmaram) fosse fortemente fustigada nos jornais (leiam-se, por exemplo, os artigos de André Macedo e Ferreira Fernandes, no DN). E, mais importante, no interior do PS (e, muito especialmente, na sua direcção - Sérgio Sousa Pinto). Os partidos são máquinas de poder, por bons motivos (poder concretizar as suas ideias políticas para o país) e más inclinações (colonização do aparelho do Estado). Por  melhor que um candidato seja, se parte derrotado à partida, naturalmente um partido com a dimensão do PS vai reagir. E, somados os que o fazem por razões substantivas - apontando óbices políticos fundamentais a uma determinada personalidade (inexperiência política em quem tem que ter muita habilidade na polis, num tempo como este) - aos que o fazem por razões tácticas (Maria de Belém arremessada contra Costa, pela ala segurista que permanece) o PS parece entrar em ebulição e possível fractura. Mesmo os que estão com Costa afincadamente, vendo uma derrota política no horizonte, podem desmobilizar.

4. Marcelo Rebelo de Sousa colocou Sampaio da Nóvoa bem à esquerda ("não está entre o PS e o PSD"). O espaço do centro reserva-o para si. Mais disse, após rebuscada cenarização dos motivos do eventual apoio de Costa a Nóvoa, que o antigo Reitor da Universidade de Lisboa, "consegue federar toda a esquerda". Supõe-se que um "católico" como Guterres, ou um "homem de negócios" como António Vitorino não o fariam. Marcelo puxa por Sampaio da Nóvoa (até porque pretende que os seus não desmobilizem com uma vitória antecipada, nem que a vitória seja vista como simples e fácil).

5.Não vejo como António Costa possa fugir, constantemente, nos próximos tempos, a questões sobre as Presidenciais, pelo que o melhor é definir, de vez por todas, o que fazer. O protelamento da decisão só criaria ainda mais desgaste e ruído.

6.Ao que hoje contam os jornais, o actual líder da JS faz um apelo de última instância a Guterres para que este se candidate. Porém, mesmo que tal candidatura viesse a ter lugar - o que parece, neste momento, claramente inverosímil - ela surgiria, já, na vigésima quinta hora, após ter deixado um espaço político, ou uma parte dele, ser ocupado. Dificilmente, esta história acabará bem para o PS.
Costa, depois de um mal sucedido frente-a-frente inicial com Seguro, mostrou ser um debatente hábil, (nos frente-a-frente seguintes, nas internas do PS, face ao mesmo oponente). Capaz de utilizar bem a ironia, contundente, fluente. Pode surpreender, nesse âmbito, na recta final da campanha eleitoral. Mas várias leituras do que são os debates televisivos mostram a pouca influência que costumam ter na decisão final dos eleitores e, se os debates se ganham, ainda, nos comentários que se lhes sucedem nas TV's, então, em existindo comentadores de todos os quadrantes, atribuir uma vitória flagrante a um dos debatentes não é provável, nem tem sucedido (embora, em abstracto, possa acontecer). 
Em suma, veremos se, numa eleição que se prevê muito apertada, para as legislativas, a factura das presidenciais não se revelará bastante dura para Costa (nomeadamente, na dificuldade em federar os seus e, mesmo, em permitir uma leitura do apoio a Sampaio da Nóvoa como alienação do centro).
Mau grado a personalidade sempre muito considerada, do ponto de vista ético, de António Guterres, por vezes, podemos cair na tentação de ignorar o animal político que palpita e calcula, que se centra também em si, mesmo onde a generosidade faz muitas vezes a regra.

Economia: estado da arte


Agora que, seja pelo entusiasmo com que António Costa se referiu ao grupo de economistas que tem a trabalhar consigo - e que mereceram, de resto, duas páginas no Público, a explicar currículo académico, científico, publicações, intervenção cívica, tendência ideológica -, seja pelas declarações de Marco António Costa, em entrevista a Ana Sá Lopes, no I, ao não ter deixado, igualmente, por mãos alheias a competência económica do PSD (a trabalhar com reputados economistas, segundo fez questão de sublinhar), os economistas "estão de volta" - isto, depois de muito zurzidos e questionados nos últimos anos - um texto de Joaquin Estefanía procura mostrar o estado da arte (leia-se texto na íntegra), relembrando, de igual forma, o que seria o economista ideal: En la maravillosa necrológica que Keynes hace de su maestro Alfred Marshall, define la profesión de economista de un modo envidiable: “El gran economista debe poseer una rara combinación de dotes (…) Debe ser matemático, historiador, estadista y filósofo (en cierto grado). Debe comprender los símbolos y hablar con palabras corrientes. Debe contemplar lo particular en términos de lo general y tocar lo abstracto y lo concreto con el mismo vuelo de pensamiento. Debe estudiar el presente a la luz del pasado y con vistas al futuro. Ninguna parte de la naturaleza del hombre o de sus instituciones debe quedar por completo fuera de su consideración. Debe ser simultáneamente desinteresado y utilitario: tan fuera de la realidad y tan incorruptible como un artista y, sin embargo, en algunas ocasiones tan cerca de la tierra como el político”.

Quatro anos, afinal, é escassíssimo para que tudo mude de repente. Pensemos no que se reflectiu acerca das mudanças nos currículos de economia - no trabalho do Jornal de Negócios sobre o tema, de que aqui se deu nota -, pense-se na "ideologia da tecnocracia". Ao mesmo tempo se diria, talvez, que eppure se muove. Ou, recorrendo à sabedoria chinesa, a Revolução Francesa [por exemplo] ainda só foi há pouco mais de duzentos anos. Em 2005, um dos pontos tido como popularmente favorável a Cavaco - na sua candidatura à Presidência da República - era "saber de contas", a sua formação de economista (que iria ajudar o país, quando este estava a passar por sérias dificuldades já). A mudança nos modos de pensar, nos hábitos, nas formas mentais demoram mais do que uma legislatura. 

"Eu sou o que sou"


A exegese contemporânea não lê a frase «Eu sou o que sou» como uma autodesignação de Deus ou como uma definição metafísica (aquele cuja essência e existência se identificam, cuja existência é simultaneamente a sua natureza), mas antes como uma recusa de Deus a satisfazer o pedido de Moisés para lhe comunicar o seu nome.

Tomás Halík, O meu Deus é um Deus ferido, p.109, nota de rodapé 5.

Big Bang



O inventor do nome Big Bang foi o astrónomo Fred Hoyle. Desde 1951 que a teoria (do Big Bang) foi declarada oficialmente em acordo com a Bíblia.

"Só sei que nada sei"




A famosa fórmula de Sócrates: «Só sei que nada sei» não é a expressão de uma modéstia excessiva. Ela significa que o filósofo, que acreditava saber e que descobre que nada sabe, não se satisfaz mais com as aparências do verdadeiro, com as quais, por facilidade, fraqueza, por pressa, nos contentamos a maior parte das vezes. Aquilo que ele procura não é tanto uma verdade absoluta, quase impossível de atingir, mas sim a exigência, incessantemente renovada, de uma medida mais alta da verdade.

Jean d'Ormesson, O mundo é uma coisa estranha, afinal, Guerra e Paz, 2015, p.42.

sábado, 4 de abril de 2015

Cruxifixus

Constituição e ideologia




Não há nenhuma Constituição que não seja ideológica. Qualquer Constituição assenta numa certa ideia de Direito (...) Numa Assembleia [1975] em que não havia nenhum partido com maioria absoluta, e em que havia várias correntes em presença, só era possível fazer a Constituição com um compromisso entre essas várias ideologias (...) Nenhuma Constituição é feita numa torre de marfim. (...) Era feita na luta (...) Reconheço que todos tinham um ideal. Desde o CDS até ao PCP, até à UDP. Acredito que as pessoas estavam motivadas por uma visão de um Portugal melhor (...) Há um catálogo de direitos sociais que não tem paralelo em nenhuma Constituição europeia (...) A nossa Constituição foi fonte para outras constituições, a espanhola, de 1978, a brasileira, de 1988. Países africanos, e até da Europa oriental, depois da queda do muro de Berlim (...) É uma Constituição que não é algo de estranho no mundo actual, bem pelo contrário (...) Não se pode dizer que haja uma oposição sistemática do Tribunal Constitucional às medidas de austeridade que têm sido adoptadas. Nem que haja um lavar de mãos do Tribunal Constitucional. Há muitas coisas que o TC decidiu e a meu ver decidiu bem (...) Se compararmos isso com o que foi o Supremo Tribunal dos Estados Unidos nos primeiros anos, em que as medidas que o presidente Roosevelt queria fazer aprovar eram sistematicamente postas em causa pelo Tribunal Federal, é uma diferença enorme (...) De resto, na Europa, houve sete Tribunais Constitucionais que foram chamados a pronunciar-se sobre questões de inconstitucionalidade nesta crise económica. E destes sete houve cinco que se pronunciaram no sentido da inconstitucionalidade. E houve até um, o TC da Letónia, que se pronunciou no sentido da inconstitucionalidade e depois o governo da Letónia teve de renegociar com a União Europeia (...) Um ponto em que tenho estado a pensar tem que ver com o mandato do Presidente da República. A ideia de que devia ser um só mandato, não haver reeleição. Isso daria maior independência ao Presidente (...) Está bem o sistema presidencial como o temos (...) Se compararmos este sistema com o que foi o parlamentarismo no tempo da primeira República, ou com o presidencialismo na América Latina, que no fundo é um superpresidencialismo...O presidencialismo em rigor só funciona nos Estados Unidos. E funciona com o chamado "checks and balances", pesos e contrapesos. O presidente dos Estados Unidos tem muito menos poder do que o presidente da França.

Mas o Portugal de 2015 é muito melhor, em todos os aspectos, do que o Portugal de há 40 anos. Temos um sistema de saúde que [...] funciona razoavelmente. Há dez vezes mais alunos universitários. O analfabetismo praticamente desapareceu. A mortalidade infantil praticamente desapareceu. Conseguimos, apesar das guerras, ter com os partidos africanos de língua portuguesa relações mais amigáveis do que a França e a Inglaterra têm com os países que foram ex-colónias. Conseguimos a independência de Timor. A minha tendência é para ser optimista.

Um caso típico que me causa preocupação é a lista de pedófilos (...) A justiça funcionou, as pessoas foram acusadas, foram condenadas, cumpriram as penas e acabou. Há um cadastro que fica (...) A justiça penal visa a re-socialização, a reintegração na sociedade, e não a marcação com um ferrete na testa de quem quer que seja. Isto choca-me.

Em relação ao crime de enriquecimento injustificado, sou favorável à previsão desse crime, mas tem de ser com extremo cuidado para garantir a presunção da inocência.

Jorge Miranda, em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, Weekend (p.4-9), Jornal de Negócios, 02/04/2015.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A escola a mudar




Ao regressar a algumas escolas onde não estava há mais de vinte anos, surpreendi-me com o facto de a sala de aula ter mudado tão pouco - por vezes, apenas um computador foi acrescentado e sem que isso, em rigor, interfira excessivamente em muitos dos dia-a-dia da escola. Leio, hoje, no Expresso que depois de Estónia ou Reino Unido, por exemplo, terem introduzido a programação (de computadores) como conteúdo a ensinar a alunos do primeiro ciclo do ensino Básico, no próximo ano lectivo começará idêntica experiência, em algumas escolas portuguesas. Os directores terão mais alguns dias de Abril para decidir dessa oferta e seu formato. A escola, em definitivo, a adaptar-se ao mundo que irrompeu nos anos pós-2000 (e sua 'revolução tecnológica').

P.S.: Entretanto, na Finlândia.

P.S.2: Li, com interesse, ainda a propósito das mudanças tecnológicas o artigo de opinião de Francisco Sarsfield Cabral no Sol (Tecnologia, emprego e salários, p.48) dando nota, após em anteriores ocasiões revelar estudos que apontam para a redução de empregos via tecnologias, de um artigo de Walter Isaacson, no Finantial Times no qual se dava conta da "economia das aplicações" - a propósito da invenção do iPhone e das aplicações para este - e dos milhões de empregos gerados (por tal economia) e o mesmo se diga relativamente ao caso dos robots (com a economia norte-americana, nomeadamente, a alcançar uma forte redução do desemprego nos últimos tempos). Perspectivas, portanto, contrapostas sobre o mesmo tema. Do que não há dúvida, garante Sarsfield Cabral, é que nos últimos 6 anos os salários não subiram e aí não há um optimista de serviço para nos reconfortar da realidade indesmentível.