quinta-feira, 31 de julho de 2014

Textos gémeos


Sobre Jean Jaurés, hoje, Francisco Assisno Público e Juan Claudio de Ramónno ElPais. Nos dois artigos, a mesma lição (de moral...ideológica) para o presente.


Não passa nada




Pareceram-me um tanto injustos os tratos de polé que A grande beleza recebeu de uma parte da crítica de cinema portuguesa. No excessivo, no burlesco romano-decadente – onde, de facto, Fellini se nota muito -, há a bem contemporânea questão da distinção verdadeiro/falso, ou, tocando outra dicotomia, fictício/falso. Na existência exclusivamente estética – e não ética, pelo menos até à derradeira fase da sua vida – do personagem principal da obra – cuja representação de Toni Servillo lhe granjeou merecidos elogios -, esse toque frívolo, fútil que Sorrentino vê em toda a parte (em Roma…mas suspeito que não apenas), não existindo nada de especialmente novo, comunga no diagnóstico dos melhores espíritos sobre o nosso tempo. Pura denúncia – acusam. Talvez. Falta mudar, e antes mesmo da mudança, necessitam-se de novas ideias/narrativas que resgatem o cinismo ao redor. Sim, o problema é intelectual. Mas até essa longa mudança – que não se antevê facilmente concebida e concretizável/concretizada -, não se pode pedir que se disfarce a realidade.
A propósito do filme, achei curioso um jornalista espanhol ter investigado se existia, ou existiu, aristocracia que ‘alugasse’ a sua solicitada presença (em festas da socialite). A conclusão, pese o divertido que acrescentava ao humano, no entanto, foi pela negativa – não se encontrou demonstração para a história que surge, também, no filme. Um outro cronista recusou a grandeloquência, o tratamento do “absoluto”, em alguns dos filmes que vão passando, só o pequenino – e dele para o ‘grande’ – tendo estatura humana (o resto seria desmesurado). Longe de ser contemporâneo o tema no cinema, ela convoca, contudo, essa carência de uma plenitude que corresponde às interrogações mais densas das quais, felizmente, o cinema, embora mais raramente do que soía, vai dando registo.


"Reestruturação da dívida"


Se o vocábulo selfie teve, no último ano, um acréscimo de uso de 17000%, segundo as melhores fontes, foi, todavia, a expressão "reestruturar a dívida" a concitar a exegése dos peritos. A palavra (reestruturação"), pura maldição, era mina escondida que prometia fazer levar pelos ares quem a ela recorresse. Para futuras discussões, eis a definição do Oxford Dictionary of Finance and Banking (na tradução de João Cravinho, no seu recente livro A dívida pública portuguesa, p.12): 

"reestruturação da dívida": "ajustamento de uma dívida, ou como resultado de uma acção legal, ou por acordo entre as partes interessadas para dar ao devedor uma relação (arrangement) mais favorável para com os credores, com a finalidade de cumprir as suas obrigações financeiras"


Sobre a penúltima AM de Vila Real


Contra a demagogia.


Depois vem Galvão Teles (1962-68), um ministro muito mais conservador, que introduz a Telescola para generalizar o 6º ano de escolaridade. Uma solução que sendo moderna do ponto de vista tecnológico, é muito conservadora do ponto de vista da organização social, porque visa impedir que os meninos, e sobretudo as meninas, saiam das suas aldeias e venham para as sedes de distrito estudar. É ainda a escola em proximidade, ao lado da casa, muito local, e pouco afectada pelos princípios da abertura.

Maria de Lurdes Rodrigues, entrevistada por Carolina Freitas, JL nº1143, 23 de Julho a 5 de Agosto de 2014, JL Educação, p.1.


O interior das coisas (III)


Não há, na verdade, qualquer tensão na ciência em relação àquilo que fica fora dela, pois fora dela não há nenhuma coisa que a transcenda, o exterior da ciência é impensável, irrepresentável, pela própria ciência. Nessa medida, não se podem estabelecer limites éticos à ciência ou aparecerão sempre estranhos ao universo dos seus métodos, operações e objectivos. A matemática não pode conduzir à metafísica (nem tem necessidade disso) (…) A matemática nunca nos revelará o ser interior das coisas, que lhe é heterogéneo, mas também não é isso que ela pretende. Ao invés, a metafísica instituída pela própria natureza da razão não é um resultado de uma escolha arbitrária nem de um crescimento do progresso da experiência. O anseio da razão de chegar à plenitude, de ir até ao ponto de contacto do espaço cheio da experiência com o espaço vazio do qual nada podemos saber, conduz-nos aos limites e àquilo que os exorbita (as ideias transcendentais), e isso implica-nos até à medula.


Maria Filomena Molder, As nuvens e o vaso sagrado, p.124.


Da Sé de Vila Real (V)






Na descrição do padre, ex-presidente da Comissão de Arte Sacra da Diocese de Vila Real e ex-director do museu de Arqueologia e Numismática da mesma cidade, João Parente, a actual Sé de Vila Real é um edifício de conjunto românico[1], com pormenores góticos[2] (alguns a classificam, também, de «gótico arcaizante» ou «românico modernizado»[3]), apresentando uma fachada, típica das igrejas portuguesas suas contemporâneas, com três naves (de desigual altura) e dois robustos contrafortes. A apresentação, do mesmo monumento, feita pelo Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), refere-o como “notável edifício gótico (…) devedor ainda da tipologia consagrada da arquitectura mendicante, tal como se conformara no século XIII[4], sendo nele, de resto, possível divisar uma cobertura simples de madeira e uma austeridade decorativa.
No entendimento de Mário Tavares Chicó, o século XV merece reapreciação e revalorização, no campo artístico – em particular, no panorama das artes plásticas:

em Portugal, a importância do séc.XV no campo das artes plásticas não tem sido devidamente posta em evidência. É um século complexo e deficientemente estudado, em que a arte tradicional não desaparece e consegue resistir à forte influência das correntes inovadoras[5].

Efectivamente, de norte a sul do país, “a febre de construção foi intensa durante toda esta época de afirmação da nacionalidade que foi o início do século XV e mesmo os últimos da centúria anterior”[6], pelo que a reavaliação aludida é mister imperativo.
Na verdade, se a dinastia de Avis (1385-1580) corresponderia ao período mais brilhante do gótico em Portugal[7], sucede que a Sé de Vila Real, no dizer de Pedro Dias,

é o exemplo mais eloquente da manutenção de arqueísmos construtivos durante todo o período da dinastia de Avis. É um templo pesado, agarrado ao solo, de grossas paredes e com raras aberturas, o que torna o interior penumbroso, nada parecido com os grandemente iluminados das regiões do Sul do país[8]

Se, neste monumento, encontramos a persistência do esquema nortenho que remonta ao início do século XIII, com peso excessivo das estruturas e rudeza de elementos decorativos, todavia, a registada ausência de intensa luminosidade – “posto que as frestas das naves laterais tenham sido substituídas por janelas mais amplas, em época recente. As da central, porém, são antigas, estreitas e de um único lume”[9]-, é geradora, em uma leitura de um prisma diverso, de “um ambiente propício ao recolhimento, lembrando os velhos templos undecentistas”[10], “predispõe à solenidade litúrgica, à oração comunitária e à individual”[11]. Seja como for, a colocação, recente, de vitrais, teve como escopo uma “inundação de luz e de alegria”[12]no templo em causa.
Em dois nichos da catedral, podemos observar imagens de São Francisco e São Domingos, esculpidas na época. A porta principal é formada por três arcos concêntricos, distinguindo-se do corpo avançado. Ao alto, um óculo (sem ornamentação até aos começos do séc.XXI). A meio da fachada, modilhões sustentaram um alpendre. No sub-beiral corre outra cacharroada, à maneira românica. Há duas portas laterais: uma, a sul, dando para o adro; outra, a norte, dando para o convento. O topo sul do transepto é iluminado por rosácea flamejante[13].  
A planta é a usual em templos da sua categoria. Constituem-na três naves de três ramos, transepto saliente e uma só capela, a mor, transformada no século XVIII. A nave central compõe-se de quatro arcos ogivais, com três frestas. As naves colaterais, com suas frestas, são separadas do transepto por outros arcos de nascença inferior. Os pilares divisórios, de quatro colunas incluídas, têm as arestas cortadas por grandes chanfros côncavos, formando quadrado segundo as diagonais. No pilar que separa a nave do transepto, do lado da Epístola, existe cartela com a inscrição em carateres góticos: "ERA MIL IIII (quatrocentos) LI (cinquenta e um) III (três) D[E] FEVEREIRO SE FINOU / K[A]TERINA ALVAREZ M[U]LHER Q[UE] FOI D[E] ALV[AR]O I (?) / R[ODRIG]O E LEIXOU P[ER]A ESTA OBR[A] ? IIII (quatro) MIL R[EIS]". O túmulo da nave lateral do Evangelho tem na tampa a inscrição em carateres góticos minúsculos: "esta obra ma[n]dou fazer d[iog]o a[fons]o / e sua mulher bra[n]ca dy[a]z e jaz / seu filho pedro di[a]z, que d[e]us haja". Na arca, uma outra inscrição, gravada posteriormente, refere em capitais romanos com abreviaturas e letras inclusas: "DE JOAO TAVEIRA DE MAG[ALHÌES ?] E ERD[EIR]OS". Um dos túmulos da nave da Epístola tem a inscrição "A S. DE ISABEL DE MESQUITA, MULHER (OU MÃE) DE RUI DE NIZA, DE LORDELO" (5ª avó de Camilo Castelo Branco) e o outro "A DE FRANCISCO PEREIRA E HERDEIROS". No arcosólio do braço do transepto, do lado da Epístola, a arca tumular, que se encontrava mutilada antes da intervenção da DGEMN, apresenta na tampa as armas dos Pintos, num escudo nacional, de prata, com cinco crescentes de vermelho, postos em sautor[14].
Na folhagem e colocação dos rostos nos ângulos adivinha-se inspiração, buscada no Mosteiro da Batalha, presente nos capitéis. Impõe-se, não obstante, neste contexto, formular duas advertências críticas: a) em uma panorâmica geral, o edificado

respira um ar que tem muito pouco a ver com o gótico flamejante que, nessa altura, se fazia na Batalha e também em Tomar, Alcobaça, Santarém e noutras terras do Centro e do Sul. Ela está bem mais próxima, pela concepção espacial, pela iluminação e pela macicez geral, dos templos românicos do tipo de Paço de Sousa do que das Igrejas espaciais e abertas, luminosas, da antiga Scalabis ou da capital do Reino[15]

e b) se é certo que a decoração dos capitéis tenta seguir “os modelos praticados na Batalha, mais não consegue do que frustes resultados, sem dúvida motivados por imperícia dos canteiros que os executaram[16] – um deles, de resto, deixando o seu nome gravado, “Afonso” -, e, provavelmente ainda, em resultado da dificuldade de “domar esta rija pedra nortenha”[17]. A forma cúbica dos capitéis oferece, em uma primeira leitura, reminiscências românicas; sem embargo, estando ornamentados de folhagem, cachos de uvas e cabeças humanas (uma freira, um bispo lendo o Evangelho, um soldado coberto com o elmo de vizeira erguida), “manifestam, pela sua execução realista, um gótico já adiantado”[18] (aliás, “o século XV é um século de acentuado realismo na representação do mundo vegetal e da figura humana[19]). Na hermenêutica pericial referenciada por Correia Azevedo,

O que surpreende e encanta, porém, é o naturalismo duma viva intencionalidade que se expande nos capitéis modelados. Neles se lobrigam, através do caiaço, bustos, com perfis adoráveis e duma correcção magnífica, irrompendo de entre cortinados de folhagem; figuras como o sacerdote e o guerreiro, que resumem classes sociais, então, de preponderante supremacia; cenas colhidas em flagrante: o caçador de lança, o culto detrás da árvore, esperando o javardo insuspeito, e os vindimadores colhendo as uvas na vinha com o gesto de meiguice e carícia que as acompanha até às cestas das vindimadeiras…É certo que o desvio do módulo, o encobrimento e a ingenuidade se congregam nesta exibição plástica; mas ela é tão sentida, tão sincera e tão espontânea que constitui um documento fiel e precisamente interpretativo dum regionalismo medievo, insusceptível de melhor se fixar e traduzir. Eis o seu grande valor”[20].

Um mausoléu foi embutido na parede da nave do norte. Um cairel pende-lhe do arco quebrado, que se orna com motivos vegetalistas nas impostas. O tampo é angular. O conjunto descansa sobre quatro leões entremeados de silhares, também decorados com elementos fitomórficos. Na nave sul, há um outro arco sepulcral, em ogiva, preenchido com conopial abatido.
Sabemos que a cabeceira foi modificada e é possível perscrutar a existência, nela, de três capelas de eixos paralelos, não sendo de excluir a existência de uma só abside larga. As arcadas longitudinais são apontadas, de traçado simples, e os pilares têm quatro colunas adossadas, duas que se continuam nos ressaltos das arcadas e duas que ficaram sem utilidade, talvez à espera de arcos transversais, como nas Igrejas românicas do Baixo Minho, construídas no século XIII[21]. A frontaria é também arcaizante, com três corpos divididos por contrafortes, portal de arco apontado, com arquivoltas reentrantes sobre colunelos sem capitéis, mas só com impontas molduradas de formas arredondadas. Na sacristia, encontra-se uma pequena tábua de pintura quinhentista, da Escola Italiana, representando a Virgem[22].
No templo funcionavam quatro irmandades: “a de Nª Srª do Rosário, erecta em 1434 (…); a do Coração de Maria, que data dos fins de 1552 (…); a do Santíssimo Nome de Jesus (…); e a de S.Gonçalo, com estatutos aprovados em 1703 pelo arcebispo da Diocese[23].
A torre foi construída em 1742, e a capela-mor transformada em 1753 (já no Barroco). Desta última, é possível, ainda hoje, recolher-se a original documentação, com seus subscritores identificados, a precisa contratualização estabelecida, termos da remuneração e pormenores da “planta e apontamentos”, detalhes de segurança e respectivas responsabilidades dos signatários (e/ou suas instituições), no que concerne à execução da tribuna da capela-mor (em 1745), com o altar coberto de madeira, o remate de relevo inteiro e talha “bem saída e obrada” e onde não faltavam quatro frestas revestidas “à holandesa baixinha”[24].
Por cima do arco do presbitério, uma pequena estrela, de cinco pontas, por onde irrompem, na Sé, os primeiros raios do sol nascente em uma alusão ao Messias “que das alturas nos visita como o sol nascente” (Lc 1,78). Estrela que guiaria, ainda, os Magos a Belém e anunciaria o Messias ao povo de Israel no deserto (Num.24,17).
No retábulo do Presbitério, duas imagens clássicas: no andar de baixo, S.José com Maria e o Menino; no andar de cima, o tríptico pascal, como Crucifixo ao centro, e tendo de uma lado a tela da Deposição ou sepultura e do outro a da Ressurreição.
A Cátedra, com forma ogival, integra-se no estilo dos arcos da nave. O ambão é da mesma pedra e cor do altar, até do mesmo bloco como indica um veio interior do granito: assim, as duas mesas da Eucaristia, tanto da Palavra de Deus como do Corpo de Cristo, constituem como que um só acto[25]. O sacrário está colocado sobre uma coluna do mesmo granito do altar e do ambão: o mistério da Eucaristia prolonga-se na sagrada reserva eucarística. A dignidade do material utilizado – a porta é de cristal fundido – e as cores pascais sublinham que a presença de Jesus na Eucaristia é uma presença de Ressuscitado. Na parte norte, está o trono da Mãe do Verbo Incarnado, de modo que Mãe e Filho ficam frente a frente. O trono da Imaculada é constituído por um conjunto de blocos de mármore, rocha diferente do granito do altar, ambão e coluna do sacrário, pois a Senhora não pode ser colocada ao mesmo nível do Seu Filho. Porém, permanece a cor, pois ela faz parte do mesmo plano eterno da Encarnação do Verbo[26].

(cont.)

[1] J.A.F.ALMEIDA, Tesouros artísticos de Portugal, Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, 1976, p.665: “Românico: estilo de carácter monástico, foi difundido em Portugal, a partir do final do século XI, pelas ordens religiosas de S.Bento, de Cluny, de Cister e de Stº Agostinho e pelos povoadores e arquitectos franceses, galegos e asturianos. Caracteriza-se pelas estruturas simples e robustas, sublinhadas pela sóbria decoração dos portais e das janelas, dos cachorros das corrijas, e, sobretudo, dos capitéis, com uma profusa combinação de motivos geométricos, antropomórficos e fitométricos”.
[2] Idem, o.c., p.657: “Gótico: estilo que na Europa ocidental sucedeu ao românico e precedeu o Renascimento. Surgiu no século XII (Abadia de S.Dinis, em Paris) e durou até ao século XVI. Caracterizou-se pelo emprego da abóbada de cruzaria de ogivas, dos arcobotantes e dos contrafortes afastados da nave”.
[3] Cf.J.GIL, o.c., p.167.
[4] IPPAR, na introdução a João Vieira. Vitrais da Igreja de São Domingos. Sé de Vila Real, 2003, p.5.
[5] M.T.CHICÓ, A arquitectura gótica em Portugal”, Livros Horizonte, Lisboa, 1981, p.141.
[6] P.DIAS, o.c, p.78
[7] Cf.J.A.F.ALMEIDA, o.c., p.22.
[8] P.DIAS, o.c.,p.78.
[9] Idem, o.c., p.82.
[10] Idem, o.c., p.79.
[11] J.GIL, o.c., p.166.
[12] DOM J.GONÇALVES, Os vitrais da Sé de Vila Real. Antiga Igreja de São Domingos. Guia de Leitura, Diocese de Vila Real, 2005, p.23.
[13] J.PARENTE, o.c., p.62.
[14] Cf.I.SERENO, R.TEIXEIRA E P. NOÉ, Convento de São Domingos/ Catedral de Vila Real/ Sé de Vila Real/ Conservatório regional de música de Vila Real, in http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1116, consultado a 08/07/14.
[15] P.DIAS, o.c., p.81.
[16] Idem, o.c., p.82.
[17] J.GIL, o.c., p.166.
[18] J.C.AZEVEDO, o.c., p.121/122.
[19] M.CHICÓ, o.c., p.141.
[20] J.C.AZEVEDO, o.c., p.122/123.
[21] P.DIAS, o.c., p.82.
[22] Cf.J.A.F.ALMEIDA, o.c., p.580.
[23] J.C.AZEVEDO, o.c., p.120.
[24] Cf.N.ALVES, Elementos para o estudo da talha setecentista transmontana, in Estudos Transmontanos, Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Vila Real, nº1, 1983, p.145.
[25] Cf.DOM J.GONÇALVES, o.c., pp.34 e ss.
[26] Idem, p.52.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Identidades - pelo cinema




“Quem és tu?” é a pergunta que sendo colocada pela noviça, em experiência mundana, antes dos votos finais, à heterodoxa, provocadora tia Wanda Lebenstein, atravessa um filme marcante na indagação da identidade (e seus limites). Não, apenas, a identidade da Polónia – atravessada, simultaneamente, pelo catolicismo, pelo comunismo e pelo Holocausto, a meio do séc.XX -, mas, efectivamente, a identidade colocada à pele, em cada personagem desta obra, em cada um de nós. A dimensão dicotómica está, é certo, muito presente na película, não apenas entre grandes narrativas que procuram (concorrem para) conquistar os espíritos, como nos dilemas maiores que atravessam cada alma (particular). Anna ou Ida, católica ou judia, no século ou no mosteiro? Mas, não menos interessante, a antítese de postura entre Anna e Wanda não pode deixar de conservar um percurso irónico: Anna (Agata Trzebuchowska, uma estreante actriz não profissional, em grande desempenho, pelos vistos incursão sem repetição pelo mundo do cinema), ao fim e ao cabo, acaba por aceitar o repto “tens que provar” [o mundo, o sensível, eros] da tia e esta última, aparentemente muito segura de si e da sua abordagem puramente imanente, termina suicidando-se (numa cena impressionante, com Mozart como banda sonora). Quando em presença do flirt com o namorado encontrado na experimentação do ‘século’ – cá está, ‘só saindo de si alguém dá lume’ -, Anna, que assumira, dias antes não estar ainda preparada para o ‘sim’ definitivo à causa que assumira, pergunta, sucessivamente: “E depois? E depois? E depois?”. As respostas, sempre provisórias, do (eventual) futuro marido/companheiro, numa leitura à la H.Kung, seriam sempre pequenos sentidos, para quem se habituara a perscrutar e buscar um grande sentido na vida – afinal, o hábito sempre permanece e a transformação não é total, mesmo quando posta à prova…mas tal só se sabe prova feita – e a saída, muito determinada e consciente, porta fora, no romper da aurora, surge com naturalidade.
Belíssimo filme, tempo exacto, preto e branco de contrastes numa Polónia que, na década de 60 do século passado já ouvia John Coltrane, mesmo para desgosto do partido, e se afogava no álcool que não permitia, contudo, esquecer os mortos judeus enterrados algures, mortos por quem viria a ficar com as suas casas, como séculos antes em Portugal, quando havia denúncias e inquisição, tempo perturbador que, muito embora o seu realizador, Paweł Pawlikowski, não queira como “retrato sociológico do seu país”, fica, sem dúvida, como material com o qual, como Hobsbawm ou Tony Judt demonstraram, a historiografia não deixara de contar (como antes sucedera, por exemplo, para ficarmos pela Polónia, com os filmes de Andre Wajda).

Interlúdio


Gosto dos Led Zeppelin. São de uma riqueza musical extraordinária, de uma invenção e imaginação que só encontro nos maiores compositores contemporâneos.

Joana Carneiro, JL, nº1143, de 23 de Julho a 5 de Agosto de 2004, p.17


Da Sé de Vila Real (IV)





O mosteiro de S.Domingos, o mais antigo fundado na urbe transmontana (secundado pelos mosteiros de S.Francisco e, o mais recente, de Stª Clara), que teve em fei Vasco de Guimarães o seu prior, extingue-se em 1834 – para a história ficará o decreto do Ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar, assinado a 30 de Maio desse ano, com a ordem da extinção/expulsão das ordens religiosas do/no nosso país, acompanhadas de nacionalização dos bens monásticos[1]; em realidade, com um acervo de medidas estruturais, desde a retirada do poder de julgar às Câmaras Municipais (que funcionavam como tribunais de 1ª instância), passando pela extinção dos dízimos, até à anulação dos morgadios com rendimento líquido inferior a 200 000 réis, tomadas no início da década de 30, do séc.XIX, D.Pedro colocou um ponto final no (em séculos de) “Antigo Regime” e, por entre o fervor ou radicalismo da mudança, o monarca romperia as relações diplomáticas com o Vaticano. Como o caso francês de 1789 ilustrara de modo eloquente, a revolução pode devorar os seus filhos. Se a 27 de Maio, uma amnistia aos miguelistas resultou em exaltação dos liberais e vaia ao rei no S.Carlos, a abolição das ordens religiosas, três dias depois, “acalmou os ânimos”[2]:

em Lisboa, frades e monges, incluindo os «velhos» e «doentes», foram postos fora dos conventos em «poucas horas», e condenados a «andar errantes pelas ruas da cidade, pelas praças e pelos bosques e charnecas, sem saber onde poderiam achar asilo». Só as freiras puderam continuar nos seus conventos, fechados a noviças e destinados à extinção com a morte das últimas moradoras[3]

A cisão com o Vaticano só finaria em 1841, mas a força do clero não seria a mesma: os frades, “talvez 40% do clero, desapareceram. Os padres, privados do seu principal sustento (o dízimo) e dependentes da «côngrua» paga pelos paroquianos mas fixada pelo Governo, diminuíram de 24 mil para 10 mil entre 1820 a 1840”[4]; os sacerdotes que são deputados caem de 19 em 1821 para 5 em 1848; o Governo tudo tutela, incluindo Misericórdias, irmandades, formação e carreira do clero; passa, na prática, como víramos suceder em França, a existir um conjunto de padres nomeados pelo Governo liberal e outros que permanecem obedientes a Roma-, sendo o convento ocupado por uma unidade militar (o batalhão de caçadores nº3), servindo, pois, a partir de então, de quartel, e a sua Igreja, “violentamente separada”[5] deste, é cedida ao pároco de S.Pedro. Todavia, a 11 de Junho de 1835, é (esta) entregue pelo prefeito local ao reitor de S.Dinis para sede da paróquia[6].
Depois de, em 1837, um incêndio – que, de acordo com Correia de Azevedo, se suspeitava resultar de fogo posto, por um tal major Paínço, com vista a “saldar as contas com a caixa do mesmo batalhão”[7]; ou, na redacção de Júlio Gil, atribui-se responsabilidades a um “oficial encarregado da administração do regimento”, de “forma a fazer desaparecer escritos comprometedores para ele”[8] -, iniciado no edifício do mosteiro, ter praticamente destruído a Igreja - apenas escapando à destruição a capela-mor por ser abóbada -, esta seria restaurada pelos vilarealenses, com donativos particulares e comparticipações oficiais[9], passando, após a criação da Diocese de Vila Real, em 1922,  pelo Papa Pio XI, em 20 de Abril desse ano, através da bula Apostolica Praedecessorum Nostrorum, a Igreja catedral.



[1] Cf.J.C.AZEVEDO, Vila Real de Trás-os-Montes, Tipografia do Carvalhido, Porto, 1970, p.124.
[2] R.RAMOS, A revolução liberal, in R. RAMOS (coord.), N.G.MONTEIRO e B.V. SOUSA, História de Portugal, Volume VI, Esfera dos Livros/Expresso, 2012, p.8.
[3] Ibidem.
[4] Idem, o.c., pp.8-9.
[5] DOM J.GONÇALVES, Os vitrais da Sé de Vila Real. Antiga Igreja de São Domingos. Guia de Leitura, Diocese de Vila Real, 2005, p.15.
[6] J.C.AZEVEDO, o.c., p.120.
[7] Ibidem.
[8] J.GIL, o.c., p.166.
[9] J.C.AZEVEDO, o.c., p.120.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Meia geração para mudar


Samuel SILVA Entrevista Mohan MUNASINGHE, “Os ricos do mundo estão a consumir mais do que um planeta Terra”, Público, 14. 07. 2014, 26-27.

Mohan Munasinghe era o vice-presidente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU quando este organismo partilhou o Prémio Nobel da Paz de 2007 com o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore.


Foi convidado do II Congresso Mundial de História do Ambiente, que termina hoje em Guimarães, e alertou para os paralelismos entre a conjuntura global actual e as situações críticas por que passaram as grandes civilizações da história antes do seu desaparecimento. Natural do Sri Lanka, Mohan Munasinghe é físico de formação.
Veio a Portugal para uma conferência sobre o papel da História num futuro sustentável.

O que podemos aprender com o passado?
Hoje, os problemas sentem-se a uma escala global, quando antes estavam talvez a uma escala de um país ou de uma cidade. Os problemas que enfrentamos são mais complexos, mas a História é importante para guiar o nosso caminho para um desenvolvimento sustentável. Se olharmos para a ascensão e queda das civilizações no passado, há sempre três factores críticos: a forma como a sociedade está organizada, a forma como a prosperidade é criada e partilhada e o ambiente que suporta todas as actividades sociais e económicas. Chamo-lhe o triângulo do desenvolvimento sustentável. As sociedades que floresceram são capazes de usar os recursos eficientemente e de uma forma sustentável e, habitualmente, entram em colapso por causa do consumo e do uso excessivo de um ou mais recursos.

E nós estamos num momento de consumo excessivo?
Do ponto de vista dos recursos naturais, estamos, enquanto espécie humana, a consumir excessivamente, já não a um nível regional, mas globalmente. O segundo factor desta equação é social: a ascensão das civilizações acontece em momentos de maior equidade e esforço partilhado na sua construção. O declínio começa habitualmente com o crescimento das iniquidades, com as elites a desfrutarem de um nível de vida muito mais alto do que o das massas. Hoje há paralelos preocupantes e as iniquidades estão a crescer.

Essas desigualdades reflectem-se no consumo de recursos?
Estamos a usar uma vez e meia a capacidade do planeta Terra. E em breve será duas vezes. Cerca de 85% dos recursos são consumidos pelos 20% mais ricos da população mundial. O resto dos 80% das pessoas está a consumir uma percentagem muito reduzida. Isto significa que os ricos do mundo estão a consumir mais do que um planeta Terra. A questão que se coloca é: onde estão os recursos para alimentar os pobres?

Esta é uma aprendizagem que os governos estejam prontos para fazer?
A minha experiência com governos é muito decepcionante. Provavelmente, não poderemos esperar que a mudança venha dos líderes. Em todas as grandes conferências mundiais, encontro após encontro, os líderes prometem isto e aquilo, mas nada está a ser feito, na prática. No entanto, se conseguirmos uma coligação da sociedade civil, dos líderes de comunidade, do sector empresarial, trabalhando com os governos, talvez possamos beneficiar das lições da História e colocarmo-nos no caminho da sustentabilidade.

Na Europa, a crise económica parece ter deixado estas questões num segundo plano. Esperava que isso acontecesse?
O papel da Europa é muito importante, porque esta desenvolveu um modelo policêntrico, que considero ser fundamental adoptar para resolver os desequilíbrios que o mundo enfrenta. Na União Europeia, existem grandes países como Alemanha, França e Reino Unido, mas há espaço para todos terem uma voz. A Europa pode ser a força mediadora entre os Estados Unidos e os BRIC [Brasil, Rússia, Índia e China], de modo a fazer surgir um sistema político sustentável, que o seja também em termos ambientais, sociais e económicos.

A Europa ainda é policêntrica depois do que vimos acontecer durante a crise?
O que a crise financeira nos tem mostrado é que uma pequena plutocracia — os poderes financeiros — seguiu más políticas e ficou à espera de que os contribuintes a resgatasse, o que tornou alguns países, como Portugal, Espanha e Grécia, economicamente frágeis. Mas em termos nacionais e políticos, a Europa é policêntrica, o que existe é uma concentração do poder pelas elites financeiras. Desse ponto de vista, a União Europeia está numa situação muito melhor do que os EUA.

Que papel pode um país pequeno como Portugal desempenhar?
Pode insistir nos seus direitos, não aceitar ser atacado pelos países de maior dimensão. Com a história e cultura que tem, com grande respeito pelo ambiente, pode ser restaurada uma economia saudável. Através do exemplo, com o contributo das universidades e de outras organizações, Portugal pode demonstrar ao mundo o que pode ser um caminho mais sustentável para o futuro.

Esteve na Cimeira de 1992 no Rio e na Rio+20 de 2012, que foi vista por muitos especialistas como uma oportunidade perdida. O que mudou no mundo nos últimos 20 anos que possa explicar os resultados limitados desta última conferência?
Antes disso, tinha participado na conferência de Estocolmo, em 1972, e esse era um tempo de grande esperança. A preocupação com o ambiente e a sustentabilidade estava a crescer e, entre 1972 e 1992, havia um caminho ascendente de esperança. Por isso, em 1992 tivemos a Agenda 21 e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas. Mas, desde então, as pessoas começaram a ir no caminho contrário. No início do século XXI, surgem os Objectivos de Desenvolvimentos do Milénio, que eram muito menos ambiciosos do que o que traçámos em 1992. E mesmo esses oito objectivos eram muito limitados e não foram atingidos. Ou seja, reduzimos o alvo e mesmo assim não estamos a atingi-lo. O Rio+20 devia ter respondido a isto, mas só conseguimos que toda gente reconhecesse quais eram os problemas.

Depois faltaram as acções?
Os líderes que conseguiram comprometer-se com acções falharam de forma miserável. Temos uma lista de problemas, uma lista de potenciais soluções, mas as acções foram diferidas. Agora, fala-se na Agenda para o Desenvolvimento pós-2015, que é suposto produzir um plano de acção, mas é mais uma vez uma lista muito limitada.

O mundo vai precisar de uma nova grande conferência sobre esta matéria?
Neste momento, uma nova conferência não trará grande ajuda, porque atingimos um estádio de fadiga, particularmente entre os líderes mundiais. Defendo algo diferente: dar poder às pessoas. Dizer-lhes: quando sair desta sala, desligue a luz, plante uma árvore, coma menos carne. Toda a gente pode fazer alguma coisa. Não temos de esperar que o primeiro-ministro ou o Presidente nos digam o que fazer.

Propõe que se mude a escala de actuação?
Exactamente, passar para o nível intermédio de governação. Para os líderes, os problemas são demasiado grandes para assumirem o risco, mas a nível intermédio, estamos mais próximos dos problemas. E é aqui que temos de actuar.

Isso será suficiente?
Estamos no extremo de um precipício: podemos ou afastar-nos e sobreviver ou cair pelo precipício. Para não cairmos no precipício, temos de trabalhar depressa. E não estou certo de que a minha proposta venha a dar resultados suficientemente rápidos.

Passaram sete anos desde o Prémio Nobel da Paz. Sente que o efeito do prémio se perdeu?
O prémio dá-nos uma plataforma, mas tem um ciclo de vida muito curto. Pessoalmente, não dependo tanto dele, porque já tinha uma voz antes do prémio, mas o Nobel ajudou a incrementar o meu perfil a nível global.
Em termos mediáticos, foi bom ou mau o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) das Nações Unidas partilhar o prémio com Al Gore [ex-vice- presidente dos EUA]?
Penso que foi muito bom. O que foi escrito na altura pela Academia Sueca é que o prémio foi entregue pela identificação de factos científicos e disseminação. Eu ajudei com a parte científica, a contribuição de Al Gore foi mais a disseminação. Ambas são importantes.

Criou o Instituto Munasinghe para o Desenvolvimento, no Sri Lanka, em 2011. Com que objectivo?
Somos um instituto muito pequeno, mas temos três áreas de acção: Damos bolsas a estudantes para estudos em áreas relacionadas como a sustentabilidade; temos programas de formação para o público em geral em vários países; e temos alguns trabalhos de investigação. Os três estão muito centrados em áreas como agricultura, energia ou recursos hídricos.

Que papel é que a educação pode desempenhar neste caminho para uma sociedade mais sustentável?
As universidades estão a formar os líderes do futuro e o problema hoje é que a sociedade tem os valores errados. Devido ao progresso científico, sentimos que podemos ignorar muitos dos constrangimentos que se nos colocam enquanto sociedade. Precisamos de um novo sistema de valores para a sustentabilidade, que tem de ser ensinado na universidade à nova geração de líderes. Mas também precisamos que isto chegue às escolas, desde crianças. Os exemplos que temos para as crianças verem são todos maus: a nossa geração ensinou-os a pedir emprestado, a enganar, a ter sucesso a qualquer custo.

Precisamos de uma geração para essa mudança?
Vamos precisar pelo menos de meia geração. O único aspecto positivo que encontro é que os mais jovens perceberam que estão a herdar um mundo arriscado, eles sabem que têm de fazer algumas mudanças muito depressa.

Determinismo (sociológico)




Para o realizador, Abdellatif Kechiche, o filme como que tem o nó górdio no momento em que Ádele conhece os amigos de Emma: a conexão, a ligação profunda, entre o “íntimo” e o “social” estaria aí presente: o amor perde-se, extravia-se, porque chocou de frente com o “espaço de pertença”, de cada uma das personagens. E contra esse lugar, nada há a fazer, ele determina-nos e não saímos dele. Nem o amor o resgataria. Para quem não seja determinista, e acredite, ainda, na liberdade, mesmo que com diversas condicionantes, a tese surge manifestamente exagerada. E, neste blog, já se escreveu criticamente, sobre o conceito de habitus (Bordieu) – ainda que, nele, se recolham elementos a considerar seriamente na explicação de comportamentos, gostos, opções. Mas fora do hábito, ainda há monge.

Eu, robot




Quem educou a minha geração ainda pensou muito em termos de emprego para uma vida – modelo que viveu. Na última década, o mantra foi “o emprego para toda a vida morreu”. Havendo quem pense que não estamos perante um facto e que a asserção é (puramente) ideológica, e que, portanto, tratá-la como um facto é já tê-la assimilado, mesmo que involuntariamente, todavia, enquanto as regras do jogo político, normas de economia política, conformação das leis a uma escala internacional for a que é, a mudança, reiterada, de emprego tende a surgir ‘habitualmente’.
O tema da substituição de muitos empregos pela robótica, um outro paradigma que pode começar a impor-se. No 60 minutos (CBS) desta semana, dois professores do MIT mostravam como o crescimento económico, nos EUA, está a ser maior do que nos níveis anteriores à recessão, mas não se tem traduzido em aumento da empregabilidade (significativo). Tal sucede, segundo os dois académicos, em boa medida, devido ao avanço da robótica (e à diminuição dos custos salariais com ele obtido, nas empresas). O programa ilustra, com reportagem em algumas fábricas, esta realidade. Os professores asseguram que em duas ou três gerações esta situação adquirirá contornos massivos. A tecnologia sempre destruiu e criou emprego, mas, desta vez, a primeira das tendências parece imperar. “E o que farão os humanos, nessa altura?”, questiona o pivot do programa, na pergunta do milhão de dólares.
Reconfiguração das relações pessoais, de sentidos na existência, mas também debate político (já hoje presente nas discussões e propostas relativamente à fiscalidade relacionada com o emprego). Retomando o início do post, desafio, ainda, a uma educação que consiga preparar para esse tempo (o debate competências/conhecimentos não deixa de subjazer). Entre outras fontes/ferramentas, a ficção científica, nomeadamente a cinematográfica, pode dar asas à imaginação, no lobrigar de mundos outros (o programa que passa na sic notícias sugeriu 2001 Odisseia no Espaço).