domingo, 31 de agosto de 2014

Pequenos luxos




Foi sobre a imagem acima reproduzida que cumpri, com os auxiliares retoques do Xavier, mais dado ao desenho do que eu, a meta, na disciplina de Educação Visual e Tecnológica, aí pelo 8/9º anos, do Projecto Área Escola dessa data que incidia na realização de pequenas biografias de personalidades relevantes da nossa história que tivessem a ver com cada cadeira (recordo-me que em Matemática me debrucei sobre Pedro Nunes) e que, desta sorte, em EVT me obrigou a todo o género de desenho e pintura, gerando uma verdadeira colecção a partir da dita referência iconográfica. À época, não fui esclarecido de que se tratava de um retrato executado por Fernão Gomes, provavelmente ainda em vida do poeta, mas cujo original se extraviou, chegando, apenas, até nós, uma cópia do século XIX.
Ora, procurar fazer uma história dos retratos de Camões, especular quanto poderiam estar próximos de nos darem uma imagem real do retratado, recuperar teses sobre cada um dos retratos do autor de Os Lusíadas, imaginar a história por detrás de cada quadro, tentar compreender como o físico - em particular a visão afectada - implicou com a psicologia do sujeito, aproximando-nos dos seus versos (que sobre este tópico se atiram), convocar a mais interessante iconografia existente sobre o autor, eis um conjunto de motivações que podemos encontrar adstritas àquele que termina sendo o último projecto literário de Vasco Graça Moura - e que Manuel S. Fonseca concretiza na prometida "edição cuidada", que "exigia acompanhamento iconográfico", "livro de pequeno formato, capa dura e com as reproduções as cores das imagens clássicas e contemporâneas que Vasco Graça Moura interpela". Júlio Pomar, João Cutileiro, José Aurélio, José de Guimarães cederam as imagens - que Graça Moura convocara à análise e discussão - e autorizaram a sua reprodução. Um "pequenino livrinho de 14 x 20,5, encadernado", da Guerra e Paz é, assim, um pequeno luxo.


Se a "vera effigies de Camões permanece um enigma. Só por representações aproximativas e conjecturas poderemos fazê-la corresponder, em termos de semelhança física plausível, a uma fisionomia cujos elementos principais se foram sedimentando na tradição iconográfica e na memória colectiva e visual ao longo dos séculos, a partir desse protótipo relativamente tardio em relação ao período em que o poeta viveu. Dele derivam elementos que se incorporaram a tal ponto nos nossos hábitos de identificação fisionómica, que bastam dois ou três sinais para que o identifiquemos" (p.18), temos, contudo, "pelo menos em três lugares da sua obra lírica"(p.25) a referência, pelo poeta, "ao seu aspecto físico, sendo duas delas à perda de um olho". "Podemos assim concluir, com alguma segurança, que a perda do olho direito marcou psicologicamente o nosso poeta. Isto é, o mesmo sinal fisionómico que depois caracterizou toda a sua iconografia começa por ter uma certa relevância na própria obra do autor" (p.26).

Se aqui se fez referência ao retrato de Camões realizado por Fernão Gomes, outros há que merecem destaque, de que se oferece um último exemplo:


"O retrato (...) tem a importância de ser talvez o primeiro retrato «robot» da cultura portuguesa e de ter sido feito a partir de sinais dados por marujos (identificados em três cantos do quadrinho), que tinham conhecido pessoalmente Camões aquando da sua permanência na Índia, tendo todos confirmado a semelhança da imagem com o retratado" (p.46)

Histórias antigas




A tarde convidava ao letargo, casa apalaçada, herança deixada para quem de ora em diante não mais terá legados, foi um tempo, chão que deu uvas. O sofá, de género antigo, não completamente cuidado, obrigava ao recostar, como se houvesse tempo, como se haver tempo não fosse coisa do passado, como se fosse obrigatório, e fizesse parte dos usos e costumes, ouvir e contar histórias, sem perda de detalhe ou explicação. A que então ouvi, verdadeira de menino-futuro professor forjado nas dificuldades, fazia com que recuássemos a meio do século XX português. Falávamos, naquele instante, de como os hábitos estão informais, os alunos avançam, agora, para decisivos exames de calção, t-shirt e ténis, imagem que parece contrariar o solene, a gravitas, como o meu interlocutor que tão bem domina o latim sabia melhor do que eu, do momento. Na minha altura, conta-me o ancião duriense, o exame da quarta classe era cedo e não havia segunda época. Ou se passava, ou não se passava. Ponto. Não havia transportes para a sede do concelho que, como sabe, diz-me em tom intimista, ainda fica a quilómetros daqui. Carros quase nem vê-los. De modo que partíamos, os que daqui íamos ao exame, muito cedinho, três/quatro da manhã, íamos de burro, vestidos como normalmente andávamos pela aldeia e só quando chegávamos às portas da sede do concelho, umas horas depois, despíamos a roupa que trazíamos e, então, vestíamos o fato para o exame. Era assim, era assim…pronuncia, calcando as sílabas, como que procurando carregar nas jornadas duras passadas.


Portugal e o futuro





Imagine que Portugal sai do euro e que na segunda-feira entra em vigor o novo escudo. É este o ponto de partida do livro "A solução novo escudo", de Francisco Louçã e João Ferreira do Amaral (...) A desvalorização da nova moeda pode variar entre 30% e 42,86%, a inflação chegará aos 10% pelo menos, os salários decrescerão no mínimo 6,5% e a forma de os compensar será uma redução do IRS, a reposição dos feriados e dias de férias perdidos, o aumento do salário mínimo e a subsidiação de medicamentos, transportes colectivos e energia. Os bancos podem ser fechados durante alguns dias e os movimentos de capitais serão controlados.

Nicolau Santos, em sinopse ao livro A solução novo escudo, apresentada no Expresso, 30/08/14, p.14


Expresso: E o que acontece aos depósitos?

João Ferreira do Amaral: A nossa proposta é que o Estado se substitua aos devedores na proporção que resulta da desvalorização, no caso em que seja possível um acordo com as autoridades europeias. Se tem um depósito de 100 e há uma desvalorização de 30%, os 30 serão suportados pelo Estado substituindo-se ao devedor. Isto para os depósitos manterem o seu contravalor em ouro, que é importante para o sistema bancário. Como é que o Estado se financia? Através de empréstimos junto do Banco de Portugal. Quanto aos empréstimos, as pessoas continuariam a ter o empréstimo com o seu contravalor na nova moeda, baixando o valor nos 30% em que o Estado se substitui. A taxa de juro dependerá da inflação. Isso é inevitável.

(...)

Portugal tem de reforçar o crescimento e a única forma é através da desvalorização cambial, do meu ponto de vista. A reestruturação da dívida pode dar algum alívio mas não resolve o problema. Os salários reais não têm de descer muito pronunciadamente e, em particular, o salário real disponível, isto é, depois de impostos, não tem de descer, porque haverá margem para reduzir o IRS. Mas isso é uma questão de opção política. A desvalorização interna é que tem incidido sobre os salários e pensões. É muito mais penalizante que uma desvalorização cambial.


Segundo o estudo destes dois Professores de Economia: 30% é a desvalorização mínima que terá o novo escudo no caso da saída de Portugal ter o acordo das instituições europeias. Sem acordo, será de 42,86%;
7,5% é a subida da inflação que resulta da desvalorização de 30% do novo escudo, mas a pressão de outros factores elevará este valor para pelo menos 10%; 6,5% é a quebra real que os salários terão por via da entrada em vigor da nova moeda que valha 30% menos do que o euro; 6 meses será o tempo necessário para produzir as notas de escudos e bastante mais para cunhar as novas moedas; 4 é o número de feriados (dois civis e dois religiosos) que seriam repostos de imediato, de modo a reduzir uniformemente na economia o tempo de trabalho não pago.

Entrevista e dados indicados por Nicolau Santos, Expresso, 30/08/14, p.14

Esquerda/Direita: propostas de distinção


Hoje em dia, creio que o filósofo Steven Lukes tem razão quando distingue a esquerda e a direita com aquilo que ele designa por "princípio de rectificação". Para uma pessoa de esquerda, é função do Estado rectificar as desigualdades de rendimentos entre indivíduos. Para uma pessoa de direita, a função do Estado será mais modesta: garantir, sim, que ninguém caia abaixo de uma linha mínima de decência - mas respeitar a desigualdade que é inerente à condição humana, às diferenças de talento, mérito, etc. Tudo isto parte de uma visão mais optimista (para a esquerda) e mais pessimista (para a direita) da natureza humana.

João Pereira Coutinho, conservador, em entrevista ao Weekend, do Jornal de Negócios, conduzida por Anabela Mota Ribeiro, p.8.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Presidenciais Brasil 2014



Uma das partes do debate para a sucessão de Dilma (é possível encontrar outras no youtube), numa campanha na qual Marina vai somando e surpreendendo nas sondagens. Um debate, na TV Bandeirantes, que principiou pelas questões de segurança e que, neste passo, prosseguiu pelas questões económicas, avaliação de legados presidenciais anteriores (disputa, sobretudo, com Aécio Neves, por banda de Dilma Rousseff, quanto à herança de Fernando Henrique Cardoso), utilização da energia, política externa, ideologia (Luciana Genro criticando, pela esquerda, Marina Silva por recorrer a economistas da área do PSDB e Pastor Everaldo com o discurso mais liberal quanto à presença do Estado na Economia).

P.S.: Deve pagar-se a alunos para terem boas notas? Uma proposta de Aécio Neves e a leitura de um colunista do 'Folha de São Paulo'.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

"Viagem a Portugal"




Viagem a Portugal, de Sérgio Trefaut, encontra-se, quanto a documentar Portugal, em parte, datado. Não necessariamente no que diz respeito à burocracia despersonalizante, ao medo do outro, à desconfiança do estrangeiro, aos processos kafkianos (“por que razão tenho que regressar a Kiev?”) de histórias reais – como a de Tanya e Kita. Isabel Ruth interpreta muito bem a superioridade condescendente, o tom bonzinho a emoldurar a perversidade e o mal banal, o quero posso e mando travestido de português suave (“nós, portugueses, somos humanos”). O preto e branco assenta bem ao maniqueísmo que não desapareceu de quem vê (não um país inteiro, sublinhe-se, no entanto), sempre, no diferente um perigo medonho, os bons – os burocratas que zelam tão bem pela comunidade e até, com um paternalismo sufocante (“assina, que é para teu bem”), pelos que punem sem motivo; “aqui a polícia não é corrupta, como no teu país!”) – e os maus – os que aterram em Portugal (certamente com um obscuro interesse escondido). Maria de Medeiros, outro desempenho forte, dá o corpo (frágil) à impotência absoluta de quem é colocado em um limbo/condenação sem meios/possibilidade de se defender. Um corpo do qual a burocracia é dona, se apropria. A dignidade da pessoa humana violada.
O que dificilmente encontraríamos no Portugal de meados da segunda década dos anos 2000, e que ainda podemos vislumbrar nesta história que nos é dada a ver por Trefaut, que nos remete para o final dos anos 90, é a afluência significativa de imigrantes ao nosso país, às Expo98 de muitas obras e milhões, as vacas (relativamente) gordas, hoje completamente esmifradas. Por essa altura, por todo o país, conhecemos, sim, ucranianos, entretanto desviados para outras rotas. Por essa época, descobrimos, incrédulos, podia lá ser, médicos a trabalhar nas obras – como Kita -, ou médicas como empregadas de limpeza – algo tão estranho aos nossos hábitos que só havia que desconfiar (como faz a personagem de I.Ruth). Nessa estação, ainda, envergonhávamo-nos dos alunos ucranianos que se transformavam nos melhores da turma…na disciplina de Português (sem falar na Matemática, onde dominavam completamente), com os pais ucranianos descontentes com o ensino que lhes era ministrado (como pode ver-se, por exemplo, em outro filme/documentário de Trefaut, Lisboetas, no qual as malhas da burocracia que maltratam imigrantes são, igualmente, denunciadas).
Fica a trágica esperança, dos anos 2014: que a educação então seviciada em ‘ucraniano’, de final da década de 90, tenha melhorado tanto quanto os indicadores PISA vão sugerindo e sejam, agora, os nossos compatriotas a valer-se dela na emigração massiva de que são, neste instante, protagonistas.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Da Noruega





[Stavanger] Mantém, no entanto, a característica que melhor define as cidades da Noruega: vida sem sobressaltos e próxima da natureza. Mostra, igualmente, que é possível conciliar a riqueza do petróleo com a construção de um futuro harmonioso, viver-se uma vida confortável mas sem exibicionismos de novo rico. A disciplina individual e colectiva é o segredo da coisa. Disciplina na vida cívica, na política, em casa, na maneira como se constrói o futuro. Aqui, aprende-se que a disciplina social é um factor essencial para a prosperidade de um povo.
Stavanger é também um exemplo de diversidade étnica (...) A Noruega sempre foi um país generoso em termos de asilo político. Agora há gentes de diversas nacionalidades: refugiados vindos do Iraque, do Afeganistão, Curdos da Turquia, famílias da Somália e muitas mais. Quando se vai à polícia local tratar da documentação, o primeiro passo consiste em seleccionar a língua, das várias disponíveis, em que se quer ser atendido.

Victor Ângelo, Visão nº 1120, 21 a 27 de Agosto de 2014, p.73


As pessoas concretas nas entrevistas políticas





Neste post, referi-me à estranheza de não ter encontrado acomodada na proposta global/moção estratégica de António Costa a indicação da forte aposta no aproveitamento dos fundos comunitários destinados à eficiência energética, com vista a, sem necessidade nem possibilidade de recurso a obras gigantescas, uma regeneração urbana que aproveitasse e mobilizasse forças daqueles que, com a falência da (área da) construção e sem a capacitação para, no imediato, ingressarem na NASA - a utopia prometida da actual legislatura - haviam ficado ao abandono e sem perspectivas próximas - ou até longínquas - de emprego. Esta ideia, avançada pelo edil lisboeta ao Público - naquela que foi, a meu ver, a sua melhor entrevista nesta pré-campanha eleitoral interna -, é, em realidade, recuperada no diálogo com Sérgio Figueiredo e Paulo Ferreira, no Diário Económico (de ontem). Sem que tivesse sido directamente perguntado sobre a matéria, é o próprio António Costa que a introduz na entrevista: "E, infelizmente, o novo ministro do Ambiente não tem tido o peso político que a sua trajectória prometia. Isso está bem expresso na forma como estão negociados os fundos comunitários e o baixíssimo nível do financiamento para a eficiência energética. Era um sector da maior importância, não só por todas as razões de eficiência energética, como também possibilitaria financiar um programa na área da reabilitação urbana que é absolutamente crítico para absorver muita mão-de-obra que está hoje desempregada" (p.9). 
Se, em vez de se concentrarem em soundbites mais politiqueiros para fazer manchetes de entrevistas políticas, quem as editasse e realizasse pensasse mais nos que vão ser alvo das políticas enunciadas ("o meu adversário é Rui Rio"); se o comentário encartado não repetisse, quase sempre (houve excepções, mas muito raras), os mesmos tópicos sobre candidatos ("nada os distingue", "não há ideias", etc.), então ter-se-ia notado a importância que Costa dava a esta política; como a vê impossibilitada de realizar pelo "baixíssimo nível do financiamento [comunitário] para a eficiência energética" (e, certamente por isso, a omitiu na sua moção) e assim, ainda, se perguntaria, em próxima entrevista, que será feito afinal, o que tem António Costa a dizer aos que seriam alvo/beneficiários desta regeneração urbana (que estará, deste modo, muito dificultada ou impossibilitada).


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Amor e sacrifício


El ascensor estaba a punto de cerrar sus puertas, pero los vecinos que acababan de entrar en él fueron tan amables de mantenerlas abiertas para que pudiera aprovechar el viaje y subir con ellos. Tuve que darme una pequeña carrerita desde el portal y cuando, por fin, entré, algo agitado, en el cajetín, me sorprendió encontrarlos inusualmente engalanados. No pude evitar hacer una referencia a dicha circunstancia (con un comentario del tipo “vais muy elegantes” o cosa parecida: no recuerdo ahora bien mis propias palabras), y fue la segunda parte de su respuesta la que, tiempo después, ha regresado con nitidez a mi memoria. “Venimos de la boda de un sobrino”, explicación a la que, tras un breve silencio, se sintieron obligados a añadir: “veremos cuánto duran juntos…”
Tal vez resulte menos banal de lo que parece el hecho de que uno de los primeros comentarios que se le ocurra a gente absolutamente normal (quiero decir, a gente no caracterizada por mantener un discurso ideológico-político radical, anti-institucional o cosa parecida, ni que formen parte de los profesionales de la antropología o cualquier otra ciencia social que se ocupe de las formas del parentesco) sea la referencia al dudoso futuro de cualquier fórmula que pretenda estabilizar institucionalmente a una pareja. Importa plantearlo de esta manera, haciendo referencia a la normalidad de los protagonistas de la anécdota, porque ese mismo tipo de personas hace unos cuantos años hubiera reaccionado, sin duda, de manera bien diferente en idénticas circunstancias: deseando suerte a los contrayentes, instándoles a que fueran padres cuanto antes, sugiriéndoles paciencia para los momentos de crisis o cualquier otra recomendación de parecido tenor. Ahora, en cambio, lo primero que, de manera completamente espontánea, les venía a la cabeza era una consideración acerca del dudoso futuro del compromiso que sus sobrinos acababan de adquirir.
Se argumentará, con toda razón, que ese cambio en su forma de valorar algo que, tradicionalmente, era recibido con inequívoca alegría (todavía conserva parte de esa connotación festiva la expresión “ir de boda”) no deja de ser el resultado de una persistente experiencia que, de cerca o de lejos, a todo el mundo le resulta familiar. En efecto, no parece razonable en estos tiempos dar por descontado que una ceremonia nupcial constituya el primer acto que anuncia la etapa de larga felicidad a la que hacía referencia el “fueron felices y comieron perdices” de los viejos cuentos infantiles. Del mismo modo que nadie en su sano juicio se atrevería a garantizar que a tan intensa felicidad solo le podrá poner fin la desaparición física de uno de los cónyuges, de acuerdo con la otra fórmula (medio anuncio, medio amenaza) “hasta que la muerte os separe”. Nada más lógico, pues, que el hecho de que la gente se haya visto forzada a adaptarse a la nueva situación y haya terminado, como mis vecinos, abandonando expectativas que ahora tienden a verse como absolutamente ilusorias. Lo que merece la pena plantearse es la razón o las razones por las que la situación en cuanto tal ha variado, haciendo estallar, como un corsé inservible, las formas institucionalizadas de convivencia heredadas.
Sin duda, y por paradójico que en primera instancia pueda parecer, una de las razones de este fracaso debe ser saludada con alborozo. En efecto, las personas decepcionan porque esperamos demasiado de ellas. Pero la ausencia de decepción puede producirse por más de un motivo. Una cosa es que no exijamos al otro más de lo que parece sensato exigir, y otra cosa, bien diferente y que fue —ay— durante siglos el caso, que no lo hagamos porque no nos consideremos con derecho a ello. Todas las mujeres que en el pasado ni tan siquiera se planteaban la posibilidad de tener una sexualidad propia no estaban en condiciones, como sí lo están afortunadamente hoy muchas, de reclamar su plena satisfacción sexual como un elemento básico, irrenunciable, de la felicidad conyugal. Lo propio cabría afirmar respecto de todos esos varones a los que antaño ni se les pasaba por la imaginación la idea de que su pareja fuera la interlocutora con la que compartir en pie de igualdad sus preocupaciones de todo tipo, y que en la actualidad no conciben una relación estable y completa con alguien con quien no puedan mantener este tipo de comunicación.
Ha sido precisamente la conquista de determinados objetivos colectivos o el libre acceso a determinadas dimensiones de la propia realidad personal (el cuerpo, sin ir más lejos) lo que ha hecho que se planteen como básicas para la vida en común exigencias que en otro tiempo hubieran resultado directamente impensables. Los mencionados en el párrafo anterior eran solo dos ejemplos, pero profundamente significativos, de la paradoja que habíamos anunciado: sin la emancipación de las mujeres, ni el listón de lo que ellas esperan ni el de lo que cabe esperar de ellas estaría a la altura a la que hoy se encuentra, convertido para mucha gente en un listón insalvable precisamente a causa de las ambiciosas expectativas de felicidad generadas en ambos sexos. Pero resultaría en el fondo demasiado simple atribuir en exclusiva a estos avances sociales y culturales la causa del fracaso de la idea tradicional de pareja. Todo cuadraría: la bondad de aquéllos legitimaría el ocaso de ésta, sin que tuviera sentido que experimentáramos el menor sentimiento de pérdida por ello ni hubiera necesidad de plantearse forma alguna de autocrítica. Sospechosamente fácil para ser (toda la) verdad. Sin duda, otras transformaciones, tanto en el plano de lo real como en el del imaginario colectivo, han contribuido a dicho fracaso y, en esa misma medida, deberían hacernos reflexionar sobre su signo. Porque parece un hecho, casi tan incontrovertible como los señalados hasta aquí, que de nuestro lenguaje y de nuestro discurso han desaparecido categorías y elementos que hasta hace no tanto formaban parte de lo que se consideraba la esencia misma de la relación amorosa.
Así, valores como la generosidad, la entrega o incluso el sacrificio han quedado asociados, con excesiva ligereza por parte de mucha gente (que parece desconocer la existencia del concepto griego de ágape), a posiciones conservadoras, de inspiración inequívocamente religiosa, empeñadas en convertir el vínculo contingente que establecen dos personas en el ejercicio de su inalienable libertad individual, en una especie de destino fatal y, en todo caso, inmodificable. Se comprende que para quienes llevan a cabo tal asociación, rebelarse contra semejante estado de cosas y afirmar la reversibilidad de cualquier relación no solo constituya algo justo por completo sino, además, incluso abiertamente progresista.
Conviene llamar la atención sobre el doble lenguaje del que a menudo se sirven quienes jalean esta perspectiva. Porque no deja de ser llamativo que los mismos que no tienen el menor empacho en proponer un modelo de vida productivista (además de consumista) en el que los sacrificios son ensalzados cuando tienen como premio la promoción personal en el trabajo, la conquista del poder, la obtención de riquezas y otros bienes parecidos, ironizan acerca de su obsolescencia cuando el individuo pretende ponerlos al servicio de su felicidad personal con otra persona. No deja de ser sintomático que el irónico desdén aparezca en el preciso momento en el que no son ellos —con frecuencia apologetas también de la cultura del esfuerzo— los que pueden obtener beneficio del sacrificio ajeno.
En el fondo, si este mensaje desdeñoso ha calado tanto en nuestra sociedad (o, a la inversa, si determinadas formas de entender el amor han pasado a ser crecientemente disfuncionales) es porque se corresponde con el nuevo orden del mundo. En tiempos de individualismo desatado, la generosidad es una inversión de alto riesgo, cuya rentabilidad nadie está en condiciones de garantizar. Es más, probablemente, aplicando esta lógica, no haya negocio más ruinoso que el del amor, a fondo perdido siempre por definición. Ahora bien, si el amor no se concibe como un negocio, entonces tal vez todo aparezca bajo otra luz. Y se entienda que la generosidad, la entrega o incluso el sacrificio personal en una relación amorosa no cumplen la función de convertirla en útil (y ya no digamos en rentable), sino en hermosa y buena, valores de todo punto diferentes a la utilidad y a la rentabilidad, pero sin duda mucho más importantes. Si sus sobrinos entienden esto, mis vecinos pueden quedar tranquilos.

Manuel Cruz é catedrático de Filosofia Contemporânea na Universidade de Barcelona. ELPAIS, 19/08/14.


Da tragédia


Acreditem na sincera benevolência do leitor para com o autor, sabendo-o de uma mundividência diversa da sua. E, sem embargo, há pontos sem pontes, há núcleos de convicções e pensamento inegociáveis, há um  inequívoco até aí já não vou. Há dimensões sem compatibilização possível:

"Para apontar um exemplo extremo, mas evidente, a última guerra mundial fez cinquenta e três milhões de mortos. Pensas seriamente que não haveria, entre toda esta gente, senão culpados, responsáveis, bons e maus? A verdade, bem entendido, é que a desgraça se abate, como no mito de Édipo, sem que possamos fazer o que quer que seja, e abate-se com toda a força, incluindo o domínio social e político, que poderíamos no entanto imaginar que seria possível dominar melhor do que o da natureza" (Luc Ferry, A sabedoria dos mitos, p.353).

Percebo o que Ferry diz sobre as desgraças e catástrofes naturais - só o fundamentalismo os atribui ao pecado humano (afora as teorias ambientalistas que também estabelecem algum nexo de causalidade entre comportamento humano e as ditas catástrofes). Até aí, muito bem. Mas se a ideia é, a propósito de uma Guerra - como, aliás, a que a precedeu - em relação à qual a historiografia mostrou e mostra, vezes sem fim, como poderia não ter existido ou tomar um rumo diferente, com humanas decisões diversas, 'provar' como tudo é absurdo, inevitável, um fado que se abate sobre nós (colectivo) "sem que possamos fazer o que quer que seja", de facto a concepção de determinismo histórico, liberdade humana, etc. que assim se manifesta diverge, radicalmente, da que professamos e preferimos.
Houve pessoas que foram arrastadas, pouco podendo fazer para, sozinhas, travarem a guerra em marcha e para elas tudo desabou? A formulação, assim, é outra. Se, em realidade, o que Édipo e Antígona mostram é como o humano se pode rebelar contra a ordem, sendo, pois, subversivo - como anota Ferry -, então, precisamente, as rédeas da história também lhe pertencem (não são puramente exógenas).
Ferry pretende, a partir da mitologia grega, estabelecer uma espiritualidade laica, passando uma sabedoria presente nessa mitologia - sobre a sabedoria a extrair dos mitos é que não há pouca divergência, naturalmente - desde logo às crianças. Falta decidir, desde logo, pois, e partindo do exemplo vindo de comentar, o que se lhes quer ensinar sobre a liberdade.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Politicamente incorrecto




“Mostrem-me uma grande obra que não tivesse sido escrita por fumadores”, provoca Wislawa Szymborska, dando como exemplo A montanha mágica, no documentário da NTV, sobre a poetisa, prémio Nobel da Literatura, nos anos 90, que a RTP2 passou há dias. Lá, onde os pequenos prazeres, as bugigangas, os grandes quadros de Vermeer, os cigarros, a febre pelo pugilista Golota – também um homem que escreve poemas, como quase todos os que sobem ao ring, curioso tópico do documentário -, a admiração por Woody Allen, Vaclav Havel, ou por uma cientista estudiosa de chimpanzés – casos de amores correspondidos, de resto - se juntavam em quintilhas – género cuja origem remontará à Irlanda – que, de modo ao mesmo tempo simples e profundo, nos levavam às questões que a todos inquietam. A menor das quais não será o apoio, entusiasmado e ignorante, a líderes que se revelam uma tragédia. Na juventude, Szymborska dedica poema a Estaline e diz agora, na ironia cortante que lhe sai, que o pior de tudo é que tal foi feito sem ser para uma promoção, uma progressão na carreira, um ganho material.

Descrédito


Pensar-se-ia que com os meses de pré-campanha que a disputa interna do PS leva; com muita gente em férias; com as eleições primárias a aproximarem-se; com muito mal já dito entre candidaturas (sobretudo, da de Seguro relativamente a António Costa), a refrega pudesse ter algum momento de tréguas. Só que ler, hoje, o DN, p.ex., é ‘escutar’ Álvaro Beleza a falar em “jagunços” e a dizer de Mesquita Machado que “com certeza ganhou muitas eleições internas a pagar quotas de outros”. Isto sucede, neste instante, no PS, como parecido se viu noutros partidos. O facto de se atribuir o pagamento de quotas de pessoas já desaparecidas a uma grande consideração pelas mesmas é rebentar a escala da falta de pudor. O que um cidadão menos avisado sempre dirá, em qualquer circunstância, deparando-se com os sucessivos casos desta jaez é: “se os próprios companheiros de partido pensam isto deles…”.  


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Tratado Transatlântico (VII)




Dos mitos


A Sabedoria dos Mitos

Luc Ferry, o conhecido filósofo francês, ex-ministro da Educação naquele país, ateu, considera a filosofia "uma doutrina da salvação sem Deus, uma resposta à questão da vida boa que não passa por um 'ser supremo' ". E entende, mais, a mitologia como a pré-história da filosofia; isto é, a literatura e relato míticos (como que matérias primas) para serem conceptualizados depois (pela abordagem filosófica). 
O pensador francês considera essencial contar a mitologia (nomeadamente, grega) às crianças: "assim que comecei a contar aos meus filhos, desde que tinham cinco anos, as grandes narrativas míticas, vi os seus olhos iluminarem-se como nunca.As perguntas saltaram de todo o lado e sobre mil e um aspectos das aventuras que contava. Nunca vira uma tal paixão, nem com a literatura juvenil, nem mesmo com os contos clássicos, no entanto magníficos, dos Grimm, de Andersen ou de Perrault - já para não falar das séries de televisão, que os divertiam, sem dúvida, mas que não os apaixonavam da mesma maneira".
Estas histórias inscreveram-se neles para sempre, regista, e, sobretudo, pensa, quem tem uma vida interior mais rica, de valores culturais, espirituais, morais fica mais livre para resistir e menos interessado em participar do consumismo feroz dos nossos dias - tantas vezes para preencher esse vazio de valores de vária ordem -, mas que nada nos diz do horizonte da vida humana, que nunca deve ser o alfa e o ómega para cada um. Para lá de responder a esta nota muito audível do nosso quotidiano - a do consumismo -, o recuperar da mitologia seria, igualmente, passo na luta contra o desencantamento do mundo. Ou reconhecimento de balizas culturais, bordões de linguagem em que assentamos sem percepcionar a génese.
O que de mais importante haverá a sublinhar, nas palavras que associa à tarefa de retomar esta síntese cultural, situa-se, creio, no estatuto (epistemológico) que o autor confere à mitologia: "a mitologia não é a infância da humanidade: ela não tem nada que invejar, quanto a profundidade e inteligência, à ciência moderna, de que não é, nem de perto nem de longe, a antecipação mesmo aproximativa" (p.35).
O homem que, como já se disse, foi político com importantes responsabilidades em terras gaulesas, deixa, ainda, a propósito do que Jacqueline de Romilly e Jean-Pierre Vernant disseram, ao então ministro da Educação, acerca do abandono das humanidades, esta confissão de impotência (da política/do poder): "Mas sobre este ponto, tal como sobre outros, creio que somos por vezes mais úteis pelos livros do que pela acção política: esta última colide demasiado com constrangimentos inultrapassáveis, obstáculos e entraves de origens tão diversas que os seus efeitos são sempre aleatórios" (p.41)


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Começa hoje: época 2014/2015





1.Um dos aspectos mais interessantes a conferir durante a temporada: “a metodologia que o treinador espanhol [Julen Lopetegui] advoga, inspirada na escola catalã e que contrasta com a periodização táctica que, no passado recente, foi partilhada por treinadores como José Mourinho, Jesualdo Ferreira, André Villas-Boas ou Vítor Pereira (…) resume-se ao enfoque dado às cargas físicas (e que são muitas vezes isoladas dos aspectos tácticos, algo que nunca acontecia anteriormente) é o ponto que mais interrogações gera. Se as ideias estão certas ou erradas, só os próximos meses o dirão, mas é impossível não notar as diferenças” (André Viana, OJogo, 14/08/14, p.5).

2.Ao sucesso de Mourinho à frente do Porto correspondeu uma série de publicações, de onde se destaca Mourinho, porquê tantas vitórias (de Bruno Oliveira, Nuno Amieiro, Nuno Resende e Ricardo Barreto). Nela, a explicação, detalhada, da periodização táctica, a apologia desta e o contraponto, igualmente exposto com pormenor, das metodologias que assentavam em pressupostos diversos – desde logo, antropológicos – conheceu um vigor que marcaria um antes e um depois no modo como se comenta o jogo em Portugal.

3.Mas passam as modas e esquece-se, rapidamente, aquilo que ainda ontem era exaltado como o melhor. Quando vi uma série de elogios aos treinos tri-diários, às cargas físicas sem mais, nos relatos dos treinos de Lopetegui, lamentei o esquecimento, a falta de crítica, de evidenciação das diferenças metodológicas no modo como se treina no Porto e em Portugal.
Isto, até ao texto de André Viana, muito meritório, explicando, muito bem, e sem demasiado jargão, o essencial do que está em causa nas ideias e concepção de jogo do novo treinador do FCPorto (face aos que o precederam).

4.Assente o essencial, o tom mais impressionista da pré-época e o totobola antes de segunda-feira: mesmo que Oliver comece por ser titular, o 10 ao longo da época será Brahimi. A Oliver parece faltar, ainda, intensidade, capacidade de ruptura e de fugir aos rodriguinhos sem progressão, alguma inconsequência; em Brahimi parece haver capacidade de posse e de passe, de drible, de projectar a equipa no ataque.

5.De resto, a pré-época do FCP mostrou, sobretudo, um nó górdio por resolver: equipa muito junta, com posse de bola esmagadora, mas sem baliza (quando preenchida com muitos médios); equipa menos ligada, mas com mais profundidade, menos posse, mais perda, mas mais baliza com dois extremos puros: Tello e Quaresma.
Em grandes jogos, arriscará Lopetegui jogar com dois extremos abertos, em prejuízo do preenchimento da zona central, abdicando de um domínio tão esmagador da bola?

6.Adrián Lopez falhou na pré-época. Não se sentindo confortável a 9; não sendo um extremo puro e não jogando o FCPorto em 4x4x2 (onde, talvez, funcionasse melhor como segundo avançado) tem tudo para, ao longo da época, ver questionado o preço do seu passe.

7.O Lille-Metz da primeira jornada da Liga francesa foi um aborrecimento sem fim, num jogo sem uma única verdadeira ocasião flagrante de perigo. O FCP das primeiras partes dos jogos em casa do Everton e do West Bromwich, deste defeso, tornaria, quase inevitável um 0-0. O Lille será uma equipa muito equilibrada tacticamente, mas no seu jogo inaugural no campeonato foi, também, uma equipa sem rasgo, sem ousadia, sem beleza. Espera-se, nesta eliminatória, pelas arrancadas de Tello, que me parecem muito favorecidas pelo ritmo e intensidade previsíveis para a eliminatória.

8.O Madrid tem, sem dúvida, esta época um plantel estratosférico. Veremos se todos os jogadores estarão nos lugares. James, que precisa de caminhar da direita para o meio para colocar a bola no seu pé esquerdo, não será nunca, creio, um super-interior esquerdo, sobretudo que corresponda ao que, naquela posição foi Di Maria: uma compensação, de uma grande generosidade, para que Ronaldo não baixasse nunca a defender e apostasse todas as baterias no ataque. Obrigar James a defender, e a defender bastantes vezes, não parece a melhor ideia. Mesmo Kroos, cuja percentagem de acerto no passe impressiona (tal como a cláusula de rescisão deste jogador, no Bayern, espanta por tão baixa), raramente foi utilizado, por um treinador tão ofensivo como Pep Guardiola, a 6. Veremos se nos grandes jogos, pelo Madrid, será essa a sua posição.

9.Para além de continuar a valer a pena seguir o futebol do Liverpool, face à chegada de Marcelo Bielsa é provável que assistir a alguns jogos do Marselha seja, igualmente, um prazer.

10. “Já na altura sabia que ele era melhor do que eu”, Ronaldinho Gaúcho, sobre Lionel Andrés Messi, em entrevista à Quatro quatro dois (edição portuguesa, de Agosto 2014).

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Um sorriso, uma amargura




Neste blog, contrapusemos, já, noutro post, a força idealista do professor de O clube dos poetas mortos, à frieza, à negação da formação do vínculo, ao medo do outro presente no - aparentemente mais contemporâneo ou próximo de nós, muito mais nocturno - profe de O substituto.
Se bem me recordo, entre as referências cinematográficas propostas para compreender a escola de hoje, nos livros escritos ou coordenados, recentemente, pela socióloga Filomena Mónica, de que aqui igualmente se deu conta, desapareceu aquele que contava com o desempenho inesquecível de Robin Williams. E, no entanto, quando nesses diários (da FFMS) a professora de Português resolve colocar, revolvendo as preferências esmagadoramente maioritárias na sala, a peça de Beethoven citada n’Os Maias, leva os alunos a Sintra no encalço de Eça, numa palavra, em cada momento que arranca à inevitável fatalidade das coisas que são assim e nunca poderiam ser de outro modo, essa professora, como outras que por privilégio nos tocaram, inventando toda a sorte de instrumentos para que percebêssemos ou falássemos melhor um idioma distante, prodigalizando exercícios, recebendo cada aluno como uma dádiva, percebendo que ninguém está predestinado a ser homem-massa (R.Riemen), aqueles e aquelas, mais aquelas do que aqueles, que ficaram para lá do horário a dar explicações de borla, aulas-extra, capazes de corrigir, com a coragem de corrigir – hoje é de coragem que se trata, como muito bem escreveu o Tony Judt de O chalet da memória -, mesmo que, às vezes, com mau feitio, esses para quem a criatividade e a imaginação não são tópicos de retórica, honraram esse arquétipo tão bem construído pela personagem encarnada por Williams.
Talvez, contudo, ela, a personagem, fizesse parte, ainda que combatendo-a com tenacidade, da (desaparecida) sociedade disciplinar, hierárquica, rígida, inflexível, do não, que criava loucos – no dizer de Chul-Han. E, hoje, será, já, Bolonha, sem necessidade de tutelas ou inspiradores – as aulas, realmente, só valem a pena com estes últimos -, na sociedade do idêntico, do mesmo, a comandar os espíritos que caminham para o êxito que lhes compete (e para a depressão concomitante). Vendo bem, até mesmo em O clube dos poetas mortos a reforma idealista da sala de aula termina derrotada. A amargura presente no sorriso que muito mudara (mudará).

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"Não queiras saber de mim"



Farto da indistinção entre "analfabetos" e "mestres", farto de Ídolos e imitações baratas, farto de ver como jurados, espectadores, legitimadores do mau, do muito mau mesmo, colegas com carreiras feitas, sólidas, trabalhadas no tempo dos filtros, da hierarquização de algum mérito, da separação do trigo do joio - colegas que para pagar as contas se vêem, hoje, obrigados a aceitar tais tarefas, quando deviam ser os protagonistas, remetidos para os bancos de suplentes, em nome da emoçãozinha do aspirante à fama dado pela chamada de valor acrescentado - Rui Veloso decidiu dizer, em bom português, alto e pára o baile. Há momentos em que parar é, também, um gesto politico, cultural, porque é a recusa de um "monstro amável" (R.Simone) que se insinua ao ouvido do impreparado que encontra no tudo igual, tudo o mesmo valor, ou seja, valor nenhum a sua vitória, a reivindicação da mediocridade como satisfação de um ego-massa. Como disse de modo lapidar Pascal Bruckner, "preferimos ser felizes, a ser sublimes ou salvos". Há quem, felizmente, não aguente tanta felicidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O que estará em discussão em Setembro: as ideias de Costa


No programa de António Costa, rejeita-se qualquer "ideal de autarcia" no plano europeu - uma das discussões de fundo que estavam em causa nas últimas europeias e ainda se mantém caso observemos, atentamente, alguns dos programados forúns para a reentré político-partidária - e coloca um grande enfoque na questão do trabalho digno, sendo que utiliza a palavra "opressão" para recusar um tipo de relacionamento laboral que viu emergir nos anos mais recentes. Nas prestações sociais, a recusa do assistencialismo, a possível introdução de critérios como o 'endividamento' ou até, no caso de crianças e jovens, as qualificações dos pais, algumas das novidades propostas. A reforma a tempo parcial; a introdução de círculos uninominais; a refutação de uma diminuição excessiva do número de deputados; a descentralização administrativa; TSU diferenciada consoante as empresas apostem em contratação estável, ou obedeçam a modelos de precariedade, respectivamente; elevação do salário mínimo para os 522 euros em 2015, estão aqui, também, presentes. Talvez fosse de esperar que a ideia de aproveitar os fundos para eficiência energética, num plano de recuperação urbana, para absorção de mão de obra ligada à construção - um ponto muito desenvolvido nas suas mais recentes entrevistas - estivesse presente com um destaque que não se vislumbrou.


Excruciante


Creio que o conjunto de poemas seleccionado para a antologia Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa é um dos tais casos em que dificilmente se distinguirá o poeta do sujeito poético. Deus, uma questão que cada um dos autores seleccionados traz consigo mesmo (por vezes, mesmo, um autor como porta-voz, como sucede no célebre poema geracional, de Ruy Belo, Os vencidos do catolicismo), e que, em muitas ocasiões, exprime em carne viva (por exemplo, excruciante o poema Declaração, de Jorge de Sena, em que o autor é corrosivo com formas tradicionais de compreensão e transmissão [da ideia] de Deus, promete o afastamento destas, mas do mesmo passo se volta e se interroga, de novo, e como que fatalmente, sobre a/que fonte de sentido: e para onde me voltarei eu, eu!...senão para Ti/até acreditar em Ti como te fazem?).


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Revisitando D.Sebastião


Quando alguns dos principais agentes políticos e económico-financeiros do país se pronunciaram, há três semanas, sobre a situação do BES, entre o grupo de amigos que ouvi ninguém levou a sério o que então foi dito. A desconfiança revelou-se certeira em menos de 15 dias, pois que até ao desenlace final – terá sido final? – os pontos, as vírgulas, as emendas, o pormenor, as nuances foram em gradação crescente, nas declarações diárias da elite (?!) que nos governa, antecipando, em forma de fado, a tragédia a anunciar (no Domingo passado; pelo menos, se não na solução, no diagnóstico de fraudes antes sempre negadas). Hoje, Rui Veloso, na muito comentada entrevista a João Céu e Silva, no DN, tornava cristalino, creio, o sentimento muito maioritário no país: o ónus da prova está, nesta estação, nas mãos da tal “elite”; quer dizer, só quando esta demonstrar, cabalmente, um dia, defender o bem comum, o interesse geral, será possível acreditar de novo. Hoje, ninguém acredita em ninguém e assim não vamos longe, uma evidência.
Portanto, a existir a figura de um Sebastião, neste exacto contexto que vivemos – um contexto de crise extrema de confiança -, talvez fosse de ponderar no plus que traria a uma vida pública portuguesa. O nosso problema, bem menos que de expectativas messiânicas, em torno de um dado agente político, é, justamente, o inverso: não se acreditar em ninguém. Ora, quando um dirigente de topo de um país se pronuncia sobre uma questão de suma importância para esse mesma nação e é ouvido com desdém, incredulidade, etc. a sua autoridade moral, a sua capacidade mobilizadora são extremamente reduzidas. Um país precisa, também, das suas vozes encantatórias (Adriano Moreira). Um D.Sebastião, alguém em quem o país depositasse grande confiança, podia ser, em 2014, uma figura a olhar sob outro ângulo face a conjunturas diversas (desta).
Mas nem António Costa, claro que é dele que se fala, com excepção, provavelmente, dos blogues, dos projectos editoriais, da opinião publicada da área política oposta à sua, me parece gerar tal expectativa messiânica no país: por essa lente editorial, tal a barrage diária a que sujeitam o candidato nas primárias do PS – nunca António José Seguro teve tantos apoiantes -, estaríamos perante um caso de um prodígio absoluto (que há que derrotar o quanto antes). Menos ansiedade, que estamos em férias; mais sentido das proporções e do razoável (além do respeito pela inteligência alheia).

domingo, 10 de agosto de 2014

Cultura e barbárie


Ai! Eu sei. Se eu tivesse de tocar a Pathétique ou a Sonata ao Luar perante os meritíssimos juízes, eles ilibivam-me. Só que, infelizmente, a minha defesa não vai ser musical.

Walter Funk, ministro alemão da Economia entre 1937 e 1945, na prisão, durante os julgamentos de Nuremberga, em depoimento ao psiquiatra Leon Goldensohn, in Entrevistas de Nuremberga, p.131.


Da Sé de Vila Real (XII)





Assim como Roma era tributária de Atenas, agora “o sistema de imagens do império [romano] é plenamente adoptado pelos cristãos” que, desta maneira, compreendem “o poder das imagens, a sua extraordinária força retórica, persuasiva e utópica”, apreendendo como “é importante a encenação figurativa das imagens e dos feitos que se pretendem preservar na memória ou sublinhar a sua importância”[1].
De regresso à catedral vilarealense, anote-se que os vitrais devem ler-se da esquerda para a direita, requerem esforço, tal como no encontro do Verbo se reclama todas as forças, todo o coração e toda a inteligência. A multiplicidade de cores que pode reconhecer-se tem, igualmente, que ver com o facto de, como dizia S. Efrém, o Senhor ter pintado “a sua palavra com muitas cores, a fim de que cada um dos que a escutam possa descobrir nela que mais lhe agrada[2].
Nas naves laterias, do lado sul, o nome dos três evangelistas sinópticos, Marcos, Lucas, Mateus; estão “cá em baixo”, mais próximos de nós, transmitindo catequeses de modo acessível. No lado contrário, está escrito em latim o nome do quarto Evangelista, JOHANNES, mais reflexivo, teólogo, de acordo com D.Joaquim (embora a crítica desenvolvida a partir do final da II Guerra Mundial, nos mostre um João muito mais ancorado à história do que até então se julgava, evangelho redigido de modo bem mais precoce do que datações pretéritas haviam estabelecido, como no-lo mostra Raymond Brown, no seu comentário ao quarto Evangelho[3]e como, aliás, no seu Jesus de Nazaré, Ratzinger/Bento XVI não deixa de traduzir com claras consequências na interpretação da figura sub judice). As cores com que é pintado o nome de João são mais alegres e quentes.
Na nave central da Sé, nas seis frestas mais altas, estão transcritas as afirmações fundamentais acerca do Verbo antes da Incarnação: NO PRINCÍPIO ERA O VERBO, E O VERBO ERA COM DEUS, E O VERBO ERA DEUS. As letras de cada uma das afirmações iniciam-se num rectângulo e prolongam-se no seguinte, até à leitura total, pois só o texto completo diz a verdade sobre o verbo. E “o facto de estes textos serem colocados na parte mais alta do prédio, onde há mais sol e obrigando a maior esforço do observador, é um pormenor subtil a ter em conta: o Verbo veio do alto, donde vem a luz[4].
Atentado devidamente, observa-se que as luzes e as cores são letras, que o mundo é uma escritura, que foi pensado: “Tudo foi feito com peso e medida”.
Gravados nos quatro janelões do presbitério, a partir da esquerda, temos os nomes, em latim, dos doze Apóstolos: Pedro, André, Jacob Zebedeu (ou Tiago Maior), João, Filipe, Bartolomeu, Tomás (ou Tomé) Mateus, Jacob Alfeu (ou Tiago Menor), Judas Tadeu, Simão Zelotes, Matias. Nota-se a ausência do nome de Judas Iscariotes, que não foi testemunha da Páscoa de Jesus, e a presença de Matias, testemunha da ressurreição do Senhor.
Numa janela que ilumina a capela-mor, lê-se CANIS, cão, o tal cão que víramos no adro sobre o portão do convento de S.Domingos. No livro de Tobias, o cão aparece como animal de companhia e defesa de Tobias, e, no regresso deste a casa, antecipa-se a anunciar aos idosos Tobite e Ana, pais de Tobias, a chegado do filho, abanando a cauda em sinal de contentamento (Tob 5,17; 11,4). CANIS pode, outrossim, ler-se como jogo de palavras relativo aos dominicanos - domini/canis, “cães do Senhor”, “guardiães do Senhor”.
Estamos de saída da Sé. Voltamos a olhar o vitral da rosácea, mas agora na perspectiva do escathon. O quadrado do centro é a zona mais brilhante da rosácea com um círculo de fogo doirado, em especial ao fim do dia, no poente da vida. Esse quadrado é, na linguagem do Apocalipse, o símbolo da cidade santa da Jerusalém celeste, o símbolo da perfeição. O desenho do Ómega parece um rosto envolto num véu roxo, pois ainda caminhamos na fé e não na visão, vendo de maneira confusa. O rosto do Verbo está algo escondido aos nossos olhos, e acompanha a evolução do mundo – “oculto no íntimo do mundo como um fogo”[5]:

Em certas horas do dia e em determinadas posições podem ver-se naquele “véu do rosto de Cristo” uns pontos de luz como se fossem uns olhos, os olhos do Verbo que viram a Criação inicial, que viram Pedro e outros pecadores, e que iluminarão o Céu como único sol[6]



(conclusão)

[1] Idem, o.c., p.579.
[2] Apud. Idem, p.25.
[3] Cf. R.BROWN, El Evangelio según Juan, Cristandad, Madrid, 1999.
[4] DOM J.GONÇALVES, Os vitrais da Sé de Vila Real. Antiga Igreja de São Domingos. Guia de Leitura, Diocese de Vila Real, 2005, p.29.
[5] Idem, o.c., p.55.
[6] Idem, o.c., p.57.

sábado, 9 de agosto de 2014

Da Sé de Vila Real (XI)





Foi, sobretudo, na Idade Média que a arte do vidro e a sua tecnologia vulcânica do fogo tiveram um papel determinante na definição e modelação do espaço – as fontes literárias ocidentais já aludem explicitamente aos vitrais coloridos a partir da época alto-medieval. Nas Igrejas monásticas de Monkwearmouth, Jarrow e Whitorn, na Nortúmbria são encontrados fragmentos de janelas polícromas que nos fornecem um testemunho acerca do recrutamento de artífices especializados efectuado por monges enviados a França como emissários nos séculos VII e VIII, sendo, ainda, de recordar os fragmentos de São Vital, em Ravena. “A partir do século IX, já as montagens de peças de vidro corado contam histórias polícromas e em grisaille (pintura obtida pela pulverização do próprio vidro, temperada a fogo depois da aplicação a pincel)[1] - e na criação de atmosferas de recolhimento ou de revelação, sendo que, posteriormente, quase se perdia o segredo “daqueles painéis rutilantes de vidros coloridos, reforçados pela teia característica dos perfis de chumbo”[2]. Curiosamente, em João Vieira a calha de chumbo, tão característica desta técnica, desaparece, dando lugar a janelas de um só vidro, ainda que dividido em secções de nove rectângulos. Neste vitral, as letras aparecem a flutuar na composição e no espaço envolvente[3]. Inovou-se, pois:

“Usando a técnica de fusão, pouco habitual nos vitrais religiosos, João Vieira deu um
carácter  contemporâneo aos vitrais da Sé inovando quer na técnica, quer na temática
e  iconografia do vitral em Portugal. É certo que outros artistas também utilizaram a 
simbologia das letras na sua composição formal. John Clark emprega uma combinação
entre imagens e letras como símbolos nos seus vitrais, “The Jewish festivals”, de 1992
na Sinagoga de Glasgow, ou na “The bicentenary Windows”, de 1996, na Universidade
de Stratchclyde, também em Glasgow (CLARK in catálogo: 2000; 4-50). No entanto a
técnica deste artista permanece ligada ao vitral tradicional com o uso do chumbo nas
suas composições (…) O desenho da composição ao invés de ser pintado sobre o vidro, como nos trabalhos apresentados anteriormente onde se utiliza o emprego da grisalha, assume aqui outra dinâmica, assiste-se a uma janela que foi pintada com o vidro. ”[4]

Ernesto Rodrigues aponta o duplo papel do vitral: “«fecha o volume interior e deixa passar a luz», repercutindo-se no edifício”[5]. E, citando Albert Châtelet e Bernard Groslier, destaca: “as janelas com vitrais são os textos divinos que lançam a claridade do verdadeiro sol, isto é, de Deus na Igreja, isto é, no coração dos fiéis, iluminando-os[6].
Em voltando-se, o visitante da Sé de Vila Real, para a porta principal, encontrará, de cada lado da mesma, dois rectângulos com o anagrama de Cristo, as duas letras gregas sobrepostas – X e P – que são as primeiras da palavra Cristo ou XPISTOS[7]. Se sem imagens alusivas à encarnação do Verbo não há cristianismo, é bom que se juntem os vitrais às imagens (e as mais clássicas repousam na Sé de Vila Real). Contudo, como bem realça D.Joaquim Gonçalves, “não há um perfil anatómico do rosto de Cristo, e o seu rosto espiritual revela-se ao coração humano pela Palavra e pela Eucaristia. Por isso, as três formas (Palavra, Imagem e Eucaristia) são aqui instrumentos inseparáveis e complementares[8]. Vale a pena, neste ponto, fazer um inciso para tentarmos compreender como e porquê temos um determinado perfil anatómico de Jesus Cristo difundido globalmente. Valentino Pace explica, remontando ao cristianismo primitivo, pós-Édito de Milão (313), onde a fé em Cristo pode, finalmente, ser professada publicamente e as formas figurativas de expressão vão ser adequadas às necessidades religiosas, por um lado, e ancoradas em modos de expressão e rituais replicados de modelos pré-existentes, na medida em que há uma história, um espaço-tempo em que os cristãos se situam e, portanto, a urgência da comunicação faz sentir-se:

“a figura de Cristo, e mais especificamente o seu rosto, é aquela que hoje todos nós conhecemos, com o cabelo comprido e solto a cair nos ombros e a barba espessa, porque para seu modelo é escolhido o «modelo» de divindade representado não só por Javé e Zeus, mas também por outros, como por exemplo Asclépio, ou até por elementos da categoria dos filósofos. Deste modo, para Pedro escolhe-se o modelo de rosto barbudo e anguloso, aquele que melhor sugere o aspecto de «pedra» sobre a qual Cristo fundou a sua Igreja (Mt 16,19); a incipiente calvície e a longa barba de Paulo correspondem ao tipo normativo do filósofo (…) O sistema iconográfico cristão inspira-se na simbologia das imagens imperiais, auxiliado pelo processo de «divinização» já reservado à figura do imperador. O ouro e a púrpura têm conotações imperiais, também adequadas às divindades, do mesmo modo que as liturgias do poder são copiadas da ostentação imperial”[9]

(cont.)




[1] A. ACCONCI, Os programas figurativos da Cristandade no Ocidente, in U.ECO (org.), Idade Média. Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos, D.Quixote, Alfragide, 2011, p.668.
[2] IPPAR, o.c., p.6.
[3] T.ALMEIDA, O vidro como material plástico: transparência, luz, cor e expressão, in file:///C:/Users/Maria%20Albina/Downloads/tese%20(2).pdf, consultada a 03/07/14, p.55.
[4] Ibidem.
[5] E.RODRIGUES, A luz através do texto divino, in M. LACERDA, M. SOROMENHO e A.BARBOSA (coord.), João Vieira. Vitrais da Igreja de São Domingos. Sé de Vila Real, Instituto Português do Património Arquitectónico, Lisboa, 2003, pp.54-55.
[6] Apud.Idem, o.c., p.55.
[7] DOM J.GONÇALVES, Os vitrais da Sé de Vila Real. Antiga Igreja de São Domingos. Guia de Leitura, Diocese de Vila Real, 2005, pp.23 e ss.
[8] Idem, o.c., p.10.
[9] V.PACE. Artes visuais. Introdução, in U.ECO (org.), Idade Média. Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos, D.Quixote, Alfragide, 2011, p.578.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

"Mãe e filho"


Cartaz do Filme

Há um ano, era O testamento de Maria, de Colm Toíbin que nos prendia, de novo, à figura maior da mãe e remetia para Hécuba.
Neste Verão, é a possessiva, dominadora, castradora, “loba” Cornélia (uma imponente Luminita Gheorghiu) a preencher-nos o imaginário dessa relação ancestral mãe-filho. Barbu, o neurótico filho que nunca consegue subtrair-se às garras maternas, que vê seu “eu” permanentemente sufocado, inexistente, sucumbe em uma vida por afirmar (o diálogo, com Cornélia, da sua namorada, Carmen, a propósito do filho que não tiveram, é de uma eloquência espantosa). Num espaço permanentemente claustrofóbico – a cena de Cornélia a trancar as portas do carro, após visita aos pais do menino morto em acidente provocado por Barbu, é, a esse propósito, absolutamente paradigmática; a mãe que protege, au transe, o filho do mundo…impedindo-o de viver -, o filme questiona, pois, radicalmente, os limites da independência e da autonomia no seio familiar. Num tempo em que, nomeadamente em Portugal, a crise, por um lado, obrigou muitos filhos a regressar a casa e, por outro, impediu outros de sair é curioso que não haja um filme assim. Que conjugue arquétipos maternos, e de relação mãe-filho, com uma conjuntura que poderá permitir/contribuir para exacerbar determinadas características – em detrimento de outras, que melhor se afirmariam em outro contexto - na tonalidade dessa relação. Pensar numa ‘geração perdida’ – uma expressão de que não gosto, mas para facilidade de entendimento - passa, também, pelo escrutinar de mecanismos desta natureza.
Para além desta dimensão – avassaladora, ao longo de todo o filme – há, ainda, uma Roménia muito demarcada socialmente, muita tensão entre classes sociais e uma corrupção que continua larvar, lá em pano de fundo – mas um pano de fundo que nos grita – deste importante Mãe e Filho, de Calin Peter Netzer.