sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Esperança (II)


Mas a esperança, diz Deus, essa sim causa-me espanto.
Essa sim, é digna de espanto.

Que essas pobres crianças vejam como tudo acontece
    e acreditem que amanhã será melhor.
Que elas vejam o que se passa hoje e acreditem
    que amanhã de manhã será melhor.
Isso é espantoso e essa é a maior maravilha da nossa graça.
E isso a mim mesmo me espanta.
Pois é preciso que a minha graça seja em verdade
      duma força inacreditável.
E que ela brote duma fonte, como um rio inesgotável.

Charles Peguy, em Os portais do mistério da segunda virtude (p.15), na nova colecção de clássicos cristãos que as Paulinas estão a publicar.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Esperança


Porque as crianças são minhas criaturas.
Mais que os homens.
Porque elas ainda não foram derrotadas pela vida.

Charles Peguy, em Os portais do mistério da segunda virtude, com tradução de Armando Silva Carvalho, na nova colecção de clássicos cristãos, das Paulinas.

sábado, 25 de outubro de 2014

Da verdade do paradoxo


Há poucas coisas que apontem para Deus e apelem instantemente a Deus como a experiência da sua ausência.

Tomas Halík, Paciência com Deus, p.20.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Opinião, às segundas (II)


Esta semana, no espaço de opinião na universidadefm, regressei às questões da natalidade e ao estudo coordenado pelo Prof.Joaquim Azevedo, conhecido no último Verão:


Natalidade

Da maior pertinência e importância, em um tema de consequências estruturais para o nosso país, o estudo coordenado pelo Professor Joaquim Azevedo, apresentado recentemente, sobre a relação das políticas públicas com a natalidade, intitulado Por um Portugal amigo das crianças, das famílias e da natalidade (2015-2035).
Um dos méritos do relatório, cuja clareza de apresentação deve ser realçada, prende-se, desde logo, com a recusa de um pensamento fatalista, ou determinismo histórico: a quebra da natalidade a que vimos assistindo pode, pois, ser invertida. Para o demonstrar, estão aí um conjunto de evidências empíricas e científicas, a partir de experiências europeias muito bem-sucedidas, mormente no último decénio – Suécia, França, Finlândia, Reino Unido, Irlanda ou Noruega são bons exemplos a este respeito.
Como os autores do relatório pretendem que algumas da melhores práticas internacionais conheçam séria publicitação, para que entrem no debate público português, destaque-se, então, que o apoio às famílias, em percentagem do PIB, é de 3,4% na Irlanda e 3,2% na Suécia (contrastando com o 1,2%, em Portugal); na França, Suécia, Irlanda ou Finlândia o abono de família é universal e não restrito a uma camada muito diminuta da população; a Suécia tem uma cultura de literatura infantil muito prestigiada, existindo, por todo o país, livrarias vocacionadas para crianças, com livros em diversas línguas e com diversas atividades lúdicas dirigidas aos mais novos. Estes espaços oferecem uma alternativa para a ocupação dos tempos livres dos filhos. No Reino Unido, por sua vez, há prestações dirigidas a estudantes que têm crianças (que são pais, sendo estudantes).
Outra das virtudes do relatório passa pela visão holística, várias áreas do saber convocadas, na produção do documento, com proposta de políticas integradas e com compromisso estável para vários anos, a benefício da confiança dos pais. Também as melhores práticas autárquicas são mencionadas, com Vila Real a ser citado a propósito da existência, neste concelho, de descontos nos resíduos sólidos urbanos (com o cartão de famílias numerosas). O documento lobriga, adicionalmente, sinais de esperança em um estudo de opinião, igualmente publicado em Portugal em tempos próximos, indicando que os portugueses gostariam, em média, de ter mais do que dois filhos – logo, deixa implícito o relatório, se as condições forem criadas, as pessoas tenderão a concretizar esse desejo. Porventura, este último inquérito precisasse de ser aprofundado. Para além da exaltação do valor vida, da ideia de que sem crianças um país não tem futuro e de que além da realização esperada dos próprios e dos seus progenitores também haverá, com elas, uma melhoria da qualidade de vida da população, Joaquim Azevedo e seus pares são peremptórios ao sublinhar que com os actuais níveis de fecundidade não é possível o Estado Social em Portugal e que tal se encontra para além, ou antes, de qualquer debate ideológico a sobre esse mesmo Estado Social. Invertendo, porém, os termos, Luís Salgado de Matos, em O economista português, dirá que é o Estado Social, tal qual hoje existe, a causa do «inverno demográfico». Medidas como a) diminuição de impostos, como o IRS ou IMI dos pais das crianças a nascer, b) deduções, pelos avós, das despesas de saúde com netos, ou c) alargamento de creches quanto ao período de funcionamento (pós-escolar, férias, etc.), bem como d) outra flexibilidade laboral e investimento no tratamento da infertilidade serão tão positivas, como relevarão da maior pecha do relatório: a não indicação de custos das medidas. Apoiar a fecundidade das mulheres com mais de 40 anos talvez prejudique o apoio à fecundidade das mulheres mais jovens e mais férteis, destacou o juiz-desembargador Eurico Reis, do mesmo modo que Salgado de Matos se questiona do convencimento das empresas a financiar o aumento da natalidade; mais radicalmente ainda, sem contas detalhadas, não será possível demonstrar que é socialmente melhor resolver o grave problema demográfico português pelo aumento da taxa de natalidade e não pela manipulação do saldo demográfico, como tem sido regra há uma geração.
Entre as várias vantagens que, em todo o caso, este estudo fornece conta-se ainda o concatenar do que de melhor e mais recente tem sido publicado, a nível nacional e europeu, sobre a matéria. De entre o que o Parlamento Europeu assinalou, em 2008, conta-se que nos países mais familistas, isto é, aqueles em que se acredita que é preciso ser casado para ter filhos, e que é necessário que a mãe fique em casa a tomar conta destes, são aqueles em que se regista menor taxa de fecundidade. Isto remete, outrossim, para o factor cultural, além do económico, como motivação para a fecundidade (sendo que as explicações culturais, como se demonstra, não se ficam pelo individualismo destes dias, factor mais habitualmente referenciado).
Entre os autores que sustentam intelectualmente algumas das proposições do documento, contam-se Gospa Esping-Andersen ou Daniel Innerarity que quer na defesa da importância do pré-escolar, quer na salvaguarda da justiça intergeracional a integrar no contrato social, respectivamente, mereceram já cuidado destaque neste reparo, em outras ocasiões. Companhias desejáveis, pois.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O regresso da temporada de cinema




Boa ideia a de oferta de um bilhete na compra de outro, para o cinema, na nova temporada (cinematográfica) do Teatro de Vila Real. Veremos se o incentivo funciona, em uma cidade que apesar de albergar alguns milhares de estudantes universitários, não consegue meter, de quinze em quinze dias, 20 - ou, as mais das vezes, sequer dez - universitários para ver um filme de qualidade. Para seguir Omar, de Hany Abu-Assad, uma boa película, talvez a sala estivesse com uma audiência superior à (sua) média, mas, ainda, assim à espera de maior contágio com vista a novos cinéfilos se gerarem. O cinema devia ter lugar na dita formação integral que compete à verdadeira universia.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Livros e questionamentos


Uma terceira objecção. Se o conservadorismo, como ideologia, se define pela negativa – não apresenta uma doutrina, um programa, uma utopia -, como compreender a afirmação, no capítulo final da obra (Conservadorismo, de João Pereira Coutinho), de que o partido conservador (britânico), desde as origens, defendeu o estado mínimo? Argumentar-se-á que partido conservador e conservadorismo não têm de ser uma e a mesma coisa. Todavia, a claríssima apologia, pelo autor, desse back to basics, entendido como “conteúdo” que respeita melhor o pensamento de Burke e a verdadeira genética conservadora não estará, afinal, a definir, pela positiva o conservadorismo? De resto, um capítulo inteiro em defesa do governo Thatcher e de ideólogos como Hayek não permitirão conceber um corpus de ideias conservadoras (mas liberais)?

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Camus/Sartre



Quase sempre de acordo, nesta sessão do Presente no futuro, Marcello Duarte Mathias e António Mega Ferreira, com moderação de Paula Moura Pinheiro, dedicada à relação entre Camus e Sartre.

Do papel do estadista


Acredito que um político tem como uma das missões procurar persuadir os cidadãos do bom fundamento da sua visão da sociedade, dos ideais políticos que professa, das medidas de reforma que preconiza - e não apenas, necessariamente, ser um seguidor do que já está. Quando Pereira Coutinho argumenta, com Burke, que ao povo "deveis dar-lhe o benefício que ele pede - não aquilo que pensais que é o melhor para ele" (p.70) parece-me que leva tão longe a crítica aos desvarios da razão - e sobre os monstros produzidos pela razão, a escolha do quadro de Goya, por Vítor Gaspar, não deixou de ser lida como severa auto-crítica - que, por outro lado, como que reconduz o conservadorismo a um populismo. Se a história - a começar pela recente - deixa bem à vista as trágicas consequências do fanatismo ideológico, prova, igualmente, que as vozes encantatórias que, simultaneamente, resistiram (a ratificar o sentimento e axiologia predominantes, instituições aceites maioritariamente, em uma dada comunidade, em um dado momento) e contribuíram, determinantemente, para mudanças fundamentais em diferentes geografias, eram realmente urgentes. Um motivo estrutural, portanto, para nos afastarmos da convicção política do autor.

domingo, 19 de outubro de 2014

O Brasil decide


Foi por se desligar das sugestões dos marketeiros e ser mais espontâneo que Aécio Neves recuperou terreno, entre os eleitores, segundo o próprio, em entrevista à Veja. Além disso, a sua candidatura, apostando em uma lógica racional, naufragou após a onda emocional provocada pela morte de Eduardo Campos. Realizado o luto, muito do eleitorado - paradoxalmente, até, devido aos ataques do PT a Marina, que conseguiram colocá-la em cheque face aos eleitores - regressou ao PSDB (o debate na Globo foi, igualmente, muito importante). Feitas as contas, Marina Silva acabou com o eleitorado já conquistado nas últimas eleições, que, segundo o cientista político entrevistado por aquela publicação, é, em grande medida, pós-materialista e tem preocupações - ambientalistas, de qualidade de vida, reforma do sistema político...- que o fazem votar sem pensar, primordialmente, na carteira. 
Que problemas os brasileiros hoje mais sentem? Se quisesse dar uma resposta de marketeiro, assume Aécio na entrevista à referida newsmagazine, diria que era a corrupção. Mas não: é a qualidade, as insuficiências, ou degradação dos serviços públicos que mais ocupam os brasileiros. E, todavia, nos dois debates televisivos do segundo turno, o mesmo Aécio assentou todas as baterias na questão da corrupção. Talvez porque é aquilo que mais rende - aquilo que seria o foco do marketeiro -, talvez porque, como o tucano reconhece, será altura de, além da razão, dar um toque de emoção à sua campanha (quanto à espontaneidade, quando se vêem ambos os candidatos, nos debates televisivos, a responderem ao adversário, mas virados para a câmara televisiva e não olhando, sequer, o parceiro de frente-a-frente, estamos conversados). 
Os dados das primeiras sondagens desta segunda volta mostram que 66% do eleitorado de Marina se deixou cativar por Aécio (que, embora mediaticamente, e a milhares de quilómetros, não seja dito, recebeu, igualmente, apoio de outros partidos, nomeadamente os situados mais à direita). Embora se possa referir que há um empate técnico, a verdade é que são já quatro as sondagens, conhecidas neste segundo turno, que dão a vitória a Aécio (o que, somado à dinâmica de vitória que vem da primeira volta, pode ser um indicador relevante). A disputa final pelo eleitorado indeciso constitui a dúvida que resiste. Há uma classe média que entre pretender passar para o patamar de rendimento e consumo seguintes - que achará mais possível com uma dinâmica económica que percebe mais conseguida em Aécio - ou regredir socialmente - também, aqui, é Aécio que polariza, mas no sentido em que se questiona até que ponto os amortecedores sociais serão tão importantes como no governo PT - hesita. O suspense da eleição poderá ser o suspense em torno do desenlace desta hesitação. 
Em todo o caso, Aécio promete manter, "melhorar" e "ampliar, se necessário" o Bolsa Família - um programa social emblemático dos anos PT, apesar da controvérsia acerca da sua génese - e diz que quer ser conhecido, "daqui a 100 anos", pela "revolução na educação", a saber, "universalizar uma educação de qualidade" (o que o seu congénere português do PSD, líder de um governo que se propõe cortar mais 700 milhões na Educação, não subscreveria, muito provavelmente). 

Coisas que só nesta terra




No Café da Paz, em Alijó, o café ainda custa 50 cêntimos.

Bom Domingo

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Separador de águas


Se havia espaço para reduções [fiscais], então elas deviam ter recaído no IRS e não no IRC.

António Costa, na Quadratura do Círculo, 16/10/14


P.S: Talvez a intervenção mais cáustica da noite, no senado televisivo, acerca do Orçamento de Estado, tenha sido a de Manuela Ferreira Leite, considerando tratar-se de um documento que "a troika não desdenharia", com diversos entorses legais - entre os desvios ao que a lei prevê estará a ausência de especificação do destino de verbas substantivas remetidas para generalidades -, no qual se vislumbra, por vezes, um tom "panfletário" que estaria bem "num comício partidário", mas não em um articulado desta natureza. Finalmente, "o descalabro do CDS no interior da coligação" fica à vista, no entender da ex-ministra das Finanças.

O apego às terceiras vias



Tal como o apreço humano pelo familiar, pelo conhecido, pelo testado, pelo gosto de conservar, deve haver, a julgar pela definição proposta por Pereira Coutinho para o conservadorismo, igual apego pela ideia de terceira via: com o conservadorismo, garante o autor, não há nem "o sangue dos revolucionários", "nem dos revanchistas reaccionários" (p.28).

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Presidenciais Brasil 2014: segundo debate, da segunda volta (live)


O segundo debate do segundo turno, nas presidenciais brasileiras - que decorre nesta altura -, não se realiza em prime-time: principiou às 18h06 de Brasília (com transmissão na SBT e Jovem Pan). Prossegue o tom crispado, em torno do tema da corrupção: "ou a senhora foi conivente, ou foi incompetente!", atirou, há pouco, Aécio Neves a Dilma Rousseff. Voltaram as histórias da possibilidade de nepotismo, com nomeações de familiares a serem de novo trazidas à tona (hoje, Aécio diz que a irmã trabalhou para o seu governo, em Minas Gerais, mas de modo voluntário e não remunerado (cumpriria o papel de "primeira dama"). Pode uma pergunta ser dedicada à educação que Aécio não larga o foco ("o mais importante ministro do seu governo está preso!").
Depois de muito tempo dedicado ao assunto, o candidato do PSDB citou dados impressionantes publicados pela Unicef: 24 adolescentes são mortos diariamente (56 mil brasileiros são assassinados anualmente). Aécio pede controlo de fronteiras e garante que menos de 40% dos objectivos de programas destinados a recuperar jovens ligados ao mundo da droga (o programa "é possível vencer") foram atingidos. A inflação é outro dos tópicos sempre evocados pelo candidato tucano.
Dilma refere a experiência positiva da Copa, a nível de segurança, com articulação entre os 12 estados da Federação e Estado Central, defendendo a integração das forças armadas e polícia. E seguiu pela obra feita, procurando mostrar o seu conhecimento do país face a uma suposta ignorância do seu rival ("você tem que se informar melhor!"): "Nós estamos fazendo 9 metro's no país; é a primeira vez que isso sucede; enquanto vocês foram governo, jamais investiram em mobilidade urbana", atacou Dilma, sublinhando: "você está tentando apropriar-se dos meus programas sociais".

Escola e esperança





Do trágico em medicina


Bem vemos que os últimos dias tendem a poder trazer de volta a peste para escalas impressivas, o que pode desmentir a visão de Céline, que perscruta a dimensão sacralizada da medicina (para ele indissociável de uma tragédia perdida). 




Sentia uma tremenda admiração pelos médicos. Isso, sim, parecia extraordinário, se parecia. A medicina era a minha paixão. [O que representava um médico, na sua infância?] Simplesmente um homem que vinha à Passage Choiseul para ver a minha mãe doente, o meu pai. Via um tipo milagroso, era o que eu via, que curava, que fazia coisas surpreendentes a um corpo sem vontade de trabalhar. Parecia-me uma coisa fantástica. Ele tinha um ar muito sábio. Eu achava aquilo absolutamente mágico. (...) Bah! Agora, é tão maltratado pela sociedade, que tem concorrência de toda a gente, já não tem prestígio, já não tem prestígio. Desde que se veste como um empregado de bomba de gasolina. Heim? Já não tem muito a dizer: as donas de casa têm a Enciclopédia Larousse de Medicina e, além disso, as próprias doenças perderam prestígio, há menos doenças, senão veja: já não temos sífilis, gonorreia, tifóide. Os antibióticos acabaram com muita da tragédia da medicina. Já não há peste, cólera.

Louis-Ferdinand Céline, Entrevistas à Paris Review, 2, p.68-69.


(De)feito e feitio




Julguei que não houvesse necessidade de um maître à penser - e João Pereira Coutinho cita Oakeshott, no Conservadorismo - para explicar que uma coisa é a disposição, o feitio de alguém e outra a sua filiação ideológica (se assim lhe quisermos chamar). Nem sempre coincidentes. Pode ter-se uma disposição (interior) conservadora, um feitio conservador e ideias "progressistas", ou o inverso - uma disposição muito 'p'rá frentex e ideias bastante conservadoras. 
Todavia, basta um exemplo prosaico em família - "nunca pensei que a Alexandra fosse de direita, ela é tão refilona!..." - para percebermos que, afinal, era mesmo necessário puxar dos manuais para proceder ao distinguo.

Clarificações




Creio que quando inicia o capítulo sobre a sociedade comercial, no seu Conservadorismo (Dom Quixote, 2014), João Pereira Coutinho apresenta/expõe a crítica formulada, em sectores conservadores, a uma sociedade de mercado. E responde-lhes, diferentemente, com uma apologia de uma economia de mercado. Como se não houvesse distinção de conceitos (entre economia e sociedade de mercado) e como se a referida crítica conservadora - nomeadamente, a invasão do mercado a esferas da vida onde as motivações podiam/deviam ser outras do que aquelas presentes no mercado - fosse formulada por autores que, em todos os casos, rejeitariam a economia de mercado (tout-court). Só, julgo, em arguindo - e demonstrando - que uma sociedade de mercado é boa, ou melhor, conforme ao conservadorismo, se objectaria a muitas das críticas propugnadas (a tal sociedade, vindas de sectores conservadores, em nome desse mesmo conservadorismo).

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Primeiro debate da segunda volta das Presidenciais Brasil 2014



Na noite brasileira de ontem, o primeiro dos debates da segunda volta das presidenciais entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, na TV Bandeirantes, foi marcado pela forte tensão polarizadora em torno de dois grandes temas (aliás, já esperados): a) o ataque, pelo candidato do PSDB aos casos de corrupção durante a legislatura vinda de findar, envolvendo o PT; b) a reivindicação das políticas sociais, pela candidata do PT, não apenas como realização do seu mandato, mas como algo que pode perigar às mãos do seu principal adversário. 
Se os dados estavam lançados, talvez o modo como os contra-ataques foram desferidos tenham surpreendido: a) Dilma acusando Aécio de levar para o governo de Minas "três primos, três primas, um tio e uma irmã" (Aécio negaria que alguma irmã estivesse nesse governo e acusaria o governo de Dilma de estar "manchado de lama"), além de citar o MP brasileiro apontando o mau uso de dinheiros públicos na governação de Aécio (na construção de um aeroporto em terrenos de um tio, um caso despoletado pela Folha de São Paulo); b) Aécio reclamando para o PSDB a paternidade do Bolsa Família e questionando, retoricamente, Dilma sobre se não é possível ir mais longe do que apostar nesta política "assistencialista" e "aí, sim" tirar as pessoas da pobreza. Com um governo 'tucano' garantiu que tal sucederá.
Em temas económicos, Aécio puxou por dados recentes que apontam para a quebra brasileira e enfatizou o problema da inflação; Dilma disse que "70% dos brasileiros ganham dois salários mínimos" e que o Brasil está na melhor situação "nas últimas três décadas" ao nível do emprego - em uma situação de "quase pleno emprego".
Num debate original, em que os candidatos se questionaram sem mediação e em que, assim, não puderam acusar jornalistas de, eventualmente, não introduzirem os temas certos, pois os temas foram aqueles que cada um quis. Aécio Neves que tem sido destacado pela postura sóbria e diplomática acusou Dilma de agressividade excessiva. O debate foi o programa mais visto, ontem, na tvbrasileira (os dez minutos que medeiam entre os 33' e 43', no vídeo acima postado, são os mais intensos deste frente a frente...a olhar sempre para a câmara).
A questão da baixa da idade de imputabilidade penal (até ao momento nos 18 anos), bem como a flexibilidade ou liberalização do mercado de trabalho dois pontos defendidos por Aécio na primeira volta, mas que o apoio de Marina colocou em causa - dado que esta sujeitou o seu apoio a um caderno de encargos, em que tais questões eram apresentadas -, a ser interessante de ver, em futuros debates, se permanecem na agenda para a próxima legislatura

O regresso da jorna




Uma das novidades importantes no século XX foi a instituição da mensualização dos salários: "a jorna, que era a norma no século XIX, desaparece pouco a pouco. Trata-se de uma etapa essencial na constituição do assalariado como grupo social determinado, caracterizado precisamente por um estatuto e uma remuneração estáveis e previsíveis, e nisso claramente distinto da arraia-miúda de jornaleiros e artesãos pagos à tarefa que caracterizavam as sociedades dos séculos XVIII e XIX" (Piketty, p.464).
Quando hoje se diz que, de algum modo, as relações de trabalho parecem, não tão raramente como seria suposto, regressar ao séc.XIX é disto que se trata também: da enfermeira contratada à peça, para uma tarefa determinada, quando é preciso, e só para aquelas horas, para a clínica que estreou há pouco; dos novos disponíveis para qualquer coisa que apareça, "ao negro", sem qualquer segurança ou garantia, sem impostos, nem seguros, a baixo preço para as tarefas que surgem quase como dádivas. As pessoas acumulam trabalhos, a que não podem bem chamar trabalhos, são tarefas, pagas como tarefas e não trabalhos, que as ocupam até à exaustão. Sem retribuição minimamente conforme.Vamos tendo cada vez mais exemplos destes por perto.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O fio perdido da meada




Os telejornais são tão longos, escorregam tanto para o supérfluo, a actualidade, por natureza, dura tão pouco que vamos perdendo o fio à meada de notícias importantes, que ficam, assim, reservadas a iniciados. Noto, agora, que foi assim (também) com a questão do resgate bancário, em Chipre. Ficara, apenas, no acompanhamento da notícia, pela decisão europeia de que os depositantes haviam de contribuir, de um modo proporcional, para o resgate. Note-se: depositantes. Logo, quem em carteira tivesse outro tipo de títulos escaparia ao corte, pelo que este assumiria carácter regressivo. De entre os depositantes, mesmo aqueles que possuíam até 100 mil€ teriam que entrar neste 'resgate' (com quase 7% do valor que possuíam). Ora, os cipriotas não aprovaram este tipo de resgate bancário. Aquilo que passou a vigorar foi análise banco a banco, com os detentores de depósitos até 100 mil€ a serem poupados ao corte.

"A CIÊNCIA PRECISA DE UMA ÉTICA?"



Com os Profs. João Lobo Antunes, Maria Mota e João Oliveira Geraldes. Debates com contraditório, na FFMS. Moderação de Graça Franco

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Biografias e outros textos


Os antepassados de Primo Levi tinham, já, sido vítimas da perseguição da Inquisição. Ele diz que domina várias literaturas por causa do pai gostar de ler e arranjar livros que noutro lado não encontrava - Ezra Pound também liga à família, no caso ao avô que trocava correspondência, em verso, com banqueiros, a sua própria veia poética. A profissão, a química, diz-lhe imenso, diz-se muito devedora dela, forma de se furtar ao primado do espírito sobre a matéria que a escola italiana lhe inculcava. E foi a ler livros de Química que aprendeu uns rudimentos de alemão. Em Auschwitz, o saber alemão acabou por ser determinante para se conseguir manter vivo - tal como foi decisivo para que outros perecessem. Está de acordo com Heinrich Boll, foi o espírito de obediência (à lei; sem questionamentos) que levou os alemães a permitirem a Shoa: "Sim. Essa é a principal diferença entre o fascismo italiano e o sucedâneo alemão, o nazismo. Costumávamos dizer que o fascismo era uma tirania suavizada à conta do nosso menosprezo pelas leis. E assim era. Muitos, muitos judeus italianos salvaram-se à conta disso. Quando as leis são más menosprezá-las é bom (...) Há dois meses, o meu editor pediu-me que prefaciasse um livro de Rudolf Hoss. Sabe quem é? O director de Auschwitz. É um livro de primeira linha, na minha opinião. Escrevi mais ou menos isto: «Em geral, quando se pede a um escritor o prefácio de um livro, a razão é ele adorar esse livro, achar que esse livro é belo. Bom, caro leitor, este livro não é belo. Não o adoro; odeio-o. Mas é muito importante, porque nos ensina como um homem normal pode ser distorcido por um regime até se tornar no assassino de milhões de pessoas». Hoss teve de facto um juventude difícil (...) Em todo o caso, era constituído pela mesma matéria que nos constitui a nós. Era feito de matéria humana. Não nasceu criminoso. Não era uma aberração. Era um ser humano normal. Mas, quando entrou naquele caminho do nacionalismo e, depois disso, de educação nazi, a sua formação tornou-o um Jasager - aquele que diz sempre «Sim». Cumpridor da lei. Não lhe importava, na época, que a lei coincidisse com as palavras de Hitler e Himmler. Afirmou com franca sinceridade que teria sido impossível, tanto para ele como para os restantes alemães, desrespeitar uma ordem de Himmler. Eram treinados para obedecer pontualmente a todo o tipo de ordens - não a julgar o conteúdo da ordem. Simplesmente obedecer". (entrevistas da Paris Review,2, Tinta da China, 2014, p.272/273).


"A RELIGIÃO É UMA LIBERDADE?"



Uma boa conversa, no âmbito dos mais recentes encontros da FFMS, com Adriana Veríssimo Serrão, Guilherme d'Oliveira Martins e Frei Bento Domingues. Sobre o "gérmen da inquietação", como diria a moderadora Anabela Mota Ribeiro.

sábado, 11 de outubro de 2014

A 'metamorfose', para crianças (e adultos)




Quando Frederico inventa uma história com o homem-concha, abandonado, pela diferença que ostenta face aos demais, insuportável para os outros, deixado pelos próprios pais, junto à praia - e só resgatado, ao panelão de um prometido refogado, pela mulher-ameijoa -, Kafka é a referência que parece pairar sobre a pequena parábola. E, não por acaso, cremos, é A metamorfose o livro que Frederico, ele mesmo investido, na narrativa, de uma espécie de Gregor Samsa, requisita na biblioteca escolar. Ser educado, não ter o sonho de ser jogador de futebol, gostar de estar sozinho, em reclusão na sua concha, inventando histórias, poemas, objectos, coisas malucas, ter um amigo só, pode fazer de alguém o insecto indesejado que cumpre afastar. Na recusa da normalização, da banalidade, há muito humor e mordacidade - excelente a comparação entre o amor devotado a um carro e a um filho, a tabela de bolo de chocolate, cujo preço diminui à medida que se utilizam palavras como "se faz favor", ou "obrigado", o policês...tudo acompanhado da perfeita complementaridade da ilustração de Carlos J.Campos -, em uma história que não se poupa a uma filosofia, a uma moral: a irredutível necessidade de valorizar a diferença - e, em particular, a diferença para melhor. Que a há, por muito que tal contrarie algum politicamente correcto dos nossos dias, afogado na mesmice.
O Estranhão, de Álvaro Magalhães, passa por lugares clássicos da cultura portuguesa - o Pessoa de todas as cartas de amor são estúpidas -, não deixa de dar as bicadas contemporâneas mais prosaicas - a vontade de alguém ser escritor famoso cumprir-se-à com mais facilidade se alguém, além de escritor, for apresentador de telejornal -, até a uma pincelada por um país em crise (a mudança de casa de Frederico, porque os pais não podiam pagar a anterior). O jogador de futebol que é muito mau intelectualmente, mas é um génio com o corpo e a executar todos os movimentos certos num campo de futebol, expressando aí a sua inteligência; o sonho de tantos pais de terem o futuro CR8 e de tais sonhos não só serem curtos, como (quase) nunca se realizarem; os namoros pela internet que dão lugar a descobertas desconcertantes (a namorada, conhecida no facebook, para a qual se escrevera afincadamente, era, afinal, um cão), o movimento permanente entre sonho e realidade, com momentos de fôlego, como em uma das lições para aquele que ficando sempre fechado em casa julgava tudo ter descoberto (tv, frigorífico, fogão...), o que obriga a estar atento aos outros, ao que escrevem, ao que dizem, ao que inventam, frases lapidares, com apuro literário, assertivas, curtas, por vezes, provérbios, eis motivos de sobeja pelos quais soube tão bem regressar a um mundo imaginativo, lúdico, de certa maneira clássico, os das crianças que desde bebés podem ser filósofas e o dos adultos que querem contar e conhecer com elas.

Da importância dos debates televisivos em política




Um clássico eleitoral, a quando dos debates televisivos entre candidatos, passa por questionar a importância da confrontação mediática para o resultado final dessas eleições. O tema costuma ocupar umas boas páginas nos jornais, os exemplos do passado são quase sempre os mesmos para esgrimir argumentos num sentido ou noutro e a conclusão (débil) é, tendencialmente, para o não – os debates televisivos não são determinantes para o resultado final da eleição.
Julgo que fazer doutrina geral sobre o assunto é delicado. O melhor será responder como um certo professor de Direito que, posto sobre a solução de um caso, quase sempre advertia: depende. Depende da distância entre partidos/candidatos quando se parte para a campanha eleitoral; depende das circunstâncias da campanha; depende da audiência que o debate tenha; depende dos episódios que o debate ofereça…
Nas eleições presidenciais brasileiras, o debate televisivo mais visto foi o último, realizado na Globo. Teve 20% de share e muitos milhões de telespectadores. O debate correu bem a Aécio Neves e mal a Marina Silva. O PSDB faz sondagens diárias para controlar o modo como a opinião do eleitorado se vai movendo. E a verdade é que de quinta para sexta dessa última semana de campanha eleitoral, o PSDB registou 9% de subida nas sondagens que mandou fazer. O debate na Globo foi na quinta-feira à noite. Não terá sido motivo único, claro, mas pode ter valido, em substancial medida, uma eleição.



A clareza de um mundo (II)





Hoje, muitos jovens conhecem melhor as marcas do que a História Universal. Se perguntarem a muitos adolescentes quem é o George Clooney, eles sabem, mas se a questão é nomear grandes escritores, por vezes nem sequer percebem a pergunta. No entanto, sabem dizer facilmente o nome de 10 automóveis topo de gama, ou marcas de roupa.

Gilles Lipovetsky, em entrevista concedida a Luis Silvestre, Sábado, 09/10/14, p.31.

A clareza de um mundo


Sábado


Na entrevista de Fábio, o “jihadistas português”, a Nuno Tiago Pinto (o “sr.Pinto”, da Sábado) é possível observar, com muita nitidez, alguns dos grandes desafios que continuam a colocar-se em muita da que é a recepção islâmica de Deus: a) a visão idolátrica do livro (Corão): “como o profeta não sabia ler ou escrever, o livro só pode provir do divino”. Quer dizer, não há aqui espaço para qualquer mediação – humana, cultural, de linguagem – e o texto é Deus, enviado sem mais, por Ele, para ser lido e interpretado, pois, literalmente; b) “só há uma maneira” de fazer a vontade de Alá na Terra, e, logo, não há espaço para caminhos de criatividade, de inventividade, de liberdade; c) a “ummah é um corpo” e “se parte sente dor, o resto do corpo também a sente”. A definição identitária como que marcada, em exclusivo, pelo religioso, sem permitir que outras dimensões nos religuem ao outro. Esta ligação à ummah, a uma comunidade de crentes, é, ainda, estranha a uma constelação civilizacional (ocidental) na qual vínculos como os da pátria tendem a primar (preocupamo-nos mais em saber se o “jiahdista” é português, antes de saber se era, por exemplo, cristão - antes da 'conversão', é claro). Este foco de polarização identitário é muito forte na formação de “Bin Ladens” (leia-se, já com alguns anos, o “Criando Bin Ladens”, de Zachary Shore); d) a religião vivida como ideologia totalitária, sem espaço para liberdade: “é uma religião de paz depois das pessoas viverem sob os mandamentos de Alá”. Quer dizer, aqui não vigora o “liberdade é, também, liberdade para o mal” (BentoXVI, Spe salvi); e) não há separação entre “Deus e César”, daí que, por exemplo, a educação esteja apenas ao serviço de Deus e uma disciplina, como a filosofia, que coloque em causa a “unicidade” Deste é banida. A dificuldade ou impossibilidade de articulação do pluralismo na concepção de Deus fica aqui, igualmente, bem exposta.
Dito isto, na entrevista há espaço para a revelação da procura de um sentido que assume, não raro, uma declinação de negação do/deste mundo – “não procuro possessões mundanas. Apenas o prazer de Alá. Porque o além é melhor e mais longo do que este mundo” – e alguns inesperados momentos “gato fedorento”: perguntado sobre a mulher, Fábio responde, rindo, “qual delas?” e, em afirmando estar a caminho da quarta (mulher; que juntará às três a que se encontra vinculado), atira ao jornalista que se este vive com apenas uma “está a perder o comboio”, acrescentando que estas não vivem juntas “por questões de segurança”. O toque pós-moderno a uma visão do mundo – “elas gostam de andar cobertas” – que muitos descrevem como medieval.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ninguém?





A argumentação do PM, esta sexta, no Parlamento, para o descalabro na colocação de professores para o presente ano lectivo, inovou face ao que já era conhecido. E cada inovação, neste plano, como sabemos e se confirmou, é de temer. Disse Passos Coelho que os erros cometidos se deram no âmbito de uma reforma - "e não por imobilismo". E que conquanto o erro fosse repudiado, a ninguém se ouvira contestação ao novo modo de colocação de professores, pois que este contrariava arbitrariedades e discricionariedades de anos anteriores.
Assim, pelos vistos, a) há justificação para os erros verificados (ocorreram em contexto de reforma); b) os erros, ou consequências destes podem, deste modo, ser lidos quase como "danos colaterais" (dentro da inevitabilidade que este governo associa a todas as medidas que toma, talvez também estes erros, no seu entender fossem, afinal, dadas as mudanças na forma de colocar professores, inevitáveis; o que parece mesmo inevitável, com este governo, é, com franqueza, a asneira); c) ninguém contesta o novo sistema ou modelo de colocação de professores.
Entre o espanto e a indignação, quem respondeu a perguntas como "já teve alunos surdos?", "já teve alunos autistas?", "já foi director de turma?" e sabe que as respostas são insindicáveis, em um sistema em que a opacidade e a possibilidade de fraude são bem reais, questiona-se em que país vive quem diz semelhantes coisas. Porque, em realidade, esta mesma possibilidade de fraude vem constatada, em diferentes periódicos, nas últimas duas semanas, no nosso espaço público; diferentes professores - certamente, todos os que responderam de modo fidedigno ao que lhes foi perguntado nos "subcritérios" - deram eco a estes consideráveis problemas, em múltiplas plataformas; os sindicatos fizeram saber que não subscreviam este novo modelo de colocação de professores e que, com todos os problemas, melhor seria, então, a contabilização de média de curso e/mais tempo de serviço. Toda esta gente é ninguém?

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Política (VIII)




Formas de combater a austeridade (indica Piketty): a) tributação extraordinária do capital (por exemplo, taxa proporcional de 15%); b) inflação; c) austeridade. O Professor de Economia que pôs uma parte do mundo a discutir o seu livro, começa por realçar que os países emergentes têm uma dívida pública muito inferior à dos países ricos, em média. Depois, diz-nos que a tributação extraordinária do capital seria o mecanismo mais justo e eficaz de reduzir a dívida pública. Acrescenta que também aqui a progressividade devia ser garantida (por exemplo, 'fortunas' inferiores a 1 milhão de euros - muitos dirão: não se trata de fortunas - não seriam taxadas). Uma terceira observação é a de que, historicamente, foi o recurso à inflação a resolver problemas de dívida pública. Menos boa do que a primeira solução; preferível à última. Redução de dívidas públicas muito grandes como aquelas que existem em muitos países europeus, com recurso a políticas de austeridade implicam - para mais, com a inflação que hoje temos - muitas e muitas décadas a pagar (o exemplo britânico, também dado por Soromenho Marques em Portugal na queda da Europa, surge aqui como expoente de quase um século para compor a dívida, o que em uma democracia com as características que hoje temos parece muito difícil de suportar). O mais interessante neste desenvolvimento de Piketty é o chamar a atenção de que sendo a inflação um instrumento preferível à continuidade das políticas de austeridade, todavia ele não é isento de riscos. Se, no debate público, é obrigatório colocar todas as cartas na mesa - tem-se criticado, e bem, o modo como a solução para o ex-BES foi apresentada aos portugueses como inócua para os portugueses, quando hoje a própria ministra das Finanças vem dizer o contrário -, também importa registar, em modo de honestidade intelectual este ponto de Piketty: se, para uma redução drástica da dívida pública no imediato, uma taxa de inflação de 5% seria importante, a verdade é que em a esse patamar chegando não será fácil - não se sabe como - a controlar (pode fugir aos alquimistas). Mais: são as classes menos favorecidas a serem mais castigadas com uma inflação que se tornasse galopante. Sim, o perigo hoje é o inverso, seria bom um aumento da inflação, mas não há soluções sem risco.


Da série: "é difícil marcar penaltys nas Antas no último minuto" (IV)



Época 2009/2010. Campeonato. 15ª jornada. Dragão. O FCP vai vencendo o Vitória de Setúbal por 3-2. Penalty contra o Porto, diz o árbitro. Felizmente para os portistas, Hélton defende e o FCP fica na luta pelo título mais umas jornadas. O treinador do Porto era Jesualdo Ferreira.
Ficam só estes quatro exemplos (ver posts anteriores) de memória (não fiz nenhuma busca exaustiva). Por aqui se prova que nas Antas ou no Dragão não é difícil marcar-se penaltys no último minuto (pelo menos, contra o Porto). O resto é a desonestidade intelectual do costume. Gostava de ver cromos para troca, mas todos sabemos onde é difícil, senão impossível, marcar penaltys no último minuto, em Portugal (contra a equipa da casa).

Da série: "é difícil marcar penaltys nas Antas no último minuto" (III)

Da série: "é difícil marcar penaltys nas Antas, no último minuto" (II)




Da série: "é difícil marcar penaltys nas Antas no último minuto"



Último minuto do prolongamento. Nas Antas, FCPorto e União de Lamas estão empatados a zero. Penalty - "não se vê se a mão de Silvino toca o avançado", diz o narrador da RTP - para a equipa visitante. Em entrando a bola, o FCP é, imediatamente, eliminado da Taça de Portugal. Época 1995/1996. Treinador do FCPorto: Bobby Robson.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Das relações internacionais



Paulo MOURA (entrevista) Michael IGNATIEFF, “Devia ser regra: não intervenhas num país que não compreendes”, Público, 6. 10. 2014, 26-27

O Ocidente deve intervir no Estado Islâmico com forças terrestres e ter o realismo de apoiar o regime de Assad, diz Ignatieff. As novas classes médias preferem a liberdade privada de comprar do que a pública de agir

Michael Ignatieff é autor de ensaios, ficção, livros de viagens. Foi líder do Partido Liberal e da oposição no Canadá, é hoje conselheiro das Nações Unidas e um dos pensadores políticos mais influentes do mundo. Esteve no encontro O Futuro da Liberdade, organizado no fim-de-semana no Centro Cultural de Belém pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Há hoje ameaças à liberdade mais fortes do que no tempo da Guerra Fria?
Primeiro, as boas notícias: temos mais pessoas vivendo a democracia, a liberdade política e cívica do que alguma vez na História. As más notícias são os regimes de capitalismo autoritário, que se consolidaram na China, Rússia, Turquia, Hungria, Roménia, Angola, Moçambique, etc. Temos capitalismo com governo de partido único. As pessoas têm liberdade privada, de comprar e vender, mas não de mobilizar, participar, agir. As liberdades públicas não existem para 1,5 mil milhões de pessoas. Isso é uma coisa nova.

Não é propriamente novo, tivemos capitalismo de partido único em Portugal.
Sim, mas nunca tínhamos tido globalização, com democracia liberal de um lado e capitalismo autoritário do outro. E o curioso é que a globalização está a estabilizar os regimes autoritários, não a miná-los. O facto de as pessoas terem liberdade privada leva-as a não querer saber da liberdade pública.

Porquê?
Preferem a ordem ao caos. Na China dizem-lhes que, se lutarem por direitos democráticos, destroem o país. O mesmo na Rússia. As pessoas escolhem a ordem e a repressão, desde que isso garanta as suas liberdades privadas.

As novas classes médias, que vêm da pobreza, na China, Rússia ou Turquia, tendem a não valorizar muito os valores democráticos?
Aceitam a liberdade privada e são cúmplices do autoritarismo.

As pessoas são levadas a temer a liberdade.
Penso que sim. Só se aprende a confiar na liberdade quando se tem instituições como o primado da lei, tribunais independentes, imprensa livre. A democracia não é só o governo da maioria. Só se perde o medo quando se tem direitos. Isso é difícil de construir.
Muito difícil. Um trabalho de séculos. É preciso criar hábitos da mente e do coração. Mas eu sou optimista, e acho que a democracia não é apenas uma ideia europeia. Porque expressa um conceito muito universal: a minha voz vale tanto como a tua. Ser este apelo moral à igualdade torna a democracia atraente para muitas pessoas. Mas primeiro é necessário ultrapassar o medo.

As tentativas de exportar a democracia não têm tido muito êxito.
A maior parte das vezes não acertamos, não o nego.

Mas às vezes acertamos. Segundo um conceito criado por si, “Responsabilidade para Proteger” (R2P), o Ocidente tem o direito e a obrigação de ingerência quando está em perigo a segurança de populações. Que avaliação faz hoje das últimas três grandes intervenções, que tiveram o seu apoio — Afeganistão, Iraque, Líbia?
São casos diferentes. Não se pode impor a democracia nem a liberdade com uma arma apontada. Não se pode mudar uma cultura de um momento para o outro. As circunstâncias eram diferentes. No Afeganistão, tivemos de trabalhar com o que tínhamos, que eram senhores da guerra locais, Estado altamente descentralizado, lógica tribal. Se queríamos pôr alguma coisa a funcionar no Afeganistão, tínhamos de abandonar muitos dos nossos ideais, e trabalhar com os poderes fácticos existentes no terreno. Isso levou-nos muito tempo a aceitar. Porque, antes de ter liberdade e instituições decentes, é preciso ter ordem, e isso não se consegue a cinco mil metros de altitude. É preciso pôr as botas no terreno. Não tivemos êxito no Afeganistão, nem no Iraque, e é ainda mais evidente na Líbia. Mas correu bem na Bósnia, em Timor-Leste, no Kosovo, na Macedónia.

Que lições se devem tirar?
Três lições: devemos ser humildes, saber alguma coisa sobre o lugar onde se vai intervir e devemos trabalhar com o que temos. Somos inacreditavelmente ignorantes. Pensámos que lugares como a Líbia eram folhas em branco. A nossa ignorância foi catastrófica.

Como se explica isso? Os EUA têm as melhores universidades.
Que falharam. Somos ignorantes e temos um incurável provincianismo. Devia ser uma regra: não intervenhas num país que não compreendes. Outra regra: se queres ordem, tens de trabalhar com o que tens. Se trabalhas com o que tens, precisas de fazer compromissos, sobre democracia, direitos humanos, etc. E, se vais fazer isso, tens de ter tropas no terreno. E estas são mensagens muito difíceis de aceitar para o público dos países democráticos. A resposta das pessoas “inteligentes” é: vamos ficar em casa. Isso não é responsável. Olhemos para outro caso, a Síria. Não fizemos nada, e acabámos por ter o Estado Islâmico.

O Estado Islâmico apareceu em consequência da intervenção americana no Iraque, onde não havia fundamentalismo islâmico.
Não há dúvidas sobre isso. A desestabilização do Iraque desestabilizou a Síria. Mas, desde que Assad começou a matar o seu próprio povo, deixámos que isso acontecesse, e podemos estar a pagar o preço da não intervenção.

É agora altura de aplicar outra teoria sua, a do “Mal Menor”, ajudando Assad?
O Estado Islâmico tem de ser detido, porque não queremos extremistas terroristas a controlar território e poços de petróleo. Se usarmos o poder aéreo, podemos impedi-los de se expandirem, mas não nos vemos livres deles. Temos por isso de estar preparados para os combater no terreno. Os curdos vão lutar, mas não para os expulsar do Iraque. O mesmo com as milícias xiitas.
Não será portanto suficiente ajudar esses grupos.
Podemos ajudá-los, mas isso não vai resolver o problema. Os EUA estão a aperceber-se dos limites do seu poder, nesta região, o que é bom. E é preciso fazer alguma coisa. Por isso digo que talvez tenhamos de promover um cessar-fogo em que Assad mantém o território que tem, e os rebeldes mantêm o que têm. Mas que as mortes parem. Porque o que está a acontecer é uma catástrofe, e não vejo como o ISIS [Estado Islâmico] pode ser derrotado, a menos que haja um cessar-fogo com o regime de Assad.

É imaginável uma intervenção em grande escala, semelhante à de 2003 no Iraque?
É muito difícil imaginar isso. Só se houver um ataque a território turco, a que a NATO teria de responder. Ou uma catástrofe humanitária, com perigo real de genocídio. Se não, assistiremos a uma longa guerra de atrito, em que as fronteiras do Iraque e da Síria se irão aos poucos dissolvendo. O Iraque e a Síria ainda existem de jure, mas de facto estão a desaparecer.

É mais clara a emergência da nação curda como Estado?
Penso que sim. Já há, de facto, um Estado curdo independente. Para sê-lo de jure, será necessária uma conferência internacional, daqui a 15 ou 20 anos, em que os membros do Conselho de Segurança, incluindo a Rússia e a China, se sentarão para redesenhar os mapas de toda a região.

A emergência dos nacionalismos, ainda que na sua forma benigna, como na Escócia ou Catalunha, vai obrigar a redesenhar fronteiras nas próximas décadas?
Há um paradoxo evidente para todos: num mundo global, é de esperar que as comunidades reajam afirmando as suas diferenças. Mas eu oponho-me sempre à secessão, quando as pessoas vivem em democracia, e não é exercida nenhuma violência sobre elas. É sempre melhor partilhar do que separar-se. A independência não proíbe necessariamente a partilha. O problema é que, por exemplo, na Catalunha, se assume que um grupo de pessoas é catalão, e outro grupo é espanhol. Como se fossem duas espécies de animais, uns são tigres, outros leopardos. Mas eu conheço pessoas em Barcelona que têm pai espanhol e mãe catalã, há casamentos mistos, uma enorme interligação.

Tal como existia na Jugoslávia.
Sim. O que o nacionalismo sistematicamente esconde é que há quem seja catalão e espanhol ao mesmo tempo. E nas democracias liberais somos livres de escolher se queremos ser mais catalães ou mais espanhóis. E devemos manter a liberdade de ser ambos. Mas o meu conselho para os espanhóis é: dêem-lhes um referendo. A secessão unilateral é uma receita para a guerra civil. Não se consegue manter um Estado multinacional excepto com consenso.

Dessa forma se deteve os escoceses. O que terá pesado na vitória do não?
Para muitos foi a percepção de que a aventura romântica teria custos económicos. A União Europeia parecia fazer baixar o preço da secessão. Mas Bruxelas começou a dar para trás: um novo Estado terá de se candidatar de novo à UE. E será um processo lento e complicado, porque a Espanha, ou o Reino Unido, vão opor-se vigorosamente à integração dos novos candidatos.
E qual será a capacidade do nacionalismo na Ucrânia para manter a integridade do país?
O nacionalismo ucraniano tem desafios muito difíceis. Terá de aceitar que a língua russa faz parte da tradição ucraniana, bem como, de alguma forma, a presença da Rússia. É claro que Putin quer, no mínimo, criar um conflito permanente no Leste da Ucrânia. No máximo, pretende criar uma ponte de território que una a Crimeia às zonas orientais da Ucrânia, unificando os territórios. O compromisso seria ter uma autonomia desses territórios do Leste, que os colocaria sob controlo real russo, mas sem uma transferência formal de soberania. E desde que a Ucrânia não adira à NATO nem à UE.

Esse compromisso é razoável?
Não. Os ucranianos nunca aceitarão que Moscovo lhes diga o que fazer em relação à Europa. Esse é a batalha fundamental. Por isso acho importante a pressão económica que obrigue Putin a aceitar um compromisso pior do que gostaria. Que as faixas orientais do país tenham uma autonomia substancial, mas que seja possível uma parceria e programa de adesão à NATO e UE. Em suma: Putin tem de aceitar que a Ucrânia está perdida, e a Ucrânia tem de aceitar a realidade de estar na fronteira da Rússia.

É por causa dessa fatalidade que os fascistas são tão populares em Kiev?
Sim, porque querem expulsar os russos. E também os judeus. Mas o povo ucraniano tem de decidir quem o representa. A História é complicada, mas a Ucrânia terá de escolher: ou quer um nacionalismo cívico, que inclui os russos, ou um nacionalismo fascista. E os actores externos têm de dizer-lhes: se querem, tornem-se fascistas, mas não vão ter amigos. Não vão entrar na Europa, e ninguém vai investir aqui.

A presença dos fascistas é precisamente o argumento dos russos para terem tomado a Crimeia.
Sim, tornarem-se fascistas é a melhor maneira de ter os russos em Kiev. Os ucranianos vão perceber isso.

Imagina uma bipolarização que conduza a um grande conflito mundial?
Quando a Internet se desenvolveu, pensou-se que criaríamos uma espécie de comunidade de informação global. Isso preveniria a desinformação e, por isso, a guerra. Mas o interessante é que estamos a criar bolhas de informação, que são mundos separados, de fantasia e mentiras. Depois da Crimeia, Angela Merkel disse sobre Putin uma frase muito reveladora: “Ele vive no seu próprio mundo.” Isso define a realidade de hoje. Mesmo Putin, que tem acesso a todo o tipo de informação, vive num mundo de espelhos criado por ele, em que acredita que está a lutar contra os fascistas da Ucrânia.

Em relação a isso, o Ocidente também pode estar na sua própria bolha de informação.
Sim, nós temos o mesmo perigo. É importante ouvir o que dizem os russos e os chineses, e os nossos próprios líderes. A Internet reproduz as divisões que já existem. Cada um está no seu mundo. Putin não precisa de controlar os media. Basta-lhe vender as empresas de comunicação aos seus amigos, e eles criam uma bolha mediática. Erdogan fez o mesmo na Turquia, e, no Ocidente, a excessiva concentração dos media pode ter o mesmo efeito.

Não nos conhecemos melhor, apesar dos novos media.
Não nos conhecemos melhor, de todo, o que é muito perigoso para a paz no mundo. Não penso que uma grande guerra seja provável, porque temos armas nucleares. Mas a nossa incapacidade para nos compreendermos uns aos outros é tão grande como sempre. Na realidade está cada vez maior.


Política (VII)





Mau grado todas as desgraças, Piketty considera que a Grande Recessão não teve as mesmas "consequências cataclísmicas" da Grande Depressão. Como outros autores, atribui tal situação ao facto de os Estados não terem deixado cair os mercados financeiros, de terem resgatado a banca (o que não sucedeu em 1929). Neste âmbito, é, pois, significativo que uma voz com reconhecimento à esquerda o diga. 
Um outro ponto muito importante, no conjunto dos considerandos do autor: a invenção do imposto progressivo como uma das grandes inovações políticas do século XX. Foi ele que permitir que as desigualdades não atingissem o grau e violência com que se impuseram na Belle Époque. Embora, neste instante, se perceba que, em função da globalização, e da concomitante não tributação, em diversos contextos, do capital se assistir, já, como estudos em França demonstram, a uma regressão fiscal nos rendimentos de topo. O investigador francês propõe, assim, de modo inequívoco um aumento da progressividade fiscal, sob pena, inclusive, de a própria ideia de Estado Social poder perder legitimidade popular quando os que se situam no último patamar de rendimentos percepcionam pagar proporcionalmente mais do que os que se situam no primeiro nível de rendimentos. O imposto progressivo surge, reafirme-se, essencialmente no século XX - a Dinamarca é uma excepção com a introdução deste imposto no século XIX, em 1870 -, muito embora tenha sido o factor guerra, sobretudo, a torná-lo numa efectiva fonte de receita para o Estado (até às duas guerras mundiais, estes impostos não tributavam mais do que 10% do rendimento, as mais das vezes nem 5%). Quando se passou a taxar a 'sério', curiosamente, são países como os Estados Unidos e Grã-Bretanha a adoptarem as taxas mais elevadas (nos EUA, chegam a atingir os 98%). O imposto progressivo não deixa de conjugar bem as exigências de justiça social com algum ideal liberal, já que há uma previsibilidade na taxação, promovida democraticamente e com capacidade de promoção de diminuição de desigualdades, deixando ao indivíduo o espaço para decidir como alocar o seu rendimento. Entre taxas confiscatórias (70%, 80%...) ou muito robustas (50%, 60%) promove o professor de Economia uma clara distinção de objectivos: de uma banda, trata-se, não de garantir receitas ao estado, mas de suprimir determinados comportamentos/remunerações; do outro lado, sim, visa-se arrecadar maiores meios para que o Estado possa financiar-se mais substancialmente.

Política (VI)




Relativamente às pensões, o modelo de distribuição, em vez do de capitalização surge, depois da II Guerra Mundial, em razão do facto de que aqueles que - até por força de obrigação de lei, pensemos em anos como 1910 ou 1928, em alguns países, como em França, que impunham modelos de capitalização - haviam aplicado as suas contribuições nos mercados financeiros ficarem arruinados (na sequência da Grande Depressão de 1929). Se, hoje, a maior remuneração do capital face ao trabalho - facto que Piketty demonstra - poderia sugerir a tentação da deslocação, de novo, do terreno da distribuição para o da capitalização, a volatilidade e o risco, todavia, face ao ganhos possíveis, são 5 a 10 vezes maiores. Não compensa. Quando atentamos devidamente nesta factualidade, há, ainda, dois registos que nos vêm à memória: a) a defesa destes modelos de risco ainda há bem poucos anos, no nosso país, como que ignorando ou negligenciando os fortes factores volatilidade; b) algum desplante, por parte de alguns dos principais defensores do dito modelo, de se apresentarem, em nossos dias, como os campeões do anti-liberalismo (económico).

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Miséria humana




Política (V)


Quando olhamos para o nível de (sub) desenvolvimento de alguns países pensamos no estado da sua educação, saúde, segurança social, transportes públicos, etc. Em várias nações africanas, ou do sudeste asiático, por exemplo, podemos constatar que, em cada uma daquelas àreas, as insuficiências são gigantescas. O que, porém, nem sempre notamos, por entre as causas de tais situações, é o nível de tributação da riqueza produzida em tais paragens. Se, nos países ricos, a média poderá rondar uma escala os 35-40% desde os anos 1980-1990 (p.735, O capital no século XXI), na África subsariana e no sul da Ásia essa fiscalidade baixou para 10% no mesmo período. Com tais níveis de tributação, impossível é ir além (do pagamento) das funções de soberania. Piketty deixa este subsídio quando fala das limitações que, por vezes, encontra na economia do desenvolvimento: sem um substantivo estado fiscal e social, muitos serviços do Estado não serão bem prestados e, em assim sucedendo, é o próprio Estado, ele mesmo, a ser colocado em causa.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Para os professores contratados 2014/2015



Frans Brüggen, desaparecido neste Verão, versão para flauta de bisel da "Pavana Lachrymae", de John Dowland
Flow, my tears - No nights are dark enough for those/That in despair their lost fortunes deplore.

Politica (IV)


Não tenho a certeza de Piketty de que é mais fácil entendermo-nos nos princípios – que balizam a vida em comum, política, como o princípio da diferença – do que depois na sua operatividade. Creio, sobretudo, que não fará completo sentido a oposição da dimensão teórica de elaboração do(s) valor(es) (políticos) a primar(em) na cidade – ou, pelo menos, a sua não inteira consideração - face à definição prática das normas a vigorarem, na medida em que não subscreveremos regras das quais não compreendamos inteiramente os fundamentos; seremos persuadidos em um ou outro sentido na definição de regras que traduzam da melhor forma esses princípios ‘constitucionais’(eles mesmos tendentes a serem controvertidos) de acordo com a leitura que fizermos dele, da capacidade de lermos o fundamento último que lhes é inerente. Daí que tais achados filosóficos não sejam de somenos, e relevem bem mais do que parece. A confrontação partidária, essa argumentação pública a que alude o autor, tende a negligenciar o grau de complexidade e subtileza do argumento mais rebuscado (de um Rawls ou Sen, citados por Piketty) e, nesse sentido, não substitui aquele plano primeiro (de encontro ou achamento dos princípios ‘constitucionais’). O plano filosófico (político). Com que todos nos devíamos confrontar, em um inicial – e determinante – momento. Uma sociedade muito pragmática tende, de resto, a deixar de lado tais questionamentos mais densos e, por essa via, aliás, desemboca, não raramente, em escolhas que estão longe de assentar bem – quando não a postergar - à lógica/fundamentação que presidiu ao desenho (filosófico) ‘constitucional’.


Cultura



José TOLENTINO MENDONÇA, A Cultura não é um luxo, Expresso. Revista, 04. 10. 2014, 6


Um dos perigos contemporâneos é a transformação da cultura em indústria de entretenimento, recheada de produtos de consumo rápido e sonâmbulo, capturada pelo simplismo dos modelos.

A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, traçando os objectivos para o desenvolvimento neste novo milénio, apostou na criação de um novo conceito: o de sustentabilidade cultural. Conhecíamos os conceitos de sustentabilidade económica ou ambiental, e emerge agora esta nova categoria para recordar que tanto a herança cultural de cada comunidade humana como as suas indústrias culturais e criativas, as suas infraestruturas e práticas culturais são patamares estratégicos para o presente e para as gerações vindouras.
Há, por vezes, o risco de pensar que a cultura é um luxo, útil nos tempos em que nos podemos permitir larguezas, mas ao qual é possível renunciar nos períodos de dificuldade. Ora, a cultura não é um luxo: é uma necessidade primária. Ela tem o carácter daqueles elementos sem os quais a vida diminui. E é precisamente nos momentos de escassez e crise, seja ela financeira ou de identidade e sentido como é a que hoje, em grande medida, o Ocidente vive, que a cultura deve ser vista como bússola e motor de desenvolvimento. A atividade cultural, na pluralidade das suas linguagens, tem por isso de ser apreciada no seu fundamental papel humano, social e civilizacional. Porquê falar da importância da cultura?
A resposta não pode ser senão uma: apostar na cultura é apostar na vida, na vida de cada um e de todos. É investir no que ela tem de mais profundo e visível, de mais silencioso e partilhável, de mais histórico e utópico, de mais pessoal e comum. Todos vivemos na e da cultura. Na multiplicidade das suas linguagens ela é o nosso habitat permanente. É o nosso observatório e ateliê; é o nosso dicionário e, ao mesmo tempo, o caderno de anotações daquilo que diariamente emerge e que ainda não está dito em língua alguma; é a nossa identidade irredutível e a nossa forma de abertura aos outros. Sophia de Mello Breyner Andresen recordava o seguinte: “Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista (e, nesse sentido, a produção cultural) vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.” O homem não vive só de pão: precisaremos sempre de alimentos de outra natureza. Ao lado do que parece estritamente necessário à sobrevivência temos de colocar aquilo que dialoga com a fome e a sede do coração e, sem o qual, até poderíamos viver, mas não seríamos nós próprios. Ao lado do imediatamente útil, temos de guardar lugar para o que parece inútil, como aconselha o poeta chinês Li Bai: “Vende um dos teus pães/e compra um lírio”.
 A cultura não é um meio de aceder a um código, a uma gramática e, por eles, a um património de informações ou entretenimentos. A cultura permite-nos entrar em nós próprios. É uma janela e igualmente um espelho. Um dos perigos contemporâneos é a transformação da cultura em indústria de entretenimento, recheada de produtos de consumo rápido e sonâmbulo, capturada pelo simplismo dos modelos. Porém, a cultura digna desse nome é aquela que dialoga com as grandes necessidades da vida e nos abre incessantemente à profundidade e à complexidade do real. Uma das mais belas parábolas que conheço sobre a cultura li-a num livro de George Steiner. Na URSS de Brejnev havia uma professora de língua inglesa que foi metida na cadeia — sem luz, sem papel nem lápis — por causa de uma denúncia absurda. Ela conhecia de memória os mais de trinta mil versos do “Don Juan” de Lord Byron. Quando saiu da prisão tinha já perdido a vista, mas ditou a tradução em que se ocupara ali mentalmente. Hoje é considerada a melhor tradução russa de Byron.