sábado, 28 de fevereiro de 2015

Caridade e Solidariedade (DSI)


Doutrina Social da Igreja

Na Exortação Apostólica “A alegria do Evangelho”, escreve o Papa Francisco:

202. A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar; e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para a curar duma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias. Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social,[173] não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais.

203. A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política económica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral. Quantas palavras se tornaram molestas para este sistema! Molesta que se fale de ética, molesta que se fale de solidariedade mundial, molesta que se fale de distribuição dos bens, molesta que se fale de defender os postos de trabalho, molesta que se fale da dignidade dos fracos, molesta que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justiça. Outras vezes acontece que estas palavras se tornam objecto duma manipulação oportunista que as desonra. A cómoda indiferença diante destas questões esvazia a nossa vida e as nossas palavras de todo o significado. A vocação dum empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos.

204. Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição das entradas, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos.

205. Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efectivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum.[174] Temos de nos convencer que a caridade «é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos».[175] Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos. E porque não acudirem a Deus pedindo-Lhe que inspire os seus planos? Estou convencido de que, a partir duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e económica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social.



A pobreza como problema político


Desde que Giscard D'Estaing recusou a François Miterrand, em célebre debate, "o monopólio do coração" que, por entre registos muito diversos, tal é atirado, frequentemente, em diálogos entre interlocutores que evocam, de algum modo, a situação dos mais desfavorecidos. António Lobo Xavier, na quinta-feira, dizia que "só um psicopata" não se preocupa com os marginalizados e, este Sábado, no Público, Vasco Pulido Valente retoma, de modo implícito, a acusação de "moralistas" aos que aludem, em tom mais ou menos enfático e/ou apaixonado, aos concidadãos que se encontram em pior situação. O modo como o problema deve ser colocado, a meu ver, é político. A questão, infantil, de ver quem é melhor ou pior pessoa, nos debates na ágora, parece deslocada. O foco, o ponto deve ser, inequivocamente, político. Se há programas criados para combater a pobreza que demonstram resultados em conseguir mitigá-la, há-de ser política a explicação para os colocar em causa - partindo do pressuposto de que todos estão interessados em combater a pobreza (dado não contarmos que haja "psicopatas" com responsabilidades públicas). Há-de ser política a discussão de que outros programas ou formas de prosseguir este combate poderemos lançar mão para essa luta ser mais eficaz do que é hoje. Se o comentador "A" não é pior pessoa - nem isso, aliás, interessa para o caso - do que o comentador "B", pode, todavia, entender que este problema não é uma prioridade pública - e que, por exemplo, deve ser combatida, essencialmente, pelo (lado) privado, por aquilo que cada comunidade consiga fazer pelos que estão em pior situação. Uma das discussões mais interessantes, destes quase quatro anos, na Quadratura do Círculo, foi mesmo sobre a Caridade/Solidariedade (como aqui se deu conta). Portanto, o resvalar para um puro plano moral, desta problemática, acaba sempre por fazer com que a caricatura ganhe sobre a substância. Proponha-se, um jornalista, a investigar, para ilustrar, quantas intervenções, em congresso de um determinado partido - os últimos 5 congressos, convenções, etc., por exemplo - tiveram a pobreza e a desigualdade como mote, ou como lugar com algum relevo e vejamos com que afã essa realidade foi (ou não foi) tratada. Politicamente, claro.


Non sequitur


Das raras semanas da actual legislatura em que Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho estiveram sintonizados, pelo menos em parte, esta foi uma delas. Na quinta-feira, na TVI24, Ferreira Leite produziria um argumentário repetido, na manhã de sexta, pelo Primeiro-Ministro: como podem as instituições europeias e, em particular, a Comissão Europeia apontar a consequências cujas causas radicam no tipo de políticas que propõem/impõem (ou propuseram/impuseram, integradas, tais instituições, na troika)? Sendo que em termos genéricos a observação parece conter toda a lógica - a imposição, ou a proposta muito vigilante de políticas austeritárias, que implicaram grandes cortes orçamentais em um curto espaço de tempo, resultariam em danos sociais muito graves -, todavia ela deve ser ponderada em conjunto com uma outra indicação, esta de Pedro Laíns (Prós e Contras, 23/02/15): em não existindo espaço para políticas expansionistas, no entanto, e com a mesma disponibilidade financeira é possível reafectar verbas "de uns sítios para os outros", privilegiar determinados sectores, àreas, grupos sociais, interesses; a política, a democracia, implica, sempre, esta escolha. Ora, neste sentido, sempre se poderá alegar que a Comissão Europeia (ou a troika) não determinou ou impôs cortes em programas como o Rendimento Social de Inserção ou o Complemento Social para Idosos e que, portanto, mesmo constrangendo as opções políticas, em Portugal, não haverá absoluta contradição na formulação, nomeadamente, que aponta para políticas que prejudicaram de modo "desproporcional" os mais pobres. Sim, havia muito menos dinheiro, mas o que havia podia ser alocado de modo diverso e não se tocar nestes programas, por exemplo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

"O valor da liberdade" (Sábados, sic notícias)




Na emissão inicial de O valor da liberdade (sicnotícias/FFMS, para ver aos sábados depois das 20h), Gilles Lipovetsky, entrevistado por José Tavares (em Grenoble, 2013) rejeita qualquer carácter salvífico da (ou para a) Filosofia: o filósofo não vive melhor, nem diferentemente dos demais cidadãos; apenas pensa diferente. Sim, há muita futilidade no consumir, mas pelo menos não se forja o homem novo que presidiu a todas as erupções totalitárias - a crítica ao consumismo esquece isto. Poderá o liberalismo económico acabar com o liberalismo político (?), questiona. Esperar-se-ia, com esta crise, o regresso do Estado, o que não sucedeu. Sendo certo que nos países em que não há mercado - como a Coreia do Norte - a ditadura impôs-se.

"Oração para antes do estudo"


De Fernando Echevarría (prémio Correntes d'escritas 2015):

Oração para antes do estudo

Dai-nos, Senhor, um coração humilde.
A inteligência de aceitar agora
que só a si o estudo se ilumine
e nele se esqueça o estudante. A cópia
do que estudamos em nós viva, a fim de
que apenas o estudado seja porta.
E luz aberta por onde entrem livres
aqueles cuja alegria é obra
de compenetração que, sem limites,
se entrega. Fica com seu dentro fora.
Ilumina, Senhor, a inteligência de ir-se
esquecendo cada qual no que se mostra.

in Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa (selecção e prefácio de José Tolentino de Mendonça e Pedro Mexia, Assírio e Alvim, 2014, 103).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Povo e massa


Povo: cidadãos autónomos, unidos pela amizade cívica, pelo diálogo racional.

Massa: cidadãos heterónomos, em anomia social, desvinculados entre si.

Sentido e felicidade


Se, para Nietzsche, o Homem precisa mais de sentido do que de felicidade, no entendimento de Adela Cortina o sentido é um conteúdo da felicidade.

Para além da cacofonia (II)




Segundo o relatório, hoje conhecido, da Comissão Europeia, Portugal não soube proteger os mais pobres, sendo estes afectados de forma "desproporcional", com a quebra nos apoios sociais. Por outro lado, a Comissão Europeia aponta para um desemprego estrutural muito elevado no nosso país. Mais se diz, que face à relação histórica entre crescimento do PIB e emprego ser difícil de entender como baixou de forma relativamente substancial em determinado período desta legislatura. Portugal tem o quinto salário mínimo mais baixo da zona euro. E os activos disponíveis, em virtude das privatizações concretizadas e agendadas, são bastante menos, no fim desta legislatura (em cumprimento, em grande medida também, neste âmbito, do acordado no memorando).

Para além da cacofonia


Às vezes, parece que esquecemos o essencial, deixando-nos perder em questões de táctica política ou de pura retórica: a crise (na Europa) dura já há 7 anos e, durante este período, cerca de 700 mil portugueses saíram do país.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Aprendendo (III)



Filosofia, manual de 10º ano. Para a superação do relativismo cultural, importa apelar para um padrão neutro, a partir do qual se possa aferir da legitimidade de uma prática (presente em uma cultura). James Rachels encontra o bem da pessoa, a dignidade de cada um como critério (neutro), a partir do qual se pode possuir uma vara de medir. E como será concebida a dignidade da pessoa em cada cultura? Adriano Moreira chama a atenção a desimplicação (prática) de cada conceito, nomeadamente ao nível da Declaração Universal dos Direitos Humanos à luz de cada espaço cultural: liberdade, igualdade entre humanos, etc., não recebem a mesma configuração a Ocidente ou a Oriente, por exemplo. A nossa busca do universalismo (de valores) é indiscutivelmente necessária; devemos fazê-lo, desde logo também, a partir da razão crente (cristã), mas fugiremos, em definitivo, a um lebenswelt que nos condiciona? Haverá soluções absolutamente claras em alguns problemas (filosóficos)? Isto é, para esta concreta equação a solução é a de Rachels? Pode dizer-se isto assim? Ou tal postura advém, ao invés, de outras áreas disciplinares, para as quais há uma (única) solução (em um dado problema)? Posso (pai, aluno, encarregado de educação) discordar da posição proposta em um Manual de Filosofia como 'solução' de um dado problema e exprimi-la em um teste de avaliação? Devo seguir (aluno), ou obrigar a seguir (pai) uma posição para a qual possuo não propriamente doxa, mas epistéme que contradiz o enunciado prescrito pelo manual?


Aprendendo (II)




Se há quem te diga, com Sartori, que o homo videns tende resvalar ao nível do pensamento abstracto - conceitos como Estado ou Democracia não têm imediata imagem disponível, porventura -, também há quem te refira que esta é uma geração pouco 'auditiva' - leia-se, não sejas muito expositivo - e muito mais 'visual' e que insistir com conversa ao ouvido pode implicar a perda de muito(s) talento(s). Se o meu coração está com os primeiros, não deixo, nunca, de escutar os segundos.

Aprendendo


Planificas a aula, contando, já, com o ruído de fundo, a 'música' que não desaparece: os conteúdos - o número, o tipo, a extensão de cada um -, as estratégias não podem ignorar essa barreira. O tempo lectivo não é ilimitado. Cortas, seleccionas, simplificas. Tens que incorporar o som na planificação.

Ponto da situação




Financeiramente, o Syriza ainda não ganhou nada.

Francisco Louçã, no Prós e Contras, 23/02/2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Lideranças


Dez anos é o máximo que um líder consegue aguentar em tempos de democracias "i-mediáticas", diz Felipe González. Primeiro ministro aos 40 anos, com uma média de idades exactamente idêntica no conselho de ministros, que 14 anos depois era de 54: não consegui o relevo geracional, mea culpa, mea culpa, diz o ex-líder do PSOE. Ao ano catorze de governo já pouco se consegue ouvir dos demais, pois tudo parece história repetida, escutada: e um líder não pode, nunca, perder a paciência. Independentemente da ideologia, espera-se que um líder esteja à disposição da comunidade, procurando (re)distribuir riqueza e bens sociais como saúde ou educação. Neste sentido, seria bom que partilhasse da liderança, que ensinasse a outros a liderança para que estes se autonomizassem para uma vida digna de ser vivida: ao serviço. Um líder não nasce (líder): faz-se - é a convicção de González.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Reparo semanal



Nesta segunda-feira, os quatro pontos que faço, no reparo do dia, na ufm:


O homem que se questiona

1.Um determinado sistema económico, seja ele qual for, é gerador de comportamentos, atitudes, hábitos; numa palavra, faz cultura. De um modo muito sagaz, Richard Sennet questiona-se e questiona-nos se, em necessitando a formação do carácter de uma pessoa de uma amadurecido período de tempo, de um relato coerente e estruturado sobre quem somos, de companheiros que connosco demandam e sondam os grandes mistérios do Universo e da condição humana (que, sozinhos, nunca decifraremos), a mudança permanente – de trabalho, no interior do próprio emprego, de situação profissional, de cidade, de horários…– requerida pelo modelo económico que engendrámos (ou ratificámos) não colocará, rigorosamente, em causa esse desiderato de formar um carácter (ou, pelo menos, um carácter sólido e são).

2.A obra de Adela Cortina intitulada Para que serve realmente a ética? (Paidós, 2014) venceu o prémio nacional de ensaio, em Espanha, no ano de 2014. Nele, a académica, buscando uma correcta antropologia, uma descrição adequada da pessoa humana, deixa-nos esta curta, mas incisiva história: “conviria recordar a lição daquele chefe indígena que contava aos seus netos como, nas pessoas, há dois lobos: o do ressentimento, da mentira e da maldade, e o da bondade, da alegria, da misericórdia e da esperança. Terminada a narração, uma das crianças perguntou-lhe: 'avô, qual dos lobos acreditas que ganhará?'. E o avô respondeu: aquele que alimentardes”.

3.Desta curta, mas intensa narrativa, sobejam duas leituras imediatas: apesar de todas as condicionantes sociais e culturais, “o carácter é o destino do homem”, quer dizer, mesmo que escassa, temos alguma quota-parte (nossa) no (nosso) desempenho prático, nas atitudes, comportamentos, modos de ser, correctos ou inadequados, que oferecemos aos outros; sendo assim, devemos, por consequência, cultivar, praticar, desenvolver essas mesmas características positivas. Em Morte aparente no pensamento, Peter Sloterdijk diz-nos que, justamente, a vida prática – a procura da melhoria do desempenho, o treino, a repetição com vista a alcançar melhores padrões de resultado, seja do ponto de vista físico, seja psicológico ou espiritual -, apesar de descurada pela teoria, ganha fundas razões para ser estruturante na condição humana, em o prestígio alcançado em diferentes civilizações. Os primeiros monges cristãos autodesiganavam-se atletas de Cristo.

4.Debruçando-se sobre o desdém que alguns autores deram ao contributo do desvio ético para a crise pela qual continuamos a passar, Adela Cortina encontra como explicação plausível para que tal ocorra o facto de estes, filiados em uma ideologia liberal, tenderem a pensar que mesmo existindo (e reconhecendo-se essa existência) desvios éticos acabam estes, em múltiplas ocasiões, por originar resultados económicos positivos. Creio, contudo, que este é um dos pontos mais polémicos do texto, pois que se de autores liberais passássemos a sociais-democratas, talvez também o enunciado não fosse isento de reparos: provavelmente, não deixariam, agora, estes últimos, de salientar que se o problema se coloca, essencialmente, do lado do comportamento de um dado agente económico, então é o sistema mais vasto que passa indemne.


Boa semana.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

De todos os quadrantes


Em A procura de respostas, muito centrado em definir e buscar uma liderança capaz, Felipe González diz ter ficado muito impressionado com Deng Xiaoping, cujas premonições sobre o desenrolar da história, e do regresso da China a um lugar cimeiro nela, viriam a obter confirmação (até mais cedo do que aquele previra), pelo que "quando a historiografia deixar de ser hegemonicamente ocidental", será um líder revisitado atentamente.

Ah, valentes!

Capa jornal Recordedição dia 20 fevereiro 2015
Ainda bem que regressaram as competições europeias para a imprensa desportiva de Lisboa encontrar motivos para se indignar com as arbitragens. À falta de casos escandalosos, dia sim dia sim, no campeonato português, não há dúvida de que necessário foi recorrer às competições internacionais para dar gás ao protesto - e, mesmo nessas, a indignação é selectiva. Na redacção do Record não passam os jogos do clube da luz?! Difícil, difícil é criticar um árbitro israelita, não é? Ah, valentes!...

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A globalização - em concreto


A globalização não é como o sol, ou a chuva, que nos calha, mas, bem ao invés, é conformada por uma série de escolhas e opções políticas.



Quando a Europa define que abre as portas às importações chinesas sem levantar qualquer problema em termos ambientais, está a tomar uma decisão. Perdem os produtores daqueles produtos, na Europa, que foram obrigados a fazer requalificações ambientais, a cumprir uma série de regras. E ganham os importadores, que importam a preço muito mais reduzido. Quando definimos o posicionamento em relação aos nossos parceiros internacionais, estamos internamente a dizer quem ganha e quem perde. (…) A capacidade de lóbi da Alemanha, e de imposição de agenda: se a Alemanha disser que as nossas relações com a China tal produto não pode entrar, porque tem um interesse defensivo, isso passa a ser a norma da União Europeia.

Elisa Ferreira, em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, Weekend, Jornal de Negócios, 20/02/15, p.6.

História contemporânea portuguesa




O episódio de Humberto Delgado, na conferência de imprensa no café Chave d’Ouro, em Lisboa é, sobretudo, conhecido pelo “Obviamente, demito-o”, dirigido a Salazar. Longe de se esgotar em si mesma, a frase reclama a leitura da Constituição de 1933: o Presidente da República tinha, com efeito, o poder de demitir o Presidente do Conselho. Por isso, a frase não era ilógica. Todavia, existindo esse poder de jure, nunca de facto era pensável o seu exercício (dirigido a quem era: Oliveira Salazar). De aí o espanto pela afirmação. Mais, ainda: o espanto pela pergunta. Quem se atreveria a colocar a questão, em plena ditadura, sobre o destino a dar ao Presidente do Conselho? Nenhum jornalista de um órgão de informação português, na verdade. No dia seguinte, de resto, a frase não permeou qualquer manchete. Lindorf Pinto Basto estava na conferência de imprensa de Humberto Delgado pela agência France Press. Foi ele quem fez a pergunta. Estas e outras histórias contadas agora em livro por Humberto Delgado Rosa, neto do general que no dia anterior à conferência prometera no círculo maís íntimo ser deferente com o Presidente do Conselho, caso perguntado sobre o mesmo.

A cultura na 'nova ágora'



Na noite de ontem, a segunda sessão do ciclo de conferências incluídas na Nova Ágora, desta vez dedicada aos Olhares sobre a cultura. Chamo a especial atenção para a intervenção do Prof.Henrique Leitão (Prémio Pessoa). Como sempre, o Prof.João Lobo Antunes deixou, igualmente, momentos primorosos. Em Fernando Santos, elogiou-se a autenticidade e alegria diante da vida. Eis algumas notas (a partir do minuto 28', principiam as intervenções, após a introdução de D.Jorge Ortiga e com moderação de Carlos Magno) que fui tirando durante o encontro que voltou a encher o Auditório Vitta.

“É um grande homem das antigas humanidades. Pensa e respira cultura” (a apresentação, feita por Carlos Magno, do Professor João Lobo Antunes)


João Lobo Antunes

A cultura é a ecologia na qual o espírito se desenvolve

A parábola dos talentos tem sido o meu guia, ao longo da minha vida: nasci com talentos, que foram desenvolvidos com a profissão e a cultura. A cultura é que permitiu multiplicar os talentos que me calharam como herança da família. O conceito da cultura, para mim, ficou sempre ligado à beleza (depois de, à beira da morte, quando questionado sobre como queria ser lembrado, o meu pai disse 'como alguém que procurou o belo'). Percebi que era outra a medicina praticada por médicos cultos. Mas, aqui, cultura significando aquilo que nos permite falar com qualquer pessoa, na mesma altura e olhos nos olhos. Tirar as melodias dos sentimentos, ser capaz de ouvir, ser capaz de falar.

A medicina, há uns anos, era inócua, mas transformou-se: hoje é incerta, imprevisível. E a cultura, para compreender o significado mais íntimo dos fenómenos, é fundamental.

Hoje peço ao paciente, muito mais do que as folhas de diagnóstico e exames: conte-me a sua história. Actualmente, há um movimento chamado medicina narrativa. É que, nos nossos dias, não sabemos contar a nossa história. Nem escutar (a dos outros). Sermos tocados pela narrativa. Sou muito menos pela ética tradicional e muito mais pela ética dos sentimentos, onde prevalece a compaixão e empatia. A natureza fala connosco se lhe dermos ouvido (como Samuel: “falai, Senhor, que o vosso servo escuta”). Há muita dificuldade em encontrar pessoas com as quais dialogue, que tenham os meus interesses que são muito diversos (nunca tive uma visão estruturada destes).

- Neste tempo tecnológico, é necessário voltar aos valores humanistas tradicionais. As humanidades são consideradas com desdém, hoje, o que é profundamente errado. “Aqueles que não são cultos não sabem o que perdem”.

-A minha maior qualidade talvez tenha sido a de ter sido sempre um bom aluno, nunca ter prescindido de uma oportunidade de aprender; ser um aluno perpétuo. Em minha casa, os sentimentos vieram depois da racionalidade e ainda não estão cá todos, ainda estão a chegar. A inteligência é uma coisa muito perigosa: alguns dos meus heróis nem sempre a utilizavam da melhor maneira. Eu fui treinado para os fuzileiros, mas isso não me ‘tirou’ os sentimentos, sou um leitor de poesia.


Fernando Santos

- Queria começar por uma distinção fundamental (entre os vários tipos de Desporto): Desporto escolar, amador (associativo ou amador), profissional (indústria). De facto, há muito conflito e clubite no desporto profissional, embora isso não seja diferente da vida. Mas também há grande ajuda ao próximo, solidariedade. Não gosto de falar de mim, mas sou visitador de prisão há muitos anos.

O Desporto ultrapassa todas as barreiras: línguas, religiões, raças. É universal.

A palavra fé vem de uma palavra grega que significa creio. Como é que aqueles que temos fé podemos estar no Desporto, ou na cultura (porque temos obrigação de estar)? É difícil afirmar a fé no Desporto? Penso que não. Tudo parte do respeito pelos outros e suas convicções, mas sem abdicar daquilo que eu acredito e penso. Muito tempo estive fora da Igreja, apesar de ter 50 afilhados (? não sei...) (às vezes, ficava cá fora a fumar um cigarro).

A parábola dos talentos diz-me muito, mas a da recompensa dos trabalhadores que chegam a horas diferentes também: podemos ser chamados a qualquer hora. A vida tem que ter um sentido. Quando estava no Estoril fui jogar ao Sangalhos e fui à Eucaristia (em Sangalhos). “Eu não percebi nada do que o sacerdote disse, ai meu Deus, saí de lá muito chateado...Eu pensei: ‘nunca mais cá venho. Nunca mais ponho os pés aqui. Quero lá saber disto!...”. Mas depois fui despedido e pensei que o mundo ia acabar. E um amigo convidou-me para um retiro e lá acabei por ir. Quando treinei o Estrela da Amadora, o primeiro jogo que faço (enquanto líder técnico) é em Aveiro. “E eu?, lá vou à missa a Sangalhos, é evidente...(sorrisos) Voltei a não perceber nada do que ele [padre] disse, mas não me interessou nada: participei pela primeira vez na missa; antes só ia lá para ver se o padre falava bem ou mal”. No Amadora perguntei-me o que fazer para evangelizar, eu estava cheio de fogo, e um dia disse ao motorista, quando íamos a caminho de um estágio, para desviar o autocarro para Fátima. Para tomarmos um café. Fui sozinho ao santuário, mas três anos depois eram mais de metade da equipa (a acompanhar-me àquele templo). E os jogadores ofereceram-me a imagem de Nossa Senhora de Fátima, quando saí do Amadora.

- Virtudes do desporto (parecidas com as da fé): esforço, perseverança, superação, amor pelos outros (companheirismo, amizade), cuidado do corpo.


Henrique Leitão

Hoje sou historiador da ciência. Agora não faço já ciência. Estudei línguas antigas, filosofia, história.

-Condições culturais que permitiram a ciência (ciência ocidental moderna), eis a indagação.

-A ciência como se desenvolveu, no séc.XV-XVI, na Europa é um fenómeno único na história. A pergunta é se há condições culturais que permitam esse florescimento. Ou que a obstaculizem.

-Com certeza que além da cultura, há condições económicas, ou outras, que contribuem para esse florescimento. Mas, isolando a cultura (como penso que pode ser feito): o que tornou o empreendimento científico europeu possível?

-Não pode haver essa pujança sem a convicção instintiva disseminada de que há uma ordem das coisas e da natureza. Não interessa o que as pessoas dizem por palavras. O que interessa é a fé instintiva de que há uma ordem na natureza - e todos nós europeus partilhamos dessa fé. Mas é preciso mais: que cada ocorrência detalhada possa [a crença enraizada de que pode] ser relacionada com a anterior. É essa convicção: há um segredo, mas um segredo que pode ser desvelado - Alfred Whitehead

Um grande crítico, um grande filósofo, George Steiner disse na Gulbenkian: "o que é axiomático na ciência ocidental não é apenas o progresso [cognitivo], mas o progresso ilimitado". Tomamos por certa esta ausência de limites. Trata-se de algo de enigmático, escandaloso mesmo no sentido metafísico de escândalo.

- A premissa fundamental em que se baseia a ciência moderna é a da capacidade da mente humana para conhecer o mundo hoje e sempre, seja qual for o problema. Foi esta certeza que se tornou cultural que tornou possível a ciência (com o vigor que adquire na Europa moderna). Mas de onde nos vem esta certeza e de onde nos vem (ela) historicamente?

-Para Whitehead, a resposta é que a fé na possibilidade da ciência “é um derivado inconsciente da teologia medieval”: a insistência na racionalidade de Deus. No entendimento cristão, o mundo natural não foi feito apenas por Deus, mas para a humanidade. E, por isso, está adequado à nossa mente, comensurado com a nossa razão. Ou seja, ao mesmo tempo que o mundo natural tem uma racionalidade intrínseca e autónoma que é o reflexo da própria racionalidade de Deus, do Logos divino, ao mesmo tempo manifesta essa racionalidade de um modo que é sempre acessível à mente humana. Este é um legado cristão à cultura que é absolutamente inestimável.

-Há aqui uma urgência educativa (como professores, e em casa): transmitirmos aos mais novos esta pérola, vinda do cristianismo e que se tornou cultural, de que tudo se entende. Neste ponto nevrálgico, ciência e cristianismo encontram-se absolutamente e é a grande dívida que a ciência adquiriu ao cristianismo.

Outras ideias



Obama e os resultados concretos



Um aspecto que obteve menor visibilidade no texto de Vítor Bento no Observador, prende-se, no fundo, com a sua avaliação (indirecta) do desempenho político (económico) de Barack Obama. Quando procede à comparação entre o estado da economia na UE e nos EUA, respectivamente, desde o início da crise e até ao presente, de aí concluindo que as opções políticas norte-americanas obtiveram êxito e o caminho prosseguido na UE foi o inverso, aquilo que fica claro é a sagacidade das lideranças (e suas escolhas, nos dois lados do Atlântico). Refira-se, de igual modo, que Felipe González, logo no dealbar do seu livro À procura de respostas (agora, com tradução em português) sugere, precisamente, à UE seguir o caminho dos EUA: "proponho o que foi seguido por um país como os Estados Unidos, que foi a origem e o centro nuclear desta crise e que reagiu reduzindo o défice, crescendo economicamente, gerando emprego e empreendendo reformas que estão a melhorar a sua inserção na economia global" (p.15). Em realidade, após conseguir uma reforma na saúde que melhorou a vida a milhões de pessoas, alcançando, ademais, com ela, bons resultados ao nível económico, também em outros registos - o emprego, em particular - os mandatos de Barack Obama vão colhendo reconhecimento (mesmo em áreas políticas diversas, como exemplificam os autores vindos de mencionar). Em Portugal, foi moda, logo a seguir à eleição do democrata, a afirmação de que Obama, afinal, não era Deus, como se isso fosse um argumento ou, até, piada. Certamente com muitos erros ou falhas pelo meio, os indicadores que nos chegam, pelo menos por ora, da sua performance, tratam de vir afirmando que é um humano que ajudou, na política, a melhorar a vida de muitos dos seus compatriotas. Dizem que é pouco - os génios. Os exemplos melhores, todavia, na política, não parecem abundar, por estes dias.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Portugueses: fontes de orgulho



No International Social Survey Programme (de 2003), relativo à identidade nacional, percebemos que a História (em primeiro lugar) e o Desporto (em segundo lugar) eram as principais fontes de orgulho de ser português.

Compaixão


Se um dos elementos que caracterizam a compaixão é o da identificação com o mal do outro, com a percepção de que aquela fragilidade, debilidade faz parte de uma condição de que eu participo, então os deuses - que, em realidade, não são frágeis nem débeis - não podem ser, não são compassivos. A esta conclusão chegaram epicúreos, estóicos e platónicos. Uma conclusão muito diversa da dos cristãos que vem em Jesus o Deus vulnerável e compassivo que se fez absolutamente solidário da humanidade, assumindo a sua condição (cf. Adela Cortina, Para que serve...?, p.123).

Discernimento




Na Quadratura do Círculo, Lobo Xavier aduz nova causa para as declarações de Jean-Claude Juncker acerca da dignidade dos povos (afectados pela troika). Segundo o comentador, tais afirmações teriam sido produzidas em período pós-repasto, altura em que o autor das mesmas será dado a comoções. O surpreendente rasgo de Lobo Xavier, mesmo que envolto em linguagem erudita, não deixa de o colocar ao nível de não raros diálogos de dirigentes de futebol; evidencia um certo desespero político perante o que foi dito por Juncker; coloca em causa, até, a convicção que o âmbito das declarações do presidente da Comissão Europeia se situam em exclusivo campo formal - o de que a existência da troika, sem sufrágio democrático, é causa única da dignidade afectada dos povos a ela - à troika - sujeitos. Tal índole (formal) irritaria tanto Xavier?
Juncker, recorde-se, disse que a dignidade dos povos grego e português foi afectada, bem como, "muitas vezes" a do irlandês. Ora, se a questão releva do puro formalismo, o "muitas vezes" não se compreende muito bem, pois que, conquanto não fosse embora da Irlanda, "sempre" - e não "muitas vezes" - a troika estaria a colocar em causa a dignidade de tal povo. Se há uma dimensão material, relativamente aos programas e seu conteúdos, que esta alocução de Juncker incorpora - como tudo leva a crer, até pela "conjuntura grega" em que as frases são ditas - é evidente que, mais uma vez, é toda uma política que fica em causa, denunciada, é certo, de onde menos se esperaria. Mas que dizer, entre nós, dos textos de Vítor Bento ? (também terá recorrido a substâncias que afectaram o seu discernimento? A argumentação de Lobo Xavier promete...). 
Por outro lado, a tese de que era exclusivamente à questão da (i)legitimidade democrática da troika que Juncker se referia já tinha sido expendida por Paulo Rangel (p.ex., em declarações transcritas no site da RR, na tarde de ontem). A ideia de face a um problema na área política em que "alguém" se situa, ser para esse "alguém" um problema não substantivo, não um problema de políticas, mas (apenas) de forma (ou comunicação) é, desde há muitos anos, um modo de interpretar a realidade política cuja paternidade, entre nós, pertence a Marcelo Rebelo de Sousa.


O Observador publicou a reacção de Marques Guedes, classificando como "infelizes" as declarações de Juncker e, nesse texto, ontem, incluia este parágrafo: "E tendo em conta essa posição, “é bom que se aprenda com os erros”. Mas uma coisa é aprender com o que foi mal delineado desde início, outra é defender que isso atentou contra a dignidade de um povo, distinguiu". Neste excerto, sublinhe-se, alude-se ao que "foi mal delineado desde o início". Ora, se confrontarmos esta posição com a de Vítor Gaspar, expressa no livro de entrevistas a Maria João Avillez verificaremos que há, aqui, uma evolução: Gaspar considerava o desenho do programa bem delineado.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Empatia e faca de dois gumes


A ideia de uma civilização da empatia, como ideal a aspirar, pode esquecer que esta, a empatia, é susceptível de se tornar em uma faca de dois gumes: se, por um lado, na (completa) sintonização com o que o outro sente, posso tornar-me compassivo e sentir-me instado a auxiliá-lo, por outro, em sabendo onde mais dói ao outro - em resultado da descrita identificação com o seu sentir - eu posso golpeá-lo com especial severidade. A advertência é de Adela Cortina (Para que serve...?, p.124/125).

Dignidade (dos povos)





Pecámos, disse ele.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Destino universal dos bens


Nesta entrevista à antena1/Diário Económico, Alfredo Bruto da Costa utiliza, repetidas vezes, a expressão "a minha filosofia política" para depois se manifestar sobre as realidades sobre as quais é perguntado. Quer dizer, supera a doença infantil da tecnocracia para deixar claros os pressupostos mundividenciais mais fundos em que se baseia para sustentar as opções que propugna. Deste modo, diz, já perto do final deste diálogo, que parte do pressuposto de que os bens da Terra são de todos e devem ser para todos - a partir daí, desenvolve o seu ponto de vista e escolhas.

Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, Francisco escreve, no nº189: "A solidariedade é uma reacção espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde. Estas convicções e práticas de solidariedade, quando se fazem carne, abrem caminho a outras transformações estruturais e tornam-nas possíveis. Uma mudança nas estruturas, sem se gerar novas convicções e atitudes, fará com que essas mesmas estruturas, mais cedo ou mais tarde, se tornem corruptas, pesadas e ineficazes".

A cada passo, em jornais, ou conversas, cita-se uma outra expressão plasmada pelo Papa neste mesmo documento: "esta economia mata". Como todas as expressões que se repetem à exaustão, acaba por perder o seu sabor (e saber nele contido). Além disso, a denúncia "desta" economia é feita desde várias pertenças (por parte daqueles que as produzem). Bem diferentemente, muito mais desafiadora - mesmo do inteiro ponto de vista cultural e de aceitação individual deste princípio - é a concepção da Doutrina Social da Igreja quanto a um destino universal dos bens. A experiência de os termos - a esses bens - como que na qualidade de locatários - "para cuidar deles e aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum" - reclama uma metanóia bem exigente - "sem se gerar novas convicções e atitudes" nada feito.

Bruto da Costa não recusa, bem pelo contrário, a assistência: é bem necessária. Permanecer nela, sem permitir que os beneficiários venham a ser "os artífices do seu destino" é que é errado.

A este nível, o Papa Francisco é bem claro: é tão necessário concorrer para resolver as causas estruturais que levam à pobreza como resolver, nos gestos mais simples quotidianos, os problemas de quem passa por misérias (nº188: "Nesta linha, se pode entender o pedido de Jesus aos seus discípulos: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37), que envolve tanto a cooperação para resolver as causas estruturais da pobreza e promover o desenvolvimento integral dos pobres, como os gestos mais simples e diários de solidariedade para com as misérias muito concretas que encontramos. Embora um pouco desgastada e, por vezes, até mal interpretada, a palavra «solidariedade» significa muito mais do que alguns actos esporádicos de generosidade; supõe a criação duma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns").

A propósito, ainda, de Adela Cortina, digamos que o foco não é exclusivo, em este pronunciamento Papal, nos gestos simples do quotidiano. As causas estruturais, como vimos de ver, são, também, apontadas.



O resto de Deus



Em O que resta de Deus? (Didaskalia XLIII (2013)1.2), José Tolentino de Mendonça situa este "resto" em três campos essenciais: a) a experiência do indiferenciado - "o nosso conhecimento é sempre uma parte do conhecimento possível. Uma dedução elementar do nosso contacto com o real é a sua divisão entre o que os nossos olhos alcançam e o que nos está escondido, entre a aparência e a verdade, o sensível e o inteligível, a imanência e a transcendência (...) A exigência do próprio pensamento humano é procurar, para além disso, uma unidade e continuidade que Gauchet apelida de indiferenciado" (p.290); b) a experiência estética - "«a arte - escreve Gauchet - no sentido específico em que nós modernos a compreendemos, é a continuação do sagrado por outros meios». E, para mostrar essa espécie de inerente vestigia dei recorre ainda ao léxico religioso para descrever o que está em jogo na experiência estética: «é a proximidade fracturante do invisível no meio do visível»; c) a experiência do problema que nós somos para nós próprios - "As nossas sociedades tornaram-se psiquicamente extenuantes para os indivíduos e parece faltar um suporte para as difíceis questões eternas, que sopram com maior frequência: «Porquê a mim?»; «Que fazer da minha vida quando estou sozinho a decidir?»; "Serei eu alguma vez como os outros?»; «Porque é que isto - doença, acidente, abandono - cai sobre mim?»; «Para que serve ter vivido se devemos desaparecer sem deixar traço, como se, aos olhos dos outros, nunca tivéssemos vivido?». Cabe a cada um elaborar as suas respostas, talvez numa solidão ontológica maior do que aquela que outras etapas da história conheceram. E, neste particular, a cultura contemporânea balança entre a massificação e a reabilitação narcísica, entre o culto exacerbado do eu e as várias formas (mesmo subtis) de evaporação do ser. Um resto de religião é, portanto, o que se observa nesta dor humana, nunca completamente expiada: a da parodoxal condição de ser"(p.291),

Já para Gianfraco Ravasi, em O grande encontro - entre Deus e a sua criatura, o rosto de Deus e a sua revelação podem ser encontrados na d) Palavra, na e) criação e no Templo, f) na liturgia, g) no tempo.

Ser realista dá muito trabalho



Procurar descrever a realidade tão objectivamente quanto possível, representar tão bem a realidade quanto o melhor das exegeses que temos disponíveis o permite, dá muito trabalho - dizia, em entrevista a Maria Flor Pedroso, com toda a propriedade, Viriato Soromenho-Marques (na entrevista que a antena1 passou, na última quinta-feira de manhã). Creio, mesmo, que a dimensão ética passível de estar presente em quem publica, comenta, participa, ao nível da cidadania, passa, muito, por aqui: pelo esforço, pelo tempo despendido, pela aposta na leitura rigorosa de algumas obras fundamentais para compreender a cidade. Isso implica, entre outras coisas, sem dúvida nenhuma, muitas horas e dedicação. Mais fácil a pura identificação ideológica - que dispensa o estudo, pois a verdade está apurada a priori, ou, em casos menos articulados, o moralismo de vão de escada que, aliás, como se sabe encontrou terreno muito fértil, no nosso país, nos últimos anos. Também penso nisso na dimensão de professor: como é possível alguém ser bom professor não fazendo ideia - na verdade, repito, não fazendo ideia - do mundo em que vive, da realidade que se lhe apresenta? Como pode ajudar outros no plus que o futuro profissional deve ter além da técnica, no cidadão que se espera responsável e exigente, participativo na polis? Além da coragem de dizer, olhos nos olhos, ao entrevistador/director do canal onde estava a ser entrevistado que os frente-a-frente que aquela estação transmite são maus, porque "ali não se aprende nada!" (tanta a falta de estudo e os disparates ditos), Eduardo Marçal Grilo concluiu a sua entrevista, concedida a António José Teixeira, na sic notícias (no A propósito, 14/02/15), exortando os portugueses a lerem mais. Bem preciso é.

Tempo


Kairós: tempo pessoal vivido

Chrónos: marcação temporal objectiva (hoje indicada pelos relógios atómicos)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Liturgia das horas (II)



Luz terna, suave, no meio da noite,
      Leva-me mais longe...
Não tenho aqui morada permanente:
      Leva-me mais longe...

[cantada esta noite a plenos pulmões no mosteiro]

em Laudes e Vésperas, Gráfica de Coimbra, 1999, 1079.

"Cogitor, ergo sum"


Karl Barth corrige Descartes: "Cogitor, ergo sum", "Sou pensado/amado, logo existo".

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Liberdade dos antigos, liberdade dos modernos


Liberdade dos antigos é sinónimo de poder de participação nos assuntos que interferem com todos, nas coisas que dizem respeito a todos e a cada um.

Liberdade dos modernos significa fazer o que apetecer; agir sem interferências.

A democracia de Péricles



É verdade que a democracia grega do Século de Péricles se converteu em um mito que magnifica o que foi uma realidade mais modesta. Não parece que os cidadãos se matassem para chegar à colina do Pynx para participar na Assembleia de tão bom grado, porque se o povo, o demos, ascendia em essa época a 30.000 ou 40.000 pessoas, no Pynx o número de assentos era de 18.000, e o quórum necessário para alguns objectivos era de 6.000, o que indica que a assistência não era massiva.

Adela Cortina, Para que serve realmente a ética, 108.

Sorte




Escolhemos em condições de incerteza a carreira, a parelha e tantas outras coisas: a sorte tem um papel indiscutível.

Adela Cortina, Para que serve realmente a ética, 105.

A economia na 'nova ágora'



Penso que merece viva saudação a iniciativa da Arquidiocese de Braga, intitulada Nova Ágora, procurando contribuir para debates qualificados em várias áreas do saber. Principiou, este ciclo, na passada sexta-feira à noite, pela economia, com as participações/intervenções de Miguel Cadilhe, Silva Peneda – que fez uma leitura par e passo da Evangelii Gaudium e também atendeu a outras alocuções do Papa Francisco – e João Proença, moderados por Graça Franco. Algumas notas (a partir do minuto 28 principiam as intervenções dos convidados).


Miguel Cadilhe

*“o meu olhar para a economia é um perturbado, perplexo, mas também de esperança”;

*o problema do investimento é fundamental: tem caído imenso nos anos 2000 – tal como Ricardo Paes Mamede também salientou no (último) Expresso da Meia-Noite (sic notícias);

*mesmo o sector da construção tem uma componente importada significativa;

*hoje em dia, a componente de desemprego estrutural (no todo do desemprego) é muito superior ao do tempo que Silva Peneda passou pelo Ministério do Trabalho;

*a demografia não está a ajudar a economia;

*a qualidade das instituições também não tem ajudado. A ética da iniciativa privada está em causa quando nomes cimeiros, desta, em Portugal, “cometeram barbaridades”. Poderão, por efeito, renascer ideologias que se julgavam enterradas nos anais da história

*As instituições de vigilância da República falharam clamorosamente (nomeadamente, nas finanças públicas). A ética republicana não é só a lei, como há uns anos disse um governante. E uma ética sem bondade, como diz Francisco, não dá frutos.

*”Na crise do sistema financeiro, está uma grande crise antropológica”. “Eu fiz grande parte da minha vida no sistema financeiro e sempre disse não a práticas de derivados e derivados de derivados”. “Comecei na banca antes do 25 de Abril e dizia-se: a banca tem uma função social a desempenhar. Isso desapareceu”. “Li os dois empastelados e densíssimos volumes de O capital, de Marx e depois li um outro de um autor católico sobre A função social da propriedade e eram antitéticos. É no equilíbrio entre propriedade privada, mas com função social que acredito”.

*O livro A ética das finanças é muito interessante. O Nobel da Economia que o assina defende a financeirização da economia. Esta será apenas uma pequena perturbação, mas de modo estrutural defende a Finança.

*”Há anos que defendo políticas de estabilização activas e vou buscar isso às teses keynesianas”; “a austeridade troikiana foi um pouco excessiva”; “tivemos política de agravamento dos ciclos económicos”;


Silva Peneda

*o ambiente geral que vivemos: falta de confiança e opacidade

* Procurei confrontar o meu ponto de vista com o do Papa. Vejamos a Evangelii Gaudium: “o olhar do Papa é muito mais carregado do que o meu”, mas também “confirma o que vou vendo por aí”.

*O desemprego arrasta a exclusão, a perda de confiança em si e no que os rodeiam e desagua no medo. “Nem justiça sem liberdade, nem liberdade sem justiça”, disse D. António Ferreira Gomes.

*Estamos perante “uma economia sem rosto e sem objectivo” (Francisco)

*A origem da crise está no sistema financeiro, com actividades especulativas “extremamente perigosas”.

*1ª lição para o futuro: o neoliberalismo não resulta; há que reforçar as políticas públicas; 2ª lição: as políticas públicas devem estar ao serviço da criação de riqueza e penalizar a especulação; “o poder político deixou-se capturar pelo poder financeiro”; 3ª lição: vivemos sob o efémero e o superficial e na economia nada resulta sem longo prazo.

*Não há pensamento orgânico sobre a Zona Euro. Será possível manter uma moeda única com tantas diferenças de competitividade, ausência de orçamento federal e dezenas de políticas públicas diversas.

*Depois de uma crise nunca se volta ao ponto de partida. Vivemos um tempo de transição. Gostava que a sociedade portuguesa assumisse a ruptura com o passado e que o modelo económico não se vai repetir. Gostava que houvesse uma ideia para o país: o que queremos para daqui a 10 anos. Isso é que mobiliza.


João Proença

*A economia não serve para se servir a si própria, mas as pessoas. A pobreza atinge níveis insustentáveis, que não são maiores por causa das prestações sociais.

*O desemprego de longa duração atinge 2/3 dos desempregados.

*10% dos empregados estão em risco de pobreza.

*Têm sido acentuadas as desigualdades a nível de política de rendimentos, um problema da globalização. Os 80 mais ricos têm 50% da riqueza mundial.

*Compete a uma boa administração da economia a gestão de expectativas, e hoje estamos com uma gestão ao contrário, com uma política cega de austeridade. Há uma política europeia que tem de mudar.

*Desapareceu o capital industrial, que se deslocou para a banca

*A OCDE diz que Portugal está nos limites do número de funcionários públicos. Diminuindo estes, fica em causa a administração pública no nosso país. Tais números estão abaixo da média, claramente, tal como despesa com pessoal. A qualidade das instituições é uma questão crucial.



domingo, 15 de fevereiro de 2015

Democracia e catolicismo


Para o número da Culturas e Povos, dedicado a Os católicos e o 25 de Abril, Manuel Braga da Cruz escreveu um ensaio intitulado A Igreja e a ordem democrática, no qual destacou i) a ausência de identificação entre catolicismo e um determinado sistema político; ii) a dificuldade, ou reservas católicas, a determinada altura, face à democracia, por esta assentar em um "contrato social" como fundamento do poder; iii) depois de posicionamentos com muitas nuances diversas, ao longo de papados diferentes, a noção, com o Concílio Vaticano II, não apenas da autonomia das realidades seculares, mas, ainda de que a dedicação a estas devia, primordialmente, caber aos leigos (agora, clérigos deputados não faria total sentido); iv) a mesma fé poderia dar (e dava mesmo) origem a posicionamentos políticos diversos; v) a Igreja recusa a qualquer partido, independentemente da sua denominação, de gozar da representação da Igreja (isto válido, já se vê, especialmente para os partidos democrata-cristãos); vi) mais próximo de nós no tempo, a Congregação para a Doutrina da fé apresentou, ainda assim, "exigências éticas fundamentais e irrenunciáveis" que um católico deve favorecer com o seu voto: desde a protecção do direito do embrião, até à defesa da justiça social e da solidariedade, no campo económico.


Liturgia das horas




A partir de Avessadas (Marco de Canaveses, Alpendorada):

Se me envolve a noite escura
E caminho sobre abismos de amargura,
Nada temo porque a Luz está comigo.

(Depois das Vésperas II, p.1063)

Bárbaros, quem?


Pedro MEXIA, À Espera dos Bárbaros, ExpressoA Revista do Expresso, 14. 02. 2015, 106.

O CASO GREGO FAZ PENSAR NUM POEMA DE KAFAVIS, O MAIOR DE TODOS OS POETAS GREGOS MODERNOS

Estou entre aqueles que consideram  “o acontecimento grego” uma notícia mais positiva do que negativa. Não sei se positiva para a Grécia, veremos,  mas certamente benéfica para a Europa. Porque a Europa, além de uma evidência geográfica mais ou menos extensível, é uma ideia histórico-cultural,  e política. E a política andava afastada das nossas conversas, do nosso horizonte, substituída pelas inevitabilidades concretas e pelas alternativas hipotéticas.
Como imaginam, não aderi à “coligação de esquerda radical”, não passei a prestar culto a Ernesto Guevara, e não faço questão de usar gravata ou de não usar gravata. Também não creio que o facto de “a austeridade” ter custos muito pesados signifique que “o contrário da austeridade” seja uma terra que mana leite e mel, onde as dívidas não se pagam, o dinheiro não se esgota e os bons sentimentos triunfam.  Em vez desses entusiasmos escusados, limito-me a confirmar que ainda há povos, nações, democracias, e que isso é um sinal de esperança no meio da desolação.
Ao oitavo ano desta crise, percebemos finalmente que a moeda única foi uma medida voluntarista e vanguardista, que fez tábua rasa das diferenças entre os países, nomeadamente em matéria de disciplina orçamental; verificámos que os europeus estão sempre a um passo da xenofobia (os mandriões do sul, os alemães nazis) ou da “schadenfreude”; demo-nos conta de que ainda dizemos, com uma naturalidade antiga e soberanista, que “os gregos decidiram o caminho da Grécia”; comprovámos que as democracias não foram suspensas; e soubemos que não há inevitabilidades.
Nada disto rasura as responsabilidades conhecidas dos sucessivos governos gregos, as fraudes e despesismos e contabilidades paralelas,  tal como não branqueia o pensamento mágico anti-austeridade,  que aliás se parece com algum pensamento mágico da austeridade.  Enquanto cidadão europeu, duvido que o actual plano grego seja viável: mas espero que os gregos negoceiem, e que a Europa negoceie com eles, a tal “engenharia inteligente da dívida”, que não compreendo ainda bem. Espero que os “burocratas ordoliberais”  e os “marxistas erráticos” se revelem “radicais moderados”, uma divertida expressão que a imprensa tem utilizado. E espero que os gregos não se isolem nem fiquem isolados. Não defendo as teses da  “vacina” ou do “dominó”, porque não sou sádico nem utopista; mas continuo um europeísta eurocéptico, que é uma forma saudável de acreditar na Europa.
O caso grego faz pensar num poema de Kafavis, o maior de todos os poetas gregos modernos. É um poema muitíssimo conhecido chamado ‘À Espera dos Bárbaros’. Dado o seu carácter narrativo, vou parafraseá-lo: algures na Antiguidade, os cidadãos esperam na ágora que os invasores bárbaros cheguem; os eloquentes ficaram silenciosos;  os senadores não legislam; os poderosos vestem imponentes insígnias e atavios; o imperador veio receber os bárbaros à porta da cidade.
Todos esperam que os bárbaros cheguem, que cheguem ainda hoje.  Mas ao fim do dia as ruas esvaziam-se, toda a gente se fecha em casa,  há desassossego e confusão: “Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram. / E chegaram alguns das fronteiras, / e disseram que já não há bárbaros. // E agora que vai ser de nós sem bárbaros. / Esta gente era alguma solução”. Cada um chamará “bárbaros” a quem quiser,  aos gregos, aos alemães, à Europa com ou sem aspas; congeminamos ameaças, álibis, redenções; mas estamos todos à espera de uma solução, ou de uma espécie de solução.

[uso a tradução de Nikos Pratsinis e Joaquim Manuel Magalhães editada pela Relógio D’Água]