segunda-feira, 30 de março de 2015

DEUS


Se ainda sobreviverem as concepções de Deus como um objecto, um Ser no meio de outros entes, «uma natureza» afim e análoga aos seres criados, acerca da qual se pode discutir se «existe» ou «não existe», então, o teólogo há-de dar as boas-vindas a todo o ateísmo que aniquila tais concepções, porque Deus não é realmente assim. Se alguém descrever Deus como «um Ser sobrenatural», algures por detrás dos bastidores da realidade, então temos de atirar, serenamente, essa ideia para a fornalha da crítica ateia. O Deus em que acreditamos não está «por detrás da realidade», antes é a profundeza dessa realidade, o seu mistério, é «a realidade da realidade». Se para Ele utilizarmos a metáfora «pessoa», então, não será porque vemos nele algo de afim aos seres criados, mas porque, assim, expressamos sobretudo duas coisas: a primeira é que Ele é acessível, dirige-se a nós e fala-nos (é acessível na oração e fala-nos através da totalidade da vida e da realidade); a segunda é que Ele está em relação na sua essência mais profunda [na comunhão da Trindade] (...) O Cristianismo afirma que Deus não é Deus sem relação e para além da relação com o homem, e o homem não é deveras o homem sem relação e para lá da relação com Deus (e que se encontra numa relação com Deus, mesmo quando não é consciente de tal relação ou «não acredita nele», não o chama, como os cristãos o chamam).

Tomás Halík, O meu Deus é um Deus ferido, p.80/81.

domingo, 29 de março de 2015

Marselha



Marselha é a mais desigual - economicamente falando - das cidades francesas (aquela na qual a brecha nos rendimentos entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres é maior) e onde se situa a maior população muçulmana (280 mil muçulmanos em 850 mil habitantes).

sábado, 28 de março de 2015

Prisão (portuguesa)



Se compararmos com as norueguesas, estas parecem campos de férias. Mas um professor argentino disse-me que as nossas prisões eram hotéis de cinco estrelas a comparar com as da Argentina. A visão é muito relativa. Não serão as melhores do mundo, mas estão longe de ser as piores – como nós. As prisões são bons indicadores de como é um País.

[Quanto custa cada recluso ao Estado?] Cerca de 40 a 50 euros por dia.

[Prisão ideal] Será a que consegue oferecer a cada recluso alternativas de comportamento e qualifica-lo profissionalmente. Tem de haver actividades diferenciadas.

[Prisão] A prisão só começou a ser usada como forma sistemática de pena em Portugal e em todo o mundo ocidental na segunda metade do séc.XIX. Antes, as penas eram corporais e pecuniárias. Em relação às primeiras, encontrei referências ao ferro em brasa, por exemplo com a letra “l” de ladrão, que funcionava como uma espécie de registo criminal na carne.


Miguel Romão, em entrevista concedida a Raquel Rito, na Sábado, p.34-36, a propósito do livro do entrevistado intitulado Prisão e ciência penitenciária em Portugal, publicado pela Almedina.

Os "sistemas" e os "homens" - na gestão do risco


A propósito da queda do avião nos Alpes, um texto muito, muito interessante de Daniel Innerarity em ElPais.

sexta-feira, 27 de março de 2015

quinta-feira, 26 de março de 2015

Ecce homo, Ecce Deus!


«Ecce homo» - a cena, na qual mergulha e se afunda a piedade popular, no início da devoção da via-sacra e também no mistério doloroso do Rosário, e que é o tema de muitas estátuas e imagens, conduziu, decerto, a imaginação piedosa ainda mais longe e mais fundo, para lá do sentido evidente desta declaração de Pilatos. É a apresentação do homem, do ser humano, da existência humana na sua figura-limite - na sua fraqueza e derrelicção, na sua dor e impotência. Sem figura nem beleza, foi desprezado por nós, um homem de dores, diante do qual se tapa o rosto [Is 53., 2-3]; um miserável do qual se pode falar com as palavras do salmo: «Eu, porém, sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe. Todos os que me veem escarnecem de mim; estendem os lábios e abanam a cabeça» [Sl 22, 7-8].
Toda a fama, o poder, a dignidade e a grandeza do homem desapareceram, o ser humano aparece aqui todo como uma grande ferida ensanguentada. Mas também isso é o homem.
«Ó vós, todos, que passais pelo caminho, olhai e vede se existe dor igual à dor que me atormenta!» [Lm 1,12.]. Eis, decerto, uma das razões por que esta imagem - bem como o motivo da Pietà (da Mãe com o Filho morto no regaço), o pólo oposto da Madonna com o Menino nos braços ou ao colo - teve uma força terapêutica: relativizava o sofrimento próprio. Pelo contrário, Jesus na cruz está talvez já demasiado «alto», a cruz apreende-se já, muitas vezes, como o cimo do caminho, como vitória («Tudo está consumado!»), ao passo que o drama da dor só começa com a cena diante de Pilatos, no início da via-sacra. Aquele que é flagelado perante o tribunal do poder e o fanatismo das massas está realmente «em baixo». Um homem frente ao abismo da morte, que já não pode dispor de si mesmo, totalmente manipulado pela maldade dos outros, inteiramente entregue às mãos dos inimigos, como um objecto atado, como «um embrulho sem destinatários». que o Sinédrio, Pilatos, Herodes, os soldados e os algozes enviam uns aos outros - esta imagem penetra e ilumina a autêntica profundidade da existência humana, isenta de todos os disfarces e embelezamentos e sem qualquer arrimo.
Eis aqui o homem! Tal como esta proclamação, soou com similar acento pítico a frase de Pilatos expressa um pouco antes, a pergunta: «Que é a verdade?» [Jo 18,38]. Talvez tenha sido uma observação cínica, sarcástica, de um pragmático do poder («Verdade»: que é isso? E que significa ela?), proferida sem qualquer rasto de curiosidade filosófica. Jesus respondeu a tal pergunta com o silêncio. Mas não será a cena com «Ecce homo» a verdadeira resposta?
O homem coberto de feridas expressa uma verdade profunda sobre o ser humano e o seu destino. O homem é nada: eis a verdade de Sexta-Feira Santa, sem a qual não há nenhuma manhã de Páscoa. E só onde há sepulturas há ressurreição - também aqui Nietzsche [Assim falava Zaratustra II] estava certo. Que sabemos sobre os homens, enquanto recuarmos perante a possibilidade de olharmos, sem qualquer ilusão, para a borda extrema do destino humano, se não tocarmos o fundo, se tapamos a cara diante do abismo? (...)
Se Jesus é, para nós, o Verbo de Deus, que assumiu a humanidade integral, então, o seu ser humano cinge e inclui não só a grandeza e a perfeição do homem como imagem ainda intacta de Deus (ele é o novo Adão, Adão que não carrega com as cicatrizes consequentes à queda), mas também o segundo pólo do homem, inclusive o lado mais obscuro, dolorosamente cicatrizado do destino humano, a miséria e a indigência, perante a qual de bom grado fechamos os nossos olhos, os nossos ouvidos e o nosso coração.
Karl Rahner descreve, de forma sugestiva a semelhança desta «sombra» com o Cristo da Paixão: «Como haveria de ser a imagem do homem, que mostra justamente o que ele é, e que ele nem quer admitir nem está disposto a ser? Deveria ser a imagem de um moribundo. (...) Ele teria de ser pregado. Pois a nossa liberdade sobre a terra desagua na necessidade de indigência. (...)
Não se nos apresenta justamente a nós - nascidos no século em que nos lugares de contagem dos prisioneiros, feita nos campos de concentração nazis e comunistas, os seres humanos foram despojados de muitas das suas modernas ilusões humanistas, a nós que vivemos no milénio em cujo limiar foram cruelmente trucidadas, pelo ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001, muitas das ainda mal nascidas esperanças e expectações de um «amanhã radioso» -, não nos foi ofertada, mediante esta experiência histórica, a possibilidade de compreendermos, de forma nova e mais profunda, a cena do «Ecce homo»? Não será o homem ferido, o acusado perante o tribunal de um poder cínico, mais fami-liar e chegado a nós do que a imagem de um sorridente «Bom Pastor», em idílicas imagens devotas?
Pascal já sabia muito bem que uma religião que receia mostrar ao homem a sua miséria é apenas a autoilusão de uma projecção narcisista: «...os que conheceram Deus, sem conhecerem a sua própria miséria, não o louvaram, mas enalteceram-se a si mesmo». (...)
Páscoa é a saída; a transição de um modo de ver as feridas de Jesus para outro, a transição do «Ecce homo!» para o «Ecce Deus».

Tomás Halík, O meu Deus é um Deus ferido, pp.38-43.

Histórias por descobrir



Passou, há algumas semanas, na RTP2, este documentário acerca da figura excepcional de Leonore Goldschmidt. Continuam a ser muitas e preciosas as histórias por contar, mesmo relativamente a um período histórico tão glosado quanto este, a não especialistas. Um filme como Duas Vidas (Zwei Leben), dirigido por Georg Maas, dá conta do sucedido com os filhos que nasceram dos encontros sexuais entre soldados nazis e mulheres norueguesas, na Noruega, durante a II Guerra Mundial, sendo que, vistos então, pelos alemães, como a guarda avançada do arianismo - a futura geração eleita - foram arrancados ao sei materno (com separação radical). Em caindo o nazismo, os futuros prodígios passaram a ser "os filhos da vergonha" (e suas mães, na Escandinávia, perto de serem tratadas como prostitutas). A emergência da Guerra Fria, dividindo a Alemanha em dois blocos, fez com que os serviços de inteligência (nomeadamente, na RDA, com a Stasi que, assim, depois de As vidas dos outros, volta aqui a ganhar protagonismo) fossem a orfanatos recrutar futuros espiões ("comprando" as crianças com presentes). Os filhos de Lebensborn não mais viram as suas mães. No filme, uma das então crianças, já adulta, consegue escapar, mas uma espia da Stasi já tinha ocupado o seu lugar, incluindo entre a família - mais tarde perplexa entre a lealdade biológica e a vinculação dos afectos (gerados, no entanto, com base em uma mentira) - da rapariga que procura de novo a mãe norueguesa. Duas vidas é um título que sugere este entrelaçamento entre estas duas personagens, a vida dupla que a espia - também ela orfã, por sinal, e que, ainda assim, procura auxiliar a jovem que regressa ao país nórdico, mas que sucumbe às mãos da polícia secreta da República Democrática Alemã - tem, a captura, por um Estado, por uma instituição de uma identidade, de uma pessoa.

Concerto de Páscoa, na Sé



Ontem à noite, na Sé de Vila Real, podemos escutar a música de Gabriel Fauré (que podem ouvir acima). Os cantos ficaram a cargo dos coros misto e juvenil do Conservatório Regional de Música de Vila Real. Com a capacitação (musical) de uma população local/regional (nomeadamente jovem), assume esta o protagonismo, em datas festivas como a Páscoa, anteriormente solicitado, necessariamente, a entidades exógenas ao concelho (ainda que com diferentes missões e fôlegos, ainda que não mutuamente excludentes, em abstracto). Todos os lugares sentados ocupados, gente de pé, em um concerto de cerca de uma hora.

quarta-feira, 25 de março de 2015

O eterno problema do mal


Aparentemente, há muitos a quem o simples facto de haver mal e sofrimento no mundo os defrauda da fé em Deus. Reconheço que nunca estive exposto a semelhante tentação. Pelo contrário, sempre entendi e experimentei o seguinte: é muito pouco o que em mim suscita com tanta força, como os absurdos do mundo, a sede de sentido, e só muito pouco atiça a sede de Deus, como as dores das feridas abertas, que a vida pode trazer consigo.
E não será esta sede ardente a única forma ou feição terrena da fé, ao passo que a certeza radiante e a «visão venturosa de Deus» (visio beatifica) estão reservadas apenas para o pleno e perfeito descanso celestial? Aqui, na terra, a fé não oferece nenhuma «certeza», mas requer abertura em face do incompreensível: no perguntar, no buscar e, por vezes, no clamor, nas lágrimas e no protesto, mas também na incessante imploração de confiança e perseverança, na coragem de não se contentar com as respostas e explicações imediatas e já feitas, demasiado baratas - não importa se lidamos com as dos ateus, como «Não há Deus», ou com as dos devotos, que apenas repetem frases aprendidas ou «respostas correctas», sem deixar que elas influenciem ou mudem a sua vida. (...)
Se o mundo fosse perfeito, ele próprio seria Deus e dentro dele nenhuma busca haveria de Deus. Um Deus que se mirasse de modo narcisista no espelho incólume do seu mundo perfeito, inteiramente harmonioso, sem contradições, antagonismos e enigmas, não seria o meu Deus, não seria o Deus da Bíblia, não seria o Deus da minha fé. A história que a Bíblia narra não é um idílio melífluo, mas um drama perturbador e inquietante; o mundo de que a Escritura fala (tal como o nosso mundo actual) exibe feridas ensanguentadas e dolorosas - e o Deus, que ela confessa, também com elas carrega.
Na narrativa do Evangelho, em que se inspiram as meditações deste livro, Deus mostra-se como um Deus ferido - não como o impassível deus dos estóicos nem como um deus que é projecção dos nossos desejos, ou o símbolo das ambições de poder de um homem ou de uma nação. É um Deus sim-pático, ou seja, com-placente, com-passivo, com-padecente.

Tomás Halík, O meu Deus é um Deus ferido, pp.30-31.

Borgen (II)



Às tantas, o poder é um afrodisíaco tal, ou a pessoa transforma-se numa tal profissional (workaholic) política, que esta, a política (o poder) se torna num fim em si mesmo. Pode a família estar a desintegrar-se, pode perder-se um amigo de uma vida, que o poder parece funcionar como um íman do qual não se descola (e transforma o seu detentor num viajante em piloto automático). A solidão do poder e a perda (momentânea) da identidade é um dos grandes tópicos da segunda temporada de Borgen, onde a fluidez do público/privado (as fronteiras muito difíceis de delimitar) é muito bem exposta. O episódio da readmissão da secretária Sanne, de forte sentido do que é o afecto, o lado pessoal, mas não tão eficiente como outras profissionais (na mesma actividade), pela primeira-ministra Nyborg é paradigmática quanto ao esgotamento da persona PM e do contágio (desta) à pessoa Birgitte: um back to basics é, assim, reclamado - e nomeadamente, a autenticidade e a empatia - pela própria governante perdida (de si). Por fim, sobra a não menos problemática questão do espaço para as mulheres estarem na política, mesmo nas sociedades (ditas) mais avançadas (mesmo ao nível dos costumes). E, claro, a eterna busca no exterior - uma guerra, uma negociação difícil saída vitoriosa - de uma união de uma nação e do aumento de popularidade de um(a) líder.


Que Leviatã?




O filme de Andrey Zvyagintsev ilustra, em tons vívidos, uma Rússia corrupta, na qual o Estado de Direito está em causa, a separação de poderes é uma farsa, o cidadão impotente e humilhado pelo poder, aniquilado sempre que ousa reivindicar os seus direitos perante a nomenclatura. Nos interstícios da narrativa, a omnipresença de vodka no interior de um espaço absolutamente sufocante. Asfixia prolongada pela braço dado do poder político com a Igreja, funcionando a religião, neste contexto sim, como ópio para a resignação - aí vão dois narcóticos. Todavia, do mais fundo do inocente injustiçado, qual Job, a pergunta última, religiosa, pelo mal irrompe sem mais: o "porquê?" que soa, ainda, muito dostoiesvskiano (como não?). 
Se Hobbes supunha o Leviatã como a força necessária para derrotar/evitar a guerra de todos contra todos no estado natureza, talvez se houvesse esquecido que o Leviatã pode ser o braço erguido de uma minoria para colonizar tudo e todos os demais (sem qualquer limite: "a qualquer custo", como diz o prefeito do filme). Ou, afinal ainda, tenha mesmo razão: quando a oligarquia se forma e se arma até aos dentes, o Leviatã foi já carcomido - como a imagem que o cartaz reproduz parece sugerir - e derrotada a sua força, sobra de novo, e apenas, uma luta sem cartel (de uns poucos contra todos). O retrato da Rússia de Putin é de miséria moral.

terça-feira, 24 de março de 2015

"Escutar a cidade" (II)




Assumindo-se como o “elemento mais profano” da assembleia reunida para “escutar a cidade”, António Guerreiro assumiu que “um auditório como este não costuma estar inscrito” nos seus “horizontes”. Mas, desde logo, gostou muito do título da iniciativa (“um belíssimo título”), “Escutar a cidade”, na medida em que apesar da cidade ser passível de ser vista (“dá a impressão que quando a cidade se oferece como objecto de visão é qualquer coisa de frívolo e superficial”), mais necessário é ouvi-la (“quando se oferece à audição [a cidade] adquire uma dimensão muito mais profunda”). Evocar a cidade é, de modo mais ou menos subtil, aludir à noção grega de “polis”. Ou seja, situa-nos numa dimensão política (“no seu sentido mais amplo”). Ora, “a cidade nasceu tendo em vista o viver, mas existe apenas tendo em vista o viver bem”; quer dizer, “há uma espécie de objectivo e de missão de felicidade que é próprio da polis”. E “foi esta definição que deu a fórmula canónica ou entrelaçamento que existe entre a vida biológica e a vida politicamente qualificada”. Há, em realidade, “uma vida puramente biológica, zoe, e uma vida politicamente qualificada, bios (a vida do cidadão)”.
O princípio a César o que é de César e a Deus o que é de Deus foi desviado de uma boa intenção e teve consequências nefastas: “legitimou, por um lado, a ausência da Igreja das coisas do mundo” e “fez com que a política se esquecesse que lida com conceitos teológicos secularizados [Carl Schmitt: “todos os conceitos da moderna doutrina do Estado não são mais do que conceitos teológicos secularizados”]”. Para o ensaísta, o esquecimento desta origem teológico-religiosa dos conceitos políticos tem-nos “levado por maus caminhos”.
A Igreja não pode dar-se ao luxo de escolher comprometer-se ou não com este tempo, com a experiência deste tempo. A Igreja tem de saber ler, como disse Mateus, “os sinais dos tempos”. Sinais estes que se opõem, segundo o evangelista, “ao vão desejo de conhecer os aspectos do Céu”. Para a “teoria da história secularizada”, esta, a história, apresenta-se-nos com tensões permanentes: o Katejon/Katechon de que falava Paulo (a história infinitamente adiada, diferida, para um fim que remete para uma cronologia histórica que é a de uma história que tem um curso linear, homogéneo, vazio; o conceito de história que mais ou menos todos temos), e o tempo messiânico, pleno (é o que preenche o tempo homogéneo, vazio, da história que caminha para um fim). Há uma relação dialéctica entre estes dois tipos de tempo – essa relação hoje aparece-nos esgotada. “Á medida que a percepção de uma economia da salvação no tempo histórico enfraquece e se anula” a economia estende-se “a todos os aspectos da vida social”; “a economia não pode ser dita apenas com esta linguagem económica em que estamos imersos”. “Há uma exigência escatológica que a Igreja não pode abandonar”.
De resto, “os estados de excepção não são mais do que a paródia actualizada [secularizada] ” da ideia de apocalipse.
As raízes semânticas da palavra crise são médica e teológica (“decisão tomada no juízo final”). Ora, a crise, tal qual nos é apregoada, “tornou-se forma de governo, uma forma de dominação, um método: o estado de excepção tornou-se a regra. A crise é a instauração de um estado de excepção tornado regra”. Nós aceitamos a crise de forma acrítica, sem percebermos muito bem o que se passa e sem entender que é forma de instaurar um estado de excepção.
A economia estendeu os seus poderes a todos os domínios da vida política, social, etc. “Não há nada que escape à economização integral das relações humanas; este totalitarismo da economia tem tido um efeito absolutamente nefasto que é o da despolitização generalizada da sociedade”, diz Guerreiro. A política torna-se gestionária, “anulando o campo das possibilidades”. Até à Modernidade, “a política era a gestão das causas”, hoje ela é “controlo dos efeitos (não há vontade de actuar sobre as causas)”.
Quanto à questão do futuro, importa desde logo dizer que fomos dele “espoliados”: quem está na casa dos 20/30 anos não se projecta nada do futuro, este foi cancelado. Sem fé ou crença (mesmo secularizados), não há futuro. “Não é possível imaginar uma vida em que a dimensão da secularização se impôs em todos os domínios. Não é possível a actividade artística num universo completamente secularizado”. O rito, a cultura, a arte despareciam, pois, em um universo completamente secularizado (embora nos digam que vivemos nele).
Uma forma-de-vida é uma forma de potência. Há a vida nua, a vida não politicamente qualificada, e uma forma de vida que tem em conta toda uma existência de vida do indivíduo em comunidade. O centrar em questões quase de exclusiva biopolítica – o que comemos, o que bebemos, a nossa sexualidade – tem efeitos negativos na nossa despolitização (enquanto sociedade). A precariedade, que tem origem em prex, de pregar, identificamos hoje quase exclusivamente com o trabalho (o regime do trabalho, o desemprego), mas acaba por ser uma forma de existência, “uma fadiga geral colectiva que investe inteiramente a condição existencial contemporânea”.
O trabalho – “uma sociedade de trabalhadores sem trabalho”, dizia Arendt em 1958 e que hoje regressa. Hoje, diz-se que se regressarmos ao crescimento voltará o trabalho e o pleno emprego, mas tal não se verificará: “o investimento serve, hoje, para reduzir os trabalhadores e não para os aumentar. Portanto, mais investimento significa mais trabalho”. É preciso, pois, “pensar para além da sociedade do trabalho” e aí a Igreja tem conceitos próprios para lidar com a situação – “sabe muito bem o que é o ócio, sabe muito bem o que é o lazer, sabe muito bem o que é a contemplação, sabe muito bem o que significa o trabalho como servilismo” – e deve assumir, neste âmbito, uma obrigação de participação.

"Escutar a cidade"



O "agnóstico de proveniência católica", que ainda não resolveu o seu posicionamento face à religião e a Deus, depois de uma forte educação católica ("a certa altura, deixei de ter interlocutor"), vê uma estreitíssima relação entre religião e política (ao contrário do que supunha Hegel e do que sugere um conceito singularmente cristão, eternidade, que parece manifestar um desconforto "ontológico" com este mundo). E, na esteira de António Vieira ou Bartolomeu las Casas sublinha o património cristão/católico na valorização da dignidade do outro - algo que "nenhum Torquemada" poderá fazer esquecer. Por isso, exorta a Igreja a suscitar debates e compromissos na salvaguarda do património europeu que se esvai. Nesse sentido, manifesta alguma perplexidade por uma passividade (da Igreja) que entende existir. E puxa pelo pensamento de Hannah Arendt, cuja "grandeza" só agora estamos em condições de descobrir, traçando imprevisibilidade e irreversibilidade como marcos que sempre estarão adstritos à decisão política. E através dos escritos da pensadora alemã, judia, vem ao cristianismo recuperar a ideia de perdão para que, aplicada à política, possa permitir o desfazer de equívocos/preconceitos (entre povos europeus), dando lugar a um recomeçar absolutamente indispensável.

Tudo se compra, tudo se vende (III)



Porque é errado que (quase) tudo possa ser vendido e comprado? Michael Sandel encontra, sobretudo, duas razões para considerar aquela realidade como nefasta: desigualdade e corrupção. Se tudo estiver no âmbito de uma possível compra/venda, se tudo for mercantilizável, então a importância da riqueza passa a ser ainda maior (e quem tem menos recursos económicos passa a sofrer ainda mais); por outro lado, se ler um livro passa a ser uma tarefa (paga) em vez de um bem intrínseco (a desfrutar) então estou a corro(mp)er esse acto (de leitura). Do que se trata, em última instância, é de sabermos distinguir entre economia de mercado - "uma ferramenta valiosa e eficaz para organizar a actividade produtiva"(p.20) - de sociedade de mercado - "uma forma de vida em que os valores de mercado se infiltram em todos os aspectos da actividade humana. É um lugar onde as relações sociais são moldadas à imagem do mercado" (p.20).
Contrariando os que pensam que o principal problema da crise por que passamos assentou/assenta na ganância/falta de ética - um ponto em que, por exemplo, Adela Cortina insistiu, em Para que serve realmente a ética? -, Sandel pretende que discutamos e delimitemos até onde podem ir os mercados: "A mudança mais fatídica que se produziu durante as últimas três décadas não foi um aumento da ganância - foi a expansão dos mercados, e dos valores de mercado, para esferas da vida onde não pertencem. Para lidar com esta situação, não nos basta protestar contra a ganância; precisamos de repensar o papel que os mercados devem desempenhar na nossa sociedade (...) A invasão dos mercados, e do pensamento orientado para o mercado, em aspectos da vida tradicionalmente regidos por normas não mercantis é um dos desenvolvimentos mais significativos dos nossos tempos (...) Este uso dos mercados para reger saúde, educação, segurança pública, segurança nacional, justiça penal, protecção ambiental, recreação, procriação e outros bens sociais era praticamente inaudito há 30 anos. Mas hoje aceitamo-lo quase como um dado adquirido" (pp.17-18).
Não podemos, pois, calar as questões fundamentais e evitar discuti-las em sociedade: "que papel devem ter os mercados na vida pública e nas relações pessoais? Como podemos decidir que bens devem ser comprados e vendidos e quais devem ser regidos por valores não mercantis? Que domínios da vida o imperativo do dinheiro não deve reger?" (p.20). Suprimir tais indagações é contribuir para "o vazio moral da política contemporânea"(p.23): uma das causas para que este ocorresse passou pela "tentativa de banir as noções de qualidade de vida do discurso público" (a ideia de suprimir do debate público as convicções morais e espirituais de cada um, por melhor intencionada que fosse, desaguou no fundamentalismo de mercado, diz Sandel, num remoque ao laicismo mais redutor). Demasiada argumentação moral, excesso de convicção moral nos nossos debates, gritam muitos. Justamente o contrário se passa, garante o filósofo político de Harvard: "O problema da política não reside no excesso mas sim na carência de argumentação moral. A nossa política é inflamada porque é essencialmente vaga, vazia de conteúdo moral e espiritual. Não abarca as grandes questões que preocupam as pessoas" (p.23). As consequências do vazio estão à vista: "a relutância em nos envolvermos em discussões morais e espirituais (...) custou-nos um preço elevado: esvaziou o discurso público de energia moral e cívica e contribuiu para a política tecnocrática, de mera gestão administrativa, que hoje aflige muitas sociedades" (p.23/24). 
E se voltássemos a conversar a sério?

Tudo se compra, tudo se vende (II)


Se és aluno do segundo ano de escolaridade numa escola de Dallas com uma taxa de sucesso reduzida, lê um livro: dois dólares. Por forma a incentivar o hábito de leitura, as escolas pagam aos miúdos por cada livro que lêem.

Michael Sandel, O que o dinheiro não pode comprar. Os limites morais dos mercados, p.15.

Tudo se compra, tudo se vende


Actualmente, quase tudo está à venda.
(...)

Uma cela de prisão mais cómoda: 82 dólares por noite. Em Santa Ana, na Califórnia, e noutras cidades, os delinquentes não violentos podem pagar por melhores instalações: uma cela limpa e sossegada, afastada das ocupadas pelos reclusos não pagantes.

Michael Sandel, O que o dinheiro não pode comprar. Os limites morais dos mercados, Presença, Lisboa, 2015, p.13.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Debater ideias, debater política(s)





(versão alargada e completa da crónica que assino esta segunda-feira, na rádio ufm)


Protecção social e estratégia de crescimento

1.Pensada, demasiadas vezes, pelo exclusivo prisma de um socorro de última instância, ou, mesmo, em chave assistencialista, a questão da protecção social pode e deve ser concebida, também e muito, pela lente de uma estratégia económica de crescimento. O exemplo dado, a este respeito, pelos países nórdicos é muito animador.

2.Em realidade, a extensa rede de segurança pensada pelos países escandinavos tem/teve um efeito extraordinário na/no sucesso da abertura à globalização por parte destes (sendo um dos factores relevantes, nas consequências positivas advindas da existência da referida malha de protecção, o apoio político à abertura dos mercados, por banda de uma grande parte da população; atente-se que, segundo o Pew Institute, entre aqueles que têm uma visão mais negativa do fenómeno da globalização estão EUA e Egipto e, no extremo oposto, encontram-se Suécia e China). Isto quer dizer, sobretudo, que se a pessoa sabe que não cairá em situação de desamparo, estará mais disponível para arriscar e inovar. Neste sentido, a vocação nórdica para ser o exemplo shumpeteriano da destruição criativa – novas empresas, melhor apetrechadas, mais produtivas fazem com que as que ficaram obsoletas sejam desmanteladas (p.99) – é muito curioso, porque exprime uma combinação quase única entre o mais extenso e generoso Estado Social com a maior abertura á mais avançada fase do sistema capitalista. A ideia de que impostos elevados, Estado Social generoso e, por outro lado, grande dinâmica económica eram termos incompatíveis é, assim, colocada em cheque pelo modelo escandinavo (por exemplo, “se tivermos um seguro generoso e eficiente contra o desemprego, não precisamos de garantir ou resgatar os bancos. Não precisamos de recorrer ao método britânico de segurar os créditos hipotecários porque, se as pessoas desempregadas puderem manter os seus rendimentos, podem continuar a amortizar a sua dívida para com os seus bancos, para que estes não vão à falência”, escreve Leif Pagrotsky, p.131. Por outro lado, se as receitas de impostos são aplicadas em algo de produtivo, ou que irá gerar essa produtividade, como múltiplas formas de educação e verdadeira requalificação, então pode, deste modo, obstar-se a efeitos negativos que o aumento de impostos possam acarretar. Raramente se coloca o foco nesta dimensão do “como” e “onde” potenciar estas receitas).

3.Um dos traços desta estratégia escandinava, descrita detalhadamente pelo Professor Karl Moene, na obra coordenada por Joseph Stiglitz e Mary Kaldor, intitulada Em busca de segurança (Bertrand, 2015), resultante da Conferência, na Universidade de Columbia, em 2008 (com revisões das intervenções, para actualizar o necessário), da responsabilidade da London School of Economics (Um manifesto para um novo pacto global: protecção sem proteccionismo) passa por uma grande compressão salarial – coordenação centralizada entre empregadores e sindicatos que puxa pelos salários mais baixos e não permite que os mais elevados subam em demasia, sempre buscando responder ao desafio de salário igual para trabalho igual, algo que, em outras formas mais descentralizadas de negociação parece, em muitas ocasiões, ficar em causa -, forte poder dos sindicatos, salários retirados da concorrência do mercado, níveis de igualdade e coesão social únicos. Isto gera, por sua vez, um grande apoio a políticas sociais, e, a um nível mais chão e radical, as pessoas vêem-se como iguais. Os trabalhadores são incentivados a participar nas decisões das empresas, a autonomia é um dos pilares do modelo, as hierarquias são bem menores daquelas existentes em países em que a brecha salarial é muito elevada. Um outro resultado muito assinalável: Noruega e Suécia tiveram os níveis mais reduzidos de conflitos laborais no período do pós-Guerra (p.96).

4.Se as especificidades regionais, locais, culturais, institucionais não são despiciendas – alto nível de escolaridade da população adulta, aparelho de Estado eficiente e honesto, empregadores com grande grau de organização (p.119) -, contudo, vale a pena notar que no período entre guerras os bloqueios dos sindicatos e os conflitos laborais na Escandinávia eram os mais elevados nos países desenvolvidos. O Estado Social (mais desenvolvido no pós-II Guerra Mundial) não foi, apenas, um instrumento passivo construído por uma dada ecologia (cultural/institucional) que lhe foi favorável; ele mesmo, foi gerador de uma ambiência propícia à paz social, á iniciativa, ao empreendedorismo, ao investimento, à criatividade, à inovação, à dinâmica empresarial, à composição dos vários interesses em presença, a uma coesão e sentido de igualdade que acaba por ser determinante por eu ver no outro um meu semelhante com preocupações e fragilidades como as minhas (algo que o Tocqueville, de Da Democracia na América, tinha já percebido, e assim é citado, a par e passo, por Moene).

5.Se não é possível um transplantar, sem mais, soluções de um dado país ou região, para outros, todavia devemos colher nos bons exemplos. Podemos, em realidade, olhar para os discursos mais apelativos nos extremos do espectro político a nível europeu e perceber que os receios e medos, relativamente à integração dos mercados, a que dão voz fazem sentido (aliás, no dizer de George Soros, globalização significa “globalização dos mercados financeiros”, o qual é um “projecto fundamentalista de mercado”, p.135). Sobretudo, porque, como desmonta Joseph Stiglitz, ao mesmo tempo que os governantes dizem que a globalização é uma grande oportunidade, referem que há uma inevitabilidade em cortar impostos para as maiores empresas, por consequência perder receita (para o Estado), diminuir a protecção social, flexibilizar e piorar as condições dos trabalhadores. Na verdade, a globalização – que deve ser regulada no sentido preconizado, por exemplo, por Dani Rodrik, das normas de trabalho às ambientais; neste sentido, podemos dizer que o entusiasmo nórdico deve ser temperado com as reformas/regulação assinaladas por aquele autor -, aumentou muito o crescimento económico global, mas gerou grandes desigualdades no interior das sociedades. Fez muito, e bem, por várias populações menos desenvolvidas, de vários quadrantes do globo. Se, com o medo, voltássemos a modelos protecionistas teríamos, por exemplo, um subsídio ao algodão, pelo governo americano, a prejudicar agricultores africanos, mesmo violando as regras da Organização Mundial do Comércio (o exemplo, retirado dos factos verificados, é de Stiglitz). Uma forte protecção social, que restaure a confiança e permita às pessoas sentirem-se seguras, pode ser um modo adequado de superarmos esta equação de uma globalização que não seja percebida apenas como uma ameaça (como, muito naturalmente, tem sido vista em muitos lados). Mais uma vez, o modelo escandinavo parece combinar, de forma óptima (ou tão óptima quanto possível, com resistências internas, mas muito menores do que em outras geografias; sem, em lado algum, evidentemente, se lobrigar um paraíso terrestre), igualdade e liberdade. Protecção social sem protecionismo (“a minha conclusão (…) é que, sem protecção, teremos proteccionismo”, p.133, Leif Pagrotsky).

P.S.: Karl Moene é Professor na Universidade de Oslo, prémio de excelência em comunicação em ciência em 2011, com vasta obra publicada sobre o modelo escandinavo, colunista em jornais de referência.

P.S.2: Leif Pagrotsky membro do Partido Social-Democrata sueco no Parlamento daquele país e vice-presidente do Banco Central da Suécia. Foi ministro da Indústria e do Comércio. Foi também ministro da Educação, Investigação e Cultura. Trabalhou na OCDE e no Banco Europeu de Investimento, foi ainda chefe de gabinete do Primeiro-Ministro.

Boa semana.
Pedro Miranda

Outros mundos


Segundo Kemal Dervis, existindo mais de 600 milhões de indianos (dados de 2011) a viver com menos de 2 dólares por dia, não é possível resolver a sua situação de pobreza com recurso a impostos. Só o crescimento económico o poderá permitir. Refere, aliás, que tal se verifica em vários outros países. Um postulado que, sem dúvida, nos faz pensar, habituados a elaborar no quadro de políticas redistributivas em que o instrumento "fiscalidade" é determinante.

P.S. Kemal Dervis é ex-vice presidente do Banco Mundial, ex-ministro turco, lecciona em Columbia.

domingo, 22 de março de 2015

Ferida




Tomé, padroeiro das Índias.

Halík descobriu, na célebre narrativa sobre Tomé (que não acreditava até tocar na carne de Cristo), que a porta de entrada (até Cristo) para os incrédulos, para todos nós, afinal, é a porta dos feridos. Só as chagas levam a Deus, só nas chagas se toca Deus. Tomé queria a certeza de que a ressurreição não derrotaria as chagas, não esvaziaria a cruz. Uma religião que não se deixe tocar pelas chagas do mundo não é verdadeira.

Às vezes, um carinho cai bem...


-Sabe, há poucas semanas utilizei um "reparo" seu na faculdade. Estava muito bom.
- Fico muito lisonjeado - respondi.

E sim. Quem nos escuta? O trabalho de leitura, selecção, muito tempo por semana, implica uma auto-disciplina e dedicação que só fazem sentido se acreditamos que isso vale de per si. Que elaborar um "reparo" o melhor que se souber e puder é algo bom em si mesmo. Que é uma obrigação enquanto aceitarmos emprestar o nosso contributo, por ínfimo que seja, a um público e a uma polis. Sem essa convicção, e se o medidor passar por consequências que nunca se sabe quais são, audiências enormes que estão por descobrir e coisas que tais, dificilmente se resistiria. Claro que percebo que os registos, consoante os intervenientes na participação cívica, são diversos. Há quem prefira a espontaneidade (sem preparação prévia), há quem desempenhe o papel de funcionário (de um partido, normalmente), ou tenha uma agenda ideológica estrita de que não se afasta um milímetro. Quem prefira, em cada ocasião, o assunto mais "quente", quer dizer, mediático. Ou um apontamento mais "prático" sobre o quotidiano. Uma chalaça, melhor urdida num dia, mais ao lado noutra. 
Às vezes, um estímulo cai bem. 

sábado, 21 de março de 2015

Amizade cívica


*O Tratado Orçamental é inaplicável em Portugal (tal a desarrumação a que conduziria a economia); dentro da zona euro só se podem ter políticas de austeridade e por isso, fora uma maior consciência social, o PS não pode mudar grande coisa; o Syriza ou o Podemos deviam ter a coragem de preconizar a saída do Euro; não há possibilidade de aplicação inteligente do Tratado Orçamental; só uma nova crise e ainda maior fará a Europa mudar; o FMI tem perspectivas que não fundamenta e veio pior preparado do que em 1977; a Grécia, ou Portugal, já teriam os seus problemas resolvidos se tivessem saído do Euro, em 2011; a saída do Euro tem, sempre, uma componente de imprevisibilidade, mas não seria, necessariamente, uma catástrofe - as ideias de João Ferreira do Amaral, em "Tudo é economia", da TSF/DN



Síntese desportiva




1.Há escassas semanas, no final de um jogo europeu do FCP, em andebol, o técnico do Porto, nesta modalidade, Ljubomir Obradovic, disse, sem meias palavras, que "queremos um campeonato ibérico". Seria a forma da equipa crescer, de maior motivação, de mais público, de novas receitas, de um upgrade para o andebol dos dragões. Veremos se estas declarações, inéditas, e que não vi alcançarem repercussão alguma, não serão vistas, um dia, como o pontapé de saída para uma transformação na integração de diferentes campeonatos, em modalidades diversas. Parece-me, mesmo, um passo urgente se não quisermos regredir.

2.Artur Soares Dias fez, na Luz, no passado Sábado, uma arbitragem brilhante. Ao melhor nível de um Pedro Proença, ao melhor nível da arbitragem europeia e mundial. A Soares Dias falta, agora, uma continuidade nesta bitola, porque já havia demonstrado, em outras ocasiões, possuir grande capacidade para vir a ter uma excelente carreira na arbitragem. De resto, o nível exibido deve ser ainda mais sublinhado pelo contraste chocante com aquele outro apresentado pela generalidade dos seus pares, tornando-se, estes, absolutamente determinantes na decisão do campeão desta liga (foi demais, ultrapassaram-se todos os limites).

3.O Barcelona continua a não conseguir descansar com bola. Quando o jogo necessita de pausa, de controlo, a equipa, apesar do fogo ofensivo, não impede os adversários de regressar ao resultado. Na baliza, apesar dos penalties defendidos, ainda não mora um monstro que um clube deste calibre costuma apresentar. O jogo com o Madrid, este Domingo, é de tripla. Vem, até, no momento ideal para o Madrid: depois da baixa de forma, jogar com equipas mais fechadas, com contra-ataques duros, sem a mesma motivação que para o jogo de amanhã, poderia ser o fim da época. Assim, o papel de não favorito - que está, aparentemente, do lado do Barcelona -, as provocações a CR (leia-se Stoitchckov, p.ex., mas há Santillana, também, do lado merengue), e, sobretudo, a grande hipótese, de dar a volta a uma temporada que se complicou, fazem do Madrid um perigo para o Barça que me parece bem superior ao que tem sido aventado. Mais: afora, os dois jogos com o City, para a Champions, se se observar bem, os jogos do Barcelona para o campeonato foram muito pouco conseguidos (ainda, e quando, desaguaram em vitórias). Claro que do lado do Barça, há uma dado muito favorável: tem na sua equipa um génio inigualável - qualquer comparação é um absurdo - que voltou a sorrir.

4.O PSG anda há três anos a ameaçar querer destronar os reis da Champions. Ao fim de três anos, a maturidade de jogo, a personalidade, o jogar de olhos fechados estão lá. Lembrem-se das finais perdidas pelo Bayern antes da vitória merecida. O que a equipa de Paris fez ao Chelsea coloca-a no patamar dos grandes candidatos a vencer, esta época, a prova.

quinta-feira, 19 de março de 2015

O "tónus da vida" (e a importância da filosofia para o entender)


...
O mundo tenta domesticar quem pensa o que não é o pensamento único.
Já o tentaram domesticar?
Ah, sim. Já. Fiquei doente. Mas doente real, de cama. Estou convencido de que muitas doenças que se manifestam nos professores, em artistas, nos funcionários, têm a ver com a domesticação que nos querem impor. Há uma patologia da sociedade portuguesa no sentido da domesticação, é o que faz a diferença da sociedade portuguesa antes e depois da troika (...) 
O facto de existirem pessoas, à esquerda e à direita, que, no rescaldo [das declarações de António Costa, à comunidade chinesa] discutiram e se confrontaram com estatísticas. Nenhum pensou no tónus da vida, no que aconteceu aos portugueses nestes quatro anos. Foi tremendo do ponto de vista existencial, tremendo. Não estamos melhor, meu Deus. Não estamos melhores, como poderíamos estar? Mesmo para os que não gostaram das declarações de António Costa, para os que as sentiram como um murro no estômago, foi um murro no sentido errado. Atacaram-no com estatísticas de desemprego e tudo o resto. Perguntou-me de que precisamos? Precisamos de pensar um bocado nisto. Porque não começamos por aqui?

José Gil, em entrevista concedida a Luís Osório, I, nº1833, 14/15 de Março, 2015, p.26.

A política na "Nova Ágora"



Assunção Cristas

A entrada para a política teve muito a ver com ser católica. Pequenas intervenções de cariz social, participações em encontros, não mais do que isso, em quem se via afastada da política e dos partidos (sendo que não prestou grande atenção à política durante o percurso académico e profissional). A quando do referendo ao aborto, um amigo desafiou-a a escrever num blog, até na condição de mulher.
No entanto, quando desafiada a participar na vida política, pensou no que “um católico devia dizer” numa altura destas (em que se recebe um convite desta natureza), chegando à conclusão que um católico deve aceitar “coisas arriscadas, que não se sabe muito bem no que vai dar, num terreno diferente, confiar no juízo dos outros. O meu dever talvez seja dizer que sim”. Para Assunção Cristas, estar na política tem sido um caminho de “crescimento e aprendizagem”. No Parlamento, as “pessoas estão de boa-fé e a procurar dar o seu melhor”. Fazer política é um tremendo “exercício de humildade”, porque é respeitar o que as outras pessoas acham que é melhor, respeitar as suas convicções, “sujeitar-se ao escrutínio de todos”. A realidade tem diversos matizes de cinzento e aquilo que pensamos que é o ideal não é possível de concretizar em
diferentes momentos: há constrangimentos financeiros, não há os actores necessários, etc. Às vezes, só podemos dar pequenos passos, deixando coisas para outro momento. Como “sabemos que nunca se agrada a todos ao mesmo tempo”, é necessário, essencialmente, respeitar a própria consciência e fazer-se o melhor por todos. É um factor de realização pessoal, porque é um serviço que não se limita à própria família e amigos.


José Junqueiro


Começou nas associações de festas. José Junqueiro esteve na política (lato senso) desde muito cedo. Tinha a consciência de que era necessário fazer qualquer coisa para as pessoas terem uma vida normal. Temos um grande défice de participação cívica. Fomos sempre muito resignados (como Eduardo Lourenço diz, referindo a eterna espera portuguesa pela Providência, em O labirinto da saudade). Há que perguntar se estamos a aproveitar bem a democracia.
Junqueiro gostou do desempenho de Assunção Cristas no Parlamento, onde foi deputada revelação.
Hoje há uma crise na política. Porque é que as pessoas se afastam? As causas da liberdade e da democracia foram capturadas pela economia. Chegámos a ter a economia a trabalhar para nós; hoje, a ordem dos factores inverteu-se. A Europa construiu-se com as lições da guerra. Essa matriz foi-se perdendo ao longo do tempo. Não se sabe bem o que é o Podemos, o Ciudadanos ou o Syrizamas sabemos é que as pessoas estão insatisfeitas com o que há.
A Igreja está a mudar – e Junqueiro cita o artigo de Paulo Rangel, sobre o Papa Francisco, há duas semanas, no Público – e questiona-se porque também a política não é capaz de mudar, porque não tem vontade de mudar. “Temos de retirar mais poderes aos Governos, ao Parlamentos, aos partidos e dá-los, de novo, aos cidadãos”.


Miguel Morgado

Toda a gente tem a impressão de que estamos numa encruzilhada, com ansiedade e mal-estar. Algo que não se restringe a Portugal, mas que vemos, ainda, presente nas restantes democracias europeias e, provavelmente, na América do Norte. Se os cidadãos portugueses falassem mais com os seus congéneres franceses, americanos, canadianos veriam que há preocupações muito semelhantes às suas. A grande questão reside aqui: “o problema é tão grande que nós precisamos de uma nova Filosofia Política”. Não é “refugiar-me em abstracções”: “as coisas são tão concretas quanto isto”. “Não me parece que o problema seja de vontade, porque muitas vezes temos até dificuldade em articular” que mudança pretendemos. Nos últimos 50 anos nós formámos expectativas elevadíssimas relativamente à política. Nesta perspectiva, vivemos num contexto histórico completamente inédito – isto nunca aconteceu! (…) Nós esperamos que problemas pessoais, que afectam as nossas vidas, sejam resolvidos pela política. Isso nunca aconteceu! A indiferença que havia, há 50 anos, para com os políticos era infinitamente maior do que aquela que é hoje. Os políticos aparecem hoje a dizer que estão muito preocupados connosco, com o nosso emprego, com a nossa felicidade, com a nossa realização, com a nossa educação. Isso nunca aconteceu antes. Nunca! (…) Assim quando temos expectativas destas, facilmente perdemos a noção dos limites da política”. Ora, a política não é uma esfera humana diferente das demais. Portanto, não há ali uns políticos maus para serem substituídos por uns cidadãos bons, construção, esta, puramente artificial e construída mediaticamente. Assim, a primeira coisa a fazer é evitar as “categorias mediáticas” quando estamos a pensar o político. Até o século XVIII nunca se
pensou na política como esfera à parte. Nós queremos viver todos em comunidade e que esta deve ser regida por padrões de justiça, mas estes padrões variam e é por isso que há rivalidades políticas.
Nunca iremos todos acordar no mesmo padrão de justiça. Viver politicamente tem que ser viver na razão. Para dialogarmos uns com os outros temos que apelar às faculdades racionais. É a única maneira. Dialogar mesmo que no final do diálogo não haja um acordo definitivo. Nem tem que haver.
política é uma actividade de serviço. A ideia da política como conquista e manutenção do poder é nihilista e pouco realista. Se a política é o seu próprio horizonte, a noção de serviço desaparece. “Nós
temos que pensar a política com uma finalidade que transcenda a política”. Se a política repousa, exclusivamente, sobre si própria passa a ser uma “questão de vida ou de morte” (como disse Maquiavel). É preciso, pois, “relativizar a política”.
Nós vivemos numa sociedade de mudança vertiginosa, e está em aceleração. Nós ainda não sabemos adaptarmo-nos a esta velocidade. Não sabemos o que fazer com essa velocidade. Ela é ameaçadora. Essa é uma razão da ansiedade que estamos a viver”.
Uma das coisas novas, para nós europeus, é a transformação demográfica. Em Portugal, quando se discute esta matéria fala-se sempre na questão da Segurança Social, se ela tem capacidade para pagar reformas. Em realidade, “este é um problema puramente financeiro e os problemas financeiros têm sempre solução”. Mas o problema demográfico vai mais além: as economias avançaram, nos últimos
50 anos, também e muito devido à estrutura demográfica então existente.
Por outro lado, nunca a obsessão com a juventude foi tão grande e a indústria que procura retardar o envelhecimento não entrou em dificuldades durante esta crise. As pessoas mais velhas tendem a vestir-se cada vez mais como as mais novas, sugerindo, como a ficção científica tem feito, algumas espécies de neuroses colectivas.
Regressar ao nosso paradigma civilizacional é termos “uma consciência histórica muito mais aguda do que foram as nossas representações do que é verdadeiro, bom e belo”.
Desde há 30 anos que nos contentamos com o que temos e deixamos de forjar projectos para o futuro.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Política e um pretenso "senso comum"


É admissível que os fluxos de financiamento da economia real sejam bastante superiores ao próprio crescimento da economia real, porque, na realidade, tem de financiar-se antecipadamente o futuro. Por isso soa tão absurdo - embrulhado num falso «senso comum» - que Rajoy repita que qualquer família sabe que não pode gastar mais do que aquilo que recebe. Digamos que se justifica que os fluxos financeiros cresçam três ou até quatro vezes mais do que a economia produtiva. Ou seja, se a economia real cresce três por cento, seria lógico esperar que os fluxos financeiros crescessem 12 por cento. Ma o que sugeri foi que, no caso da chegada a essa taxa, se acenda uma luz amarela de alerta no painel de controlo do financiamento do sistema, para que se vigie e apure porque está a crescer nessa medida, qual é a justificação.

Felipe González, Á procura de respostas, p.111.

Madrugadas perdidas




As madrugadas eram rasgadas, não raramente, a palavras mil, intermináveis, imensas, talvez não só porque quiséssemos antecipar o futuro, talvez não propriamente conformá-lo pensando-o em antecipação, provavelmente não só isso, ainda que também isso, mas porque, mais densamente, o pretendêssemos esconjurar, medo afinal, também, e o ruído necessário, em quem se procurava encaixar (n)o mundo, completar o puzzle, pelo menos, nada menos, nobre missão. As palavras eram, claro, diferentes e sussurradas, das que era possível escutar, sempre as mesmas, na cidade e nas escolas que ela oferecia. As escolas não ousavam as palavras que importavam e importam. Veio o futuro, sob a forma de presente, veio a estabilidade, as peças estão lá e as dúvidas são menos ou mais respondidas, ou sabidas, por fim, sem resposta. As palavras minguaram. Inventas ruído à mesma, não sei se indiferente ao silêncio, se em desespero com ele, e rotinas sem fim são criadas até ao dia em que ele, o silêncio, regressar. Acredito que pela porta, não pela janela, porque, afinal, houve palavras mil que também lhe deram sentido. Não foi só ruído, não foi só medo, foi antecipar o futuro, conformando-o. Seremos sempre mistério.

Ideologias: "essência" e "história"


Se as leituras "essencialistas" sobre o que é ser de direita ou esquerda não deixam de ser sedutoras, possuir interesse e utilidade - penso em Direita e Esquerda, de Norberto Bobbio, por exemplo -, não deve deixar-se de as confrontar com a evolução histórica que o ser de direita, ou de esquerda sofreu e com a pluralidade de esquerdas e direitas existentes. Não deixa de ser bem curioso pensar, por exemplo, como alguns dos socialistas utópicos não só não eram democratas, como advogavam, mesmo, que a mudança social devia ser feita à margem do - da utilização de um instrumento como o - Estado. A 'revolução', para alguns dos socialistas utópicos, devia passar pela - pelo interior da - comunidade, do trabalho, da "empresa", e afastar-se da acção política tout-court (partidária). Hoje, esta "privatização" da mutação a empreender, esta "despolitização" dificilmente seria conotada com qualquer pensamento à esquerda. A mesma coisa se diga, de resto, de muito do que escreve Antero de Quental, nas Causas da Decadência dos Povos peninsulares: há, com efeito, um dado espírito do tempo, quanto a posições sobre o trabalho, a indústria, o empreendedorismo, a posição sobre os poderes públicos, os autores que influenciam e são citados como mestres, o apoio social requerido ao Estado que dificilmente resistem, como "essência imutável", de um "ser de esquerda".

terça-feira, 17 de março de 2015

As memórias de Jorge Miranda (V)




A 25 de Abril de 1975, quase seis milhões de portugueses vão votar. 91% do eleitorado, com filas desde a madrugada, vai às urnas: "algo que nunca acontecera em Portugal e nunca mais haveria de acontecer" (escreve Jorge Miranda, p.101 de Da Revolução à Constituição). Daí que se possa dizer que "o 25 de Abril de 1975 foi o segundo 25 de Abril, o segundo dia da liberdade" (p.102). A distribuição sócio-profissional dos deputados constituintes faz-se com os advogados a estarem em maior número, seguindo-se, a considerável distância, os engenheiros. Depois, o grupo dos empregados bancários e dos operários. Havia 5 trabalhadores rurais, dois oficiais das forças armadas, duas domésticas, dois carteiros e dois locutores (nota de rodapé 181, p.115).
Até o CDS, no projecto de Constituição que apresentou, plasmava uma "via original para um socialismo português" (p.132), enquanto na sistematização constitucional dos partidos mais à esquerda as matérias de organização económica precediam os direitos fundamentais (o inverso sucedendo com os projectos dos partidos hoje muitas vezes descritos como do arco da governação). No projecto de Preâmbulo, o CDS inscreveu a necessidade de iluminação do "caminho para uma sociedade sem classes" dos "valores do humanismo cristão" (p.134).
O projecto de Constituição apresentado pela UDP era aquele que continha menos artigos: 44; o do PPD, 153 (o mais prolixo, p.131).
E como funcionava a Assembleia Constituinte? "Por vezes, diz-se que a Assembleia funcionou sob pressão ou sob coação. Não é verdade. Bem pelo contrário, ela foi - através do período antes da ordem do dia e das suas principais deliberações entre Julho e Outubro de 1975 - um centro primordial de resistência às tentativas de implantação de regimes vanguardistas ou basistas e de afirmação dos princípios do constitucionalismo democrático de tipo ocidental" (p.118). E, se é verdade que os deputados "não foram insensíveis" ao mundo em volta, imprimindo "várias expressões ideológico-proclamatórias", contudo, "uma coisa eram as fórmulas ou a forma, outra coisa o conteúdo. E o conteúdo essencial das opções constituintes era de democracia pluralista e representativa" (p.119)

segunda-feira, 16 de março de 2015

O "medo de existir"


Leitor das críticas que lhe foram formuladas a quando de Portugal, o medo de existir, José Gil responde assim, a Luis Osório, este fim de semana, na entrevista publicada pelo I

O que raio é ser português?
Eu não sei. Quando me falam nisso, quando querem fazer de mim um especialista de identidade portuguesa, recuo sempre. Não tratei da identidade portuguesa, penso sobre mentalidades que são transitórias por natureza. Não sei qual é a identidade portuguesa.

[I, nº1833, 14/15 de Março, 2015, p.26]

As memórias de Jorge Miranda (IV)


Bastante interessante o evocar do esgrimir de argumentos (a identificação destes) acerca do (eventual) referendo à Constituição (vide nº6, pág.62, Da Revolução à Constituição). Jorge Miranda escreve que o que se pretendia, por parte daqueles que queriam um referendo constitucional, "era não já um processo para a modificar (...) mas um processo para a substituir". O que é certo é que "os resultados da eleição presidencial de Dezembro de 1980 resolveram este problema no sentido da inadmissibilidade do referendo e do respeito das regras constitucionais sobre revisão". 
A lei eleitoral então redigida, com a combinação escola de Lisboa (J.Miranda)/ escola de Coimbra (Barbosa de Melo) resultou numa lei muito avançada e sofisticada que é ainda, em muitos aspectos, a que sobrevive (são citados, neste livro, elogios de Vital Moreira à qualidade daquela lei).

Às sextas, no Y


Otium e lazer, por António Guerreiro.

O futebol de que eu gosto



"O futebol é o regresso semanal à infância", Javier Marias.

domingo, 15 de março de 2015

"O valor da liberdade" (IV)



Acreditar no progresso (na ideia de progresso) não significa que os adquiridos da ciência não têm retorno; que, nesse terreno, caminhamos para a frente. No domínio científico, parece (relativamente) consensual que o progresso existe (outra coisa, os seus limites, incluindo éticos). Acreditar na existência do progresso parece pressupor, em realidade, uma ideia ética, a perspectiva de que estamos a melhorar ao nível do desempenho ético (enquanto humanidade). Ora, é neste progresso que John Gary - o quarto convidado de O valor da liberdade - diálogos sobre as possibilidades do humano -, ciente das limitações, das contradições, das tensões permanentes no interior - na mente, na alma - da pessoa não acredita. Exemplifica com o recrudescer da aceitação, na aurora do século XXI, da ideia de tortura, convocando a argumentação que a este respeito fez Dick Cheney, o todo-poderoso ex-vice presidente dos EUA, democracia liberal. A condenação feita há muito da tortura e o seu reaparecimento, com teorização para a justificar e legitimar, mostrariam (mostrarão, demonstrarão) como, do ponto de vista ético, o conceito de progresso não tem operatividade. O mesmo se diga quanto à escravatura que, no sistema económico vigente, reaparece sob a forma de tráfico de pessoas.
Para o pensador ateu, que recusa o rótulo de filósofo, a quem José Tavares chama de "pessimista esclarecido", o ser humano é um fabricador de mitos. Não passa sem eles. Se estes não têm por função dar a verdade, oferecem, porém, o sentido. Há bons e maus mitos, sendo que os segundos se diferenciam dos primeiros por colocarem em causa a pessoa e se afastarem das realidades concretas em que esta vive. É muito mais plausível e "racional" um mito religioso como a ressurreição - Gray chama-lhe mito - porque pressupõe um milagre, do que muitos dos mitos seculares (como o de colocar fim à morte, por exemplo). E até o mito de que se passa sem mitos é isso mesmo: um mito. [entrevista realizada, em Londres, no Verão de 2013]

sábado, 14 de março de 2015

As memórias de Jorge Miranda (III)


"Uma das maiores tristezas da minha vida"(p.86), escreve Jorge Miranda, foi o saneamento da Faculdade de Direito. Foram 25 meses de interregno de leccionação na universidade pública, para a qual regressaria, após a solicitação do aluno Durão Barroso, e, sobretudo, com o empenho da então directora da Faculdade de Direito de Lisboa, interessada em voltar a ter um corpo científico de excelência.

A ideologia do PSD



Regressando às memórias do Prof.Jorge Miranda, Da Revolução à Constituição, sublinhemos o modo como este se refere ao nascimento do PPD/PSD e à ideologia que o enforma, bem como um juízo sobre a transformação que tal partido, a este propósito, sofreu (ao longo dos anos). Louvando-se na obra de Marcelo Rebelo de Sousa, A revolução e o nascimento do PPD, Jorge Miranda toma como boa a descrição do "complexo" (ideológico) com que o PPD se ergue: "do legado social-cristão, do legado social-liberal com afloramentos social-democráticos e do legado social-tecnocrático", assim nasce o PPD. "Concordo no essencial [com esta descrição], mas, com o tempo (e bem cedo, na passagem dos anos 70 para os anos 80), a primeira matriz iria ficar subalternizada até se desvanecer" (pág.74, nota de rodapé 94). Adiante, nesta obra, refere, de modo substantivo, o constitucionalista: "Em 1974 e 1975, o partido chamava-se Popular Democrático e era, ou procurava ser, social-democrata. Em 1976, passaria a designar-se por Partido Social-Democrata e deixaria de o ser. Mas a atitude de Mário Soares, que levou a Internacional Socialista a fechar a porta ao PPD, também teve aí efeitos negativos. Na Itália, por exemplo, tinha havido o Partido Socialista, com Nenni, e o Partido Social-Democrata, com Saragat" (pp.85-86, nota de rodapé 119).
Jorge Miranda atribui a Marcelo Rebelo de Sousa e a Carlos Macedo a insistência para que no programa do partido, no seu primeiro congresso, houvesse, como houve, um capítulo cuja epígrafe era: "O capitalismo multiplicou as desigualdades sociais"(p.83). 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Borgen



Birgitte Nyborg podia ser a líder ingénua de um partido político (Os Moderados) que se mantém ingénua, no poder, e cai ao primeiro solavanco, do governo; Nyborg podia ser a ex-líder política ingénua de um partido secundário transformada, em uma absolutamente inesperada vitória eleitoral, em Maquiavel de saias. Será, contudo, a líder que ainda mantém traços de ingenuidade - "pensei que ia demorar mais de cem dias a mentir ao meu povo..." -, mas que os acompanha de flexibilidade táctica - a readmissão do spin doctor, a maneira como consegue o apoio da Nova Direita, o líder ditador enganado em uma conferência de imprensa, o segurar o ministro da Justiça no caso da escutas...- e estratégica, na qual desaparece uma pureza absoluta (que só existirá no plano dos princípios). O episódio em que a PM dinamarquesa, da série Borgen, reaprecia a questão da Gronolândia, em um volte-face para conhecer melhor a realidade local e dar maiores poderes (e auto-estima) àquele estado e populações, é a este título notável: onde poderíamos seguir um tipo muito linear, onde o poder faria esquecer a preocupação humana antes reclamada, evidencia que as preocupações sociais se mantém presentes na PM. Em vez do são todos iguais que se seguiria ao business as usual no tratamento da Gronolândia, uma inflexão que complexifica a personagem: ela nem se mantém no terreno de uma virgindade naive, em que a lógica do compromisso, da responsabilidade, da cedência está ausente - bem ao invés!; nem, outrossim, se desliga, totalmente, do programa e causas que a inspiram, em exclusiva lógica de poder pelo poder. É neste traço de complexidade, nesta zona cinzenta, que Borgen adquire traços de grande qualidade.

Provação



Inventa pretextos para cumprir calendário - é assim há anos, todos o pensam, ninguém lho diz; horas são gastas em minudências sem conteúdo, sem sentido, tudo o que vem à cabeça que possa parecer objecção a um enunciado é atirado, sem prévio exame, sem estudo, sem coerência nem consistência de espécie algumas; não consegue ir além de uma rigidez e inflexibilidade que de académico têm muito pouco, mas que não deixam de demonstrar uma insegurança total; confunde argumento com afirmação pessoal; o voluntarismo que não admite ser contrariado colhe onde o politicamente correcto, mesmo se atacado nos corredores, se impôs e a "fragilidade" e as "queixas" são armas; e, numa sociedade curvada, onde o medo é permanente e a mentira diária (o seguidismo do "poder", de quem é "poder" em um dado momento, é mesmo confrangedor), prossegue; cansa mais a alusão, implícita ou explícita, a um título, utilizado para impedir, em boa verdade, uma discussão (nunca é a inteligência que lhe interessa), cansa mais o jogo de máscaras, o teatro e a mentira permanentes, cansa mais a falta de preparação e de rigor, de honestidade intelectual, de que toda a investigação junta - que, aliás, considerará entre o fútil e o inútil. Cansa a vitória do adjectivo sobre o substantivo, a esperteza como modo de ser, o fazer-se dos outros parvos (a languidez de uma bajulação pequenina, mesquinha e míope acompanha as sombras torpes desse quotidiano).

quinta-feira, 12 de março de 2015

Da entrevista de António Costa


Creio que o ponto mais ousado de António Costa, ontem, na entrevista à RTP, foi, em rigor, a assunção de que, se necessário, o Tratado Orçamental não é para cumprir, no que ao absoluto equilíbrio orçamental diz respeito. Advogou uma política contra-cíclica, pelo que, se se justificar e em períodos recessivos, o défice poderá existir. Disse o secretário-geral do PS que esta é uma mudança em curso na Europa - o que ainda está por demonstrar -, mas, sobretudo, foi afirmativo, como ainda não havia sido, até aqui, nesta matéria. 
Se muitos viram na entrevista um excesso de promessas - aumento do salário mínimo, descida do IVA da restauração para 13%, reposição integral de salários e pensões -, também se pode observá-la pelo não dito. Por exemplo, em âmbito laboral, um dos pontos mais controversos desta legislatura, nenhuma mudança foi preconizada, ontem. Regressou a ideia de reabilitação urbana - que na entrevista ao Diário Económico parecia um tanto congelada, algo que pareceu reforçado por não haver merecido destaque na agenda para a década. Houve um claro afastar da estratégia política do Syriza - é preciso partir para mais do que um cenário na construção dos modelos económicos -, e muito pouco país para lá das questões económico-financeiras: uma frase sobre educação e outra sobre justiça, mais de denúncia do que proposição, sectores para os quais, de resto, não se ouviram novidades. Mais incisivo e concreto do que em outras ocasiões recentes, assumiu, finalmente, não se ter expressado devidamente perante auditório chinês.

"Vida sem cultura"



Quizá lleguemos a ver cómo será la vida sin cultura. De momento ya tenemos indicios de lo que está siendo, paulatinamente, un mundo que ha optado, al parecer, por desembarazarse de la cultura de la palabra pese a poseer índices de alfabetización escolar sin precedentes. Hace poco un editor me comentaba que el problema —o, más bien, el síntoma— no eran los bajos niveles de venta de libros sino la drástica disminución del hábito de la lectura. Si el problema fuera de ventas, decía, con esperar a la recuperación económica sería suficiente; sin embargo, la caída de la lectura, al adquirir continuidad estructural, se convierte en un fenómeno epocal que necesariamente marcará el futuro. El preocupado editor —un buen editor, de buena literatura— añadía que, además, la inmensa mayoría de los libros que se leen son de pésima calidad, desde best sellers prefabricados que avergonzarían a los grandes autores de best sellers tradicionales hasta panfletos de autoayuda que sacarían los colores a los curanderos espirituales de antaño.
De querer preocupar todavía más al editor, y a los que piensan como él, se podría analizar detenidamente la última encuesta sobre la lectura que hace unas semanas apareció en los medios de comunicación. No sólo un tanto por ciento muy elevado de la población jamás leía un libro sino que se vanagloriaba de tal circunstancia. Para muchos de nuestros contemporáneos la lectura se ha hecho agresivamente superflua e incluso experimentan una cierta incomodidad al ser preguntados al respecto. Dicen no tener tiempo para leer, o que prefieren dedicar su tiempo a otras cosas más útiles y divertidas. Nos encontramos, por tanto, ante una bastante generalizada falta de prestigio social de la lectura que probablemente oculte una incapacidad real para leer. Dicho de otro modo: el acto de leer se ha transformado en un acto altamente dificultoso y, para muchos, imposible. Me refiero, claro está, a leer un texto que vaya más allá de la instrucción de manual, del mensaje breve o del titular de noticia. Me refiero a leer un texto de una cierta complejidad mental que requiera un cierto uso de la memoria y que exija una cierta duración temporal para ir eligiendo en libertad, y en soledad, los distintos caminos ofrecidos por las sucesivas encrucijadas argumentales.
El pseudolector actual rehúye las cinco condiciones mínimas inherentes al acto de leer: complejidad, memoria, lentitud, libertad y soledad. Él abomina de lo complejo como algo insoportablemente pesado; desprecia la memoria, para la que ya tenemos nuestras máquinas; no tiene tiempo que perder en vericuetos textuales; no se atreve a elegir libremente en la soledad que, de modo implacable, exige la lectura. En definitiva, nuestro pseudolector actual ha sido alfabetizado en la escuela y, en muchos casos, ha acudido a la universidad, pero no está en condiciones de confrontarse con el legado histórico de la cultura humanista e ilustrada construido a lo largo de más de dos milenios. Este pseudolector —en el que se identifica a la mayoría de nuestros contemporáneos— no puede leer un solo libro verdaderamente significativo de lo que hemos llamado, durante siglos, “cultura”.
Quien escuche una opinión semejante rápidamente alegará que hemos sustituido la cultura de la palabra por la cultura de la imagen, el argumento favorito cuando se conversa de estas cuestiones. De ser así, habríamos sustituido la centralidad del acto de leer por la del acto de mirar. Surgen, como es lógico, las nuevas tecnologías, extraordinarias productoras de imágenes, e incluso las vastas muchedumbres que el turismo masivo ha dirigido hacia las salas de los museos de todo el mundo. Esto probaría que el hombre actual, reacio al valor de la palabra, confía su conocimiento al poder de la imagen. Esto es indudable, pero, ¿cuál es la calidad de su mirada? ¿Mira auténticamente? A este respecto, puede hacerse un experimento interesante en los museos a los que se accede con móviles y cámaras fotográficas, que son casi todos por la presión del denominado turismo cultural.
Les propongo tres ejemplos de obras maestras sometidas al asedio de dicho turismo: La Gioconda en el Museo del Louvre, El nacimiento de Venus en los Uffizi y La Pietà en la Basílica de San Pedro. No intenten acercarse a las obras con detenimiento porque eso es imposible; apóstense, más bien, a un lado y miren a los que tendrían que mirar. La conclusión es fácil: en su mayoría no miran porque únicamente tienen tiempo de observar, unos segundos, a través de su cámara: de posar para hacerse un selfie. Capturadas las imágenes, los ajetreados cazadores vuelven en tropel a la comitiva que desfila por las galerías. ¿Alguien tiene tiempo de pensar en la ambigua ironía de Leonardo, o en la sensualidad de Botticelli, o en el sereno dramatismo de Miguel Ángel? Es más: ¿alguien piensa que tiene que pensar en tales cosas?
Paradójicamente, nuestra célebre cultura de la imagen alberga una mirada de baja calidad en la que la velocidad del consumo parece proporcionalmente inverso a la captación del sentido. El experimento en los museos, aun con su componente paródico, ilustra bien la orientación presente del acto de mirar: un acto masivo, permanente, que atraviesa fronteras e intimidades, pero, simultáneamente, un acto superficial, amnésico, que apenas proporciona significado al que mira, si este niega las propiedades que exigiría una mirada profunda y que, de alguna manera, se identifican con los que requiere el acto de leer: complejidad, memoria, lentitud, libre elección desde la libertad. Frente a estas propiedades la mirada idolátrica es un vertiginoso consumo de imágenes que se devoran entre sí. Al adicto a esta mirada, al ciego mirón, le ocurre lo que al pseudolector: tampoco está en condiciones de confrontarse con las imágenes creadas a lo largo de milenios, desde una pintura renacentista a una secuencia de Orson Welles: las mira pero no las ve.
De ser cierto esto, la cultura de la imagen no ha sustituido a la cultura de la palabra sino que ambas culturas han quedado aparentemente invalidadas, a los ojos y oídos de muchos, al mismo tiempo. El pseudolector, que ha aceptado que a su alrededor se desvanezcan las palabras, marcha al unísono con el pseudoespectador, que naufraga, satisfecho, en el océano de las imágenes. La casi desaparición del acto de leer y, pese a la abundante materia prima visual, el empobrecimiento del acto de mirar llevan consigo una creciente dificultad para la interrogación. En nuestro escenario actual el espectáculo tiene una apariencia impactante pero las voces que escuchamos son escasamente interrogativas. Y con bastante justificación puede identificarse el oscurecimiento actual de la cultura humanista e ilustrada con nuestra triple incapacidad para leer, mirar e interrogar. Cuando en la última reforma educativa se defiende enfáticamente que la lógica filosófica va a ser sustituida, en la enseñanza escolar, por la “lógica del emprendedor” no hace sino sancionarse el fin de una determinada manera de entender el acceso al conocimiento. Aunque ni siquiera quien ha acuñado esta frase sabe qué diablos significa la “lógica del emprendedor”, aquella sustitución es perfectamente representativa del modo de pensar dominante en la actualidad.
El mundo político se ha adaptado sin titubeos al nuevo decorado, expulsando de su retórica cualquier conexión cultural. Esto habría sido imposible en los últimos tres siglos. Pero el mundo político, el que más crudamente expresa las oscilaciones de la oferta y la demanda, no es sino la superficie especular en la que se contemplan los otros mundos, más o menos distorsionadamente. La expulsión de la cultura —o de una determinada cultura: la de la palabra, la de la mirada, la de la interrogación— es un proceso colectivo que afecta a todos los ámbitos, desde los medios de comunicación hasta, paradójicamente, las mismas universidades. No obstante, en ninguno de ellos es tan determinante como en el de los propios ciudadanos, que han dejado de relacionar su libertad con aquella búsqueda de la verdad, el bien y la belleza que caracterizaba la libertad humanista e ilustrada. La utilidad, la apariencia y la posesión parecen, hoy, valores más sólidos en la supuesta conquista de la felicidad.
Y puede que sea cierto. Igual la vida sin cultura es mucho más feliz. O puede que no: puede que la vida sin cultura no sea ni siquiera vida sino un pobre simulacro, un juego que sea aburrido jugar.
Rafael Argullol, ElPais, 06-03-2015