sábado, 31 de janeiro de 2015

Pub: logo, no Teatro de Vila Real, "Orfeu e Eurídice"



Mais logo, Orfeu, o poeta maior que acalmava as sereias e vai ao Hades em busca da amada, resgatada da morte, por instantes, Eurídice perdida pelo olhar apaixonado antes do Sol, na revisitação do mito grego. Música de Christoph W. Gluck (1714-1787), coreografia de Olga Roriz, cenários e figurinos de Nuno Carinhas, produção da Companhia Nacional de Bailado.

Em Hélade, Maria Helena da Rocha Pereira recolhe dois fragmentos sobre Orfeu, o primeiro dos quais, no mais antigo testemunho literário, o frg.25 PAGE de Íbico (séc.VI a.C.): “…o glorioso Orfeu……….” (p.141), a que se seguem os frags.62 e 90 PAGE de Simónides (séc. VI-V a.C.): 

“Inúmeras, as aves voavam
 sobre a sua cabeça
 e os peixes, em pé, saltavam das águas de anil do mar,
 ao som do seu belo canto.


Não se ergueu então o sopro do vento, que abala as folhas,
para impedir que a voz doce como o mel
aderisse aos ouvidos humanos.

(p.179)

Em Estudos de história da cultura clássica (vol.I Cultura Grega), a mesma autora escreve: “Por outro lado, tudo parece indicar que a figura de Orfeu tem características que a situam no âmbito do xamanismo, ou seja, de uma experiência em que a psyche se separa do corpo e vive estranhas aventuras espirituais. Para M.L.WEST, em relação ao orfismo, «o único sentido seguro que pode dar-se ao termo é que o modo de proclamar Orfeu como uma autoridade» e, quanto à poesia órfica, não lhe atribui particularidades distintas das da restante poesia grega. «O nome de Orfeu», prossegue, «é onde tudo vai dar. Não sabemos o que significava originalmente, nem se o seu possuidor original era uma pessoa real».
Como práticas e doutrinas próprias do Orfismo podem apontar-se:
- a abstenção de derramamento de sangue
- o vegetarianismo
- a doutrina de que o corpo é a prisão da alma
a crença na purificação do pecado, por meio de certos ritos, neste mundo e no outro, o que leva a supor que aceitaram desde cedo a transmigração, embora o facto não esteja documentado antes da época clássica, nem durante ela” (p.318)

Aberração



A estupidez à solta, por Vasco Pulido Valente, no Público.

Um uso lamentável da língua portuguesa, por Luís Miguel Queirós, também no Público.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Ausência e nada


[Ainda o presépio de Torgueda, por exemplo]

Não são sinónimos. Ausência e Nada. "Com efeito, o lugar vazio, à mesa, em nossa casa, é, na realidade, o sinal de que falta alguém" (Gianfranco Ravasi, O grande encontro, 2015, 119).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

'A noite cairá'




Um dos aspectos que A noite cairá (Night will fall, Andre Singer, 2014) não deixa de tocar, e que por vezes se quer varrer para debaixo do tapete da História, é a dupla vitimação a que foram sujeitos os libertados, pelos Aliados, dos campos de concentração nazi: diferentes países, diferentes populações, como Grã-Bretanha ou EUA, não queriam receber "ex-reclusos", não pretendiam integrar aquelas pessoas vítimas da monstruosa máquina industrial da morte (nazi) entre os seus. Eu vou sair daqui, mas fico na Polónia? Como, se os judeus ali são tão mal tratados?, recorda, ter-se questionado, então, em 1945, uma das mulheres libertadas. Libertada deveras? Ainda hoje, podemos, aliás, ler ou escutar outros testemunhos de homens e mulheres que estiveram nos lager que nos dizem que não convinha contar, logo a seguir, a história do horror, porque isso virava-se contra os próprios. Muita gente não queria ouvir, não queria saber. Quem viesse trazer más notícias era mal visto. A viagem aos campos, pela população de Weimar, quase em turística, é deveras elucidativa. Um sistema económico que não se importava de aproveitar o trabalho escravo de terceiros, desde que o cheiro nauseabundo ficasse afastado das suas preciosíssimas narinas. De resto, as imagens, muitas delas de German Concentration Camps (Night will fall é um documentário sobre aquele filme) continuam absolutamente perturbadoras e a figura do muçulmano, entre o vivo e o morto, como questionando radicalmente o - que é - ser humano, como específica personagem dos campos nazis, perseguir-nos-à. A narração do filme exprime a esperança de que nós, os que olhamos o Sol de frente, não mais repitamos Bergen-Belsen. É de esperança que se trata.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Se isto é um sénior


Depois de explicar a determinante dimensão sistémica da crise do Euro, o Professor Viriato Soromenho Marques concluía, no seu Portugal na queda da Europa (Temas e Debates, 2014, p.120): "A transformação da responsabilidade sistémica em responsabilidade moral caiu bem na propaganda lançada por vários interesses instalados. Para um público europeu, que, na sua maioria, é iletrado em economia e desconhecedor das complicadas malhas do funcionamento da UE e da Zona Euro. Culpar o excesso de jardineiros gregos pela crise era mais fácil do que estudar, desmontar e reformar o terreno minado dos tratados europeus, onde a verdadeira raíz da crise se esconde".

Pensei que, em 2015, com toda a literatura entretanto publicada sobre as causas da crise na zona euro, com a diversidade de obras em português, com os múltiplos quadrantes ideológicos nelas representados, não fosse possível subsumir a crise grega a uma corrupção congénita e sem emenda, em uma explicação monocausal, isenta de qualquer ambiguidade ou complexidade. Contudo, bastou menos de uma semana a ouvir Rodrigues dos Santos, desde Atenas, para o mais completo simplismo desabar sobre as nossas cabeças. Se, como escreveu Soromenho-Marques, estudar dá trabalho, não estudar dá o preto e branco, que em 2011 ainda se aceitaria, mas que em 2015 é aterrador. Se fazer serviço público é isto, então estamos conversados.

Ontem, em ElPais, Paul Krugman também escrevia sobre a "moralina": diferenças de políticas na Europa e nos EUA para combater a crise, e respectivos resultados.

Adenda: talvez chamado à atenção, desde Lisboa, Rodrigues dos Santos disse, na noite desta segunda-feira, no Prós e Contras, que a queda do Lehman Brothers ou a globalização não eram culpa dos gregos e o euro só parcialmente.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Alan Turing




Também se pode ir ao cinema aprender História. Foi o que me aconteceu ao ir ver O jogo da imitação (Morten Tyldum). Não conhecia o génio matemático Alan Turing (Benedict Cumberbacht), nem o importantíssimo papel por si desempenhado no decifrar do sistema de comunicação dos alemães - o Enigma - durante a Segunda Guerra Mundial. De acordo com a narração do filme, mesmo no seu ocaso, ficámos a saber que se calcula que a descoberta de Turing tenha evitado mais dois anos de Guerra e, bem assim, poupado 14 milhões de vidas. Pelo meio, o filme questiona, também, a recepção social da diferença, em um caso em que o protagonista principal é um homossexual que se suicida aos 41 anos quando decorre um processo de castração química, em um processo a que se sujeita, depois de ser acusado judicialmente de conduta imprópria. À máquina que acaba por criar, e é determinante para decifrar os alemães, chama o seu autor Cristopher, nome de um amigo muito próximo de infância/adolescência - o único amigo que faz - e ajudando a um jogo de ambiguidades entre o que é uma máquina e um humano (critérios de distinção que estão na base de uma longa conversa com um amigo do sistema judicial que é seu admirador). No momento em que o Enigma é quebrado, nem assim a informação é passada aos militares, sendo que a definição das batalhas que se vão ganhar, apenas as estritamente decisivas para  ganhar a guerra (ganhar outras seria indicar ao inimigo que se possuía a chave da decifração), a definição, portanto, de quem vive e quem morre transforma o exercício a que a equipa de decifradores se vota num andar no fio da navalha (um dos membros quer avisar o irmão de um ataque, mas não o pode fazer, vendo este a perder, assim, a vida) que exige uma frieza que impressiona. 50 anos foi o tempo em que o segredo da decifração ficou confinado ao Governo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Evitável


Se esta medida [a intervenção do BCE, ontem anunciada] tivesse sido adoptada há quatro anos, não teríamos passado pelo que passamos, a austeridade não precisava de ser à bruta, tudo teria sido diferente. Assim se pronunciava, nada mais, nada menos, do que António Lobo Xavier na  mais recente Quadratura do Círculo, perante um irónico "está a descer sobre esta mesa o espírito santo bom", de José Pacheco Pereira. Mil vezes anunciada a inevitabilidade de tudo, de todas as medidas, de toda uma política, mil vezes apresentado o caminho único salvífico, mil vezes, naturalmente, desmentido pelos factos: a continuar tudo como dantes, a economia europeia esbarraria com estrondo na deflação e, por isso, a política muda. De imediato, os que sempre se opuseram a tal intervenção do BCE se mostram dos mais convertidos, como também é típico. Em todo o caso, também há os gurus e guardiões da pureza ideológica que dizem não ter fé nesta solução, até porque o seu credo é outro e não admitem sincretismos. Ainda não é o tudo está bem quando acaba bem, porque estamos longe do happy end, mas, pelo menos, soubemos que é evitável que se proclamem inevitabilidades que depois mudam.

Genealogias


É em After God, de Mark Taylor, que leio, pela primeira vez, a referência a Lutero como aquele que declarou, pela primeira vez, a "morte de Deus": "foi Lutero em um dos seus hinos, mais do que Nietzsche, quem declarou a morte de Deus pela primeira vez" (Después de Dios, Siruela, Madrid, 2011, p.67).

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A fantochada sem fim




Nem na taça da liga descansam. No meio da náusea, há momentos deliciosos. Comentando, na sic notícias, mais uma delirante arbitragem, David Borges chamou Cosme Damião a Cosme Machado. O dr.Freud explica.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Uma boa síntese


Patrícia VIEIRA, Ser ou não ser… Charlie: será esta a questão?, Público, 20. 01. 2015, 46

“Eu sou Charlie”, proclamaram nos últimos dias milhões de pessoas nas ruas de cidades um pouco por todo o mundo, assim como na Internet. A este coro de vozes apressou-se a responder um outro anunciando “Eu não sou Charlie.” Ser ou não ser Charlie passou a refletir uma determinada posição política, social e religiosa. Mas o que significa, afinal, identificar-se ou não com Charlie? Será esta a questão central que enfrentamos, no rescaldo dos ataques em Paris?
Vale a pena lembrar aqui quem temos sido e deixado de ser recentemente. Só nos últimos meses, a opinião pública mundial foi palestiniana, sob o fogo do exército israelita, foi Michael Brown, o adolescente negro assassinado pela polícia em Ferguson, EUA, foi polícia, por ocasião dos atentados no Canadá e depois em Nova Iorque, foi australiana, aquando do sequestro em Sydney, e foi, para além de Charlie, judia, depois das mortes no supermercado kosher, e muçulmana, em apoio aos muçulmanos franceses moderados.
A identificação com as mais variadas vítimas sucede-se a uma velocidade crescente. Somos palestinianos e judeus, Charlie e muçulmanos, até que a próxima tragédia nos forneça novos mártires que possamos chorar, nos quais nos reconheceremos ou não, fugazmente, ao ritmo alucinante dos meios de comunicação e da Internet.
Ao “sermos” esta ou aquela pessoa, um ou outro grupo social, partilhamos o sofrimento alheio e exprimimos a nossa solidariedade para com as vítimas. Mas será a identificação, com a sua forte componente emocional, a melhor resposta a estes eventos?
É óbvia a superficialidade deste tipo de identificação passageira, que muda a cada novo ciclo de notícias. Se o nosso acesso quase imediato à informação potencia um estado de permanente efervescência emotiva, o que é certo é que a nossa reação aos múltiplos estímulos a que estamos sujeitos é necessariamente transiente e permanece à flor da pele.
Um outro problema com a identificação é o seu carácter reativo. Quando nos identificamos com alguém, reagimos emocionalmente a um evento e abandonamos a nossa distância crítica, o que significa que, em última análise, sacrificamos a nossa capacidade de pensar.
Este abandono da faculdade de reflexão é notório no debate que se tem vindo a desenrolar em relação à necessidade de ser ou não ser Charlie. Aqueles que “são Charlie” invocam o desejo de defender a liberdade de expressão e condenar a barbárie do terrorismo muçulmano; os que “não são Charlie” consideram como ofensivas as caricaturas do profeta Maomé que figuram frequentemente no Charlie Hebdo.
Bastaria um módico de pensamento crítico para concluir que estas posições, aparentemente irreconciliáveis, estão afinal bastante próximas. Defender a liberdade de expressão não implica apreciar as caricaturas de Maomé ou de qualquer outra figura religiosa, incluindo o Papa ou rabinos. Significa, sim, concordar que queremos viver numa sociedade sem censura, na qual temos a possibilidade tanto de praticar livremente a nossa fé, como de caricaturar figuras religiosas e rirmo-nos delas sem receio, se assim o desejarmos.
A polarização social que resulta da identificação cega com um ou outro grupo, com os que são ou com os que não são Charlie, faz-nos perder de vista o essencial. Se, por um lado, é claro que não somos Charlie, já que é pouco provável que alguém concorde a cem por cento com todo o conteúdo de um jornal, por outro lado, certamente somos Charlie na nossa defesa da liberdade de exprimir opiniões diversas na imprensa, incluindo aquelas com as quais não estamos de acordo.
A crítica a uma identificação simplista com determinados grupos de opinião é talvez a mensagem mais profunda da capa da última edição do Charlie Hebdo, onde vemos um choroso profeta Maomé exibindo um cartaz no qual se lê: “Eu sou Charlie.” Estará o profeta realmente arrependido? Será a sua tristeza real, ou chorará ele lágrimas de crocodilo? Ter-se-á a expressão “Eu sou Charlie” tornado tão popular que nem o profeta lhe pode resistir? Será ele sincero, ou resultará a sua identificação da pressão dos meios de comunicação? Quem representa ali Maomé, a comunidade muçulmana, os líderes religiosos, ou todos nós, emocionados com os eventos recentes?
O debate em torno de ser ou não ser Charlie encobre uma questão mais profunda, que os colegas dos cartoonistas assassinados nos quiseram relembrar. Antes de sermos ou não sermos Charlie, afigura-se-nos o dilema shakespeariano do ser ou não ser tout court, ou seja, somos confrontados com um problema existencial, que nos convida a refletir sobre o que significa viver. É este impulso que se perde quando aderimos sem hesitações a causas mediáticas e, abandonando a nossa faculdade de pensar, nos tornamos Charlie ou não Charlie.
Aqueles que foram tocados mais de perto pela tragédia, os cartoonistas do Charlie Hebdo, ofereceram-nos na nova capa do jornal um exemplo de coragem intelectual. Resistindo à onda superficial de identificação ou não com os seus colegas, fizeram-nos rir do que se passou e, na distância criada neste momento cómico, na apreciação dos matizes da piada, abriram espaço para pensarmos sobre o que aconteceu.

Professora na Universidade de Georgetown, EUA

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Da 'maior conspiração desportiva da história'




Hoje, na crónica na universidadefm:


Lance Armstrong e a maior conspiração desportiva de sempre

O desporto de europeus operários que viam no ciclismo uma forma de se furtarem ao mundo duro da siderurgia ou da agricultura (p.97), é assaltado, no final da década de 90 do século passado e no primeiro decénio desta centúria, pela pedalada esmagadora de um norte-americano, que carrega sobre os pedais a fúria, o ressentimento, a raiva (p.145) de uma infância/adolescência difíceis com o padrasto, e uma ambição ilimitada pelo êxito.
Operado a um cancro, quando se lhe diagnosticara menos de 50% de hipóteses de sobrevivência, Lance Armstrong investe-se no papel de grande herói de uns tempos que demandam, em demasia, o desportista-celebridade. As sucessivas vitórias no Tour de France criam uma verdadeira marca, a Armstrong S.A., dezenas de patrocinadores rendidos ao espantoso fenómeno do Texas, e que, no ano de 2005, rendem ao ciclista a fabulosa fortuna de 16 milhões e meio de euros. No entanto, saber-se-á, em definitivo, no início da segunda década dos anos 2000, os sucessos alcançados são indissociáveis do recurso a substâncias proibidas que melhoram a performance desportiva. Aliás, logo a quando das intervenções médicas destinadas a solucionar o gravíssimo problema de saúde de Armstrong os profissionais de medicina o interrogam sobre a utilização de doping (algo que o ciclista terá, à época, confirmado – p.129). Hoje, o nexo de causalidade entre o recurso ao doping e a doença que apoquentava Armstrong não está provado, mas há estudiosos que suspeitam dele (desse nexo de causalidade). Seja como for, ao milionário proveito que as marcas tiram com a exposição permanente através do assíduo camisola amarela da Volta à França – algo que fará com que estas não reclamem nos tribunais, contra Lance, mesmo quando este cai em desgraça -, junta-se uma comunicação social embevecida e, com raras excepções como David Walsh, pouco escrutinadora – em particular, a norte-americana, se se excluir o Wall Street Journal, na medida em que um desporto com escassa tradição nos Estados Unidos da América passa a ser atraente para o grande público. A completar a tríade que explicará, muito, do porquê de tantos anos o corredor passar incólume, o humano desejo de heróis – o ser humano não aguenta demasiada realidade, costuma dizer, com mordacidade, Vasco Pulido Valente – e a máscara assentar como uma luva em quem superou o cancro e apresentava níveis competitivos assombrosos. A juntar a isto, a ciência que, em nossos dias, adquire o papel de deus ex machina (definitivo): um académico apresenta uma tese, aliás publicada em revista científica da área, que garante que o corpo de Armstrong é do outro mundo e tal é a prova provada de que tudo está bem, tudo é legal (p.248). Infelizmente, não era. E há ainda uma instituição responsável pelo ciclismo internacional que recebe donativos do ciclista (algo provado em tribunal), parece fazer vista grossa a claros indícios de doping e fica sob a séria acusação de se ter deixado subornar (p.224). Muitos ciclistas, é certo, ficam entre a espada e a parede: às tantas, o doping está tão generalizado no ciclismo, que a opção parece ser entre entrar no esquema, ou abdicar, ab initio, de vitórias, ou até de um contrato para ajudar outros a ganhar. Num mundo onde todos são criminosos, haverá crime? Mas, será mesmo assim?
Um outro argumento, dir-se-ia mais cínico, passa, por apresentar Armstrong como o vencedor real do Tour, pois que em todos se dopando, acabou este ciclista por mostrar ser melhor do que os concorrentes. Ora, não é exactamente deste modo. Entre os esquemas ultraprofissionais de algumas equipas e a anarquia amadora de outras; entre um esquema preparado com meses de antecedência e as escolhas ad hoc de outros team’s; entre a precisão individualizada para o mestre de turno, um dr.Ferrari pago a peso de ouro (no total, Lance pagou 1 milhão de euros a este médico), e uma resposta menos dispendiosa; entre a vanguarda do doping e o atraso na droga escolhida, ou, pelo menos, nos modos de a usar, eis uma panóplia de detalhes, onde o diabo, como se sabe, se abriga, e que nem aos cépticos dá descanso. É o que demonstra a publicação de dois jornalistas do Wall Street Journal, Lance Armstrong - o ciclista ( publicado em português pela Livros D'Hoje). De resto, houve, felizmente, quem não se dopasse. Sem hipóteses de ganhar, lá isso é verdade.
Reed Albergotti e Vanessa O’Connell, os investigadores do periódico de referência na área financeira, constroem, assim, um caso sobre um personagem egocêntrico, arrogante, manipulador e autêntico Casanova anos 2000, mas, também, sofredor, determinado, capaz de se empenhar na luta contra o cancro, inspirador para milhões de pessoas – a pulseira amarela livestrong vendeu 900 mil exemplares, um dia apenas após Armstrong a levar a um programa televisivo -, perseverante e lutador. Mas não se fixam, exclusivamente, os autores naquele que chegou a ser a lenda do Venteux; antes, e mais interessantemente, dão conta de todo o complexo processo cultural (de que, de algum modo, quase todos os que gostamos de desporto, e vitoriamos vários dos seus personagens, como Armstrong, participamos), profissional, mercantil (“um mundo desportivo que perdeu a cabeça com o dinheiro”, escrevem os autores, a páginas 423) que originou o que chamam de “maior conspiração desportiva de sempre”.


Boa Semana.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Boyhood e as famílias anos 2000 e...



Mason (Ellar Coltrane) é o (real) personagem principal de Boywood (Richard Linklater), a criança que acompanhamos até ser o jovem universitário que cursará Fotografia, filme atravessado por um novelo de relações e de famílias, em que se multiplicam os contactos, os conhecidos, os "meios" irmãos, mas onde a fragilidade de muitos vínculos se percebe também, devorados pelo efémero, pela mudança permanente em que as nossas sociedades parecem instalar-se, não raro. As casas que Mason e a irmã habitarão são muitas; as escolas diversas; as localidades outras tantas; os padrastos múltiplos. O amor de mãe e pai parecem ser, aqui, quase os únicos que sobrevivem a tudo. Ainda que por vezes, alimentadas de tensão, de frustração, as relações entre progenitores e descendentes nunca se quebram. O pai de Mason, o homem que vem aos fins de semana para rever os miúdos, nem sempre consegue à primeira o tom certo para se abeirar das questões que o preocupam nas crianças. A intimidade destas é algo a conquistar. O medo paterno com um (não) saber lidar com os filhos é bem palpável. As regras, permeadas por diferentes sensibilidades que acompanham os relacionamentos maternos, se, em alguns casos, parecem tão rígidas (carácter dos padrastos em causa), por outro lado surgem, paradoxalmente, como jogo a que se foge sem problemas (em mudando-se os companheiros tantas vezes, criam os já adolescentes as suas próprias regras). Há, na película, um certo ideário americano, no macjob que o adolescente deve frequentar para ganhar o seu primeiro dinheiro ("compras um carro quando poupares para isso", diz o pai). Há um enorme idealismo em Mason, que nunca perderá um tom doce nas várias etapas de crescimento que acompanhamos (na composição do carácter, ao no problems, de Mason, a irmã emergirá, em certa medida, em contraponto). O pai levará os filhos ao bowling, ao futebol (americano), acampará com o filho e explicar-lhe-à segredos da vida. Será ele a trazer o tema da sexualidade para a conversa com os descendentes. Não é fácil. Pai que entretanto terá nova namorada, relação da qual nascerá nova criança. A mãe, sacrificada e financeiramente totalmente responsável pelas crias, incentiva a emancipação destas, mas, em chegada a hora, não resiste a um certo sentimento de solidão e vazio, sobretudo vazio. Mason passa pelos desamores de liceu que o deixam tocado, mas termina em um pôr do sol muito especial, já universitário do Texas. Afinal, para que serve tudo isto?, perguntara ao pai. Termos emoções já é muito bom, responde-lhe este. "Acreditas que estes dois já terminaram o liceu?!", interrogara a mãe de Mason o seu ex-marido. No meio de uma diversidade tal, de uma confusão que é sempre um work in progress, de uma mãe que continua por encontrar o caminho "tanto como eu" (diz Mason), esse crescer, saudável, apesar de todas as contradições, de todas as inseguranças acaba, de facto, por aparecer como extraordinário.

Isto existe mesmo


Leio hoje nas observações em um livro de ponto: "não foi possível dar a aula devido ao mau comportamento da turma".

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Exigência, ou braços caídos?




Rui Tavares equaciona, na entrevista a Vítor Gonçalves (ontem, na RTP Informação), como uma das possíveis frente-charneira, na nossa economia, um ensino superior de grande qualidade que consiga atrair estudantes dos mais variados espaços europeus. Adriano Moreira, em A circunstância do estado exíguo, havia, precisamente, ensaiado sobre a Educação como função de soberania (estatal), porque ao exportar-se o ensino superior - o especialista em Relações Internacionais falava, essencialmente, em uma projecção da nossa universidade para os países que compõem a CPLP; atrair estudantes, em grande número, desta comunidade - poderia alcançar-se uma das formas de manter a nossa independência (com a natural afluência de recursos de aí advinda). No passado fim-de-semana, o Expresso falava na nova geração de imigrantes chineses (com formação superior) que vêem para Portugal - muitos, na sequência das aquisições de empresas de grande dimensão que eram estatais, como sabemos - e cuja exigência na educação se manifesta, por exemplo, nas aulas de mandariam e de inglês que ocupam as manhãs e tardes de Sábado, dos seus educandos, em Lisboa. O inglês será, para estes, prioritário, porquanto o objectivo dos progenitores será colocar os filhos no ensino superior de Inglaterra ou EUA. Que país teríamos, puxados a esta nova vaga, de uma pressão externa nas salas de aula, eis a interrogação maior do semanário. Não creio que o caminho percorrido ao longo dos últimos, razoáveis, anos, entre nós, tenha sido, à luz do que posso constatar - e ainda no dia de hoje pude perceber como encontrar alguém que goste de ler, em várias turmas do terceiro ciclo, é um verdadeiro achado; jornais apenas os desportivos ou locais/regionais - tenha sido no sentido de acomodar, sem dificuldades, esta vitalidade exigente vinda do exterior. Às vezes, fico, mesmo, com uma sensação de braços caídos, como se o ir ao encontro de interesses dos mais jovens, levasse não a um elevar estes a novos patamares de conhecimento e bitola de exigência, mas uma pretensão de tornar o professor, e as aulas, (ainda) mais infantilizadas, como se tal ajudasse os meninos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Tax rulling


Um dia depois do CEO da Apple, sob forte escrutínio, em comissão de investigação do congresso norte-americano, ter confirmado o tax rulling com o estado irlandês para que aquela empresa fosse tributada a 2%, naquele país europeu, o primeiro-ministro irlandês afirmou, interrogado em viagem europeia, que "não concordo com o comentário" feito pelo executivo Apple. "Não concordo com o comentário" - curiosa expressão. Assim também, François Hollande: questionado, em Bruxelas, sobre se não era esquizofrénico o estado francês oferecer incentivos monetários - de mais de um milhão de dólares - à Amazon para que esta se instalasse em mais uma terra gaulesa, quando esta empresa transferia os lucros para o Luxemburgo, onde seriam tributados de um modo pouco razoável (taxas demasiado baixas), disse que uma coisa era darem incentivos para as empresas se localizarem em França e outra era procurar cobrar os impostos devidos às multinacionais. A urgência de empregos - o dilema empregos/impostos - em tempo de crise agrava a resposta, muitas vezes mais popular à primeira vista, dos governos que querem fazer flores para um eleitorado ávido de boas notícias. O preço pago, como se percebe no caso Mitall, é astronómico (impostos reclamados de mil milhões de euros). Os deputados britânicos, em comissão de inquérito, dizem-se "muito zangados", ao director de comunicação da Apple, e a comissão norte-americana acabou mesmo por obrigar a confessar o director financeiro da Apple a optimização fiscal - para muitos, eufemismo de evasão fiscal - em curso. Robert B. Reich advoga, em AfterSchock, que quem promove estas práticas perca a cidadania norte-americana. Por cá, entregamos prémios a quem vai para a Holanda. Originalidades.
Pagos principescamente são escritórios de advogados - para manter o estado à distância. Estado que, aqui e ali, se confessa impotente e sem meios suficientes, para perseguir todos os delitos, fugas, ambiguidades de pagamento de impostos. Estado, não raro, inundado de documentação pelas próprias empresas, que em casos de menores quantias se oferecem como culpadas, visando obstar a que se persiga a fatia de leão. Existe, ainda, a ideia de que "todos o fazem, como não podíamos nós deixar de o fazer?", em políticos que pactuam com o status quo ou o criam. A política tem uma palavra, uma palavra determinante a dizer. E não há neutralidades. Uma omissão é um pecado. Há quantias substanciais depositadas no Dubai, um dos cofres dos milionários. No Luxemburgo de Juncker, a receita de impostos que se retira a outros países é de tal ordem que daria para liquidar a dívida somada dos países com problemas na zona euro. Juncker, ainda como PM luxemburguês, alega que o caso não é apenas seu e cita um conjunto de países europeus onde insinua que os acordos que praticou também se realizaram.

(a partir de documentário da France 2)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Talibés




Mbour é uma zona portuária, no Senegal. Lá, onde pais muito pobres não conseguem criar os filhos e entregam-nos a mestres corânicos (para que estes os eduquem). Cinco da manhã é hora de levantar. Começa a recitação do Corão, luzco-fusco na rua. Até às seis, o decorar em tábuas os versos ditados ao Profeta é a tarefa. Hesitações ou erros são severamente castigados. As crianças são permanentemente batidas. Espera-se que ao fim de uns anos na escola corânica, os meninos saibam, na íntegra, as páginas do Corão. Nessa altura, está completo o kamil. Às seis da manhã começa a mendicidade das crianças. Se não trouxerem cerca de 80 cêntimos, em dinheiro ou espécie aos seus mestres, são, de novo, seviciadas. Em zona piscatória, por vezes levam peixe para a escola de origem, noutras pratos já cozinhados pela vizinhança, roupas. A população local, escutada em Os meninos das madrassas, reportagem exibida na sicnotícias, parece concordar com a mendicidade infantil. São 8 horas a pedir e 9 horas a recitar o Corão, por dia. Há sono por colocar em ordem. Finalizada a formação inicial, muitas crianças vão trabalhar para propriedades rurais dos mestres corânicos. Outros fogem: fartos da pancada, sobretudo. Deixam, então, o Corão de lado. Se as madrassas acolhiam centenas de miúdos, uns em cima dos outros, vão agora tentar a sorte na grande metrópole - Dakar tem três milhões de habitantes. Assistentes sociais e médicos farão os possíveis pelos meninos. Os talibés são cerca de 50 a 100 mil, segundo a contabilidade internacional; 300 mil, de acordo com ONG senegalesa. E é um fenómeno que tem vindo a aumentar na África ocidental. Pobreza extrema, descuido, irresponsabilidade. Há escolas, ao lado das corânicas, cujo objecto não é o "texto sagrado" e que são gratuitas ou quase - mas, por exemplo, os miúdos têm que ir almoçar e jantar a casa. Há pais que nem isto conseguem sustentar. E, mesmo estas escolas, têm condições extremamente precárias. Os talibés muitas vezes nem conhecem os pais, ou só fazem a partir da adolescência.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Norte do Norte





Publiquei, originalmente, este texto, a propósito de uma exposição no Centro Português de Fotografia, no Porto, a 13 de Setembro de 2007, no Lamego Hoje.

Para a Lara e para o Rui.


A Norte do Norte

Até 16 de Setembro, no Centro Português de Fotografia (CPF), na Cadeia da Relação, no Porto, ficamos, transmontanos por nascimento e gosto, presos à memória que trazemos connosco: a da jorna dura, rude, campos férteis às mãos da labuta humana sintonizada com o projecto da Criação, egrégios avós que nos legaram identidade granítica, das casas onde viveram ou pelas quais passaram, prados calcorreados, corridos na pastagem das cabras e ovelhas, no leite chupado, sorridente, e sorridentemente, na teta da vaca. Castos namoros, em cantigas de amigo. Uma ida à fonte mais demorada, a traço de lírica imemorial, com os irmãos, muitos, a cobrir as costas. Quando cobriam e não eram malvados.
A preto e branco, escolha subjectiva, o(s) retrato(s) de George Dussaud poderia(m) traduzir nessa fotografia a duas cores – sim, há, também, resíduos de cinza sobre o papel – uma dupla ideia que me ocorre enquanto percorro a exposição: a de que se o Norte do Norte de Portugal, 1980-1995, faz lembrar, verdade, “certas comunidades primitivas”, ele lança, simultaneamente, um forte apelo, interpela-nos instintivamente como espaço primordial.
Há alegria, por entre o frio que desenha caras, rugas rogadas dos céus, mas não corações, esses viçosos e flamejantes corações, há alegria por certo. Uma fotografia, Dussaud, percebemo-lo, colocado em plano sobranceiro ao restante grupo tira espontânea, espontâneo: há última ceia (!), vê, então, como um achado divino, como quem vê do alto. Doze pratos, em desfolhada feliz, debruada a feno, cadeira desnecessária e, logo, inexistente, posta em comunidade na simplicidade, ia a dizer solenidade, do linho sobre a mesa. Simplicidade na conversa cantiga à desgarrada, galarós a disputar poleiro, solenidade na reunião de quem partilha o pão e o vinho. Eis a fotografia que mais me encanta. Que mais me prende.
Fito, depois, a cara dos meninos-homens, sempre mais homens do que meninos apesar de serem meninos, mas são já meninos de canivete na mão, paradoxo, contradição ou circunstância (?) e parecem-me sempre tímidos, acanhados, desconfiados, talvez, do mundo lá fora, onde aqueles seres “simples e verdadeiros” não querem ser corrompidos.
Todos, no entanto, são bem-vindos ao reino maravilhoso. E bem tratados. Todos poderão partilhar da côdea que sustenta o porco acabado de matar. Telúrico retrato, onde o fogo não falta. E até, sofisticação literária em forma e força de imagem, Alice com textura de Lewis Carrol, onde o bocejo canino é, fortuitamente, adequado ao quadro artisticamente desejado.
Xailes pretos de luto? Sim, cemitérios católicos, mulheres peregrinas. Mas não serão, também, xailes pretos das Martas-anjos caídos de que fala Pires Cabral, na consabida arte transmontana do conto, em Vilar Frio (conto introdutório a Portugal Terra Fria, de George Dussaud)? Daquelas Martas que viram os maridos saltar fronteira em busca de um mundo melhor, que foram para a França e para a Suiça, para a Alemanha e os Brasis, e assim enviuvaram, fazendo promessas mil de que Ninguém, mais cedo do que tarde, desconfiara…acabaram, quase em definitivo, os fornos comunitários? Foi-se, maioritariamente, o espírito de entreajuda, de solidariedade, de caridade? Perdeu-se, de vez, a agricultura? Já ninguém, praticamente, faz pão em casa? Já ninguém faz troca-a-troca, em economia rudimentar? Foi-se o mundo onde “o valor de um homem mede-se pela sua coragem no trabalho e a dureza da vida não impede a alegria” (Dussaud)? Foi abalada a fortaleza-mor, no Norte do Norte?
Foram-se, cada vez mais, de um país que não lhes liga, que não os quis. Essa saída agora, já com a CEE e tudo, foi mais frustrante. Os doutores não aproveitaram a Europa. Frustrante de mais para quem, assim, ama e é ensinado a amar a terra. Emigração levou miúdos, já não ensimesmados, já não analfabetos, talvez já não tão mal vestidos e ranhosos, mas com eles a escola, os correios, a polícia, o médico, a televisão e o instituto de meteorologia. Levou quase tudo o Paço, e tornou o prenúncio de morte, lá dos lados de onde eu venho, um ruidoso sinal ao qual os tímpanos fogem, medrosos. Não é Soutelinho que se vai, na serra do Larouco; não estão em causa Pitões das Júnias, o Barroso, o Gerês e a serra da Nogueira, eternizados por Dussaud, mas, sobretudo, pelas gerações que no-los legaram: é o país, é Portugal que está pior.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Do justo

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A procura da verdade


Ayaan Hirsi Ali, membro da Escola Kennedy, de Harvard, hoje, em ElPaís:

Después de la horrenda masacre del miércoles en el semanario satírico francés Charlie Hebdo, tal vez Occidente renuncie por fin a la abundante retórica inútil con la que intenta negar la relación entre la violencia y el islam radical. No fue el ataque de un pistolero perturbado que actuaba como un lobo solitario. No fue una agresión “no islámica” perpetrada por un puñado de matones: se pudo oír cómo los criminales gritaban que estaban vengando al profeta Mahoma. (...)  Occidente está horrorizado, como corresponde. Pero no debería estar sorprendido. Si se puede extraer alguna lección de un episodio tan espeluznante es que lo que nosotros creamos del islam en realidad no importa. Este tipo de violencia, la yihad (o la guerra santa) es lo que ellos, los islamistas, creen. El Corán contiene numerosos llamamientos a la yihad violenta. Pero el Corán no es ni mucho menos el único caso. En una parte del islam demasiado grande, la guerra santa es un concepto absolutamente actual. La biblia de la yihad del siglo XX, y una obra que hoy día anima a numerosos grupos islamistas, es The Quranic Concept of War (El concepto coránico de la guerra), un libro escrito a mediados de la década de 1970 por el general pakistaní S. K. Malik. Este sostiene que, puesto que el propio Dios, Alá, fue el autor de todas y cada una de las palabras del Corán, las leyes de la guerra contenidas en él tienen una importancia superior a las elaboradas por los simples mortales. En el análisis que hace Malik de la estrategia coránica, el centro del conflicto no es un campo de batalla físico, sino el alma humana. La clave para la victoria, como enseñó Alá mediante las campañas militares del profeta Mahoma, es golpear el alma de tu enemigo. Y la mejor manera de hacerlo es a través del terror. El terror, escribe Malik, es “el punto en el que convergen los medios y el fin”. El terror, añade, “no es un medio de imponer decisiones al enemigo; es la decisión que queremos imponer”. Los responsables de la matanza de París, exactamente igual que el hombre que asesinó al cineasta holandés Theo van Gogh en 2004, pretenden imponer el terror. Y cada vez que nos rendimos a su idea de la violencia religiosa justificada, les estamos dando exactamente lo que quieren. En el islam es un grave pecado representar visualmente o injuriar de cualquier modo al profeta Mahoma. Los musulmanes son libres de creerlo, pero ¿por qué se debería imponer esa prohibición a los no creyentes? (...) Es más, a pesar lo que pueda enseñar el Corán, no todos los pecados se pueden considerar iguales. Occidente debe insistir en que los musulmanes, en particular los miembros de la diáspora musulmana, respondan a la siguiente pregunta: ¿qué es más ofensivo para un creyente, el asesinato, la tortura, la esclavitud y los actos de guerra y de terrorismo que se cometen hoy día en nombre de Mahoma, o la producción de dibujos, películas y libros que pretenden ridiculizar a los extremistas y su visión de lo que Mahoma representa? (...) La manera en que respondamos a este ataque tiene importantes consecuencias. Si adoptamos la postura de que nos estamos enfrentando a un puñado de criminales homicidas sin conexión con lo que proclaman tan ruidosamente, no les estaremos respondiendo. Tenemos que reconocer que, en la actualidad, los islamistas actúan movidos por una ideología política, una ideología que es parte integrante de los textos fundacionales del islam. No podemos seguir pretendiendo que es posible separar las acciones de los ideales que las inspiran. Esto supondría una novedad para Occidente, que en demasiadas ocasiones ha dado respuestas conciliadoras a la violencia yihadista. Aplacamos los ánimos de los jefes de Gobierno musulmanes que nos presionan para que censuremos nuestra prensa, nuestras universidades, nuestros libros de historia, nuestros programas académicos. Ellos reclaman y nosotros les complacemos. Aplacamos a los líderes de las organizaciones musulmanas de nuestras sociedades. Nos piden que no vinculemos los actos de violencia a la religión islámica porque nos dicen que la suya es una religión pacífica, y nosotros les complacemos. ¿Y qué recibimos a cambio? Kaláshnikovs en el corazón de París. Cuanto más nos plegamos, más nos autocensuramos, más conciliamos, más audaz se vuelve el enemigo. Solo puede haber una respuesta a este abominable acto yihadista contra el equipo de Charlie Hebdo, y es la obligación de los medios de comunicación y de los líderes occidentales, religiosos y laicos, de proteger los derechos más básicos de libertad de expresión, ya sea mediante la sátira o en cualquier otra forma. Occidente no debe aplacar, no debe ser silenciado. Debemos enviar un mensaje colectivo a los terroristas: vuestra violencia no puede destruir nuestra alma.

P.S.: Não por acaso, Tolentino de Mendonça pontua que em sociedades avançadas, os homens cultos da cidade procuram conhecer a teologia, a compreensão de Deus, o discurso sobre Deus que se faz a seu lado (ainda que não se considerem, tais homens cultos, "crentes"). É preciso fazer esse esforço de procurar compreender a arqueologia de uma ideia, de um sentimento, de uma convicção, de uma paixão. Hirsi diz aqui, contrariando muitos outros, que "não podemos continuar a pretender que é possível cindir as acções dos ideais que as inspiram" e é por isso que continuar a estudar o modo como os 'textos sagrados' são recebidos, em diferentes àreas culturais, é fundamental. Para se compreender a raíz do medo. E para se ultrapassar, em busca da verdade, o tal politicamente correcto, a que se referia Pacheco Pereira. A grande maioria dos muçulmanos não pega em armas para eliminar o seu semelhante - sim. Mas também é uma minoria que aceita submeter os escritos corânicos à crítica histórica e literária, que permita, a seguir, superar o literalismo (dos textos). A realidade é sempre complexa. Fernando Ventura relatou, no já mencionado debate na RTP Informação, o diálogo, por si mantido, com um dos líderes de uma organização radical islâmica, no início dos anos 2000, em Roma, "um homem muito culto", alguém de origem portuguesa e com uma formação inicial de origem cristã, que questionado pelo porquê da adesão ao extremismo islâmico lhe respondeu que "o cristianismo tem muitas folgas". Não queria pensar demasiado em cada situação, e o Islamismo dizia-lhe o que Alá pretendia para cada ocasião. Isto é muito interessante de cruzar com os escritos de Halík sobre os desertos nas catedrais europeias, a impaciência para um Deus que deixa um grande espaço à nossa autonomia, criatividade, decisão; as pegadas, que existem, mas difíceis de ler e complexas, que exigem uma interpretação (em comunidade) constante. Para muitos, caindo uma concepção idolátrica de Deus, cai tudo. Não conseguindo levantar-se. O esforço que muitos teólogos fazem no sentido de compreender um Deus que só vem através dos outros, um Deus que se nos oferece mas com mediações, que não é um objecto exterior, esse esforço ainda está para dar frutos. Num certo sentido, a Ocidente como a Oriente, fora do literalismo, nada. Daí o esforço para o manter. À bomba, se for preciso.

Livros para tempos sombrios




Ainda na linha do que escreveu Graça Franco, vale a pena ler ou reler Rob Riemen, neste livrinho. Mais em forma de síntese do que em originalidade, mas está cá tudo. Os educadores e os políticos - aqui vai a questão do sentido colocada à polis - deviam ter sempre na mesa de cabeceira.

P.S.: Num debate, na noite de ontem, na RTP Informação, o Professor de Psicologia Criminal Carlos Poiares disse que a desvalorização, ou volatilização da fé cristã, a Ocidente, do papel da religião, entre outros, havia criado, sem dúvida, "fortes lacunas simbólicas" [somos, também, sem dúvida, homo symbolicus] que, em alguns ou bastantes jovens (ou menos jovens), se traduzia numa ausência de sentido ou objectivos para a vida que os tornava especialmente aptos para a inscrição em movimentos totais, como os do fundamentalismo islâmico. Corroborou, de resto, nestes termos, o que víramos reproduzido no documentário, de que aqui se deu conta, transmitido pelo Panorama BBC sobre a adesão de nativos britânicos ao jihadismo, ou, ainda, o que o 'jihadista português' deixou entender na entrevista à revista Sábado (em particular, quando afirmou que a oferta de bola e cinema  - ou aquilo que passa por cinema - em shopping era de menos), igualmente aqui assinalada. Para retomar Carlos Poiares, refira-se que concluiu pela pertinência do diagnóstico cultural feito por Gilles Lipovetsky, isto é, que vivemos a Ocidente "a era do vazio". Pena que só em momentos dramáticos (e ocorridos perto de nós, em termos geográficos) estas questões assomem, em forma de diálogo/debate, ao espaço mediático.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Chapeau


Graça Franco, na RR:


Séries que ajudam a ler um tempo (II)


Olhando para a primeira temporada de Newsroom, um interessante testemunho de um tempo: a inserção, no principal noticiário de uma estação televisiva, de um comentário económico especializado; uma jornalista, que nunca havia editado uma peça de economia, a sentir a necessidade de ter aulas, com uma professora de Columbia, para apreender conceitos essenciais da disciplina e conhecimentos fundamentais para ler o momentum (a lei Steagall-glass e seu desmantelamento, por Clinton, não passam ao lado da série); a interactividade com os (tele) espectadores, com a emergência de comentários, via twitter, ao telejornal, em tempo real, projectados, mesmo nos seus disparates, por esse mesmo jornal nocturno; a decisão difícil de deixar o local pouco significante, para o global decisivo (as audiências privilegiam o primeiro, ainda que o significado objectivo de um acontecimento em terras longínquas seja de bem maior monta); a tensão entre o recusar da pura emoção - "as pessoas gostam de grandes catástrofes, casamentos desfeitos, etc" - e o apelar ao pensamento abstracto que, por sua vez, se pode transformar em "uma aula"; o deslumbramento com os gadjets tecnológicos, não faltando o genial especialista indiano (como não?) contratado para lidar, como ninguém, com a net; a erupção do jornalista-cidadão, com a Primavera Árabe a ser coberta, no terreno, por um egípcio contratado via Skype, pela estação televisiva; essa via, ainda assim, como alternativa a um jornalismo feito do quarto de hotel (a quando da queda de Mubarak); o risco crescente, para as próprias vidas, em que incorreram os jornalistas na descrição de grandes fenómenos globais; o difícil jogo entre administração e direcção de informação, entre as audiências, os acordos publicitários, e a verdade procurada pelo jornalismo; a denúncia do extremismo ideológico do Tea Party e suas contradições e a postura, no fio da navalha, entre questionamento firme e convicção apaixonada (por parte de um pivot); a liderança de equipas, o corpo às balas em nome de quem se lidera, como factor crucial para a motivação de todos; a adrenalina para ter a notícia primeira, uns segundos na dianteira que podem valer milhares de dólares, confrontado com o dilema de anunciar uma morte por confirmar (oficialmente), quando a concorrência a dá como certa; a procura de calar um jornalista, recorrendo a uma lógica voyeur, revelando pormenores da vida privada deste; a busca do facto, lá onde só há ideologia; a confrontação com o extremismo religioso islâmico e, na outra banda, os preconceitos face a qualquer crente islâmico, de tudo isto se ocupou uma redacção muito especial, nos primeiros anos da segunda década de 2000.


Remate




Uma interrogação desportiva que gostaria de fazer.

Os jornalistas da Cadena Cope, em pergunta dirigida a Iker Casillas, no programa El Partido de las 12, esta quinta-feira à noite: "Quem joga o futebol mais feio: as equipas de Mourinho ou as de Simeone?"

Politicamente correcto




Pacheco Pereira constatava, esta noite, na Quadratura do Círculo, um certo império do politicamente correcto, no tratamento ou reacção ao massacre de Paris, por quanto, por exemplo, se quer fazer esquecer, agora, que os mesmos "muçulmanos moderados" que vêm defender a publicação francesa em nome da liberdade de expressão foram os que antes colocaram processos judiciais a quando da edição, pela revista em causa, dos desenhos considerados ofensivos. Sustentou que uma efectiva solidariedade para com as vítimas deste atentado terrorista seria a exibição dos desenhos que levaram à morte dos jornalistas. Timothy Garton Ash defende exactamente o mesmo, esta sexta, no El Pais. Por outro lado, entendeu ser este um problema especificamente europeu que devia ser lido por contraponto com a integração dos que migraram para os EUA. Esta, a integração, resultará melhor naquele país, garantiu o historiador, porque ali há outra "mobilidade vertical". Se mobilidade vertical significa mobilidade social (ascendente), então os campeões são os Europeus, em particular os nórdicos - vejam-se, por exemplo, as estatísticas de Stiglitz, em O preço da desigualdade. Não apenas a mobilidade social é muito superior na Noruega, Suécia ou Dinamarca do que nos EUA, como mesmo na Grã-Bretanha - muitas vezes mais próxima do modelo americano - essa ocorrência é mais frequente. A explicação, vista assim, não colhe - embora, muito provavelmente, os dados do desemprego jovem, em vários países europeus, comparem, hoje, para (bastante) pior, com o dos EUA.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Raízes do medo


A Bíblia e o Corão (a partir de José Luis Sanchez Nogal)

Conceito fundamental para entender a recepção bíblica pelos crentes muçulmanos é a iytihâd [esforço de interpretação pessoal]. Quando se coloca o problema da legitimidade e necessidade de uma renovação da iytihâd, há quem (se) proponha abandonar o literalismo dos textos, apontando, antes, ao seu espírito. Tal suporia o abandono da tendência jurisdicista do Islão e no seu «ser testemunha de Deus». Significaria, ademais, não pretender legislar em nome de Deus, respeitar os direitos humanos, a liberdade de consciência e crença, a integridade corporal e a liberdade de expressão. De facto, o Corão afirma que nele existem passagens equívocas/dúbias/ambíguas das quais apenas Deus conhece a interpretação.
Apesar de, como sustenta Sanchez Nogal, cristianismo e islamismo viverem em tempos diferentes, não gostaria de deixar de assinalar como no interior do cristianismo, de algum modo, esta questão está, também, hoje, presente. Por exemplo, Thomas Halík, em A noite do confessor, diz que temos fé (religiosa) a mais. Somos crédulos e julgamos ver tudo escrito na pedra (sobre o que devemos ser e como fazer). Quando tais certezas se vão, e precisam de ir, isto é, quando esta fé (infantil) jaz, então se verá quem está pronto para aguentar a pequena fé, exigentemente pequena, que se mantém. Sem regressar à segurança do fundamentalismo, quando os restauracionismos não mais são possíveis; sem cair, de outra banda, na resignação e no desespero. É dura a cruz. Mas sem ela, não há maturidade, afrontamento da vida como ela é, com as escolhas e dilemas de que não é possível fugir. A partir da leitura da Sagrada Escritura podemos encontrar pegadas a seguir, sendo a falsificação/rejeição da identidade (pretensamente) formada no encontro com estas a ida por estradas completamente opostas à sugestão das ditas pegadas; não obstante, não podemos ignorar quanto essas pegadas por vezes nos surgem complexas ou, mesmo, contraditórias pelo que o esforço hermenêutico – por exemplo, não fazendo uma leitura literalista/fundamentalista da Dei Verbum - é uma exigência em permanência[1].
A verdade é que, como reconhecem os autores muçulmanos, participantes do GRIC, não existe, hoje, acordo quanto aos métodos e condições da iytihâd, pelo que a versão mais tradicionalista se impõe. A urgência de renovação da iytihâd coloca-se, pois, sobretudo a um nível subjectivo (isto é, de um conjunto de subjectividades), de uma dada vanguarda (muçulmana), mas sem vincular a comunidade (a falta de um poder centralizado, sem uma liderança, como a que existe na Igreja Católica, tem os seus inconvenientes, como alertara o escritor, árabe cristão, Amin Maalouf).
O grupo de autores muçulmanos participantes do GRIC reconhecem no cristianismo uma via de verdade, sobretudo para o período pré-islâmico. Muitos pensam, até, que a «morada da recompensa» será acessível a não muçulmanos que estejam de boa-fé. Reconhecem que Deus falou aos homens antes de Maomé – de resto, o reconhecimento dos profetas anteriores faz parte da fé islâmica. Concedem à Bíblia um estatuto privilegiado, mas mantém que o Corão é a «revelação última» e critério de verdade, ainda que não abarque a totalidade daquilo que Deus possa revelar aos homens. O Novo Testamento contém a interpretação da mensagem de Jesus feita pelas primeiras gerações cristãs. Pode reconhecer-se no NT a palavra de Deus? Sim e não, respondem. Sim, na medida em que contém traços da mensagem divina transmitida por Jesus, ainda que seja difícil saber o que disse ou não disse. Não, no sentido em que não reconhecem a inspiração pelo Espírito Santo dos autores neo-testamentários, pelo que, assim, entendem o NT como produto «meramente» humano ao qual falta «autoridade».
Em conclusão, não conseguiram, estes autores, libertar-se da concepção mecanicista da revelação. Dada tal concepção, postulam que nem todo o testemunho dos contemporâneos de Jesus pode ser aceite como Palavra de Deus.
O conceito de tahrif remete para a distância (que vai/que há) entre a mensagem de Jesus – por um lado – e a sua objectivação textual – por outro. O muçulmano vê na concepção bíblica de Deus diferenças significativas – unicidade e transcendência – face à concepção islâmica. Mas no NT também encontra a acentuação de valores corânicos: o amor, o perdão, o anti-fariseísmo, o predomínio do Espírito sobre a letra da lei. Em suma, consideram o NT um testemunho interpretativo «autorizado».
Como, para os cristãos, o NT é fonte privilegiada de acesso à fé no Deus único, tal é digno de estima pelos muçulmanos, pois é uma via que conduz a Deus e ao amor do próximo. Não será a melhor via, entendem estes, mas preferem não colocar-se no lugar de Deus para a substituir ou desqualificar. Todavia, este posicionamento tende a encontrar-se, apenas, em uma elite intelectual muçulmana, em contacto com o Ocidente e o cristianismo.
Retomando o que até aqui foi dito, observamos concepções de revelação muito diversas no cristianismo e no Islão. No primeiro caso, a Palavra de Deus fez-se carne em Jesus Cristo e a revelação é acontecimento pessoal de autocomunicação de Deus que vai ao encontro dos homens. As Escrituras não esgotam o acontecimento revelador. O acontecimento revelador é também recebido na tradição viva da comunidade e lido e interpretado a partir da fé por essa comunidade mediante o serviço do seu Magistério.
No segundo caso, a Palavra de Deus faz-se livro no Corão, que é comunicação verbal aos homens por meio do ditado do profeta. O texto em si esgota a revelação, que é palavra. Não há qualquer distância entre a revelação e a sua objectivação textual no Corão. Há um mínimo de interpretação, por parte de comentaristas e tradição aclaratória. Tanto no cristianismo, como no judaísmo a revelação foi plenificada (culminada): em Jesus Cristo, no cristianismo; no Corão, no Islão.
Como na concepção cristã de Deus, Este revelou-se em Jesus Cristo, a superação da literalidade do texto está adquirida. Mais difícil tal suceder onde a revelação pessoal não se deu e não há distância entre revelação e texto, como no caso do Islão. Neste, não há manifestação da verdade que exceda a literalidade do texto.
Desta sorte, o estádio evolutivo das hermenêuticas cristã e islâmica é bem diverso:
a) no cristianismo, a Escritura é vista como contendo a objectivação textual da revelação de Deus, mas há espaço para a existência de «sementes do Verbo» noutras religiões: o Espírito de Deus sopra onde quer e pode fazê-lo nos diferentes elementos religiosos e humanos das religiões, dos quais não há que colocar de lado as escrituras sagradas. Tais sementes são possíveis, a partir de uma história universal da salvação e da revelação, na qual Deus não abandonou os homens, nem deixou de lhes manifestar a sua vontade. Na medida em que manifestam esta vontade salvífica de Deus, pode reconhecer-se que os textos de outras religiões estão permeados pelas sementes de verdade;
b) a exegese hermenêutica clássica do Islão, centrada na literalidade dos textos, considera que as escrituras judaico-cristãs estão falsificadas. Este comentário literal encontra-se fechado desde o século X. Só correntes minoritárias advogam um Corão criado e admitem que não é via única para o conhecimento e interpretação de Jesus Cristo.
O respeito da teologia cristã pelo Corão é grande (e crescente). Os teólogos cristãos mais avançados vêm no Corão a confissão no Deus-Uno e uma expressão diferente da fé em Deus, capaz de acentuar o monoteísmo.
A teologia muçulmana mais tradicional, na sua vertente mais ortodoxa, está fechada a todo o reconhecimento da Bíblia como contendo a revelação autêntica de Deus. Uma corrente mais avançada propõe a Bíblia como revelação particular a judeus e cristãos, apesar de ser, sobretudo, um produto humano, sendo o Corão a revelação última e critério de verdade. Os esforços de renovação, no interior do islamismo, no sentido de reconhecer e respeitar os seus interlocutores, não dispensam o atentar de que o tempo do islamismo não é o mesmo do cristianismo, sendo, não obstante, que para todos é, este tempo, também, o tempo de Deus.




[1]T. HALÍK, A noite do confessor, pp.204-205: “Nas suas disputas com o protestantismo e o modernismo nos tempos modernos, a Igreja católica insistiu demasiado em duas coisas: doutrina e autoridade. O Cristianismo começou a assemelhar-se a um sistema, tanto na esfera do pensamento como em termos institucionais. Como é óbvio, esses dois elementos são aspectos naturais e legítimos da Igreja, e continuarão a sê-lo. Mas aposto que não continuarão a desempenhar um papel tão dominante como até hoje, retirando-se, antes um pouco, para a sombra. A Igreja responderá melhor às necessidades espirituais diferenciadas das futuras gerações se conceber o Cristianismo como um estilo de vida cuja dimensão profunda seria a espiritualidade, e a sua outra característica saliente seria a solidariedade, sobretudo a solidariedade para com aqueles que são tratados injustamente na sua sociedade particular.
Muitos cristãos estão preocupados pelo facto de o Cristianismo estar a perder os claros contornos que teve em épocas anteriores, e se esteja a tornar mais pluralista. Mas talvez esse enfraquecimento do sistema signifique, na realidade, que a fé se está a tornar mais próxima da vida, e que a variedade não disfarçada de formas significa uma maior amplitude, que lhes permitirá abordar um espectro mais largo de pessoas no futuro”.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Séries que ajudam a ler um tempo




A América dos anos Obama, a partir do noticiário da Newsroom (HBO): em um tempo muito extremado ideologicamente, o que os espectadores querem são notícias que confirmem a sua pré-compreensão da realidade. Antes de o ser, a notícia - e sua interpretação - já o eram. Curiosamente, aqui, intentar, em termos jornalísticos, uma aproximação neutra à realidade pode resultar, comercialmente, paradoxal: os mais apaixonados seguirão o canal partidário, ideológico; todavia, uma faixa de considerável de apaniguados sentir-se-ão tentados a olhar a tv independente que, pelo menos, não os agride - e como, além de propaganda ao partido, as tv's comprometidas tendem a atacar e/ou ridicularizar o adversário, a ausência de agressão já não é pouco. De um ponto de vista ético, deontológico, o que Newsroom não deixa de nos fazer reflectir é que esta neutralidade tem que ser um ponto de partida, não um ponto de chegada. Se o facto a noticiar pode ter vários pontos de vista, acontece também admitir, em certas circunstâncias, um único. Procurar evitar mostrá-lo, dizê-lo com clareza, sem tibiezas, desfocando o ponto, desdramatizando-o em demasia, pode ser absolutamente errado e nada mais constituir (a neutralidade) do que uma estratégia torpe para ganhar audiência (publicidade).