domingo, 30 de novembro de 2014

Porque durou Salazar tantos anos no poder?


Na tese de Adriano Moreira (Este é o tempo, pp.101 e ss.), a longevidade de Salazar no poder deve-se, essencialmente, a três factores:

a) o apoio da tropa;
b) o apoio da polícia (a importância da polícia política e da censura);
c) a criação do carisma - a propaganda - de Salazar, por António Ferro.

Num tempo de muitos assassinatos a estadistas, o cimento dado pelo anti-sovietismo é determinante para a lealdade institucional (nomeadamente da tropa); a neutralidade de uma parte do território (a excepção são os Açores) na II Guerra Mundial - ninguém se lembrou de Timor, ocupado pelos japoneses, sublinha Adriano Moreira, referindo que após a passagem destes, por aquele território, não havia um mestiço em Timor - desempenha também um factor importante (se Salazar saísse do poder, após o final da II Guerra teria, ainda hoje, uma estátua em cada distrito, aponta Adriano Moreira).


António Pinho Vargas






"A edição dos discos importa, sobretudo, porque as peças para coro e orquestra ("Requiem" e "Judas") não vão circular com a facilidade dos "Estudos" e "Interlúdios", gravados pelo Drumming. "Judas" foi encomendada em 2002 pelo Festival de Viana do Castelo e repetida em 2004 na Fundação Gulbenkian. O "Requiem" estreou-se em 2012 e não espero que volte a ser tocado antes de eu morrer (...) Porque conheço Portugal e conheço o meio musical na Europa (...) Em Portugal, a atenção desviou-se dos artistas e das obras para a parte institucional da vida cultural. Interessa é saber quem é o novo director do São Carlos".

Afirmou que o registo do "Requiem" e "Judas" é a concretização de um destino. Porquê?

"Se pensar no que esperava da vida aos 30 anos, posso dizer que aquilo que foi conseguido através do meu trabalho é algo próximo do milagroso. Isto não é um juízo de valor sobre as obras, porque os juízos são circunstanciais. Sempre foi assim. Bach não foi sempre considerado um génio. Entre a sua morte em 1750 e a terceira execução da Paixão segundo São Mateus, em 1830, passaram 80 anos. Era um mestre do contraponto, fora de moda no fim da vida, e até 1830 a sua música era tocada apenas uma vez, como toda a música desse período.

(...)

No passado, tocava-se música do presente; hoje, ouvimos muito mais a música dos compositores mortos. Porquê? Porque o cânone musical foi criado durante o século XIX, quando se instituiu o concerto burguês. Começa aí um novo fenómeno, o do triunfo da música do passado em larga escala, que se prolonga até hoje.

(...)

Hoje, compor é praticamente a única coisa que me dá prazer de viver. E a estreia do "Requiem" foi um pico de intensidade e de encantamento (...) A vida dá-nos respostas. Por isso propus à Gulbenkian que se fizesse um disco. Havia a possibilidade de envolver a Naxos, pelo que escrevi ao senhor Klaus Heymann [fundador da Naxos]. E ele, que edita muita música portuguesa (...): "Como sabe, para mim isto não é um negócio". E contou-me que o fez porque, em 1950, frequentou Línguas e Literaturas na Faculdade de Letras de Lisboa e ficou com uma ligação à nossa cultura.

Em "Música e Poder" questiona a razão por que, na Europa, Portugal não aparece como um país com criação musical. E referiu que na enorme "História da Música", de Richard Taruskin, D.João V é a única entrada sobre Portugal.

Portugal está ausente do contexto europeu e mundial ao nível das grandes instituições. Há circuitos secundários onde as peças circulam - e isso é um aspecto positivo, mas que não nega o anterior. O cânone foi fixado numa fase de primazia da música alemã, e portanto é a música alemã que é incessantemente reproduzida (...) Emmanuel Nunes morre e nem a Gulbenkian nem a Casa da Música fazem nada de especial. E quem faz a homenagem é o IRCAM, em Paris. O que reforça duas coisas: que aquele era o seu campo de enunciação e que o meio cultural português tem um funcionamento atávico, com dispositivos de destruição dos seus artistas.

(...)

A maioria dos agentes culturais da periferia regula-se pelos valores do centro, reproduzindo uma espécie de 'imaginação do centro' (cito Boaventura de Sousa Santos). Eles não estão lá, mas agem como se estivessem.

Há pouco tempo foi considerado por António Pinto Ribeiro um dos grandes intelectuais portugueses. Revê-se no epíteto?

Não sei. Sei que desde os meus 20 anos tenho uma enorme inquietude intelectual - e sempre fui um leitor compulsivo. Por outro lado, o real implica-me. Não há nenhum compositor português que tenha tomado tantas posições públicas (...)

O que leva um ateu a escrever um "Requiem", um "Magnificat" ou a oratória "Judas"?

O "Requiem" é uma peça com uma longa tradição musical e o seu texto interessa-me por ser uma missa dos mortos. É uma missa para os homens, são eles que morrem, e nesse sentido diz-me respeito. Mesmo no "Magnificat" e no "Judas" são sempre humanos a falar. E foram humanos a escrever.

Durante a composição teve presente o legado de Mozart?

Tive. Fui educado na tradição, em plena dominação do cânone. Tenho profunda admiração por aquelas peças e conheço-as melhor do que a música do meu país (...) Se as lágrimas me correm sentado na minha cadeira, como correram quando se cantou o 'Lacrimosa', estou a ser comovido por algo que fiz, mas que está separado de mim.

Aconteceu-lhe com o Requiem?

Sim. Eu era um espectador como os outros, a viver um momento de profunda comoção estética. Ia dizer sobrenatural ou divina, mas não posso, porque considero a emoção uma qualidade essencialmente humana.


António Pinho Vargas, em entrevista concedida a Luciana Leiderfarb, Actual nº2196, Expresso, 29/11/2014, pp.22-24.


Jorge Calado, no Actual, sobre Requiem e Judas, de Pinho Vargas [5 estrelas]: "Neste 'Requiem', A.P.V confronta o peso da história da música, principalmente dos Requiems profanos, como os de Verdi (a escolha de textos é semelhante). Obra de grande unidade rítmica, nela perpassa o arfar respiratório do equivalente mozartiano. A atmosfera lúgubre é cortada por cintilações tímbricas, o toque dos sinos tubulares, o canto agudo dos sopranos. Enquanto o 'Kyrie' surpreende pela brevidade e reticência, a 'Lacrimosa' escorre numa melodia. Deus está nas hesitações (pausas) do 'Sanctus'. Tudo converge no drama 'Libera me', com as cacofonias vocais dos aflitos, um crescendo implorante que se apaga no acorde imperfeito final. Será talvez a morte (como 'Im Abendrot', de Strauss)? Três badaladas e um balde de cal".

1º Dezembro - Vila Real


Com excepção de duas meninas lá atrás, não se vê aqui nenhum público jovem, registou Francisco Seixas da Costa, ontem, no Grande Auditório do Teatro de Vila Real, na celebração do 1º de Dezembro pelos Antigos Alunos do Liceu Camilo Castelo Branco. A falta de ligação, dos mais jovens, com aquela data histórica, cujo desaparecimento como feriado António Barreto considerou, no mesmo local, "uma estupidez", é algo que importará corrigir. Não me parece, contudo, que seja apenas a perda de vínculo com as grandes datas do nosso Estado-Nação ali a estar em causa, mas, ainda, a definitiva descolagem, nesta geração, da figura do intelectual como a merecer especial reverência (uma perda com bons e maus motivos a justificá-la). De facto, só se viam "cabelos brancos"; muito escasso o público abaixo dos 60, numa tarde que principiou pela lição de sapiência de Adriano Moreira, na qual o Professor voltou a enquadrar as fórmulas que vêem acompanhando o seu pensamento, com Portugal a adiantar-se à era dos povos (por oposição à era dos reis), com o princípio meritocrático a impôr-se cedo ao hereditário na história pátria (o mestre de Avis cedo é convocado ao discurso), passando pelo além Europa como constitutivo do conceito estratégico nacional a desenvolver bem como determinante na nossa contribuição para o conceito estratégico europeu que um dia existirá. Isto, sempre repudiando as políticas que colocam em causa a comunidade de afectos que um/o país é (velhos contra novos, público contra privado, etc.). Eurico de Figueiredo centrar-se-ia nas questões de actualidade e na crítica à europa, bastante mais matizada na alocução de Seixas da Costa, enquanto Barreto falava na necessidade de preservar a "pátria chica", o local, ou locais onde se sente em casa,o Douro, e relembrou a sua primeira sessão de esclarecimento pós-exílio, em 1975, em Folhadela, de onde era natural a sua mãe.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Executivos municipais


Tenho-me questionado acerca das vantagens da existência de Executivos camarários em que neles coexiste situação e oposição (em especial, das vantagens como superando eventuais desvantagens que existam, também). Sobretudo, quando há, não apenas formalmente mas de facto, uma relação de dialéctica conflitual - como, aliás, considero que deve ocorrer para que democracia verdadeira haja a nível local - no interior do Governo Municipal. Não me refiro, portanto, a casos em que a situação , como já algumas vezes sucedeu no nosso país, tenha dado um abraço de urso à (suposta) oposição, abafando-a, por um lado, e participando estas, situação e oposição, nas mesmas posições (ou práticas), servindo, a oposição, de resto, em tais circunstâncias, de legitimador das opções da maioria existente. Neste sentido, parecem-me ser dois, respectivamente, os principais argumentos que balizam as possíveis opções entre governos municipais monopartidários (ou de coligação previamente estabelecida) ou, ao invés, do pluripartidarismo com assento municipal: de uma banda, a coesão reforçada do Executivo, a eficácia política mais facilmente obtida; do outro, uma fiscalização com maior acuidade, pela minoria presente no Executivo, face a decisões do poder predominante. Entre um e outro argumentos, talvez a sensibilidade presente, na sociedade portuguesa, penda mesmo para a necessidade de manter os equilíbrios institucionais, os mecanismos reguladores de qualquer pulsão desviante, um controlo apertado das decisões sobre a cidade.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Uma figura esdrúxula


Uma coisa que me causa espécie quando sigo os trabalhos e os procedimentos da Assembleia Municipal é a figura do pedido de autorização que um vereador tem de efectuar ao Presidente do Executivo, sempre que pretende tomar a palavra - isto, se exceptuarmos casos da defesa da honra de um dado vereador, ou solicitação da Assembleia para que este fale. Não só não vejo motivos bastantes para impedir um membro eleito de tomar a palavra, como, ademais, a proibição, pelo Presidente da Câmara, torna-se virtualmente impossível: a posição insustentável em que se encontraria, caso negasse a palavra a um seu vereador era tal, o efeito boomerang bem mais pernicioso do que algo que qualquer vereador possa dizer que, em realidade, a figura procedimental não só não tem sentido, como nenhuma praticabilidade. De aí que melhor fora acabar com ela de vez.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sócrates e o arrastão


Não se pode confiar em ninguém…é a frase que mais ouço, na última semana, entre o cidadão comum, menos politizado/partidarizado. A frase é dita de modo arrastado, magoado, mais do que com gritaria indignada, a exaltação berrada, como em ocasiões anteriores. Desta vez, bateu mesmo.
Entre o público mais ligado aos partidos, a madrugada de sexta é vivida em picos emocionais opostos: há os telefonemas eufóricos a prenunciar uma vitória já insuspeita(da) nas próximas legislativas; há uma desilusão enorme, um não saber o que fazer, o mundo que caiu em cima, no campo político contrário. Por mais identificações, por mais paixões e ódios que atravessem os portugueses, em particular face a José Sócrates é a contabilidade político-partidária que, de imediato, se faz.
Das televisões, o projecto editorial do Correio da Manhã, ao qual Francisco Assis, há dois anos, chamou, com verdade e coragem, fascista mostrou a fibra de que é feito quando, em plena late night de sexta, o seu repórter, no aeroporto de Lisboa, dava conta, com imoderada satisfação, de como um cidadão que aguardava a chegada de um familiar lhe segredara o champagne que o esperava para festejar (sic) a detenção do ex-PM português.
Desta vez, muito de baixinho, a cabala não chegou aos pronunciamentos dos protagonistas que, indirectamente, se viram violentamente atingidos. Claro que nos fóruns radiofónicos, sempre à beira do colapso – um dos moderadores do fórum da antena1 chegou a afirmar, ontem, perante o tom desesperado de uma senhora: “tenha calma, temo que ainda lhe dê alguma coisa!...” -, a tese de uma conspiração para benefício de um partido, ou dos partidos do governo, não deixou de ser esgrimida. A meu ver, sem sentido. Parece evidente que ninguém detém alguém como José Sócrates, após um ano de investigações, sem, no mínimo, ter um caso muito sólido para apresentar. E, por mais aspectos conexos que se possam tratar, a verdade é que o fundamental é existir, aparentemente, esse muito sólido caso de um ex-PM ligado a crimes de uma grande gravidade (que terão que ver, justamente, com essa mesma governação). Não se pode passar ao lado disto.
Claro que na pulsão mediática, segue-se o arrastão: de repente, pretende transformar-se, por exemplo, o Freeport em crime provado na vigésima quinta hora (mas, como, onde e porquê?). Quer-se que o atentado contra o Estado se transforme no Face Oculta. Se alguém esboça algum tipo de defesa de Sócrates, como fez, ontem, no Telejornal, Pinto Monteiro, é trucidado a seguir (vide declarações de Moura Guedes, na RTP Informação, ou a emissão contínua do Correio da Manhã TV). Personagens como Manuela Moura Guedes são recuperadas, e o seu abjecto jornal das sextas parece querer agora ser reconduzido à categoria de jornalismo. Os (alegados) delitos penais de Sócrates serão amalgamados às políticas que prosseguiu… Se António Costa recusa, e bem, a prática estalinista de apagar pessoas de fotografias, já a reescrita da história recente portuguesa corre a olhos vistos.
Pelo meio, vestais recordam-nos, do alto da sua conhecida autoridade na matéria, que os políticos não são todos iguais – como se diz lata em economês declinado em língua inglesa?
Ouve-se, nesta crise imensa, com especial atenção – imagino as audiências deste Domingo - o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI: “se António Costa ganhar as próximas legislativas é um génio”. Para dois milhões de portugueses, sensivelmente, o turn-over de expectativas políticas para Outubro de 2015 estava assim selado – nenhum comentário é absolutamente neutro, como é óbvio, e este participa desse mesmo processo de turn-over, ao considerar, a contrario, que, com o processo a José Sócrates, o normal, o expectável é a vitória do centro-direita português nas próximas legislativas (a vitória do PS é de tal modo impossível que só um génio a alcançará…um modo de qualificar a realidade, naturalmente controvertido como seria controvertida um posicionamento diverso, e que a influencia ao enunciá-la deste modo, o que, aliás, é perfeitamente legítimo).
A realidade é que cada vez que se calam ou cada vez que se manifestam, sempre aparecerão, muitos dos principais rostos do PS, na defensiva, evidenciando quanto a contaminação política do caso penal está aí. Se a tese da impossibilidade de vitória socialista será radical, a dificuldade bastante, essa, está à vista.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Freixo de Espada à Cinta




Fico a saber em Este é o tempo que o primeiro português a chegar à China, Jorge Álvares, é de Freixo de Espada a Cinta (localidade onde foi erguida estátua em sua homenagem). E, por Freixo, terá regressado Bartolomeu dos Mártires, vindo de Trento.

Autenticidade




Ao contrário de Vítor Gaspar, que no livro-entrevista conduzido por Maria João Avillez, se definiu, ideologicamente, como fortemente social-democrata, Carlos Moedas, ontem, em entrevista a Vítor Gonçalves, afiançou ser liberal. Tanto na economia (interferência do estado na), como nos costumes. E desde muito cedo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ora aí está o debate ideológico no interior do PS


Estranhamente deselegante, Francisco Assis ao não mencionar o autor do texto, Tiago Barbosa Ribeiro, que escolheu para encimar o seu artigo de hoje no Público. A condescendência, de tipo paternalista, que usa quando fala do "jovem" ou dos "jovens", em sucessivas colunas de opinião, em que responde a remoques que lhe chegam da esfera pública, do interior socialista, a posicionamentos ideológicos seus, também me parece que seria dispensável. Dito isto, não vejo na entrevista de ontem ao Observador, por parte de Assis, qualquer tipo de ziguezague (como aponta Tiago Ribeiro): bem ao invés, este tem sustentado, coerentemente, que a haver uma coligação, por parte do PS, ela deve ser realizada com o PSD. Concorde, ou não, a maioria do PS com esta postura; acompanhe-a, ou não, o novo secretário-geral, ela vem sendo reiteradamente assumida pelo entrevistado de ontem do jornal referido on-line. Propôs, aliás, o eurodeputado, na disputa interna entre António Costa e António José Seguro, que o tema das coligações pudesse funcionar como factor distintivo (do ponto de vista político, que não pessoal ou pessoalizado).
Todavia, o texto de Tiago Barbosa Ribeiro - com o qual Assis, manifestamente, se irritou - tem como principal mérito o deslocar a discussão de qualquer plano (puramente) táctico para o das concretas políticas perante as quais há que tomar posição. E aí, Francisco Assis, quando, p.ex., fala em "capitalismo desregulado" terá que dizer, por exemplo, se entende que as alterações à legislação laboral, nos últimos anos - a revisão do Código de Trabalho é preconizada por Tiago Ribeiro - entra ou não nesse âmbito - e por que é que o PS, na AR, votou como votou algumas das alterações legislativas. Não basta um genérico "há coisas com que concordo" nas mutações preconizadas, em termos políticos, pela esquerda do/no PS.
O argumento da saída do euro, das claras diferenças de posicionamento face à Europa é, no entanto, forte e, a meu ver, convincente para se recusar, como Assis faz, uma coligação PS-PCP (as últimas europeias, por exemplo, foram muito reveladoras quanto à incompatibilidade de projectos). 
Se, todavia, a discussão se centrar no posicionamento face a grandes políticas - Pacto Orçamental, Código de Trabalho, dívida, reforma fiscal -, então o PS terá o tal debate ideológico que muitos assinalaram não ter existido entre Costa e Seguro. 
Costa que, diga-se, se aproximou mais de Tiago Ribeiro, julgo, ao rasgar o acordo para o IRC, que Seguro estabelecera com a maioria governativa, mas que ao inventar, tacticamente, um sebastianismo social-democrata em Rui Rio (potentado social-democrata, ali, até há um/dois anos pouco identificado, mas, entretanto, tornado unanimidade) parece, estruturalmente, em matéria de coligações, mais próximo de Assis.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A quarta dimensão da universidade




Havia a razão unitária, espartilhada, depois, em ciências isoladas (umas) das outras, sem diálogo. No século XX, descobriu-se a necessidade da interdisciplinariedade. Cumpre, agora, "integrar as visões" (parcelares), em um "esforço total" a que Adriano Moreira chama de "transdisciplina", um conceito que assume cunhar e que espera tão sugestivo e replicado como outros da sua lavra, do "presidencialismo do primeiro-ministro" (criado a propósito de Cavaco) ao "neoliberalismo repressivo" (para se referir à actual maioria governativa). João Duque falara já em "razão transversal", como resposta adequada aos tempos, no seu Dizer Deus na pós-modernidade.

Biografias


Trazia uma bucha de casa, para o almoço e aproveitava os intervalos para ir ler para a biblioteca. Foi assim que, no liceu Passos Manuel, ao fim de três anos, Adriano Moreira tinha lido 12 volumes de Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz. Ensinou o filho Nuno a ler pela cartilha maternal de João de Deus, pela qual o próprio aprendera a ler. Quando trazia dinheiro para o lanche, se ficasse pela metade do que ia lanchar, dava para parar na Barateira, a comprar livros. E foi assim que fez durante anos.

Gago


Se havia personagem que, ao nível dos governos mais recentes que temos tido, parecia estar no Olimpo da unanimidade (favorável) era Mariano Gago (até pelo que foi a política científica subsequente). Agora, nas palavras de Adriano Moreira reproduzidas por Vítor Gonçalves - em livro, Este é o tempo, acabado de sair dedicado ao académico português de Grijó, Macedo de Cavaleiros -, Mariano Gago é contundentemente zurzido (apodos como maoísmo) e mesmo a sua política claramente criticada (beneficiou foi os americanos para onde os portugueses foram investigar e de onde não voltaram, acusa Adriano Moreira). Neste livro, há histórias, anteriormente contadas em abstracto, sem que os autores/participantes fossem identificados - como a reunião, onde foi corrosivo com Gago, a quem acusa de má criação, que a abandonou a meio; por exemplo, esta história, entre outros lugares, já tinha sido referida na conferência do Cais da Vila, em Vila Real - e que agora, com menos parcimónia e mais à-vontade de linguagem, nos são trazidas de modo iconoclasta.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Um moderado


Para a história dos últimos três anos da vida nacional, ficará o registo de um Ministro da Administração Interna que recusou frondas, nem cavalgou ondas que prometiam vagas de fundo de um país contra o outro. Vagas imaginárias, de resto, perigosas, além disso. Moderado e sensato, Miguel Macedo soube perceber que à violência social das políticas implementadas não se respondia com outra violência, cujos efeitos, aliás, poderiam ser explosivos. Não precisou de mostrar um músculo verbal desaconselhável para cativar o respeito dos portugueses, quando alguns reclamavam exibições de força. Foi factor de paz social, o que não é dizer nada pouco nos tempos que correm. Escrevi aqui, à época, quando os protestos saíam mais frequentemente e com mais intensidade às ruas que Macedo poderia vir a contar no pós-Passos. Este seu gesto, até por contraste com muitos dos seus até agora companheiros de Executivo, não desmente - à falta de conhecimento de eventuais dados outros que possuam gravidade política ou penal - o prognóstico.

Pub: logo, no Teatro




Às 22h, como sempre.

domingo, 16 de novembro de 2014

Os trabalhos de Costa


Ao contrário do que sugerem os tempos de antena do PSD, creio que o principal problema que António Costa enfrenta, actualmente, não é tanto, para uma boa parte do eleitorado, uma colagem a José Sócrates, mas antes uma não suficiente descolagem deste governo. Depois de, na Quadratura do Círculo, Costa ter dado a entender que a interpretação do acórdão do Tribunal Constitucional, relativamente à reposição dos cortes à função pública, devia traduzir-se em devolução integral dos mesmos, abriu, agora, em entrevista dada à RTP, na presente semana, uma caixa de pandora difícil de cingir: quando diz que o acórdão aponta para a devolução tão rápida – e tão substantiva – quanto possível, inscreve, então, o quantum e o como dessa devolução no debate público (como algo controvertido): a devolução de 20%, ou 50%, por exemplo, no próximo ano, ou, melhor, em 2016, passará a ser vista não como uma resultante, sobretudo, de uma imposição jurídica, mas, bem mais, como uma opção de política económico-financeira, abrindo, dessa sorte, o ainda presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o flanco para, em pretendendo devolver uma percentagem mais robusta dos salários da função pública, tal ser consequência ou rotulado de uma visão “despesista” no tratamento dos recursos públicos (as propostas ou promessas de 800 milhões de euros, no dizer de Marco António Costa, entrevistado há uma semana, pelo DN; os 1,6 mil milhões de que fala o Expresso deste Sábado).
Do mesmo modo, quando, simultaneamente, o novo líder do Partido Socialista afirma que há vários modos de problematizar o tratamento da dívida, isto é, a renegociação ou reestruturação das dívidas públicas dos países da zona euro, e pretende que se chegue a um consenso técnico sobre o modo de o realizar, parece, desta feita, obliterar quanto, em diferentes modelos e processos de reestruturação os interesses atingidos são diversos e cabe, justamente, ao poder político arbitrar tais soluções, assumindo que valores políticos, que interesses, que populações, que sectores da sociedade privilegiar em detrimento de outros (e é aqui, naturalmente, que os projectos políticos também se diferenciam, ou podem diferenciar-se). Em realidade, não deixa de ser irónico que advenha de uma área política que, refira-se, de modo correcto, advertiu contra a tecnocracia e a dissimulação da ideologia na técnica, que agora se remeta para um plano de pura engenharia técnica aquilo que passa, inevitavelmente, pela escolha política. Uma real contradição de termos.
A agenda para a década, de António Costa, tem, verdade se diga, a coragem de assumir uma reposição da natalidade através da imigração – como se fez em França; uma penalização, ao nível da taxa social única, para as empresas centradas em promover a precariedade dos seus vínculos laborais; a procura de assegurar a canalização da poupança privada para o financiamento das empresas (com garantia estadual); o estabelecimento de um tecto, um valor máximo no contexto do arrendamento de um fogo habitacional, de acordo com o estado de conservação deste; prémios para inovação na administração pública; a aposta no pré-escolar e a reponderação de um ensino centrado, precocemente, em exames; uma renovada presença das humanidades e das artes no ensino ou a produção de conteúdos que promovam o conhecimento, a história e a língua portuguesas e estimulem a curiosidade, no âmbito dos serviços públicos de televisão e rádio. A isto acresce uma agenda de costumes que outrora – e talvez ainda hoje – seria ou será considerada fracturante. Não é, pois, sempre justo e sério falar de vacuidade em referência à Agenda para a década de António Costa.
Sem embargo, em particular pensando em uma eventual maioria absoluta para o seu partido, dificilmente, sem uma explicitação de uma clara diferenciação na política económico-financeira face ao actual Governo – veja-se, por exemplo, o padrão que Jerónimo de Sousa traça, em entrevista à Visão, para aferir de uma real mudança: do Pacto Orçamental, à revisão da legislação laboral –, Costa conseguirá concitar suficiente mobilização popular de modo a chegar aos requeridos 44 ou 45% dos votos nas próximas legislativas. Nesse sentido, a entrevista à RTP - na qual, nenhum dos marcos diferenciadores face à actual maioria foram evocados - foi, na verdade, um passo atrás.

Guardas a dor no cofre/no olhar o gelo quente



A banda sonora do fim de semana. Gostei mais do que esperava do concerto, comentei, no fim. Escolhi esta canção, que na sexta passou pelo Grande Auditório, do Teatro vilarealense, escrita pelo Carlos Tê e interpretada pela genuinidade, alma imensa, garra, autenticidade, fibra, verdade de Manuela Azevedo. Provavelmente, não por acaso fez lembrar-me, descobri-lhe analogias com "nesse teu jeito fechado/de quem mói um sentimento", do Porto sentido, do Rui Veloso ou ainda "ai de quem nunca guardou/um pouco da sua alma/no fundo de uma gaveta" - que poderia, assim, ser o cofre onde a dor se guarda - do repertório do mesmo autor. Bom público tiveram os Clã, e disse-lhes que sim, mas que esperava casa totalmente cheia e que me lembrava ainda da loucura com Abrunhosa no Calvário, quando todos os temas sabidos de cor e cantados a plenos pulmões por 6 mil almas, davam lugar a verdadeiro êxtase que, de resto, o espírito deste tempo nem consente.

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca sangras quando sofres
Guardas a dor dentro do cofre


Se alguém decifra o segredo
E se pica no teu ferrão azedo
Tu lambes-lhe o sangue do dedo
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente


Se alguém te atinge o coração
Aguentas o baque
De frente
E sentes uma oscilação


Defendes-te com uma paixão competente
E encarnas tão impunemente
A pele de um animal de sangue quente
Que ama a sangue frio 

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Gelo quente
Quente e frio
Carlos Tê, cantado por Manuela Azevedo

O sujeito subentendido


O livro chama-se Da autonomia do político - entre a Idade Média e a Modernidade. E, claro, a gente percebe logo o sujeito subentendido: o religioso (da autonomia da política face ao). Ou não fosse a tese sobre a secularização.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

Sociologia na escola


A moda, os valores prevalecentes, percebem-se mais facilmente, mais imediatamente na rapaziada. De um ano para o outro, na escola, entre os mais novos, há preferências que mudam, precisamente porque não estão destinadas a permanecer: Justin Bieber ou a piradinha deram lugar, este ano, a Anselmo Ralph
O que não se altera, desde há bastante tempo, creio, são os sonhos (pelos quais puxo): ser rico, ser rico, ser rico é a resposta que ouço, sucessivamente, aqui e ali temperada por um ir à televisão e, muito minoritariamente, ser escritor, ou ser pintor
Sabem bem menos de inglês do que se julga, os nossos mais novos. Querem ser médicos. Em meios mais desfavorecidos, há muitos futuros polícias, por exemplo (dizem eles hoje).
Uma minoria frequenta uma escola de música. Há muitos que não têm facebook. Não há assim tantos pais a adormecê-los com histórias (de encantar). Há quem esteja num clube de basket e conheça de cor os nomes dos principais jogadores da NBA sem nunca os ter visto jogar - a elitização dos direitos de transmissão televisiva tem as suas consequências. São, ainda, adeptos dos Bulls, por causa de Michael Jordan. Querem jogar futebol no Real Madrid, apesar de serem portistas e benfiquistas. Tratam por tu, por vezes, o professor, mais respeitosos os de longínquas paragens. A diferença rural/urbano é bem marcada na qualidade dos equipamentos escolares. Há dias, em uma escola de Bragança, fiquei orgulhoso pelo modo como, às vezes, gastamos o dinheiro dos impostos: uma escola com uma biblioteca excelente, ampla, enorme, com materiais e aproveitamento da energia solar a aquecerem os ambientes, vários locais para alunos estudarem ou conviverem, com desenhos dos principais escritores a tutelarem, magnificamente, os espaços, cortiça e outros materiais a contribuírem para a amplificação da voz do professor sem necessidade de gritos e berros. Não, não é um luxo: é dinheiro bem gasto. Ir às periferias: entre o imperativo - os que mais precisam de ser puxados para cima - e a quase impossibilidade - a sala de aula tornada em um local de desatino - eis o dilema, não minúsculo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Escutar



O cd que ando a ouvir: Requiem e Judas, de António Pinho Vargas. Pelo coro e Orquestra Gulbenkian, com direcção de Joana Carneiro e Fernando Eldoro, respectivamente. Libreto: aqui. Retomando e relendo, com Pinho Vargas, a figura de Judas. Nesta passagem do youtube, a reprodução daquela que é a faixa 13 do cd, Christus apprehenditur: "Judas, é com um beijo que atraiçoas o Filho do Homem?". Peregrinar, sempre renovadamente, pelo "grande código da cultura ocidental". Que continua a interpelar. E, como diz Halík, é aos Zaqueus que devemos especial atenção.

Opinião, às segundas (III)


Esta semana, na universidadefm foi este o meu reparo:

Tratado Transatlântico

Um tema da maior relevância tanto em termos políticos, como económico-sociais, mas com pouco espaço nos vários fóruns nacionais é o do Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento que vem sendo negociado entre Estados Unidos e União Europeia.
O pacto a celebrar, visando, através da eliminação de barreiras alfandegárias e outras não tarifárias (isto é, formalidades administrativas, normas sanitárias, técnicas e sociais) um incremento económico dos dois lados do Atlântico, terá implicações na economia nacional em que importará atentar. Neste contexto, Vital Moreira sugeriu que um estudo do impacto do acordo na economia portuguesa fosse realizado, e a realidade é que após tal sugestão ter sido acolhida, e o Governo o ter conhecido, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Bruno Maçães afirmou que os ganhos para a economia portuguesa são muito significativos. Mas, simultaneamente, tivemos a indicação, por exemplo, de que os industriais do tomate temem que metade da indústria, nesta área, desapareça – o governante refere que, com efeito, cinco fábricas na Califórnia produzem tanto como 5 países europeus, em concentrado de tomate. A questão da geografia vs copyright tem demonstrado as diferentes culturas e abordagens comerciais europeia e norte-americana, respectivamente, com os interesses de Portugal a serem defendidos caso haja a indicação, por exemplo, de que aquele, de que determinado (vinho do) Porto teve origem no nosso país.
Apesar do escasso escrutínio e do secretismo em que as conversações têm estado envolvidas, as dimensões do acordo são controvertidas. Se um estudo do Centre for Economic Policy Research refere uma ganho de 120 mil milhões de euros para a Europa e de 95 mil milhões para os EUA, e a Comissão Europeia prevê um acréscimo do PIB europeu em 0,5%, em 2027; se, em Portugal, os partidos mais ao centro defendem a ratificação do Tratado, sublinhando que se trata de afastar aqui o risco de periferização do país, sendo esta, no seu entender, a grande oportunidade de Portugal se situar melhor na globalização, podendo, ademais, fazer dela cavalo de tróia para conformar, em um sentido mais humanizante, as regras da globalização, com a harmonização das regras a fazer com que na Europa os preços de energia baixassem inevitavelmente (são cerca de 30% mais altos que nos Estados Unidos da América), por outro lado, e num espaço que situaríamos à esquerda do Partido Socialista – leia-se, em particular, o tratamento dado a este acordo, pelo dossier do Monde Diplomatique de Junho passado -, as críticas ao Tratado são claras: de acordo com os autores que subscrevem este último ponto de vista, os principais objectivos deste acordo são, no fundo, três: a) reduzir o que resta dos direitos alfandegários, b) harmonização «por baixo» das normas sanitárias, sociais, técnicas e c)“dar instrumentos jurídicos aos investidores para destruir qualquer objectivo regulamentar ou legislativo ao comércio livre”.
Os Estados poderiam ser demandados por multinacionais, recusando o foro estatal e cotejando uma elite de juízes-árbitros, pagos principescamente, resolver-se-iam diferendos (entre estes juízes, assinalam, simbolicamente, um ex-ministro de Pinochet). Esta preocupação – a da posição do Estado face às multinacionais – parece ter presidido à recusa da Alemanha a um acordo deste género que estava em curso entre Europa e Canadá.
Subjazendo ao debate sobre o Tratado Transatlântico, o debate ideológico sobre livre-cambismo e proteccionismo. Mais à esquerda pretende-se que é com protecção, e portanto sem uma imediata exposição ao exterior, que se conseguem conservar indústrias e sectores nascentes, em países menos desenvolvidos; à direita, considera-se que é através de uma exposição ao exterior e com um choque de competição dele advindo que temos o estímulo necessário para que as nossas empresas tenham o extra de qualidade para se imporem na globalização.
Seja como for, no seu discurso ao Parlamento Europeu a 15 de Julho, Juncker deu taxativas garantias (e cito): “não sacrificarei as normas europeias de segurança, de saúde, as normas sociais, as normas de proteção de dados ou a nossa diversidade cultural no altar do comércio livre. Serei particularmente intransigente, enquanto Presidente da Comissão, em relação à segurança alimentar e à proteção de dados pessoais. Não aceitarei também que a jurisdição dos tribunais dos Estados-Membros da UE seja limitada por regimes especiais aplicáveis aos litígios entre investidores”. Esta declaração, peremptória, repita-se, parece desarmar ou superar as críticas antecipadas. Pelo menos, no plano das intenções, assim é.
Por entre estas reflexões, a discussão passou, também, pelo papel que Portugal poderia jogar no diálogo e negociações em curso. E notou-se como Vital Moreira tinha posição-chave na específica comissão que tem o dossier em mãos. Com a mudança na Comissão Europeia, esse lugar não estava garantido, destacou Paulo Rangel, no Público. Ripostou o embaixador Seixas da Costa, no seu blog duas ou três coisas, ressalvando quão importante seria saber-se se foi alguma coisa feita para que Portugal tivesse um importante papel nessa comissão, neste pós-Europeias 2014. E Teresa de Sousa, entre o espanto e a tristeza, observou como tendo estado a par de tudo o que foi negociado e possuindo, pois, um capital único nesta matéria tão decisiva para o futuro da nossa economia, Vital Moreira foi posto fora das listas nas Europeias. Mas nessas Eleições alguém ouviu falar deste tema?

Às segundas, no Teatro




A história de Sanfur/Esaú e do beco sem saída em que uma geografia parece transformada - para quem quer o rosto humano, acima das ideologias totalitárias. Para ver em díptico com Omar, Belém sublinha a máscara, o jogo ambíguo presente na persona, a dificuldade em acreditar no outro, em terra de desconfiança permanente. Sem individualidade, os habitantes arrancados desde a infância ao controlo e à chantagem do agente israelita, ao fanatismo do Hamas, ao apetite do AlAqsa. A identidade individual é, aqui, um lugar estranho, quando tudo sucumbe ao poder da manipulação idolátrica de uma nação, de uma religião, de um partido. A história de Esaú é a da utopia que ainda é gostar de pessoas. Mais trágico ainda - ou, pelo menos, quase despido de momentos delicodoces -, do que Omar, o filme aponta o fracasso absoluto - a escolha entre matar e matar - da sacralização de uma cultura - que cumpre secularizar. Em respeito, afinal, pelo fundamento último da secularização, o que permite estabelecer, precisamente, a distinção entre o sagrado e as falsas divinizações.