segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Portugal, Portugal, de que é que estás à espera? (II)




Há uma ideia generalizada de que este país é mal governado - e isto não tem que ver com a política -; e que se fosse bem governado era a Suiça. O que é impressionante é que há pessoas inteligentes, bem colocadas na sociedade, que falam assim. Não sei se pensam, mas falam assim. (...) Basta olhar para o mapa da Europa. O extraordinário seria que um país na periferia da Europa fosse como a Suiça. Todos os países da periferia da Europa, que estão tão longe de Bruxelas como Portugal, têm o mesmo nível de desenvolvimento. A questão fundamental não é porque é que Portugal é um país atrasado, mas porque é que a Europa não se desenvolveu do mesmo modo em toda a sua área geográfica (...) A Andaluzia, que está tão na periferia como Portugal, e que tem as mesmas dimensões de Portugal, tanto em PIB como em população, é tão pouco desenvolvida como Portugal. A Andaluzia não tem problemas de dívida porque pertence a Espanha; [de outro modo] estaria a ser resgatada como Portugal. O resgate em Portugal decorre de haver uma fronteira.

Pedro Laíns, em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, Weekend, Jornal de Negócios, 19/09/14, p.4.

Portugal, Portugal, de que é que estás à espera?



André Jordan respondeu: 'Portugal sem ser um ainda um país muito desenvolvido é ainda uma país civilizado' (...) Civilizado no sentido em que a palavra ainda vale, em que as pessoas se sentam à mesa para comer e conversar. Isto é civilização. [Habituámo-nos] a admirar a eficácia do norte da Europa, mas eles comem sanduíches ao almoço e não se sentam à mesa, não têm relações familiares em rede como no Sul. A crise que estamos a viver seria muito mais calamitosa no norte da Europa (...) As grandes civilizações nasceram na bacia do Mediterrâneo.

Paula Moura Pinheiro, em entrevista à notíciastv, 26/09/14, p.8

O regresso de prós e contras





Parece um bom dia para voltar a ver o Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira. "O regresso da política" é o tema para a edição desta noite. Política exige contraditório, alternativa, vias de sentido diverso, recusa de caminhos únicos. O exacto oposto dos anos de prós e prós que vimos de viver - eloquentemente ilustrados, ainda hoje, na crónica de José Pacheco Pereira, no Público. O regresso da política, pois. E que saudades.

Esmagador





Provou-se, com os resultados desta noite, o desconforto entre militantes e simpatizantes do PS com a liderança de António José Seguro e, com surpresa, talvez, para muitos a dimensão de esperança de que goza António Costa consolidou-se, mesmo após os três meses de desgaste desta campanha. 70%-30% evidencia um partido bem menos fracturado do que aquilo que se julgava. Os factos demonstram que a leitura da realidade socialista, feita por António Costa, foi claramente referendada pelo colégio eleitoral que, neste Domingo, se deslocou às urnas, não alinhando, pois, com a teoria da "facilidade" do momento, ou de "traição" a um partido que caminhava triunfalmente. Nada disto foi reconhecido por militantes e simpatizantes do PS.
António Costa, que teve de poupar-se para "consumo interno", tem tudo, mais liberto, para ser um adversário ainda mais duro de roer para contendores "externos". Começou, em definitivo, o countdown para as legislativas.


domingo, 28 de setembro de 2014

Do fundamento da normatividade universal de um ethos: o ágapê


As religiões monoteístas do tronco abraâmico (Judaísmo, Cristianismo, Islão) têm, no encontro humano com o Deus único, o Incondicional profeticamente revelado, o fundamento da normatividade universal do seu ethos. A fé cristã, entre elas, afirma ser o encontro com o Deus de Jesus Cristo, a experiência de um sentido radical do existir, uma teonomia fundante da liberdade e responsabilidade pessoais, um enraizamento experiencial da pessoa no Incondicionado que lhe assegura, a um só tempo, a liberdade e o limite.
Um termo grego - já presente na tradução grega da Tora judaica, e central no Novo Testamento - designa o fundamento do ethos do Cristianismo nascente. A palavra em questão é ágape, usualmente traduzida por amor. Aqui se intenta significar uma concepção de amor para a qual não parecem nem adequados nem idóneos os verbos e substantivos mais usuais na língua grega, como eros, filia, storgé...No amor/ágape destacam-se a generosidade desinteressada e oblativa - sem outro interesse ou possibilidade de gozo e satisfação que não seja o seu próprio exercício - e a disponibilidade para uma saída de si em direcção ao outro. A não profanável alteridade é o ponto de partida dessa doação de si, que tem a sua raíz num Deus doador que é o seu próprio dom. Esse Deus que se revela é percebido e adorado como sendo Ele mesmo o Amor. Tal como expressa, com ofuscante clareza, a primeira carta de João: «...quem não ama não descobriu Deus, porque Deus é Amor» (1Jo, 4,8).

Maria Clara Bingemer, Viver como crentes no mundo em mudança, p.46.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Públicos





Muito pouca gente, no Teatro Nacional de São João, na tarde de Domingo passado, para ver Pílades, de Pasolini (na encenação de Luis Miguel Cintra). Nem as disputas políticas, nem as mais fundas reflexões filosóficas - por exemplo, sobre o total conceito de inteligência, superando o racional enquanto o lógico -, presentes na obra, foram susceptíveis de convocar ao Teatro portuense muitos interessados.

Espanha advoga uma Europa federal



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Trabalho





O trabalho, escusado será dizer, serve para ganhar dinheiro, mas não só. Serve para mais alguma coisa. É mais do que isso. O trabalho é, antes de mais, um investimento de si próprio sobre si próprio: afirma que a parábola humana é, essencialmente, abertura ao futuro, à descoberta, a toda a novidade que pode ser trazida ao mundo. É verdade que nós, seres humanos, somos simples administradores de um feudo que nos foi confiado, ou seja, a nossa existência, que não deve ser apenas conservada de forma tímida e medrosa: recebemos talentos, dons, espírito e inteligência que, pelo contrário, devemos fazer frutificar com ânimo e coragem.

Armando Matteo, Qual é o teu caminho? Em conversa com os jovens, Paulinas, 2014, p.22.


Vizinhança


Ao tio Paulo:

Vendia-lhe pêssegos, desses que apanhava, junto à casa, na infância, cujo cheiro e textura não se esquecem, pêssegos desses já não há, e que me faziam saltar da cama cedinho. Embora mais tarde rindo-nos a valer dessa época, na altura o familiar agricultor especialista levava-me a sério, respeitava-me nessa compostura que (ele) mantinha, fazia-me acreditar na bondade e inocência de oferecer fruta a quem tanto a cultivava e nela se comprazia diariamente – e eu na altura não percebia contradição.
As vindimas eram uma sucessão de boa disposição, para onde se ia feliz durante horas e se concluía, em comunhão, à refeição especial. Chamavam-me para a festa, era realmente de festa que se tratava. Só dias depois, já com veteranos ao lagar, cantando naquele passo compassado e solidário, durante um serão alargado, com bôla de sardinha e pataniscas de bacalhau para forrar o estômago, se concluía a boda. A vindima era, aliás, no fundo, uma antecâmara do Natal, uma boa parte da família tinha ali um dos encontros do ano.
Saía noite escura, ainda, o tio Paulo, madruga para a feira, umas economias enquanto se pôde e o chão deu uvas como dizia a tia Lurdes, trabalho sem interrupção para férias, dureza, anos e anos e anos o trabalho, à tarde a merenda levada ao Olival, o homem cansado ao fim da tarde, provavelmente ainda a tempo de chegar para rezar o terço na Renascença – e, se não, mais tarde ao deitar (a imagem do casal, sempre junto o casal, comovido com o Cristo flagelado, na via Sacra que em 2001 ainda tocava a aldeia, não me abandonou). 
Havia sempre uma inteligência a despertar no permanente humor irónico que utilizava, tinha fama de exímio fazedor de contas, sempre dedicado à casa, à mulher, à família. Com a tia Lurdes, pela primeira vez ouvi expressões como "isso era no tempo dos Afonsinhos!", ou "ainda és do bom tempo, homem!...". Naquele quadro bem tradicional, era curiosa a crítica à política de meados do século XX, "Portugal cheio de fome", como repetia várias vezes. Em 1990, falávamos do malvado do Sadam, de como ela se enervava com o futebol com as caneladas que um jogador dava noutro e, já então, me dizia que os computadores tiravam muitos empregos (e eu que na altura julgava que seria a tia Lurdes a não perceber de Economia, e hoje sorrio com a lúcida constatação/profecia).
O tio Paulo era um homem de bem, como dizia, durante a inspirada homilia do seu funeral, o padre Vicente.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

"Código Chostakovich"



Foi Fernando C. Lapa quem explicou, em comentário introdutório - com algumas exemplificações práticas - à 10ª Sinfonia de Chostakovich como, nesta composição, o nome do autor e sua amada Elmira (certas notas, correspondem a determinadas iniciais - as letras D. SCH, correspondem a, mi bemol, , si) são gravadas em um jeito autobiográfico, combinado com a posição política, de sarcasmo sobre Stalin, que de modo impressivo desagua na peça, a que se soma, ainda, uma dimensão abstracta que diferentes ouvintes interpretarão de modo diverso (desde logo, o andamento inicial, para uns triste e melancólico, para outros denso, profundo, realista). Lapa terminou lendo Sophia sobre o significado da arte e o papel dos artistas. 
Com a Sala Suggia, da Casa da Música, praticamente cheia, assim, a Orquestra Sinfónica do Porto, com direcção de Takuo Yuasa, a proporcionar uma agradável manhã de Domingo.

Os transparentes


Anafados de moral, impantes, contorciam-se, exasperados, com as "questões de carácter", discussão única, ponto com exclusividade na sua agenda de debates. A retórica do exclusivo "argumento ad hominem" era assumida com uma força inabalável, tresandando a uma convicção inquebrantável. Isto, naturalmente, passava-se na legislatura anterior. Agora que a filosofia puxa por eles - terem, e não terem, em simultâneo, a exclusividade das "questões de carácter" como exclusivo ponto de agenda - ei-los, os transparentes, falando do conluio entre jornalistas e justiça, ei-los preocupados com uma justiça que funciona, dizem eles, em compensação, uma espécie de deus ex machina que decide, lá longe e no segredo, que a uma sentença que condena alguém ligado ao grupo A, tem que corresponder, de seguida, uma sentença que condene alguém do grupo B, para mostrar isenção e independência. Claro que os projectos editoriais criados ad hoc para a estação em que nos encontramos, tendem a dar lustro à nova teoria da cabala - que, apenas uns anos antes, os fariam encolerizar de morte -, mais importante a cabala de que os factos, bastante ilustrativos, por sinal, até ao momento. E quando não falam da cabala, falam do tempo, de que se há-de falar se não do tempo, do tempo em Lisboa, da chuva que Costa não evitou, Costa que mal, Costa assim, Costa assado, transparentes são, os transparentes, sobre gostos e medos. E a claustrofobia, por onde anda, quando mais de dez notícias depois, o Fernando Santos, a faca e o alguidar e a chuva, vinte e dois minutos após o começo, lá surgem no Telejornal as exclusivas questões de carácter? Tão transparentes, os transparentes, que não enganam ninguém.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Opinião, às segundas





Regressou, hoje, o reparo do dia, na ufm. Neste regresso pós-pausa estival, procurei fixar o que de mais positivo, para os europeus sem emprego e com menos esperança, pode ter surgido neste intervalo de cerca de dois meses. Revisão, pois, do discurso de Juncker e suas propostas para a Europa - seu possível significado.


A surpresa Juncker

Talvez a mais interessante e esperançosa das notícias deste Verão tenha sido o discurso programático com o qual Jean Claude-Juncker se apresentou a votação perante o Parlamento Europeu, a 15 de Julho último. Nessa alocução aos deputados europeus, recorde-se, o agora presidente da Comissão Europeia anunciou um programa de estímulo económico, com vista à criação de emprego, para os próximos três anos - apostando, em especial, na agenda digital e na indústria -, aposta no valor de nada menos do que 300 mil milhões de euros - o dobro, refira-se, do Pacto de Estabilidade e Crescimento desenhado por François Hollande, em 2012. Depois de vários anos a falar-se de crescimento, parece ter chegado a altura de se passar à prática, com medidas concretas que se espera afectem, pela positiva, a vida de muitos europeus (principalmente os que estiveram e estão privados de trabalho, nos anos mais recentes - e ainda nestes dias). Mais, prosseguiu Juncker, impõe-se flexibilidade na interpretação das regras fiscais; um renovado impulso à Taxa Tobin; a criação de um salário mínimo europeu. Houve auto-crítica, da sua parte, às políticas de austeridade prosseguidas nos últimos três anos – uma espécie de acto de contrição relativamente à sua liderança do Eurogrupo – e reconheceu-se a falta de equidade, tantas vezes negada quantas verificada, na distribuição dos sacrifícios resultantes das mesmas. Garantiu vir a existir um plano B sempre que aconselhar medidas aos países para estes melhorarem a sua situação - e estas falharem. Em editorial, ElPaís classificou o articulado do ex-primeiro ministro luxemburguês como o discurso mais à esquerda de um Presidente da Comissão Europeia desde os bonançosos tempos de Jacques Delors. Apesar de o presidente vindo do PPE não ter detalhado o modo de financiamento das medidas preconizadas e de, simultaneamente, proclamar a manutenção do compromisso conservador com as chamadas reformas estruturais, a verdade é que a exposição de Juncker soou tão social-democrata que o diário de direita espanhol ABC fez, mesmo, manchete, no dia seguinte, com crítica cerrada a Pedro Sanchez, nóvel líder do Partido Socialista Espanhol,  pelo facto dos eurodeputados socialistas espanhóis não terem ratificado o luxemburguês.
Analisar as motivações ou razões de um discurso de algum modo surpreendente era o que importava fazer também. Pego no contributo do analista Ignacio Torreblanca para interpretar o problema. Na sua leitura, dois são os factores que convergiram para obrigar a Europa, incluindo grupos políticos menos propensos a assentir ao investimento público, a mexer-se: de um lado, o factor Marine Le Pen, isto é, a ascensão dos populismos e nacionalismos, nas últimas europeias que, mais do que os mercados, ameaçavam, ou ainda ameaçam, desintegrar a União Europeia – era, portanto, preciso fazer qualquer coisa para que, de novo, a Europa fosse vista como um projecto de vida para as populações; em segundo lugar, o factor Renzi, a liderança do novo PM italiano que vinha sustentando, fortemente, flexibilidade nas regras do euro – que, segundo o que foi publicado na nossa imprensa, o governo português estranhamente rejeitara – e uma política de estímulo económico.
Fixo-me, ainda, no primeiro dos factores enunciados. Pessoas com quem conversei acerca das últimas eleições europeias diziam-me ter votado em partidos mais extremados face às suas habituais opções, não como simples voto de protesto, mas como voto estratégico para obrigar o centro a reagir. Não sei se foram muitos os que assim decidiram, mas os que o fizeram, coqueteando com o fogo, parecem poder ter prémio. Em sentido oposto, os que votando convictamente em partidos nacionalistas ou anti-Europa por esse continente fora, poderão, eventualmente, estar arrependidos da escolha feita, porque, ironicamente, poderão ter accionado o sinal de alarme que, deseja-se, leve a Europa de novo a um patamar de coesão social (que está ainda muito por provar, apesar da muito positiva carta de intenções do agora Presidente da Comissão). Não deixa de fazer reflectir, por outro prisma, que tendo passado pela Presidência da Comissão, no pós-Delors, homens vinculados ao grupo do Partido Socialista Europeu, seja um conservador a produzir, no entender de alguns, o discurso mais à esquerda em largos anos. Se, durante anos, os partidos social-democratas foram acusados de sucumbir às ideias liberais, podemos estar perante um momentum em que mesmo os mais liberais aceitem estímulos sociais-democratas na Economia. Ou que após o extremar ideológico destes anos da troika, seja tempo de maior compromisso político.

Boa semana.

domingo, 21 de setembro de 2014

Amar o caminho das pedras


No poema O amor não amado (19/06/1942), de Jorge de Sena, o sujeito poético interroga-se - ou exprime amargurado, uma amargura soltada em voz alta, implicitamente como que dirigida ao próprio Deus; portanto, um falar consigo e com Deus - sobre o porquê de ainda falar em Deus: "Nem sei porque ainda falo em Deus". Porque há-de Dele falar "se não existe uma barca onde o rumo se invente" (?).
Extraordinário verso, o que se faz voz, representante dos que não aguentam seguir pegadas, pegadas só, de um caminho que, tendo uma direcção - e sendo traí-lo escolher direcção oposta - mas que pode ser trilhado de múltiplas formas, sem a regulamentação pormenorizada do mais ínfimo passo. Adolph Gesché di-lo de um modo admirável:"Deus não é um funcionário do sentido".
Ou, nas palavras de Maria Clara Bingemer, "a teologia tem lutado - sobretudo após o Concílio Vaticano II - para demonstrar que se deve rejeitar toda a tentativa de manipular a palavra Deus para rechear de sentido imediato e manipulável uma vida humana frustrada e desorientada" (p.40, Viver como crentes no mundo em mudança).

[O amor não amado, de Jorge de Sena foi incluído na antologia Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa, p.62]

Os novos terroristas





Achei interessante contrastar os pontos de vista de Leonel Moura e de Henrique Monteiro, apresentados, respectivamente, no Jornal de Negócios (12/09/14) e Expresso (13/09/14) acerca da motivação da integração de jovens ocidentais nos exércitos jihadistas que da Síria ao Iraque vão proliferando, confrontando-os com o que disse o português integrado no Estado Islâmico na curta entrevista ao Expresso da semana passada.
Assim, se Leonel Moura sustentava que, ao contrário de outros revolucionários, nomeadamente daqueles que há décadas se formavam, tributários de livros e de ideias que neles se tornaram vontades indómitas, móbil de uma acção a perpetrar custe o que custar, os actuais terroristas movem-se pelo puro gosto de matar, ali não há nada mais do que isso, faltam-lhe dogmas, ideologias, ideias puras a converter em práxis, Henrique Monteiro considerava que o vazio espiritual, o campo abandonado por uma sociedade que nega essa dimensão essencial ao humano, conduz muitos a procurar em versões religiosas hard, fundamentalistas, experiências significativas depois do deserto ocidental.
Em boa medida, lendo atentamente a dita entrevista, quase somos tentados a dar razão a ambos os autores: por um lado, porque, de modo explícito, o jihadista novo confessava ao semanário que gosta de “praticar desporto e matar”; por outra parte, porque a concluir a conversa, refere que não voltará para Portugal para uma cultura de “shoppings, cinema e futebol”. Sendo discutível, certamente, o conceito de “cinema” implícito nestas palavras, parece, contudo, claro que destas palavras sai um claro desencanto – um não preenchimento – com a oferta “cultural” (vital) que acha predominante onde vivia.

O mapa das primárias do PS





Vila Real é dos distritos (ou círculos eleitorais) com menos simpatizantes inscritos para as primárias do PS, com 2950 eleitores não militantes. Com menos simpatizantes inscritos para as eleições de 28 de Setembro, encontramos, apenas, o Baixo Alentejo (1700 simpatizantes), Viana do Castelo (2150) e Bragança (2200). Inversamente, no top 5 dos distritos com mais inscritos temos Porto (36500), Lisboa (36000), Setúbal (9200), Braga (8000) e Coimbra (7000).

[dados da Comissão Eleitoral das Primárias do PS]


sábado, 20 de setembro de 2014

Tensão entre o que é e o que aspira a ser


Para o Rui:

Por isso, o ser humano, na sua originalidade irrepetível, ao tomar consciência de si mesmo diante das realidades do mundo, dá-se conta da maravilha da sua razão, do alcance do seu desejo, e descobre-se a si mesmo como constituído por uma total desproporção interior entre o que é e o que aspira a ser, o que é chamado a ser, o que poderia ser ["A realidade não é apenas o que é, mas sobretudo aquilo que poderia ser", A.Gesché]. Isso explica a nostalgia da eternidade, do paraíso que habita mesmo aqueles que não crêem.
Essa condição paradoxal, cindida, tensionada - e, sobretudo, bela! - é a condição humana. E é ela que faz aparecer a pergunta pelo sentido da vida como inevitável e constitutiva. Essa pergunta pode, obviamente, ser eludida, distorcida e sufocada, mas sê-lo-á ao preço do embotamento e da atrofia, no ser humano, das suas mais preciosas e maravilhosas potencialidades. E, por outro lado, ainda que essa pergunta seja constitutiva do que é ser humano, não há razões científicas ou equivalentemente racionais para fundamentar aquilo que transcende a ordem do mundano e do relativo. Só na gratuidade se pode encontrar a resposta para essa pergunta que, no entanto, sustenta toda a vida humana.

Maria Clara Bingemer, Viver como crentes no mundo em mudança, Paulinas, 2014, pp.39-40.


Viver a cidade




Às 17h, seguimos até à Capela Nova.

"A 2ª edição do festival “Oito Mãos, monumentos com música dentro”. Trás-os-Montes e Alto Douro volta a ser o centro das atenções deste singular festival. Singular porque todos os concertos se realizam em monumentos classificados ou de interesse público e promove, em exclusivo, as formações musicais em quarteto.
Quarteto constituído por Maria Helena Cabral (flauta transversal), Ana Madalena Silva (oboé), Rui Rodrigues (marimba e outros instrumentos de percussão) e Arnaldo Costa (fagote), músicos com grande experiência não só como solistas, como também enquanto instrumentistas de orquestra e de música de câmara"

Preparando a leitura de 'Pílades', de Pasolini (II)



Preparando a leitura de 'Pílades', de Pasolini


O subsídio de Anton Bierl.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Os "inéditos" da propaganda desportiva

capa jornal record

Há um ano, não pouco zelo de um árbitro italiano fez expulsar Herrera, aos 5 minutos de um FCP-Zenit (de Hulk, Witsel e Danny), para a Champions. Um FCP estóico enviou 2 bolas aos postes/barra, até a 5 minutos do fim os russos consumarem a vitória. Muitos aplausos, no fim do jogo, no Dragão para os jogadores do Porto
No tempo de Jesualdo Ferreira, estive, também, no estádio do FCP a assistir à segunda mão dos 1/8 final da Liga dos Campeões, em desafio no qual Fucile seria expulso a cerca de meia hora do fim e, ainda assim, Lisandro López faria o golo da vitória portista, em cima dos 90', levando o jogo a prolongamento. Mesmo com a derrota (na eliminatória) nos penalties, a ovação unânime de um estádio de pé sublinhou toda a entrega da equipa da casa. 
Finalmente, na época 2002/2003, 1/4 final da Taça Uefa, no antigo estádio das Antas sigo ao vivo a derrota dos dragões frente ao Panathinaikos. Terminado o encontro, o público não regateia aplausos aos visitados, mostrando crença na reviravolta da eliminatória (que viria a ocorrer, no prolongamento de Atenas). 
Isto, só assim de memória.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Da ideia de Universidade (II)


Quando o Curso de Estudos Gerais foi apresentado, congratulei-me com ele, como cidadão, no espaço de opinião semanal, na ufm. Agora que os seus primeiros licenciados estão aí, li com muito interesse a reportagem do Público:

"As pessoas estão na universidade não para arranjar emprego mas para serem educadas, para terem uma educação formal, no sentido do conhecimento, do saber, estruturado e organizado, de alta exigência e que as equipa, lhes dá a capacidade de serem autónomas, conhecedoras e poderem habitar uma democracia de uma forma mais séria", diz António Feijó, um dos mentores deste novo curso (...) De um ponto de vista estrito, não há propriamente universidade em Portugal. Ou seja, há excelente ensino universitário, há especialidades que são leccionadas e que treinam pessoas de modo excepcional, no domínio das engenharias, da medicina, da história; há vários domínios em que o treino é muito forte e muito bem feito. Mas esse treino é um treino vocacional. As pessoas fazem uma licenciatura monodisciplinar porque o desfecho dessa licenciatura — é sempre instrumental, aquilo serve para alguma coisa — é vocacional, é para eu exercer uma profissão (...)Aquilo a que chamamos Estudos Gerais é o que acontece em todas as melhores universidades do mundo. O facto de não acontecer na maior parte das universidades europeias só quer dizer que elas não são as melhores do mundo (...) E estas pessoas para onde iam? Para a Goldman Sachs, para uma escola primária no Novo México, para o MIT, para administração municipal em Chicago, para pastor protestante ou para o corpo diplomático na Nicarágua. Presumia-se que estas pessoas teriam uma formação cultural ampla e que sabiam escrever, pensar, e perceber um argumento".


"Pub":11.º Festival Internacional Douro Jazz - começa hoje




Vamos lá estar.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Terceiro Debate - Presidenciais Brasil 2014




O terceiro debate entre os candidatos às presidenciais do Brasil realizou-se no Centro de eventos do santuário nacional de Aparecida, com transmissão na TV Aparecida e, em simultâneo, em vários media católicos.
Talvez o mais curioso, e que nunca havíamos visto em debates do género, foi o facto de oito bispos da Igreja Católica terem colocado questões (previamente gravadas, com o próprio prelado) aos intervenientes da disputa eleitoral (em uma das partes do debate). Os temas sobre os quais questionaram foram:

Violência sobre jovens e o problema da droga; casamento homossexual; concepção da laicidade (por parte do candidato respondente); desigualdade social (1% dos brasileiros detém 50% da riqueza do país); educação (analfabetismo situa-se, no Brasil, em 9% da população brasileira acima dos 10 anos); comunicação/media (grau de regulação que o candidato pretende que exista); direitos humanos; a questão indígena.

No debate, aflorou-se o problema da existência de 34 milhões de brasileiros sem saneamento básico - a maioria das cidades brasileiras não tem tal saneamento. E, quando tem, “a colecta de esgoto” não é tratada. Crianças que vivem em cidades com ou sem saneamento têm resultados escolares diferentes (evidentemente, com melhores resultados daquelas que habitam em cidades com saneamento).

Discutiu-se a existência/manutenção do voto obrigatório, no Brasil. Duas forças político-partidárias presentes na discussão defenderam o fim deste voto obrigatório, embora a argumentação fosse muito pobre, alegando-se que assim as camadas mais desfavorecidas podiam ser alvo de corrupção (um argumento sem pés nem cabeça).

Calcula-se que 800 mil mulheres realizam aborto, anualmente, no Brasil. Os candidatos foram, também, perguntados sobre se pretendiam manter ou alterar a lei existente nesta matéria (existindo pontos de vista diferenciados neste âmbito, entre alguns dos candidatos).

Redução da maioridade penal foi outra das matérias introduzidas na conversação, sendo que entre formações partidárias com expressão não muito forte em inquéritos de opinião para as próximas eleições houve quem aderisse à ideia de que deve baixar a idade em que alguém deve ser responsabilizado criminalmente.

O Brasil tem cerca de 500 mil detidos. Há condições indignas nas cadeias. E este foi outro dos assuntos discutidos.

Uma sintaxe


Em Itália e também noutros países multidões devotas e fervorosas enchem de vez em quando as praças e grandes ocasiões rituais despertam o momentâneo interesse da gente e dos média, mas as igrejas dia a dia se esvaziam, sacramentos como o baptismo e o matrimónio religioso caem cada vez mais em desuso, e sobretudo desaparece a cultura cristã e católica, o conhecimento elementar dos fundamentos da religião e inclusivamente as mais clássicas passagens e personagens evangélicas, como se pode constatar frequentando os estudantes universitários.
Trata-se de uma grave mutilação para todos, crentes e não crentes, porque essa cultura cristã é uma das grandes gramáticas e sintaxes que permitem ler, ordenar e organizar o mundo, ditar o seu sentido e valores, orientar-se no meio da feroz e insidiosa balbúrdia do viver.

Claudio Magris, Se desaparecer o sentimento religioso, crónica publicada no Corriere della Sera a 12 de Junho de 2004, e inserta em A história não acabou, p.79.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Uma matemática manhosa


O absurdo instalado, desrespeito pelas pessoas.


Da família (II)





Mário Cordeiro, “As Crianças não são Propriedade dos Pais”, Expresso. Revista, 13. 09. 2014, 18.

Mário Cordeiro tem novo livro sobre a educação dos mais novos. O pediatra explica que educar é um acto de amor e que a violência é desnecessária para impor a disciplina


As crianças fizeram parte do mundo de Mário Cordeiro desde sempre. É o mais novo de oito irmãos e, por sua vez, pai de cinco filhos (de 35, 34, 12, e gémeos de 11 anos). Filho de pediatra, pediatra se tornou. Hoje, tem mais de 20 sobrinhos e quase 30 sobrinhos-netos. Escritor prolífico, lança aos 58 anos o 24º livro, “Educar com Amor”. Essencialmente, para combater a ideia de que educar e amar são opostos. Não são. Amar uma criança é educá-la, impondo limites.

O que diz este livro de novo?
O objetivo principal era desfazer o imbróglio que “quem educa não ama” e que “quem ama não educa tanto ou deixa andar”... Educação e amor são complementares. As pessoas deviam pensar: “Eu amo-o tanto, que tenho de o educar.” É possível ralhar com uma criança, dizendo-lhe: “Amo-te muito, mas o teu comportamento foi errado.” A criança não é os seus comportamentos. Nós ainda não interiorizámos que as crianças não são adultos em miniatura. Não têm uma compreensão sistémica das coisas.

O amor é a pedra de toque, a base da educação?
É. O amor não cobra. Existe apenas. Ama sem precisar.

Impor limites é uma das grandes questões dos pais. Devem ou não fazê-lo, e até que ponto?
Se toda a gente fizesse só o que lhe apetecesse, seria o caos. A maioria das regras existe para facilitar a vida às pessoas. Isso deve ser incutido nas crianças desde sempre. Sobretudo, tem de haver bom senso, e um projecto educativo. Os pais têm que saber, em linhas gerais, o que querem para os filhos — e pensar que tipo de pessoa gostariam de encontrar na rua dali a 20 anos.

Hoje em dia, há miúdos com telemóveis, iPads, consolas, Xboxes… Não há
um exagero?
Sou a favor da tecnologia, mas não em permanência. Não emitindo juízos de valor, posso contar a minha história. No meu caso de pai de cinco filhos, achei sempre que as Xboxes e as PlayStations não se justificavam, porque considero que os miúdos devem ser ultrassensoriais, desenvolverem o olfacto, o tacto... Nunca ofereci nenhum artigo tecnológico, nem deixei que lhes oferecessem. Dei sempre alternativas, claro. Ao argumento de que “lá na escolar toda a gente tem”, respondia: “Mas lá na escola não têm este pai.Fui coerente com a minha forma de educar. Hoje, os meus filhos mais velhos já conseguem ver o lado positivo disto. Continuo a fazer o mesmo aos mais novos.

Existe uma idade a partir da qual uma criança deva ter um telemóvel?
Acho que se deve ter um telemóvel quando se precisa. Parece-me inadequado uma criança de 10 anos ter um telemóvel, não vejo razão para isso. Assusta-me a dependência da comunicação que estamos a gerar.
Será que alguém me ligou? Fico triste porque ninguém me ligou? Isto preocupa-me...

Há pediatras que defendem que nunca se deve bater ou castigar. Qual é a sua posição face aos castigos?

Deve-se castigar quando há desleixo, má educação ou insolência. O castigo deve ser justo, proporcionado, adequado, pedagógico, nunca humilhante. A criança deve saber de antemão o que lhe vai acontecer (ex.: se tiveres má nota no teste, ficas uma semana sem ver televisão). Nunca se deve bater de maneira a doer. Nem a humilhar. Puxar uma orelha ou dar uma bofetada na cara é humilhar, porque é deformar a face, que é a nossa identidade.

Nunca deu um estalo a nenhum filho?
Não. Dei alguns açoites, raros. O meu pai também nunca me tocou. Mas quando me fazia os olhos mais tristes desta vida, era como se me tivesse dado com uma marreta. Dizia: “Não estava à espera disto de si.” Eu sentia que não queria desiludi-lo.

Qual seria o castigo adequado a uma criança que insulta a avó?
Deve pedir desculpa. Ir para o quarto por um tempo. Ser privado de alguns privilégios. E a avó está no seu direito de mostrar a sua tristeza.

Deve premiar-se uma criança quando passa de ano? Ou esse é um dever dela?
Se uma criança se transcende, se esforça muito, merece um prémio. Se cumpriu apenas, merece um elogio. No final do ano, como ritual de passagem, pode dar-se uma prenda, simbólica. Fazer bem é um sentimento ético, não é comprável.

O Brasil aprovou em Junho a Lei Menino Bernardo, que prevê punições para agressões a crianças menores. Até que ponto o Estado deve sobrepor-se à educação dos pais? Uma bofetada em público é violência?
Tudo o que humilhe é violência. Uma bofetada é violência. Porque é unidirecional. As crianças não são propriedade dos pais. O Estado deve zelar pelo interesse delas.

Quais os maiores dilemas que sentiu na educação dos seus filhos?

Talvez saber se estava a fazer certo ou errado. E resistir à tentação de fazer deles o meu livro em 2ª edição, com uma nova capa. Eles são o livro deles. Agora, dá-me enorme prazer ver os meus filhos repetir aos filhos deles alguns gestos e frases que eu lhes dizia

Já cá faltava




Um ano depois de Rui Silva ter posto fim à sequência de jogos só com vitórias que o Porto disputara no campeonato, desta vez tivemos Paulo Baptista e sus muchachos. Um remake de segunda categoria. 


Visão ampla




Visão Global: Quem ainda não ouviu falar do livro "Condor", de João Pina, sobre a operação homónima, das ditaduras sul-americanas na década de 70 do século XX, faz favor de escutar o programa de Ricardo Alexandre, na Antena1 [no link acima indicado]. E aproveite para se contextualizar com o mais espirituoso dos slogans (de entre os de cariz negativo sobre um político/candidato a eleições): "se está a pensar votar Marina, faça como ela: mude de ideias".  

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Aborto


Uma das crónicas do Corriere della Sera, presente em A história não acabou, dedica-a o seu autor, Claudio Magris, a Norberto Bobbio. De entre os exemplos que recolhe do Professor de Direito, da "sua militância ético-política e sua presença generosa e criativa na vida cultural" conta "o seu testemunho apaixonado e lúcido da realidade da vida nascente e dos consequentes direitos do nascituro".
Não conhecendo eu os escritos de Bobbio sobre o aborto, a formulação de Magris não deixará de surpreender se alguém se fixar na mais comum posição à esquerda - e sabendo-se de tal filiação ideológica do grande académico italiano - nesta matéria. De resto, Magris insiste na crónica seguinte: "um grande laico como Bobbio criticou várias vezes a arrogância laicista, por exemplo, a propósito do aborto; se me é lícita uma nota pessoal, foi a partir de 1974 que, sobretudo no Corriere, exprimi repetidamente críticas análogas sobre essa arrogância". Isto, em um texto em que se debruça sobre as soberbas clericais e laicistas, voltando, neste último contexto, ao aborto: "um convencimento [uma auto-suficiência laicista] que põe no Index de um pretenso atraso todas as vozes dissonantes".


Do que os cristãos devem fazer na política



Freitas do Amaral e a sua evolução na interpretação da Doutrina Social da Igreja.

domingo, 14 de setembro de 2014

Da família


O Sínodo dos Bispos reunirá, em Outubro próximo, em Assembleia Extraordinária, dedicado ao tema da família (após a consulta feita, a expresso pedido do Papa Francisco, à ecclesia, sobre o seu sentir, pensar, conhecer acerca da matéria, ou, melhor, de um posicionamento cristão neste âmbito). Só, contudo, na reunião ordinária, de 2015, serão tomadas decisões de foro pastoral, no contexto da problemática em apreço. O instrumento de trabalho (instrumentum laboris) preparado para os debates deste Outono, há cerca de dois meses conhecido, é um documento muito interessante. Muito em particular, agradou-me, de sobremaneira, o modo como vejo plasmada neste texto a realidade das nossas comunidades católicas, no sentido em que se reconhece, expressamente, não apenas a ignorância confessada de muitos católicos sobre as orientações, e seus grandes documentos, propugnadas pela Igreja (seu magistério) relativamente à família, como, por consequência, se assinala a desconformidade entre doutrina e práxis (católicas), e, não menos relevante, se assinala a existência de pastores não tão preparados quanto se exigiria para transmitir, de modo adequado, a visão cristã da família. Só partindo de um diagnóstico adequado e fiel à verdade - não idealizado, pois - se podem construir caminhos de futuro. O desconhecimento, mas a vontade de a ele pôr termo, das escrituras (sagradas), com trabalho feito, a este nível, ao longo dos últimos anos, outra nota a reter. Um segundo sublinhado: o documento assinala, com atitude adequada aos tempos, que "só uma Igreja compreensiva e compassiva" pode acompanhar as novas realidades familiares, recusando-se deste modo uma postura de soberba que em nada beneficiaria o humano (sem que, com isto, se deixe de afirmar o modo mais verdadeiro de conceber a família). O modo como, hoje, em não poucos casos pode suceder serem os filhos a evangelizar os pais, dá conta das mutações operadas nas últimas décadas. Em um documento no qual se pode apreender da catolicidade da Igreja, isto é, da sua universalidade, não deixa de ser muito interessante observar a diferença de tradições e costumes em várias regiões da Terra: para dar um exemplo, as relações ad experimentum - que, aliás, a Ocidente, não raramente tendem a cristalizar-se nesta situação - são como que quase desconhecidas a Oriente, ou em diferentes pontos de África.
Em matérias que dariam e darão, com certeza, lastro à investigação, pedindo de empréstimo a outras áreas do saber está a manifestada dificuldade, identificada neste articulado, do reconhecimento, em nossa época, do "direito natural". Em especial, solicita-se o aprofundamento - em apropriação contemporânea - do conceito "ordem da criação".


Uma certa ideia de cidade (II)




Na Viena de Zweig, há, sem embargo, a obediência absoluta, o professor na escola, o pai em casa, como valor supremo; a negação da juventude - no fundo, um espaço inexistente, sendo conformado por "aquela idade até estar maduro", maturidade, de resto, sempre por chegar, desconfiança de toda a força vital, que se impunha refrear; sexualidade reprimida, moral vitoriana estrita e estreita, muita hipocrisia, mulher sem corpo, casta, virgem, desconhecedora do desejo e da vida, “sexo fraco”, puritanismo extremado em jogo de criadas utilizadas para a educação sentimental dos adolescentes, muita prostituição pelas ruas, a horas diversas, doenças venéreas, sífilis, como os grandes monstros (reais). Nestas maneiras muito convenientes, neste completo predomínio do social sobre o demais, neste bas-fond tão diverso e longínquo do que a literatura e arte da época idealizam, é já da sociedade que Haneke coloca em cena em O laço branco, do germinar do ovo da serpente, que nos recordamos.


Lutero


No artigo que escreve esta semana na Visão, Viriato Soromenho Marques afirma que o livro do Pe.Carreira das Neves sobre Lutero é o "primeiro estudo sério, em língua portuguesa, sobre o líder da Reforma Protestante".

sábado, 13 de setembro de 2014

Uma certa ideia de cidade





Os rapazes a faltarem às aulas para aguardarem, pacientemente, na fila por um bilhete de ópera; os cafés, os bons cafés, pejados de jornais: os locais, austríacos; os do Império Alemão, os ingleses e os italianos – a que se juntavam as melhores revistas artísticas e literárias da época; dos concertos às viagens, diárias, às livrarias, sempre em busca da mais recente novidade, do autor por descobrir, da ideia mais avançada; e discussões, horas de discussões, diariamente, a caminho da escola, toda a turma empolgada, rapaziada de liceu, note-se, na discussão sobre uma crítica literária, um escritor, um artigo de jornal, uma obra acabada de sair; há poetas que cativam os jovens, Rilke e Hofmannsthal mais do que tudo, mais do que todos, e se tornam ídolos, cujos textos se plasmam na contracapa do livro de Matemática, há filósofos que o distante Mestre-Escola, austero e frio, que havia deixado o livro no último ano de faculdade, desconhece, mas que guia todas as conversas adolescentes. No ar, frémito e mudança, a arte antecipa, ou por ela passa, uma nova corrente que varrerá o mundo; a era da segurança ficara para trás. A escola é maçuda e maçada, o currículo é pesado. Mas há uma atmosfera à volta que tudo transforma. A Viena de Stefan Zweig, a Viena antes da I Guerra Mundial, carregada de vida criativa, de génio e impulso, é uma certa ideia, concretizada, de cidade a que convém, sempre, voltar.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Estreias




Fui à estreia da adaptação cinematográfica de Os Maias, por João Botelho, e saí globalmente satisfeito com o que vi. Penso que é obra que pode ficar, sem problemas, como adaptação fiel e digna da obra de Eça de Queiroz. Se temos tido aproximações a épocas e personagens da nossa história recente que se transformam em objectos completamente abstrusos - o Salazar garanhão, por exemplo -, há aqui um respeito pela narrativa, sem a procura de concentração em dimensões que seriam facilmente comercializáveis por um denominador de audiências muito pouco exigente (o modo de mostrar a relação entre Carlos Eduardo e Maria Eduarda é contido, por exemplo). Por outro lado, a forma de revelar O livro do Desassossego, escolhida por João Botelho, mau grado ter seduzido a crítica especializada, pessoalmente não me havia tocado e, nesse sentido, prefiro, largamente, a aproximação feita a Os Maias (claro que as diferenças das obras de Eça e Pessoa não permitiriam uma abordagem idêntica).
Nem sempre, contudo, me pareceu perpassar para o público a ironia que, além da dimensão profundamente trágica, a obra apresenta. Estando em uma sala com um público predominantemente adolescente, raramente escutei uma reacção de riso, uma gargalhada mesmo, apesar, reconheça-se, dos esforços colocados nas interpretações de um Dâmaso Salcede, ou de um Alencar. E da presença, nesta adaptação, da soirée em que se tocou a "patética" de Beethoven, para desgosto de uma plateia a quem Eça quis acentuar o provincianismo.
Sobretudo, faltou-me um Carlos diferente, mais forte, mais sofisticado até na decadência, cujo pathos, por exemplo na revelação da identidade de Maria Eduarda, não foi suficientemente verosímil, nem o falhanço diletante teve o tom de lucidez cortante e cruel que retive da obra queirosiana.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Um segundo debate bem melhor


António Costa surge, no segundo dos debates com António José Seguro, elencando as suas cinco grandes prioridades políticas, destacando, na quinta destas (combate à pobreza), o combate à pobreza infantil. A criação de uma nova prestação social, neste âmbito, havia sido assinalada, por Ana Rita Ferreira, no Público, como um dos marcos diferenciadores, entre os dois candidatos a PM pelo PS, no que tange ao binómio esquerda/direita, na delimitação de estratégias concernentes a combater pobreza e desigualdade. A criação de instrumentos ad hoc, no sentido de atenuar as situações apontadas (neste caso, a pobreza), como o complemento solidário para idosos parecia/parece, assim, poder fazer parte do programa de Costa (que não o de Seguro, e ir em linha diversa daquela que desvaloriza e cria bloqueios administrativos ao acesso a tais prestações, e faz de um modesto aumento das pensões mínimas o objectivo). No dia em que João Cardoso Rosas, também no Público, desmentia a interpretação de Ana Rita Ferreira quanto ao posicionamento ideológico dos dois candidatos, não me pareceu ao acaso a referência sublinhada por Costa. Finalmente, falou-se do país e o debate foi muito melhor, mais interessante do que o do dia anterior.

Do ponto de vista político, o segundo dos debates ficou muito marcado pelo modo como António Costa desconstruiu o ataque de Seguro à anterior governação socialista: das oitenta medidas anunciadas pelo ainda líder do PS, apenas “seis e meia” seriam novas, face ao programa do PS, em 2009. Seguro não conseguiu responder à altura. Apenas referiu como novidade a reindustrialização e, mesmo aí, foi rebatido. É que, nesse instante, ficava à vista que “a nova forma de fazer política” tinha, afinal, um nome antigo: “tacticismo”. A colagem, feita por Seguro, de Costa a Sócrates e ao anterior Governo, e seu afastamento destes, não tinha nada de diverso do ponto de vista substantivo – as medidas iguais numa percentagem avassaladora -, mas era/é apenas táctico (face à má imagem que resulta de tais governos). Depois dos sucessivos ataques ao “Costa, nº2 de Sócrates”, e do inesperado silêncio de Costa, no primeiro debate, desta vez o esperado boomerang “atacas os anteriores governos do PS e queres renegar uma parte do partido”.

Costa explorou bem o que tem de marca autárquica, em particular o modo bem-sucedido de agregação de freguesias e a omissão do PS (nacional) nesse campo, perante um Seguro nervoso e a interromper, em permanência, terminando em denunciar um “Costa à janela da Câmara”.

Não obstante, há, de facto um enorme buraco negro no programa de António Costa que é a completa omissão sobre o tratamento a dar à dívida pública portuguesa, imaginando-se que nesta altura o dossier estivesse estudado e fosse dito alguma coisa sobre o assunto. Incompreensível, efectivamente.

Por outro lado, a mudança de 180 graus na postura em debate, por banda de Costa, bem mais assertivo e acutilante por contraponto à passividade de véspera, colocou em cheque a tal identidade, a tal pose que escolhera (mal) vinte e quatro horas antes, agora imediatamente desmentida pelo próprio. Algo bem explorado por Miguel Pinheiro, na RTP.

Não se confunda, todavia, a contundência na discussão política – o tom suave com que Costa apontou a medida 70 e tal do programa de Seguro como sendo a defesa da paz no seio das Nações Unidas, foi de ir às lágrimas – com o ataque pessoal.

Costa terminou em grande, dando-se ao luxo de gastar 20 segundos do seu minuto final, em remoque paternalista, dando os parabéns a Seguro por desta vez não usar de ofensa pessoal.



Eu, robot (III)


Portugal é o país da UE onde a permeabilidade à automatização é maior: em risco, nos próximos 20 anos, 58,94% dos empregos, no nosso país. No estudo de Frey e Osborne (2013), trabalhos como os de terapeuta, cirurgião ou Professor do Secundário manter-se-ão, enquanto as probabilidades de manutenção de emprego de telemarketer, recepcionista, contabilista, guia turístico, barman ou barbeiro são reduzidas. Dados do Jornal de Negócios, de 09/09/14 (p.4-6), em peça de Nuno Aguiar.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Da ideologia no interior de uma cultura





1.As opções ideológicas que formulamos não se encontram à margem da cultura que frequentamos, do conjunto de convicções, crenças, ideias, desejos, representações, concepções, sentimentos que prevalecem em um dado momento; daquilo que conforma, em suma, o espírito do tempo.

2.A associação entre o paradigma cultural (hoje) predominante e a ideologia professada (por uma maioria de cidadãos) conta-se, assim, como o principal contributo que Raffaele Simone traz com O monstro amável – o mundo está a tornar-se de direita?

3.Muito radicalmente, nos debates do interior da esquerda, a pergunta última, fundamental, que o autor formula é se esta, a esquerda, ainda tem lugar, se os seus ideais conseguem alguma validade e legitimação popular, quando o consumo, o individualismo, a competição, o curto-prazo como medida definem o ar que se respira. Mais, ainda: se a pulsão inata do ser humano passa por uma afirmação sobre os demais, por um certo egoísmo, algum exibicionismo, pelo desejo de possuir, não será como que co-natural ao humano ser de direita (que, assim, no entender deste autor, melhor representaria tais impulsos naturais, na valorização que faz da hierarquia, numa certa recusa de uma limitação, via impostos, à propriedade, por exemplo)? E a esquerda, com os postulados de auto-contenção e redistribuição não remeteria para o artificial (auto- limitação da minha propriedade em favor de outrem, será algo natural em mim? p.178 e ss)?

4.A provocação intelectual é desafiadora, no contexto dos debates no interior de partidos de tipo social-democrata, porquanto representa um género de questionamento que implica uma elaboração bem mais demorada e densa para uma resposta capaz, cabal, do que as respostas que, parecendo mais práticas e rápidas de implementar, mantém, no fundo, o estado de coisas (com respostas espelhares às daqueles a que se aspira a ser alternativa). Nesta interpretação do mundo, o adversário (dos sociais-democratas) não se alberga já em um partido ou movimento político; muito mais, em uma dada evolução histórica e cultural (maxime, a existência de uma “cultura de massas despótica”).

5.Os problemas de legitimidade, à esquerda, nas últimas décadas advieram, desde logo, do conhecimento dos horrores cometidos em países governados por partidos comunistas; em segundo lugar, pela sua omissão de intervenção política – e, se quisermos, de prévia produção intelectual/discussão/debate - em temas tão centrais, para diferentes populações europeias, como a imigração ou o fundamentalismo islâmico; em terceiro lugar, os socialismos que o mundo ainda hoje conhece, como o venezuelano, não entusiasmam os próprios socialistas europeus; quarto problema não menos relevante: desde a ideia do Estado do bem-estar, nenhuma outra relevante teria surgido, desta banda político-ideológica, desde então (p.54). As dificuldades, à esquerda, assumem, portanto, um eminente carácter intelectual, que se reflecte em autoridade e prestígio (em perda, nesta ala política), pois que sem um projecto para o futuro estes se esvaem.

6.Perda para a esquerda, ainda, na última década/década e meia: a) o desaparecimento da classe trabalhadora como classe predominante; b) a mudança antropológica e económica do povo de esquerda; c) o desinteresse da juventude pela política.

7.Os capítulos (4º e seguintes) que detalham esta mutação permanecem os mais interessantes e agudos desta obra: nenhum operário seria figura para entrar num Big brother, isto é, não seria apetecível para a televisão e, em assim sucedendo em um tempo em que só o visível/visualizável conta, perdem o interesse para um partido político; por sua vez, mesmo a classe trabalhadora, numa época em que cada um se define pelo patamar de consumo que consegue atingir, aquilo que parece pretender é, sobretudo, alcançar o patamar de consumo acima do seu e, finalmente, nem mesmo esta (classe) se define de modo homogéneo, nem politicamente se revê em uma oferta de (auto) contenção (mesmo que essa recusa, no fundo, resulte em seu desfavor); as causas comuns, o interesse público e geral, o bem comum, quando é esse mesmo consumo que, afinal, nos definirá, não assumem particular relevo, e os mais jovens, a quem a publicidade mais se dirige, naturalmente, afora uma dimensão mais carreirista, afastaram-se, de um modo geral, da cena política, quando haviam sido um conjunto de agentes propulsores de mudança, outrora.

8.Quando o curto-termismo é um factor crucial de uma época, o desejo de transformação não é palpável.

9.Com certeza que não deixa de ser curioso que o reputado académico, linguista, de esquerda prefira Hobbes a Rosseau na conceptualização antropológica que produz; é discutível que se possam arrumar, definitivamente, a um canto, como sugere, as distinções, in statu nascendi, entre esquerda e direita, que Bobbio apresentou no clássico Esquerda e Direita; se a compaixão e a solidariedade são tópicos essenciais para cristãos e socialistas, respectivamente, e políticas há que a ambos podiam satisfazer, não se compreende, por outro lado, a recusa, tão peremptória, de alianças entre partidos democratas-cristãos e social-democratas ou a crítica ao religioso, que produz neste livro; nem todos aceitarão a descrição de direita que propõe, nomeadamente a univocidade desta (a Nova Direita enquanto o referido sistema de representações, concepções, desejos prevalecentes hoje, traduzida por “cultura de massas despótica”), nem, tão pouco, a generalização de certas características (como as acima apontadas, ou a absoluta recusa da importância do sector da cultura, por exemplo); as suas posições sobre segurança, imigração ou a questão palestiniana, dificilmente alcançariam consenso à esquerda (como, de resto, se pode verificar pela apresentação de Joaquim Estefanía, à edição em castelhano); as apropriações de algumas passagens de autores como Tocqueville não deixam de ser questionáveis (se o autor as lê como a descrição de um domínio absoluto por um dado sistema de crenças, elas poderiam ser interpretadas, igualmente, e talvez mais próximas do original, como crítica, liberal, a um Estado paternalista).

10.Em todo o caso, a deslocação do território exclusivamente económico-social para um de ordem cultural, como absolutamente carecido de ocupação e de trabalho (em especial por partidos sociais-democratas), por parte daqueles que procuram mudanças societárias e políticas em profundidade, constitui o iluminar de um topoi provavelmente demasiado tempo negligenciado (e que, nem por sombras, entrou na discussão que precedeu as primárias do PS, apesar dos esforços do Prof. Manuel Maria Carrilho, dos poucos a suscitar tal problemática no espaço público português).


Cá fora, nada


O que disse o debate de ontem, nas primárias do PS, a alguém que esteja desempregado?
Bastaria colocar esta singela pergunta para rapidamente perceber que o frente a frente na TVI foi de um irrealismo à prova de qualquer contacto com o mundo, sem substância de espécie alguma, alheado, por completo, do país.  Portanto, em primeiro lugar, é preciso dizer que o debate para o país não existiu; não houve Portugal, nem portugueses, no debate.

Para descortinar vencedores e vencidos na discussão de ontem, é, assim, necessário partir de um pressuposto extraordinário: ignorar qualquer existência (exógena) sobre a qual a discussão devia incidir, e conceber o dito frente-a-frente como fim em si mesmo. Mas persistir em analisar tácticas, manhas e estratégias – sim, se fosse um combate de boxe, Seguro ontem tinha dado mais uns murros, não há dúvida –, sem entrar em qualquer questão programática, é correr o risco de entrar no mesmo casulo fechado de quem não se abriu, por um momento que fosse, ao que interessa aos cidadãos. 

Correr esse risco - a seguir, publicaremos post sobre questões de fundo inerentes a estas eleições no campo social-democrata - é dizer que António José Seguro teve o debate que queria, completamente centrado em “deslealdades e traições” – um género “telenovela mexicana” que Ana Sá Lopes, com graça, resumiu: Seguro falou tanto de traições “que parecia a ex-mulher do presidente francês”.

Nem do ponto de vista do puro argumento – se aí nos quiséssemos conter – houve qualquer razão para que, quem gosta de troca inteligente de ideias, se pudesse regozijar. Naturalmente, uma dialéctica focada em “ambições” e outros supremos pecados desta jaez, que “uma nova forma de fazer política” suprimirá, não podia dever nada à subtileza. Quando saiu, oh excepção, da linguagem de aparelho, Seguro disse que, ao contrário de Costa, ele não pediu o aumento do salário mínimo nacional logo no início da legislatura, porque o PS tinha assinado o memorando. Só solicitou tal aumento quando entendeu. A vinculação de Seguro àquele compromisso era firme…dependente do seu juízo político. Aliás, brilhante, como se sabe.

António Costa surgiu em tom “calmantes” (no que fez lembrar o Paulo Rangel do debate com Passos Coelho, nas internas do PSD, embora cada um o tenha feito por motivos diversos), o que para quem segue a, várias vezes referida ao longo dos 35 minutos de debate, Quadratura, lhe acentuou a pose artificial – Costa é mais vivo e menos meigo do que ontem se mostrou. Se os apaniguados mais fiéis, queriam, no registo boxe, um soco como contra-reposta de Costa, ele parece ter preferido tão-só não ir ao tapete – o que, no caso, significa nunca escorregar nas cascas de banana que lhe são e serão colocadas para perder a “pose” e, passando para o registo que é o do seu adversário, perder a identidade (e até qualquer hipótese de recuperar a unidade a seguir às eleições internas).

Claro que a postura mais agressiva de Seguro e a contenção de Costa deixaram claro quem assumiu a posição de underdog e a de vencedor antecipado (aí, o debate Passos-Rangel foi uma excepção, com o mais agressivo a ser quem surgia à frente em todas as apostas e, de resto, se confirmou vencedor). 

Foi dito por diferentes analistas, entre os quais Marques Mendes, que o ponto forte de Costa no debate de ontem foi ter dito que ir para o governo não era nenhum prémio – pelo que dizer-se que esteve à espera da boa estação, para se candidatar, não faria sentido. Mas, até neste âmbito, novidade não existiu: em entrevista a Fátima Campos Ferreira, na RTP, já o presidente da Câmara de Lisboa, se referira ao pensamento infantil por detrás da afirmação das “facilidades” com que um futuro PM se confrontaria.

Em realidade, o único ponto novo em António Costa passou pela afirmação de que em vez de uma moção, Seguro se apropriou das propostas de várias equipas compostas para o Novo Rumo – que pertencem a todo o PS, formadas por várias personalidades, até, que apoiam António Costa -, dizendo ser o seu programa. Ponto pertinente, assiste razão a Costa.

Costa sabe que a seguir às "deslealdades e traições" devem vir "os argumentos não originais", o "tu copiaste o que eu disse" e, de facto, quer que os debates terminem o mais rápido possível.

Quem viu o debate de ontem, sem pertencer ao corpo eleitoral que sufragará o próximo "candidato a PM" pelo PS, também. O frente a frente de ontem teve o condão, certamente, de não acrescentar um nome ao caderno eleitoral que ficará fechado na próxima sexta feira.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Confissão (V)


Confissão


O erro de Tolstoi, segundo o próprio, foi ter-se atido ao seu meio e visto os demais como "ELES". E, no entanto, é neles, nos que labutam, e não nos "ricos" e "parasitas" que frequenta, e de que é membro, que se encontra a resposta mais importante: a fé. A mais sincera das fés, aquela que não se fica nas enunciações elaboradas desmentidas pelo viver dos seus autores ou transmissores, mas a do povo que vive como reza. A fé que Tolstoi "adiciona" ao conhecimento racional. Este só permite somar o finito ao finito, e o infinito ao infinito, em jogos de soma zero. Nada. Só a fé (re)liga finito e infinito, forma de conhecimento maior, portanto. "Onde há vida, há fé"(p.87), formulação que Torres Queiruga colocará deste modo: o viver do homem que podia matar-se é o referendo mais concreto de que a vida tem sentido. Tolstoi abandona a sua "classe", ruma a uma vida ascética, deixa todos os bens, renuncia à propriedade privada. Todos, sem excepção - aqui contraria um pouco o Kung de Aquilo em que creio -, se confrontam com o sentido da existência, só que milhões não se entediam com este, mas penam, sofrem, vivem com a dignidade que lhes advém de acreditarem genuinamente no que professam. O luxo não permite aceder à vida verdadeira (p.117). Como Guardini, Tolstoi aceita a não pedagogização (p.126) da liturgia. Como Agostinho, o caminho é o do regresso: "Tal como a força da vida foi gradualmente extinta e imperceptível, e cheguei à impossibilidade da ida, a cessação da vida e a necessidade de suicídio, também a força da vida regressou a mim, não era algo novo mas a mesma velha força que me atraiu no período inicial da minha vida. Regressei a todas estas coisas que tinham sido parte da minha infância e juventude (...) Noutras palavras regressei a uma crença em Deus, na perfeição moral, e à tradição que deu sentido à vida (...) A baía era Deus, a direcção a tradição, e os ramos eram a liberdade que me havia sido dada para remar para a baía e juntar-me a Deus" (pp.113 e 115).
Não se julgue que este regresso é um conto de fadas - haverá momentos de dúvida, ainda. A ausência de ecumenismo entre as Igrejas cristãs será algo que impressionará o autor de Confissão. Que, assentando na verdade essencial do que lhe era transmitido, esforçou-se no estudo dos textos para neles compreender, em equilíbrio, o que menos aí se sustentava. Um percurso exigente, permanentemente no fio da navalha. Acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa (que nem no ano 2001, a pedido de um ainda familiar, reviu a condenação).